1.º de Dezembro de 1640

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Uma data marcante da História de Portugal, cuja celebração em dia feriado esteve proibida durante alguns anos, porque assim determinaram as forças então no poder. Mas a memória de um povo não se extingue por decreto e, anos depois, o bom senso voltou. Que assim permaneça.

Aproveito para renovar os agradecimentos a todos os que têm contribuído para a continuidade deste espaço de história militar.

“De como tivemos um choque com a cavalaria do inimigo em uma atalaia sua” – Outubro 1652 – parte 2

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Continuando um dos episódios recordados pelo soldado Mateus Rodrigues (Matheus Roiz). Um recontro de cavalaria nas proximidades de Badajoz, vertido para português (livre do chamado “acordo ortográfico”).

A cavalaria que levava o tenente-general consigo eram dezoito tropas, que constariam de 800 cavalos, com 700 que o comissário lá tinha faziam número de 1.500 cavalos. De modo que fomos marchando, e quando vinha já amanhecendo estávamos nós, os que iam com o tenente-general, dando de comer à cavalaria em o ribeiro de Fiolhais, que está junto do Alcornocal de Badajoz, e fazia conta o tenente-general de se ir logo marchando e por se onde havia ajustado com o comissário. De modo que, assim como o comissário viu que lhe tardava tanto o soldado que havia mandado a Elvas, mandou logo outro soldado à rédea solta aonde estava o tenente-general, que bem sabia aonde, a dar-lhe conta de como não tinha marchado dali por amor da falta do soldado, que visse Sua Senhoria o que havia de fazer. Cuidava o tenente-general que estava ele já em o posto, e assim quando vimos todos correndo o soldado, imaginávamos que era outra coisa, senão quando o soldado se descarta dizendo que ainda estaca o comissário em a ribeira de Olivença, que ainda eram boas três léguas do posto de onde ele se havia de ir a meter antes que amanhecesse.

Tal ficou o tenente-general com o aviso do comissário que imagino que o matara se o tivesse diante de si naquela hora. E assim, com toda a paixão e ira, disse ao soldado: “Vai e diz ao futre [termo ofensivo] e bêbado do comissário que logo vá com todos os diabos a fazer o que lhe está ordenado, que devia de se emborrachar esta noite, por isso fez tal parvoíce”. E assim que em o soldado indo com o aviso, ficou o tenente-general bufando e dizendo os diabos contra o comissário, porque via que já não se podia obrar nada, antes podia haver algum aviso de modo que o inimigo juntasse a sua cavalaria, como de feito assim foi. Que assim como o comissário chegou à ribeira de Olivença, foi sentido de uma partida do inimigo que ia tomar língua a Olivença. E apenas viu a cavalaria, se foi à rédea solta até Badajoz avisar seu governador, o qual mandou logo chamar muito depressa as seis companhias que estavam em Talavera, as quais vieram logo em improviso. De modo que assim como o soldado que o comissário havia mandado ao tenente-general lhe chegou e lhe deu a boa resposta que o tenente-general lhe mandava, mandou logo montar as tropas e marcha com elas como um desesperado e com grande passo, que como era de dia não podia fazer dilação senão ir de fio [ou seja, em coluna] endireitando com atalaia do inimigo, para que dali mandasse uma partida aos olivais. Que não há dúvida que ao inimigo sucedia um bem mau dia, o qual ele imaginava nos desse, porque sabia mui bem que para a cavalaria nossa, de que ele tinha aviso, que tinha bem com que lhe fazer dano, que fazia 20 tropas com as de Talavera, e as que o comissário levava eram 16, mas tinha o inimigo grande terço em ter tropas e ser à sua porta, que vai a dizer muito.

Assim como o inimigo avisou as tropas de Talavera, logo mandou montar as 14 tropas da praça e se armaram todos muito bem [NOTA: tal como acontecia entre a cavalaria portuguesa, só nas ocasiões em que se antevia um combate de cavalaria mais forte – e não uma mera escaramuça – é que as companhias iam buscar aos armazéns todo o equipamento defensivo disponível, como armas de corpo (couraça composta de peito e espaldar) e capacetes]. E se vieram pôr em os mesmos outeiros da atalaia aonde o nosso comissário levava o fio, que quando ele lá chegou, já o inimigo havia muito que lá estava.

Assim como o comissário abalou de onde estava, também o tenente-general foi logo marchando pela campanha acima nas suas costas. O comissário ia muito mais avançado do que nós e levava batedores ao largo, os quais deram vita das tropas de Talavera que se vinham incorporar com a sua cavalaria, que estava junto de sua atalaia. Tanto que os batedores viram as tropas souberam muito bem que eram as de Talavera, e vindo correndo dar aviso ao comissário, se até ali havia ido muito depressa, muito mais foi dali em diante com o sentido de ir derrotar aquelas tropas; e no mesmo tempo mandou um soldado pelo alcornocal dentro correndo com um aviso ao tenente-general, de como ia buscar as tropas de Talavera, que tinha aviso que elas vinham em marcha no fio da atalaia nova, que Sua Senhoria podia vir marchando a bom passo até a dar vista dos altos da atalaia, que até ali tudo eram grandes azinhais.

Assim como o comissário saiu dos matos à campanha rasa, logo as sentinelas que o inimigo tinha, assim na atalaia como em os altos, viram ir muito bem o comissário, e logo foram avisar o seu general da cavalaria, que estava ali mesmo com as tropas, o qual se formou muito bem e esteve esperando pelo comissário, que muito bem sabia já o que ele levava. Mas até este tempo nunca o inimigo soube da outra nossa cavalaria que o tenente-general levava atrás, porque tudo até ali são matos de grandes azinhais.

(continua)

 Fonte: Manuscrito de Matheus Roiz, pp. 303-305.

Imagem: Combate de cavalaria, óleo de Pieter Meulener, séc. XVII.

 

 

“De como tivemos um choque com a cavalaria do inimigo em uma atalaia sua” – Outubro 1652 – parte 1

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Há algum tempo que não era trazido aqui um dos episódios recordados, nas suas memórias, pelo soldado Mateus Rodrigues (Matheus Roiz). Um recontro de cavalaria nas proximidades de Badajoz é o tema deste e dos próximos artigos, vertido para português corrente (livre do chamado “acordo ortográfico”).

De quantas jornadas a nossa cavalaria deu e dará, não teve nunca, nem terá tão boa ocasião como foi esta, se se soubera o cabo que ia com ela aproveitar, mas como em semelhantes ocasiões há desmanchos e pouco governo, logo há perdições e desconcertos. Mas a verdade é que a culpa tem quem fia de uns estrangeiros, tanto que não ia com a cavalaria o nosso general André de Albuquerque, que estava doente, senão o tenente-general Achim de Tamericurt, que é francês, e o comissário [geral] Duquesne, que este é o que botou a perder um dos bons dias de honra e proveito que havia de ter a cavalaria de Portugal com a do inimigo, porquanto era vitória alcançada à sua porta, que ainda é mais crédito e honra. Mas por haver [ou seja, apesar de haver] tão grande desordem, ainda houve grande gosto da nossa parte e descrédito do inimigo.

 De modo como o nosso general da cavalaria esteve doente, ordenaram Dom João da Costa, governador das armas [do Alentejo], com o dito tenente-general uma jornada com toda a cavalaria para as partes de Badajoz, a ver se lhe podia armar, de modo que fizesse algum dano às tropas que estavam em Badajoz, que são 14. De modo que ajustada a jornada, avisaram as tropas que estão pelos quartéis de fora para que se juntassem no dia nomeado em Elvas.

 Em o mesmo dia que a cavalaria devia de sair de Elvas, logo pela manhã foram para Olivença oito tropas [companhias] de Elvas, para que o comissário Duquesne, que lá estava, fosse com elas e com as suas que lá tinha, que eram outras oito, que todas dezasseis teriam 700 cavalos; e com uma ordem ao mesmo comissário, que sairia com aquelas tropas aquela mesma noite e que se iria emboscar ao ribeiro da atalaia nova de Badajoz, e assim como viesse a companhia da ronda de Badajoz, que havia de ver logo em os altos da mesma atalaia […], botasse uma partida grossa e a corresse até os olivais de Badajoz, e que ele se pusesse com a demais cavalaria detrás dos mesmos outeiros da atalaia, porque era força que as tropas de Badajoz haviam de sair como raios até ali, em seguimento dos que haviam lá ido diante, e assim como ele visse ao inimigo em modo e tempo de lhe sair, o pelejasse com ele, que em o mesmo tempo havia o dito tenente-general de estar em a ponta de Alcornocal com a demais cavalaria à sua vista, e no mesmo tempo que ele avançasse ao inimigo havia ele de sair donde estava pela campanha acima a bom passo, dando-lhe calor, para que o seguisse com vontade e ânimo.

 Tanto que o comissário lá viu as tropas, logo ordenou a partida, e dando de jantar aos capitães, e de cear, se fizeram alguns como tudescos [“como alemães” – ou seja, embebedaram-se], que essa foi a causa de ele fazer o que fez, porque assim como quis sair de Olivença mandou um soldado a Elvas com uma carta ao mestre de campo general Dom João da Costa, para se afirmar do que havia de fazer, pois que lhe havia esquecido a ordem que lhe haviam dado, por amor da boa galhofa que tiveram.

 Junta a cavalaria em Elvas, sai-se o tenente-general com ela ao sol-posto de Elvas, e depois de ir já fora da cidade mandou uma carta ao comissário, de como ele ia já com a cavalaria não fizesse dilação [ou seja, não se demorasse], que antes de amanhecer se pusesse em tal posto; e que fizesse a coisa com ordem e valor, como ele o esperava da sua pessoa. De modo que, quando o comissário mandou a Elvas o soldado com a carta, lhe disse que ele se ia para a ribeira de Olivença com a cavalaria e que daí não passava até que ele lhe trouxesse a resposta da carta. De modo que o soldado que mandava o tenente-general com a carta desencontrou-se com o que mandava o comissário a Elvas, que se se toparam ambos não havia de vir para Elvas o que mandava o comissário.

 E assim […] chegou o aviso do tenente-general ao comissário, mas foi ele tal ou estava tal que não se quis abalar dali sem que o soldado que havia ido a Elvas lhe trouxesse a resposta da carta, à qual Dom João da Costa não respondeu, visto ser já fora o tenente-general, e lhe dizer que havia de mandar um soldado com segundo aviso ao comissário, e não quis Dom João da Costa que o soldado se volvesse logo, visto ser fora a cavalaria, já que o podia apanhar o inimigo no caminho a saber da ida da cavalaria, e assim ficou dentro de Elvas.

(continua)

 

Fonte: Manuscrito de Matheus Roiz, pp. 300-303.

Imagem: Combate de cavalaria, óleo de Abraham van der Hoef, séc. XVII.

Combate de Arronches, 8 de Novembro de 1653 – parte 3

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(continuação)

Os feridos e prisioneiros do inimigo, além dos que se foram render aos nossos lugares circunvizinhos, passam de quatrocentos os que mandamos a Badajoz e ficam nestes hospitais. Entre eles vieram os capitães de cavalos Dom Turíbio Pacheco, Dom Cristóvão de Obando, Dom Luís de Obando, treze tenentes, dezassete alferes e muitos reformados [oficiais que tinham cessado o serviço activo mas que se tinham realistado, por vezes como simples soldados].

Os mortos foram o Conde de Amarante, tenente-general da cavalaria, e os capitães Dom Guilherme Tutavilla, sobrinho do Duque de San Germán, Dom Sancho Perez de Villamizares, Dom João Sarmento e outros muitos oficiais menores vivos e reformados e fidalgos particulares que vinham na vanguarda.

