Relação da tomada de Santa Marta e Codiceira – Julho de 1646 (manuscrito inédito, 2ª parte)

Ao sábado houve nesta cidade muitas luminárias pelo bom sucesso. Ao domingo veio o inimigo com esse poder que tinha aos olivais desta cidade, mas como gosta pouco dos marmelos e azeitonas de Elvas, não os quis chegar a provar, e assim se foi sem gastarmos um grão de pólvora. Amanhecendo para a segunda-feira, estava eu à janela pelas três depois da meia-noite, e fazia muito formoso luar, veio alguma cavalaria pelo caminho que tinha ido a nossa gente.Três sentinelas que estão defronte desta cela lhe[s] perguntaram duas vezes quem eram, sem responderem, disseram-lhe que não esperassem a terceira, que havia de ser com pelouro, responderam que amigos. Perguntaram-lhe de que tropa, e se vinha ali o capitão, que falasse, como fez, e com estas circunstâncias passaram até à porta de Olivença. Adormeci, e dadas quatro horas acordei ao estrondo da artilharia e mosquetaria, assim de fora como dos muros, de maneira que cuidei que o inimigo atacara a praça, porque os pelouros de uma e outra parte cruzavam os ares. Os nossos que iam chegando festejando a cidade, e a cidade a eles, e como passavam Chinchas logo iam descarregando, e não se viam senão bocas de fogo e ruído de pelouros. Santa Luzia fez a última festa e não lhe faltavam luzes de artilharia e mosquetaria. A primeira coisa que enxerguei foi a carruagem, e tinha passado a mais da infantaria. Logo vinham as peças e depois a cavalaria. A gente que foi a esta facção foram quatro mil e quinhentos infantes e mil cavalos. Quando partiram de Arronches, que foi domingo pelas três da tarde, tiveram histórias Dom Rodrigo [de Castro, governador da cavalaria] e Dom João [de Mascarenhas, tenente-general da cavalaria] sobre a vanguarda, que dizia Dom Rodrigo que a ele pertencia, e Dom João que a sua tropa havia de vir de vanguarda, que pertencia a quem fez a facção. E estas mesmas histórias tiveram na cidade diante de Joane Mendes, e Dom João disse que assim o aprendera na escola de Flandres, e o outro na de Alentejo. O caso foi que D. João lançou no meio da sala o bastão, e disse que não havia de servir com Dom Rodrigo. Joane Mendes avisou a Sua Majestade do que se passava, e ontem, além do ordinário lhe vieram dois de cavalo, um trás doutro, e um deles era para que informasse o que havia no caso, para se compor. O inimigo, quando deixou Elvas, foi correr os campos de Vila Viçosa e Redondo, soou que a ninguém deram quartel, e que à vista de Telena mataram todos a sangue frio. Foi o caso que chegando ali com a presa e prisioneiros, viram vir algumas tropas da parte de Badajoz, e os castelhanos largaram a presa, e os nossos, cuidando o que eles cuidaram, se foram meter com as tropas que vinham, cuidando ser nossas, sendo elas de Castela. E dizendo os nossos “Viva El-Rei Dom João” foram mortos quatro ou cinco, e um castelhano cuidando ser português. Contudo, e pelas mais mentiras que acerca disto se disseram, se mandou Joane Mendes queixar por uma carta a Badajoz. Mandaram-lhe dezassete dos que tinham levado, que não eram soldados, e ele lhe[s] mandou também os que não eram soldados que tinham vindo de Santa Marta e da Codiceira. O capitão da Codiceira, com os mais soldados, está na cadeia, e não chegará a dezoito anos. Eu dormi domingo na cadeia com um português de Tomar, que à segunda[-feira] arrastaram, enforcaram e esquartejaram, porque foi a Badajoz assentar praça e esteve lá quatro meses, e vinha cá por sua espia. Um nosso português que está prisioneiro em Badajoz matou a um capitão nosso que estava do mesmo modo, estando dormindo; mandou o fronteiro de Badajoz, que é um N. de Enguiem, que se cá não determinassem alguma coisa acerca daquele caso, que também lá havia justiça.

