Formações e manobras dos soldados de infantaria

Nesta interessantíssima página de Barry L. Siler encontramos exemplos práticos (excelentemente animados) das diferentes formações e manobras que os soldados de infantaria do século XVII deviam executar – entre outras informações muito úteis para quem queira aprender um pouco mais sobre os meandros da disciplina militar do período da Guerra da Restauração.

As manobras apresentadas baseiam-se na obra do coronel inglês Wiliam Barriffe (1600-1643), Military Discipline: or the Young Artillery-Man, Mars his Triumph, and Some Brief Instructions for the Exercising of the Cavalry, or Horse-Troopes (edição de 1661).

Imagem: Batalha de Ameixial, 1663 (água-forte anónima). Detalhe das formações e combate de infantaria. BNL, Iconografia, E649A.

Um escocês ao serviço de D. João IV – o mestre de campo David Caley (2ª parte)

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No início do ano de 1644, David Caley recebeu o comando de outro terço da ordenança de Lisboa, que devia ser formado com uma mescla de recrutas inexperientes e reformados (oficiais tornados excedentários devido à dissolução das suas unidades, os quais passavam a  receber uma pequena fracção do soldo e podiam ser incorporados de novo, mesmo como simples soldados). Estas unidades novas da ordenança, destinadas a combater nas fronteiras, eram constituídas apenas por um período de três meses, findo o qual oficiais e soldados eram desmobilizados. Em Fevereiro de 1644 ainda faltavam três companhias para completar o terço, que também necessitava de capitães e de um sargento-mor. Foi com este terço que, em Maio, Caley se bateu na batalha de Montijo, a qual provocou uma razia no exército do Alentejo. David Caley regressou a Lisboa para assumir o comando de um de três novos terços da ordenança, rapidamente levantados para suprir as baixas sofridas. Ainda com pouca instrução militar e sem armas, os cerca de 1.000 homens foram conduzidos pelo mestre de campo até Estremoz, onde finalmente receberam armas e munições capturadas aos espanhóis durante a campanha do ano anterior. Daí, partiram para Olivença, onde ficariam a fazer parte da guarnição.

David Caley conhecia agora muito bem o exército português, as suas características e principalmente as suas fraquezas. Ele e outros oficiais providenciavam instrução militar com regularidade aos soldados, mas tudo isso seria desperdiçado quando a unidade fosse desmobilizada, findos os três meses de serviço. Escreveu ao Conselho de Guerra a esse propósito e foi o próprio Rei que, em resposta à solicitação do escocês, enviou uma carta ao então governador das armas da província, Matias de Albuquerque, Conde de Alegrete:

Conde de Alegrete amigo, Eu El-Rei vos envio muito saudar como aquele que amo. David Caley me pede em uma carta que me escreveu, mande que a gente do seu terço seja paga, pois se conhece que de o não ser resulta grande desserviço [ou seja, prejuízo] meu, servindo os oficiais da primeira plana só três meses do ano e estarem ociosos os nove restantes no castelo de Lisboa, e por outras razões que se deixam considerar, para que o ensino e exercício que se vai dando à gente de que hoje se compõe o terço, se não perca por se ir afeiçoando a este exercício, estando já hoje de sorte que os mais aceitarão o não sair dele, podendo-se também considerar grande conveniência em que se pode poupar o trabalho e gasto que se faz em novas levas, encomendo-vos que inteirado de tudo e mandando-vos informar por um tenente de mestre de campo general, ou por quem melhor vos parecer, se os soldados deste terço, sendo da leva dos três meses, se acomodarão de sua própria vontade a assentar praça e ficar servindo nele de soldados pagos, me avisais do que se vos oferecer sobre esta matéria para se tomar nela a resolução que mais convenha a meu serviço. Escrita em Alcântara a 30 de Junho de 1644. Rei. (ANTT, Secretaria de Guerra, Livro 5º, fl.153 – a ortografia foi actualizada; as restantes fontes e bibliografia serão referidas no final desta série de artigos.)

O terço foi elevado à categoria de tropas pagas, mas as previsões optimistas não se confirmaram. Muitos soldados acabaram por não se adaptar à vida na fronteira de guerra e as deserções foram aumentando. Em Março de 1645 o terço foi dissolvido. A próxima etapa na carreira de David Caley passaria pela província da Beira.

(continua)

Imagem: Infantaria do período da Guerra Civil Inglesa. Reconstituição histórica, Kelmarsh Hall, 2007. Foto de Jorge P. Freitas.

