Cerco e tomada de Olivença (10ª e última parte – de 23 a 31 de Maio de 1657)

Mapa

[23] [Nota de Horácio Madureira dos Santos: No original está erradamente indicado o dia 24] – Partiram os enviados 4ª feira pela manhã, e nesse dia tornou o padre António de Matos trazendo do Conde general largas promessas de socorro, com que foi grande a alegria que houve na vila comummente em todos. Levava João Mendes Mexia uma instrução que o governador e o Du Four fizeram, em que pediam, afora o que já tinham pedido, que creio era pólvora, que lhe mandassem 1.500 infantes, e nesses viessem duzentos rodeleiros [soldados armados de espada e rodela – escudo pequeno e redondo – que eram empregues em missões especiais], e que esses, em chegando, guarnecessem a estrada encoberta e surtissem pelos aproches do inimigo, e sustentassem o que fosse ganhado, e que ele tinha outros 200 da gente da vila com que render aos que viessem.

E assim lhe mandassem 130 cavalos com um bem valente cabo, e lhe mandassem vinho para as missas, e medicamentos para os feridos, e que se resolvessem em socorrer a praça, o que podia fazer pela parte de Santa Catarina ou pela serra. Afora estas, levava outras advertências. E o sargento-mor Manuel de Magalhães mandou outra instrução por João Rodrigues, lavrador prático, e foi à torre a lhe mostrar o sítio e lugar por onde o socorro podia entrar e por onde o havia de guiar. E para que o inimigo não buscasse os enviados e lhes achasse este papel, o estudou de memória Simão Lopes de Oliveira.

Foram os nossos enviados bem recebidos no exército, e dele partiu pela posta um, que foi João Mendes Mexia, e veio à Corte a pedir socorro. Nós estávamos na praça esperando pelo nosso exército, que viesse conforme à promessa, porém ele se não movia; assim passámos até tornarem os enviados, sem haver de novo outra coisa mais que mandar o governador dar pão de munição a quase todo o povo.

[28] – 2ª feira pela manhã chegaram os enviados à praça, tendo sido retidos um dia do exército do inimigo, e vieram com promessa de socorro; querem alguns senhores e cabos que lhes deram frias esperanças.

O capitão António Barbosa de Brito trazia, sem os outros saberem, uma ordem do Conde general para o governador, e era assinada também pelo mestre de campo general e pelo dito capitão, escrita em um pedaço de papel, que era mais de um quarto, e nela dizia que Sua Majestade, que Deus guarde, por carte de 25 do corrente lhe ordenava que o avisasse de sua parte, lhe mandasse que não guardasse a capitulação feita com o inimigo, nem entregasse a praça,antes a defendesse até pela defensa dela derramar a última gota de sangue. Continha este papel o modo e sinais que se farião, e finalmente que o exército socorreria a praça a todo o risco, em conduzindo a gente que dele se tinha divertido [quer dizer, após reagrupar os soldados que se encontravam dispersos ou que tinham desertado do exército de socorro].

Para ver esta ordem chamou o governador a câmara, nobreza e povo, clérigos e todos os cabos da guarnição, capitães e daí para cima, e propôs que El-Rei [na verdade, a Rainha regente] mandava aquilo, mas que para o executar não havia pólvora para mais que três dias, e poupando-a para quatro, que o punha a votos, e que me pedia que eu os tomasse a todos, assinando cada um o seu.

A mim me pareceu que a ordem se devia executar, e não pôr em conselho, e entre outras coisas que mais disse foi este meu voto. Mandei de tudo fazer auto pelo escrivão da câmara, e por ser a casa do governador pequena e a gente muita, e estar mal acomodada, me passei paraa igreja de Santa Maria, aonde me chegou recado que somente a câmara, clero, governança e povo tomasse os votos, e que os da guerra lhos tomaria o governador. Assim o fiz, e de todos os que votaram só seis ou sete foram de acordo que a capitulação se guardasse, e destes ficaram quatro em Castela, os mais votaram que a praça se defendesse.