Sábado fez oito dias que veio um homem de Juromenha com um cavalo buscar o reitor de São Paulo para lá pregar, quando foram acharam dois castelhanos de cavalo, que lhe apanharam o em que ia, e dois mil réis que levava, e se foi uma légua a pé.

Ontem de noite entraram nesta cidade treze canhões dos que estavam em Estremoz. Toda a gente paga do Reino vem a esta praça, e os corregedores vêm comboiando a de suas comarcas com as mulas que há. (…) Elvas, em 8 e 9 de Agosto de 1646.

O episódio do desentendimento entre D. Rodrigo de Castro e D. João de Mascarenhas encontra-se bem documentado e foi por mim estudado a propósito do quadro mental do combatente e a definição das hierarquias (O Combatente na Guerra da Restauração… pgs. 122-123). Quanto ao caso dos prisioneiros de guerra, das trocas e do destino a dar aos que eram acusados de traição, será o tema de próximos artigos.

Fonte: Biblioteca Nacional de Madrid, mss. 8187, “Relação da tomada de Santa Marta, e Codeceira, e outros sucessos da fronteira de Elvas, escrita pelo P.e Fr. do Teixozo Religioso capucho assistente na mesma cidade”, fls. 74-76.

Imagem: “Corpo de guarda”, óleo de Mathieu Le Nain.

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Relação da tomada de Santa Marta e Codiceira – Julho de 1646 (manuscrito inédito, 1ª parte)

Dando continuidade à transcrição de alguns manuscritos portugueses do códice mss. 8187 da Biblioteca Nacional de Madrid – e prosseguindo também o que Juan Antonio Caro del Corral deixou aqui escrito a respeito do ano de 1646, que foi repleto de acontecimentos bélicos, passo a apresentar a transcrição de uma relação sobre as operações militares na província do Alentejo em Julho de 1646.

Relação da tomada de Santa Marta e Codiceira, e outros sucessos da fronteira de Elvas, escrita pelo padre Fr[ancisco?] do Teixozo, religioso capucho assistente na mesma cidade

Foram oitocentos cavalos e quatrocentos infantes a Santa Marta, seis léguas de Badajoz e sete de Olivença, atacaram a praça sem perigo, mandaram a gente que se fosse e derrubaram-lhe algumas casas, fizeram presa em alguns burros e outras coisas semelhantes, alguns deram com batacas [patacas] e outros com quartos [moedas espanholas de real] que espalharam, e outros com melhores coisas que calaram, o certo é que a ida foi de perda para Sua Majestade, e de nenhum proveito, porque a calma era grande e alguns cavalos abafaram e outros aguaram, e os inimigos com sua cavalaria tomaram os nossos nas serras de Valverde, os quais, por pelejar, largavam esse pouco que traziam, dos quais alguns foram mortos, porque não podendo marchar com a calma se ficavam às sombras. Um furriel nosso que os castelhanos mal feriram [ou seja, que feriram com gravidade] e deixaram por morto e despido porque não se quis render, depois se veio em camisa a Olivença, e escapa.

