“A Batalha de Montes Claros. Perspectiva de um Engenheiro Militar”, de José Paulo Berger

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O mais recente estudo sobre Montes Claros, da autoria do Coronel de Engenharia José Paulo Berger, é uma excelente análise interpretativa sobre a decisiva batalha da Guerra da Restauração. Assente numa minuciosa investigação do terreno e das suas características, trata-se de um trabalho inovador, cuidadosamente pesquisado e muitíssimo bem escrito, que vem enriquecer a historiografia militar portuguesa. A não perder!

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350 anos da batalha de Montes Claros (17 de Junho de 1665)

Passam hoje 350 anos sobre uma das mais importantes batalhas da Guerra da Restauração. O exército português, comandado por D. António Luís de Meneses (Conde de Cantanhede e Marquês de Marialva) e pelo Conde de Schomberg. compreendendo contingentes ingleses e franceses, derrotou nas proximidades de Vila Viçosa o exército espanhol comandado pelo Marquês de Caracena. Não foi uma batalha decisiva no imediato, mas contribuiu para apressar o final de um longo conflito que opunha as duas Coroas peninsulares.

Em breve será construído um Centro de Interpretação da Batalha de Montes Claros. A seu tempo serão aqui dadas mais informações.

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Montes Claros revisitado – mais algumas fotos do campo de batalha na actualidade

Imagens do campo de batalha de Montes Claros, obtidas a partir do monte Mouro, à esquerda do dispositivo português formado em batalha. Nesta primeira foto, no lado direito da mesma e assinalado com um X, é visível o Convento da Luz, situado à retaguarda do exército português. Também assinalada na foto abaixo se encontra a elevação que foi ocupada pelos terços da vanguarda do exército, sobre a ala esquerda. A seta indica a direcção do dispositivo, de frente para o inimigo.

IMG_8679Nesta segunda foto, a partir do mesmo local da anterior, indica-se com a seta a vermelho o eixo de aproximação a Vila Viçosa inicialmente pretendido pelo Marquês de Marialva e pelo Conde de Schomberg, comandantes do exército português. Contudo, o surgimento do exército inimigo (cuja progressão está indicada a amarelo), que até então marchara a coberto da serra da Vigária, obrigou à alteração do plano inicial e à rápida disposição do exército em batalha.

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Fotos do autor.

Périplo por um campo de batalha – Montes Claros, 17 de Junho de 1665 (8ª e última parte)

(Q)Foto Q (acima) – Local onde se formaram as linhas da cavalaria portuguesa, na ala direita do dispositivo português. O caminho que se vê na fotografia passa pelo local onde provavelmente estariam formados os batalhões da terceira linha. Ao fundo é reconhecível a zona onde o batalhão do extremo da primeira linha ficou formado:

No lado direito em o fim da várzea, onde a serra de Ossa tem princípio por aquela parte, se assinalou posto ao primeiro batalhão de cavalaria, e era o terreno que corria para a mão direita tão embaraçado de sanjas e valados, que ficava a cavalaria segura de ser atacada por aquele flanco; porém, alterada a forma, ocupou inutilmente este terreno. Deste sítio para o lado esquerdo continuava a campanha rasa (…). (Ericeira, 1946, IV, pg. 294)

(R)Foto Q (acima) – Na retaguarda das linhas de infantaria do exército português, sensivelmente na zona onde ficou posicionada a reserva. O terreno em frente e para a direita desta foto foi muito disputado e terá sido aqui que se jogou a fase decisiva da batalha, quando a sorte das armas podia ainda pender para qualquer dos lados e o exército espanhol parecia em condições de derrotar o português.

(…) [Os espanhóis] investiram valorosamente o corpo da infantaria e cavalaria [portuguesa] que lhes ficava oposta e, rompendo-o, chegaram até à vanguarda da segunda linha da infantaria e da terceira da cavalaria. Acudiu Dinis de Melo com grande prontidão e valor ao remédio deste dano, reforçando a peleja com novos batalhões, sem perder terreno nem mudar forma. A mesma constância tiveram os terços de Tristão da Cunha, Francisco da Silva e João Furtado; porém, ainda que repetiram incessantes cargas [tiros], entraram mais de mil cavalos pelo claro dos terços de Tristão da Cunha e Francisco da Silva, onde estava o general da artilharia [D. Luís de Meneses] e o Conde de São João e, atropelando algumas mangas da guarnição do lado direito do terço de Francisco da Silva, deixaram ferido ao mestre de campo e mortos trinta oficiais e soldados. (…)

