A última campanha de Mateus Rodrigues – a reconquista de Mourão, Outubro-Novembro 1657 (6ª e última parte)

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Logo que Francisco Pacheco aceitou ficar na praça, mandou arrimar ao terço as armas e marcharam logo para dentro da praça em companhia do senhor Joane Mendes e mais senhores do governo (…). Assim como a nossa gente entrou (…), já o inimigo estava posto em via para marchar fora, com suas armas às costas e bala em boca e mecha calada, e a cavalaria, que eram 80 cavalos, começaram a ir saindo (…) da praça, a formar-se lá fora dela, até que fosse saindo as suas bagagens, que se andavam carregando dentro em cavalgaduras nossas, que lhe deram para isso até dentro de Olivença, que são de Mourão lá sete léguas.

(…) Foram marchando os castelhanos com a cavalaria diante e o seu governador e logo a infantaria atrás, onde iam muitos feridos, e já digo que seriam 300 homens com a cavalaria pouco mais ou menos. Em a praça deixavam enterrados alguns mortos, que sempre seriam mais de 30 homens, mas os feridos passavam de 40 homens.

Antes que este inimigo saísse da praça (…), marcharam todos os nossos terços e a cavalaria para junto da estrada por onde o inimigo havia de passar, para que visse o nosso poder, que no que toca à nossa infantaria, nunca houve reino que em campanha bote tão boa infantaria e toda de uma só nação, que se admiraram os castelhanos vendo tal gente.

Estavam os terços como digo em ala com as armas nas mãos em pé pela borda da estrada adiante, e no cabo deles toda a nossa cavalaria em batalhões formada, e tudo fazia comprimento de meia légua. Foi passando o inimigo ao pé da nossa gente e não se falava palavra de uma e outra parte. Ia diante deles também o senhor mestre de campo general André de Albuquerque [Ribafria] e o senhor Dom Sancho [Manuel] diante com o governador castelhano. E assim como este seu governador da praça foi passando pela nossa infantaria, ficou tão admirado que disse “Boto a Cristo que se El-Rei de Espanha houvera tal infantaria como é esta, que fora senhor de todo o mundo”. De modo que foram marchando até acabarem de passar por toda a nossa gente, e ali fizeram alto até que acabou de chegar toda a sua bagagem e logo mandaram eles de comboio a cem cavalos, a saber: a minha companhia e a do tenente-general Dinis de Melo, mas ele não foi lá, senão o seu tenente Manuel Dias Veloso, e o meu capitão Pedro César de Meneses por cabo das duas tropas. Lá fomos comboiando a este inimigo até um lugar despovoado chamado Cheles, que são três léguas de Mourão, e ali já estavam outros cem cavalos de Olivença, do inimigo, aguardando por eles, por se lhe haver já mandado aviso para que viesse em busca deles. Ali fez o meu capitão entrega do comboio que levava e despediu-se deles, porque naquele dia até noite havia trégua de posses para efeito de se recolher aquela gente. Marchando logo foi o inimigo para Olivença e nós nos voltámos para o nosso exército, chegando ao quartel quase à meia-noite e muito bem molhados, que todo aquele dia choveu muito. E ia o nosso exército muito enxovalhado por causa do tempo, que não pode haver inimigo mais contrário que o tempo.

Vendo o senhor Joane Mendes o estado em que estava a praça de Mourão, que uma ovelha entraria pela brecha que tinha, e muito desmantelada, não se quis abalar com o exército até que não o pusesse em via de defesa e ficar mais segura.

Logo Francisco Pacheco, que (…) ficou na guarnição da praça com o tenente e com mais gente que lhe deram e muitos pedreiros começaram bravamente a taparem a brecha do muro grande, que era o principal e mais conveniente para ficarem mais descansados, e tiveram tanto trabalho que mais de trinta noites dormiram ao pé da muralha vestidos e calçados, até que se acabou de tapar a brecha. E como esteve tapada, começaram então as mais obras necessárias, mas o senhor Joane Mendes [de Vasconcelos] não esteve na campanha mais de dois dias depois que o inimigo despejou, que mais tempo havia de estar se o tempo dera lugar, mas como havia rio de passar, que é Guadiana, não se podia fazer dilação da outra banda mais tempo do que se fez, porquanto o tempo se vinha chegando muito de chuva.