Quarta feira 24 de Julho, dia de Santiago, pelas seis horas da tarde, saiu Dom João [de] Mascarenhas com seiscentos cavalos, e André de Albuquerque com quatrocentos infantes, um é tenente-general da cavalaria e o outro general da artilharia, saíram pela porta dos banhos com suas mulas de carruagem, vieram entre o castelo e a ribeira de Chinchas e a passaram por baixo de Nossa Senhora, e logo a tornaram a passar para a cidade. E chegou toda esta gente onde foi a porta de Évora, por cima da Lameda, e dando sua salva de bastardas tornou a desavisar o mesmo caminho, e passou Chinchas pelo caminho de Portalegre, e tornou logo a voltar, ocupando o mesmo posto da porta de Évora, onde fez noite, e desapareceu sem saberem para onde. Na mesma noite se ajuntou no lugar que largou Dom João toda a mais gente da cidade, e a de Olivença com muita carruagem e quatro peças de campanha, e eu confesso que o mais do tempo depois de matinas estive à janela e que não ouvi reboliço algum, só por algumas vezes rinchar [relinchar] um cavalo. Pela manhã começou esta gente a marchar caminho de Arronches, que era o que tinha levado já Dom João a cavalaria, logo duas peças de campanha, muita infantaria, seguiam-se outras duas peças e logo a carruagem, que seriam quinhentas ou seiscentas cavalgaduras com dez mil pães, afora o biscoito, e por retaguarda a tropa de Dom Rodrigo [de Castro – ou seja, a companhia da guarda do governador da cavalaria]. Aquele dia chegaram a Arronches, e Dom João pelas onze da noite à Codiceira, e a sentinela em um cascalho que há antes de chegar sentiu os nossos, e quando chegaram lhe[s] perguntou quem eram e que fizessem alto. E lhe responderam em castelhano que amigos, e que se queriam chegar ao castelo porque o inimigo andava em campanha, repreendendo-os porque dormiam tanto. Neste tempo estavam pondo petardo, por isso o entretinham com palavras, e vindo outro nosso, e não querendo fazer alto, senão chegar-se aos outros, lhe tirou um com um mosquete e o matou, posto que também lhe falou em castelhano. Deu-se logo fogo ao petardo que foi posto no postigo, e o postigo foi fazer em pedaços a segunda porta que era de grade, e os nossos entraram e quebraram com os ombros outra porta de estacada, e encontraram já o capitão em ceroulas e descalço, que estava com a cria à ilharga. Nisto chegou toda a gente de Dom João, e não houve mais que outro morto nosso, de uma pedra que lançaram do muro, de muitas, e muito grandes, que por cima tinha. E com isto ficaram os nossos senhores do castelo e vila. Começava Joane Mendes [de Vasconcelos] a marchar de Arronches para a Codiceira quando lhe chegou nova do feito, escreveu a Sua Majestade se se havia de presidiar o castelo, mandou que fosse tido assolado. Levou dali gastadores e foi com toda a gente e o minou, e dando-lhe fogo não ficou pedra sobre pedra. Era o castelo quadrado e tinha quatro torres nos cantos, que descortinavam ao longo dos muros, e se os treze castelhanos estiveram alerta, não sei se o tomaram os nossos, porque logo lhe veio socorro de Albuquerque, que está uma légua, e não havendo canhões era muito forte. E os nossos, se não usaram da traça e os castelhanos não foram tão sonolentos, não se havia de chegar a pôr o petardo. O mesmo se fez à vila, tirando a igreja e casa do cura, que posto tinha muita fazenda, se não buliu nelas, e o Bispo de Badajoz mandou dizer ao cura que, se aqueles senhores quisessem presidiar o castelo e não trouxessem capelão, os servisse, e se o trouxessem, se fosse. Ficaram muito contentes com o bom quartel que se deu á gente. No castelo havia muitos panos, e nos pisões e moinhos, que tudo ficou assolado, e muito trigo pelas eiras, e nas hortas muita fruta, de que os de Arronches se aproveitaram. Vieram os nossos para Arronches e um soldado entrou numa horta, colheu um pepino, e levando-o à boca lhe tirou o senhor dela com uma espingarda e o matou; outro, por entrar numa vinha, foi escopeteado. 

(continua)

Realce-se os curiosos factos narrados no final desta primeira parte – a defesa da propriedade privada por parte dos civis, qualquer que fosse a nacionalidade dos soldados que a violassem, chegando-se a extremos de violência e ao assassinato. Nos casos referidos, recorrendo a armas de caça (espingarda e escopeta). Este ódio entre civis e militares, tão característico da actividade bélica do século XVII (e de toda a Era Moderna, aliás), é ilustrado por muitos e variados exemplos nas fontes narrativas e documentais durante a Guerra da Restauração.

Fonte: Biblioteca Nacional de Madrid, mss. 8187, “Relação da tomada de Santa Marta, e Codeceira, e outros sucessos da fronteira de Elvas, escrita pelo P.e Fr. do Teixozo Religioso capucho assistente na mesma cidade”, fls. 74-76.

