Uma família em armas – os César de Meneses

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A figura controversa de Sebastião César de Meneses é bem conhecida dos estudiosos do século XVII português. Doutor em Direito Canónico, ligado à Inquisição desde 1626 (será Inquisidor Geral em 1663), foi Conselheiro de Estado de Filipe IV e, após 1640, de D. João IV. O ziguezague político foi frequente na sua carreira: Bispo do Porto, de Coimbra e de Braga depois da Restauração, esteve preso entre 1654 e 1656, acusado de servir os interesses de Filipe IV. Reabilitado pela Rainha regente D. Luísa de Gusmão, virou-se contra ela mais tarde, em 1662, ao apoiar o golpe palaciano de D. Afonso VI e alinhar com a facção liderada pelo 3º Conde de Castelo Melhor. Acabou por cair em desgraça em 1663, quando o exército de D. Juan José de Áustria conquistou Évora, cidade onde residia e era Inquisidor Geral. Em 1669 perdeu todos os cargos eclesiásticos que detinha, morrendo três anos depois. A sua obra marcante foi o tratado de teoria política Summa Politica (1649-50).

Não é deste eminente clérigo e estadista que o presente artigo trata, apesar da introdução ter sido dedicada ao membro mais famoso de uma família que também se distinguiu no campo das armas. Os irmãos e sobrinhos de Sebastião César de Menezes serviram com distinção durante a Guerra da Restauração, tendo alguns deles chegado a atingir postos e cargos de importância. Aliás, o progenitor, Vasco Fernandes César, fora capitão de cavalos na Flandres, “com muito boa opinião“, segundo o Conde de Ericeira (História de Portugal Restaurado, Porto, Civilização, 1945, vol. I, pg. 331).

Luís César de Meneses, irmão de Sebastião César e de Pedro César, era o mais velho dos três. Sucedeu a seu pai e foi alcaide-mor de Alenquer, comendador de Lomar e de Rio Frio, e titular do ofício de Provedor dos Armazéns e Armadas, o qual trocou pelo de Alferes Mor do Reino no reinado de D. Afonso VI (um cargo honorífico, que lhe garantia uma renda anual mais elevada que o anterior). Casou com D. Vicência Henriques, filha do Monteiro Mor e Conselheiro de Estado Manuel de Melo, da qual teve Vasco Fernandes César, Pedro César de Meneses e D. Guiomar Henriques. Faleceu em 1666.

Pedro César de Meneses (pai) era irmão de Luís César e de Sebastião César. Capitão-general de Angola em 1639, foi membro do Conselho de Guerra durante a Guerra da Restauração. Recebeu em 1659 a comenda de S. Salvador de Minhotães. Casou com a sobrinha, D. Guiomar Henriques, filha do seu irmão Luís César. Quando ainda servia nas fileiras do exército da monarquia dual, teve em Castela um filho bastardo, ao qual também chamou Pedro César (veja-se a última entrada deste artigo). Faleceu em 1666.

Vasco Fernandes César, filho primogénito de Luís César, serviu no exército do Alentejo. Morreu em 1659, na sequência de ferimentos recebidos durante o cerco de Badajoz, no ano anterior.

Pedro César de Meneses, outro filho de Luís César, sucedeu a seu pai na casa familiar. Durante a Guerra da Restauração, ocupou vários postos no exército do Alentejo. Serviu como general da cavalaria nos exércitos das províncias de Entre-Douro-e-Minho e de Trás-os-Montes. Após a guerra, foi nomeado governador e capitão-general de Angola, mas não chegou a ocupar o cargo, pois morreu num naufrágio a 40 léguas da costa angolana. Nunca casou, mas teve vários filhos ilegítimos: de Catarina de Jour, filha de um mercador francês, teve três filhos, e de uma mulher do Minho, duas filhas. À excepção do filho mais velho, que morreu ainda criança, todos seguiram a vida monástica.

Pedro César de Meneses, filho ilegítimo de Pedro César, nascido em Castela, foi capitão de cavalos, comissário geral da cavalaria e mestre de campo de um terço de infantaria no exército do Alentejo. Após a Guerra da Restauração, foi nomeado governador e capitão-general do Maranhão. Morreu solteiro, no Brasil.

Bibliografia:

ALBUQUERQUE, Martim de, “Para uma Teoria Política do Barroco em Portugal. A Summa Politica de Sebastião César de Meneses (1649-1650)”, in Estudos de Cultura Portuguesa, 2º vol., Lisboa, Imprensa Nacional Casa da Moeda, 2000, pgs. 355-442.

SOUSA, D. António Caetano de, História Genealógica da Casa Real Portuguesa, Tomo V, Coimbra, Atlântida Livraria Editora, 1948, p. 174-176.

Imagem: Combate entre infantaria e cavalaria. Reconstituição histórica, período da Guerra Civil Inglesa, Kelmarsh Hall, 2008.

A vedoria geral sob o olhar de um estrangeiro

Nicolas Frémont d’Ablancourt foi enviado pelo marechal Henri de la Tour d’Auvergne, Monsieur de Turenne, à corte portuguesa, a fim de controlar os assuntos das forças francesas aqui presentes a partir dos finais de 1660. Convém recordar que o contingente francês comandado pelo Conde de Schomberg estava oficialmente em Portugal “contra a vontade” do rei Luís XIV, devido ao tratado de paz estabelecido em 1658 entre aquele monarca e Filipe IV (a Paz dos Pirenéus). Frémont D’Ablancourt deixou as suas memórias sobre o período final da Guerra da Restauração, as quais foram publicadas em 1701, em Amesterdão. São uma fonte preciosa para o estudo da época.

