Postos do exército português (9) – o capitão de cavalaria

De todos os postos militares, aquele que maior peso tinha no imaginário seiscentista era o de capitão de cavalos. Associado aos valores herdados da nobreza medieval, do capitão de cavalos se esperava, no mínimo, que servisse com a honradez que os ancestrais pergaminhos exigiam. E por isso, a ideia de que o posto devia ser confiado apenas a pessoas de nobre nascimento ainda prevaleceu nas mentes mais conservadoras de alguns, pelo menos nos anos iniciais do conflito. A realidade, todavia, encarregar-se-ia de demonstrar que era preciso muito mais do que uma ascendência fidalga para encabeçar uma companhia de cavalos. A evolução dos modos de fazer a guerra não se compadecia com alguns arcaísmos que teimavam em subsistir. Mas num aspecto o mundo material não desenganava a concepção imaginada das qualidades do posto: os capitães de cavalos eram responsáveis pelas suas companhias ao ponto de garantirem, do seu próprio bolso, a aquisição e manutenção das montadas. A Coroa nunca conseguiu cumprir pontualmente as suas obrigações com os soldos e outras despesas necessárias à manutenção das companhias de cavaria. Isto explica, em parte, o grau de autonomia dos capitães de cavalos e a não introdução do sistema de regimentos no exército português (aliás, também não o havia no exército espanhol).

Em Portugal, as companhias de cavalos do exército pago ou das milícias da ordenança, auxiliares, pilhantes ou moradores eram sempre comandadas por capitães. Exceptuavam-se as companhias dos oficiais superiores, que na prática estavam a cargo dos respectivos tenentes. Havia, no entanto, uma distinção entre os capitães de couraças e os capitães de cavalos arcabuzeiros. As disputas quanto à primazia de uns sobre outros foram motivo para quezílias e mal-entendidos. Só em 1651 ficou assente que os capitães de couraças seriam considerados superiores, na hierarquia militar, aos de cavalos arcabuzeiros, pois até essa data valia a antiguidade das cartas de patente de cada um, o que causava ressentimentos entre os capitães de couraças, cujas companhias eram mais prestigiadas.

Mas o que seria de esperar de um capitão de cavalos? Alguém que passou pelo posto sem grande experiência prévia, nem brilhantismo no desempenho, apesar de possuir a qualidade da nobreza associada à condução de uma companhia, deixou assim escrito no seu esboço de tratado:

O posto de capitão de cavalos, por ser de tanta autoridade e reputação em Espanha, foi sempre pretendido e requisitado de Príncipes e Senhores grandes, em que ainda ordinariamente e assim se devia sempre de prover, não deixando contudo de fora aos soldados de nome e de merecimentos, entendendo-se que na guerra o valor se iguala à melhor nobreza, que só por si não basta para fazer a um capitão perfeito sem ser acompanhada com alguma prática e experiência das armas (…).

Pelo que o capitão que não tiver de guerra muita experiência procurará trazer junto a si algum bom oficial ou soldado velho de suficiência, para que faça menos faltas ou lhe encubra algumas (…).

(…) Os capitães são todos livres administradores de suas companhias e provêem os cargos delas como lhes parece absolutamente, como é tenente, alferes e os outros todos, podendo-os dispor e despedir na mesma forma, dando conta ao general ou ao seu lugar-tenente em sua ausência, que devem deixar aos capitães em sua liberdade, por ser esta a sua preeminência.

Uma visão que reflecte uma noção mais assente na realidade da guerra no terreno. Foi D. João de Azevedo de Ataíde que assim escreveu, a páginas 34 até 37 do seu tratado de cavalaria, entre os anos de 1644 e 1647.

Imagem: Oficiais de cavalaria. Pormenor do painel de azulejos relativo ao último combate da Guerra da Restauração na fronteira de Trás-os-Montes. “Sala das Batalhas”, Palácio dos Marqueses de Fronteira.

Organização do exército português (4) – Cavalaria: a estrutura das companhias

A companhia era a unidade administrativa básica da cavalaria portuguesa, quer para as forças pagas (exército profissional), quer para as milícias da ordenança, auxiliares, moradores e pilhantes ou amunicionados. Em 1661 houve uma proposta do Conde de Schomberg para que a cavalaria portuguesa passasse a adoptar o sistema regimental. Nada se concretizou devido às fortes resistências encontradas, entre outros motivos porque essa alteração implicaria a perda de prerrogativas sociomilitares dos capitães, muito arreigadas na tradição. O mais que se conseguiu, a partir de 1664, foi a introdução de troços, agrupamentos regulares de companhias sob o comando de um comissário geral. Na verdade, antes daquela data já existiam troços, visto que era a designação em uso para qualquer agrupamento de companhias, mas só depois assumiram um carácter normativo: oito companhias por troço, incluindo a do comissário geral. No entanto, não eram unidades permanentes, uma vez que só em período de campanha se formavam os troços.