Mandei estes autos ao governador e ele mos tornou, dizendo que fosse com um homem da governança a ver a pólvora que tinha e me desenganaria eu e eles; eu lhe respondi que Sua Majestade me tinha mandado uma certidão do almoxarife, em que declarava a pólvora que tinha, que me parecia quantidade bastante, se se gastasse com boa ordem, e não tinha outro parecer senão o que já tinha dito. Disse-me então o procurador, que era o capitão Manuel Mendes Mexias, que o governador, estimulado do meu voto e dos da governança, estava de acordo de queimar os armazéns e formar os terços, investir as linhas, e salva-se quem se salvar.

Eu lhe dei em resposta que a ele lhe ordenavam que defendesse a praça, e não que a perdesse desta ou da outra maneira, e que nem tudo o que dizia podia fazer. Pela tarde apareceu o nosso exército em Vila Real com cavalaria avançada, em modo de nos vir socorrer.

Neste dia entregou o governador todos os armazéns, artilharia e munições e mantimentos a D. Diego de Rueda, e fez esta entrega o Du Four.

29 – 3ª feira mandou o governador ao capitão da ordenança João Lourenço Matos que fosse levar os reféns ao nosso exército; ele foi, e os primeiros que levou não lhos aceitaram, dizendo que haviam de ser à vontade do governador que contratou e que dessa não constava. Sendo disto avisado o governador, deu um rol de seis, os quais eram o Conde de Medellin, o filho do de Montijo, o do Marquês de Barcarrota, D. Rodrigo Mexia, D. Francisco de Guzmán, o Conde del Axenal, e deu um escrito em que dizia que se satisfaria com dois; destes foram levados ao nosso exército o filho 3º do de Montijo e o de Barcarrota, e os aceitaram.

30 – Era o dia final da entrega quarta-feira pela manhã, e sendo já bem tarde, não tinha vindo o nosso capitão a nos fazer certo que os reféns estavam já no nosso exército, contudo chegou com uma hora de dia. O Duque pedia a entrega, o governador dizia que conforme o contratado não havia de sair o povo e guarnição, senão em um dia pela manhã, e que depois de ele sair entraria a sua guarnição, e que aquela hora era tarde, que amanhã faria a entrega. Contudo lhe entregou logo a praça, largando-lhe a porta de São Francisco e o baluarte do mesmo santo, e o de São Brás.

Entrou a bagagem do castelhano, o Duque e alguns cabos e particulares. O nosso exército esteve sempre à nossa vista, esperando algum movimento nosso que não houve.

Ao outro dia, que era 5ª feira, saiu o povo, ficando lá somente, por então, 43 casais, e passaram para cá 942 largando suas casas e fazendas, e ainda dos que ficaram pedem bagagem para virem muitos.

Em meio do caminho nos mandaram fazer alto, e se lançou em nome de El-Rei de Castela um bando em que prometiaa todos os que ficassem que não pagariam alcavalas, nem teriam alojamentos, nem na praça meteriam guarnição estrangeira, senão de espanhóis, que dariam aos moradores razão e o mais que dessem aos soldados, que lhes reformariam as casas que arruinou a artilharia e lhes guardariam seus foros e privilégios, e lhes concederiam outros maiores, contudo nenhum tornou para trás. E vieram ao nosso exército, e daí se repartiram pelos lugares de Borba, Vila Viçosa e Elvas, aonde pelas justiças e câmaras lhes fizeram suas boas passagens.

Antes de Manuel de Saldanha [governador da praça] chegar ao exército, foram 20 cavalos levá-lo preso a Vila Viçosa, de onde depois foi passado à Torre de Belém. O mestre de campo João Álvares de Barbuda foi levado a Évora Monte.