Aos trinta e um dias do dito Outubro se abalou o nosso exército para suas praças (…). Ficou Francisco Pacheco [Mascarenhas] (…) na guarnição da praça com 700 homens infantes, muito boa gente, e duas tropas de cavalo, e desde a hora que ele tomou entrega da praça, que foram 28 do dito Outubro, até à hora que me ausentei, que foram em 15 do mês de Abril de 658, ficava já a praça de Mourão em tal altura que o inimigo não tinha que vir buscar a ela (…). (MMR, pgs. 441-445).

Note-se que Mateus Rodrigues refere que se ausentou de Mourão a 30 de Março de 1658 (vide 5ª parte desta narrativa) e aqui data a sua partida em 15 de Abril do mesmo ano. A discrepância justifica-se pelo facto da segunda data se aplicar à retirada definitiva do Alentejo por parte do memorialista.

Imagem: Cena de batalha, gravura de Dirk Stoop.

A última campanha de Mateus Rodrigues – a reconquista de Mourão, Outubro-Novembro 1657 (5ª parte)

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Despedido o capitão castelhano da tenda do senhor Joane Mendes de Vasconcelos, foi à pressa a dar conta ao seu governador, e (…) sempre foi e veio por a brecha, e assim como ele subiu à brecha em cima da muralha, dali chamou ao governador (…). Resolvido o governador a aceitar [as capitulações], o tornou logo a mandar ao nosso exército, à tenda do senhor Joane Mendes (…).

Aceites de parte a parte os pactos, cessaram os rigores das armas, para alívio da gente, que na verdade nos servira de grande discómodo e perda se houvera mais dilação, porque nos vinha já perseguindo muito o rigor do tempo, que é o pior que pode ter um exército, porque uns de mal haver pedece pouco, que comer com mau tempo é mal dobrado.

Mandou logo o senhor Joane Mendes preparar um terço de infantaria e mandou chamar o mestre de campo dele, por nome Agostinho de Andrade [Freire]. (…) Havia ele de ficar com seu terço na praça, e com duas tropas de cavalo logo juntamente, nomeadas as do capitão João Ferreira da Cunha e a do capitão Diogo de Barros Freire, lhe encomendava a praça, pois ficava no estado em que a via.

Ora desgraçada foi esta parte para o tal mestre de campo, porque em lugar de rectificarem ao senhor Joane Mendes do caso que dele fazia naquela ocasião, em lhe encarregar uma praça de tanta honra, e aberta daquela maneira, parece deu razão dizendo havia mister mais gente e mais cavalaria e outras razões, e que o senhor Joane Mendes se houve por muito mal aceite dele, dando-lhe logo uma repreensão não muito boa, e mandando-o logo embora, que não queria que lá ficasse. Foi-se o tal mestre de campo com alguma paixão [ressentimento] e desgosto por suceder nele aquela tão ruim sorte.

Mandou logo chamar a outro mestre de campo, por nome Francisco Pacheco Mascarenhas, natural de Besteiros, soldado de 22 anos [de serviço] com grande reputação no nosso exército, e pela ocasião de Mourão, um mês antes, passou ao posto de mestre de campo, e donde passou foi de capitão de cavalos couraças, que havia oito para nove anos que o era da minha companhia (…), e a este mestre de campo lhe haviam dado um terço novo, levantado a maior parte em Lisboa e em seu termo, de gente muito bisonha e de pouco préstimo, tirando os oficiais, e já neste tempo da campanha estava muito pequeno por lhe haverem fugido a maior parte deles.

