Emboscadas e estratagemas na Guerra da Restauração – Holandeses em Agosto de 1642 (parte 2)

Continuando com o episódio referido na primeira parte, apresento agora a versão do capitão Luís Marinho de Azevedo acerca do mesmo incidente. Embora o oficial fosse mais preciso do que o cónego Aires Varela quanto à descrição dos acontecimentos militares, acerca dos quais tinha um conhecimento mais aprofundado, é difícil estabelecer com exactidão qual das versões, neste caso, se aproxima mais da realidade, uma vez que o episódio terá sido contado por terceiros.

Estavam aquarteladas na vila de Campo Maior algumas companhias de holandeses que desejavam, a uso de Flandres, entrar em quadrilhas nas terras do inimigo a fazer rapinas de que se aproveitassem, para o que se lhes não dava permissão, pelas ruins consequências que se podiam seguir deste exercício; mas havendo-se com impaciência nesta proibição, se temeu que eles se dispensassem nela, como algumas vezes costumaram. E para obviar estes descréditos, se lhes permitiu que vinte, com suas carabinas, fizessem o que tanto desejavam, e em treze do mês de Agosto se meteram em Castela de noite, e chegaram ao anoitecer ao caminho que vai de Lobón para Mérida, onde encontraram um alguazil [oficial de justiça] e um carcereiro e outros homens com três cargas de courama. E assaltando-os de repente, tomaram a todos prisioneiros, e com cargas e cavalgaduras os trouxeram a Portugal. Cevados os holandeses com esta presa, fizeram outras de importância, uma das quais foi tomarem prisioneiro um noivo com todos os que o acompanhavam, passando de um lugar a outro a desposar-se. E continuando este exercício, se juntaram vinte e cinco, e em uns matos perto do Montijo encontraram algumas cargas de panos que vinham de uma feira, acompanhadas de muita gente. E vendo que era desigual o partido para a cometer, se meteu no mato a metade dos holandeses e os mais saíram ao caminho e assaltaram os passageiros; os quais, querendo defender-se, tocaram a bastarda os holandeses emboscados e começaram a sair, dando-lhes a entender que eram muitos, com que todos os castelhanos se entregaram, e os despiram e lhe tomaram as cargas, que seis deles trouxeram a Campo Maior. Ficaram os dezanove continuando estes saltos, e tendo Dom João de Garay notícia do que passava, e divididas sentinelas para o avisarem, mandou algumas tropas de cavalaria a bater o mato em que estavam embrenhados. E vendo que não tinham remédio se entregaram, entendendo que lhes dessem bom quartel. Mas sendo trazidos a Badajoz, se lhe não concedeu, e enforcaram todos dezanove juntos em uma forca triangular, com que escramentaram os de Campo Maior para não fazerem mais rapinas.

Fonte: Luís Marinho de Azevedo, Commentarios dos valerosos feitos, que os portuguezes obraram em defensa de seu Rey, & patria na guerra de Alentejo que continuava o Capitaõ Luis Marinho d’Azevedo, Lisboa, na officina de Lourenço de Anveres, 1644, pgs. 253-254.

Imagem: Hendrick de Meijer, “Cerco e captura de Hulst”, óleo, 1645.

Emboscadas e estratagemas na Guerra da Restauração – Holandeses em Agosto de 1642 (parte 1)

Os militares holandeses que vieram para Portugal, contratados como mercenários, em Setembro de 1641, eram experientes veteranos da Guerra dos 30 Anos. Trouxeram consigo expedientes que, pela sua curiosidade, engenho e diferença de procedimentos em relação ao que era habitual ser posto em prática nas escaramuças na província do Alentejo, não escaparam aos cronistas e propagandistas da época. O caso que aqui vai ser trazido foi registado, com alguma diferença de pormenores, pelo cónego elvense Aires Varela e pelo capitão de infantaria e propagandista Luís Marinho de Azevedo. Sem mais comentários, passo a transcrever a versão de Aires Varela do sucedido em Agosto de 1642.

Os holandeses que assistiam nesta cidade [Elvas] houveram licença de D. João da Costa, que já de volta de Lisboa estava nela, para fazer entradas na terra do inimigo: oito holandeses se arriscavam com grande valor e maior indústria; saiam pela tarde e se faziam à volta de campo Maior, e como era noite, guiados pelas estrelas se emboscavam na terra do inimigo divididos, e um vigiava os caminhos, e segundo a gente que passava assim se resolvia. Levavam três clarins de que se valiam com grande indústria, porque sentindo-se apertados, tocando este instrumento em diversas partes entendia o inimigo que eram outras tantas tropas, e porque reparava fazendo altos, se punham os holandeses em cobro. Com esta indústria fizeram algumas pilhagens, em que traziam um e dois castelhanos, que entregavam pelo quinto, porque da revolta da presa não davam nada [o quinto de todas as pilhagens era obrigatoriamente entregue à Coroa – isto não se aplicava a prisioneiros de guerra, pelo que Aires Varela provavelmente ironiza aqui].