Postos do exército português (2) – o soldado de cavalaria

Sobre o soldado de cavalaria, trago aqui as considerações de D. João de Azevedo e Ataíde. Este oficial relativamente obscuro, apesar de referido em várias Relações propagandísticas dos feitos de armas do início da guerra, foi comissário geral da cavalaria do exército do Alentejo entre 1644 e 1647. Deixou a carreira das armas sem glória, mas com algum proveito material, na última destas datas. Deixou também um esboço manuscrito de tratado militar sobre a cavalaria, cuja transcrição estou a ultimar e que será integrada numa resenha biográfica do ex-oficial a publicar em breve. Como curiosidades adicionais, refira-se que D. João de Ataíde foi responsável pelo recrutamento do soldado e memorialista Mateus Rodrigues, o qual serviu sob seu comando nos primeiros seis anos da guerra e do fidalgo nos legou um testemunho bem mais rico que o da literatura panegírica impressa; e que D. João foi trisavô, pela parte materna, de Sebastião José de Carvalho e Melo, Conde de Oeiras e Marquês de Pombal.

O trecho aqui transcrito para português corrente corresponde às pgs. 17 a 23 de Regras militares da cauallaria ligeira compostas per Dom João de Azeuedo e Attayde, Comissario Geral da caualaria, do exercito, e Prouincia do Alentejo [manuscrito composto após 1644, provavelmente 1644-47].

O soldado de cavalaria

O soldado que se resolver assentar praça de cavalos deve dar por entendido que há-de servir e trabalhar sem passar a vida ociosamente, como muitos cuidam, porque os trabalhos, e principalmente os da cavalaria, são contínuos, de dia ao sol, de noite ao sereno, aos rigores dos tempos, sem ter vontade própria, sofrendo as sem razões de seus superiores, as más pagas dos Príncipes, obrigados a pelejar com risco da vida todas as vezes que o seu capitão quiser, e ainda alguma vez o inimigo, contemporizando com as rigorosas leis da honra e do mundo, certo o perigo, o prémio duvidoso, ou porque o pobre soldado não chega a alcançar o favor dos que governam, ou porque sendo as coisas limitadas, não pode haver prémio para todos (…).

Convém que o soldado de cavalo seja curioso do seu cavalo, trazendo-o sempre bem pensado [isto é, alimentado – o penso era a ração de cevada para a montada], não se desprezando de o limpar por suas próprias mãos (…). Na mesma forma se deve prezar muito do conserto e limpeza de suas armas, porque além de parecerem bem na paz, no tempo da peleja as armas reluzentes metem medo e temor ao inimigo (…).

Deve saber qualquer soldado governar e moderar o seu cavalo, sem o trazer desabrigado e descomposto, correr e escaramuçar assim por terra firme como pela áspera, subir e descer desenvoltamente por um e outro lado, armado e desarmado, que suposto que esteja em uso o subir e descer pela parte esquerda do cavalo, porque por ali fica mais à mão a espada e faz menos estorvo (…), contudo será importante acostumar-se a cavalgar pelas partes ambas (…).

Saberá desenvoltamente jogar todas as armas de cavalo, na tropa [designação para companhia, ou a subdivisão táctica desta, ou a formação táctica designada por batalhão] e fora dela, donde andará com bom conserto, dobrando quanto necessário for, e sucedendo por algum caso duvidar-se, se saberá tornar a reunir e juntar na tropa em seu lugar, sem se perturbar nem confundir (…).

Acudirá dos primeiros em ouvindo que se toca as trombetas, ocupando o lugar que lhe tocar, havendo de marchar seguirá ao que direitamente for diante dele, conservando-se na sua fileira, e na ordem que o seu capitão lhe dá. E quando a não chegue a alcançar de boca, fará e guardará o que vir fazer aos outros que vão diante dele. Dando a carga [quer dizer, disparando a arma de fogo] tornará a carregar depressa, contanto que com muita pressa não acerte a não carregar como convém. Por nenhum modo dará a sua carga senão muito a tempo, e quando puder, de modo que possa fazer golpe, porque o mais é perder pólvora [e] ficar desarmado ao melhor tempo.

Imagem: Combate de cavalaria – Arronches, 8 de Novembro de 1653. Painel de azulejos seiscentistas, “Sala das Batalhas”, Palácio dos Marqueses de Fronteira. Foto do Comandante Augusto Salgado.