Veio (…) este mestre de campo diante do senhor Joane Mendes e lhe pôs a mesma prática que havia feito ao outro, acerca dele ficar na praça, e ele lhe deu uma resposta que de Francisco Pacheco não se esperava menos, e com tanta graça e gosto aceitou a oferta, como que se lhe deram uma comenda, porque não o podia o senhor Joane Mendes mandar para parte nenhuma (…) que Francisco Pacheco rejeitasse, que é grande seu amigo o senhor Joane Mendes, pois foi no Brasil seu alferes antes deste Reino levantado. Louvou-lhe o senhor Joane Mendes muito o bom modo e graça com que aceitava o ficar na praça, que se muito por ele até ali havia feito, muito mais há-de fazer dali em diante. Que na verdade fez tão grande obra sua assistência em Mourão, que não me parece pudesse ficar lá pessoa alguma que em tão pouco tempo fizesse as obras que ele lá fez, até o tempo de 30 de Março de 658, que dela me ausentei. (MMR, pgs. 439-441).

Imagem: Muralha de Mourão na actualidade. Foto de JPF.

Uma escaramuça no Carrascal de Mourão (24 de Julho de 1651)

Por motivo de afazeres vários, já há algum tempo que não trazia aqui uma narrativa de acção, e há muito tempo mesmo que não fazia uma incursão pelas memórias de Mateus Rodrigues (Matheus Roiz, na forma abreviada do seu nome). O que hoje respigo da pena do memorialista é um recontro menor, dos muitos que as fronteiras conheceram. Acontecimento sem importância de maior, excepto no que concerne à implicação pessoal dos acidentes da guerra. O que aconteceu ao soldado naquele dia 24 de Julho de 1651 levá-lo-ia a recordar, anos depois, os pormenores de um serviço de ronda que seria tão rotineiro como muitos outros que fez ao longo da sua carreira militar, excepto que…

Nesse dia, saiu a companhia de Mateus Rodrigues a fazer a ronda pelos campos de Elvas, pela parte da atalaia do Mexia. Já fora dos olivais de Elvas, ouviram-se muitos tiros para os lados das terras do Sequeiro, no caminho de Arronches, local onde o inimigo fazia com frequência incursões – e sendo da parte da manhã, era muito provável que assim fosse.

E assim apressou o meu capitão [Francisco Pacheco Mascarenhas] com a companhia pelos altos do lago e de Perdigão, que dão vista de toda a campanha de onde se imagina haver inimigo, e quando a minha companhia ia correndo para saber o que era, já o capitão Lopo de Sequeira ia também correndo pela estrada de Campo Maior com a sua companhia.

Nesse dia, o mestre de campo general D. João da Costa preparava-se para ir a Campo Maior, daí ter enviado aquela companhia a fazer o reconhecimento do caminho. Ouvindo os tiros, o capitão Lopo de Sequeira enviou um grupo de 15 cavaleiros da sua companhia para as torres, para averiguar sobre quem atiravam, enquanto se posicionou com o resto junto da atalaia do Perdigão. Tendo as duas companhias portuguesas tomado conhecimento uma da outra, através dos respectivos batedores, solicitou o capitão Lopo de Sequeira a Pacheco Mascarenhas que este fosse com a sua juntar-se à dele, junto da atalaia. E assim foi feito.

Entretanto, da atalaia verificaram que havia um grupo de cavaleiros inimigos a um terço de légua dali (cerca de quilómetro e meio, pouco mais), correndo pela estrada, sem que estes pudessem detectar os portugueses do local onde se encontravam. Como esta pequena força espanhola teria de tomar o caminho de regresso pela mesma estrada, ordenou o capitão Pacheco de Mascarenhas ao seu alferes Feliciano Gomes, irmão de Mateus Rodrigues, que escolhesse 15 entre os melhores soldados da companhia e que com eles se fosse posicionar em local de onde pudesse interceptar o inimigo e o corresse até aos altos da ribeira de Caia, mas que daí não passasse, pois sempre que um destacamento daquela dimensão (uma partida, como então se dizia) aparecia, era certo haver emboscada inimiga preparada.

