The use of uniforms during the War of the Portuguese Restoration – infantry

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O presente artigo em língua inglesa é o primeiro de uma tradução de dois artigos já publicados há anos. Por curiosidade, num curto espaço de tempo alguns leitores de língua inglesa solicitaram-me que lhes fornecesse informações sobre o eventual uso de uniformes durante a Guerra da Restauração. Deste modo, a tradução dos dois artigos corresponderá à resposta a essas solicitações.

This post in English language is the first part of a translation of two posts published here years ago. Recently, several English speakers, followers of this blog, asked me about the use of uniforms in the course of the War of Portuguese Restoration. I decided to translate the two posts in order to answer their requests. The first of them is about the infantry.

Infantry

The clothes supplied to the infantrymen of the terços (optimistically, on an anual basis) did not follow a strict uniformity in colour or pattern. It is most probable that coats, shirts and breeches occasionally had a common pattern or colour based on the facility of approvisionment from the supplier, but this was not imposed by any rule. From contemporary paintings we can see that several shades of brown and grey were usual among foot soldiers. However, there was little distinction between military and civilian clothes during most of the period of the war. Changes on fashion, especially coming from France, would dictate some differences on the patterns of coats, breeches and hats as the conflict went by.

There are some misconceptions about 17th century military clothing that still survive, usually rendered by unadvised amateur illustrators, mining the understanding of the real evolution of military (and civilian) fashion. Thus, we can still find today some drawings and paintings supposedly of “infantrymen from the War of Portuguese Restoration” which are heavily based on (or even unashamed copies of) illustrations from Jacob de Gheyn’s The exercise of arms, published in 1607. Military and civilian fashion had evolved much in the 1640s, 50s and 60s and soldiers costums resembled little with those of the late 15th and early 17th centuries.

Foreign influence was behind the first signs of the use of uniforms by Portuguese infantry during the 1660s. French and English infantry that fought alongside the Portuguese in the 1660s wore uniforms: red coats lined in different colours for each of the English regiments, and pale grey (or grey-white), probably also lined in different colours, for the French regiments; and the German-Neapolitan regiment which changed sides in 1663, after the defeat of the Spanish army of Don Juan de Austria, was put under French command and received the same pale grey uniforms of the French infantry.

Except for the English, which began using uniforms in 1645 with the New Model Army of Cromwell, the examples mentioned above may have relied on the choices of the field commanders, though in France the use of uniforms was in course in the 1660s. Some units of the Spanish army were described using uniforms by this late period of the war as well. As for the Portuguese army, the most detailed contemporary account on the use of uniforms was published in the monthly newspaper Mercurio Portuguez, in April 1664:

“On the 14th (…) by the afternoon did a splendid parade and military exercise at the Terreiro do Paço [the large place in Lisbon by the river Tagus, which was rebuilt and further enlarged after the earthquake of 1755 and is now officially called Praça do Comércio, though the older name is still widely in use] (…) the Terço da Armada [the elite infantry terço of the Navy – or, as we would call them today, Marines], of which is mestre de campo Simão de Vasconcelos e Sousa; all of them went with green coats, faced and lined in yellow; those of the mestre de campo and the officers and of some soldiers were more expensive, conforming to the posessions of each one, but the colours were the same; and so were the colours [infantry flags] and the painting on the drums (…).”

“on the 17th, also by the afternoon (…), did a similar parade and exercise at the same Terreiro the new terço of the garrison of this City of Lisbon, of which is mestre de campo Roque da Costa, all of them with blue coats faced and lined in red, more or less expensive, depending on the posessions of the wearers.”

Note that the coats were certainly of contemporary French style, following the fashion introduced by Count Schomberg.

References: Mercurio Portuguez, com as novas da guerra entre Portugal, e Castella.

Image: Portuguese soldiers on parade on Terreiro do Paço, detail of a painting by Dirk Stoop, mid 1650s.

