1.º de Dezembro de 1640

Embora ultimamente não tenha sido tão assíduo a actualizar o blogue, por motivo do muito trabalho que não me deixa tempo disponível, venho agradecer mais uma vez a todos quantos têm tido a simpatia de visitar este cantinho e colaborado com artigos e muita informação. A todos, renovo o meu Muito Obrigado.

Imagem: Vista de Vila Viçosa a partir da muralha do castelo, com o Paço Ducal ao fundo.

Gil Vaz Lobo Freire – um retrato

 

Em 2012 publiquei aqui uma pequena biografia de Gil Vaz Lobo Freire. Hoje fica aqui um retrato do fidalgo, cuja reputação de homem violento transparece em diversas fontes.

Imagem: obtida em http://www.geni.com

Situação da fortaleza de Viana do Castelo em finais de 1659

Em 25 de Dezembro de 1659 recebeu o Conselho de Guerra uma carta de Lourenço de Amorim Pereira, governador da fortaleza de Viana do Minho (hoje, Viana do Castelo), dando conta da situação daquela fortificação.

Assim, segundo o governador, havia na guarnição 129 praças, em que entravam oficiais reformados, capelão, fábrica da igreja, corpo da guarda e “outras coisas” (não especificadas), com que vinham a ficar ao serviço pouco mais de 60 soldados. Destes, a terça parte eram galegos, “que por passarem do inimigo, se lhes mandou ali assentar praça”. O castelo necessitava, no mínimo, de 200 homens de guarnição, e para a eventualidade de um sítio não bastariam 800. Como em ocasiões anteriores não tinha sido dada solução a estes pedidos e como o inimigo dava então sinais de ir retomar a guerra por aquelas partes, voltou o governador da fortaleza a solicitar que a Rainha regente, D. Luísa de Gusmão, fosse servida mandar que, ao juiz de fora e ouvidor de Barcelos, fossem dados 100 homens, dos mais desobrigados; e ao corregedor e juiz daquela vila de Viana, 50. E que o vedor geral os lhes fornecesse armamento, vestuário e alimentação, como se fazia ao restante exército provincial. Mais acrescentava que havia naquela fortaleza um alferes vivo (ou seja, no activo) com 15 anos de serviço e muito capaz de toda a ocupação, e que daquela gente lhe fosse feita uma companhia.

O Conselho de Guerra deu o parecer que seria proveitoso ao serviço de Sua Majestade mandar despejar os galegos do castelo, e que em seu lugar fosse formada uma companhia das terras circunvizinhas, escrevendo-se para isso ao Visconde de Vila Nova de Cerveira.

Por decreto de 23 de Janeiro de 1660, mandou a Rainha Regente anda assim proceder.

Fonte: ANTT, CG, Consultas, 1660, mç. 20, consulta de 14 de Janeiro de 1660.

Imagem: Forte de Santiago da Barra de Viana, na actualidade (foto via Wikipédia).

O quadro do Marquês de Leganés sobre o combate de Alcaraviça (2 de Novembro de 1645)

Entre Março e Abril de 2019 foi aqui de novo tratado o combate de Alcaraviça, a propósito de um quadro que o Sr. José Maria Villanova-Rattazi Guillén, descendente do Marquês de Leganés, tem em sua posse e do qual gentilmente me havia cedido várias fotos para aqui publicar. O tempo tem sido escasso para manter actualizado o blog, devido a compromissos profissionais e particulares, mas não quis deixar terminar o mês de Setembro sem publicar uma foto do referido quadro já restaurado.

A ele voltaremos em breve, para abordarmos os pormenores do armamento e equipamento das forças em contenda. Desde já, renovo os meus agradecimentos ao Sr. José Maria Villanova-Rattazi Guillén.