Mateus Rodrigues foi um dos escolhidos. Sob o comando do seu irmão, foi o destacamento progredindo pela estrada. A certo momento detectaram, numa elevação, um grupo de cavaleiros, 27 ao todo. Pareceu-lhes serem todos inimigos, mas na verdade tratava-se de uma escaramuça travada corpo-a-corpo entre o grupo enviado previamente por Lopo de Sequeira e o destacamento espanhol.  Os cavaleiros já estavam misturados, vindo a descer na direcção da estrada. O alferes Feliciano Gomes hesitou em avançar ao encontro deste grupo, dada a desproporção de forças. Quando finalmente percebeu que se tratava de uma escaramuça e deu pelo erro, a cavalaria inimiga ia já ganhando terreno aos perseguidores.

Rapidamente se juntou Feliciano Gomes com os seus homens ao grupo que ia no encalço dos cavaleiros espanhóis e logo foram caindo sobre eles. Os 12 inimigos que tentavam escapar iam sendo capturados ou abatidos um a um, até só restarem três. Chegada a força perseguidora aos barrancos do Caia, o alferes mandou fazer alto. Mas, dada a correria e a diferença de capacidades dos cavalos, iam todos muito separados uns dos outros. A Mateus Rodrigues e a três cabos de esquadra da companhia de Lopo de Sequeira, pareceu-lhes que seria possível capturar os restantes fugitivos, e que seria desonroso parar a perseguição no momento em que estavam quase sobre eles, de modo que prosseguiram a correria e entraram pela ribeira, desobedecendo ao alferes. Escreveu posteriormente Mateus Rodrigues, para justificar a sua atitude, que na ânsia de alcançar os inimigos não reparara que o seu irmão tinha ficado na margem, acrescentando que, dos prisioneiros capturados previamente, nenhum falara em emboscada preparada.

Foi, no entanto, o que acabou por acontecer. A dada altura, os três inimigos suspendem a fuga e não fazem mais que virar-se a nós com cada um sua pistola na mão, e já neste tempo nós iríamos dois tiros de espingarda deles. E assim como os vimos virar a nós, entendemos que o faziam já de perdidos, que levariam os cavalos muito cansados e por isso não queriam pelejar, vendo que nos não podiam escapar. E suposto que nós levávamos as espadas na mão, deixámo-las cair nos cordões metidos pelos pulsos dos braços e sacamos as pistolas dos coldres e vamo-nos a eles com boa vontade. Quando estavam já próximos dos inimigos, Mateus Rodrigues e os cabos de esquadra viram surgir 500 cavalos (pelo menos assim o refere o memorialista): tinham caído numa emboscada. Com os cavalos cansados depois de terem corrido mais de uma légua (cerca de 5 Km – também aqui pode haver algum exagero do soldado). Logo tratou cada um de nós de seu livramento, e o inimigo, assim como saiu, botou 50 cavalos ligeiros diante, com um tenente, o de Dom Diogo Queixada, por alcunha o Lechuga, que estes foram os que nos apanharam logo (…). E assim como o inimigo saiu da ribeira, logo foi visto do meu alferes que estava ali ainda em um alto, aguardando pelos que via ir ainda correndo ao inimigo; mas assim que viu o inimigo, logo se pôs em retirada para a atalaia do Perdigão, onde estavam as nossas duas companhias que também viam o inimigo. Mas como o meu alferes tinha ainda um grande pedaço de terra para chegar às companhias que estavam ao pé da atalaia (…), deu o inimigo atrás dele, e pelo decurso da carreira ainda lhe apanhou três soldados. E o inimigo foi correndo com toda aquela cavalaria até aos altos dos Carrascais de Mourão, e uma partida sua de 30 cavalos chegou à estrada de Campo Maior.

Assim como o inimigo nos apanhou, logo nos perguntou a novidade de ver as duas companhias juntas àquelas horas [pois apenas era habitual ir uma companhia a cada atalaia]. (…) Dissemos-lhe então que, como o mestre de campo general ia nesse dia a Campo Maior, ia aquela companhia a descobrir a campanha (…). Assim como o tenente general Vivera, que era o cabo que ali vinha, ouviu dizer que ia o governador a Campo Maior, logo se pôs em retirada, parecendo-lhe que estariam as tropas de Elvas já montadas para vir com ele, e que não teria ali cavalaria com que pudesse pelejar se acaso sucedesse o irem as nossas tropas a buscá-lo. E assim se foi embora para Badajoz levando sete cavalos nossos, onde entravam quatro que valiam 250 mil réis, mas também lhe ficavam cá 8 seus muito bons, que veio a ficar uma coisa pela outra (…).