O contrato com os capitães de cavalos da província da Beira (1663-1664)

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A introdução do contrato com os capitães de cavalos em 1647 foi uma medida destinada a reorganizar e a conferir maior operacionalidade à cavalaria do exército português. Sobre este assunto foram já publicados artigos aqui, aqui e aqui. Inicialmente só abrangeu a cavalaria do exército da província do Alentejo, por ser aí mais numerosa e mais necessária. Após a chegada do Conde de Schomberg a Portugal, o contrato foi alargado aos outros exércitos provinciais. A medida foi tomada para travar uma reorganização mais profunda que o Conde tinha pretendido: a implementação do sistema regimental, que poria fim aos privilégios dos capitães de cavalaria, principalmente à sua ampla autonomia na condução da guerra de saque e pilhagem. No caso vertente, o contrato com os capitães de cavalos da Beira foi objecto de uma consulta ao Conselho de Guerra em 1664, retomando as propostas e contra-propostas do ano anterior.

Em 21 de Março de 1663, uma carta régia dirigida ao mestre de campo general Pedro Jacques de Magalhães mandava aplicar o contrato às companhias de cavalos do exército daquela província, à semelhança do que se fazia com as do Alentejo. Os capitães e o comissário geral D. António Maldonado protestaram, tendo lavrado uma petição ao Rei, em 22 de Setembro de 1663, que foi vista pelo Conselho de Guerra, juntamente com outras cartas particulares, incluindo a do próprio comissário geral. É sobre este conjunto de cartas que se pronuncia o Conselho de Guerra em 19 de Fevereiro de 1664, nos seguintes termos:

Dado que os capitães de cavalos e o Conselho de Guerra não concorreram com o seu consentimento neste contrato, (pois fora imposto e não negociado, ao contrário do do exército do Alentejo), não era de crer que os oficiais da cavalaria estivessem de acordo com o dito contrato sem se lhes dar palha para os cavalos e sem haver dinheiro pronto para a contribuição do contrato, como se pratica no Alentejo.

O Conselho foi de parecer que se devia procurar fazer com que, dos lugares da província da Beira, se acudisse com palha para sustento da cavalaria, que se trouxesse para as praças onde assistisse a cavalaria e às casas que servissem de depósito, despendendo-se com a conta e razão que conviesse, “porque noutra forma nunca os oficiais da cavalaria podem ser obrigados às condições dele, faltando-se-lhe com estas”. Já quanto ao pedido de que se levasse em conta os cavalos que morressem nas marchas, o Conselho deu parecer negativo, devendo ser indeferido para que não se desse exemplo que poderia ser muito prejudicial ao serviço de Sua Majestade; “porém os que constar aos oficiais da fazenda que, respeito das largas marchas de Alentejo, Minho e Trás-os-Montes, morreram, e não por culpa de seus oficiais e soldados, sempre será justo se lhe levem em conta, ou faça toda a equidade, como aponta a contadoria geral na sua informação, e o Conde do prado na carta junta, como também o fez por outra o Conde de São João”.

Dando despacho à consulta, o Rei escreveu “Como parece” em 7 de Março de 1664.

Anexa à consulta e datada de 22 de Setembro de 1663, a carta dos capitães de cavalos do exército provincial da Beira é do seguinte teor:

O comissário general e capitães de cavalos da Província da Beira, que Vossa Majestade foi servido mandar por carta de vinte e um de Março de 1663 ao mestre de campo general Pedro Jacques de Magalhães, a cujo cargo está o governo das armas da dita Província, fizesse dar à execução a entrega das tropas, por arca e contrato, a eles, oficiais, na forma em que as têm os capitães da Província do Alentejo, e porque eles, suplicantes, sem serem ouvidos e perguntados para aceitarem o dito contrato, foram obrigados à dita entrega, que aceitaram por ser em tempo que estavam para marchar à província de Alentejo e não perturbarem o socorro com dilações de réplicas.

Pedem a Vossa Majestade, em consideração do amor e bom zelo com que servem, lhe faça Vossa Majestade mandar ver as razões que apontam em o papel que oferecem e remediar o dano que recebem em o contrato.