A perda de Olivença teve como resposta, no ano seguinte, a fracassada tentativa de tomada de Badajoz pelos portugueses. A empresa partiu da iniciativa de Joane Mendes de Vasconcelos, cuja opinião tinha sido até aí contrária  a toda e qualquer operação de cerco àquela importante praça raiana. Ainda em 1658, foi a vez de D. Luís de Haro iniciar o cerco de Elvas, que culminaria em Janeiro do ano seguinte na batalha das Linhas de Elvas, da qual o exército português saiu vencedor. Pode afirmar-se que a tomada de Olivença pelo exército espanhol inaugurou o período final da guerra na fronteira alentejana, durante o qual se registou um aumento de intensidade das operações militares. Mas ao contrário do que foi temido aquando da perda da praça pelos portugueses, o revés de Olivença não conferiu grande vantagem estratégica aos exércitos de Filipe IV: toda a região raiana, de um lado e de outro da fronteira daquela parte, estava bastante devastada e incapaz de servir de apoio a exércitos numerosos. De facto, até ao nível das operações de saque e pilhagem, a guerra no Alentejo e na Extremadura flectiu mais para sul, para os campos do Baixo Alentejo e os domínios dos Duques de Medina-Sidónia, que até aí haviam sido relativamente poupados às acções de guerra.

Olivença seria devolvida à soberania da Coroa portuguesa após o Tratado de Paz de 1668.

O texto, cuja transcrição (com ortografia actualizada) ora se conclui, corresponde a um manuscrito anónimo existente na Biblioteca Nacional, secção de Reservados, agora somente disponível em microfilme (FR 970), cujo título é Relação de tudo o que [se] passou em Oliuença e no Campo do Cerco e tomada da praça pellos Castelhanos. Abril anno de 1657.

Imagem: Nova et accurata tabula Hispaniae, de Cornelis Dancker, c. 1656 (detalhe do mapa). A vila de Olivença, que no mapa não se encontra legendada, está aqui assinalada a vermelho. Biblioteca Nacional, Cartografia, CC 1214 A.

Cerco e tomada de Olivença (6ª parte – de 9 a 12 de Maio de 1657)

Olivença

9 – Pela madrugada da quarta-feira trabucou o inimigo, e a primeira bomba caiu no fosso; ao cair alcançou uma égua de Lourenço Martins Sembrano e a partiu em duas, e ao rebentar matou o sargento-mor Diogo d’Aguiar da Mota, engenheiro; deu-lhe um pedaço dela na cabeça de que logo morreu; tinha-se confessado na tarde do dia de antes e era soldado honrado.

Quinta-feira dez, pela manhã, deixou o nosso exército o quartel da Amoreira e marchou direito para o Guadiana, pelo caminho por onde tinha vindo, e o vimos [n]o cabeço de Vila Real; a cavalaria do inimigo o seguiu pouco espaço de longe. Choveu neste dia como nos mais.

Pela tarde fez o inimigo chamada pela parte do Ral, e mandou[-se] ao capitão António Barbosa de Brito que fosse saber o que queria; trouxe por resposta que o nosso exército viera para nos socorrer e estivera à vista tanto tempo, e que desenganado de que o não podia fazer, e por outras causas maiores, que alguma hora saberíamos, nos dera as costas e se recolhera, de maneira que logo aquela manhã passara o rio e assim ficávamos sem esperança de socorro [esta informação dada pelos espanhóis era correcta e reportava-se à aparentemente estranha decisão tomada pelo Conde de São Lourenço, comandante do exército do Alentejo, de retirar-se das proximidades de Olivença e desistir de socorrer a praça sitiada]; que admitíssemos as capitulações e práticas [ou seja, conversações – “prática” também significava “conversa”, tanto no século XVII como nos anteriores], que nos concertos se nos concederiam os maiores e mais honrosos partidos que em outra praça se tivessem concedido; e que isto nos escusaria de padecer hostilidades, e que para responder nos davam termo de duas horas. Houve nesta ocasião cessação de armas.

O governador me mandou dizer que importava que nos víssemos, e quando cheguei o achei na porta de São Francisco sentado com os mestres de campo João Álvares de Barbuda e os engenheiros Du Four e Gilot, e com eles Castilho [Stéphane Auguste de Castille], e também o sargento-mor Manuel de Magalhães, com mostras de grande sentimento. Disse-me o governador que tivera aquela chamada do inimigo com aquele recado, que era necessário dar conta ao povo, para o que mandasse chamar a Câmara, porque o nosso exército, com o que fez, nos tinha posto naquele extremo de desventura; que salvássemos a guarnição de El-Rei [apesar de D. João IV ter morrido no ano anterior, este termo é uma generalização que se reporta ao exército régio], as vidas, honras e fazendas dos moradores, e que se fizesse chamar logo a Câmara, porque do termo para a resposta não tínhamos mais que meia hora.

