“O papel da batalha: a disputa pela vitória de Montijo na publicística do século XVII” – um estudo colectivo de grande interesse

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Merece destaque o muito interessante artigo da autoria dos Drs. Carlos Ziller Camenietzki, Daniel Magalhães Porto Saraiva e Pedro Paulo de Figueiredo Silva, publicado na revista Topoi, vol. 13, nº 24, Janeiro-Junho 2012, pgs. 10-28. Aqui fica a ligação:

O papel da batalha: a disputa pela vitória de Montijo na publicística do século XVII

Imagem: “Batalha de Montijo”, pormenor de um painel do biombo dos Marqueses de Fonte Arcada (séc. XVII). Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa.

Gaspar Pinto Pestana

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Gaspar Pinto Pestana foi comissário geral da cavalaria do Alentejo durante três anos, entre 1641 e 1644. Nesse período, dada a pouca cavalaria existente e a limitada experiência militar do seu superior hierárquico, o general da cavalaria Francisco de Melo, Monteiro-Mor do Reino, era frequente recair em Gaspar Pinto a tarefa de formar e organizar em batalha a força de cavalaria. Gaspar Pinto Pestana teve também o título honorífico de coronel, para que pudesse ser equiparado aos comandantes dos regimentos de cavalaria estrangeiros (os franceses e o holandês) que se encontravam ao serviço da Coroa portuguesa nos primeiros anos da Guerra da Restauração. A sua carta patente, passada em 13 de Novembro de 1641, atesta a experiência adquirida durante a Guerra dos 30 Anos (texto vertido para português corrente):

D. João, etc, faço saber aos que esta minha carta patente virem, que por convir a meu serviço nomear pessoa de confiança, qualidade e experiência das coisas de guerra, para servir o cargo de comissário geral da cavalaria do exército da província de Alentejo, que está vago por morte de Francisco Rebelo de Almada, e concorrendo todas estas boas partes na do capitão de cavalos Gaspar Pinto, a quem tinha ordenado fosse no mesmo ofício servir as comarcas de Trás os Montes, por se haver ocupado há vinte e dois anos em guerra viva, assim em Itália como Alemanha, Palatinado, Boémia, Hungria e Saxónia, em que ocupou os postos de ajudante, tenente e capitão de cavalos couraças (…). (ANTT, Conselho de Guerra, Secretaria de Guerra, Registos, Lvº 2º (1640-1642), fls. 110-110 v)

As variadas fontes que referem as acções em que participou Gaspar Pinto Pestana deixam perceber que era um comandante competente, mas sem grande carisma. Após a batalha de Montijo, em 26 de Maio de 1644, foi alvo de um processo e perdeu o posto – tudo por causa do péssimo comportamento da cavalaria portuguesa nessa batalha. Morreu poucos anos depois. A sua viúva, D. Brites de Matos, casou com um outro oficial de cavalaria, o ajudante francês Carlos (Charles) de La Grizille, de quem teve um filho. Porém, a desditosa senhora enviuvou pela segunda vez em 1658, quando La Grizille faleceu em consequência de graves ferimentos recebidos durante o cerco de Badajoz.

Imagem: Joseph Parrocel, “Combate junto a um moinho”, segunda metade do séc. XVII.

Um escocês ao serviço de D. João IV – o mestre de campo David Caley (2ª parte)

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No início do ano de 1644, David Caley recebeu o comando de outro terço da ordenança de Lisboa, que devia ser formado com uma mescla de recrutas inexperientes e reformados (oficiais tornados excedentários devido à dissolução das suas unidades, os quais passavam a  receber uma pequena fracção do soldo e podiam ser incorporados de novo, mesmo como simples soldados). Estas unidades novas da ordenança, destinadas a combater nas fronteiras, eram constituídas apenas por um período de três meses, findo o qual oficiais e soldados eram desmobilizados. Em Fevereiro de 1644 ainda faltavam três companhias para completar o terço, que também necessitava de capitães e de um sargento-mor. Foi com este terço que, em Maio, Caley se bateu na batalha de Montijo, a qual provocou uma razia no exército do Alentejo. David Caley regressou a Lisboa para assumir o comando de um de três novos terços da ordenança, rapidamente levantados para suprir as baixas sofridas. Ainda com pouca instrução militar e sem armas, os cerca de 1.000 homens foram conduzidos pelo mestre de campo até Estremoz, onde finalmente receberam armas e munições capturadas aos espanhóis durante a campanha do ano anterior. Daí, partiram para Olivença, onde ficariam a fazer parte da guarnição.

David Caley conhecia agora muito bem o exército português, as suas características e principalmente as suas fraquezas. Ele e outros oficiais providenciavam instrução militar com regularidade aos soldados, mas tudo isso seria desperdiçado quando a unidade fosse desmobilizada, findos os três meses de serviço. Escreveu ao Conselho de Guerra a esse propósito e foi o próprio Rei que, em resposta à solicitação do escocês, enviou uma carta ao então governador das armas da província, Matias de Albuquerque, Conde de Alegrete:

Conde de Alegrete amigo, Eu El-Rei vos envio muito saudar como aquele que amo. David Caley me pede em uma carta que me escreveu, mande que a gente do seu terço seja paga, pois se conhece que de o não ser resulta grande desserviço [ou seja, prejuízo] meu, servindo os oficiais da primeira plana só três meses do ano e estarem ociosos os nove restantes no castelo de Lisboa, e por outras razões que se deixam considerar, para que o ensino e exercício que se vai dando à gente de que hoje se compõe o terço, se não perca por se ir afeiçoando a este exercício, estando já hoje de sorte que os mais aceitarão o não sair dele, podendo-se também considerar grande conveniência em que se pode poupar o trabalho e gasto que se faz em novas levas, encomendo-vos que inteirado de tudo e mandando-vos informar por um tenente de mestre de campo general, ou por quem melhor vos parecer, se os soldados deste terço, sendo da leva dos três meses, se acomodarão de sua própria vontade a assentar praça e ficar servindo nele de soldados pagos, me avisais do que se vos oferecer sobre esta matéria para se tomar nela a resolução que mais convenha a meu serviço. Escrita em Alcântara a 30 de Junho de 1644. Rei. (ANTT, Secretaria de Guerra, Livro 5º, fl.153 – a ortografia foi actualizada; as restantes fontes e bibliografia serão referidas no final desta série de artigos.)

O terço foi elevado à categoria de tropas pagas, mas as previsões optimistas não se confirmaram. Muitos soldados acabaram por não se adaptar à vida na fronteira de guerra e as deserções foram aumentando. Em Março de 1645 o terço foi dissolvido. A próxima etapa na carreira de David Caley passaria pela província da Beira.

(continua)

Imagem: Infantaria do período da Guerra Civil Inglesa. Reconstituição histórica, Kelmarsh Hall, 2007. Foto de Jorge P. Freitas.