O quadro do Marquês de Leganés sobre o combate de Alcaraviça (2 de Novembro de 1645)

Entre Março e Abril de 2019 foi aqui de novo tratado o combate de Alcaraviça, a propósito de um quadro que o Sr. José Maria Villanova-Rattazi Guillén, descendente do Marquês de Leganés, tem em sua posse e do qual gentilmente me havia cedido várias fotos para aqui publicar. O tempo tem sido escasso para manter actualizado o blog, devido a compromissos profissionais e particulares, mas não quis deixar terminar o mês de Setembro sem publicar uma foto do referido quadro já restaurado.

A ele voltaremos em breve, para abordarmos os pormenores do armamento e equipamento das forças em contenda. Desde já, renovo os meus agradecimentos ao Sr. José Maria Villanova-Rattazi Guillén.

O combate de Alcaraviça (2 de Novembro de 1645) e o quadro do Marquês de Leganés – 2.ª parte: a narrativa de Mateus Rodrigues (Matheus Roiz)

Do sucesso do Marquês de Leganés também faz eco o memorialista Mateus Rodrigues. A sua unidade, comandada por D. João de Azevedo e Ataíde, esteve envolvida nas operações de intercepção da força espanhola – aliás, sem sucesso.

O episódio das Vendas de Alcaraviça é referido pelo memorialista, neste caso não por tê-lo testemunhado, mas provavelmente por dele ter ouvido contar a terceiros. Segue-se uma transcrição vertida para a grafia actual:

Estando o inimigo nestas competências, […] lhe veio um aviso de uma espia dobre [ou seja, um espião que fazia jogo duplo, dando informações para ambos os lados], […] que as ordenanças de Évora estavam em Estremoz, e que vinham para Elvas tal dia. […] Pois o aviso era tão certo […], porque a mesma noite que o inimigo saiu, essa mesma veio a gente [da ordenança] a dormir às Vendas d’Alcaraviça, que são duas léguas de Estremoz. E ao outro dia se haviam de vir para Elvas, que são 4 léguas, de maneira que o inimigo entrou com a cavalaria por entre Elvas e Juromenha, e logo foi sentido na entrada. Mas não que se soubesse o poder que levava, senão pela manhã, que ele ia em grande marcha pela estrada abaixo de Estremoz. A gente de Évora já se queria vir, que estava já fora das estalagens para marchar. Vinha com eles por cabo [ou seja, comandante] um sargento-mor mesmo de Évora. E como o inimigo foi logo sentido por aqueles campos, iam muitos lavradores fugindo em éguas, dando avisos do inimigo. E tanto que o sargento mor da gente ouviu dizer que vinha o inimigo, meteu toda a gente, que eram 600 homens, todos em uma grande tapada, que estava ao pé das estalagens, com parede à roda, que dava pelos peitos a um homem, que se fora gente paga não houvera de investir com eles o poder do mundo. Mas aquela canalha, não servem mais que de beber, que são uns bêbedos, e o sargento-mor que vinha com eles outro tal, e pior ainda.

Assim como o inimigo chegou a um cabecinho que está à vista das mesmas estalagens e já muito perto, logo viu toda a gente metida na tapada. E assim como a viu formou-se mui bem e manda tocar as trombetas a degolar, e vai investindo com eles por duas ou três partes. E assim como averbou com eles, não puderam logo saltar os cavalos a parede, mas apearam-se uns poucos de castelhanos e fizeram logo uns por todos, que passaram os batalhões formados, e a tudo isto os bêbedos ia[m] fugindo cada um por onde podia, mas que lhe importava isso, que dos 600 homens que eram não escaparam 100, que deu o inimigo neles e foi degolando todos os que iam encontrando, até que se enfadou de matar e os mais trouxe prisioneiros, que matou mais de 200 homens e trouxe prisioneiros perto de 300. (MMR, pgs. 134-136)

Embora os pormenores não sejam muito nítidos nas fotos disponibilizadas pelo Sr. José Maria Villanova-Rattazi Guillén (veja-se a 1.ª parte deste artigo), o quadro corrobora a descrição feita por Mateus Rodrigues. A infantaria portuguesa encontra-se formada em dois pequenos esquadrões (designação coeva para as formações tácticas de infantaria),  cujos blocos são exclusivamente constituídos por piqueiros. Os atiradores (quase certamente munidos de arcabuzes, como era frequente entre a ordenança) estão dispostos ao longo do muro que delimita a tapada, disparando sobre o inimigo. Uma parte da força portuguesa já está em fuga, após o dispositivo ter sido penetrado pela cavalaria espanhola. Como cada companhia tinha uma bandeira e no quadro se podem ver quatro (duas delas levadas pelos alferes em fuga, as outras nos respectivos esquadrões ainda formados), é possível que o terço da ordenança fosse composto por quatro companhias de 150 homens cada, o que mais uma vez confirma o efectivo de 600 homens referido nas fontes – e desmente o número exagerado (1.000) apresentado na legenda do quadro.