Os corpos que se acharam no lugar donde se pelejou foram cento e oitenta e seis, além de muitos que se vão enterrando pelos matos e caminhos do alcance [com que foram mais de 300 em número – esta parte foi acrescentada na relação impressa].

Daqui se pode inferir os cavalos que o inimigo perdeu e nos ficaram, que ao menos hão-de ser tantos como os mortos e prisioneiros. Para se cobrarem, hei feito as diligências necessárias pelos lugares circunvizinhos adonde se levaram muitos e os mais trouxeram as nossas companhias.

As perdas que tivemos foram vinte e nove mortos [40 mortos, segundo a relação impressa], em que entraram o capitão Henrique de Figueiredo e Manuel Ribeiro, alferes de Tamericurt. Os feridos foram centro e treze [139, segundo a relação impressa], em que entraram o general da cavalaria, com uma estocada no lado e uma ferida no rosto, que lhe deram no primeiro choque, pelejando diante dos esquadrões da vanguarda; mas o maior dano que recebeu, sendo-o o das feridas grande, é haver-lhe passado por cima a cavalaria do inimigo e a nossa duas vezes, que foi milagre escapar; o comissário Rozier, com um pistoletaço na maçã do rosto; o capitão Francisco Pacheco [Mascarenhas – comandante da companhia onde servia o memorialista Mateus Rodrigues, que também ficou bastante ferido no combate, como já foi referido] com uma estocada, três capitães reformados de infantaria, Fernão da Cunha, Francisco Sodré e António Dias Cebolo, dois ajudantes de cavalaria, La Grezille e Diogo Rodrigues Tourinho, quatro tenentes, Bartolomeu de Barros.

São muitas e mui grandes as consequências que desta vitória se seguem pelo dano que recebeu o inimigo, perdendo a terceira parte da sua cavalaria e a confiança que lhe haviam dado os sucessos que em outros tempos teve contra a nossa e a com que ficaria se lograsse tão grade presa como havia feito, ficando destruídos os povos e os castelhanos ricos e cevados para outras. Mas sobretudo me parece que se deve estimar vermos luzido o trabalho com que se procurou reduzir a nossa cavalaria à forma e ordem com que hoje se acha, em que tudo consiste como nesta ocasião se viu e que eram bem necessárias as demonstrações que em outras fiz para que isto fosse assim.

O general da cavalaria procedeu com tão singular valor, prudência e arte, que deixou muito que invejar aos maiores generais do mundo. Com o mesmo acerto se houveram o tenente-general Tamericurt, os comissários gerais Duquesne e Rozier e todos os capitães, tenentes e alferes e soldados, cada um no que lhe tocava, de maneira que obrando todos singularmente, todos foram iguais.

Os cabos e oficiais e pessoas particulares que se acharam nesta ocasião são os que se seguem abaixo. Peço humilissimamente a Vossa Majestade, pelo muito que amo seu serviço e a grandeza de sua Real Coroa, mande ter com todos atenção que merecem, porque das mercês que Vossa Majestade lhe[s] fizer, há-de ver sempre mui seguros reconhecimentos para glória da Real pessoa e casa de Vossa Majestade, que Deus guarde, felicíssimos anos, como seus vassalos havemos mister.

Elvas, 12 de Novembro de 1653.

Imagem: Oficial de cavalaria em armadura de couraceiro (painel de azulejos do exterior do Palácio dos Marqueses de Fronteira e Alorna). Note-se o pormenor (correcto) de segurar a pistola de lado, deixando o mecanismo de fogo ao alto, para se assegurar a ignição da pólvora por percussão do cão na panela. Introduzidos de facto na orgânica da cavalaria portuguesa em 1645, os cavalos couraças raramente usaram a armadura que a figura representa. Somente em ocasiões de batalha campal algumas companhias da guarda dos generais se equipavam desta forma, embora fosse bastante comum oficiais superiores e generais usarem armadura de couraceiro. Foto de JPF.

Combate de Arronches, 8 de Novembro de 1653 – parte 2.

Continuando a transcrição da carta do Conde de Soure, reproduzida em M. L. de Almeida e C. Pegado (pub.), Livro 2.º do registo das Cartas dos Governadores das Armas (1653-1657), Coimbra, Biblioteca da Universidade, 1940:

Com este aviso mandei os que me pareceram necessários ao general da cavalaria, que prosseguindo o seu caminho chegou junto a Arronches, de onde tirou cem soldados infantes, dos da ordenança e presídio daquela vila, com os capitães dela Baltasar Pereira de Castelo Branco e João da Ponte e o ajudante Álvaro Fernandes. E pondo-se em batalha a nossa gente, que constava de novecentos e cinquenta cavalos, fez onze esquadrões: seis de vanguarda, governada pelo general e pelos dois comissários, Duquesne e Rozier, e pelos capitães D. Pedro de Lencastre, Henrique de Figueiredo, D. Diogo de Almeida, Francisco Pacheco [de Mascarenhas – companhia onde servia o soldado e memorialista Mateus Rodrigues, que ficaria gravemente ferido no combate], João da Silva [de Sousa], João Ribeiro do Couto, Miguel Barbosa, Diogo de Mendonça, D. João da Silva, António Fernandes Marques, D. Fernando da Silva, D. Pedro de Almeida. E os cinco da retaguarda encarregou ao tenente-general Tamericurt e aos capitães Jerónimo Borges, João Bocarro [Quaresma], Manuel Peixoto, António Coelho de Góis, Diogo de Mesquita, Fernão de Sousa e o capitão Auguste Stéphane de Castille.

E nesta forma foi buscar o inimigo que o estava esperando com mil e trezentos cavalos (segundo dizem os castelhanos) na mesma forma com catorze batalhões muito grossos. A sua vanguarda tinha o Conde de Amarante e a retaguarda Ibarra, tenentes-generais da cavalaria.

Escolheram sítio entre três ribeiros ou sanjas profundas, duas pelos lados e uma pela frente, esperando que nesta passagem se desordenasse a nossa gente. Reconhecendo o perigo, fez alto o general da nossa cavalaria sobre a sanja. E logo se travou escaramuça de uma e outra parte [ou seja, trocaram-se tiros de carabina à distância], até que chegando os nossos cem mosqueteiros repartidos em dois troços sobre o corno direito e esquerdo do inimigo, o apertaram de maneira que o obrigaram a buscar-nos, o que fez com toda a resolução e valor. A nossa gente os esperou cerrados e com grande firmeza. Chegando-se a juntar uns com os outros, se feriram tão obstinadamente que por mais de um quarto de hora se não conheceu vantagem, até que a nossa constância superou o valor contrário. E com grande ruína foi rota a vanguarda do inimigo e seguida até encontrar a sua reserva, que obrigou os nossos esquadrões a se retirarem. E passando pelos claros da nossa retaguarda, se formaram logo de novo detrás dela com maravilhosa ordem e brevidade, e logo investiu a nossa retaguarda com todo o grosso do inimigo com tal esforço e valor que o puseram em fugida, seguindo-o légua e meia até que a noite impediu o alcance.

(continua)

Imagem: Combate de Arronches; pormenor do painel de azulejos correspondente, Sala das Batalhas, Palácio dos Marqueses de Fronteira e Alorna. Note-se a presença dos mosqueteiros da ordenança de Arronches.

Combate de Arronches, 8 de Novembro de 1653 – parte 1.

Acerca do “Combate de Arronches” – um recontro de cavalaria ocorrido em local não identificado com precisão, algures entre Arronches e Assumar – existe uma relação publicada (Relaçam da vitoria qve alcançov do castelhano, Andre de Albuquerque General da Cauallaria, & Alcayde mór de Sintra, entre Arronches, & Asumar, em 8 de Nouembro deste presente anno de 1653. Em Lisboa. Na Officina Craesbeeeckiana anno de 1653). Todavia, o que ora se principia a transcrever é uma carta enviada a D. João IV por D. João da Costa, 1.º Conde de Soure (1610-64), ao tempo governador das armas da província do Alentejo. Difere em pequenos pormenores da posterior relação impressa, embora esta siga, no essencial, a missiva do cabo de guerra.

Não se trata de um estudo sobre o combate, que envolveu principalmente cavalaria de ambos os lados (os portugueses tiveram apoio de unidades de infantaria). O estudo está neste momento em andamento. Apresenta-se aqui, com intuito de divulgação, a carta do Conde de Soure, reproduzida em M. L. de Almeida e C. Pegado (pub.), Livro 2.º do registo das Cartas dos Governadores das Armas (1653-1657), Coimbra, Biblioteca da Universidade, 1940.  

Sucesso de Arronches

Senhor

Em nove deste mês dei conta a Vossa Majestade do glorioso sucesso, que Deus foi servido dar às armas de Vossa Majestade, na forma das primeiras notícias que me mandou o tenente-general da cavalaria Tamericurt. Agora o faço com os mais particulares que pude achar.

A seis deste mês ordenei a Fernão de Mesquita [Pimentel] que, com as cinco companhias pagas e com as tropas dos pilhantes [companhias que faziam parte da milícia de Auxiliares] do partido [distrito militar] de Portalegre, fosse armar [emboscar] as duas companhias de Valença [Valencia de Alcántara] e de São Vicente. E em sete ao general da Cavalaria [André de Albuquerque Ribafria] que, com as desta praça [Elvas], Campo Maior e Olivença, armasse as companhias de Badajoz.

O inimigo havia dado ordem para que, no mesmo dia de seis deste [mês], entrasse o comissário geral Bustamante com dezoito companhias do partido de Alcântara e Albuquerque para que, roubando os campos das comarcas do Crato, Avis e Portalegre, se juntasse entre Alegrete e Arronches com o resto da sua cavalaria, que naquele posto havia de estar sábado pela manhã. Para este efeito saiu de Badajoz sexta-feira, à boca da noite, tomando o caminho para Campo Maior.

O general da cavalaria André de Albuquerque, que havia estado todo o dia na emboscada, por não haver tido a ocasião que esperávamos para correr o inimigo, vendo-o sair me avisou e o foi buscar [ou seja, foi ao seu encontro] a Campo Maior, adonde não pôde dar com a trilha até sábado pela manhã, e pondo-se nela o foi seguindo.

Neste tempo me chegou aviso que Fernão de Mesquita, indo entrando em Castela com cinco companhias pagas e quatro tropas de pilhantes, formado em cinco batalhões [formações tácticas], encontrou seis que eram a vanguarda das dezoito companhias do comissário geral Bustamante, que vinha entrando para Portugal. Investindo-os os nossos valorosamente os romperam e os foram levando, até topar co a reserva do inimigo, a quem não puderam resistir os nossos esquadrões, porque iam misturados com os primeiros seis do inimigo. E assim foi força ceder a nossa gente depois de haverem feito tal estrago nos castelhanos, que não puderam executar a ordem que tinha[m] para entrar em Portugal e juntar-se com os de Badajoz, em razão dos muitos oficiais e soldados que perderam. Os de que até agora tive notícia são quatro capitães, um logo morto e três muito mal feridos, e neles entra Dom Álvaro de Luna, filho do Conde de Montijo, e o número dos oficiais menores e soldados não sei com certeza, por haverem ficado em sua terra e os castelhanos encobrirem com grande cuidado as perdas que recebem; mas de algumas línguas que têm vindo daquela parte consta que os mortos e feridos do inimigo são muitos e o dano que tiveram foi tal que nos assegurou a vitória que alcançámos a nove deste [mês] [em rigor, a oito].

A perda que recebemos constou de cinquenta e oito cavalos e outros tantos soldados prisioneiros, em que entraram os capitães Fernão de Mesquita e Duarte Fernandes Lobo, que ficaram feridos, e dois tenentes e dois alferes.

