Uma incursão no termo de Monsaraz (28 e 29 de Setembro de 1645) – Carta de Mourão com novas desta entrada

A 29 de Setembro de 645, dia de S. Miguel amanhecente entraram 300 castelhanos de cavalo no termo de Monsaraz, aonde vinha a companhia do Lara e Bustamante e Don Alonso de Cabrera por cabo, que são os da fama. Chegaram até à Caridade, vieram recolhendo todo o gado que acharam até Vale de Xeres e Dona Amada. Quiseram vir passar ao porto da Vila Velha, acharam, dizem, seriam sessenta homens do termo de Monsaraz, não se atreveram a passar, foram ribeira acima, estavam ao porto de S. Gens outra pouca de gente, houveram-se tão bem, que os castelhanos houveram por bem largar a presa toda com perda de alguns mortos, e cuido disseram haviam achado, e lhe tomaram cinco cavalos vivos, afora outros que pelo campo se acharam mortos. Vieram-nos dando vista pelo caminho velho, direito ao Penedo da Corva, vieram sair à fonte de Pedro Mateus. Começou-se a jogar com a artilharia, de modo que logo se tomou um cavalo passado pelo pescoço com um pelouro de uma peça, e ainda está vivo, de modo que lhe fugiu um cativo dos que levaram de Valência, e vindo pelo caminho por donde foram, achou à cabeça de João de Vilheiro cinco homens mortos, e disse que levavam alguns com pernas e braços quebrados, e outros feridos, que de noite se queixavam muito; e dizem que todos aqueles haviam morto [morrido] com a artilharia. Parece que Nosso Senhor nos quer ajudar, e bem os castigou nesta jornada, em verdade que bem se pode restituir aos de Monsaraz o crédito, que tão perdido o tinham. Também temos novas que tem o castelhano muita gente junta. Acuda-se a tudo, etc.

Mourão, o derradeiro de Setembro de 645.

António Cordeiro de Sande

Fonte: Carta de Mourão que dá novas desta entrada (Biblioteca Nacional de Madrid, ms. 8187, fls. 42 v-43)

Imagem: “Cena de Pilhagem”, gravura de Jacques Callot, do período da Guerra dos 30 Anos (1618-1648).

Um combate nos campos de Valência de Alcântara, 7 de Novembro de 1653 (parte 2)

Fernão de Mesquita partiu de Portalegre (…) em seis de Novembro de 1653, e amanheceu aos 7 do mesmo em os campos de Valência, juntando os gados que nele havia, tocando arma em todos aqueles lugares. Mas não acudia cavalaria nenhuma do inimigo, por estar já junta para a jornada de Arronches, e como Fernão de Mesquita viu que todas as línguas que na campanha acharam lhe disseram que as tropas não estavam por ali em razão de serem chamadas abaixo, então se alargou mais pela campanha e se dilatou mais.

Juntas as partidas que havia mandado adentro aos gados, se pôs em marcha com tudo junto, trazendo uma grande presa de gados e cavalgaduras, e vinham muito alegres, sem fazerem caso algum de castelhanos, por saberem que as tropas haviam ido abaixo por um aviso delas, quando se passa uma palavra entre elas que vinha o inimigo. Como Fernão de Mesquita não se podia persuadir que haveria coisa que dano lhe fizesse, em razão de levar 300 cavalos e saber que as tropas daqueles lugares eram abaixo, contudo não se ficou nisso como soldado já experimentado. Não se descuidou, senão deixou a presa e formou e se foi marchando formado para ver o que se dizia (…), quando logo viu uma tropa grossa do inimigo, que seriam 100 cavalos, que vinham já em busca dos nossos.

É aqui que a memória de Mateus Rodrigues o atraiçoa, como por diversas vezes acontece em relação a certos pormenores no decurso da sua narrativa. Diz  soldado que se tratava do regimento de Juan Jacome Mazacán, quando na verdade eram as tropas comandadas pelo comissário geral Bustamante. Por este motivo, no resto da transcrição, o nome de Mazacán será substituído por Bustamante.

