Postos do exército português (14) – o tenente-general da cavalaria

Para tenentes-generais da cavalaria se hão-de nomear dos comissários gerais da cavalaria de melhor aprovação, e também se poderão eleger de capitães de couraças, cuja qualidade, serviços e partes obriguem a serem escolhidos [ou seja, os distingam para a promoção] para exercitarem o dito posto; são os que ajudam e hão-de dar todas as ordens que o comissário geral da cavalaria e mais oficias houverem de receber (…).

Era esta a disposição do título 15 do projecto de Ordenanças Militares de 1643. O comentário de Joane Mendes de Vasconcelos acrescentava que também deviam os tenentes-generais da cavalaria provir da infantaria, promovendo-se mestres de campo àquele posto. Seria conveniente, acrescentava, porque muitas vezes iam os tenentes-generais em operações com forças mistas de cavalaria e infantaria, e era necessário que saibam de uma e outra cousa, para mandar com acerto.

Este posto tinha a particularidade de poder ser também um cargo. Isto é, podia ser desempenhado por um oficial com outra patente, como coronel (estrangeiro) ou comissário geral. No entanto, não foram muito frequentes estes casos. Em cada exército provincial começou por haver um tenente-general da cavalaria – mas não antes de 1643, nem sequer no Alentejo, cujo exército era o maior de todos. Com o decorrer do conflito, o aumento dos efectivos da cavalaria impôs o consequente aumento do número de oficiais com aquela patente. Idealmente, o topo da estrutura hierárquica na cavalaria devia compreender um general, dois tenentes-generais e quatro comissários gerais, embora em certos casos um tenente-general pudesse bastar para assegurar o comando da cavalaria de um exército provincial pouco numeroso, podendo ser então designado como governador da cavalaria.

Nos primeiros anos da Guerra da Restauração, alguns oficiais estrangeiros obtiveram a patente de tenente-general. Na Beira, o francês Jacques Talonneau de La Popelinière morreria em combate em Março de 1644, já com aquele posto (chegara a Portugal havia dois anos e meio com a patente de capitão de cavalos). O holandês Jan Willem van Til foi tenente-general no Alentejo em 1645, embora sem grande destaque. Já o francês Achim Avaux de Tamericurt foi um do mais brilhantes naquele posto, que desempenhou no Alentejo e na Beira. Também se destacou, no Alentejo, o italiano (de Roma) João Vannicelli. Entre os portugueses, merecem destaque grandes comandantes da cavalaria como D. João de Mascarenhas (mais tarde, Conde de Sabugal), Dinis de Melo de Castro, D. João da Silva, entre vários que ocuparam aquele posto.

Bibliografia: AIRES, Cristóvão, Historia Organica e Politica do Exercito Português – Provas, vol. IV, Lisboa, Imprensa Nacional, 1908, pg. 61.

Imagem: Capa da edição impressa de 1707 da obra Maneio da Cavallaria escrito pello Conde Galeaço Gualdo Priorato Com annotaçoens de Dom João Mascarenhas Conde do Sabugal do Conselho de Guerra d’ElRei Dom Affonço 6º. D. João de Mascarenhas foi tenente-general e general da cavalaria do Alentejo na segunda metade da década de 1640.

O combate de Cabeço de Vide, 23 de Abril de 1649 (3ª e última parte)

Originalmente, a data que surgia no título desta série de artigos era a de “22 de Abril”. Fora induzido em erro pelo texto de Mateus Rodrigues, mas ao reler um documento oficial (a carta do governador das armas Martim Afonso de Melo) pude verificar que o combate ocorreu, de facto, numa sexta-feira, 23 de Abril, dia de São Jorge. É ao combate e suas consequências que o texto de hoje é dedicado.