Um recontro de cavalaria nas proximidades de Elvas – Cruz de Rui Gomes, 23 de Maio de 1647 (3.ª e última parte)

Continuação da transcrição do Manuscrito de Matheus Roiz:

Tanto que o meu tenente se viu ao ribeiro sem o inimigo, logo ficou mais contente, e passou o ribeiro livre. Mas apenas o passou, já o inimigo estava outra vez com ele, apertando-o grandemente até [à] atalaia, mas ele sempre pelejando, como dele se esperava, [a]té que se arrimou [à] atalaia. Mas naqueles apertos ainda o inimigo lhe captivou dois soldados e o furriel, que eram três, afora eu, que também me captivaram […].

[Q]uando eu ouvi o tiro que meu companheiro deu, a emboscada do inimigo já ia além, donde o inimigo estava, um tiro de mosquete sobre a partida do inimigo. Mas apenas ouvi o tiro, logo disse entre mim que meu companheiro dera com o inimigo e quis fazer alguma traça para me vir livrando dos dois cavalos do inimigo. Mas não me deram esse lugar, que assim como ouviram o tiro, logo presumiram que a sua emboscada era já fora, e assim se vieram a mim à rédea solta, e como eu não tinha ainda visto os mais castelhanos, fiz fugida para [a]  atalaia, pois era a mais breve retirada que tinha, mas assim como assumi correndo a um outeiro, vi toda a campanha cheia de castelhanos, que ainda andavam às voltas com a minha companhia, e se ia para lá metia-me nas suas mãos. Não tive outro remédio senão ir-me pela campanha abaixo, lá pelas vinhas da Terrinha, que é tudo campo como a palma da mão. E a tudo isto sempre apertando-me os dois cavalos grandemente, mas como o meu cavalo tinha já corrido muito, e correu ainda muito mais pelo decurso da carreira, chegaram os dois cavalos a mim e me captivaram, deixando-me em camisa, que só o que era meu [e] me tiraram valia de 20.000 réis, que me levaram um colete que me davam 10.000 [réis] por ele, e o demais tudo bom (1).

Finalmente me levaram a Badajoz com os mais e daí a 4 dias nos mandaram [de volta], e quando viemos nos mandou o Conde Martim Afonso de Melo dar munições de vestido e botas e couros a todos, porque estava bem informado de como todos fizeram bem sua obrigação, que o Conde daria tudo aos soldados que bem a fizessem. E quando vínhamos de Badajoz fomos primeiro a casa do meu capitão, que havia vindo de Lisboa com a patente da minha companhia de novo (2), e como ainda o não tínhamos visto fomos […] vê-lo. E logo fomos a falar com o Conde governador, e nos disse que se não estivera bem informado do nosso tenente o como procedemos, que nos não havia de dar nada. Viemo-nos cada um para seus alojamentos a tratar do que nos convinha, e ainda que vínhamos de Castela, vínhamos alegres.

(MMR, pgs. 166-168)

(1) O colete de couro (ou “coura”) era usualmente a única protecção dos cavaleiros de ambos os exércitos, como foi referido no artigo anterior. A ser verdade o que Mateus Rodrigues refere, tratar-se-ia de um colete de qualidade superior ao “colete de munição” distribuído aos soldados, provavelmente um despojo de guerra capturado a um oficial inimigo.

(2) A memória de Mateus Rodrigues prega-lhe mais uma rasteira aqui. D. João de Azevedo e Ataíde ainda não tinha caído em desgraça nesta altura (o combate da Atalaia da Terrinha que ditaria o seu afastamento ocorreria daí a poucos dias, a 5 de Junho), portanto não recebera “de novo” a patente da companhia. O comissário geral – a quem Mateus Rodrigues se refere por “meu capitão” num sentido mais lato de comandante da companhia – regressava de Coimbra, onde estivera sob licença entre Abril e Maio.

Imagem: Vista sobre a planície em direcção ao Caia e ao Guadiana, a partir do local onde se erguia a Atalaia da Terrinha. Toda a zona abrangida foi palco de muitos recontros entre as forças portuguesas e espanholas durante a Guerra da Restauração.