Imagem: pormenor da legenda do quadro mandado pintar pelo vitorioso Marquês de Leganés, onde o número dos portugueses derrotados é superior ao que as fontes escritas referem. Mas este exagero de propósito laudatório era comum no período.

 

 

 

O combate de Alcaraviça (2 de Novembro de 1645) e o quadro do Marquês de Leganés – 1.ª parte

Um dos primeiros artigos publicados neste blog, no já distante ano de 2008, foi acerca da destruição da ponte de Nossa Senhora da Ajuda, ou ponte de Olivença, pelas forças espanholas comandadas pelo Marquês de Leganés, numa operação decorrida em Setembro de 1645. Mais tarde, a 2 de Novembro desse mesmo ano, uma incursão sob o comando do mesmo Marquês desbaratou um terço da Ordenança de Évora – um verdadeiro desastre para as forças portuguesas – no que ficou conhecido como o combate das Vendas de Alcaraviça (na actual localidade de Orada, próximo de Borba, e não na moderna Alcaraviça). Em 2009, um muito interessante artigo amavelmente enviado pelo Sr. Santos Manoel foi aqui publicado em duas partes, tendo eu feito um breve acrescentoposteriormente. E em 2010, o estimado amigo Julián García Blanco voltou ao assunto, num artigo também aqui publicado.

Recentemente, tive a grata surpresa de ser contactado pelo Sr. José Maria Villanova-Rattazi Guillén, descendente do Marquês de Leganés, que tem em sua posse um quadro a óleo mandado pintar por aquele seu distinto antepassado, de forma a perpetuar o combate de 2 de Novembro de 1645, no qual as suas forças obtiveram uma retumbante vitória.

Com a devida autorização do Sr. José Maria Villanova-Rattazi Guillén, aqui publico uma das fotos que gentilmente me enviou. Num próximo artigo, dando continuidade ao que aqui se apresenta, voltaremos ao quadro – uma raridade no que toca à iconografia bélica da Guerra da Restauração –  e aos interessantes pormenores que retrata.

 

 

A situação militar na província da Beira em Junho-Julho de 1645

Meulener

Em 10 de Julho de 1645, o Conselho de Guerra era informado acerca da situação militar na província da Beira, através de um conjunto de cartas enviadas pelo governador das armas, D. Fernando Mascarenhas, 1º Conde de Serém, e do tenente de mestre de campo general João Lopes Barbalho. Na verdade, pelo menos uma das cartas foi colocada no maço em data posterior à data da consulta, visto ter sido remetida de Penamacor em 8 de Julho.

Vejamos como relatava o Conde a situação na província que governava, transcrevendo a sua carta de 25 de Junho de 1645, remetida de Salvaterra do Extremo:

(…) O tenente de mestre de campo general me disse havia de fazer a Vossa Majestade a relação da entrada do inimigo em Portugal, e da festa que ontem nos veio fazer com grande quantidade de cavalaria e duzentos e sessenta infantes; eu estou informado de eles haverem trazido pouca pilha [o Conde quer dizer que levaram para Espanha pouca pilhagem], e ainda essa que trouxeram têm seus donos a culpa, porque tendo aviso de que o inimigo juntava poder, os avisámos que estivessem alerta, e em que tirando uma peça e fazendo facho era sinal que o inimigo estava em Portugal. Assim que chegou aviso, que era uma para as duas, depois da [sic] com grande cuidado tirou e fez facho e nem tanto daí a meia hora, pela manhã, tirámos outra peça a que nos respondeu Idanha, com que fiquei descansado e imaginando que tudo havia recolhido. Na mesma manhã nos trouxeram duas línguas e soubemos delas haverem passado as tropas de Alentejo a noite de sexta-feira e naquela haverem vindo duas para a Zarza, bem entendi eu a peça, vieram-nos tocar arma (…) de que eu zombei bem, e não houve lugar de lograrem os zarzos seu desejo. Dizem estes homens que dizem em Alcântara que temos grande governo, se nós nos víramos com poder não haviam eles de fazer tantas pilharias, por mais que a sua gente cobrisse estes campos, que pela conta eram mais de seiscentos homens de cavalo, afora os que iam com a tropa da pilha que era de dragões. E dizem uns muchachos, que vinham tangendo as ovelhas, que vinham desarmados, dizendo que os haviam enganado os sarcenhos [naturais de Zarza la Mayor] que não levam nada, o que eu posso assegurar a Vossa Majestade é que se nós tivéramos boa artilharia, que lhe havíamos de fazer muito dano, mas não deixámos de lhe fazer algum, de um tiro dou eu fé, que derrubou um do cavalo, e também uma emboscada que lhe tinha o tenente-general feita lhe houvera de matar alguns, se antes de eles chegarem a tiro uma pessoa, que ele deve dizer a Vossa Majestade, não mandara disparar e descobrir a gente, alguns lhe haviam de ficar, como na refrega passada ficaram, que dizem esses línguas que lhe matámos na refrega passada muita gente, e entre eles um capitão de cavalos e um tenente e dois dos principais da Zarza; eles não podem ter aqui muito esta gente e devem ir dando por todas as nossas fronteiras, vendo se podem fazer algumas pilhas [isto é, pilhagens], e não era mau avisar Vossa Majestade a Castelo Rodrigo e a Alfaiates e a Almeida que recolham os gados, que nunca a prevenção fez mal (…).

Na mesma data, o tenente de mestre de campo general João Lopes Barbalho enviou de Salvaterra uma outra carta, com teor muito semelhante à do governador, mas num português mais escorreito. Dois dias mais tarde, o Conde de Serém expedia outra carta, dando conta de que Salvaterra do Extremo se encontrava cercada pelo inimigo. Uma outra carta, remetida de Penamacor em 1 de Julho, dava conta da situação militar na província e referia que o tenente de mestre de campo general se encontrava em Idanha-a-Nova com 200 infantes pagos e 200 cavaleiros. A quinta e última carta, incluída no lote dos anexos em data posterior à da consulta, refere que o inimigo, devido à superioridade numérica da sua cavalaria, se encontrava senhor da campanha e não se lhe podia impedir as pilhagens, tendo realizado algumas entradas.

Fonte: ANTT, Conselho de Guerra, Consultas, 1645, maço 5, doc. nº 81, consulta de 10 de Julho de 1645 e cartas anexas.

Imagem: Combate de cavalaria (pormenor), óleo de Pieter Meulener.

Procedimentos irregulares de oficiais estrangeiros: o caso dos capitães La Morlaye e Tamericurt (1645)

Na sequência de um artigo anteriormente publicado, que tratava das atitudes perante os estrangeiros, trago aqui uma consulta do Conselho de Guerra que se reporta a um dos vários casos que contribuíram para que as dúvidas acerca da utilidade dos oficiais estrangeiros se adensassem, na fase inicial da guerra, em particular entre os anos de 1643 e 1645.

O facto é que os militares estrangeiros viam os seus soldos serem pagos com uma irregularidade que podia ir de meses a anos. Ao contrário dos portugueses, que sempre tinham mais facilidade em encontrar meios alternativos junto das populações, aos estrangeiros restava o recurso a expedientes ilegais. Daí a intervenção dos embaixadores, no sentido de poupar os oficiais infractores aos castigos que deviam incidir sobre os actos ilegais que praticavam. Umas vezes com mais sucesso, noutras nem tanto.

Todavia, os casos que a presente consulta aborda dizem respeito a dois oficiais franceses que viriam a distinguir-se ao serviço da Coroa portuguesa: Achim Avaux de Tamericurt, que atingiria o posto de governador da cavalaria da Beira, com a patente de tenente-general, e que só abandonaria o exército para regressar a França em Outubro de 1661 (acompanhando na ocasião D. Catarina de Bragança na sua viagem para Inglaterra), e Henri de La Morlaye, primo e homónimo de um outro La Morlaye (cavaleiro da Ordem de Malta, daí a sua alcunha “o Maltês”) que havia morrido em combate em Outubro de 1642. Também este La Morlaye viria a tombar em combate, quando era comissário geral da cavalaria de Trás-os-Montes, em Maio de 1649.