Em que consistiu o perder-se o inimigo foi o virmos a buscar para pelejar connosco. Que se se deixara estar como estava, tão forte, estava bem arriscado o não podermos romper, (…) e assim se averiguou que nisso consistiu, porque nunca quem buscou primeiro vai tão forte como o que está quedo. Finalmente, que assim como nós fomos chegando ao regato que estava ao pé do outeiro aonde estava o inimigo, vem-se abaixo com a vanguarda só a receber-nos e a pelejar connosco. Mas o famoso [tenente-general Tamericurt] fez logo alto com o seu batalhão, esperando que o inimigo o cometesse primeiro. Chegou o inimigo à nossa vanguarda com brava resolução (…), e logo deu primeiro uma notável carga de cravinas e pistolas, que não há dúvida que caíram alguns dos nossos com ela. E assim como a deu vem-se a eles à espada com uma fúria que parecia que levavam tudo de coalho, mas a nossa gente se deixou estar mui cerrados que parecia uma muralha, e mais já haviam caído muitos com a carga que o inimigo deu (…). Averbado (…) com a nossa vanguarda, já todos juntos, dando uns nos outros muita pancada, sem o inimigo poder nunca romper (…), que era o que determinava. Contudo, como eles viram que não puderam levar a vanguarda, fazendo-lhe as diligências possíveis, dão as costas outra vez para trás, mas apenas eles as tinham dado, já a nossa vanguarda lhe estava em cima com grande valor, matando e ferindo. E logo a nossa batalha e reserva, que até aquele tempo estavam vendo em que parava a nossa vanguarda, logo foram sempre nas suas costas, sempre formados, dando-lhe calor [ou seja, dando apoio]. E assim como o inimigo chegou ao cimo do outeiro aonde estava sua reserva, quis ali tornar a ter mão com a sua reserva (…). Ali em o outeiro houve mais pancadas que aonde o inimigo nos cometeu [primeiro], mas arrimou-se logo a nossa reserva toda, e com facilidade se determinou o inimigo a fugir (…).

Esta narrativa de um combate de cavalaria deixa bem claro quão importante era a resistência oferecida pela vanguarda que recebia o choque das tropas que a carregavam. Se se rompia essa primeira linha de batalhões, a perseguição podia levar a confusão às outras linhas (chamadas batalha e reserva). Por outro lado, se os atacantes não conseguiam romper a vanguarda inimiga e necessitavam de fazer meia-volta para se reagruparem à retaguarda, a perseguição de que seriam alvo poderia revelar-se fatal para a coesão das restantes forças. Foi isso que sucedeu às tropas comandadas por Juan Jacome Mazacan, neste combate perto de Cabeço de Vide.

(…) E tanto que ele se deliberou a fugir, então direi eu que não havia mãos a medir (…), antes que ele entrasse na coutada de Cabeço de Vide, que estava um quarto de légua de onde foi a bulha, (…) [já] os nossos iam tão enfrascados neles [que] não se podiam apartar deles, que não há gosto para um soldado como ir seguindo o inimigo que vai com a proa no vento, vendo por donde escapará.

Findo o combate com a fuga das forças de Mazacan, a população de Cabeço de Vide veio saudar os vencedores.

(…) Não ficou gente na vila, que todos saíram cá fora (…) e (…) nos davam grandes vivas e louvores e que nos não havia de faltar nada na vila aquela noite, e bem cumpriram sua palavra (…). Entrámos logo para dentro da vila de Cabeço de Vide com grandioso gosto e alegria de ver que nos dera Deus tão honrado dia, e o bem-aventurado São Jorge, que era em o seu dia, a quem o Conde Martim Afonso de Melo faz festa todos os anos por lhe dar aquela vitória. (…) Não sabia a gente de Cabeço de Vide que nos fizesse com tanto gosto como nos receberam aquela noite em suas casas, que não havia galinha que não matassem, nem tinham coisa boa que não nos dessem. De modo que toda a fazenda que o inimigo tinha junto, tudo ali ficou, e foram seus donos a buscar cada um o que lá tinha e não lhe faltou nada. E na verdade que ficavam aqueles lugares todos perdidos se o inimigo lhe levava aquela pilhagem.

No rescaldo do combate, segundo Mateus Rodrigues, foram capturados mais de 250 cavalos, mas os camponeses terão escondidos vários que encontraram pelos campos. As perdas da força incursora cifraram-se em mais de 50 mortos, entre os quais 3 capitães, e 260 prisioneiros. A cavalaria portuguesa sofreu menos de 30 mortos, mas 100 soldados ficaram feridos. A violência da refrega fica bem patente pelas baixas sofridas por ambos os lados, tendo em consideração que os efectivos seriam cerca de 600, do lado português, e cerca de 700, do lado espanhol. Entre os mortos do exército português contava-se o capitão Latouche, francês que servia o rei D. João IV desde 1641, dois tenentes e três alferes. Neste combate também ficou ferido o jovem capitão Dinis de Melo de Castro (uma bala em uma perna e todo o corpo por fora crivado um capotilho que levava sobre as armas), cuja brilhante carreira militar só terminaria no início do século XVIII, durante a Guerra da Sucessão de Espanha, já como Conde de Galveias.