Um recontro de cavalaria nas proximidades de Elvas – Cruz de Rui Gomes, 23 de Maio de 1647 (2.ª parte)

Continuação da transcrição do Manuscrito de Matheus Roiz:

E assim como eu e o meu companheiro […] chegámos a um ribeiro que vai junto das casas quis passar além para ver o caminho que levava o inimigo. E o meu companheiro parece que adivinhava o que havia de ser, dizendo-me a mim que não fosse além, porquanto o inimigo tinha alguma emboscada nos carrascais. Mas como ele viu vir já muito perto a nossa companhia, logo passou comigo, porquanto a companhia não trazia mais batedores diante, fiando-se em nós ambos. E assim como fomos subindo ao outeiro da Cruz, vai ali a estrada de Badajoz e também vai um carreiro, que têm feito os cavalos por onde vão os soldados a descobrir os carrascais que estão ali detrás da Cruz. E quando eu e o soldado íamos já no alto da Cruz, já a minha companhia ia passando o ribeiro para além, e eu tomei a estrada adiante, seguindo a partida do inimigo. E o meu tenente ia mais adiante que a companhia um tiro de cravina [ou seja: carabina; cerca de 60 metros] e já ia chegando à Cruz quando ele ouve um tiro. E logo viu o inimigo vir pelo outeiro adiante como um raio, buscando a companhia. De modo que o soldado que ia comigo, que foi pelo carreiro a descobrir as coisas, assim como deu com o inimigo levava uma pistola na mão e tocando arma com ela lhe arrebentou. E assim como o inimigo o viu saiu como um raio das covas, que já estavam montados, pelo outeiro adiante, que eram 70 cavalos todos escolhidos das tropas de Badajoz, e todos armados de armas de corpo(*). E vinha um tenente por cabo deles, grande soldado, por nome Pedro Hernandez. E o soldado que deu neles veio fugindo quanto podia, e não podendo fugir para a companhia, se foi à estrada adiante, e não o seguiu o inimigo e livrou[-se].

De modo que assim que o nosso tenente ouviu o tiro, veio correndo à companhia que ia atrás dele um tiro de cravina, para a retirar [à] atalaia. Mas como a distância de onde o inimigo saiu aonde a companhia ia era mui pouca, deu logo o inimigo vista dela e se veio a ela à rédea solta, entendendo que a tinha nas unhas. E não há dúvida que tanto que o meu tenente viu o inimigo, já dava mui pouco pela nossa companhia, porquanto na passagem do ribeiro que ali estava se temia que o inimigo [a] apanhasse toda. Porém, sempre há um soslaio por onde as feridas não são mortais, de maneira que, como era em Maio, havia poucos dias chovido muito, e aquela terra por ali qualquer orvalho basta para que ele a atole muito, que é muito delgada e solta. E por à roda das casas donde haviam saído os castelhanos primeiros [sic] ao soldado, vai um caminho que é terra dura. E o inimigo não quis vir por ele, que por ele vinha a minha companhia, senão veio por detrás das casas, entendendo lhe tomava por ali grande volta. E não há dúvida que se não fora o atolar tanto, que toda a companhia leva[ria]. Mas tanto que entrou por ali se metiam os cavalos até à barriga na terra, que os não podiam tirar dela.

(MMR, pgs. 164-166) – CONTINUA NO PRÓXIMO ARTIGO

(*) Armas de corpo: couraça composta por peito e espaldar. Esta passagem – tal como outras semelhantes no manuscrito – é significativa quanto à não generalização da utilização de couraças pela cavalaria em operações de pilhagem ou nas contra-incursões. Só quando se previa um combate importante, ou quando o comandante de uma força impunha o seu uso por alguma razão, é que as armas de corpo eram usadas. Mais frequente era a casaca ou o colete de couro (a “coura”) constituírem a única protecção dos cavaleiros.

Imagem: Cena de combate de cavalaria, óleo de Pandolfo Reschi.