Em os últimos de Abril acodem os socorros da Província da Beira à do Alentejo, com que ficam os oficiais da cavalaria sem dar verde às suas tropas [colocar os cavalos das companhias em pastagens], e não só perdem o lucro que podiam tirar em lho dar por sua conta, e como o não comem, lhe morrem de enfermidades e com o trabalho de socorrer as Províncias aonde os mandam a melhora dos cavalos. Por que [pelo que] Vossa Majestade deve mandar se lhe levem em conta os que morrerem nestas marchas, derrogando o capítulo tantos do regimento, ou dando-se-lhe cada ano uns tantos cavalos mortos.

A falta do assento da palha diverte a condição do contrato e estilo que se guarda no Alentejo, porque Vossa Majestade foi servido mandar se fizesse a entrega das tropas, o que vem a ser em prejuízo deles, oficiais, por lhe faltar grande parte do ano a palha, com que enfraquecem os cavalos e ficam nisto incapazes de serviço.

A consignação de dinheiro à província nem é bastante para trigo e cevada e primeiras planas, com que lhe não podem pagar a contribuição do contrato, e faltando esta não é possível que eles, oficiais, metam cavalos nas tropas, e diminuindo o valor da entrega nem poderão vencer a dita contribuição da arca e contrato, nem crescerá o número da cavalaria. Por que Vossa Majestade deve de mandar fazer assento de palha como se estila na Província do Alentejo, e nomear consignação certa de dinheiro para satisfação do vencerem com contrato, porque em outra forma não poderão eles, oficiais, faltando-lhe com as condições do contrato, observá-lo.

Espera pelo bem que servem da Real grandeza de Vossa Majestade que, informando-se Vossa Majestade da verdade, lhe faça mercê de mandar compor e tomar meio capaz nesta matéria como mais convier ao serviço de Vossa Majestade. Guarde Deus a Católica e Real Pessoa de Vossa Majestade como todos havemos mister. Almeida, em 22 de Setembro de 1663.

E assim também os mantimentos que correm por conta dos capitães da Província de Entre Douro [e Minho] o ofereciam até agora.

(assinaturas de capitães): João Soares de Almeida, Fernão Cabral, Paulo Homem e mais dois ilegíveis.

Fonte: ANTT, CG, Consultas, 1664, mç. 24, consulta de 19 de Fevereiro de 1664, com anexos relativos a 1663.

Imagem: Pieter Meulener, dois óleos com temas de cavalaria seiscentista.

Acerca dos terços pagos do período da Guerra da Restauração

caballerc3ada (post)

Os terços pagos de infantaria do período da Guerra da Restauração eram unidades permanentes, como já aqui foi referido em vários artigos. Ainda que não impossível, é tarefa difícil traçar a sua evolução, dada a natureza dispersa e incompleta das fontes primárias (por exemplo, os Livros de Registo e as Consultas e Decretos do Conselho de Guerra) e a imprecisão das referências a determinadas unidades nas narrativas avulsas de combates ou mesmo na História de Portugal Restaurado, fontes impressas nem sempre fiáveis. Gastão de Melo de Matos, no já longínquo ano de 1940, traçou um esboço de história orgânica para os terços da província de Entre-Douro-e-Minho, que no entanto não teve continuidade (veja-se a ligação para a referida obra aqui).

É possível seguir a evolução das unidades se a pesquisa for orientada para o nome dos respectivos mestres de campo, já que os terços eram habitualmente designados pelo nome dos comandantes. Contudo, mesmo a emissão de uma carta patente não garante que determinado oficial tenha ocupado o posto no terço para o qual fora nomeado. Sobretudo nos primeiros anos da guerra, é possível encontrar o registo de várias cartas patente (a segunda parte dos Livros de Registo do Conselho de Guerra era dedicada exclusivamente a este tipo de documentos) cujos postos os titulares nunca chegaram a exercer. Outra das dificuldades é a ocasional troca de unidades entre oficiais por mútuo acordo, depois de já terem estado no comando dos terços por um período mais ou menos longo de tempo. Não sendo muito comum, podia no entanto acontecer, como se encontra reportado pelo menos numa ocasião.