A consulta refere que o Conde de Castelo Melhor enviara uma devassa (que surge em anexo à consulta, juntamente com a informação do auditor geral) que a instâncias de André Mendes Lobo, pagador geral do exército do Alentejo, fora feita aos capitães de cavalos franceses Henri de La Morlaye e Achim de Tamericurt. Do primeiro foram encontrados cinco cavalos com a marca da sua companhia em poder de alguns hortelãos e moleiros, e da companhia de Tamericurt dois cavalos. Acrescentava-se que estes capitães procuravam pessoas que lhes quisessem tomar outros.

Mais referia a devassa que nas mostras de três anos àquela parte tinha passado o capitão de Lamorlé [La Morlaye] muitas fantásticas e falsas, e que para uma que se havia de passar em Borba fizera que dois soldados seus se fingissem enfermos em cama, tomando os nomes de outros dois que eram já mortos ou ausentes, ordenando a um escrivão os fosse ver nas camas e lhe passasse certidão para com ela na mostra lhe pagarem suas praças. E aponta o Conde que as intercessões do embaixador de França são tão poderosas que estes capitães não são castigados como merecem.

O Conselho de Guerra dá parecer que não se admita ao Embaixador qualquer intercessão nestes casos, nem a outra pessoa, para que os oficiais sejam castigados, porque assim convém o serviço do Rei.

O próprio Rei dá parecer favorável em 11 de Julho, acrescentando: com se falar em nada ao Embaixador de França. Ou seja, mantendo em segredo os castigos a serem aplicados aos oficiais.

Fonte: ANTT, Conselho de Guerra, Consultas, 1645, mç. 5, consulta de 4 de Julho de 1645.

Imagem: Soldado de dragões armado de arcabuz. Gravura francesa de meados do século XVII.

As atitudes perante os estrangeiros – um exemplo de 1645

A presença de oficiais e soldados estrangeiros em Portugal no decurso da Guerra da Restauração já foi abordada aqui por diversas vezes, em vários artigos e sob diferentes perspectivas. O caso que agora se apresenta é ilustrativo do desencontro de opiniões sobre a necessidade ou não do recurso a estes militares profissionais, que tão depressa eram considerados imprescindíveis para reforçar a capacidade de combate do exército português (principalmente na fase inicial do conflito), como eram vistos como dispensáveis arruaceiros e potenciais desertores, que nenhum benefício traziam para o esforço militar do Reino.

Em Agosto de 1645, o tenente francês Jean Boustier de Lanue, que havia chegado a Portugal em Setembro de 1641 como alferes de infantaria, enviou ao Conselho de Guerra uma petição para a formação de uma companhia de infantaria. Encontrava-se então sem contrato nem unidade onde servir desde o início do ano. A falta de montadas terá levado o oficial a propor-se servir numa unidade apeada, formada por si, ainda que a promoção não lhe trouxesse avanços no que ao soldo respeitava – um tenente de cavalos estrangeiro auferia 18.000 réis mensais, ao passo que um capitão de infantaria ganhava 16.000, o dobro de um oficial português com a mesma patente. No entanto, a  efectivação dos pagamentos era uma raridade, deixando os que não eram naturais do Reino numa situação difícil, sem outros meios de socorro imediato e levando-os a praticar alguns abusos e desmandos, o que, de certo modo, é usado por Joane Mendes de Vasconcelos como justificação do seu parecer.

João Boustier de Lanüe, francês, pela petição inclusa se oferece a levantar nesta cidade [Lisboa] uma companhia de cem infantes dos de sua nação para servir a Vossa Majestade com ela, fazendo-lhe Vossa Majestade mercê do posto de capitão dela para ir servir adonde se lhe ordene.

Consta dos papéis que este francês presentou, haver servido na província de Entre Douro e Minho de tenente de uma companhia de cavalos, de 17 de Setembro de 643 até 20 de Janeiro de 645, e achar-se no decurso deste tempo em todas as ocasiões e encontros que se teve com o inimigo, e nas facções de maior importância nos postos de maior risco, mostrando grande valor e zelo do serviço de Vossa Majestade.