Termos militares do século XVII (1) – a infantaria

Joane Mendes de Vasconcelos foi general e membro do Conselho de Guerra durante a Guerra da Restauração. Era filho de Luís Mendes de Vasconcelos, escritor e tratadista militar dos inícios do século XVII (autor da Arte Militar, da qual só foi publicada a primeira parte em 1612). Com uma larga experiência militar, adquirida nos campos de batalha europeus ao serviço da monarquia dual e no Brasil, Joane Mendes foi encarregado por D. João IV de comentar o projecto manuscrito de Ordenanças Militares de 1643. Embora o projecto nunca tenha sido publicado, as práticas seguidas e muita da regulamentação impressa posteriormente demonstram a sua influência informal – ou, em certos casos, o prosseguimento de linhas de conduta que antecediam o projecto e que este procurou uniformizar.

O militar e investigador dos finais do século XIX e princípios do XX, Cristóvão Aires de Magalhães Sepúlveda, publicou o projecto de Ordenanças Militares e os respectivos comentários de Joane Mendes de Vasconcelos no 3º volume da Historia Organica e Politica do Exercito Português – Provas (Lisboa, Imprensa Nacional, 1908). Nessa mesma obra publicou também um manuscrito intitulado Advertências de Joanne Mendes Sobre Alguas Cousas Militares, com conselhos para o treino dos soldados e o significado de alguns termos militares usados na infantaria. É com base nesse documento que aqui são apresentados esses termos, que em certos casos também se aplicavam à cavalaria.

Disciplina militar – consiste em entender as ordens, conservar as distâncias e manejar as armas; isto se deve ensinar aos soldados, porque sabendo-o, se pode esperar que com facilidade e confiança executem tudo o que lhe for encomendado. Neste pressuposto, chegados os soldados à praça de armas e ajustados aos seus lugares, a primeira coisa que se deve encomendar é a obediência e o silêncio, ensinando-lhes que coisa é Esquadrão, Batalha, Guarnição, Manípulo, Fileira e Fila.

Esquadrão – é toda a quantidade de gente unida, armada de piques, mosquetes e toda outra sorte de armas, ordenadamente repartida em manípulos, filas e fileiras. [O termo para a formação táctica correspondente na cavalaria era batalhão, mas por vezes ambos os termos eram utilizados na infantaria e na cavalaria.]

Batalha – É uma quantidade de soldados unidos e armados de piques, ordenadamente repartidos em manípulos, filas e fileiras.

Guarnição – é o manípulo de gente armada de mosquetes, posto ao lado da batalha dos piques, repartido em filas e fileiras.

Manípulo – é o número de soldados piqueiros, ou mosqueteiros, ou de qualquer outra sorte de gente armada e unida, a tantos por fileira, a cinco, a seis, ou mais ou menos, repartidos em fileiras e filas.

Fileira – é o número de gente posta igual uma de outra, de ombro a ombro, ordenadamente em linha recta.

Fila – é o número de gente posta de trás uma da outra, em linha recta de peito e espalda.

Manga – é o manípulo de gente que, tirado fora do esquadrão, se põe diante e detrás dele, sobre os ângulos, em conveniente distância.

Ala – é o manípulo de gente posto ao lado do esquadrão, depois da guarnição, em conveniente distância, e que fecha o lado da manga da vanguarda até o da retaguarda.

Endireitar as fileiras (prática de treino) – Depois dos soldados conhecerem todos os termos acima referidos [o que não seria fácil a início, dado que os homens eram na sua maior parte analfabetos e completamente ignorantes dos assuntos militares], e estando nos lugares destimados, ordenará o cabo que se endireitem as fileiras, ou seja, que fiquem os soldados em linha recta de ombro a ombro. Mandará a seguir que se endireitem as filas, ou seja, que se ajustem os soldados uns detrás dos outros, de modo que fiquem em linha recta de peito a espalda. Ordenará também que se tomem as justas distâncias, mas porque estas são muitas, a saber, para marchar em ordenança, com o pique ao ombro, para pelejar contra a infantaria ou cavalaria, para fazer voluções, conversões e diversões, é necessário declarar e explicar as ditas distâncias, para não confundir os soldados.

Distância de marchar em ordenança – Para marchar, ou parar em ordenança com o pique ao ombro, será a distância de sete pés geométricos de peito a espalda, e três de ombro a ombro.

Distância para pelejar infantaria contra infantaria – Será a distância três pés de ombro a ombro, e outros tantos de peito a espalda.

Distância para pelejar contra cavalaria – Será a distância de pé e meio de peito a espalda e de ombro a ombro.

Distâncias para fazer voluções, conversões e diversões – Alguns preferem que seja de seis pés de ombro a ombro e de peito a espalda, outros preferem cinco somente.

Gravura: Formatura militar no Terreiro do Paço. Museu da Cidade de Lisboa, autor desconhecido, 2ª metade do século XVII.