Na consulta do Conselho de Guerra de 22 de Abril de 1664 foi analisada uma petição do mestre de campo Manuel Lobato Pinto, no sentido de lhe ser atribuído o comando de outro terço. Manuel Lobato Pinto fora nomeado para o terço comandado anteriormente por D. Pedro, o Pecinga, mas não tinha patente daquele posto por ter estado na praça de Monforte a reparar as ruínas dela. Daí fora para Vila Viçosa, por necessidade de assistência na fortificação daquela localidade. Razão pela qual entendia que se lhe devia passar patente de mestre de campo do terço que ali estava, que fora de D. Diogo de Faro, ainda que naquela ocasião o comandante do terço fosse o mestre de campo D. Francisco Henriques. Este concordava em efectuar a troca. O Conselho de Guerra deu parecer favorável à pretensão, por estarem de acordo nisso os mestres de campo e por não prejudicar o serviço das armas reais. O próprio monarca deu o consentimento em 30 de Abril de 1664.

Deste modo, o terço que fora do napolitano D. Pedro, o Pecinga e que devia ter sido comandado por Manuel Lobato, passou a ter como comandante D. Francisco Henriques, e o que este comandava e que anteriormente tinha sido de D. Diogo de Faro, passou a ser comandado por Manuel Lobato Pinto. Estas pontuais alterações tornam por vezes difícil traçar com precisão o percurso de uma unidade no âmbito da história orgânica.

Fonte: ANTT, Conselho de Guerra, Consultas, 1664, mç. 24, consulta de 22 de Abril de 1664.

Imagem: Combate do período da Guerra dos 30 Anos, pormenor de um quadro de Pieter Post.

A ascensão ao posto de sargento-mor de batalha: dois pedidos de 1664

Gerard_ter_Borch_-_An_Officer_dictating_a_Letter_c1655-58 National gallery London_X

O contexto da criação do posto de sargento-mor de batalha foi aqui apresentado num artigo, há cerca de três anos. Recomendo a sua leitura prévia, a fim de se entender a polémica da introdução do posto no exército português em 1663.

Polémicas à parte, o posto logo se tornou muito apetecível por oficiais desejosos de acrescentamento – ou seja, a obtenção de uma patente que os aproximasse do topo da hierarquia militar, não só em termos remuneratórios e de importância pessoal e social, como da própria integração no núcleo restrito da elite militar provincial. Todavia, o crivo era apertado. Os pedidos endereçados ao Conselho de Guerra não contemplavam a promoção a sargento-mor de batalha como uma mera recompensa, como se fazia, por exemplo, com o posto de tenente-general da artilharia, muitas vezes atribuído ad honorem. E mesmo militares com uma longa lista de serviços prestados viam recusados os seus requerimentos.

Dois desses casos foram tratados numa consulta do Conselho de Guerra de 18 de Março de 1664: as petições do tenente-general da cavalaria D. Martinho da Ribeira e do mestre de campo Manuel Ferreira Rebelo.

Na petição de D. Martinho, o requerente referia que servia desde a Aclamação de D. João IV como soldado, capitão de infantaria, de cavalos, comissário geral e tenente-general da cavalaria, tendo procedido sempre com grande satisfação dos seus generais, entrando em muitos combates e de todas as ocasiões recebendo cartas de Sua Majestade em agradecimento dos seus bons procedimentos, constando também das escritas pelos generais ao Rei o seu préstimo e valor. Tinha sido em muitas ocasiões gravemente ferido, tendo ficado prisioneiro e com um braço quebrado na retirada que o general da cavalaria André de Albuquerque tinha feito na ocasião em que o Duque de San Germán fora contra a sua cavalaria, armar à que assistia em Campo Maior e Elvas; e também, quando esta praça fora sitiada por D. Luís de Haro, saindo a cavalaria portuguesa a tomar quartéis e esperando que se juntasse o exército de socorro, fora D. Martinho trespassado com quatro estocadas. Depois, em todo o tempo que já assistia na Beira, ia sendo notório ao Rei o seu procedimento em tantas ocasiões, e porque estas eram de todo presentes a Sua Majestade e seus ministros, considerava que não podia haver causa para que Sua Majestade deixasse de o acomodar no que mais fosse de seu serviço, pois hoje está sem ocupação, por haver entregue a sua companhia (como Vossa Majestade mandou) ao tenente-general Gomes Freire; havendo ele, suplicante, servido de tenente-general de ambos os partidos da Beira, etendo no de Penamacor a sua casa e a sua companhia, sucedendo nela ao tenente-general João da Silva de Sousa (que era então sargento-mor de batalha na província do Alentejo). E rematava a petição lamentando-se, pois via ele suplicante que os outros se acrescentaram, diminuindo-lhe a ele o posto, havendo gastado nele tudo o que tinha de seu nos socorros a que continuamente assistia, tendo assitido no ano de 1663 na província da Beira, na do Minho, no sítio de Lapela e na do Alentejo na ocasião da batalha e na recuperação de Évora. Pedia assim ao Rei o posto de sargento-mor de batalha da província da Beira, pois não necessitava menos que os outros deste posto, ou em alternativa, do soldo de tenente-general da cavalaria para o Alentejo, onde pretendia servir.