Havendo-se visto esta oferta, considerando D. João da Costa e Jorge de Melo que será conveniência do serviço de Vossa Majestade admiti-la, assim por escusar que estes franceses vão descontentes a sua terra e lancem voz da pouca estimação que deles se fez neste Reino, intimidando outros para duvidarem vir a ele quando a necessidade obrigue a procurá-los, como porque sendo soldados práticos poderão servir melhor que os bisonhos que se levantarem de novo, e fazendo-o na infantaria não terão tanta ocasião de se ausentar, como a teriam se servissem a cavalo, por todas estas razões são de parecer que Vossa Majestade deve de admitir a oferta, ordenando que a cada um dos cem soldados se dê uma paga de quatro mil réis para se poderem vestir, e seus socorros ordinários na forma que são socorridos os soldados portugueses, e depois de formada esta companhia se poderá remeter ao Alentejo, com ordem ao Conde governador das armas que agregue a um dos terços daquele exército.

Joane Mendes de Vasconcelos é de parecer que não se deve de admitir esta oferta, entendendo que sendo esta gente a escória de todos os estrangeiros que passaram a este Reino, não servirá tão bem como o farão os soldados portugueses, ainda que sejam bisonhos, entendendo também que estes franceses, estando já costumados à vida de vagabundos, como se virem com as pagas e vestidos, por mais cuidado que se tenha com eles procurarão fugir, e que o receio do dano que eles podem causar indo-se descontentes deste Reino mal se poderá atalhar com os acomodar, sendo já idos tantos de mais autoridade e importância que eles, queixosos de não se lhes pagar o que se lhes devia, despedidos do serviço de Vossa Majestade, a cujas queixas é de crer se dará mais crédito nas suas terras, do que se dará a estes, sendo gente de tão pouca importância. Lisboa 22 de Agosto de 1645.

O Rei acrescenta à margem, como resposta ao parecer: Tenho deferido noutra consulta. Caldas, 13 de Setembro de 645.

Jean Boustier de Lanue seria mais tarde promovido a capitão de dragões, tendo morrido em combate em Dezembro de 1646.

Fonte: ANTT, Conselho de Guerra, Consultas, 1645, maço 5, consulta de 22 de Agosto de 1645.

Imagem: “O cavaleiro”, óleo de Gerard Terborsch.

Uma altercação entre militares e eclesiásticos em São João da Foz (1645)

O forte de São João Baptista da Foz do Douro, cuja construção foi iniciada em 1571, durante o reinado de D. Sebastião, estava necessitado de obras de remodelação quando começou a Guerra da Restauração. O francês engenheiro-mor do reino Charles Lassart elaborou o traçado dos melhoramentos e ampliação do forte em 1642, tendo as obras ficado a cargo do engenheiro João Torriano. Contudo, os trabalhos foram sendo atrasados devido a problemas surgidos com a Câmara do Porto. Um dos muitos e frequentes episódios de conflito entre os poderes locais e as autoridades militares.

Em 1645, quando ocorreu o acontecimento narrado numa consulta do Conselho de Guerra e que vai ser aqui transcrito, as obras ainda não tinham começado. O choque entre o governador do forte e as autoridades eclesiásticas teve por causa próxima um incidente de costumes, mas não terá sido alheia a difícil relação entre civis e militares por motivos que transcendiam o que aqui vai ser apresentado. No entanto, todo o sucedido é demonstrativo de quanto o que hoje consideramos ser a esfera da vida privada estava sujeito ao escrutínio do público, ao nível da moral e dos costumes.

O cabido da Sé da cidade do Porto deu conta a Vossa Majestade dos excessos que diz haverem cometido Luís Pinto de Matos, capitão do castelo do lugar de São João da Foz, e seu filho e um sobrinho, de que indo os oficiais da justiça eclesiástica àquele lugar para notificar a uma mulher com que este capitão está publicamente amancebado, que aparecesse ante o vigário geral para ser admoestada na forma do Sagrado Concílio Tridentino, o dito capitão com seu filho e um sobrinho, e soldados do castelo, saíram aos oficiais e os espancaram, afrontaram e trataram muito mal, e que Vossa Majestade informado do caso, mandara a alguns ministros da Relação fizessem certa diligência e a remetessem a este Conselho. E por o capitão ser poderoso, se não fez obra no negócio, de que resultou fazerem a Vossa Majestade nova lembrança com a cópia dos autos que se fizeram dos ditos excessos para Vossa Majestade os mandar ver, e mandar acudir ao serviço de Deus com o castigo que merecem, pois os ministros eclesiásticos o não podem fazer, dizendo mais que este capitão tem a ocasião das portas dentro, e neste estado quer que o pároco o desobrigue da obrigação da Igreja, e lhe administre os sacramentos da confissão e sagrada comunhão.