Eu respondi o que se me ofereceu, e à minha resposta disse Gilot e o [Du] Four que não evitasse tal, que eles se obrigavam a tornar a ganhar a praça dentro de doze dias, a isto respondi pior ainda; e fui à Câmara, e disse aos vereadores que advertissem que queriam entregar a praça, que vissem o que lhe propunham e o que lhe respondiam.

Negou o governador, e com ele Gilot, e assentados propôs o que o inimigo mandava dizer, e que queria dar-nos conta, porque se não admitíssemos a prática não nos ficava recurso, e que o nosso exército, em lugar de nos socorrer, se retirava, como víamos, e disse mais que a prática não era a fim de entregar a praça, senão de entretanto descansar a guarnição e propormos as munições; e o inimigo estar gastando tempo, sem proveito algum; disseram todos que, sendo só para esse fim, se admitisse a prática.

Partiu o governador para a porta e a mandou guarnecer com as companhias da terra dos capitães Francisco Lobo de Cabrera e Rui Vicente de Matos, e logo mandou aprestar ao mestre de campo João Álvares de Barbuda e [a]o sargento-mor João Álvares Coelho, para irem por reféns. Eles se foram a enfeitar [vestir o melhor trajo] e partiram para lá, e do exército vieram para cá D. Pedro Alvarez de Toledo e o Conde de Torrejón, mestres de campo, e os recolheram em casa de João Mexia, onde lhes puseram guardas.

Neste tempo se tocou na vila uma arma de boca mui viva, e como a gente toda sentia mal de se admitir a prática, andavam os mais deles furiosos, com o que correram à muralha muitas mulheres com armas e fizeram o mesmo. O governador acudiu a guarnecer e animar a gente. Estando na porta do calvário, onde eu também estava, lhe disse o padre João Lobo Freire: Senhor governador, estes velhacos não são para mais que fazer enganos e traições. Vossa Senhoria tem consigo muita e mui valorosa gente, que podem defender a praça e o Reino, não fie deles coisa alguma.

Respondeu a isto o governador que não falasse mais palavra, senão que o prenderia e o meteria em uma casa fechado de maneira que não falasse mais. A todos escandalizou uma resposta tão áspera dita a um sacerdote honrado e que, pelo que disse, a não merecia; o mesmo sucedeu ao tenente Manuel Pacheco, soldado honrado e valente, que diante de mim o descompôs, porque disse o mesmo; logo passou palavra que tornava o nosso exércio e que se vim batalhões na campanha, mas não foi assim.

Pela meia noite me mandou recado o governador, que lhe falasse; eu o achei com Gilot, e me deram as capitulações feitas sem eu nelas dar penada, e me disseram que as mostrasse aos vereadores, e que vissem se queriam para si e para o povo mais alguma coisa, e me disseram que o capítulo que falava nos frdes visse eu o que me parecia, que pediriam; e assim fiz isto só, e nesta forma os levei aos vereadores, e eles disseram que sendo para o que tinham assentado, que bons estavam, e os mandei tresladar de boa letra por João de Gusmão , escrivão do almoxarife, e os dei ao governador.

11 – Sexta-feira pela manhã entrou um correio do Conde general com carta sua, em que dizia que estranhava ao governador não lhe fazer aviso nenhum havia tanto tempo, que ele os fizesse mais amiúde que pudesse, e que o dito Senhor se tirava daquele quartel pelo discómodo grande dos soldados e cavalaria, mas que estivesse certo que quatro dias ou menos os havia de socorrer. O primeiro que trouxe a carta deu boa notícia do nosso exército. Vimos a carta todos e nos alegrámos muito, porque soubémos das mentiras e enredos que o inimigo nos contou chegando à fala, dizendo que tinham morto o Conde general e que cinco fidalgos, que o fizeram, estavam no seu exército, e outras grandes pataratas deste lote.

Pela tarde veio a resposta que o inimigo deu às capitulações, em que concedia algumas e negava outras; e no tocante aos cabos e soldados eram mal respondidos, com que se tornavam a enviar os seus reféns, e cobrámos os nossos, e tornámos às armas, o que foi de tanta alegria para todos que parece cobraram novos corações.