(Citações do Manuscrito de Matheus Roiz, versão transcrita do AHM: pgs. 159-162).

Imagem: Combate de cavalaria em frente de um moinho em chamas, Philips Wouwerman, Gemäldegalerie, Dresden.

O combate de Cabeço de Vide, 23 de Abril de 1649 (2ª parte) – a disposição táctica

Juan Jacome Mazacan (ou Mazacani, pois era napolitano de nascimento) era um militar bem conhecido dos portugueses. O soldado Mateus Rodrigues refere-se-lhe algumas vezes nas suas memórias. Comandava desde 1644 a guarnição de Zarza la Mayor, e embora o seu território de operações fosse habitualmente a fronteira que confinava com a Beira, entrou por vezes com a sua cavalaria pela raia alentejana. É nesta província que se encontra com a cavalaria portuguesa sob o comando do tenente-general francês Achim de Tamericurt em 23 de Abril de 1649, nas proximidades de Cabeço de Vide, não muito distante da vila de Fronteira.

Na continuação da narrativa, percorremos hoje a disposição táctica das forças, segundo o testemunho de Mateus Rodrigues.

(…) De modo que o dito Mazacan, assim como nos viu a todos, disse para a sua gente (…) senhores, soldados e capitanes, nos tenemos aqui mui buena pillaje de ganados, pero mejor es la que hemos de tener de aquesta que aca viene [em castelhano no original]. (…) E passando o nosso comissário [quer dizer, o tenente-general Tamericurt] pela vanguarda de toda a nossa cavalaria, dizendo aos capitães e mais soldados que não houve[sse] descomposição nem rumor, senão mui calados e cerrados e que fize[sse]mos todos como ele esperava de tão bizarros soldados como nós éramos [na época, a palavra bizarro era aplicada áquele que se distinguia pela sua valentia]; de maneira que se foi para a vanguarda pelejar (…), que iam cinco companhias na vanguarda, muito boas e [com] bons capitães, que era a companhia de um francês, por nome Latuie [Latouche], que o mataram ali, e a companhia do capitão João Homem Cardoso, e a companhia do comissário de Olivença, Duquesne, e a companhia do capitão Dinis de Melo [de Castro], que foi a primeira ocasião em que se achou depois de [promovido a] capitão de cavalaria e procedeu tão bizarramente como adiante direi, e assim mais a companhia do capitão João de Oliveira Delgado, e estas cinco companhias que na vanguarda iam teriam 200 cavalos (…) e as outras iam 4 na batalha e outras 4 na reserva, tudo mui composto e com ordem, na batalha ia o capitão Fernão de Mesquita [Pimentel] por cabo , e na reserva ia o capitão António Jacques de Paiva por cabo. De maneira que assim como o inimigo nos viu com determinação de pelejar, não fez mais que formar-se em (…) vanguarda e reserva, mas na vanguarda pôs todos os bons soldados e oficiais (…), e fê-lo mui grosso, que trazia na vanguarda perto de 400 cavalos, porque fazia conta que, em nos rompendo a vanguarda, que nos fizesse fugir, que logo a demais [cavalaria] havia de fazer o mesmo. Que não há dúvida que era uma ocasião daquelas [em] que é necessário haver bons cabos diante e bons soldados, que se uma vanguarda se rompe, ou sua ou nossa, é necessário muito auxílio de Deus e valor para terem bem mão, vendo fugir a sua vanguarda, e por isso o inimigo se fundava nestas circunstâncias (…). Aonde (…) se formou era um cabeço alto, e ao pé dele corria um ribeiro (…). E todo o gado, assim bois como ovelhas e cabras e porcos e muitas cavalgaduras, tudo isto estava junto, ao pé do inimigo, por onde havíamos de passar forçadamente [forçosamente]. E pelo meio de lá rompemos, e era tanto o fato de roupa que estava pelo chão, que eles haviam roubado pelos montes, que podiam carregar um navio, que todos os castelhanos (…) largaram [d]as garupas para pelejarem mais à sua vontade, e desembaraçados.

(Citações do Manuscrito de Matheus Roiz, versão transcrita do AHM: pgs. 157-159).

Agradeço muito especialmente a colaboração do amigo e investigador de Zarza la Mayor, senhor Juan Antonio Caro del Corral, que tem disponibilizado muita informação sobre o período da Guerra da Restauração – e neste caso, a obra de Gervasio de Velo Y Nieto, Escaramuzas militares en la frontera carcereña con ocasión de las guerras por la independencia de Portugal, Madrid, 1952, de onde me foi possível recolher alguns dados sobre o percurso militar de Juan Jacome Mazacan.