Tiveram notícia de uma feira, que se faz sobre o rio Tejo junto às barcas de Alconete, na ermida de Nossa Senhora da Alta Gracia, passaram duas léguas além de Badajoz esperar os castelhanos que dela vinham, e porque aquela terra é capina, perto do caminho fizeram covas em que se meteram, e cobriram as cabeças com mato, vigiavam tudo.

Passaram sete castelhanos, levantaram-se os holandeses tão de repente que ficaram atemorizados e sem poder resistir, levando armas com que o fazer. Os holandeses roubaram todos e trouxeram para quinto um alcaide do cárcere de Badajoz, que chamam João Alconero, e um tendeiro, que tem um filho médico naquela cidade.

Por muitas vezes continuaram este exercício com bom sucesso, o castelhano teve notícia do modo e por fim os veio cercar. Os holandeses se puseram em defesa como valentes soldados, os castelhanos lhes prometeram bom quartel [ou seja, que aceitavam a rendição, fazendo-os prisioneiros], que lhe não deram, antes depois de rendidos com muita crueldade os mataram.

Fonte: Aires Varela, Sucessos que ouve nas fronteiras de Elvas, Olivença, Campo Maior e Ouguella, o segundo anno da Recuperação de Portugal que começou em 1º de Dezembro de 1641 e fez fim em o ultimo de Novembro de 1642, Elvas, Typografia Progresso de António José Torres de Carvalho, 1906, pp. 92-93.

Imagem: “Militar holandês”, óleo de Joost Cornelisz, séc. XVII.

Espingardas e emboscadas

Guarda1

No século XVII, o termo espingarda designava uma arma de fogo com fecho de pederneira. À margem do meio militar, era muito utilizada por caçadores. Mas também tinha o seu emprego no meio castrense, apesar das armas de fogo pessoais mais utilizadas serem a pistola, o arcabuz de mecha e o mosquete de mecha.

O problema das armas de fogo de mecha era a necessidade de transportar o morrão aceso, de forma a provocar a ignição da pólvora e fazer o disparo. Quando se pretendia emboscar o inimigo à noite ou em zonas obscuras, o morrão aceso podia denunciar os soldados que preparavam a surpresa ao inimigo. Aliás, um estratagema conhecido, destinado a enganar o adversário à noite, era deixar morrões acesos num local – por exemplo, atrás de sebes ou mato – de forma a atrair o fogo inimigo, para depois mais facilmente o castigar com uma salva de tiros a partir de outra posição ou para o carregar, sem deixar tempo a que pudesse recarregar a arma ou ter outra reacção. Um exemplo deste tipo é referido por Aires Varela em 1644:

[Joane Mendes de Vasconcelos] (…) enviou desta cidade o coronel Til [Jan Willem van Til, holandês] com o seu regimento, e a Luís Mendes de Vasconcelos, para que em Campo Maior, com o capitão João de Saldanha da Gama, passassem a Vilar del Rey,  fizessem emboscada e dano que pudessem; ordenou que na madrugada de 9 de Fevereiro, em ue se havia de fazer, tocassem arma viva em Valverde, para o inimigo mandar pedir socorro a Badajoz, e obrar emboscada em Vilar del Rey sem risco. De Olivença passaram áquele lugar alguns soldados, e junto dele, por entre o arvoredo maquieiro e outro mato baixo, puseram quantidade de mechas acesas; e tocando arma, se meteu o Castelhano em confusão, e a nossa gente em lugar seguro. O inimigo correu às trincheiras, descobriu as mechas, e parecendo-lhe gente de guerra deu contra elas muitas cargas [tiros]; os nossos, seguros, as festejavam, e em amanhecendo se retiraram, e os Castelhanos descobriram a travessura e se acharam corridos [enganados]. (Aires Varela, Sucessos que houve nas fronteiras (…), o terceiro anno da Recuperação de Portugal, que começou em o 1º de Dezembro de 1643, Elvas, Typografia Progresso de António José Torres de Carvalho, 1900, pg. 13)

Isto era o que se podia fazer com morrões. Para outras surpresas nocturnas, as espingardas com fecho de pederneira eram fundamentais. Num documento de 1657, João Rodrigues de Vasconcelos e Sousa, 2º Conde de Castelo Melhor e governador das armas de Entre Douro e Minho, pede que lhe sejam enviadas 200 espingardas para as emboscadas. No entanto, não se tratava de qualquer novidade. A espingarda datava do século XVI, e já Isidoro de Almeida se lhe referia quando recomendava que, de noite, para dar sinal da aproximação do inimigo (o tocar arma), se utilizasse o fuzil – entenda-se: arma com fecho de pederneira, como a espingarda – de forma a que o soldado de vigia não fosse denunciado pelo morrão aceso: Entre estas cumpre haver um arcabuzeiro para dar sinal de arma; outros o dão com fuzil, se é de noite. (“Quarto Livro das Instruções Militares de Isidoro de Almeida”, in Alberto Faria de Morais, Arte Militar Quinhentista, separata do Boletim do Arquivo Histórico Militar, Lisboa, s.n., 1953, pp. 144-145; edição original: Évora, em casa de André de Burgos, 1573)

Imagem: Guarda de piqueiros e mosqueteiros. Reconstituição histórica do período da Guerra Civil Inglesa em Old Sarum, Inglaterra. Foto de J. P. Freitas.