O Conselho, embora tenha considerado que o requerente era muito merecedor de mercê régia, declarava não o poder provir no posto sem ordem expressa de Sua Majestade, por ser um acrescentamento novo.

Nos pareceres dos conselheiros, o Conde de Ericeira concordava com a opinião dos outros membros do Conselho, excepto no que tocava ao acrescentamento de posto, pois considerava que desde a sua primeira criação no exército do Alentejo dera parecer que não convinha que os houvesse, pelas razões que naquele tempo tinha apresentado a Sua Majestade.

O Conselho acrescentou que, estando para rubricar esta consulta, lhe tinha sido apresentada outra petição de teor semelhante, que foi também incluída.

Tratava-se da petição do mestre de campo Manuel Ferreira Rebelo, que servia há 26 anos nas guerras do Brasil, Alentejo e Beira, na ocupação de soldado, cabo de esquadra, sargento, alferes, capitão de infantaria, sargento-mor, tenente-general da artilharia, tenente de mestre de campo general e, naquele momento, de mestre de campo. Participara sempre com particular acordo e valor em todas as ocasiões, como fora na batalha do Canal (Ameixial), em que ele fora dos primeiros mestres de campo que tinham entrado a pelejar, e particular instrumento de lograrem as armas de Sua Majestade uma tão grande vitória. E depois na recuperação de Évora, tendo passado posteriormente à província da Beira, onde teve o sucesso que, entrando por cabo de um troço de gente em Castela, queimou e saqueou o lugar da Redonda e a vila de Ponteguinaldo, que tinha mais de 400 vizinhos, entrando-lhe o forte à força de armas, onde havia ido um exército ociosamente. E no presente momento se achava na Corte em serviço de Sua Majestade, procurando particulares da província da Beira, como tinha feito havia dois anos pela do Alentejo, diligências que os governadores das armas o encarregaram, por lhes constar do seu préstimo. E porque a tença de 40.000 réis que tinha na casa de Regalados não cobrava desde há em 3 anos; e uma capela que Sua Majestade lhe tinha feito mercê não lograva rendimento algum, e havendo um ano que servia de mestre de campo, não tinha cobrado mais que 23.000 réis de um mês de soldo para a jornada do Alentejo, com o que se achava impossibilitado de continuar ao serviço de Sua Majestade, por haver gastado nele toda a sua fazenda.

Também este requerente pedia o posto de sargento-mor de batalha da província da Beira, tendo-o já pedido a Pedro Jacques de Magalhães, governador das armas.

A ambos os casos respondeu o Rei, em 28 de Março de 1664, nos seguintes termos: Não há que tratar deste posto.

Fonte: ANTT, Conselho de Guerra, Consultas, 1664, maço 24, consulta de 18 de Março de 1664.

Imagem: Gerard Terborch, “Oficial ditando uma carta”, c. 1655-58, National Gallery, Londres.