Imagem: Mapa de Portugal, cerca de 1700 (detalhe da província do Alentejo). Note-se a pequena diferença do topónimo, que surge como Cabeça da Vide. Biblioteca Nacional, Cartografia, CC164P.

Imagens de Cabeço de Vide, da arquitectura de hoje e do passado (e da tranquila paisagem dos arredores) podem ser vistas aqui.

Uma incursão em território inimigo – 1661, Outubro, 26

As incursões ou entradas em território inimigo, quer fossem executadas pelo exército português, quer pelo espanhol, foram uma característica marcante da Guerra da Restauração. Os anos iniciais do conflito alimentaram muitas publicações de teor propagandístico que difundiam os feitos de armas dos portugueses, ampliando muitas vezes os resultados práticos das acções. São uma preciosidade para a análise do quadro mental do período e não menos valiosos como documentos no que concerne à História Militar.

As Relações e outros escritos panegíricos são dados à estampa com menos frequência a partir da segunda metade da década de 40. Só na etapa final da guerra, com a publicação periódica (mensal) do Mercúrio Português, da responsabilidade de António de Sousa de Macedo, voltam a espalhar-se com alguma regularidade os ecos dos feitos portugueses. Todavia, os relatórios enviados pelos comandantes operacionais para o Conselho de Guerra dão conta de acções que, em muitos casos, permaneceram desconhecidas do grande público. O fito principal centrava-se habitualmente na pilhagem de gado e haveres das populações raianas, mas também podiam ser concebidas para desgastar o dispositivo inimigo na fronteira e adestrar as próprias forças militares na arte da guerra. Deixo aqui a descrição de uma dessas operações.

Em 26 de Outubro de 1661 o governador das armas da província de Trás-os-Montes, D. Rodrigo de Castro, Conde de Mesquitela, e João de Melo Feio, governador das armas do partido (distrito militar, em termos modernos) de Penamacor, província da Beira, encontraram-se no Sabugal. No princípio do mês tinham recebido uma carta da Rainha regente, ordenando que unissem parte das suas forças e fizessem uma entrada no reino inimigo. Deviam dirigir-se às vilas de Campo e Pozuelo, onde estavam alojadas companhias de cavalaria da Catalunha, e atacá-las a fim de destruir ou capturar aquelas unidades militares. Se isso não fosse conseguido, pelo menos deveriam saquear as localidades, distribuindo o produto da pilhagem pelos soldados, e ao menos tentar levar o inimigo a pelejar.

Os dois cabos de guerra partiram com a força militar combinada nesse mesmo dia 26 de Outubro, desejosos de fazer coisa de utilidade e reputação para as armas reais. Marcharam com tempo seco e sereno, atravessando o rio Côa na passagem de Dois Rios. O efectivo total era de 2.500 infantes e 760 cavaleiros, distribuído pelas seguintes unidades:

– Dois terços pagos (dos mestres de campo Diogo Gomes de Figueiredo (filho) e Bartolomeu de Azevedo Coutinho).

– Três terços de auxiliares (da comarca da Guarda, sob o comando do mestre de campo Cristóvão de Sá de Mendonça; da comarca de Viseu, do mestre de campo João Castanheira de Moura; e da comarca de Castelo Branco, a cargo do sargento-mor Manuel Fernandes Laranjo).

Terço de volantes da Guarda, comandado pelo mestre de campo Francisco Banha de Sequeira.

Dezasseis companhias de cavalaria, sob o comando do governador da cavalaria, o francês Achim de Tamericurt (um veterano da Guerra da Restauração, já com 20 anos de serviço em Portugal), com o tenente-general João da Silva de Sousa como segundo-comandante (as companhias de ambos eram comandadas pelos respectivos tenentes, Pedro Palho e Manuel Francisco). As restantes companhias eram as dos comissários gerais D. Martinho de Ribeira e D. António Maldonado, e as dos capitães Vasco Gomes de Melo, Baltasar de Melo de Sá, António Mendes de Abreu, Paulo de Noronha, António Estácio da Costa, Manuel de Sousa de Refóios, Manuel Nabais, Paulo Homem Teles, André Tavares de Mendonça, Manuel Martins, António Veloso e Luís da Cunha.