Imagem: “Soldados em repouso numa estalagem”, óleo de Jean Michelin (c. 1616-1670), Museu do Louvre.

A tentativa de tomada de Badajoz pelo 2º Conde de Castelo Melhor, segundo uma carta do mestre de campo João de Saldanha da Gama (1645) – 2ª parte

Conclui-se aqui a transcrição da carta do mestre de campo João de Saldanha da Gama:

Eu levava à minha conta pôr o petardo principal,e o efeito dele devia ser sinal para se investir pelas outras partes. E com estes fundamentos, que pareceram bastantes para se intentar a facção, deu o Conde de Castelo Melhor conta a Sua Majestade e lhe perguntou se queria que se obrasse. Sua Majestade respondeu que sim, escrevendo uma carta ao Conde e pondo quatro regras de sua mão. Dizia que tomando-se a cidade, ele partia logo de Lisboa com todo o socorro possível, e que da Beira, Trás-os-Montes, Entre-Douro-e-Minho e Algarve mandava vir gente paga, para que de tudo se formasse um exército capaz de defender Badajoz e fortificá-lo, e que por todo o Reino mandava fazer orações para o bom sucesso da jornada. Com a resolução de Sua Majestade se preveniu tudo para o último de Julho marcharmos, e ao amanhecer dar em Badajoz. Mandou-se ordem à gente de Olivença e à de Campo Maior, para que se ajuntasse em Telena, que [é] légua e meia desta praça e duas de Badajoz pelo caminho por onde íamos. Começámos a marchar desta praça para Telena e três peças de artilharia que levávamos, e outras carroças com ferramentas e as escadas, quebraram tantas vezes, que com as consertarem e passagem do rio, chegámos a Telena uma hora antemanhã [isto é, antes do amanhecer], e não poderíamos chegar a Badajoz senão com duas ou três de dia, e como a ordem de Sua Majestade era chegando de dia não acometêssemos a praça, nos retirámos cada um para a praça donde tinha saído. E Dom Rodrigo de Castro foi com a cavalaria a correr o campo de Xerez de los Caballeros, donde trouxe novecentas vacas.

Este é pontualmente o sucesso da jornada de Badajoz. os motivos com que se intentou e os defeitos por que se não executou. Os castelhanos não tiveram notícia nenhuma de nossa jornada, nem souberam que havíamos marchado senão a dois de Agosto, que acaso vieram a Telena e viram a trilha da gente que ali havia estado.Todos os que têm vindo de Badajoz depois disto, assim castelhanos como portugueses, dizem que tomávamos a praça sem dúvida nenhuma, e isto mesmo disse Jorge de Melo e Dom Diogo de Meneses e o Conde de Santa Cruz. Queira Deus termos guardado esta empresa para melhor ocasião. Os castelhanos depois disto têm crescido a infantaria, e têm seis mil homens e dois mil e quinhentos cavalos, e a nossa cavalaria consta só de mil e cento, com que nos levam uma grande vantagem.

Haverá sete dias que o capitão de cavalos Francisco Barreto, filho natural de Francisco Barreto, único filho do morgado de Quarteira, que estava alojado com a sua companhia em Arronches, fez uma emboscada a uma companhia de infantaria que de Albuquerque vem todos os meses mudar o presídio da Codiceira, e deu nela de repente e matou trinta castelhanos e trouxe dezanove prisioneiros com as armas de todos, e as cavalgaduras em que traziam a bagagem. Eles se quiseram vingar e nos vieram aqui armar uma emboscada da outra parte de Guadiana, ainda na sua terra, e mandaram vinte cavalos que viessem tomar o gado. A nossa companhia de cavalos que estava de guarda no campo mandou alguns atrás deles, os quais, contra a ordem que levavam, passaram o rio. O inimigo, em nos vendo da outra parte, carregou sobre eles, e como levavam os cavalos cansados de correr tanto, não se puderam livrar todos, e ficaram prisioneiros doze e o tenente de  Dom Vasco Coutinho. Ficaram mortos dois. E quando fomos saindo desta cidade, se foi o inimigo retirando logo.