Pelejou-se valorosamente à noite e [n]o dia seguinte de sábado. Neste, sendo pelo meio-dia, saiu André Fernandes, filho de João Rodrigues, lavrador, pela estrada encoberta, e com um capacete na cabeça e um chuço na mão se arrojou ao aproche do inimigo pela parte da Corna e saltou dentro dele, e fez fugir vergonhosamente toda a guarnição [e] a gente fo trabalho, e lhe tomou ferramentas e armas que ficaram, e fez um feixe que carregou e trouxe depois de ter dado a três soldados que chegaram lá depois dele lá estar, as que puderam trazer, e com elas se vieram para a vila.

[12] – Neste dia mandou o governador para aquela parte de guarnição 200 homens dos moradores, com quatro cabos dos mais valentes que houve, e foram Cristóvão de Macedo, Rui Vicente de Matos, capitão da ordenança, e Domingos Gordo prado, filho do sargento-mor Gil Lourenço Cabeça, e o capitão Lopo Vieira Miguens. Estes guarneceram desde Santa Quitéria até ao revelim de São Lázaro, que é por onde o inimigo atacava por aquela parte. O nosso exército foi visto passar de Vila Real e marchar para os Matos de Ferreira; o inimigo saiu com a sua cavalaria para o outeiro de Castelo Velho, e por noite tornou para a sua linha.

(continua)

Este texto corresponde à transcrição (com ortografia actualizada) de um manuscrito anónimo existente na Biblioteca Nacional, secção de Reservados, agora somente disponível em microfilme (FR 970), cujo título é Relação de tudo o que [se] passou em Oliuença e no Campo do Cerco e tomada da praça pellos Castelhanos. Abril anno de 1657.

Imagem: Olivença na actualidade. Imagem obtida a partir do site Google Earth.

Cerco e tomada de Olivença (5ª parte – de 1 a 8 de Maio de 1657)

Olivença2

Maio 1 – Vendo o governador que o inimigo caminhava para nós, mandou fazer no parapeito e segundo friso da estrada encoberta duas cortaduras, com as quais deixava cortado o ângulo dela por aquela parte, e mais atrás daquelas mandou fazer outras. Vendo também que havia na praça moradores necessitados que não tinham que comer, lhes mandou dar racção como aos soldados, a cento e sessenta e cinco deles.

2 – Quarta-feira trabucou o inimigo de noite e de dia e lançou grande quantidade de bombas, quatro delas arruinaram quatro moradas de casas em que caíram; entre estas deu uma em casa de Francisco de Magalhães Galego, e fez uma disforme ruína, e lhe queimou todo o móvel de sua casa, que era muito e bom.

Pelas duas horas da tarde mandou o governador fazer uma surtida ao inimigo naquele novo aproche com que vinha caminhando. Foi por cabo o alferes reformado João Domingos, e levou trinta infantes e alguns aventureiros, da cavalaria foram doze cavalos, e por cabo o furriel Domingos Pereira. Saíram pela estrada e com toda a fúria se arrojaram ao trincheirão que estava ainda tão singelo, que os cavalos passaram todos da outra parte.

Estava o inimigo bem descuidado deste dano, e quando advertiu nele já não teve tempo para mais que fugir, o que não puderam fazer mais que até dez; os demais todos morreram e com eles o sargento-mor Palacios, cabo de tanto porte que ainda o dia que saímos rendidos vi que os castelhanos choravam a perda deste soldado. Só ele se pôs em defesa com mais dois, que também morreram. E o capitão e oficiais da companhia que ali guarnecia, que tinha 75 soldados, deles trouxeram um para língua, que nos informou de tudo, e ao depois o soubemos de outros, que [se] passou assim. Os nossos vieram sem dano, só o alferes que foi cabo trouxe três feridas, mas de pouco porte, e o sargento Castelão uma picada em um braço [picada: ferida provocada por um pique].

