Espionagem e traição na fronteira da Beira, 1651 – o caso do capitão João Cordeiro

Ao capitão de cavalos da ordenança João Cordeiro já foi feita referência a propósito do assalto à ponte de Alcântara. Nascido ou pelo menos criado em Segura, tido como guia experiente, o capitão perdeu-se quando conduzia a força que devia executar o ataque à praça raiana, resultando daí o atraso no início das operações. Em consequência, D. Sancho Manuel mandou-o prender. Mais tarde, esclarecido o caso, o oficial foi libertado.

Quanto a espionagem e contra-espionagem, recentemente foi trazido aqui um exemplo a partir de um documento coevo. O capitão João Cordeiro também esteve relacionado com este campo particular da guerra de fronteira. A tal ponto que aí ficou traçado o seu destino.

Em 15 de Maio de 1651, uma consulta do Conselho de Guerra tratava de um acontecimento ocorrido – presume-se – na praça de Segura. A falta da carta de D. Sancho Manuel, que a consulta apenas resume, não permite saber ao certo. O que se passou naquela distante fronteira foi considerado assunto grave: o governador das armas dava a conhecer a traição que um castelhano da Sarça [Zarza la Mayor] (que por via do capitão João Cordeiro lhe dava alguns avisos, que se lhe pagavam com pontualidade) cometeu, matando o mesmo capitão João Cordeiro. Sendo o caso que, vindo-se este castelhano a descobrir com os seus oficiais [ou seja, a revelar o seu papel de espião], eles o persuadiram a que matasse o capitão João Cordeiro, como fez, e vindo na noite de 4 do presente comboiado pelas tropas inimigas, chegara à porta do capitão João Cordeiro, metendo-se por onde a praça ainda não estava fechada, sem ser sentido das sentinelas por não vir pelas avenidas; e dizendo ao capitão que lhe trazia um aviso para dar a ele Dom Sancho, se apartara o capitão João Cordeiro com ele, e estando sós lhe dera o castelhano um pistoletaço de que logo morreu, pondo-se o traidor logo em cobro, o que pôde fazer porque no mesmo tempo acometeram as tropas do inimigo às avenidas e se tocou arma, com o que teve lugar o traidor de se meter com os seus, que se retiraram ao som de trombetas, como se com sua traição conseguiram ganhar uma província.

Contava assim D. Sancho Manuel, despeitado, o triste fim do capitão da ordenança, de quem havia três anos desconfiara e mandara prender. Pela traição, sugere que o Rei mande que se não dê quartel a nenhum castelhano, e que permita que o próprio D. Sancho possa mandar executar os inventores desta maldade.

Os conselheiros opuseram-se de forma veemente a esta sugestão de D. Sancho, pois não se devia admitir nem praticar tal coisa, por não se usar entre cristãos o não dar quartel. Sugeriram ao Rei que mandasse D. Sancho acabar de cerrar a praça, para que ninguém pudesse entrar sem ser sentido – e se não pudesse ser com muralha, que fosse com trincheira e estacada. Quanto aos herdeiros do falecido capitão, consideraram ser merecedores de receber alguma mercê régia, em virtude de João Cordeiro ter sido um grande sujeito, bizarro e valente capitão.

Uma curiosidade: a título particular, acrescentaram à consulta D. Álvaro de Abranches e Jorge de Melo os seus pareceres, nos quais disseram que os moradores da Sarça são costumados a fazer traições, por onde já tiveram castigo, o que lhes parece que se encomende a Dom Sancho procure fazer o mesmo ao traidor.

Espionagem e contra-espionagem – mas também traições, castigos e vendettas. A fronteira da Beira parece ter sido terreno fértil nestes casos. O historiador Gastão de Melo de Matos, na sua obra Um soldado de fortuna do século XVII (Lisboa, s. n., 1939), narra o episódio de dúbios contornos do então sargento-mor António Soares da Costa, o Machuca, e o triste fim de D. Alfonso de Sande y Dávila. Mas, como costuma dizer Juan Antonio Caro del Corral, isso é outra história.

