Uma incursão falhada: Brozas, Março de 1659

Já foram aqui trazidos alguns pormenores da carreira militar de João da Silva de Sousa, iniciada no Brasil em 1639 e prolongada em Portugal entre 1642 e 1668. Um homem corpulento, amante dos jogos de cartas e dados, vaidoso e fútil, mas também bravo soldado, dotado de grande coragem pessoal, que viria a ser, já depois de terminada a guerra, capitão-general de Angola e governador do Rio de Janeiro. Sobre este fidalgo fiz uma resenha biográfica, mostrando-o como exemplo da mentalidade característica do oficial pilhante e depredador da raia (tão vulgar em ambos os exércitos em confronto), n’O Combatente da Guerra da Restauração (pgs. 273-278).

Neste blog foram anteriormente focados, de forma mais detalhada, alguns episódios da carreira de João da Silva de Sousa – a sua desavença com o comissário geral D. João de Azevedo e Ataíde na Atalaia da Terrinha (1647), a captura do tenente-general Gregorio de Ibarra nos campos de Badajoz (Maio de 1652) e uma outra incursão em Brozas, esta bem sucedida (Dezembro de 1652). Aliás, a zona de Brozas era a preferida para as incursões de João da Silva de Sousa – mas a de Março de 1659 não lhe correria de feição, resultando num desastre para as forças portuguesas.

À época, João da Silva de Sousa era comissário geral da cavalaria do Alentejo. O seu superior era o tenente-general Pierre de Lalande, fidalgo francês chegado ao Reino em 1658 e que se batera com galhardia nos cercos de Badajoz e de Elvas (sem que, contudo, tivesse ocasião para confirmar a grande experiência de comando que expressavam as cartas de recomendação que trouxera de França e que levaram a que, precipitadamente, a Coroa lhe atribuísse a referida patente, ultrapassando outros oficias de maior valor e antiguidade. Silva de Sousa convenceu o tenente-general a participar numa das suas já habituais entradas de razia no território do Reino vizinho. Por essa altura governava as armas da província do Alentejo D. Sancho Manuel de Vilhena. É por sua via que chega ao Conselho de Guerra a notícia da fracassada operação, numa carta que abaixo se transcreve:

A esta casa, estando com bem pouca saúde, veio o comissário geral João da Silva de Sousa, a pedir-me lhe desse licença para obrar uma facção, que era armar às tropas do partido de Valença [Valência de Alcântara]. E para que eu lhe concedesse a licença me alhanou todas as dificuldades que se me ofereceram propor-lhe, dizendo-me que lhe mandasse asegurar a ponte de Salor pelo tenente-general Lalande, que também me perseguia com grande instância pela mesma jornada. E que se o inimigo o persentisse por alguma inteligência, que em se incorporar com Lalande não havia nenhum perigo, por terem a retirada certa e segura. E prometendo-me assim o bom sucesso, ordenei ao tenente-general Lalande que ocupasse a ponte de Salor com as tropas de Portalegre e Castelo de Vide, e que daquele posto não saísse senão depois de estar incorporado com João da Silva que havia de ir a ele, e que juntos marchassem com o que houvesse sucedido na volta de Portugal. Marchou João da Silva com as tropas de Campo Maior e de Arronches a fazer a facção, e atravessando as estradas do inimigo conheceram da pista delas os guias e os homens mais práticos [ou seja, experientes] que marchava grosso de cavalaria a esperá-los. Assentada esta resolução do inimigo e conhecida, resolveu o comissário João da Silva ir-se incorporar com Lalande para se retirarem, deixando toda a mais pretensão. E chegando à ponte de Salor, posto nomeado para estar Monsieur de Lalande, não [o] achou nele. Mas antes alcançou, que faltando à ordem que eu lhe tinha dado, se havia metido terra adentro a fazer pilhagem. E suposto que alguns oficiais lhe disseram, ao comissário geral, que seguisse a sua marcha para Portugal, e que deixasse a Lalande por haver faltado à sua ordem, ele tomou por melhor acordo o i-lo a buscar e a socorrer. Incorporados toparam ao inimigo, que os esperava em posto superior. Os nossos elegeram outro em que não estavam mal dispostos, por terem um ribeiro em meio, e com pouco acordo e mau conselho elegeram irem investir ao inimigo, sendo tudo muito contra a ordem que levavam, E como houveram de passar o ribeiro, os colheu o inimigo desordenados, e os carregou e derrotou, ficando prisioneiros o tenente-general Lalande, o comissário geral João da Silva, e os capitães Bernardo de Faria, Francisco Cabral e Dom António de Ataíde. A cavalaria se pôs em retirada às primeiras pancadas, e assim tem entrado nas praças a maior parte dela. E espero em Deus se vá recolhendo quase toda, porque como o choque foi perto da noite, houve lugar para se salvarem todos. Este foi o ruim sucesso destes dois cabos, em que ambos faltaram a tudo o que deviam e a tudo o que lhes foi ordenado, e ao que convinha ao serviço de Vossa Majestade. Mas como nesta província faltam todos comumente às ordens, e não houve até hoje nenhum que se castigasse por este delito, não é de espantar que sendo criados com esta doutrina procurem segui-la e salvar-se nela. Mas são erros estes que Vossa Majestade deve ser servido mandar castigar mui asperamente, tirando os postos aos que não guardam as ordens para que lhe seja castigo, e a outros sirva de exemplo.