Armas e munições existentes na praça de Valência de Alcântara após a sua conquista pelos portugueses (1664)

024_ValenciaAlcantaraUma relação anexa a uma consulta do Conselho de Guerra revela a quantidade de material de guerra (e não só) que ficou a equipar a praça de Valência de Alcântara, após a sua conquista pelo exército do Alentejo em Junho de 1664.A relação foi elaborada em Estremoz, a praça principal da província do Alentejo (o equivalente a quartel-general) desde que o Conde de Schomberg resolvera retirar essa função a Elvas, por esta se encontrar mais exposta aos ataques do inimigo. O autor da relação foi o vedor do exército provincial, João Mendes Mexia. O documento é aqui vertido para português corrente.

Sete peças de artilharia, a saber: duas de cinco libras, que se acharam na mesma praça, dois meios canhões de 24 e três peças de dez, todas montadas. _7

Quatro reparos de sobresselente. _4

Duas mil e quatrocentas balas de artilharia para as ditas peças. _2.400

Oito rodas de reparos de sobresselente. _8

Quatro eixos de sobresselente. _4

Colheres, soquetes e lanadas e o mais pertencente à artilharia

Duzentos e dezoito mosquetes e arcabuzes que se acharam nos armazéns da mesma praça. _218

Oitenta partasanas que se lhe meteram. _80

Oitocentas granadas, em que entram 244 que se acharam na mesma praça. _800

Oitenta alcanzias de barro [panela de barro com matéria explosiva] que se acharam nos armazéns da mesma praça. _80

Mil e duzentas arrobas de pólvora, em que entram 476 que se acharam na dita praça. _1.200

Seiscentas e quarenta arrobas de pelouros de chumbo, em que entram 400 que se acharam na dita praça. _400

Quinhentas e cinquenta arrobas de morrão, em que entram 200 que se acharam na dita praça. _550

Mil e seiscentas ferramentas sorteadas, em que entram noventa e oito que se acharam na dita praça. _1.600

Cem marraços que se lhe meteram. _100

Vinte e quatro machados que se lhe meteram. _24

Quinze arrobas de ferro que se lhe meteram. _15

Doze arrobas de breu. _12

Dois alqueires de alquitrã. _2

Dezoito bombas aparelhadas. _18

Dois mil saquinhos de trincheira que se lhe meteram. _2.000

Mil ceitinhas de esparto que se lhe meteram. _1.000

Trinta tabuões de plataforma. _30

Tudo o que contém esta relação ficou dentro em Valença antes de levantar o exército.

Em três de Julho deste ano se lhe remeteram de Castelo de Vide cinquenta arrobas de morrão. _50

Em quatro de Julho se remeteu desta praça oitenta barris de pólvora, que pesaram cento e cinquenta arrobas. _80

Quarenta cunhetes de pelouros de chumbo, que pesaram cento e cinquenta arrobas. _40

Vinte bombas aparelhadas. _20

Duzentas granadas aparelhadas. _200

Cem rodelas. _100

Quarenta pistolas. _40

Cem panelas de fogo. _100

Quinhentos fachos. _500

Dez arrobas de breu. _10

Duas arrobas de salitre. _2

Meia arroba de enxofre. _ ½

Meia arroba de carvão de vides. _ ½

Duas arrobas de fio de carreto. _2

Doze varas de pano de linho. _12

Meio arrátel de alcanfor. _ ½

Quatro arráteis de cera. _4

Meia arroba de sebo. _ ½

Ficaram na dita praça, para se dar princípio a fortificação da dita praça, antes de levantar o exército, trezentos e cinquenta mil réis em dinheiro. _350.000

Hoje, sete do corrente, se remeteram quatrocentos mil réis para a fortificação dela. _400.000

Cento e vinte cinco arrobas de morrão. _125

Estremoz, 7 de Julho de 1664

João Mendes Mexia

Fonte: “Rellação da Artilharia Armas e muniçoenz que se tem remetido, e ficarão na Prassa de Valença”, ANTT, Conselho de Guerra, Consultas, 1664, mç. 24, documento de 7 de Julho de 1664, anexo à consulta de 19 de Julho.

Imagem: Praça de Valência de Alcântara, in La Memoria Ausente. Cartografía de España y Portugal en el Archivo Militar de Estocolmo. Siglos XVII y XVIII, de Isabel Testón Núñez, Rocío Sánchez Rubio y Carlos Sánchez Rubio (4 Gatos, 2006).