Nesta ocasião se acharam os capitães Fernão de Mesquita, que a ia governando, Duarte Fernandes Lobo, o capitão Duarte Lobo da Gama e as companhias de Manuel de Mendonça, D. Fernando da Silva sem capitães, e as companhias dos soldados socorridos a que chamam pilhantes, Francisco Velho Coutinho, Fernão Martins de Ayala, Manuel da Costa Monteiro. Todos os oficiais e soldados procederam com grande valor, mas como não chegavam a 260 e os do inimigo eram todos soldados pagos e passavam de seiscentos e cinquenta, não puderam resistir.

(continua)

Imagem: Combate de Arronches; pormenor do painel de azulejos correspondente, Sala das Batalhas, Palácio dos Marqueses de Fronteira e Alorna.

“Diálogos com História e Património” – apresentação da comunicação “A Batalha do Ameixial – uma perspectiva do factor humano na guerra do século XVII”

Foi com muito gosto que acedi ao honroso convite para participar no ciclo de conferências “Diálogos com História e Património”, promovido pela associação CIDADE (Cidadãos pela Defesa do Património de Estremoz). O evento teve lugar no passado dia 18 de Junho, no Regimento de Cavalaria 3 de Estremoz.

Ao Dr. Pedro Nunes da Silva deixo aqui uma saudação especial. A todos os que participaram, os meus agradecimentos.

“La Guerra de Portugal (1640-1668)”, de Enrique Sicilia Cardona – uma obra recém-lançada em Espanha sobre o conflito peninsular do século XVII

O professor Enrique Sicilia Cardona lançou recentemente – para ser mais exacto, durante o mês de Abril – o seu livro La Guerra de Portugal (1640-1668), através da Editorial Actas, de Madrid. Trata-se de uma obra muito importante para ampliar o conhecimento sobre a Guerra da Restauração.

O livro, que pode ser adquirido directamente através da editora ou encomendada em sites online, tem uma estrutura que cobre praticamente todos os aspectos do conflito seiscentista. Abre com os antecedentes da guerra, debruçando-se em seguida pelo estudo dos teatros de operações: as fronteiras, o clima, as linhas de comunicação e aprovisionamento, a tipologia das operações de guerra, a inteligência militar, a dimensão dos exércitos e as fortificações. Passa, depois, a tratar da organização e do armamento dos exércitos, antes de entrar na parte mais extensa: a das fases da guerra, com o estudo das principais batalhas e combates, sem esquecer o enquadramento no contexto internacional. De realçar igualmente os anexos, com variada informação biográfica sobre os principais intervenientes no conflito.

Em suma, uma obra que recomendo vivamente, cuja capa se reproduz acima. O vídeo promocional é apresentado no final deste artigo.

Aproveito, a terminar, para agradecer ao professor Enrique Sicilia Cardona a gentileza de me ter enviado o original para consulta, antes ainda da sua publicação.

Sobre a “Relação Diária”, um esclarecimento de Juan Antonio Caro del Corral

O estimado amigo Juan Antonio, que tantas vezes tem aqui colaborado, enviou um comentário a propósito da última parte do manuscrito que aqui tem sido transcrito e traduzido. É um complemento e uma correcção ao texto original, que eu agradeço profundamente, e que fica aqui:

Como siempre, magnífica la información publicada en esta excelente web, que se ha ganado a pulso, desde hace muchos años, el ser considerada como el mejor sitio de la red para informarse fielmente de lo ocurrido en aquel periodo bélico de mediados el XVII.
Una enorme tarea de investigación y divulgación realizada por el prof. Jorge Penim, a quien todos los interesados en aquella guerra debemos tanto.
Paralelo a esta última entrada de su blog, acompaño algunas precisiones que, quizás, contribuyan a entender mejor los sucesos narrados.
1–) El ataque a Barcarrota no ocurrió el día 18 diciembre, tal como se cita en el texto. Realmente fue una semana antes, coincidiendo con la festividad de la Purísima Concepción.
2–) El número de efectivos que componía el ejército atacante, según fuentes documentales
castellanas, se evaluó en 4.000 infantes y 2.000 caballos, a diferencia de los 2.500 soldados y 1.200 caballos que cuantifica el texto (curiosamente también redactado por cronistas castellanos) En todo caso, la guerra de cifras dispares siempre fue una constante a lo largo de la guerra, debiendo tomarse con la debida precaución, comparando las fuentes informativas para tratar de obtener una cifra lo más realista posible.
3–) Los primeros avisos del movimiento de tropa portugués llegaron a oídos de los oficiales castellanos un par de jornadas antes del referido ataque a Barcarrota. Efectivamente, se supo que desde Campo Maior avanzaban los lusos recogiendo gente de guerra de otras plazas, tales Serpa, Moura, y Mourao.
4–) San German alertó a toda la comarca, pero la grave falta de efectivos redujo considerablemente el poder enviar socorros con rapidez. Hubo que llamar a soldados que se encontraban de cuartel muy lejos del foco de invasión, por ejemplo, desde el distrito onubense.
5–) El gobernador militar de Barcarrota, que en el texto se menciona como Lafonte, en realidad respondía al nombre de Juan Bautista Cafonte; en tanto que el comisario general se llamaba José de Larreategui, caballero de la Orden de Santiago, quien contaba con una extensa hoja de servicios (23 años, habiendo estado presente, por ejemplo, en Rocroi)
6–) San Germán, tal como se cita, después de difuminarse el peligro sobre Barcarrota, viajo a Madrid, dónde, ante la Junta de Guerra, expuso la necesidad de convocar a un potente ejército y, aprovechando la fragilidad surgida tras el fallecimiento de Joao IV y regencia de su esposa, realizar una entrada gloriosa en Portugal. Una campaña, la de 1658, que tendrá como máximo objetivo conquistar Olivenza. La marcha comenzaría el 12 de abril. Pero esa, es otra historia…

Imagem: Sebastien Vranckx, Cena de batalha, séc. XVII.

Relação diária dos sucessos ocorridos entre os anos 1655 a 1656 na fronteira da Extremadura espanhola (parte 9 – final)

Ano de 1656

A seis de Novembro do ano de 1656 morreu em Lisboa D. João, Duque de Bragança, a quem os portugueses aclamaram por rei no ano de 1640. Deixou um filho príncipe chamado D. Afonso e outro D. Pedro e uma filha. Não se publicou [ou seja, não se tornou pública] a sua morte nas fronteiras por alguns dias, escrevendo a elas por correio todos os cabos [ou seja, oficiais generais e superiores] que se encontravam em Lisboa.

Sentiu-se de maneira geral em Portugal a sua morte, mais pela confusão que lhes causava verem-se sem cabeça, que pelas prendas que nele não havia. Foi muito robusto e pouco polido e apto mais para os exercícios da caça e do campo em que se criou, que para os negócios da Corte, menos na música, em que era destríssimo. Nada era inclinado à guerra; e assim, ainda que tirano […], não se encontrou em exército algum, nem visitou jamais as fronteiras. Favorecia pouco aos soldados, sendo eles, ainda que desabonados, os que o mantinham em sua tirania. Era sumamente parco, portando-se sem fausto algum, assim no vestuário como nas outras cerimónias com que costumam fazer-se adorar os reis. Isto e o mostrar-se muito popular ainda com os mais íntimos, lhe grangeou não pouco afecto com a plebe, a qual, tratada com esta simplicidade, não sabe desejar menos as demais prendas. Deste género de gente favoreceu e levantou alguns sujeitos, de quem fiava mais do que dos da primeira nobreza, castigada por algumas conspirações, que descobriu mais por felicidade, que por astúcia. Foi muito amigo de juntar tesouro e por esta causa era pouco liberal [ou seja, era avaro], de modo que todo o gasto de sua casa o fazia com as rendas do Estado de Bragança, e ainda que contribuiu com grossas somas para França e para o Parlamento de Inglaterra, é fama que tinha muito dinheiro. Morreu de idade de cinquenta anos, havendo tiranizado o Reino de Portugal dezasseis, menos mês e meio.

Logo a 18 de Dezembro deram […] os rebeldes à vista do castelo de Barcarrota com dois mil e quinhentos infantes e mil e duzentos cavalos, quatro peças de artilharia, escadas e petardos. Teve disto o Duque de San Germán algumas notícias antecedentes, pelas línguas que se trouxeram e por avisos que se deram de que o inimigo tinha prevenção de todas estas coisas para ir sobre uma de quatro praças: Badajoz, Talavera, Barcarrota e Jerez. […] Este mesmo dia se trouxe língua de Campo Maior, que disse havia passado por ali o terço de Castelo de Vide na volta de Elvas [ou seja, pelo caminho que conduzia a Elvas] e um dos terços de Campo Maior com tropas daquele lugar; não houve em Badajoz movimento algum mais do que haver avisado às fronteiras para que retirassem o gado.

No dia seguinte chegou aviso do sargento-mor Lafonte, governador de Barcarrota, e do comissário geral Don José de La Artegui, que assistia em La Parra.

Este mesmo dia enviou-se o tenente-general […] Don Gregório Ibarra para que, com aquelas tropas, abrigasse os lugares fronteiros a Barcarrota e tomasse língua do inimigo. E este mesmo dia entraram em Badajoz as tropas de Brozas, Valência, Arroyo del Franco e a de Don Rodrigo Muxica, que se haviam juntado em Albuquerque com o capitão Don Pedro de Quintanal, em número de cerca de trezentos cavalos, para entrar em Portugal no princípio desta semana. E porque das línguas que se tomaram se entendeu que marchava o terço de Castelo de Vide e as tropas daquele lugar, não se resolveram a entrar […] e marcharam para Badajoz por nova ordem que se lhes deu.

A 10 enviaram-se oficiais de todos os terços, para que trouxessem toda a gente da província concentrada, por ser pouquíssima a que se encontrava em Badajoz, não só para fazer oposição ao inimigo, como para defender a muralha, e por isso se mandou tomar arma a todos os vizinhos e com eles se guarneceu a muralha. Porém, porque neste mesmo dia chegou aviso do governador de Barcarrota que o inimigo se havia retirado, e ali havia entrado o comissário geral Don José de La Artegui [com] noventa homens com dois capitães no castelo, se deu nova ordem, supondo que os rebeldes se haviam retirado de todo.

Ainda que neste tempo não se sabia ao certo que tivessem entrado em algumas das suas praças, e assim se estranhou, de forma geral, a facilidade com que cá se asseguraram os chefes, que ainda não constava que o inimigo estivesse desfeito, e podia tomar outro expediente que lhe parecesse, com que viríamos a ficar com as mesmas dificuldades do primeiro dia (não obstante se haver tocado arma em toda a fronteira), por faltar a gente com que guarnecer a mesma.

O inimigo retirou-se e desfez a sua gente, porque havendo reconhecido o castelo de Barcarrota, um engenheiro disse que não era tão fácil a sua expugnação como haviam pensado, e que necessitava de cerco em forma, em cujo tempo se poderiam juntar todas as nossas forças, e não queriam aventurar as suas à fortuna de uma batalha. Ao que se juntou o haver-se atascado as peças uma légua antes de chegarem a Barcarrota, não havendo sido possível desatascá-las com quantas diligências fizeram, o que tiveram eles como milagre a nosso favor, e assim se retiraram a nove, ao meio-dia.

Vinham ali Dom João da Costa, governador das armas; o general da cavalaria André de Albuquerque; e o da artilharia Francisco de Melo, ainda que pouco conformes entre si, por discórdias particulares antigas. Com que, ainda que fossem aquelas suas forças todas pagas, não era de temer que obrassem coisa considerável.

A 14 chegou ordem de Sua Majestade ao Duque de San Germán, para que sem dilação alguma marchasse com toda a diligência à Corte, para conferir algumas coisas tocantes ao seu real serviço. Saiu no domingo 16, às cinco da manhã, havendo despachado algumas cartas, para seguir o correio entre coches, para chegar a vinte. Ficou governando o general da cavalaria don Rodrigo de Muxica.