Os 5 soldados que fomos prisioneiros não estivemos lá mais de 4 dias e logo nos mandaram para Elvas, aonde achámos os nossos capitães muito sentidos por perderem tão bons cavalos, mas aí não há grandes trutas e bragas enxutas, e assim que se lhe sucede um dia bom, também tem outro bem mau.

Como nota curiosa à narrativa, o ditado popular que hoje parece ter caído no esquecimento (“não há grandes trutas e bragas enxutas”, sendo bragas o mesmo que calças), significando aproximadamente o mesmo que o actual “não há bela sem senão”. No que respeita ao curto cativeiro de Mateus Rodrigues, deve esclarecer-se que os oficiais permaneciam mais tempo sob prisão quando eram capturados, procedendo-se a trocas que podiam ser muito demoradas entre ambos os lados. Os soldados eram normalmente devolvidos à procedência num prazo mais curto (questão de dias, no caso de uma escaramuça como esta, ou semanas ou meses, caso se tratasse de uma campanha).

Fonte: Memorial de Matheus Roiz, pgs. 273-278.

Imagem: Peter Snayers, Combate de cavalaria (detalhe)

Um combate nos campos de Valência de Alcântara, 7 de Novembro de 1653 (parte 1)

Um dos episódios mais conhecidos da Guerra da Restauração foi o combate de Arronches, travado em 8 de Novembro de 1653 algures entre Arronches e Assumar (o local exacto não é conhecido com precisão, mas seria pouco distante de Arronches). A vitória obtida pela cavalaria portuguesa comandada por André de Albuquerque Ribafria abriu caminho a alguns meses de iniciativa e supremacia dos portugueses naquela fronteira de guerra, permitindo inclusivamente a tomada de Oliva. No entanto, um outro choque de cavalaria, ocorrido na véspera do combate de Arronches e praticamente desconhecido, terá tido importância para o desfecho daquela grande peleja. É esse episódio que aqui se recorda, com base nas memórias do soldado Mateus Rodrigues e na referência ao mesmo que o Conde de Ericeira lhe faz na História de Portugal Restaurado.

Em 1653, apesar de nominalmente ter continuado a ser governador das armas, o ódio de morte que existia entre D. João da Costa, Conde de Soure, e os Bobadilha (Diogo Gomes de Figueiredo, pai e filho, respectivamente mestre de campo e sargento-mor no mesmo terço de Elvas) levara a que o Conde se tivesse mantido em Lisboa enquanto o Príncipe do Brasil, D. Teodósio, permanecia no Alentejo. Os Bobadilha tinham sido mestres de armas do herdeiro da Coroa. O favorecimento do Príncipe aos seus antigos professores de esgrima, bem como a sua interferência no governo do Alentejo, não foram bem aceites por D. João da Costa. Mas pouco depois de D. Teodósio ter regressado a Lisboa (onde viria a falecer em Dezembro desse ano) e dos Bobadilha terem deixado o terço de infantaria, D. João voltou a ocupar o cargo de governador das armas.

Foi nesta condição que, em Novembro de 1653, aproveitando o facto dos campos não estarem ainda alagados pelas chuvas, o Conde de Soure ordenou duas incursões de cavalaria simultâneas contra a congénere espanhola. O general da cavalaria André de Albuquerque devia conduzir as companhias de Elvas, Campo Maior e Olivença a emboscar as companhias de cavalos de Badajoz, enquanto o capitão Fernão de Mesquita, com cinco companhias pagas e as companhias de pilhantes, devia fazer o mesmo às duas companhias que se aquartelavam em Valência de Alcântara e São Vicente.