O sentimento obrigou ao inimigo a se despicar, e o quis fazer dando-nos um assalto na noite deste dia. Tinha já dado meia-noite, quando pela parte do baluarte da Rainha avançou com um grosso de infantaria, entre espanhóis e estrangeiros, e para melhor os obrigar trazia por detrás deles alguma cavalaria. Chegaram a pegar nas estacas e a atirar com pedras; ao depois de gastar, de parte a parte, os tiros e granadas que ali havia, chegou a durar a briga sem tiros muito tempo. Desta parte lhe tomaram os nossos algumas picas [piques] e chuços, em que lhe pegavam e tiravam das mãos. Durou o combate por esta parte duas horas, em que de ambas partes se pelejou furiosamente.

Activou-se o inimigo e retirou mortos e feridos, e só ficaram bem poucos, que por ser mui perto de nós deixaram muitas armas no campo. Quis refazer-se para segunda, mas os seus soldados o não quiseram fazer, sem embargo dos gritos, ameaças e afrontas que lhes diziam.

Logo que se retirou de todo, se deu pelo muro uma salva, e viva[s] a Sua Majestade, que Deus guarde, com que o inimigo tornou a avançar pela parte de São Lázaro, aonde me eu achei. Saiu da sua linha e quartel do olival de João Cabelos e com grande algazarra veio para nós, mas tão devagar que parecia os traziam ao Inferno, e com partirem muitos, e por detrás deles um batalhão de cavalaria, chegaram a nós já poucos, ainda que os oficiais bem brazonavam. Eu vi uma só manga de mosqueteiros e o batalhão. Outros dizem que da outra banda vinha outra manga. Chegaram perto da estacada coisa de dez passos, e naquela distância continuaram para baixo até ao Ferragial do Azoche. Receberão a carga de tão perto, e ao depois muitos tiros, com o que se retirou, e retirou os mortos, se bem naquela noite todo[s] os sentimos vir entre o trigo e carregar deles, de sorte que até as selas e freios dos cavalos retiraram. Esta avançada durou menos de meia hora.

3 – Quinta-feira intentou o Du Four contraminar o muro da estacada coberta pela parte do aproche, e tendo rota a parede não pôde obrar coisa alguma, porque a terra o não consentia por ser solta e movida de poucos dias, e assim tornou a mandar tapar o buraco.

O sargento-mor Gil Lourenço Cabeça saiu com gente da terra a cortar trigos para faxinas, e para o que não bastaram se cortou arvoredo dos quintais e hortas de dentro da vila. O inimigo chegou assim o aproche à escarga da estrada encoberta. Mandou o governador fazer uma cortadura no ângulo da estrada encoberta, por dentro do fosso, para que o que carretavam a faxina os meninos e mulheres, que eu vi conduzir, por que os homens não perdessem de trabalhar.

Neste dia, logo à noite, intentou o inimigo outro assalto por donde o primeiro [tinha sido feito], mas não chegou perto, só tratou de retirar os mortos que lhe tinham ficado ali no dia atrás.

[4 de Maio] 6ª feira, manhã, pelas dez horas do dia foi visto o nosso exército, marchava para [a] praça, fez caminho direito ao Castelo Velho, que é um outeiro que está um quarto de légua da vila. O inimigo queimou as barracas do quartel de São Francisco o Velho e marchou com todo o poder para o quartel do olival de João Cabelos, que era então o da Corte, e ficava fronteiro àquela parte por onde marchava o nosso exército. Deste quartel mandou pôr duas peças pequenas para o outro de Vale das Éguas, aonde tinha feito um fortezinho no meio da sua linha exterior, e com a infantaria e cavalaria guarneceu a sua linha desde Ladra até o ribeiro de Figueira, repartindo a infantaria em esquadrões, que arrimava singelos à linha, e a cavalaria em batalhões singelos em três esquadrões.

Nesta forma esperou o inimigo os nossos dentro da sua linha; era esta uma trincheira feita de terra e faxina, de altura bastante para se poder pelejar detrás dela, e de grossura ordinária, como os quartéis da campanha. Pela parte de fora tinha um fosso ou sanja de largura ao parecer de cinco palmos, e altura de pouco mais; isto tinha pela parte, que eu as vi quando vim rendido; as outras partes deviam ser como esta, porque da praça lhe não vimos maior vulto por outras partes do que por aquela.