O combate do forte de São Luís (Minho, 8 de Fevereiro de 1664)

Legerplaats, Johannes Lingelbach, circa 1650-1674

Em 19 de Fevereiro de 1664 o Conselho de Guerra tomou conhecimento de um combate travado na fronteira de Entre-Douro-e-Minho, através de uma carta que o respectivo governador das armas, D. Francisco de Sousa, 2º Conde do Prado, remeteu ao dito Conselho, para que chegasse às mãos de D. Afonso VI. Trata-se de mais uma escaramuça, das muitas que caracterizaram a longa e desgastante guerra nas fronteiras, que aqui fica narrada, através da transcrição para português corrente da carta do governador das armas, datada de 10 de Fevereiro:

Por Manuel de Barbeita, governador da praça de Vila Nova, tive notícia de que a cavalaria que o inimigo tem no forte de São Luís se alargava a forragear mais do ordinário, por ser menos precatado o novo governador daquela praça, Dom João Taboada, que o seu antecessor que ali morreu há poucos dias. Pareceu-me não perder ocasião, assim como a dispus se executou e se logrou com boníssimo sucesso. Na noite de quinta-feira, sete deste mês, mandei emboscar o capitão de cavalos António Gomes de Abreu com os batalhões [unidades tácticas de cavalaria] que governava em Coura, por impedimento do tenente-general João da Cunha Sottomayor, que tive até agora naquela parte, a respeito de recear alguma correria do inimigo. Chegou o capitão António Gomes ao lugar ordenado, separou duas partidas que por diferentes partes haviam de correr as portas de São Luís para cortarem tudo o que houvesse saído à campanha. Por cabos destes partidos foram os tenentes Francisco de Abreu e Manuel Viegas, dando escolta a estas partidas dois batalhões com os capitães Manuel Pereira de Lacerda e Nicolau Ribeiro Priado. Pela parte de Vila Nova mandei chegar àquela parte a Manuel de Barbeita com trezentos mosqueteiros para dar calor à facção, quando as nossas tropas necessitassem de socorro da infantaria. Assim estiveram uns e outros guardando pontualmente a ordem que lhe[s] dei, até quase uma hora depois de meio-dia de sexta-feira, que foi a em que se deu o sinal e saíram as partidas, e as tropas que as seguiam e António Gomes de Abreu com a reserva do que ficava se foi chegando a lugar conveniente. As partidas e as tropas procederam com tanta bizarria, que por uma e outra parte cortaram por junto as portas de São Luís e vieram varrendo com a espada na mão tudo o que havia saído. Degolaram quantidade de valões e galegos considerável, tomaram-se cinquenta cavalos, quarenta e tantos confessam os interessados, cinquenta me diz uma guia que mandei com eles, trouxeram quinze prisioneiros valões, uma e outra gente toda bem luzida, os soldados de cavalo se aproveitaram de muitos e bons coletes e vestidos. Da praça de São Luís se disparou contra a nossa cavalaria muita artilharia e mosquetaria, porém foi Deus servido que não houve bala que tocasse a homem nem cavalo nosso. Querem alguns que se havia de esperar mais para que saísse mais cavalaria, porém António Gomes fez o que convinha em não esperar mais que até aquela hora, porque na parte aonde estava emboscado foi muito não ser descoberto de Galiza. Seja Vossa Majestade servido mandar agradecer a António Gomes de Abreu, cabo da facção, o bem que procedeu, e a Manuel de Barbeita do mesmo modo que foi quem ma enunciou e foi ajudar nela, e aos capitães Manuel Pereira de Lacerda e Manuel Ribeiro Priado, e aos tenentes Francisco de Abreu e Manuel Viegas, que todos procederam com grande valor e acerto.

Quis averiguar o número dos mortos, não o pude conseguir, porque na parte aonde foram degolados há uns giestais muito espessos, porém todos concordam muitos, e estrangeiros mais que galegos, que com pouca advertência costumavam sair agora por aqueles campos como se foram de Galiza. Guarde Deus a Real Pessoa de Vossa Majestade como havemos mister. Viana, 10 de Fevereiro de 1664.