Bem quisera dar sempre novas de bons sucessos a Vossa Majestade, mas as armas costumam ser jornaleiras e cada dia mudam de fortuna. Sinto eu ser a minha tão má, que nos últimos dias em que assisto nesta província sucedesse este sucesso. Deus guarde a Católica e Real Pessoa de Vossa Majestade como havemos mister. Vila Viçosa, 13 de Março de 1659.

Este episódio infeliz para as armas portuguesas ocorreu pouco antes da saída de D. Sancho Manuel do governo do Alentejo. Do efectivo de 700 homens e cavalos que partiu para a operação de pilhagem, perderam-se 232 homens, entre mortos e capturados, e mais de 400 cavalos foram tomados pelo exército espanhol. D. Jerónimo de Ataíde, Conde de Atouguia, que substituiu D. Sancho Manuel, disso deu conta ao Conselho de Guerra, fazendo acusações muito graves contra João da Silva de Sousa. Na ocasião do recontro, a cavalaria portuguesa foi posta em fugida sem se fazer cara ao inimigo nem se disparar uma arma de fogo ou dar um golpe de espada.

João da Silva de Sousa conseguiu escapar com a reputação incólume do processo que lhe foi movido, muito por força das amizades com que contava na Corte e no Conselho de Guerra, que interferiram a seu favor e impediram a justiça de seguir o seu curso. Já Monsieur de Lalande seria dispensado do serviço, por decreto de 13 de Maio de 1659, quando ainda se encontrava prisioneiro em Espanha.

Para maior indignação do Conde de Atouguia, que acusara o comissário geral de só querer saber do seu interesse particular, enriquecendo com as pilhagens em detrimento da fazenda real, do exército do Alentejo e dos seus subordinados, João da Silva de Sousa seria promovido ao posto de tenente-general da cavalaria em Agosto de 1659, ao mesmo tempo que o comissário geral italiano João (Giovanni) de Vanicelli. Contudo, Silva de Sousa passou a servir na província da Beira.

Fontes: ANTT, Conselho de Guerra, Consultas, 1659, mç. 19, consulta de 18 de Março de 1659 e carta anexa de D. Sancho Manuel; idem, ibidem, consulta de 22 de Março de 1659; Cartas dos Governadores das Armas do Alentejo…, vol. II, pgs. 277, 280, 288 e 295-296, cartas do Conde de Atouguia, de 1 e 23 de Abril, 28 de Maio e 2 de Julho de 1659.

Imagem: “Cavalaria em Batalha”, pintura de Adam Frans van der Meulen, 1657.

O estado das praças raianas na província de Trás-os-Montes em 1659 (parte 7 e última – Bemposta e Freixo de Espada à Cinta)

A vila de Bemposta é muito pequena e aberta, dificulta o Douro a passagem que o inimigo tem se quiser saqueá-la, nem tem riqueza com que se apeteça, mas para maior segurança se há-de fazer pelos moradores uma atalaia que assegure o melhor aquele ruim passo.

A vila de Freixo de Espada à Cinta tem um castelo capaz de se defenderem nele todos os moradores dela. É também assegurada do rio Douro, a que cercam por ali penhas tão altas e continuadas, que é impossível trazer o inimigo artilharia, nem carruagens. Só em dois passos (algum ano seco em o estio) dá passo à infantaria à desfilada, e trabalhosamente da mesma sorte à cavalaria. Para impedir estes dois passos, se deve cobrir cada um deles com sua atalaia forte, que tocando a sentinela arma, há largo tempo para da gente da vila lhes entrar a guarnição com que o inimigo não passe, e quando a troco de sua perda o faça, valerá mais do que pode interessar em queimar algumas casas.