[5] Sábado pelo meio-dia marchou o nosso exército direito à praça pela banda de Castelo Velho; e porque o inimigo tinha guarnecido a atalaia daquele outeiro com vinte cinco mosqueteiros, mandou um troço de mosquetaria que avançassem a ela, o que fizeram com valor e entraram a atalaia e forte, e mataram só três dos que estavam à defesa e aos mais deram quartel.

Daí foi o nosso exército para o sítio da Carvoeira, que dista desse outros dois tiros de mosquete, aonde o inimigo tinha outra atalaia guarnecida; e os que estavam à defesa dela pediram que, para satisfação dos seus, lhe dessem lugar a que dessem duas cargas sem bala e que eles estavam rendidos, o que se lhes concedeu, segundo me informaram, e eram outros vinte cinco mosqueteiros; guarneceu o nosso exército estas atalaias.

Logo que o nosso exército chegou a Amora, se pôs em forma de batalha, e foi uma formosa vista; e estando nesta forma, e ao parecer que querendo acometer, começou de chover água grossa e continuou até noite; neste tempo se afastou pouco atrás o nosso exército, e se meteu no Vale da Amoreira, e aí se aquartelou. Do baluarte de cima do Calvário se atirou ao inimigo, ao quartel de João Cabelos, e deu na pólvora que logo ardeu e foi grande quantidade dela que se queimou, e com ela voaram mais de trinta homens, excepto os que ficaram tostados.

[6] Com a grande chuva esteve a guerra em calmaria o dia de domingo, até que pela tarde atirou o inimigo algumas peças ao nosso exército desde o olival de João Cabelos, e com as peças que tinha levado para Vale das Éguas atirava à vila. Eram as balas umas de dez libras, e as duas de sete; do nosso campo se lhe atiravam também com outras peças, mas a chuva tornou a continuar como até então.

7 – Ainda segunda-feira chovia como dantes, e os nossos tratavam e ir fazendo o seu quartel no sítio referido; e em tanto tornou o inimigo a guarnecer e trabalhar nos seus aproches, e esforçava as cargas de mosquetaria que deles dava contra a praça. Os tiros de artilharia de campo a campo continuavam. Este dia se passou para a praça um soldado castelhano, e por noite teve o inimigo arma [ou seja, houve uma situação de alerta] pela parte [do baluarte] da Rainha.

[8] – Terça-feira pela dez horas do dia saiu a cavalaria do inimigo do quartel de Vale Mimoso e marchou por dentro da sua linha para o de João Cabelos, e foi sair pelo ribeiro de Ramapalhos direito a Janela Ladra. Já fora da linha foi caminho direito às Calçadas, e daí  se formou em batalha ao longo do ribeiro abaixo, algum tanto afastado dele, e levou consigo uma pouca de mosquetaria, que formou junto do batalhão do corno direito, e assim fez frente para a nossa gente. Os nossos destoutra parte so ribeiro se formaram, e assim estiveram grande tempo sem haver mais que uma bem travada escaramuça entre os batedores, com o que se recolheu o inimigo às suas linhas.

Pela tarde avançaram dois batalhões ao rastilho da porta do Calvário, foram rebatidos e com perda de dois cavalos que logo ficaram, afora os que levaram feridos. Lançaram fama que minavam pela parte do seu ataque, o que se achou pelo contrário. Neste dia choveu muita água, o mesmo fez quinta-feira, que passou sem cousa de que se deva falar. [A narrativa apresenta aqui alguma confusão: como veremos na próxima parte, a quinta-feira seguinte foi dia de azáfama – o autor talvez tenha querido escrever “quarta-feira”, mas mesmo nesse dia registou um episódio curioso, como teremos ocasião de ver.]

(continua)

Este texto corresponde à transcrição (com ortografia actualizada) de um manuscrito anónimo existente na Biblioteca Nacional, secção de Reservados, agora somente disponível em microfilme (FR 970), cujo título é Relação de tudo o que [se] passou em Oliuença e no Campo do Cerco e tomada da praça pellos Castelhanos. Abril anno de 1657.

Imagem: Vista de Olivença e seus arredores. Foto de Jorge P. Freitas.