De Olivença saíram oito soldados de cavalo a tomar língua, e encontrando-se com trinta soldados que iam para Badajoz de uma leva, os prenderam e trouxeram todos a Olivença.

Isto é o que por cá há estes dias, e do mais que houver avisarei a Vossa Mercê. A Relação da Índia folgarei muito de ver, ainda que é grande o mal que ali nos têm feito os holandeses.

Ao senhor Chantre beijo as mãos e a Vossa Majestade Deus guarde como desejo. Elvas, 12 de Setembro de 1645. João de Saldanha

A propósito de Francisco Barreto de Meneses, que João de Saldanha refere na parte final da sua carta, assinale-se o estudo de José Gerardo Barbosa Pereira, A Restauração de Portugal e do Brasil. A Figura de Francisco Barreto (ou Francisco Barreto de Menezes), texto policopiado, dissertação de Mestrado em História Moderna, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, 2001. Francisco Barreto partiria para o Brasil em 1647 e aí viria a comandar o exército que derrotou os holandeses nas duas batalhas dos Guararapes (1648 e 1649), o que lhe valeu o epíteto de “Restaurador de Pernambuco”. Em Portugal, a sua participação na Guerra da Restauração decorreu no Alentejo e na Beira, como capitão de infantaria do terço do mestre de campo David Caley, tendo demonstrado valor para ser promovido a capitão de cavalaria em 13 de Abril de 1644 e posteriormente a mestre de campo. Distinguiu-se especialmente no ataque à praça de Valença de Alcântara onde recebeu vários ferimentos em combate.

Fonte: Biblioteca Nacional de Madrid, mss. 8187, “Interpreza intentada contra Badajoz a 31 de Julho”, fls. 36-37 v.

Imagem:”Cerco de uma cidade”, óleo de Peter Snayers.

Um combate nos campos de Valência de Alcântara, 7 de Novembro de 1653 (parte 2)

Fernão de Mesquita partiu de Portalegre (…) em seis de Novembro de 1653, e amanheceu aos 7 do mesmo em os campos de Valência, juntando os gados que nele havia, tocando arma em todos aqueles lugares. Mas não acudia cavalaria nenhuma do inimigo, por estar já junta para a jornada de Arronches, e como Fernão de Mesquita viu que todas as línguas que na campanha acharam lhe disseram que as tropas não estavam por ali em razão de serem chamadas abaixo, então se alargou mais pela campanha e se dilatou mais.

Juntas as partidas que havia mandado adentro aos gados, se pôs em marcha com tudo junto, trazendo uma grande presa de gados e cavalgaduras, e vinham muito alegres, sem fazerem caso algum de castelhanos, por saberem que as tropas haviam ido abaixo por um aviso delas, quando se passa uma palavra entre elas que vinha o inimigo. Como Fernão de Mesquita não se podia persuadir que haveria coisa que dano lhe fizesse, em razão de levar 300 cavalos e saber que as tropas daqueles lugares eram abaixo, contudo não se ficou nisso como soldado já experimentado. Não se descuidou, senão deixou a presa e formou e se foi marchando formado para ver o que se dizia (…), quando logo viu uma tropa grossa do inimigo, que seriam 100 cavalos, que vinham já em busca dos nossos.

É aqui que a memória de Mateus Rodrigues o atraiçoa, como por diversas vezes acontece em relação a certos pormenores no decurso da sua narrativa. Diz  soldado que se tratava do regimento de Juan Jacome Mazacán, quando na verdade eram as tropas comandadas pelo comissário geral Bustamante. Por este motivo, no resto da transcrição, o nome de Mazacán será substituído por Bustamante.