FIM

Fonte: “Relación diaria de los sucesos acaecidos entre los años 1655 a 1656” (Biblioteca Nacional de Madrid, Sala Cervantes, Colección Mascareñas, Manuscrito nº 2384, fls. 338-339).

Imagem: Brozas, na actualidade. Foto do autor.

“The Portuguese Army 1659-1690”, de Bruno Mugnai

Há um par de semanas recebi um exemplar ofertado e autografado pelo autor, a quem aproveito para agradecer a amabilidade e também para felicitar pelo excelente trabalho realizado.

Recomendo vivamente esta obra, plena de informação e com um interessante manancial iconográfico, a todos os que se interessam por este período histórico.

1.º de Dezembro de 1640

Consequência da Restauração da Independência política em 1 de Dezembro de 1640, principiaram de imediato os preparativos para a defesa do Reino.

Pormenor da inscrição sobre a porta do forte de São Jorge de Oitavos, entre o Guincho e Cascais: “O muito alto e muito poderozo Rey Dom Ioão o IIII de Portugal nosso senhor que Deus guarde mandou fazer esta fortificação sendo governador das armas reais Dom António Luís de Menezes. Que se prinsipiou em 9 de Maio de 1642 e se acabou em a era de 1648“.

Foto: JPF.

Relação diária dos sucessos ocorridos entre os anos 1655 a 1656 na fronteira da Extremadura espanhola (parte 8)

A 15 entrou aqui o vedor geral Don Antonio Ortiz de Velazco, com o ofício juntamente de procurador e 2.000 escudos de soldo ao ano. Mostrou este cavalheiro muito interesse na distribuição do dinheiro e segundo se crê, traz ordens apertadas de Sua Majestade para dar a mão ao Duque, como o fez, com muita prontidão não só em coisas maiores, como também em outras muito simples. Este começou a executar de pronto a ordem de que o dinheiro da infantaria e cavalaria se distribuísse em seus géneros. O homem é algo altivo e depreciativo, ou seja pelas ordens secretas que trouxe, ou já por ser favorecido do Marquês de Liche, ou finalmente por sua condição natural; e assim responde com desabrimento a quantos vão a pedir-lhe dinheiro, e com palavras de pouca modéstia. Assim não está muito bem quisto com o exército, e ele se encontra pouco agradado aqui.

Por este tempo fez o inimigo algumas presas consideráveis por Jerez e por Albuquerque, no ribeiro dos Riscos [?]. De cá se fizeram também algumas menores pelas mesmas partes.

Em 29 deste se teve aviso que chegaram coisa de 80 cavalos das tropas de Ciudad Rodrigo a Valverde de Gata, sem oficiais nem ordem alguma, com ânimo de fazer por ali entrada. O sargento-mor Don Diego de Rueda, que se encontrava ali, os forçou a recolher ao lugar e alojar, com ânimo de os convencer a que regressassem às suas tropas. Propô-lo a alguns reformados e particulares que vinham entre eles, encarregando-os da acção e oferecendo-lhes dinheiro para voltassem. Não foi possível demovê-los, porque diziam que eles eram homens de bem, necessitados, e que mais queriam remediar-se com o que tirassem de Portugal, do que ir tirando pelos caminhos. Vendo a sua tenacidade, ofereceu-lhes o sargento-mor um capitão com 90 infantes para ocupar um posto por onde precisamente haviam de regressar e o ocupava o inimigo sempre que se tocava arma no Meimão. Com o que, deixando com os 90 infantes outros tantos cavalos, poderiam romper a partida que costumava acudir a ocupar aquele posto de Penamacor. Dispôs-se assim, porém um soldado que vinha seguindo estes outros, preso pelo inimigo lhes disse o intento que traziam os 80 cavalos. Com que o mestre de campo João Fialho, quando eles entraram, se encontrava com as armas na mão, e assim logo que se tocou arma saiu com 400 infantes e 150 cavalos ao posto. Porém, reconhecido dos batedores, o avisaram que havia nele 100 cavalos e 200 infantes, pelo que o Fialho não se resolveu a investi-lo, e ficou ao largo. E quando, retirando-se já os nossos, reconheceu a sua fraqueza, os carregou, se bem que foi já em passagem, que não se perderam mais de 4 cavalos e 3 infantes, e se teriam perdido todos os 80 cavalos, se não levassem a infantaria que o sargento-mor lhes deu para que não fosse a sua entrada tão desatinada, já que não lhe era possível estorvá-la. No entanto, pelo mau exemplo de amparar soldados sem comando, mandou-se fazer a averiguação do caso.

No princípio deste mês entrou o capitão Don Diego Alvarez por Jerez com até 200 cavalos na volta de Moura, donde perdeu 23 cavalos, dos quais alguns lhe rebentaram de cansados. Por isto, e porque em outra presa que os dias passados fez se tomou a maior parte, houve alguma queixa e não pouca disposição para devassá-lo, porém isto se calou.

Pelo fim deste mês levaram os rebeldes uma presa grande de leitões dos montes de Salvatierra e Burguillos, e outra de Sierra de Gata, de gado menor e maior considerável. E pela pouca segurança que há aí nos campos de Alcântara, de onde pastaram até aqui os gados merinos, ficaram este ano sem reunir mais de 60 cabeças.

(continua)

Fonte: “Relación diaria de los sucesos acaecidos entre los años 1655 a 1656” (Biblioteca Nacional de Madrid, Sala Cervantes, Colección Mascareñas, Manuscrito nº 2384, fls. 336 V-337 V).

Imagem: Combate de cavalaria, período da Guerra dos 30 Anos; óleo de Palamedes Palamedesz (1605-1638).

Wars and Soldiers in the Early Reign of Louis XIV, Volume 4: The Armies of Spain 1660-1687 e Wars and Soldiers in the Early Reign of Louis XIV, Volume 5: The Armies of Portugal, 1659-1690 – uma obra recente que se debruça sobre a organização militar, armamento e equipamento do período da Guerra da Restauração

Bruno Mugnai é investigador de História Militar, natural dos Países Baixos, e autor de diversas obras focando os exércitos do período de Luís XIV. Após ter dedicado os primeiros volumes da colecção “The Century of the Soldier” aos exércitos da França do Rei-Sol, num estudo exaustivo, prosseguiu o labor com três volumes abordando outros exércitos da época: das Províncias Unidas dos Países Baixos, do Império dos Habsburgo e do Império Otomano. Os mais recentes trabalhos (lançados em finais de Setembro de 2021) é dedicado aos exércitos de Espanha e Portugal entre 1659 e 1690. Ainda não tive oportunidade de folhear esta obra, que deverá estar a caminho, mas não quis deixar de a publicitar aqui. Espero poder em breve publicar, neste blog, uma recensão.

Mugnai, Bruno (2021), Wars and Soldiers in the Early Reign of Louis XIV Volume 4: The Armies of Spain and Portugal, 1660-1687, Warwick, Helion & Company.

Relação diária dos sucessos ocorridos entre os anos 1655 a 1656 na fronteira da Extremadura espanhola (parte 7)

Por este mesmo tempo veio ordem de Sua Majestade a este exército, para que o dinheiro que pagava a Província, dos sete quartos pela infantaria, e o do resgate do quartel da cavalaria, se distribuísse precisamente cada dinheiro em infantaria e cavalaria; e que os mestres de campo generais não cobrassem destes efeitos seus soldos, senão dos destinados para a capitania geral, e assim se tem observado desde então até agora.

Pelo princípio deste mês chegou ordem de Sua Majestade para que se fizessem 200 cavalos deste exército à costa da Andaluzia, para sua defesa, por estar à vista de Cádiz uma armada de Cromwell de 58 embarcações. Foi por cabo deles o capitão Don Diego de Pulgar. Os outros três foram Don Juan de Alvarado, a companhia do Marquês de Aguilar e a de Don Luís Berrio. E ainda que se encontrasse esta fronteira com pouquíssima cavalaria, não se replicou à ordem; antes que para fossem cumpridos os 200 cavalos, se retiraram ramos [sub-unidades] de outras, que se agregaram às quatro companhias.

Em todo este Verão, ainda que haja sido pouquíssima a gente, por haverem fugido todos das levas, e dos irlandeses muitos, e outros que morreram de enfermidade, não houve coisa memorável, ainda que se temeu haverem-se os rebeldes concertado com ingleses e com forças superiores às nossas; só houve algumas presas de gado e de cavalos por diversas partes da fronteira, em que esteve ganancioso o inimigo; porque de coisa de 400 cavalos que este Verão vieram de remonta, tomou em diversas ocasiões mais de 150; que o conhecer nossa fraqueza, e as poucas vezes que de cá se entra [em território português] lhes tem dado atrevimento para discorrer com mais desafogo por todas as partes.

Pelo fim deste mês teve esta cidade um choque com o Duque, sobre a despesa que em sua casa havia, onde se provia mais do que no açougue; e representando duas vezes a cidade ao Duque, ainda que se ofereceu a remediá-lo, não o fez; com que a cidade, com o alcaide-mor Don Baltasar de Tovar, escreveu ao Conselho sobre ele, e com tal segredo que não o soube o Duque senão depois de dois ou três dias. Chamou o alcaide-mor e o tratou, segundo ele se queixou na cidade, mal de palavra. Sobre isto resolveu a cidade enviar um regedor à Corte, a dar queixa ao Rei. Nomeou-se a Don Pedro de Léon, que partiu logo, e com ele o alcaide-mor. Havia grandes expectativas desta queixa, porque se entendia haver outras da Província contra o Duque e se entendia haveria mudança de governo, porém Sua Majestade mandou se dissesse ao regedor que regressasse, e que Sua Majestade ficava com cuidado em dar-lhe satisfação; e assim regressou D. Pedro de Léon. Dizem que não quiseram fazer demonstração aqueles senhores sobre o dinheiro, por respeito do posto, porém se tem por constante mudarão o Duque, ainda que é seu valedor Don Luís de Haro e Don Fernando Ruiz de Contreras.

(continua)

Fonte: “Relación diaria de los sucesos acaecidos entre los años 1655 a 1656” (Biblioteca Nacional de Madrid, Sala Cervantes, Colección Mascareñas, Manuscrito nº 2384, fls. 335 V-336 V).

Imagem: Parte de um exército em campanha, com infantaria, artilharia e elementos dispersos de um acampamento em primeiro plano; óleo de Peter Snayers, meados do século XVII; MNAA, Lisboa.

Relação diária dos sucessos ocorridos entre os anos 1655 a 1656 na fronteira da Extremadura espanhola (parte 6)

Pelo fim deste mês, havendo saído de La Parra o capitão Don Pedro Salinas com até 80 cavalos, rumou a volta de Olivença, com desígnio de ver se podia romper alguma partida ou tropas dela. Enviou o tenente-general Don Gregório de Ibarra um alferes com 9 cavalos à volta de Alconchel com ordem de arrimar-se, e sendo carregado que se retirasse a certo posto, donde havia de estar emboscado Salinas. Enquanto estes vão a executar o que se lhes ordenou, uma partida do inimigo tomou línguas em Salvatierra, por onde havia passado Salinas, e temendo o capitão Quintanal, que se encontrava ali, não o dissesse a língua, enviou uma partida para que procurasse Salinas (não se sabia ao certo onde se encontrava) e o advertisse disto, para que estivesse com cuidado, e não se lembrou de avisar o tenente-general em La Parra, que sabia tudo e podia prevenir o que parecesse conveniente. Foi, pois, a partida de Quintanal discorrendo sobre a parte onde se julgava podia estar Salinas, e descobertas ao longe as sentinelas de Salinas, julgou que era do inimigo e as perseguiu mais de uma légua, até que se conheceram. Porém, entretanto, por azar este Salinas deixou o seu posto; a outra partida que havia ido a Alconchel, vindo pelo caminho de Olivença adiante, topou um cmboio que levava um capitão português com 20 cavalos a Alconchel, o qual a carregou logo, e ela, acudindo a abrigar-se à emboscada, não topou Salinas. Com que o inimigo pôde capturar-lhe seis cavalos, e todavia a seguia, não acerditando que havia mais cavalaria nossa, porque os soldados que aprisionou não o sabiam, senão somente o cabo. Assim discorriam quando Salinas, por fim encontrado pela partida derrotada, teve aviso de tudo, e enviando um tenente com 30 cavalos com o alferes derrotado, toparam rapidamente a partida rebelde, e preso o capitão, lhe tiraram os seis cavalos nossos e outros sete seus. Porém o comboio havia-se adiantado muito, com que pôde salvar-se e o resto da partida inimiga. Pelo acidente antecedente se tirou do posto Salinas, que foi causa não se lograsse inteiramente aquela ocasião.