O Conde de Schomberg, vendo que nesta parte era mais vigoroso o conflito, acudiu a ela com tão perigosa resolução, (…) que lhe foi preciso romper pelos batalhões inimigos para chegar ao posto onde estava o Marquês de Marialva, (…) socorrido dos seus três valorosos filhos com seus batalhões, do Conde de Rosan com a sua companhia e do Conde de Maré com o seu regimento (…). Os inimigos, perplexos na resolução que deviam tomar, intentaram romper os batalhões a que assistia Pedro César [de Meneses], Francisco de Távora e Bernardino de Távora; porém, achando-os constantes e impenetráveis, voltaram, perdida a resolução e mortos muitos oficiais e soldados, pela mesma parte por onde haviam investido, entendendo que poderiam romper pela retaguarda os três terços que primeiro encontrararm. Porém, desvaneceu-lhes esta suposição o Conde de São João e o general da artilharia, por haverem dado ordem às três últimas fileiras que voltassem as caras à retaguarda, calada a picaria e prevenidas as bocas de fogo, o que prontamente executaram, animados dos mestres de campos e oficiais, com tão feliz efeito que obrigaram aos inimigos a voltarem com furiosa torrente pelo mesmo claro por onde haviam investido (…). (Ericeira, 1946, IV, pgs. 300-302)

Termina aqui esta série de artigos sobre o campo de batalha de Montes Claros, tal como se encontra na actualidade. Procurou-se assim dissipar as dúvidas acerca do verdadeiro local onde a peleja teve lugar, tarefa sempre difícil, mas que uma análise cuidadosa das fontes permite estabelecer com alguma segurança.

Todas as fotos devem ser referenciadas pelas letras, usando o mapa apresentado na primeira parte desta série de artigos.

Périplo por um campo de batalha – Montes Claros, 17 de Junho de 1665 (7ª parte)

(O)Foto O (acima) – Na retaguarda do dispositivo português erguia-se uma outra elevação, muito semelhante à que foi ocupada, mais adiante, pelos terços e pela artilharia do exército do Marquês de Marialva e do Conde de Schomberg. Foi daqui que os dois generais, ainda com o exército português em marcha, descortinaram a chegada das primeiras tropas do Marquês de Caracena ao local onde se travaria a batalha.

Chegado o Conde de Schomberg à eminência que ocupava o Conde de São João e o general da artilharia, observaram que os batalhões da cavalaria inimiga sucessivamente vinham saindo à campanha, havendo estado cobertos com a serra da Vigaira, e se formavam com tanta pressa, que manifestamente descobriam a deliberação de pelejar, sendo o Conde de Schomberg o primeiro que teve por infalível este discurso. (Ericeira, 1946, IV, pg. 293)

PFoto P (acima) – A planície onde chocaram as cavalarias dos dois exércitos, sobre a ala direita do exército português, olhando na direcção do dispositivo espanhol.

Todas as fotos devem ser referenciadas pelas letras, usando o mapa apresentado na primeira parte desta série de artigos.

Périplo por um campo de batalha – Montes Claros, 17 de Junho de 1665 (6ª parte)

(L)Foto L (acima) – Ala esquerda do dispositivo espanhol. olhando para o flanco esquerdo. Estas posições eram ocupadas pela cavalaria. Realce-se a natureza plana do terreno, propício à manobra da cavalaria.