Que vinha mais atrás o [Bustamante], com todo o seu regimento, a incorporar-se com a cavalaria com que nós chocámos [refere-se ao combate de Arronches], e vindo já chegando a Valência, teve aviso da vila de como os nossos iam com uma pilhagem, e assim como [Bustamante] lhe deram este aviso, vem correndo em busca dos nossos, que já tinha andado uma légua de Valência para Castelo de Vide, e para que mais desse engano aos nossos, lançou-lhe cem cavalos diante, correndo, e os mais, que eram 600, se veio [Bustamante] com eles por um vale encoberto, que os nossos o não viram. E assim como mandou aqueles cem cavalos aos nossos, (…) deu por ordem ao cabo deles que se deixasse empenhar bem dos nossos e que lhes fosse fugindo para tal parte, que lá havia de estar com a mais cavalar,ia.

Assim como os cem cavalos do inimigo vieram aos nossos, foram-se a eles como uns raios, confiados no que tinham feito. (…) Como Fernão de Mesquita estava bem longe de ver castelhanos, (…) quando viu aqueles cem cavalos imaginou que seriam as duas tropas de Valência e S. Vicente que haveriam chegado aquela hora. E assim como os viu se foi a eles como um raio, mas como o inimigo estava confiado, deixou-se averbar bem dos nossos, e assim como os viu já bem perto, dão uma volta e põem-se em fugida. Tanto que Fernão de Mesquita os viu fugir com toda a pressa, aperta sobre eles com grande força, e tanta pressa lhe deu, que por mais que o inimigo se quis livrar não pôde, que já Fernão de Mesquita lhe ia sacudindo o frouxel. E a tudo isto vendo o inimigo emboscado mui bem, mas como ele sabia que nada daquilo se haviam os nossos de aproveitar, deixou-os chegar bem, para melhor fazer a sua. E assim como os viu já bem junto de si, sai-lhe da emboscada bem nas barbas. Tanto que os nossos viram tanta cavalaria ficaram pasmados e perdidos e já não havia outro remédio mais senão cada um vender a sua vida. Mas como haviam ido à rédea solta sobre o inimigo, já não iam formados (…), contudo fizeram o que puderam, e sempre fugindo cada qual mais podia correr (…). O inimigo os derrotou de sorte que perdeu Fernão de Mesquita 100 cavalos dos 300 que levava, e foi ferido e cativo. O capitão de Castelo de Vide [foi] também cativo, por nome Duarte Lobo da Gama [mais um engano de Mateus Rodrigues: tratava-se de Duarte Fernandes Lobo], e mataram-lhe o seu tenente, que era um raro soldado. Mas a nossa gente fez tais coisas que pasmavam os castelhanos, que ainda perdeu o inimigo oito capitães de cavalos e 40 e tantos mortos. destes 100 homens que Fernão de Mesquita perdeu, morreram 30 e os mais foram cativos.

Segundo a narrativa do Conde de Ericeira, para além dos oficiais referidos, foram também capturados dois tenentes, dois alferes e 58 soldados. Entre os oficiais espanhóis feridos contava-se D. Álvaro de Luna, filho do Conde de Montijo.

Agora vão notando o caso, que este inimigo se vinha a juntar com esta outra cavalaria pelo aviso que havia tido; e quando se vê este encontro com Fernão de Mesquita era (…) sexta-feira à tarde, e não havia de fazer nenhuma dilação, senão marchar toda aquela noite, para quando fosse no sábado pela manhã já havia de estar junto com a outra, como lhe estava assim ordenado. mas como ele se encontrou com esta gente nossa e teve aquela vitória, não pôde vir fazer a marcha. (…) Foi para Valência com os cavalos e prisioneiros a descansar ali aquela noite, e assim como foi manhã tratou de ir ainda fazer sua jornada, por não ficar em falta e dar conta de si. (…) Mas como a jornada era ainda de 7 ou 8 léguas ao sítio aonde ele havia de vir, não podia chegar senão por noite, que eram os dias pequenos. Em este tempo, no mesmo dia de sábado, sucedeu o acharmo-nos com a cavalaria que esperava a esta (…), vejam bem se somos tão desgraçados que se juntavam todos e nós os achávamos…