Que vinha mais atrás o [Bustamante], com todo o seu regimento, a incorporar-se com a cavalaria com que nós chocámos [refere-se ao combate de Arronches], e vindo já chegando a Valência, teve aviso da vila de como os nossos iam com uma pilhagem, e assim como [Bustamante] lhe deram este aviso, vem correndo em busca dos nossos, que já tinha andado uma légua de Valência para Castelo de Vide, e para que mais desse engano aos nossos, lançou-lhe cem cavalos diante, correndo, e os mais, que eram 600, se veio [Bustamante] com eles por um vale encoberto, que os nossos o não viram. E assim como mandou aqueles cem cavalos aos nossos, (…) deu por ordem ao cabo deles que se deixasse empenhar bem dos nossos e que lhes fosse fugindo para tal parte, que lá havia de estar com a mais cavalar,ia.

Assim como os cem cavalos do inimigo vieram aos nossos, foram-se a eles como uns raios, confiados no que tinham feito. (…) Como Fernão de Mesquita estava bem longe de ver castelhanos, (…) quando viu aqueles cem cavalos imaginou que seriam as duas tropas de Valência e S. Vicente que haveriam chegado aquela hora. E assim como os viu se foi a eles como um raio, mas como o inimigo estava confiado, deixou-se averbar bem dos nossos, e assim como os viu já bem perto, dão uma volta e põem-se em fugida. Tanto que Fernão de Mesquita os viu fugir com toda a pressa, aperta sobre eles com grande força, e tanta pressa lhe deu, que por mais que o inimigo se quis livrar não pôde, que já Fernão de Mesquita lhe ia sacudindo o frouxel. E a tudo isto vendo o inimigo emboscado mui bem, mas como ele sabia que nada daquilo se haviam os nossos de aproveitar, deixou-os chegar bem, para melhor fazer a sua. E assim como os viu já bem junto de si, sai-lhe da emboscada bem nas barbas. Tanto que os nossos viram tanta cavalaria ficaram pasmados e perdidos e já não havia outro remédio mais senão cada um vender a sua vida. Mas como haviam ido à rédea solta sobre o inimigo, já não iam formados (…), contudo fizeram o que puderam, e sempre fugindo cada qual mais podia correr (…). O inimigo os derrotou de sorte que perdeu Fernão de Mesquita 100 cavalos dos 300 que levava, e foi ferido e cativo. O capitão de Castelo de Vide [foi] também cativo, por nome Duarte Lobo da Gama [mais um engano de Mateus Rodrigues: tratava-se de Duarte Fernandes Lobo], e mataram-lhe o seu tenente, que era um raro soldado. Mas a nossa gente fez tais coisas que pasmavam os castelhanos, que ainda perdeu o inimigo oito capitães de cavalos e 40 e tantos mortos. destes 100 homens que Fernão de Mesquita perdeu, morreram 30 e os mais foram cativos.

Segundo a narrativa do Conde de Ericeira, para além dos oficiais referidos, foram também capturados dois tenentes, dois alferes e 58 soldados. Entre os oficiais espanhóis feridos contava-se D. Álvaro de Luna, filho do Conde de Montijo.

Agora vão notando o caso, que este inimigo se vinha a juntar com esta outra cavalaria pelo aviso que havia tido; e quando se vê este encontro com Fernão de Mesquita era (…) sexta-feira à tarde, e não havia de fazer nenhuma dilação, senão marchar toda aquela noite, para quando fosse no sábado pela manhã já havia de estar junto com a outra, como lhe estava assim ordenado. mas como ele se encontrou com esta gente nossa e teve aquela vitória, não pôde vir fazer a marcha. (…) Foi para Valência com os cavalos e prisioneiros a descansar ali aquela noite, e assim como foi manhã tratou de ir ainda fazer sua jornada, por não ficar em falta e dar conta de si. (…) Mas como a jornada era ainda de 7 ou 8 léguas ao sítio aonde ele havia de vir, não podia chegar senão por noite, que eram os dias pequenos. Em este tempo, no mesmo dia de sábado, sucedeu o acharmo-nos com a cavalaria que esperava a esta (…), vejam bem se somos tão desgraçados que se juntavam todos e nós os achávamos…