Douro abaixo, até onde esta província se encontra com a da Beira, há nele outros dois, tão dificultosos passos, que também se devem assegurar com outras duas atalaias, que hão-de ser guarnecidas pelos mesmos moradores dos lugares que lhe ficam vizinhos, termo da mesma vila. Com o referido está reconhecida e ponderada toda a raia de uma à outra extremidade desta província.

E assim termina o relatório enviado por D. Rodrigo de Castro, Conde de Mesquitela, ao Conselho de Guerra.

Fonte: ANTT, Conselho de Guerra, Consultas, 1659, maço 19, “Rellação das  Praças da Raya da Prouinçia de Tras os montes, do estado de suas fortificaçõis da que neçessitam, e os passos do Rio Douro”, anexa à consulta de 20 de Junho de 1659.

Imagem: Soldado com mosquete, estudo de Adam-Frans van der Meulen.

O combate da Atalaia da Terrinha, 5 de Junho de 1647 (3ª parte)

combate-de-cavalaria

Recebera D. João de Ataíde ordem de atacar a cavalaria inimiga, mas a progressão foi feita com tanto vagar que a força espanhola passou primeiro o ribeiro e ficou do lado oposto, à espera da reacção portuguesa. Conforme relatou o governador das armas Martim Afonso de Melo…

(…) como não o investimos antes de o passar, com quatro tropas [companhias] que o comissário tinha apartadas, depois foi com grande risco avançar com o inimigo passada a ribeira, o que fez o capitão António Jacques de Paiva e Lopo de Sequeira, tenente da companhia de António Saldanha [da Gama], que ficou na praça [de Elvas] mal disposto, e como estavam da outra banda carregaram todas as tropas do inimigo, que seriam oitocentos cavalos, sobre estas duas nossas, que não puderam aguentar o choque e voltando feriram alguns soldados e o mesmo capitão António Jacques de Paiva e o capitão de dragões [René] Grudé [francês] e o capitão Van Ingen [holandês], a quem levaram prisioneiro por se ir nas companhias que passaram a ribeira; o general da artilharia me fez queixa que os oficiais da cavalaria não fizeram o que ele lhe ordenara (…), e hei-de castigar com todo o rigor ao que achar culpado em não querer investir quando o mandaram, porque o certo é que anda mal acostumada esta nossa cavalaria, mas contudo o inimigo se retirou e largou o posto e nós ficámos nele até às cinco da tarde (…).

O que aconteceu entre a ordem de atacar e a sua tardia e incompleta execução (estando a cavalaria espanhola já formada no lado oposto do ribeiro) é narrado pelo soldado Mateus Rodrigues, que participou na acção:

Dom João (…) chamou um ajudante da cavalaria para levar as ordens do que haviam de fazer, e como este tal ajudante lhe não eram os capitães fidalgos muito afeiçoados, por haver sido criado do mesmo Dom João de Ataíde, (…) quando (…) levou as ordens aos capitães houve uma descomposição com ele, e um capitão de cavalos, por nome João da Silva [de Sousa] lhe disse mui más palavras, e correu após dele com a espada na mão para lhe dar, e o dito ajudante se veio mui queixoso (…) ter com Dom João do que lhe haviam feito. De modo que o mesmo Dom João levou as ordens  pessoalmente a todos os capitães e mandou a um capitão, por nome António Jacques de Paiva, com três companhias, que era a sua e a do tenente Lopo de Sequeira e a (…) companhia de Dom João, que era a minha, e o cabo [ou seja, comandante] que ia na minha [era] o alferes Agostinho Ribeiro, e (…) disse Dom João ao capitão António Jacques que fosse sua mercê com aquelas três companhias a pelejar com o inimigo, mas que não passasse o ribeiro além (…), que assim como chegasse [a] averbar com o inimigo ao pé do ribeiro, lhe desse uma carga de cravinas e pistolas, mas que logo voltasse na mesma hora para trás, dando as costas ao inimigo, e que era força que, vendo-o o inimigo fugir, o havia de carregar logo, e tanto que o inimigo passasse o ribeiro após eles, era força que se havia de descompor (…).