O comissário geral Bustamante continuou a marchar com os seus homens para o local onde já se travava o combate de Arronches, mas no caminho foi encontrando grupos dispersos de cavaleiros em fuga, que o informaram da derrota da cavalaria comandada pelo Conde de Amarante. Prosseguiu, ainda assim, somente para encontrar adiante ainda mais gente em fuga, que lhe confirmou a derrota da cavalaria espanhola e a morte dos seus comandantes. Regressou então a Valência de Alcântara, de onde despediu em breve algumas tropas para os seus quartéis de origem: Alcântara, Zarza e Ciudad Rodrigo. Mateus Rodrigues coloca a ênfase, a propósito deste episódio, na intervenção da Virgem da Conceição, pois não fora o acaso do encontro entre as forças de Fernão de Mesquita e as de Bustamante, e a sorte das armas teria sido, em sua opinião, desfavorável às armas portuguesas, pois o inimigo teria aí uma superioridade notável.

Pouco conhecido, este combate desfavorável para as armas de D. João IV acabou por facilitar a vitória num outro de maior dimensão, no dia imediato. O que poderia ter tido origem numa estratégia concertada para dividir as forças inimigas foi – como era usual no contexto das operações militares seiscentistas – fruto de um acaso, que acabou por favorecer os propósitos portugueses num dos maiores recontros de cavalaria da Guerra da Restauração.

Bibliografia:

Manuscrito de Matheus Roiz, transcrição do códice 3062 [Campanha do Alentejo (1641-1654)] da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, Lisboa, Arquivo Histórico Militar, 1952 (1ª divisão, 2ª secção, caixa 3, nº 2), pgs 357-360.

Conde de Ericeira, História de Portugal Restaurado (edição on-line facsimile da edição de 1759), Parte I, Livro XII, pg. 412.

Imagem: Joost Cornelisz, “Combate de cavalaria perto de Hertogenbosch” (1630), Kunsthistorisches Museum, Viena.

O combate de Castelo de Vide – 8 de Outubro de 1650 (1ª parte)

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“Na entrada do Inverno tornou o Conde de S. Lourenço a alcançar licença para vir à Corte, e ficou governando a Província de Alentejo o Mestre de Campo General D. João da Costa. Poucos dias depois de dar princípio ao seu governo, soube por inteligências que havia grangeado, que os Castelhanos juntavam algumas tropas, e que estas ameaçavam a campanha de Castelo de Vide, e Portalegre.”

É assim que o Conde de Ericeira começa a narrativa (História de Portugal Restaurado, pg. 333) do episódio que iria culminar no combate de Castelo de Vide, travado em 8 de Outubro de 1650. Entre as fontes disponíveis para esta ocorrência da pequena guerra de fronteira, sem dúvida a mais colorida é a que nos deixou o soldado de cavalaria Mateus Rodrigues (Matheus Roiz), ele próprio participante na acção. E a sua parte da história começa deste modo:

“Estavam um dia (…) [alguns] capitães em casa do general [da cavalaria, André de Albuquerque Ribafria, em Elvas] e disse-lhe Lopo de Sequeira que fosse sua senhoria servido lhe desse licença, e mais a outros quatro ou cinco camaradas, que fossem com suas companhias a São Vicente e Albuquerque, a fazer uma entrada, e ver se podiam dar algum repelão às tropas que estavam naqueles lugares, que quando lhe não saíssem fariam lá mui boa presa, já que estavam ali ociosos, sem fazerem nada. Como estes homens (…) eram tanto seus amigos, disse-lhe o general logo que bem se podiam ir aprestar e com segredo, mas que não haviam de ir mais que cinco companhias (…), em primeiro lugar a sua, que era tenente capitão dela um Agostinho Ribeiro (…), e mais a companhia do meu capitão Francisco Pacheco [Mascarenhas], e mais a companhia de Dinis de Melo [de Castro, futuro Conde de Galveias], e a companhia de Diogo de Mendonça [Furtado] e a do capitão Lopo de Sequeira, que vinham a ser cinco, todas teriam 250 cavalos, de modo que logo os mandou que se fossem aprestar, para ir dormir aquele dia a Arronches, que no outro dia nos havíamos de partir daí para as terras nomeadas, que não são de Arronches lá mais de quatro léguas [c. de 20 Km], e de Arronches haviam de ir connosco uns 20 cavalos que aí estão de pilhantes, que são homens que sabem as terras de Castela a palmos de noite (…).”