(continua)

Fonte: “Relación diaria de los sucesos acaecidos entre los años 1655 a 1656” (Biblioteca Nacional de Madrid, Sala Cervantes, Colección Mascareñas, Manuscrito nº 2384, fls. 335-335 V).

Imagem: “Recontro de cavalaria”, óleo atribuído a Philip Wouwerman, 2.ª metade do século XVII.

Relação diária dos sucessos ocorridos entre os anos 1655 a 1656 na fronteira da Extremadura espanhola (parte 5)

Continuando a transcrição/tradução para português do manuscrito:

Extremadura, Ano 1656

Pelo fim deste mês veio ao exército Don Gaspar de la Cueva, irmão do Duque de Albuquerque, com o posto de general da artilharia e 600 escudos de soldo: 300 do posto, 200 por filho de Grande e 100 de encomenda. Sujeito de poucos anos, muita inocência militar e moderado talento.

Poucos dias antes havia chegado aqui outro general da artilharia, titular irlandês. Chama-se Don Hugo Neth, a quem por acomodá-lo remeteram a este exército, reputado pelo mais assistido pelas contribuições da Província, soldado de experiência e de mais que medianas prendas.

Por este mês fizeram os rebeldes algumas presas consideráveis, entrando nos campos de Alcântara pela parte de Albuquerque, de onde levaram muito gado miúdo, e de Salvatierra, em estado de feira, quase todo o que havia naquele lugar, não obstante que se encontravam naquele distrito quase 500 cavalos em diferentes quartéis, e os governava então o capitão Don Pedro Diez de Quintanal, soldado de opinião e de experiência.

A 25 saiu daqui o senhor Don Francisco Tutavila, a receber a visita da Duquesa sua esposa, acompanhando-o o general da artilharia Don Gaspar de la Cueva e os mestres de campo Don Álvaro de Luna e Don Juan de Zuñiga, Don Pedro de Mendoza e o contador do exército Pedro de Arostegui. Ficou governando, por ordem de Sua Majestade, o general da cavalaria, Don Rodrigo de Moxica.

No princípio deste mês veio um clérigo de Elvas com carta do bispo para o de Badajoz, em que representava que os ingleses haviam pedido um porto na parte de Portugal, para fazer-nos a guerra desde ali, mas vivamente se lhe[s] negou; que temiam tratava o inglês de vir a tomá-la por força; que eles estavam dispostos a defender-se, e que pois éramos nisto não menos interessados, pedia se tratasse cá, ou ajudar com nossas armadas a rechaçar as inglesas, ou de haver alguma trégua ou suspensão de armas na fronteira para poder valer-se destas forças para a costa. Vista a carta pelo bispo e o general da cavalaria, deram conta cada um a Sua Majestade, sem avisar do caso ao senhor Don Francisco, que se achava na ponte do Arcebispo, aguardando a noiva.

Poucos dias depois veio um padre ca Companhia [de Jesus] de Elvas, com outra carta daquele bispo para o nosso, sobre o mesmo caso, mas como não havia ainda chegado a resolução de Sua Majestade, se despachou logo. E em 18 deste chegou o aviso do que Sua Majestade resolveu, e foi que não se escutasse os rebeldes no que propunham em nenhuma forma. Dizem [que] se discutiu a matéria entre os conselheiros, não faltando razões e votos por uma parte e outra.

Por estes dias havia chegado também aviso da resolução que Sua Majestade tomou, de jubilar-se o vedor geral Don Francisco de Ynzita, e que o contador Pedro de Arostegui fosse gozar o cargo de Contador de Colheitas na Corte. Resultou isto de uma visita que no ano de 32 fez aqui o vedor Diego de Portillo, cuja determinação se dilatou até agora, e nela se suspendeu o procurador geral Don Geronimo de la Haya por sete anos e o condenaram em sete ou oito mil escudos, pelo que está preso no cárcere da Corte; outras multas houve.

Em 17 de Abril entrou o senhor Don Francisco com sua noiva. Teve ele luzido recebimento, e só aquele dia entre todos os deste mês foi apropriado para gozar desta alegria. Houve salva real e a infantaria disparou em quatro postos: San Roque, Trinidad, Campo de San Juan e Palácio; que deu boas cargas, ainda que era pouca a gente. Foram caras e luzidas as galas que puseram os cabos e seus domésticos.

Desde o primeiro deste mês até 16 correu o Guadiana (sem ocasião de enchente, antes minguando) tão colorido e sangrento que em todo este tempo não se pôde beber dele, nem a água assentada perdia aquela cor. Não se sabe a causa, se bem alguns camponeses crêem que como esse rio vem pela Marula, onde há minas de almagra, pode topar com algum veio dela, ainda que para os muitos dias que isto há durado, era necessário que fosse muito copioso o veio.

(continua)

Fonte: “Relación diaria de los sucesos acaecidos entre los años 1655 a 1656” (Biblioteca Nacional de Madrid, Sala Cervantes, Colección Mascareñas, Manuscrito nº 2384, fls. 334-335).

Imagem: Bernabé de Gainza, “Praça de Badajoz e fronteiras do Reino de Portugal”, in Testón Nuñez, Isabel; Sánchez Rubio, Carlos; Sánchez Rubio, Rocio, Planos, Guerra y Frontera. La Raya Luso-Estremeña en el Archivo Militar de Estocolmo, Mérida, Gabinete de Iniciativas Transfronterizas, 2003, p. 56.

Relação diária dos sucessos ocorridos entre os anos 1655 a 1656 na fronteira da Extremadura espanhola (parte 4)

Continuando a transcrição/tradução para português do manuscrito:

Quarta-feira 2 de Outubro [de 1655], às orações, se deu ordem para que toda a infantaria arrimasse logo a seus postos; e às onze da noite marcharam as tropas desta praça e as de Talavera, com o comissário geral Don Cristóval de Bustamante. E ao amanhecer marchou o general da cavalaria Don Rodrigo de Moxica com as tropas de Rossales e 400 infantes, a cargo do mestre de campo Don Juan de Zuñiga. E uns e outros se foram a pôr à vista de Campo Maior, [se] bem que por diferentes passagens, enquanto o capitão Hereo, com coisa de 200 cavalos que se juntaram das tropas de Albuquerque, Valência [de Alcântara], Brozas e Arroyo e San Vicente, recolhia o gado de Barbacena e outros lugares vizinhos, o que fez sem oposição. E é fama [que] reuniu mais de 15.000 cabeças de gado menor e alguns bois e bagagens, com que veio a incorporar-se com o general da cavalaria, que estava com quase todo o resto daquela, e neste exército aguardando-o. E ainda que não saiu nada a estorvar a marcha, nem de Campo Maior, nem de Elvas, ficou muita parte do gado pelo caminho; e se houveram de vender 2.700 cabeças de gado menor e 185 reses maiores, porque o demais se extraviou pelos soldados e cabos.

Pelo fim deste mês regressou o general da cavalaria da Corte, aonde foi em segredo a coisas particulares suas. Voltou por Salamanca e ao passar o porto junto a Cañaveral, no partido [distrito militar] de Coria, havendo-se adiantado um criado seu, foi cair numa partida de sete cavalos rebeldes que ali estavam, e informados que vinha atrás o general (ainda que o moço afirmou que vinha sem comboio [grupo de escolta] algum, com dois criados), não acreditaram e se retiraram sem o aguardar, parecendo-lhes que estando o general já em passagem de onde podia chamar o comboio que quisesse das tropas de Moraleja, não quereria vir sozinho, ainda que a mais de seis ou sete léguas de terra adentro da raia, que foi ocasião de não haver caído em suas mãos, sendo muito fácil levá-lo a Salvaterra sem embaraço algum. No princípio deste mês, havendo-se juntado o sargento-mor Don Pedro de Armesto, governador de Albuquerque, e o tenente de mestre de campo general Don Fernando de Godoy, governador de Valência [de Alcântara], em San Vicente, para conferenciar sobre os postos aonde se haviam de fazer certas atalaias, de ordem do Senhor Don Francisco, e estando comendo, descobriu-se uma partida de cerca de 30 cavalos recolhendo o gado do lugar. Achavam-se com os cavalos que haviam trazido os dois governadores e os do lugar cerca de 40, com os quais saíram logo ambos os cabos. Cria o inimigo que não havia mais que os cavalos do lugar e assim levava só os que eram bastantes para os romper, e com esta confiança cerrou confiadamente com os primeiros; porém reconhecendo maior número do que ali havia, se pôs em fuga, suspeitando que estavam ali juntas as tropas para algum fim, mas não o fez tão a seu salvo que não deixasse cerca de 20 cavalos. Morreu nos primeiros encontros o governador de Albuquerque Armesto, de uma estocada, que causou lástima por ser moço e recém-casado e homem de valor, se bem que de curto talento.

No fim deste ano entrou nesta praça o general da artilharia Don Gaspar de la Cueva, irmão do Duque de Albuquerque, que vinha suceder a Don Diego Cavallero. Saíram a recebê-lo os generais, mas não se lhe fez salva de artilharia, e se fez a Don Diego Cavallero quando se foi, e ao general da cavalaria quando veio os dias passados de Madrid. É um cavaleiro muito apaziguador, e que afecta muita simpatia com todos, e por isto bem visto geralmente.

(continua)

Fonte: “Relación diaria de los sucesos acaecidos entre los años 1655 a 1656” (Biblioteca Nacional de Madrid, Sala Cervantes, Colección Mascareñas, Manuscrito nº 2384, fls. 253-254).

Imagem: Cavalaria, período da Guerra Civil Inglesa (meados séc. XVII). Pintura do século XX.

Relação diária dos sucessos ocorridos entre os anos 1655 a 1656 na fronteira da Extremadura espanhola (parte 3)

Continuando a transcrição/tradução para português do manuscrito:

Pelo princípio de Agosto [de 1655] intentaram 100 cavalos da guarnição de Olivença a Talavera, e lançaram uma partida de 30 a recolher algum gado com desdém, que carregada dos cavalos daquele quartel, que sabiam não passavam todos de 60, se fossem a meter na emboscada e lhes quitassem alguns cavalos. Estava em Talavera por capitão-mor antigo Don Felipe Vicentelo, por estar ausente Don Diego Quixada, governador daquelas tropas, e estar enfermo Don Diego Farni, que havia entrado na companhia de [cavalos] couraças da guarda, e a do general, com que se encontravam mais de 160 cavalos. Que sacou Don Felipe a arma e enviou ao seu tenente com uma partida de 30 cavalos, que carregasse a que levava a presa, que o fez vivamente. E Don Felipe lhe foi dando calor [ou seja, apoio] quase até descobrir os outros cavalos do inimigo, donde cerrando, o nosso tenente foi rompido e perdeu alguns cavalos, não havendo resolvido Don Felipe a cerrar, suspeitando [que] era mais numeroso o inimigo. E tendo sabido dos soldados que fez prisioneiros os cavalos que haviam saído de Talavera, e temendo os que saíam de Badajoz, [o inimigo] largou logo a presa e se retirou a toda a a pressa, podendo, segundo se disse, ter tido Don Felipe um famoso dia, se se resolvesse a investir, sobre o que se lhe deu alguma repreensão depois.