Em relação à vedoria geral do exército do Alentejo, D’Ablancourt refere que o vedor tinha sob o seu controlo uma quantidade de comissários, e estes têm o registo de todos os cavaleiros e infantes, listas onde cada um é designado pelo nome próprio, apelido, idade, parentesco, local de nascimento, altura e sinais [particulares], onde se marcam as ausências e se abate às suas pagas o tempo que estiveram fora; usa-se a mesma precaução para os cavalos, para além da descrição que se faz, corta-se-lhes o topo da orelha direita e marca-se-lhes [com um ferro em brasa] o número da companhia, mas todas estas precauções não impedem ainda uma quantidade de abusos.

Regressarei a este assunto como uma referência mais detalhada às listas.

Fonte: FRÉMONT D’ABLANCOURT, Nicolas, Mémoires De Monsieur D’Ablancourt Envoyé de la Magesté Trés-Chrétienne Louis XIV, en Portugal; Contenant L’Histoire de Portugal, Depuis le Traité des Pyrenées de 1659, jusqu’à 1668, Amsterdam, J. Louis De Lorme, 1701, pg. 197.

Imagem: O marechal Turenne na batalha das Dunas (1658), quadro de Charles-Philippe Larivière. Frémont D’Ablancourt era um diplomata muito próximo do marechal, sendo ambos protestantes (tal como era, aliás, o Conde de Schomberg) e personagens muito influentes nos bastidores da política francesa. Turenne foi responsável pelo envio das forças francesas para Portugal durante a década de 60 do século XVII.

Introdução

Linhas de Elvas 

Este blogue é dedicado à História Militar do período da Guerra da Restauração, que também é designada, por vezes, como Guerra da Aclamação, a qual opôs Portugal a Espanha entre 1641 (ano do início das operações militares) e 1668 (ano da assinatura do Tratado de Paz entre os dois Estados vizinhos ibéricos). 

O conflito eclodiu devido à secessão de Portugal da (até então) monarquia dual, após a Revolução ocorrida em Lisboa em 1 de Dezembro de 1640. Na sequência dessa separação, o Duque de Bragança D. João, descendente de D. Manuel I, foi aclamado Rei, inaugurando a Dinastia de Bragança. Daí o termo Guerra da Aclamação (de D. João IV). Embora enfrentando desde o início muitas dificuldades no campo da diplomacia, face ao poderio internacional do Império Espanhol encabeçado por Filipe IV, da Dinastia de Habsburgo (mas também descendente de D. Manuel I), o reino de Portugal conseguiu readquirir a independência política – daí a outra designação para a guerra que se seguiu: da Restauração (da independência).

O longo conflito foi caracterizado pelas inúmeras escaramuças e acções de pequena guerra nas fronteiras, bem como vários cercos inconsequentes e poucas batalhas campais (Montijo, 1644; Linhas de Elvas, 1659; Ameixial, 1663; Castelo Rodrigo, 1664 – mais um recontro do que uma batalha campal, na verdade, mas a propaganda da época assim a recordou; Montes Claros, 1665). Numa fase inicial, entre 1641 e 1646, houve operações ofensivas por parte do exército português, desencadeadas sobretudo a partir da província do Alentejo – o principal teatro de operações durante toda a guerra. Depois, o objectivo estratégico passou a ser a contenção da ameaça militar do vizinho ibérico. Esta fase duraria até 1657. A partir daí, Filipe IV incrementou as incursões militares contra Portugal. A fase final da guerra seria caracterizada pelo crescimento dos efectivos militares envolvidos em operações e pelas campanhas e batalhas campais que acentuaram o desgaste financeiro de ambas as Coroas. As perdas e consequências a médio prazo revelar-se-iam mais negativas para a Espanha, cujo exército foi severamente batido em duas ocasiões: Ameixial e Montes Claros. A paz foi assinada em 1668: para além das dificuldades económicas e financeiras que afligiam os dois reinos inimigos, contribuíram para o definitivo ponto final no longo conflito as circunstâncias políticas internas (em Portugal, o afastamento de D. Afonso VI pelo seu irmão D. Pedro em 1667; em Espanha, a periclitante situação dinástica após a morte de Filipe IV em 1665) e as conveniências estratégicas das potências europeias, com destaque para a França e a Inglaterra.

Bibliografia:

COSTA, Fernando Dores, A Guerra da Restauração 1641-1668, Lisboa, Livros Horizonte, 2004. Uma reinterpretação do conflito que transcende a área da História Militar, muito útil como enquadramento.

ERICEIRA, Conde de, História de Portugal Restaurado, Porto, Livraria Civilização, 1945-46, 4 volumes. Reedição da obra de D. Luís de Meneses, 3º Conde de Ericeira, anotada e prefaciada por António Álvaro Dória. A 1ª edição deste clássico, em dois volumes, data de 1679-1698.

FREITAS, Jorge Penim de, O Combatente durante a Guerra da Restauração. Vivência e comportamentos dos militares ao serviço da Coroa portuguesa, Lisboa, Prefácio, 2007. Outra análise do conflito, no âmbito da História Militar, centrada no campo das mentalidades e cultura castrense.

 

Gravura: Batalha das Linhas de Elvas, 14 de Janeiro de 1659 (pormenor). Pintura do século XVII.