Fonte: ANTT, Conselho de Guerra, Consultas, 1651, maço 11, consulta de 15 de Maio de 1651.

Imagem: Pausa dos militares. Pintura de Simon Kick (1603-1652).

Um exemplo de espionagem no contexto da Guerra da Restauração – Inácio de Herrera

A questão da espionagem no contexto da Guerra da Restauração foi tema de um interessante estudo do Professor Fernando Cortés Cortés, publicado em Portugal há mais de vinte anos – Espionagem e Contra-espionagem numa guerra peninsular (1640-1668), Lisboa, Livros Horizonte, 1989.

Nessa obra, Fernando Cortés Cortés categoriza as formas de obtenção de informação sobre o inimigo de acordo com os métodos utilizados. A primeira dessas formas é designada genericamente como métodos usuais, que podiam ser a informação visual, as notícias de navegantes e viajantes (com destaque para os mercadores), as notícias dos prisioneiros (com destaque particular para as “línguas”), as notícias dos repatriados e os informes dos desertores e a captura dos correios. A segunda forma era a espionagem organizada, a propósito da qual Fernando Cortés Cortés abordou a actuação de informadores e confidentes, os comportamentos do espião e o móbil económico da actividade de espionagem (Espionagem e Contra-espionagem…, pgs. 25-54).

No desenvolvimento desta segunda forma, a espionagem organizada, o autor refere a actuação de Ignácio de Herrera, espião castelhano ao serviço de Portugal, citando a propósito algumas passagens da carta que Matias de Albuquerque, Conde de Alegrete, escreveu a D. João IV em 19 de Julho de 1644, acompanhada do relatório do espião. Todavia, o relatório propriamente dito não é transcrito na obra de Cortés Cortés.

A parte da carta do Conde de Alegrete que respeita a Ignácio – ou Inácio – de Herrera, bem como o relatório deste, são aqui apresentados, transcritos para português corrente para um mais fácil entendimento.

Inácio de Herrera, castelhano, que mandei a Sevilha, chegou aqui hoje havendo entrado por Noudar e ido por Mértola, e declara o que Vossa Majestade, sendo servido, poderá mandar ver do papel incluso. Outras espias hei metido para Badajoz, mas não hão vindo. Esta me parece pessoa de inteligência, e se Vossa Majestade for servido de que passe a Madrid o fará. E mandando Vossa Majestade que vá a alguma coisa particular, ou que faça outra diligência, lha encarregarei. E até aviso de Vossa Majestade o farei entreter em Estremoz, por não andar aqui onde possa ser conhecido. (…) Elvas, em 19 de Julho de 1644.

Por “coisa particular” pode entender-se algum negócio privado do monarca melómano, que mesmo em tempo de guerra conseguia obter do reino vizinho as obras e partituras com que enriquecia a sua notável colecção dedicada à música. E quanto ao relatório:

Inácio de Herrera diz que chegou a Sevilha a 4 deste [mês de Julho] e esteve 3 dias e passou a Écija, onde esteve um dia, e dali passou a Córdova, e esteve dia e meio. E dali se partiu e veio a Noudar, por onde entrou neste Reino.

O que alcançou foi que dia de S. Pedro houvera nova de uma refrega, em que os franceses perderam muita gente sobre Lérida; donde Monsieur de La Motta [Phillipe de La Mothe-Houdancourt, comandante das forças franco-catalãs que defendiam Lérida, cercada pelo exército de Filipe IV comandado por Felipe da Silva] se havia refazido [ou seja, refeito], e voltado sobre os castelhanos, e morto lhe muita gente [a forma correcta seria: lhes matado muita gente], e feito largar o sítio de Lérida [obviamente uma informação falsa: Lérida caiu em poder do exército espanhol em 30 de Julho de 1644]. E que viera ordem da Rainha ao Marquês de Belmar, Assistente de Sevilha, para que toda a gente de Andaluzia a alta estivesse pronta para segunda ordem, que se entende é para marchar para Catalunha, e que Andaluzia a baixa fizesse o mesmo; mas que não se sabia para onde.E que a cavalaria dos cavaleiros de Córdova tivera ordem para marchar para Catalunha; e que eles o não faziam, dizendo que dariam dinheiro, mas que com suas pessoas não podiam. E que em Sevilha se prendera o Marquês do Arenal, porque o mandavam vir com a gente que havia de vir para Badajoz, por ele não querer, e haviam preso mais cinco ou seis cavaleiros por não aceitarem ginetas de capitães desta mesma gente que havia de vir a Badajoz. E que a gente que se fazia eram 18 companhias, delas 10 haviam de ser pagas e as 8 da ordenança por conta de Sevilha; e que haveria 200 soldados feitos; e que entende que em dois meses não poderão chegar a Badajoz.