Pelo fim de Agosto chegou aviso a esta praça, do Montijo pela manhã, que o inimigo, com até 90 cavalos, se havia arrimado ao lugar e levava uns bois, e que às companhias que ali assistem as haviam metido a cutiladas no quartel, e tomando-lhes quatro cavalos. Com este aviso que pouco depois também veio de Talavera, saiu daqui com as tropas o comissário geral Don Cristóval de Bustamante, e teve ordem Quixada para sair com as de Talavera e Lobón ao meio dia. Saiu Bustamante ao Cerro da Galdina, desde onde sem deter-se enviou até 100 cavalos até Arronches, a reconhecer uma poeirada que se descobriu, crendo [que] era o inimigo. Não toparam com nada estas tropas, ainda que todas depois estiveram em Vilar del Rey, passagem que precisamente havia de ir a buscar o inimigo, segundo souberam das línguas que tomaram de Campo Maior. Não se deteve ali Bustamante, ainda que constava que o inimigo não se havia ainda retirado, e sem fazer outra coisa se retiraram as tropas, muito trabalhadas [ou seja, cansadas] da longa marcha, ao outro dia pela manhã, sendo constante que mais pela nossa má disposição que pela boa dos inimigos, retiraram a presa, quando tinham já ordem para descartar e salvar-se, não parecendo possível que pudessem retirar-se por aquela passagem sem serem descobertos das nossas tropas, mas fizeram-no depois que as nossas se retiraram. Estranhou-se que o Senhor Don Rodrigo Moxica, encontrando-se aqui e não havendo nenhuma cavalaria nestas praças, não fosse a esta ocasião, que havia sonhado mais ruidosamente quando veio o primeiro aviso. Porém se foi nessa mesma tarde à caça às lebres, sem haver-se sabido nada das tropas.

No dia seguinte, à noite, voltaram a sair todas as que haviam ido à área do Montijo, e com elas o Senhor Don Rodrigo. Acreditou-se que era o motivo muito grave, suposto que era a vez primeira que montava com as tropas e se atropelava pelo inconveniente de estarem muito cansadas da marcha do dia e noite antecedentes, em que se haviam maltratado muitos cavalos. Porém depois de regressados à praça, se supôs que o desígnio foi só comboiar uns 15 infantes irlandeses que foram substituir outros que estavam em Albuquerque, que retirou havendo levado as tropas por Vilar del Rey e fazendo-as passar outra marcha bem penosa, sem outro fruto.

(continua)

Fonte: “Relación diaria de los sucesos acaecidos entre los años 1655 a 1656” (Biblioteca Nacional de Madrid, Sala Cervantes, Colección Mascareñas, Manuscrito nº 2384, fls. 252-253)

Imagem: Choque de cavalaria; óleo sobre tela, escola holandesa, meados do século XVII.

Relação diária dos sucessos ocorridos entre os anos 1655 a 1656 na fronteira da Extremadura espanhola (parte 2)

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Prosseguindo a transcrição/tradução para português do manuscrito, ano de 1655, refere-se aqui a tentativa de tomada pela traição de Salvaterra do Extremo. Acerca deste peculiar episódio da Guerra da Restauração veja-se também os estudos de Gastão de Melo de Matos (“Soldados da Guerra da Aclamação. O General de artilharia Antonio Suares «O Machuca»”, in Anais da Academia Portuguesa da História, I série, vol. VI, 1942, pp. 131-250) e Juan Antonio Caro del Corral (“La frontera cacereña ante la Guerra de Restauración de Portugal: Organización defensiva y sucesos de armas (1640-1668), in Revista de Estudios Extremeños, 2012, Tomo LXVIII, Número I, pp. 187-226), este último publicado aqui.

Por estes dias houve algumas partidas em que se tomaram cavalos de uma parte e outra, ocasionado tudo não tanto da indústria de quem os tomava, quanto do descuido de quem os perdia, que por se escusar prolixidade não se referem.

Pelos fins de Junho saiu desta praça o Senhor Don Francisco Tutavila, publicando [no sentido de “tornando público”] ia a Guadalupe a ver-se com seu irmão Don Vicêncio Tutavila, que havia de ir ali da Corte. Mas como de Mérida tomou a volta de Cáceres, se deixou com publicidade que ia a surpreender Salvaterra [do Extremo, em Portugal] por trato, como era a verdade, havendo conversado com o governador daquela praça, que se dizia o sargento-mor António Soares da Costa, um fidalgo de Ceclavin chamado D. Afonso de Sande, pessoa inteligente e letrado, o qual, havendo falado diversas vezes com o tal sargento-mor em trajo de contrabandista, e dado conta de tudo a Don Luís de Haro, primeiro-ministro de Sua Majestade, se ajustou que lhe dariam 4.000 ducados de renda, um hábito [não especificado, mas referindo-se provavelmente a um colar em ouro de uma ordem religioso-militar, em uso na época] e outras mercês que pediu, e que [n]o dia de São Pedro entregaria aquele castelo. A disposição era que aquele dia haviam de entrar com o Sande até 30 em pequenos grupos de quatro e cinco com suas mercadorias, que uma partida nossa neste tempo havia de arrimar-se à praça e levar o gado que topasse, que o governador arrolaria a guarnição até à ribeira, e que então se apoderariam os nossos do castelo [em] que estavam dentro, e 100 cavalos e 150 infantes que haviam de estar emboscados junto à praça cortassem a guarnição quando saíssem sobre a partida, e depois entrassem no castelo, onde também havia quantidade de mercadorias. Não deu disposição o governador a que se executasse [n]o dia assinalado, se bem prometeu que prestes avisaria o dia. Com isto o Senhor Don Francisco, sem arrimar-se a Alcântara, passou ao largo, pelas barcas de Alconétar a Plasência, e dali aos lugares que havia comprado, onde se entreteve mais de 15 dias aguardando o dia. Assinalando-lhe o governador para 15 de Julho, em tempo que o Duque permanecia em Jaraíz, sem embargo procurou apressar-se para estar em Ceclavín no dia assinalado. Mas quando chegou já havia marchado o Sande com os seus 28 companheiros, todos vizinhos de Ceclavín e seus amigos, e entre eles o alferes Don Juan Flores, cavaleiro de Alcântara que estava ali casado com manteúda do Sande, o qual, persuadido da boa fortuna que esperava, não quis senão participá-la aos seus. Entrou em Salvaterra na forma ajustada, e das línguas se supôs depois que assim como iam entrando as partidas, os iam degolando, e ao Sande por último o botaram em uma peça, que era a senha que havia posto o governador para que arremetesse a nossa emboscada. Mas não se moveu nada, porque sem a senha tinham outra contra-senha o cabo da emboscada e o Sande, que era uma luva cortada em duas partes, e a que levou o Sande havia de enviar com um dos seus. Por isto não logrou o governador o dano que pensou fazer, tendo toda sua gente disposta na muralha, e as peças apontadas à porta com bala de mosquete [ou seja, cartuchos repletos de balas de mosquete para efectuar “tiro de metralha” a curta distância] para quando se aproximassem os nossos, mas não supôs a contra-senha. E o cabo da emboscada, havendo esperado algumas horas depois que se disparou a peça, como não lhe vinha a meia luva, suspeitando logo foi. Depois de dar parte ao governador de Alcântara, a Zarza se retirou com sua gente. Escandalizou a crueldade que se fez com os da surpresa, e se estranhou muitíssimo que se tivesse intentado, depois de estar tão pública, que até as línguas [ou seja, civis e militares capturados a fim de obter informações] que se traziam de Elvas e Campo Maior sabiam disto. Mas o haver sido disposição de Don Luís de Haro e a confiança que o Sande tinha do governador e do bom sucesso, e a instância que fez para a execução, foi causa que se atropelasse tudo, temendo quiçá o Senhor Don Francisco o culpassem na Corte, à sua frouxidão ou sua malícia, se não a executara.

(continua)

Fonte: “Relación diaria de los sucesos acaecidos entre los años 1655 a 1656” (Biblioteca Nacional de Madrid, Sala Cervantes, Colección Mascareñas, Manuscrito nº 2384, fls. 251-252)

Imagem: O que resta dos panos de muralha do castelo de Salvaterra do Extremo: somente partes que estão inseridas em casas de habitação particulares, na actualidade.

Relação diária dos sucessos ocorridos entre os anos 1655 a 1656 na fronteira da Extremadura espanhola (parte 1)

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Foi-me remetido pelo estimado amigo Juan António Caro del Corral, há já alguns anos e sob a forma de fotocópia autorizada, um manuscrito em língua castelhana acerca dos acontecimentos desenrolados no teatro de operações da Extremadura, durante a Guerra da Restauração, no período compreendido entre 1655 e 1656. Dado o objectivo de divulgação histórica deste blog e o valor intrínseco deste documento, inicia-se aqui a transcrição (numa tradução para português) do referido manuscrito, intitulado “Relación diaria de los sucesos acaecidos entre los años 1655 a 1656” (Biblioteca Nacional de Madrid, Sala Cervantes, Colección Mascareñas, Manuscrito nº 2384). No final será feita uma análise das situações nele referenciadas, comparando com casos similares apresentados em documentos coevos portugueses.

Estremadura, Ano 1655

Por fim deste mês de Fevereiro saiu desta praça [Badajoz] Don Diego Cavallero, general da artilharia do exército, a quem Sua Majestade fez general da cavalaria da Catalunha.

Poucos dias depois se deu a artilharia deste exército a Don Gaspar de la Cueva, irmão do Duque de Albuquerque. E por haver morrido em aquele tempo o Conde de Tronçan, governador político e militar de Alcântara e seu distrito, se lhe deu também a Don Gaspar aquela ocupação, que ele solicitou vivamente, persuadido, segundo dizem, porque era aquele governo de grandes conveniências. Mas desenganado brevemente, fez denúncia [ou seja, quitação] dele sem haver saído da Corte, e se deu ao Conde Don Felix de Zuñiga, cavaleiro sevilhano que serviu, segundo se diz, em Alemanha, e se lhe deu com o título de general da artilharia de Sevilha, que tinha seu antecessor.

Por estes dias vieram algumas tropas de infantes de Sevilha, e da Corte dos irlandeses que ali levanta o sargento-mor Don Ricardo. E porque em Albuquerque e Valência de Alcântara não havia infantaria forasteira, por haverem-se ajustado as companhias da Província que guarneciam aquelas praças, se enviaram cinquenta ou sessenta irlandeses a cada praça, os quais se mudam desta praça cada mês ou cada dois meses.

Também vieram por esse mesmo tempo 200 infantes de Jaén, que levantou ali o mestre de campo D. Pedro de Viedma, e os conduziu seu sargento-mor e quatro capitães, e ficou Viedma com outros capitães para continuar a leva, que há-de ser de mil infantes, para cujo efeito de despacharam deste exército dois oficiais de soldo com o dinheiro necessário. Pareceu esta gente de Jaén melhor que a de Sevilha, mas também fugiram alguns deles, [tal] como dos sevilhanos, não obstante que o socorro [ou seja, dinheiro e víveres] se tenha continuado com pouca ou nenhuma interpolação. A pouca inclinação à guerra, a carestia do lugar, que é grande, e finalmente o trabalho contínuo de estar de guarda ordinariamente os vai arrolando cada dia daqui, que como nunca chega a haver a guarnição necessária em esta praça, pelo vagar com que se levanta esta gente é preciso que esses poucos que há façam as guardas e todas as demais tarefas, que houvera algum alívio se essa gente viera junta e não em partes.