O soldado Mateus Rodrigues servia ao tempo na companhia de Francisco Pacheco Mascarenhas. Tendo combatido em Arronches, onde foi ferido, não esteve presente na acção que narra, com algum detalhe, nas suas memórias – mas porventura terá apontado o que ouviu contar a outros camaradas de armas que estiveram nesse combate sob o comando de Fernão de Mesquita, acrescentando talvez um ou outro pormenor de sua lavra. E começa assim a sua narrativa (vertida para português moderno):

Em a cidade de Portalegre estava neste tempo uma companhia de cavalos de guarnição, e o capitão dela era de couraças, que tem mais proeminências que os ligeiros, e como havia mais umas cinco ou seis tropas que estavam por aqueles lugares circunvizinhos, estas estavam à sua ordem, deste de Portalegre, por nome Fernão de Mesquita, natural de Elvas, fidalgo e grande soldado e valente. De modo como Portalegre fica perto de Castela, (…) quis este Fernão de Mesquita juntar o seu regimento [note-se que Mateus Rodrigues utiliza o termo “regimento” num senso generalista, referindo-se a várias companhias sob o comando de um oficial, não no sentido orgânico do termo], que seriam 300 cavalos, a fazer uma entrada a Castela, às partes de Valência de Alcântara, que era aonde podia fazer alguma coisa, por ser lugar grande e de muitos gados (…), e como este capitão não podia fazer entrada nenhuma em Castela sem ordem do governador e do general da cavalaria, escreveu uma carta ao nosso mestre de campo general, Dom João da Costa, e ao general da cavalaria, em que lhe pedia licença para fazer a dita entrada, manifestando-lhe as causas que o moviam a fazê-la, que podia ser que desse algum repelão às tropas do inimigo, que tinha em Valência e em S. Vicente e em Albuquerque, porque todas estas tropas estão uma e duas léguas umas das outras, e em qualquer parte que os nossos lhe tocam arma, logo acodem uns aos outros como uns raios; e quando não fosse isto, traria o que lhes achasse pela campanha e se viria muito embora. [MMR, pg. 355]

Segundo Mateus Rodrigues, esta solicitação do capitão aos seus superiores tinha sido feita muitos dias antes do recontro de Arronches. É provável que o memorialista esteja correcto quanto às verdadeiras motivações desta operação, mas o certo é que, tenha partido a iniciativa do próprio capitão ou do Conde de Soure, ela foi providencial para o sucesso de Arronches. É que no mesmo dia em que Fernão de Mesquita saiu com as suas companhias, tinha o Duque de San Germán ordenado ao comissário geral Bustamante que, com dezoito companhias dos partidos de Alcântara e Albuquerque, entrasse a pilhar os campos das comarcas de Portalegre, Crato e Avis, e que depois se juntasse ao resto da cavalaria, que o aguardaria entre Alegrete e Arronches. Para Mateus Rodrigues, foi a intervenção divina (da Virgem da Conceição primeiramente – reflectindo o culto mariano característico do período) que fez com que, após a autorização dada pelos seus superiores, Fernão de Mesquita tivesse deixado passar vários dias antes de empreender a entrada.

Do recontro propriamente dito tratará a segunda e última parte deste pequeno artigo.

Bibliografia:

Manuscrito de Matheus Roiz, transcrição do códice 3062 [Campanha do Alentejo (1641-1654)] da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, Lisboa, Arquivo Histórico Militar, 1952 (1ª divisão, 2ª secção, caixa 3, nº 2), pgs 354-356.

Conde de Ericeira, História de Portugal Restaurado (edição on-line facsimile da edição de 1759), Parte I, Livro XII, pgs. 411-412.

Imagem: “O Campo da Cavalaria”, pintura de Philips Wouwerman, The Frick Collection, Nova Iorque.