E que em Écija se não levantaria gente, porque já haviam saído quatro companhias dali, e de Palma para esta parte há dias. E que de Córdova também não havia mais gente que 1.400 soldados, que ali e em todo o seu Reino havia levantado o Ouvidor Dom Belchior de Arnero; há dias que esta gente viera para Badajoz, donde tinha fugido muita parte.

Que o governador de Ayamonte Dom Alonso de Castrejon o levaram preso; e que em seu lugar viera o mestre de campo Dom Francisco de Errada, e que para Ayamonte se faziam e levantavam 80 cavalos em Córdova.

Que diziam que Dom Rodrigo Girón, irmão bastardo do Duque de Osuna, vinha marchando com 400 homens da ordenança para Badajoz, e que se lhe tinham ido mais de a metade.

Que a armada havia já ido, e levara toda a gente que havia em Cádiz e em o Porto de Santa Maria; que uns diziam que para as Índias, e outros para Catalunha.

E que a Sevilha havia chegado um alcaide de Corte, e passava a Sanlúcar a fazer a informação do Senhor Duque de Medina-Sidonia. E que diziam que haviam preso de novo ao Conde-Duque por suspeição que se queria ausentar. E que o Duque de Medinaceli havia chegado a Sevilha e tomado posse do Ducado de Alcalá; e que se dizia que ia por General de Andaluzia, como o era o Senhor Duque de Medina-Sidonia.

Qur ouvira que estes 80 cavalos que se levantavam em Córdova para Ayamonte haviam de vir a residir em Paymogo e Alcairia. Que na alta Andaluzia se compravam 600 até 700 cavalos, sem exceptuar pessoa, para Catalunha; e que Dom Jerónimo de Sant Viter (?), Governador dos Milhões em Sevilha, os ia a ver e pagar.

Que os nossos prisioneiros os levaram para Granada [refere-se aos prisioneiros feitos na batalha de Montijo] por ostentar grandeza e animar aos povos e persuadi-los a que concorram para contra Portugal [sic]. E que ouvira que o Marquês de Mendejar tinha a seu cargo os nossos presos; e que ouvira que os mandariam a Catalunha ou a Orão.

Que o Marquês de Belmar, Assistente de Sevilha, passara mostra da gente portuguesa e alistara 14.000 – e que [sob] pena da vida mandara que nenhum tivesse arma de fogo.

Agente duplo ou não, Inácio de Herrera limitou-se a contar mais do que ouviu dizer, do que o que de facto observou. Tal como o seu falso depoimento sobre o levantamento do cerco de Lérida, também esta última informação, acerca dos milhares de prisioneiros portugueses que haviam sido alistados pelo Marquês de Belmar, é inverosímil. O móbil económico, como refere Cortés Cortés, constituía o principal motivo destes aventureiros que faziam da espionagem a ocupação ocasional. Mesmo que o seu papel não fosse desempenhado com inteira satisfação, seria difícil averiguar num curto prazo a veracidade total das suas informações, sobretudo se estas se reportavam a acontecimentos passados longe da fronteira de guerra.

Fonte: ANTT, Conselho de Guerra, Consultas, 1644, maço 4-B, consulta de 2 de Agosto de 1644 e documentos anexos.

Imagem: Recebendo uma mensagem – pintura de Thomas de Keyser.