O comissário geral Bustamante continuou a marchar com os seus homens para o local onde já se travava o combate de Arronches, mas no caminho foi encontrando grupos dispersos de cavaleiros em fuga, que o informaram da derrota da cavalaria comandada pelo Conde de Amarante. Prosseguiu, ainda assim, somente para encontrar adiante ainda mais gente em fuga, que lhe confirmou a derrota da cavalaria espanhola e a morte dos seus comandantes. Regressou então a Valência de Alcântara, de onde despediu em breve algumas tropas para os seus quartéis de origem: Alcântara, Zarza e Ciudad Rodrigo. Mateus Rodrigues coloca a ênfase, a propósito deste episódio, na intervenção da Virgem da Conceição, pois não fora o acaso do encontro entre as forças de Fernão de Mesquita e as de Bustamante, e a sorte das armas teria sido, em sua opinião, desfavorável às armas portuguesas, pois o inimigo teria aí uma superioridade notável.

Pouco conhecido, este combate desfavorável para as armas de D. João IV acabou por facilitar a vitória num outro de maior dimensão, no dia imediato. O que poderia ter tido origem numa estratégia concertada para dividir as forças inimigas foi – como era usual no contexto das operações militares seiscentistas – fruto de um acaso, que acabou por favorecer os propósitos portugueses num dos maiores recontros de cavalaria da Guerra da Restauração.

Bibliografia:

Manuscrito de Matheus Roiz, transcrição do códice 3062 [Campanha do Alentejo (1641-1654)] da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, Lisboa, Arquivo Histórico Militar, 1952 (1ª divisão, 2ª secção, caixa 3, nº 2), pgs 357-360.

Conde de Ericeira, História de Portugal Restaurado (edição on-line facsimile da edição de 1759), Parte I, Livro XII, pg. 412.

Imagem: Joost Cornelisz, “Combate de cavalaria perto de Hertogenbosch” (1630), Kunsthistorisches Museum, Viena.

Um combate nos campos de Valência de Alcântara, 7 de Novembro de 1653 (parte 1)

Um dos episódios mais conhecidos da Guerra da Restauração foi o combate de Arronches, travado em 8 de Novembro de 1653 algures entre Arronches e Assumar (o local exacto não é conhecido com precisão, mas seria pouco distante de Arronches). A vitória obtida pela cavalaria portuguesa comandada por André de Albuquerque Ribafria abriu caminho a alguns meses de iniciativa e supremacia dos portugueses naquela fronteira de guerra, permitindo inclusivamente a tomada de Oliva. No entanto, um outro choque de cavalaria, ocorrido na véspera do combate de Arronches e praticamente desconhecido, terá tido importância para o desfecho daquela grande peleja. É esse episódio que aqui se recorda, com base nas memórias do soldado Mateus Rodrigues e na referência ao mesmo que o Conde de Ericeira lhe faz na História de Portugal Restaurado.

Em 1653, apesar de nominalmente ter continuado a ser governador das armas, o ódio de morte que existia entre D. João da Costa, Conde de Soure, e os Bobadilha (Diogo Gomes de Figueiredo, pai e filho, respectivamente mestre de campo e sargento-mor no mesmo terço de Elvas) levara a que o Conde se tivesse mantido em Lisboa enquanto o Príncipe do Brasil, D. Teodósio, permanecia no Alentejo. Os Bobadilha tinham sido mestres de armas do herdeiro da Coroa. O favorecimento do Príncipe aos seus antigos professores de esgrima, bem como a sua interferência no governo do Alentejo, não foram bem aceites por D. João da Costa. Mas pouco depois de D. Teodósio ter regressado a Lisboa (onde viria a falecer em Dezembro desse ano) e dos Bobadilha terem deixado o terço de infantaria, D. João voltou a ocupar o cargo de governador das armas.