Já em território hostil, as condições climatéricas alteraram-se. As chuvas e o facto da força ter sido detectada pelo inimigo impediram que se obrasse algo mais do que o saque de algumas aldeias. Os guias recomendavam a retirada, para evitar o risco de não se poder atravessar de novo o Côa. O Conde de Mesquitela escreveu a este respeito que

“Aquela noite de 28 alojámos junto a Villas Buenas que, pela havermos entrado e queimado há muitos anos, e nos pedirem misericórdia regalando-nos com os mimos da terra, nos não quisémos ocupar em empreendê-la.”

A 29 começaram a avistar o inimigo que marchava na retaguarda do exército, e constava de cavalaria da Catalunha e da Borgonha (28 companhias organizadas em 14 batalhões – formações tácticas), e um terço de alemães governado por um sargento-mor, com 600 soldados. Entraram os portugueses na vila de Rezalles

“(…) donde também nos renderam a vassalagem, dando-nos dos seus refrescos, e suposto que houve soldados cobiçosos que desejaram que a mandássemos assaltar, como o inimigo vinha na nossa retaguarda nos pareceu que não convinha desfazer a forma em que marchávamos.”

A meia légua de Rezalles dispôs-se o inimigo a combater. Os batedores começaram a disparar e travou-se uma escaramuça, conseguindo os portugueses rechaçar sempre os oponentes. Prosseguiu então a marcha até se encontrar uma zona de campo aberto, onde tornou o inimigo a dar outra investida e com esta se resolveu dar batalha.

O terço de alemães ocupou um posto fortíssimo no sopé de uma elevação rochosa, de onde causava grande dano nas forças portuguesas, flanqueando a infantaria e a cavalaria. Com a cavalaria inimiga bem formada, começaram as escaramuças. Os comandantes portugueses decidiram que seria conveniente desalojar primeiro a infantaria inimiga da posição que ocupava e reforçar a cavalaria com mangas de mosqueteiros, um dispositivo táctico muito comum. O terço do mestre de campo Bartolomeu de Azevedo foi mandado investir por uma parte do monte rochoso, e pelo outro lado evoluiu o terço governado pelo sargento-mor Laranjo e um outro terço. Os alemães já entretanto tinham sido reforçados por muitos civis dos lugares da Serra da Gata que se lhes foram juntando.

No dizer do Conde de Mesquitela, os terços portugueses obraram maravilhas, “porque recebendo as cargas de mosquetaria dos inimigos sem lhe tirarem tiro [ou seja, sem ripostarem] os investiram, subindo pelo rochedo com tão extraordinário valor que a picaços [à força de pique] e a cutiladas mataram os mais deles, fazendo-lhe largar o posto, e as armas, com as vidas.”

Também os destacamentos de mosqueteiros que se constituíram a partir do terço do mestre de campo Diogo Gomes de Figueiredo para reforçar a cavalaria “obraram maravilhas”. Eram comandados pelos capitães João de Sampaio, António Rodrigues Pereira, Paulo Correa, e pelo alferes do mestre de campo, Manuel Homem Corte Real.

O governador da cavalaria Achim de Tamericurt combatia na vanguarda com os comissários gerais, ficando a reserva da cavalaria a cargo do tenente-general João da Silva de Sousa.

Finalmente os alemães começaram a ceder no combate corpo-a-corpo com a infantaria portuguesa. A restante força inimiga, vendo a formação da sua infantaria perder coesão e começar a desfazer-se, virou costas. Foi então que se lançou em sua perseguição a cavalaria portuguesa, reserva incluída, até perto de Rezalles.

Foram tomados 200 cavalos ao inimigo, tendo sido aprisionados 9 capitães (dos quais morreram três, de ferimentos, em pouco tempo), 2 ajudantes e 1 tenente comandante da companhia da guarda do Duque de Osuna, bem como grande número de soldados, com a captura de mais de 300 armas. Dos portugueses só houve 3 mortos e 10 ou 12 feridos, entre os quais o ajudante de cavalaria Pedro Fernandes Magro.

Todos os militares obraram com valor, pedindo o Conde de Mesquitela que a Rainha mandasse agradecer aos oficiais por carta de sua real mão, em especial ao governador da cavalaria Achim de Tamericurt.

Fonte: carta do Conde de Mesquitela, escrita em Penamacor em 31 de Outubro de 1661 e anexa à consulta do Conselho de Guerra de 7 de Novembro do mesmo ano. Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Conselho de Guerra, Consultas, 1661, maço 21-A, caixa 79.

Imagem: Infantaria em marcha. Reconstituição histórica do período da Guerra Civil Inglesa, Kellmarsh Hall, 2007. Foto do autor.