Os três cabos maiores da cavalaria se não acharam nesta ocasião porque o general dela, Pedro César de Meneses, tinha passado à província de Trás-os-Montes, e o tenente-general Manuel da Costa Pessoa se achava indisposto em Ponte de Lima, e o tenente-general João da Cunha Sottomayor havia acudido a sua casa com ocasião da morte de sua mulher.

Fonte: ANTT, Conselho de Guerra, Consultas, 1664, mç. 24, consulta de 19 de Fevereiro de 1664.

Imagem: Soldados em acampamento, óleo de Joannes Lingelbach (1622-1674).

Companhias “soltas” de infantaria no exército da província do Alentejo em 1664

À margem dos terços de infantaria, existiam também algumas companhias pagas independentes (“soltas”, como se dizia na época), sobretudo na guarnição de localidades de menor importância. Todavia, a sua manutenção e capacidade operacional eram facilitadas com a integração num terço, de modo que as companhias soltas tinham normalmente uma duração limitada enquanto unidades independentes. Ou eram dissolvidas ao fim de algum tempo, ou passavam a fazer parte de um terço.

Um dos vários casos documentados respeita ao exército do Alentejo, no ano de 1664. Um decreto de 9 de Novembro desse ano ordenava que o Conselho de Guerra desse o seu parecer sobre o terço que, segundo o mestre de campo general do exército do Alentejo Gil Vaz Lobo, seria necessário formar com as companhias soltas de infantaria daquela província. O mestre de campo general afirmava que as companhias se poderiam conservar melhor desse modo, e solicitava que o comando do terço fosse atribuído ao mestre de campo António Tavares de Pina. O Conselho de Guerra pediu então informações mais detalhadas sobre as companhias e as praças onde se encontravam.

Em resposta, Gil Vaz Lobo escreveu de Estremoz uma carta, em 22 de Dezembro. Nela referia que, das 15 companhias (deveriam ser 16, mas uma ainda não estava formada), o Rei deveria mandar formar um terço a 12 companhias, agregando-se as 3 de Monsaraz ao terço da guarnição de Mourão. Em anexo à sua carta enviou uma relação detalhada, intitulada “Rellação das Companhias de infantaria soltas que ha na Provincia de Alentejo, e da gente com que se achão”. É com base nessa relação que a seguir se apresenta a situação das companhias de infantaria:

– 5 companhias da guarnição do Crato, que se encontravam nessa altura a guarnecer Valência de Alcântara: 20 oficiais e 240 soldados, dos quais 29 se encontravam doentes.

– 1 companhia que se levantou no Crato, para a guarnição de Montalvão: 4 oficiais, 50 soldados.

– 2 companhias da guarnição de Avis que assistem em Monforte: 8 oficiais, 40 soldados. Deveria haver uma terceira companhia da mesma guarnição, mas ainda não estava formada.

– 1 companhia da guarnição de Alter do Chão: 2 oficiais, 30 soldados.

– 1 companhia da guarnição de Fronteira, assistindo em Monforte: 3 oficiais, 28 soldados.

– 3 companhias da guarnição de Monforte: 9 oficiais, 34 soldados.

– 1 companhia da guarnição de Alegrete: 4 oficiais, 36 soldados.

– 1 companhia da guarnição de Marvão: 4 oficiais, 30 soldados.

– 3 companhias da guarnição de Monsaraz: 17 oficiais, 108 soldados.

Totais: 71 oficiais, 567 soldados, dos quais 29 se encontravam doentes.

Note-se que o conceito de “oficial” abrangia os postos de capitão, alferes e sargento. A praça de Valência de Alcântara, onde se encontravam os soldados doentes, tinha sido conquistada em 1664.

Fonte: ANTT, Conselho de Guerra, Consultas, 1664, maço 24-A.

Imagem: Valência de Alcântara. Planta publicada em La memoria ausente. Cartografia de España y Portugal en el Archivo Militar de Estocolmo. Siglos XVII y XVIII.