O combate da Atalaia da Terrinha, 5 de Junho de 1647 (4ª parte)

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O desaire da Atalaia da Terrinha não foi diferente de muitos outros que ocorreram durante o conflito, fossem os vencidos do exército português ou do espanhol. Contudo, este sucedeu num período particularmente difícil para a cavalaria do exército do Alentejo. Martim Afonso de Melo, recém-nomeado governador das armas, tratou de afastar D. João de Azevedo e Ataíde do comando da cavalaria. O fidalgo foi preso e depois enviado a Lisboa para tratar de assuntos pessoais (uma forma airosa de não embaraçar ainda mais o comissário geral, que em 1641 levantara à sua custa a companhia de cavalos que comandava e fora dos primeiros combatentes na fronteira do Alentejo). Não escapou a um processo e consequente condenação, por causa do comportamento da cavalaria no combate da Atalaia da Terrinha. Como bom conhecedor das leis, D. João de Ataíde soube defender-se brilhantemente, interpondo recursos que resultaram na anulação da desonrosa sentença de perda do posto. Mateus Rodrigues refere que o seu comandante se retirou para os domínios que possuía em Coimbra, deixando definitivamente a fronteira do Alentejo e a carreira das armas. Mas uma carta de Martim Afonso de Melo ainda menciona uma operação levada a cabo por D. João de Ataíde em Junho de 1648, uma incursão ao outro lado da fronteira em represália pelo fracassado assalto espanhol a Olivença, durante o qual morreu o engenheiro João Pascácio Cosmander. Ter-se-á tratado de um breve regresso ao Alentejo para provar que vencera a argumentação legal e mantinha o posto, dele saindo só por sua vontade e com a honra intacta. Antes e depois desta ocasião, a companhia onde servia Mateus Rodrigues foi comandada interinamente pelo tenente Agostinho Ribeiro, sendo posteriormente entregue ao capitão Francisco Pacheco Mascarenhas.

Outros oficiais foram castigados em consequência do desastre militar na Atalaia da Terrinha. O capitão João da Silva de Sousa, que além de correr atrás do ajudante de D. João de Ataíde de espada na mão, insultou o comissário geral e o desafiou para um duelo (um crime muito grave), foi preso e condenado a degredo na província de Entre-Douro-e-Minho. Mas também este oficial soube mover influências, pelo que continuou a servir no Alentejo com a sua companhia. Outro capitão que foi preso, Luís Gomes de Figueiredo, acabaria de igual modo perdoado, tendo mesmo sido promovido a comissário geral. Poucos meses depois, em Setembro de 1647, seria mortalmente ferido num combate.

Em Outubro de 1647, a Atalaia da Terrinha foi palco da desforra portuguesa, com o general da cavalaria D. João de Mascarenhas (futuro Conde de Sabugal) a derrotar uma incursão do congénere espanhol recém-chegado à fronteira. Apenas mais um episódio, entre os muitos combates que se travaram nas proximidades da Atalaia durante a Guerra da Restauração.

Fonte: Cartas dos Governadores da Província do Alentejo a El-Rei D. João IV e a El-Rei D. Afonso VI, Lisboa, Academia Portuguesa da História, 1940, vol. I,  pgs. 149, 171, 195 e 288.

Imagem: Cavalaria inglesa do período da Guerra Civil entre Realistas e Parlamentários. A aparência e o equipamento eram muito semelhantes ao da cavalaria portuguesa e espanhola da época. Reconstituição histórica, Kelmarsh Hall Festival of History, 2007. Foto de Jorge P. de Freitas.

O combate de Castelo de Vide – 8 de Outubro de 1650 (3ª parte)

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Conclui-se hoje a narrativa do combate, segundo a descrição que é feita pelo soldado de cavalaria Mateus Rodrigues, que nele participou.

“Duraria a força da pendência uma hora, (…) mas como o inimigo viu que andava (…) já desbaratado, e além disso as companhias que lhe ficavam pela retaguarda, assim como nos viram, imaginaram que era toda a nossa cavalaria e logo se puseram em fugida, que deram ocasião a que os demais o fizessem também (…), de que nós tivemos grandíssimo gosto, que logo lhes fomos zurzindo em cima, daí uma grande légua até noite escura. E quando o inimigo se pôs em fugida, foi passando pelas barbas do nosso terço, mas já não havia lugar de lhe dar carga [quer dizer, disparar as armas de fogo], porquanto nós íamos já muito baralhados com eles, mas o mestre de campo [Gonçalo Vaz Coutinho], com a muita alegria de ver que nos fugia o inimigo, não se pôde ter que não mandasse dar carga aos soldados, que mais valera que nunca a dera, pois mataram de um mosquetaço o tenente do capitão Lopo de Sequeira, que era um bizarro moço, e alguns soldados mais.”