O capitão Lopo de Sequeira, sendo o mais antigo dos que iam naquela jornada, foi como comandante da força. Por volta da meia-noite, estando já os soldados a dormir em Arronches, ouviu-se um grande estrondo de artilharia para os lados de Castelo de Vide, a sete léguas de distância (c. de 35 Km). Os capitães rapidamente conferenciaram e concluíram que eram tiros de aviso. O inimigo andaria com cavalaria por aqueles campos, e os tiros serviam para alertar os lugares vizinhos, de modo a que os camponeses guardassem os gados. Foi tomada a decisão de desistirem da entrada e rumarem a Portalegre, para investigar o que se passava, e logo mandaram montar os soldados. Foram escritas duas cartas, uma para o general da cavalaria, dando conta do sucedido, e outra para o mestre de campo comandante da guarnição de Castelo de Vide, informando-o que aquela força de cavalaria seguiria para Portalegre e aí aguardaria pela companhia de Monforte, comandada por D. Fernando da Silva, e que se fosse necessário qualquer auxílio a Castelo de Vide, estariam à disposição.

Chegados a Portalegre, mal tinham desmontado e começado a dar a ração de cevada aos cavalos, receberam um aviso do mestre de campo de Castelo de Vide, dando conta da entrada de uma força inimiga de cerca de 400 cavalos nos campos de Nisa, Alpalhão e Crato. O mestre de campo iria sair com o seu terço e a companhia de cavalos de Duarte Lobo da Gama, e indicava o local para o encontro com o reforço comandado por Lopo de Sequeira. “Podem vossas mercês marchar ao dito posto, que lá me acharão”, rematava a carta.

“Assim como os capitães leram a carta, começam todos com grande festa dizendo «Monta! Monta!». Começámos todos a tirar as mochilas das bocas dos cavalos, que ainda não tinham acabado de comer a sua ração, e mui depressa começámos logo a montar e marchar pela cidade fora na via de Castelo de Vide.” (Citações do Manuscrito de Matheus Roiz, versão transcrita do AHM, pgs. 222-226).

(continua)

Imagem: Detalhe da zona de operações mencionada no texto, in Novissima regnorum Portugalliae et Algarbiae descriptio, c. 1680, Biblioteca Nacional, Cartografia, CC1681A.

“Um general, em uma batalha ou em choque, não há-de levar insígnia nenhuma de general”

Este fragmento das memórias de Mateus Rodrigues refere um caso curioso, passado durante os preparativos para o combate de Arronches (8 de Novembro de 1653):

Assim como o nosso famoso general André de Albuquerque viu ao inimigo, parece que viu o céu aberto, por ver que lhe mostrava Deus o que havia tanto tempo andava buscando; que era dos desejos de se encontrar com o inimigo, de modo que pelejassem ambos e assim como compôs mui bem a cavalaria, (…) foi passando pela vanguarda com a espada na mão, (…) ia mui bem armado e mudado dos fatos, que tirou os que levava e os deu a um pajem seu e vestiu os do pajem para ficar desconhecido, porque um general em uma batalha ou em choque não há-de levar insígnia nenhuma de general. (Manuscrito de Matheus Roiz, pgs. 345-346)

O excerto indica uma prática que não era invulgar na época. Convém esclarecer, no entanto, que o autor pode estar a referir-se a uma capa ou casaca usada sobre a protecção de couro e a couraça, não ao equipamento militar na totalidade. O propósito de André de Albuquerque Ribafria seria, talvez, tornar menos evidente ao inimigo a sua posição, uma vez iniciada a confusão do combate corpo-a-corpo. No caso, de pouco lhe valeu, pois foi derrubado logo no início da peleja, tendo ficado bastante ferido.

Imagem: André de Albuquerque Ribafria, um dos melhores generais da cavalaria portuguesa durante a Guerra da Restauração. Morreu na batalha das Linhas de Elvas em 14 de Janeiro de 1659.