Por estes dias entrou sem ordem em Portugal uma partida de dez ou doze tenentes vivos e reformados e outros oficiais e pessoas particulares, e trazendo uma presa de 80 rezes maiores, saiu outra partida de Arronches algo maior em número. Porém vendo o desenfado e resolução com que os nossos os procuravam na escaramuça, consideraram que era toda gente escolhida [ou seja, soldados escolhidos pela experiência e veterania, como que de elite] e nunca ousaram cerrar [ou seja, carregar]. Porém vieram sempre à vista, para se poderem lograr de alguma situação de descuido, como sucedeu, porque a nossa partida, desvanecida de ver o temor ou tibieza dos contrários, resolveu fazer alto e descansar um pouco da noite de trabalho da marcha, que havia sido grande. Assim se puseram a dormir como se não houvera inimigo no mundo, o qual, por assegurar-se se os nossos dormiam ou só haviam feito alto um pouco para descansar, se confirmou que dormiam e que estavam para demorar, vendo que ia outro soldado mudar o posto. Então, cerrando com os sentinelas, os prenderam, e carregando de improviso sobre os demais, que quase todos se encontravam a dormir e descuidados, prenderam oito ou dez e tiraram-lhes a presa e os cavalos. Só escaparam alguns poucos, e porque foram sem ordem, prenderam dois tenentes vivos que tinham ido com eles.

Outro dia, havendo saído desta praça uma manhã a guarda a bater e a pôr as sentinelas, chegou uma partida à casa d’El-Rei para deixar ali, segundo é costume, uma sentinela, e havendo-a posto sem reconhecer a casa, foi dando a volta a outros postos. Encontrava-se dentro o negro de Campo Maior com 4 cavalos, que é um partidário famoso, o qual se havia escondido ali por não poder escapar-se de outra sorte das nossas partidas que haviam saído a bater. E vendo a que se encaminhou à casa, esteve resolvido a render-se, mas como viu que não haviam reconhecido a casa, quiçá parecendo-lhes que o inimigo não viria a emboscar-se no mesmo posto onde se põe a sentinela nossa, logo que viu sozinhas as sentinelas, e desmontadas, saiu muito silencioso com os seus e as prendeu, e se foi a Campo Maior sem oposição por descuido dos nossos, pois só as sentinelas eram bastantes para prendê-lo dentro da casa, se a tivessem reconhecido.

(continua)

(fls. 250-251)

Imagem: Cavaleiros num campo, óleo de Philips Wouwerman, século XVII.

André de Albuquerque Ribafria e a incursão a Valência de Alcântara (Junho de 1651) – parte 2

Continuando a transcrição da narrativa:

De maneira que fomos marchando aquela noite, e quando amanhecia já nós todos estavamos emboscados [a] um quarto de légua do lugar [cerca de 1.200 metros]. E o capitão Duarte Lobo da Gama foi com a sua tropa, que eram 100 cavalos, por outra parte, para avançar à vila quando chegassem as horas apontadas. De modo que depois de nós estarmos ali já descansados uma hora, já tínhamos dado de comer aos cavalos, chamou o general André de Albuquerque ao meu capitão Francisco Pacheco Mascarenhas, a quem era muito afeiçoado por seu valor e prudência, e lhe disse que, de todos os capitães que consigo tinha, não tinha de quem confiar aquela ocasião senão dele. E assim que lhe ordenava que, quando […] a ele lhe parecessem horas de meio-dia, que poderia já a gente então estar fora nas eiras, havia de ir com sua tropa a rédea solta direito às portas. E que se as achasse abertas, se metesse por dentro delas e as defendesse com todo o risco, para que o inimigo as não fechasse, porque logo nas suas costas haviam de ir cem cavalos para ficarem aí da banda de dentro, em seu lugar. E assim como estes 100 cavalos chegassem, fosse logo direito às portas do castelo e as defendesse também, para que não entrasse ninguém lá dentro. E em caso que as portas da vila estivessem fechadas, aguardasse aí até que chegasse a nossa infantaria, que logo havia de ir nas nossas costas com grande passo. E haviam de levar um petardo para lhe porem às portas e entrar tudo junto dentro.

De modo que se averiguava não haver jamais em guerra alguma quem semelhante ordem desse, nem quem tal jornada como aquela por aqueles modos desse, porque era tão certa a perdição, que não havia quem fizesse conta da vida. Porque assim como o meu capitão ouviu as ordens ao general, lhe respondeu: “Eu hei-de fazer o que Vossa Senhoria me manda, mas também lhe lembro a Vossa Senhoria que vou a botar a minha companhia num passo sem remédio de esperanças de a tornar a ver mais, porque ainda que na vila não haja mais que 50 mulheres com pedras, bastam para me consumir toda a companhia antes que siga a demais gente, e se eu achar fechada muito mais depressa a perderei. Mas contudo o que se oferecer hei-de dar cumprimento às ordens que Vossa Senhoria me dá”.

Assim como o meu capitão se despediu do general, veio a falar com todos os soldados e dizer-lhe[s] da ordem que trazia. Que cada qual de nós tratasse de se confessar e pôr-se bem com Deus, porque podiam fazer pouca conta da vida, que de nenhum modo lhe sentia remédio, pois o risco era tão certo. Não houve soldado que logo se não fosse a confessar a uns frades de São Francisco que ali iam connosco, e o nosso capitão também e todos os mais. De sorte que o capitão que esta jornada traçou estava uma meia légua [cerca de 2,5 quilómetros] de nós para avançar a uma das portas, que eram duas, e a mesma ordem que a minha companhia tinha também ele lá onde estava havia de fazer o mesmo, que já levava a ordem quando se apartou de nós.

Estavamos já aguardando pela desgraçada hora para avançarmos quando nisto vem um soldado, dos que lá tinha Duarte Lobo onde estava. E assim como nós o vimos vir, logo ficámos mais alegres, por nos parecer haveria alguma novidade que nos servisse de bem. E assim como chegou a nós, trazia um rapaz castelhano na garupa do cavalo, e buscando logo ao general, lhe entregou o rapaz, para que lhe perguntasse o que havia na vila de novo. O qual rapaz o devia de mandar ali Deus Nosso Senhor para nos trazer tão boas novas, que se não o apanhavam, tudo se perdia sem remédio. O que o rapaz disse ao general foi que havia três ou quatro dias que havia fugido um trombeta de Marvão para lá, e disse que estando em Castelo de Vide ouvira dizer que o terço estava aparelhado, aguardando por gente, que haviam de vir a Valença, e assim que logo se preveniram até ver em que parava aquela nova. E que não estava ninguém fora nas eiras nem em todo o campo. Que ele havia ficado aquela noite fora, para ir pela manhã a restrigar as estrigas do trigo segado e que não achariam mais pessoa alguma fora, em razão da nova.

Assim como o general ouviu o rapaz, sentiu muito as novas por uma parte, e por outra a estimou muito mais, por ver que havia de perder a maior parte da gente que levava. E assim não houve soldado nem capitão que não dissesse que não foi o rapaz, senão algum anjo que nos trouxe tais novas. Mandou logo o general aviso [a] Duarte Lobo que, se pudesse retirar-se de modo que não o vissem do lugar, se viesse logo, e quando não, que viesse à vista dele. Mas que não botasse nem um cavalo a vila. Assim como Duarte Lobo saiu donde estava, logo foi visto da vila e lhe atiraram duas peças, mas não lhe fizeram nada. E assim como veio, logo o general se pôs em marcha com a gente na via de Castelo de Vide. e nós viemos para Elvas mui enfadados da marcha, porque andámos no decurso dela 29 léguas [cerca de 145 quilómetros], que como era em Junho faziam muito grandes calmas [ou seja, calor] e vinha a cavalaria destroçada e a infantaria acabada.

E com esta jornada são três as que se deram a Valença, e com as primeiras duas serem bem más, muito pior havia esta de ser, se não fora a fortuna de acharmos o rapaz que nos livrou, com as novas, de um grande perigo como era o em que nos havíamos de ver. E assim que imagino que já os nossos governadores se têm desenganado com Valença, pois lhe há dado muitos desgostos e perda de muita gente.

Fonte: MMR, pgs. 207-273.

Imagem: Valência de Alcântara (foto de JPF).

André de Albuquerque Ribafria e a incursão a Valência de Alcântara (Junho de 1651) – parte 1

De regresso às memórias do soldado Mateus Rodrigues (Matheus Roiz), encontramos a narrativa de uma incursão levada a cabo pelo general da cavalaria André de Albuquerque Ribafria a terras de Valência de Alcântara. Ou melhor, a ousada tentativa de tomar aquela bem fortificada vila, numa antecipação do que só sucederia, de facto, daí a 13 anos. Passemos à narrativa:

Assistia em a praça de Castelo de Vide, de guarnição, o capitão de cavalos Duarte Lobo da Gama; e tinha uma grande companhia de cavalos neste tempo, que passavam de 100, e havia já 5 ou 6 anos que ali assistia. E Valência de Alcântara, que é uma vila do inimigo toda murada, com um bom castelo e vila de 800 vizinhos. Com esta tal vila tomaram os nossos generais tal teima que haviam lá ido já duas vezes com poder fora esta, mas de ambas ficámos mui mal de partida […]. De sorte que esta Valença não está de Castelo de Vide mais que três léguas [cerca de 15 km], e suposto que esta vila tem sempre uma [ou] duas companhias de cavalo, contudo este Duarte Lobo nunca jamais saía dela com a sua companhia, que lhe trazia tudo quanto andava fora e sabia aquela campanha a palmos, e pelo decurso dos tempos foi tomando o pulso à vila. Que veio o tempo das eiras, do qual lhe viu este capitão tantos riscos no modo com se haviam em a debulha, que quando eram horas de jantar [ou seja, a “hora de almoço” dos nossos tempos] e à tarde não ficava na vila mais que uns velhos e umas velhas, que toda a mais gente se saía fora às ervas que se faziam em o rossio, que fica da muralha um tiro de mosquete à roda da mesma vila. E vendo este nosso capitão a largueza com [que] esta gente se alargava toda com tanta facilidade, que tomou motivo para vir a dar parte disto ao mestre de campo general Dom João da Costa e ao general da cavalaria André de Albuquerque.

De maneira que veio Duarte Lobo de Elvas e deu miúdas contas a Dom João da Costa sobre a matéria, e ao general da cavalaria, dizendo-lhe que se acaso tivessem tanta ventura que colhessem a gente fora da vila em as eiras, que não havia duvidar de se tomar a vila. Mas que havia de ser necessário tratar-se a coisa com muito segredo, por que não houvesse algum aviso, pois o caso era de grande perigo havendo de acharem a gente dentro quando avançassem à vila. De modo que informado mui bem no caso, Dom João da Costa o consultou com André de Albuquerque, general da cavalaria, o qual ocupou logo Dom João da Costa que havia de ir conseguir a dita empresa.

Que quem bem souber a jornada que foi e a traça e ordem com que queriam tomar esta vila dirá quem o entender, que não era possível conseguir-se desta jornada senão muitas desaventuras e que nunca jamais ninguém tal podia fazer.

De modo que se foi Duarte Lobo para Castelo de Vide deixando já os nossos generais consertados de se aprestar a jornada. E assim que logo se começou a aprestar com tal segredo que não houve jamais ninguém que imaginasse coisa alguma senão quando íamos marchando para Portalegre, que por aí era a nossa marcha. Mas como ia tão pouca gente nunca jamais podíamos suspeitar que íamos a Valença, porquanto havíamos já lá ido duas vezes, uma com 4.000 homens e ficaram lá mais de 500, e a outra vez com 3.000 homens e ficaram lá mais de 600. E assim que nunca jamais nos podia persuadir que lá iríamos.