(M)Foto M (acima) – Zona de progressão da infantaria espanhola, olhando na direcção das linhas portuguesas. Terá sido nas imediações deste local que chocaram dois regimentos, um suíço e outro inglês, num combate renhido a golpe de pique, mas no qual também chegaram a ser arremessadas as pedras caídas dos muros que por ali havia. O regimento suíço, comandado pelo coronel Clofs, estava ao serviço da coroa espanhola. O inglês, sob o comando efectivo do tenente-coronel William Sheldon, era o regimento nominalmente comandado pelo próprio Conde de Schomberg. O tenente-coronel Sheldon perdeu a vida neste combate, tendo o seu regimento sofrido entre 40 e 50 mortos e cerca de 100 feridos. Entre os mortos contavam-se os capitães Jones, Heatfield e Rust e o tenente Boone, e entre os feridos os capitães Stansby, Roch, Turner e Langley, os tenentes Newsome, Sandys e Sherwood e os alferes (ensign, em inglês) Turner, Porridge e Emerson e também o cirurgião John Leadger. Conseguiram capturar 4 bandeiras ao inimigo (Relacion Verdadera…, pgs. 37-38, com cruzamento de referências para os nomes em Childs, John, The Army of Charles II, London, Routledge & Kegan Paul, 1976, appendix B, pgs. 238-239; contudo, Childs não fornece uma relação completa dos oficiais que serviram nos regimentos ingleses de 1662-68, faltando vários nomes que surgem em documentos portugueses).

V(N) reduzFoto N (acima) – vista a partir da primeira linha do dispositivo português, sobre a ala direita, onde estava disposta a maior parte da cavalaria e também dois terços de infantaria. É quase certo que os muros que se vêem sobre a direita sejam os que serviram de abrigo a duas peças de artilharia ligeira e a um destacamento de 100 mosqueteiros, adiantados para essa posição por ordem do general da artilharia D. Luís de Meneses antes do início da batalha. O destacamento era comandado pelo tenente-general da artilharia Marco Raposo Figueira e foi desalojado das posições pelos ferozes ataques do inimigo, depois de oferecer muita resistência. Os canhões assim perdidos viriam a ser recapturados pelos portugueses mais tarde, num contra-ataque comandado pelo sargento-mor de batalha Diogo Gomes de Figueiredo (Relacion Verdadera…, pg. 35).

Todas as fotos devem ser referenciadas pelas letras, usando o mapa apresentado na primeira parte desta série de artigos.

Périplo por um campo de batalha – Montes Claros, 17 de Junho de 1665 (5ª parte)

(I) Detail of the close terrainFoto I1 (acima) – Detalhe do terreno irregular em frente da primeira linha da infantaria portuguesa. Coube aos auxiliares talarem obstáculos como este, que obstruíam o campo de visão e de tiro, tarefa que custou a vida a muitos.

(I)Foto I2 (acima) – Do mesmo local, mas olhando para a direita do dispositivo português (esquerda do espanhol). É notório o suave declive do terreno, afundando na direcção onde se bateu a cavalaria dos dois exércitos e também parte da infantaria portuguesa.

(J)Foto J (acima) – Zona do terreno em frente à primeira linha do dispositivo português, olhando na direcção do mesmo, sensivelmente na zona de charneira entre os últimos terços da primeira linha portuguesa e os primeiros batalhões da cavalaria (havia ainda dois terços mais para o lado esquerdo da foto, interpolados entre os batalhões de cavalos). Esta terá sido a perspectiva que tiveram os cavaleiros da vanguarda do exército de Caracena, quando carregaram a cavalaria portuguesa e também os terços de Tristão da Cunha e de Francisco da Silva de Moura. Local onde a sorte da batalha esteve indecisa, após a cavalaria do exército espanhol ter rompido as primeiras linhas da congénere portuguesa e isolado momentaneamente os terços atrás referidos.

Segundo a Relacion Verdadera, no início da refrega o mestre de campo Francisco da Silva de Moura adiantou-se com o seu terço, aparentemente por querer demonstrar o seu valor, destacando-se da linha inicial do dispositivo (atitudes destas, em que a impetuosidade de um comandante punha em cheque a coesão do conjunto das forças, aconteciam com alguma frequência na época). E por isso foram rompidos os seus mosqueteiros; todavia, com admiração de todos se reformou duas vezes entre o furor do conflito, e a firmeza das picas [ou seja, dos piques] a nenhum dos que entraram deixou sair. (traduzido do castelhano original, pgs. 28-29)

(K)Foto K (acima) – Um pouco mais distante do local da foto anterior, mais próximo da zona de progressão da cavalaria e da infantaria espanhola, olhando para a ala esquerda do mesmo exército. Pequenos muros de pedra como o que se vê na imagem são referidos nas narrativas da batalha.

Todas as fotos devem ser referenciadas pelas letras, usando o mapa apresentado na primeira parte desta série de artigos.