Note-se que o termo “bizarro”, aqui, significa “valente”. Os cavaleiros portugueses só abandonaram a perseguição após meia légua (c. 2,5 Km) percorrida, já anoitecia, na ermida de S. Amador. Os espanhóis tinham aí deixado perto de 800 infantes, mas este facto só veio a ser conhecido no dia seguinte.

Outro aspecto digno de nota é a inexperiência revelada pelo mestre de campo Gonçalo Vaz Coutinho numa situação de combate, ao dar ordem para os mosqueteiros e arcabuzeiros do terço dispararem sobre a cavalaria que passava ao seu alcance, sem ter em consideração que havia soldados portugueses colados ao inimigo.

“Agora direi o que sucedeu aos cem cavalos que o inimigo botou por cima, a tomar as entradas da vila. Assim como eles sentiam lá com as suas tropas a bulha, foi tratando do seu livramento, mas ainda levou seu esfola gato, que o corremos mui bem e ainda lhe ficaram mais de 20 cavalos dos que levava. E o capitão escapou pelo pó do gato, que esteve bem arriscado a matarem-no ou cativarem-no. Assim como foi noite começámos a juntar-nos e começaram a marchar para a vila de Castelo de Vide, que estava dali meia légua. E como fazia então mui bom luar, víamos mui bem o que havíamos de fazer, contudo, ainda não sabíamos quem nos faltava. Fomos para a vila levando connosco uma procissão de nus dos castelhanos (…).”

Era prática comum, tanto na Guerra da Restauração como em outros conflitos da era pré-industrial, despir os mortos e prisioneiros de guerra, a fim de aproveitar as roupas e todo o equipamento militar que fosse possível. Daí a referência aos prisioneiros nus.

Entre os mortos portugueses contava-se o tenente Agostinho Ribeiro, que comandava naquela ocasião a companhia do general da cavalaria André de Albuquerque Ribafria. Foi a sua morte muito sentida entre todos, principalmente pelo memorialista Mateus Rodrigues e pelos seus camaradas veteranos, pois Agostinho Ribeiro era um velho companheiro de armas, tendo começado a guerra como furriel da companhia de D. João de Ataíde, onde servia Mateus Rodrigues, quando esta foi formada em 1641 (depois de D. João de Azevedo e Ataíde ter deixado o exército em 1647, a companhia passou a ser comandada pelo capitão Francisco Pacheco Mascarenhas). Também o general da cavalaria ficou muito desgostoso com a morte do seu tenente, acontecimento que ensombrava a vitória alcançada e a captura de 250 cavalos.

“O capitão Dinis de Melo [de Castro] trouxe uma pelourada em uma perna, mas não foi coisa que fizesse mal (…). Morreriam 40 homens nossos e feridos mais de 80, mas o inimigo perdeu 5 capitães, 4 mortos e um cativo, destes 250 cavalos que nós lhe tomámos viriam 200 homens prisioneiros, e os mais morreram, de sorte que a minha companhia só trouxe 28 cavalos da ocasião (…). Mas não há dúvida que foi um sucesso notável, com o tão pouco poder que nós tínhamos, que o inimigo trazia treze tropas mui grandes, que constavam de 700 cavalos, e as nossas tropas eram 7, (…) que não éramos mais que 380.”

Fonte: Manuscrito de Matheus Roiz, versão transcrita do AHM, pgs. 230-232.

Veja-se também a descrição do combate em ERICEIRA, Conde de, História de Portugal Restaurado, edição on-line, pgs. 333-334.

Imagem: Jan Martszen de Jonge, Combate de cavalaria (meados do séc. XVII).