Contudo, como fizémos a marcha direitos a Castelo de Vide, que nem dentro da vila fomos senão meia légua [cerca de 2,5 km] de fora da vila e já o terço de Castelo de Vide estava fora e a companhia de cavalos do mesmo Duarte Lobo. E assim como nos incorporámos todos, fazíamos número de 1.000 infantes e 800 cavalos, e assim como nos quisemos pôr em marcha logo se averiguou a certeza do que até então o tínhamos em grande dúvida. Mas se bem é verdade não havia soldado nem capitão que não fosse já lançando as contas ao grande perigo que se nos oferecia, vendo que era impossível o livrar dele.

Marchámos dali do pé de Castelo de Vide, e quando quis marchar o general com a gente foi por todas as tropas dizendo aos capitães que se havia algum cavalo nas suas companhias que relinchasse ou desse coices, que os tirassem para fora, porque os havia de mandar para Castelo de Vide por não ser sentido, porque já dali adiante era terra arriscada a sentirem-nos. Mas bem escusávamos tantos segredos, que tão público era já para com o inimigo, porque como o terço de Castelo de Vide havia 4 ou 5 dias que estava avisado para ir connosco, mas não sabiam donde, mas como desta vila de Castelo de Vide não fica outra entrada senão para Valença, em tendo a gente desta vila algum aviso para se aprestarem, logo botam os sentidos que seja para irem a Valença. E como com o aviso que tinham, havia já um rom-rom de que a ida seria a Valença.

Estava em esta vila de Castelo de Vide um trombeta de Marvão. E assim como ouviu as novas que corriam, fez que se ia para Marvão e deu consigo em Valença. E assim como chegou disse que ouvira dizer em Castelo de Vide que estavam esperando por gente que havia de vir de Elvas e que haviam de ir lá. Assim como o governador de Valença ouviu ao trombeta a nova, logo avisou pela posta a Badajoz e preveniu-se muito bem, vendo em que parava aquela notícia, que como estava já escaldado de duas vezes que haviam lá ido, prevenia-se logo a qualquer notícia que tivesse.

(continua)

Fonte: MMR, pgs. 267-270.

Imagem: Valência de Alcântara; perspectiva dos arredores a partir da fortaleza, na actualidade (foto de JPF).

O capitão da ordenança e de auxiliares Luís Machado de Miranda: perfil de um combatente

Do estimado amigo Carlos P. M. da Silva recebi um interessante artigo que, com a devida autorização do autor, a quem agradeço, passo a reproduzir aqui.

Aventuras do capitão Luís Machado de Miranda: perfil de um homem muito completo

Entre os nomes bem conhecidos, quase familiares, dos investigadores e genealogistas que frequentam a Guimarães seiscentista, e o eixo Guimarães-Famalicão, temos Luís Machado de Miranda (Guimarães S. Paio, 1620 – Vermoim, 1695). Amplamente referido nos livros paroquiais, como padrinho, testemunha ou como pai de meninos da freguesia, com seus irmãos da Casa da Breia (Vermoim); nos livros da Câmara de Guimarães, como homem da governança, vereador, e como capitão de ordenanças no período conturbado da Guerra da Aclamação. Junto dois documentos que revelam um perfil um pouco mais completo desta interessante e ativa personagem.

Aspecto intelectual:

muito lido e de grande memoria, foi o tombo das familias do Minho. Fonte: “Livro das genealogias nobres deste reino de Portugal” dos apelidos que pertencem à letra M” – ver Machados da Breia- folha 264.

https://digitarq.arquivos.pt/viewer?id=4187624

Estado de serviço na guerra:

serviços […] feitos em capitão de uma companhia da ordenança da vila de Guimarães do ano de 1640 até o de 1647 em que foi promovido a capitão de auxiliares na mesma comarca.

o ano de 1641 assistir de guarnição na praça de Melgaço por duas vezes provendo os soldados da sua companhia e indo a Ponte das Vargas rebater os inimigos com muito risco de sua pessoa acompanhando depois o capitão-mor de Guimarães ao castelo de Lindoso / Sendo dos primeiros que cometeu a trincheira e no saque de seis lugares na entranda do lugar de Lamas e queima de um reduto;

o ano de 1642 acompanhar com dois homens a sua custa um comboio de munições [da coroa], na entrada que se fez por Galiza em que se saquearam e queimaram muitos lugares ocupando os postos mais perigosos / Sendo dos primeiros que investiram e entraram a vila de Lobeira;

o de 1643 nos repetidos rencontros da passagem do Rio Lima e tomada de Salvaterra na entrada daquela praça gouvernou um troço de mosqueteiros e tornando o inimigo sobre ela se lhe encarregar um lanço de muralha que defendeu com valor;

o de 1644 na entrada do lugar de São Bartolomeu das Eiras aonde foi ferido com um chuço na braço esquerdo e na entrada do lugar de Tamuge;

o de 1646 na peleja sobre a trincheira de Salgoza;

e o de 1647 assistindo com sua companhia na praça de Salvaterra Se achar no encontro que houve com duas tropas inimigas adiantando-se a guardar o passo de uns valos em que pelejou com muito valor até o mandarem retirar;

e depois de ser nomeado capitão de auxiliares assistir do ano de 1648 até o de 1654 na raia da Portela do Homem aos rebates que se ofereceram e rebater a entradas do inimigo com dois criados e cavalo a sua custa.

Fonte : Diligência de habilitação para a Ordem de Cristo de João de Sequeira Monteiro.

https://digitarq.arquivos.pt/viewer?id=7757999

Documento também ilustrativo, talvez, do que podia ser a participação de tropas vimaranenses nas operações militares da fronteira do Minho durante a Guerra da Restauração (1640-1668).

Imagem: Combate de cavalaria; autor desconhecido, pintura a óleo, séc. XVII.

Cavalaria da Ordenança de Évora em 1650

A criação de cavalos para a guerra era onerosa, estando a ela obrigados os que possuíssem bens (estipulados por lei) suficientes para suportar tal encargo. Daqui resultava que fossem formadas voluntariamente algumas unidades de cavalos da milícia da ordenança. Uma vez que os cavalos deviam servir na guerra, por que não com os seus proprietários montados, ou pelo menos com alguém de sua confiança? A sua principal função era a protecção contra as incursões inimigas, mas ocasionalmente podiam retaliar, indo pilhar ao outro lado da raia. A ligação destas unidades à população residente estendia-se aos oficiais que as comandavam, com frequência membros da pequena nobreza local ou bem aceites pelas governanças e, de uma maneira geral (ou assim as fontes pretendem fazer acreditar), pelos povos.

Uma carta do governador da comarca de Évora, D. António Álvares da Cunha, dirigida ao Conselho de Guerra em 1650, demonstra a importância dessa aquiescência dos povos em relação aos oficiais comandantes, quando estes não provinham da localidade ou localidades que deviam fornecer as montadas e sustentar a unidade militar. Na referida carta, salientava o governador da comarca que António Ferreira da Câmara, fidalgo da Casa de Sua Majestade, o qual recebera patente de capitão de uma das companhias cavalos que estavam para se formar na cidade de Évora, era o fidalgo mais bem quisto do povo e o de mais experiência e valor, pois fora capitão de infantaria durante nove anos de guerra (desde o início do conflito, portanto). E que por isso deveria governar a cavalaria da ordenança daquela comarca, assim por sua qualidade, como pelos seus serviços. Reforçando esta sugestão, salientava também que o capitão tinha gasto a maior parte da sua fazenda ao serviço de Sua Majestade, e que a outra parte está “infestada pelo inimigo” – ou seja, parte das terras que possuía se encontravam ocupadas pelos espanhóis.

A resposta do Conselho de Guerra foi favorável à nomeação daquele oficial, mas com algumas condições; assim, conforme se pode ler, o dito capitão governará, pela antiguidade, a cavalaria da ordenança da comarca de Évora, desde que não se incorpore esta com cavalaria paga, e que enquanto durar tal ocasião vença o soldo que toca ao capitão de cavalos, conforme às ordens de Vossa Majestade, como vencem os capitães de infantaria de auxiliares, que é conforme à resolução que Vossa Majestade tem tomado.

Fonte: ANTT, CG, Consultas, 1650, mç. 10, consulta de 27 de Agosto de 1650.

Imagem: Cena de guerra – cavalaria procedendo a pilhagens e conduzindo prisioneiros (ou fazendo recrutamento forçado). Óleo sobre tela, Philips Wouverman, 1650.

Um olhar sobre a defesa do Reino do Algarve em 1662

A província mais meridional de Portugal – tradicionalmente designada por Reino do Algarve – foi um palco secundaríssimo da Guerra da Restauração. O limes de extensão reduzida e a defesa natural proporcionada pelo Guadiana salvaguardaram o Algarve das operações de pequena guerra, tão frequente noutras partes. Nunca se materializou a ameaça (sempre latente, contudo) de um desembarque inimigo que viesse abrir uma nova frente de guerra. De resto, as principais forças do Reino do Algarve eram deslocadas, como as de outras províncias, para o Alentejo, sempre que era necessário consolidar ali o esforço militar contra as invasões encetadas pelo exército espanhol da Extremadura.

Todavia, as preocupações em manter uma força minimamente preparada para acudir a qualquer situação estavam sempre presentes. Tal como a penúria de meios com que esbarrava esse intento.

Em Junho de 1662, o Conselho de Guerra pronunciava-se sobre uma carta de 30 de Março de 1662, enviada pelo mestre de campo António Galvão – um veterano soldado de fortuna, de origem plebeia. Este tinha sido nomeado para o governo de Cabo Verde. Contudo, devido às operações militares no Alentejo, foi-lhe ordenado que permanecesse no Reino do Algarve (onde estava há 9 anos, governando Castro Marim) e tivesse o terço pago pronto para marchar sobre o Alentejo. E suposto que a idade e achaques o impossibilitavam para este trabalho, tendo-o continuado nesta Coroa há trinta e dois anos, não queria faltar ao serviço de Sua Majestade, embora com sentimento de não levar um terço como levara no ano de 1658 (como mero apontamento, refira-se que a Majestade a que António Galvão se dirigia era a Rainha regente, na altura da redacção da carta; todavia, dois dias depois da consulta aqui reportada, D. Afonso VI assumiria, de facto, o trono, através de um golpe palaciano que afastou a sua mãe do poder),  Refere António Galvão que por várias ocasiões, estando na Corte, solicitou se reenchesse o terço, e o mesmo havia solicitado ao governador do Algarve. O terço conta 500 soldados, 300 dos quais têm alguma luz do exercício, os restantes foram-lhe dados no dia em que marchava, despidos, descalços e sem espadas, tirados os mais deles de guardar gado. Sugere por isso que o terço se preencha com 300 soldados retirados aos Auxiliares, que desta maneira seria Vossa Majestade melhor servido, e levantar em Alcoutim outros 150, por ser o termo muito grande e ter muito boa gente. Afirma-se de coração e alma estar pronto a sacrificar a vida pelo Rei, e que este se lembre, se ele morrer, de proteger os seus dois filhos, que ficam sem remédio. O Conselho de Guerra dá o parecer que se faça toda a mercê ao mestre de campo, e nesse sentido é assinado o decreto régio em 28 de Junho.

Fontes: ANTT, Conselho de Guerra, Consultas, 1662, maço 22, consulta de 21 de Junho de 1662; e Secretaria de Guerra, Lv.º 28.º, fl. 65 v, carta régia de 1 de Julho de 1662.

Imagem: Soldados a jogar com bola, óleo sobre tela, escola italiana, século XVII.