Foi nesta condição que, em Novembro de 1653, aproveitando o facto dos campos não estarem ainda alagados pelas chuvas, o Conde de Soure ordenou duas incursões de cavalaria simultâneas contra a congénere espanhola. O general da cavalaria André de Albuquerque devia conduzir as companhias de Elvas, Campo Maior e Olivença a emboscar as companhias de cavalos de Badajoz, enquanto o capitão Fernão de Mesquita, com cinco companhias pagas e as companhias de pilhantes, devia fazer o mesmo às duas companhias que se aquartelavam em Valência de Alcântara e São Vicente.

O soldado Mateus Rodrigues servia ao tempo na companhia de Francisco Pacheco Mascarenhas. Tendo combatido em Arronches, onde foi ferido, não esteve presente na acção que narra, com algum detalhe, nas suas memórias – mas porventura terá apontado o que ouviu contar a outros camaradas de armas que estiveram nesse combate sob o comando de Fernão de Mesquita, acrescentando talvez um ou outro pormenor de sua lavra. E começa assim a sua narrativa (vertida para português moderno):

Em a cidade de Portalegre estava neste tempo uma companhia de cavalos de guarnição, e o capitão dela era de couraças, que tem mais proeminências que os ligeiros, e como havia mais umas cinco ou seis tropas que estavam por aqueles lugares circunvizinhos, estas estavam à sua ordem, deste de Portalegre, por nome Fernão de Mesquita, natural de Elvas, fidalgo e grande soldado e valente. De modo como Portalegre fica perto de Castela, (…) quis este Fernão de Mesquita juntar o seu regimento [note-se que Mateus Rodrigues utiliza o termo “regimento” num senso generalista, referindo-se a várias companhias sob o comando de um oficial, não no sentido orgânico do termo], que seriam 300 cavalos, a fazer uma entrada a Castela, às partes de Valência de Alcântara, que era aonde podia fazer alguma coisa, por ser lugar grande e de muitos gados (…), e como este capitão não podia fazer entrada nenhuma em Castela sem ordem do governador e do general da cavalaria, escreveu uma carta ao nosso mestre de campo general, Dom João da Costa, e ao general da cavalaria, em que lhe pedia licença para fazer a dita entrada, manifestando-lhe as causas que o moviam a fazê-la, que podia ser que desse algum repelão às tropas do inimigo, que tinha em Valência e em S. Vicente e em Albuquerque, porque todas estas tropas estão uma e duas léguas umas das outras, e em qualquer parte que os nossos lhe tocam arma, logo acodem uns aos outros como uns raios; e quando não fosse isto, traria o que lhes achasse pela campanha e se viria muito embora. [MMR, pg. 355]

Segundo Mateus Rodrigues, esta solicitação do capitão aos seus superiores tinha sido feita muitos dias antes do recontro de Arronches. É provável que o memorialista esteja correcto quanto às verdadeiras motivações desta operação, mas o certo é que, tenha partido a iniciativa do próprio capitão ou do Conde de Soure, ela foi providencial para o sucesso de Arronches. É que no mesmo dia em que Fernão de Mesquita saiu com as suas companhias, tinha o Duque de San Germán ordenado ao comissário geral Bustamante que, com dezoito companhias dos partidos de Alcântara e Albuquerque, entrasse a pilhar os campos das comarcas de Portalegre, Crato e Avis, e que depois se juntasse ao resto da cavalaria, que o aguardaria entre Alegrete e Arronches. Para Mateus Rodrigues, foi a intervenção divina (da Virgem da Conceição primeiramente – reflectindo o culto mariano característico do período) que fez com que, após a autorização dada pelos seus superiores, Fernão de Mesquita tivesse deixado passar vários dias antes de empreender a entrada.

Do recontro propriamente dito tratará a segunda e última parte deste pequeno artigo.

Bibliografia:

Manuscrito de Matheus Roiz, transcrição do códice 3062 [Campanha do Alentejo (1641-1654)] da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, Lisboa, Arquivo Histórico Militar, 1952 (1ª divisão, 2ª secção, caixa 3, nº 2), pgs 354-356.

Conde de Ericeira, História de Portugal Restaurado (edição on-line facsimile da edição de 1759), Parte I, Livro XII, pgs. 411-412.

Imagem: “O Campo da Cavalaria”, pintura de Philips Wouwerman, The Frick Collection, Nova Iorque.