Para se tomar resolução neste negócio, mandou Vossa Majestade por carta assinada de sua real mão ao chanceler da Relação do Porto, informasse do que passava neste caso, e ele o fez no papel incluso, no qual diz que viu os autos que o vigário geral e o cabido da Sé do Porto remeteu a Vossa Majestade com a queixa que faz do capitão Luís Pinto de Matos e de seu filho e de um parente seu, informando-se da verdade do caso achou o seguinte: Que o vigário geral compreendeu na visitação ao dito Luís Pinto por andar amancebado com uma moça solteira, e à mãe por consentidora, e conforme a isto quis proceder contra eles, e mandou ao lugar de São João da Foz a Jacinto de Almeida, escrivão seu, e a um meirinho eclesiástico, para as notificarem viessem por ante ele, e como foi o escrivão e o meirinho, entenderam estas mulheres as queriam prender, pelo que valendo-se do filho do capitão, foi ele com um parente seu e outro soldado à casa onde estavam pousados, sem outras armas mais que as ordinárias, e chamando o dito escrivão, saiu ele a falar-lhe e se descompuseram, de maneira que o filho do capitão levou da espada, e ele lhe foi fugindo, e lhe deu algumas espadeiradas de maneira que caiu, e lhe deram duas feridinhas, uma na cabeça e outra numa mão, de pouca consideração; e dando-se recado ao capitão que o filho brigava, porque até então não tinha sabido nada, acudiu com alguns soldados, e chegando à parte onde estavam os companheiros do escrivão, porque tudo já estava quieto por acudir gente, e juntamente o vigário da igreja, religioso de São Bento, e começou o dito Luís Pinto a descompor-se em palavras contra os que vinham fazer as ditas diligências, dizendo que eram atrevidos em virem àquele lugar fazerem diligências que lhe tocavam a sua honra sem a sua licença, com outras iguais a estas, de maneira que os oficiais se foram sem fazer a diligência; e isto era em suma o que se passou neste caso.

E que este capitão não tem ali sua mulher, e a tem nesta cidade de Lisboa. E tinha aquela mulher que se chama Maria Tavira em sua casa, e com ela diziam estava amancebado, e o consentia a mãe Isabel Fernandes, e posto que alguns dias depois que sucedeu o caso a lançou fora, agora lhe disseram que a tornara a recolher; e assim parece a ele, chanceler, que posto que nos soldados não é muito estranhar terem por amigas mulheres solteiras, contudo o excesso do filho do capitão foi grande, e não lhe consta que o pai soubesse do que o filho tinha feito quando acudiu, mas era obrigação sua recolhê-lo e estranhar-lhe o que havia feito, e não se descompor com palavras escandalosas contra os oficiais eclesiásticos. Pelo que lhe pareceu que Vossa Majestadedeve mandar que o filho do capitão não vença soldo pelo tempo que parecer a Vossa Majestade, e que o capitão mande ir perante o governador das armas Fernão Teles de Meneses, e asperamente o repreenda do excesso que fez, fazendo-lhe fazer termo com cominação que acontecendo outra o castigará Vossa Majestade com o rigor que for servido. E a moça Maria Tavira e a mãe que dizem que consente, sejam degredadas do lugar de São João da Foz dez léguas, para que assim se evite e se atalhe este pecado.

O Conselho, conformando-se com o Doutor Lourenço Coelho Leitão, é de parecer que Vossa Majestade mande que na mesma conformidade se proceda, e que o filho de Luís Pinto de Matos, por castigo da culpa que cometeu, não vença soldo por tempo de quatro meses; e porquanto o que resulta contra Isabel Fernandes em ser encobridora do amancebamento da filha toca à Relação do Porto, se deve advertir ao governador Fernão Teles de Meneses que por aquela via se proceda contra ela, e seja castigada como for justiça. Lisboa a 7 de Julho de 1645.

A resposta de D. João IV foi a seguinte:

Como parece ao chanceler, e o soldo que não há-de vencer o filho do capitão seja por quatro meses. Rei. 11 de Julho de 645. E a Luís Pinto obrigue o Conselho a que tenha sua mulher consigo.

O capitão viria a ser afastado do cargo em 1646, e só nesse ano se iniciariam as obras de ampliação e melhoramento da fortificação.

Fonte: ANTT, Conselho de Guerra, Consultas, 1645, mç. 5, consulta de 7 de Julho de 1645.

Imagem: “O trombeta, o oficial e a moça”, óleo de Gerard Terborch (1653).