D. João de Ataíde foi então dar as ordens aos capitães, para que atacassem todos ao mesmo tempo logo que o inimigo passasse o ribeiro em perseguição das companhias (quatro, segundo Martim Afonso de Melo; três, na versão de Mateus Rodrigues). Mas, segundo escreve o soldado, o mesmo foi dar-lhe[s] esta ordem que dizer-lhes que fugissem.  António Jacques de Paiva, por seu lado, excedeu as ordens que recebera, pois passou o ribeiro com as companhias, e na desorganizada retirada veio [o inimigo] logo sobre os nossos como um raio, fazendo tudo numa poeira. Mas o que os nossos batalhões haviam de fazer em investir o inimigo, fizeram em fugir todos à rédea solta para [a] Atalaia, e são [sic] o mais infame que jamais se há visto. Tanto que o inimigo (…) viu nossa pouca vergonha, aproveita-se logo da ocasião, seguindo-nos como uns cães, e o pior de tudo que quem ficava nas piores eram as três companhias que havíamos ido a picá-lo, pois lhe ficávamos mais à mão. E assim a perda que houve foi delas, que lhe tomou o inimigo mais de 60 cavalos (…), matando-lhe 20 ou 30 homens.

O general da artilharia André de Albuquerque, que estava na Atalaia com a infantaria, mal viu a fuga precipitada da cavalaria portuguesa, mandou avançar os terços.

(…) o inimigo, assim como viu nossa infantaria, logo se retirou mui depressa, visto haver feito já o que podia fazer, e se retirou a Badajoz, donde teve aquele capitão [D. Alonso Cabrera], que foi causa daquilo, grandes louvores do seu governador; e na verdade os merecia tanto como os nossos mereciam o castigo.

Do lado português, o governador das armas Martim Afonso de Melo ficou furioso com o sucedido. Das consequências finais tratará o derradeiro capítulo desta série.

(continua)

Citações: Cartas dos Governadores da Província do Alentejo a El-Rei D. João IV e a El-Rei D. Afonso VI, Lisboa, Academia Portuguesa da História, 1940, vol. I,  pgs. 144-145; Manuscrito de Matheus Roiz, pgs. 176-178.

Imagem: Adam Frans van der Meulen, “Combate de cavalaria”, Kunsthistorisches Museum, Viena.

O capitão de cavalos André Mendes Lobo – breve retrato de um fiel servidor da Casa de Bragança

combcav

André Mendes Lobo foi um capitão de cavalaria diferente dos demais. Sem nunca ter atingido maior projecção na hierarquia militar, foi durante alguns anos um dos mais importantes elementos na estrutura do exército da província do Alentejo, se não na tomada de decisões ao nível da condução das operações, pelo menos para o funcionamento daquele exército enquanto força militar. De origem plebeia, embora abastado (um vilão muito rico do Alentejo, como refere Felgueiras Gayo), arriscou a sua vida e empenhou a sua fortuna na defesa dos Bragança – talvez mais do que fizeram alguns nobres de sangue que colheram benefícios com a separação de Portugal da Monarquia Hispânica.

A preocupação de André Mendes Lobo era, também, defender o património próprio. As suas terras espalhavam-se pelas zonas que serviam de palcos de combate, de Elvas a Juromenha, passando por Borba, de onde era natural, e Vila Viçosa, onde residia.  A sua ligação à Casa de Bragança era muito forte. A ela devia a sua ascensão social, anterior ainda à Aclamação: por serviços prestados ao Duque D. João, fora elevado à fidalguia. Para mais, André Mendes Lobo integrara o grupo restrito dos que tinham um contacto bem próximo com o futuro monarca, pois fora Guarda-Roupa do Duque, ou seja, responsável pela câmara que antecedia o quarto de D. João, no Paço de Vila Viçosa. Tremenda carreira ascensional para um plebeu que, em 1625, quase fora assassinado por parentes da sua esposa, a fidalga D. Leonor da Silveira, indignados com o matrimónio do vilão com alguém que lhe era socialmente superior.

Também D. Leonor da Silveira privara com a família ducal, tendo sido ama de leite do Príncipe D. Teodósio. Mais do que isso, privara intimamente com o próprio D. João em manobras de Eros e Afrodite. Mancebia à qual Felgueiras Gayo atribui os favorecimentos feitos a André Mendes Lobo já depois do Duque cingir a coroa de Rei.

Após a Aclamação, André Mendes Lobo quedou-se pelo Alentejo. As suas acções como capitão de cavalos surgem em algumas relações e documentos oficiais, em nada sendo deslustrosas, mas também sem lhe valerem avanço na carreira das armas – não seria essa, de resto, a sua ambição. Embora continuasse a servir, era também pagador geral do exército do Alentejo, tendo chegado a desembolsar a soma de 18.000 cruzados (7.200.000 réis) para financiar os custos de uma campanha militar no Alentejo. Fazia questão de mostrar a sua riqueza e empenho no serviço através da dimensão da sua companhia de cavalos: na década de 50 e inícios da de 60, tanto a sua unidade como a do seu genro Dinis de Melo de Castro (futuro Conde de Galveias) ultrapassavam a centena de cavalos, quando a média das demais não ia além das 46 montadas; em 1661 chegaram a corresponder, no seu conjunto, a mais de 12% dos efectivos de cavalaria do exército do Alentejo.