O número de efectivos previstos por companhia do exército profissional variou muito ao longo da guerra. O máximo de 100 militares fixado no início do conflito desceu pouco tempo depois para 80, voltou aos 100, de novo aos 80, depois 60, outra vez 100 e regressou aos 80, tudo isto entre o início de 1641 e os finais de 1648. A influência do Conde de Schomberg levou à fixação de 65 militares por companhia, a partir de Novembro de 1661. Mas uma coisa era a força prevista no papel e outra a que realmente era possível apresentar no terreno. Deste modo, tanto era possível encontrar companhias com cerca de duas dezenas de cavalos, como outras, mais raras, com efectivos acima da centena! O mais vulgar, no entanto, era alinharem entre 30 e 60 cavalos. O efectivo teórico das companhias de auxiliares foi estabelecido em 50, logo no ano da criação daquela força miliciana montada (1650). A cavalaria da ordenança e as companhias de moradores e pilhantes não tinham um efectivo estipulado, embora fosse esperado que imitassem a dotação das forças pagas.

Qualquer que fosse o seu total de efectivos, uma companhia compunha-se de uma primeira plana com capitão, tenente, alferes (embora oficialmente não existissem nas companhias de arcabuzeiros a cavalo, muitas tinham-nos), furriel, capelão, dois trombetas, ferrador e um pagem por cada oficial. O restante efectivo era repartido em esquadras de 20 a 25 soldados, cada uma comandada por um cabo de esquadra. Esta organização era idêntica para o exército profissional e para todo o tipo de forças milicianas. No entanto, até nas forças pagas era difícil dotar as companhias de capelão e ferrador, e muitas só tinham um trombeta.

O capitão, cuja patente era atribuída por decreto régio, nomeava os restantes oficiais e os cabos de esquadra. No caso das companhias da ordenança, eram as câmaras que nomeavam ou elegiam os capitães. Os oficiais das companhias de auxiliares podiam provir das forças pagas, mas nesse caso recebiam um soldo mais reduzido. Pelo menos uma companhia de pilhantes chegou a ser comandada, no início da década de 50, por um oficial estrangeiro (francês) proveniente das forças pagas.

Imagem: Companhias portuguesas de cavalos arcabuzeiros, também designadas por arcabuzeiros a cavalo, carabinas, cravinas ou clavinas. Painel representativo da Batalha do Ameixial (1663), “Sala das Batalhas”, Palácio dos Marqueses de Fronteira. Foto do Comandante Augusto Salgado.

Organização do exército português (3) – os tipos de cavalaria

A maioria da cavalaria existente em Portugal durante a Guerra da Restauração era do tipo ligeiro, designada de diversos modos: arcabuzeiros a cavalo, cavalos arcabuzeiros, clavinas, cravinas ou carabinas. Era semelhante à cavalaria mais vulgarmente encontrada na Europa central e ocidental. Os militares estavam equipados ofensivamente com espada, um par de pistolas e uma carabina de fecho de pederneira (e nunca o arcabuz, se bem que a designação tenha sido herdada das origens quinhentistas, quando então, sim, o arcabuz de mecha era a arma utilizada). Defensivamente, usavam peito e espaldar de aço sobre um colete ou casaca de couro (ou só esta última protecção) e um capacete (este termo era utilizado na época, embora o nome mais vulgar fosse murrião), que frequentemente era substituído por um chapéu de aba larga.

A maioria das companhias do exército pago (profissional) era de cavalos arcabuzeiros; as unidades milicianas de auxiliares (criadas a partir de 1650) e da ordenança eram todas deste tipo. Uma hipotética excepção pode ter ocorrido no Reino do Algarve (designação tradicional da província mais meridional de Portugal) durante o primeiro ano da guerra, onde a cavalaria da ordenança poderá ter prolongado por algum tempo o uso de lança e adarga – como se usava ainda nas praças portuguesas do Norte de África -, equipamento registado num arrolamento de efectivos em 1639. Havia ainda companhias milicianas de moradores, cavalos pilhantes ou amunicionadas, que começaram a ser criadas em 1647 – antes dos auxiliares, mas contemporâneas da cavalaria da ordenança. A diferença entre estes cavalos arcabuzeiros milicianos e os restantes é que as suas unidades eram formadas voluntariamente, enquanto os efectivos para a ordenança e os auxiliares eram recrutados compulsoriamente.

A partir de Setembro de 1644, no seguimento da experiência colhida na batalha de Montijo, foi introduzido um outro tipo de cavalaria: os couraceiros (ou cavalos couraças). Estes existiam antes daquela data na designação honorífica no papel (havia companhias de couraceiros, mas sem qualquer diferença no equipamento em relação aos cavalos arcabuzeiros). O seu equipamento ofensivo era semelhante ao da cavalaria ligeira, excepto (em teoria, que na prática nem sempre foi assim) a carabina. O equipamento defensivo era mais completo, com celada (elmo fechado), peito e espaldar sobre colete de couro, guarda-rins, coxotes, braçais e manoplas, ou pelo menos uma manopla para a mão que segurava a rédea. Todavia, ainda na década de 40 os couraceiros foram aligeirando o seu equipamento defensivo, ao ponto de muitas companhias não se distinguirem dos cavalos arcabuzeiros, regressando assim às origens meramente honoríficas. Só existiam unidades de couraceiros no exército pago, pois eram consideradas tropas de elite – mas não se confunda com o conceito actual, pois mais do que à capacidade operacional da unidade, era sobretudo ao prestígio individual do comandante que se atendia na distinção.

Gravuras: Arcabuzeiro a Cavalo e Couraceiro, imagens extraídas do tratado militar de John Cruso, Militarie Instructions for the Cavall’rie, Kineton, The Roundwood Press, 1972 (fac-simile da edição de 1632; comentada e anotada pelo Brigadeiro Peter Young).