Ia o ano de 1661 avançado quando André Mendes Lobo deixou o serviço na cavalaria. Tão grande era a sua companhia, que foi ordenado fosse repartida e dela se formassem duas. André Mendes Lobo faleceu no final de 1661. Uma carta do Conde de Atouguia, de 3 de Janeiro de 1662, ao Conselho de Guerra (ANTT, CG, 1662, maço 22, consulta de 14 de Janeiro) refere a petição feita por D. Leonor da Silveira, mulher que foi do pagador geral deste exército, e capitão de cavalos André Mendes Lobo, em que a viúva declara desejar continuar a servir a Coroa com o zelo que o fazia seu marido defunto, pedindo que, após a divisão da companhia que fora do seu marido, se desse uma companhia a D. António de Almeida e que outra, com mais cavalos que ela determinava comprar, ficasse assistindo no forte com capitão por ela nomeado, ou que então os cavalos se dessem ao genro, Dinis de Melo de Castro. O Conde de Atouguia refere que mandou o vedor geral do exército do Alentejo fazer proporcionalmente a partilha: achando-se 86 cavalos, deu para duas companhias de 43, e os 110 soldados também se repartiram com igualdade. As companhias foram entregues aos capitães D. António de Almeida (carta patente de 8 de Novembro de 1661) e Philipe Suel (francês, carta patente de 21 de Outubro de 1661). Sobre o pedido de D. Leonor para poder prover o capitão que melhor achar para a companhia que ela queria refazer, o Conde foi de opinião que assim lhe fosse concedido, em graça pelos muitos serviços que o seu marido prestara. Realçou as vantagens tácticas  da companhia assistir no forte – mesmo que ela não o pedisse, seria necessidade fazê-lo, pois ficava acudindo a Elvas, Juromenha, Vila Viçosa e lugares que se seguem Guadiana abaixo, cobrindo muitas herdades, assim das que ficaram de André Mendes como de muitos outros donos, impedindo as partidas que de Arronches (então na posse dos espanhóis) pretendessem passar a Olivença; e assim ficavam os soldados com melhor comodidade de quartel e os cavalos com mais erva. O Conde mostrou-se contra a proposta para que os cavalos se incluíssem na companhia de Dinis de Melo de Castro, pois na mostra de 29 de Dezembro de 1661 havia 117 cavalos naquela companhia.

A que forte se referia D. Leonor da Silveira, não esclarece o documento. No entanto, pode ser o que refere esta passagem da História de Portugal Restaurado: quando, em 1662, D. João José de Áustria invadiu Portugal de novo pela fronteira do Alentejo e marchou sobre Juromenha, (…) na marcha rendeu o exército uma casa-forte do capitão de cavalos André Mendes Lobo, situada entre Vila Viçosa e Juromenha, e guarnecida com uma companhia de infantaria. Mandou D. João de Áustria arrasá-la (…) (ERICEIRA, Conde de, História de Portugal Restaurado, edição on-line, Parte II, Livro VI, pg. 473). Por essa altura já a companhia a que D. Leonor da Silveira pretendera destinar o comandante estava incapaz de operar, pois segundo uma carta do Marquês de Marialva (13 de Junho de 1662, anexa à consulta de 19 de Junho), houvera ordens régias para que nela não fosse provido qualquer capitão e as deserções e incúria tinham-na deixado de todo perdida.

Bibliografia: além dos meus livros O Combatente durante a Guerra da Restauração… e A Cavalaria na Guerra da Restauração…, onde são tratados vários aspectos da carreira militar de André Mendes Lobo e Dinis de Melo de Castro, veja-se também:

COSTA, Leonor Freire; CUNHA, Mafalda Soares da, D. João IV, s.l., Temas e Debates, 2008, pgs. 84-85.

CUNHA, Mafalda Soares da, A Casa de Bragança 1560-1640. Práticas senhoriais e redes clientelares, Lisboa, Editorial Estampa, pgs. 569 e 588.

FELGUEIRAS GAYO, Manuel José da Costa, Nobiliário de Famílias de Portugal, Braga, Carvalhos de Basto, 1989, vol. IV, t. XI, pgs. 247-248, e vol. VI, t. XVII, pg. 428.

Imagem: “Um combate de cavalaria”, Adam Frans van der Meulen (2ª metade do séc. XVII), Metropolitan Museum of Art, Nova Iorque.