Stéphane Auguste de Castille e a perda de Olivença em 1657 (parte 2)

Stéphane Auguste de Castille não chegou a cumprir o degredo na Índia, tendo permanecido preso no Reino depois de ter sido considerado culpado pela entrega de Olivença aos espanhóis. Continuava a reclamar inocência, que dizia ser “tão clara como o Sol”, dirigindo várias petições ao Conselho de Guerra para que fosse anulada a sentença. Ele, que viera para Portugal em 1648, servira a maior parte do tempo à sua custa, tendo uma experiência militar de 24 anos contínuos em guerras. Tinha sido capitão de infantaria e de cavalaria na Flandres e tenente-general na província da Baixa Bretanha, tendo abandonado a França por motivos de força maior (provavelmente a contas com a justiça). A sua permanência na prisão, desde 1657, já lhe custara para cima de 13.000 cruzados, uma pequena fortuna, como não bastasse a Coroa dever-lhe mais de 7 anos de soldos – uma situação frequente entre os capitães de cavalos.

“Não se devia descompor um cavaleiro estrangeiro, homem de tanta experiência, assim no formar das batalhas e batalhões, evoluções da cavalaria e nas mais ciências dependentes da milícia ofensiva e defensiva, e que tem servido a Vossa Majestade desinteressadamente tantos anos, com tanta satisfação e bons sucessos.”

Fora o único capitão de cavalos a permanecer em Olivença, tendo a restante força de cavalaria (400 homens sob o comando do tenente-general francês Achim de Tamericurt) abandonado a praça antes de começarem os trabalhos de cerco. Alegava ter procedido com muito valor durante o sítio e que só ficara em Olivença movido pelo zelo em servir numa arriscada situação. Todos os dias, ao amanhecer, saía a pelejar fora da estacada, “obrando acções memoráveis e dignas de grande estimação”. Dos 96 cavalos que a sua companhia tinha, veio a ficar somente com 37, muitos deles feridos, além de lhe terem matado 5, “a pistoletaços e estocadas, debaixo de sua pessoa”. Recordava ainda vários combates travados no tempo de D. João IV, “que o conhecia, amava, estimava e honrava com muitas cartas suas” (as cartas régias de agradecimento eram muito honrosas para quem as recebia, equivalendo às actuais medalhas como testemunhos de bravura e bom desempenho militar).

Numa das petições, Stéphane de Castille lamentava a acusação de que fora alvo, dizendo que todos os outros implicados se tinham conseguido livrar, incluindo o capitão António Barbosa de Brito, tido na devassa (inquérito) como o principal culpado. Só ele próprio e o compatriota Du Four tinham sido condenados. Acusava o eminente doutor de leis Jorge da Silva Mascarenhas, relator, de ter mandado aceitar como verdadeiros os depoimentos das testemunhas do processo, depois de numa primeira instância as testemunhas terem sido acusadas de faltarem à verdade. O doutor, com influência na Corte, teria procedido assim para livrar de culpa o juiz de fora de Olivença, que era seu sobrinho.

Este juiz de fora, de seu nome João Garcês de Teive, era tido pelo oficial francês como o culpado pela sua condenação, pois “não tendo por onde se livrar, o fez com a perda do suplicante, e alcançou de Vossa Majestade, em lugar de castigo, o cargo de provedor da comarca de Elvas, do qual cargo Deus, como tão justo e recto, não permitiu deixá-lo lograr, pois o alcançou à custa da honra e sangue do inocente que padece”. De resto, desde 1654 que era pública a inimizade entre o juiz de fora e o capitão estrangeiro. A invocação da acção da justiça divina é feita a propósito dos indivíduos que Stéphane de Castille acusava de conjura e falsos testemunhos, pois dos iniciais 106 que assim procederam por temerem o juiz de fora e o seu poderoso tio, já tinham morrido 92, apenas quatro anos volvidos sobre o acontecimento.

Não obstante todos os argumentos invocados, as petições do capitão Stéphane Auguste de Castille continuaram a ser indeferidas pela Coroa. Os nebulosos contornos da capitulação de Olivença nunca seriam esclarecidos. Passam hoje 351 anos sobre a queda da vila alentejana, que seria devolvida a Portugal após a assinatura da paz, em 1668.

Fonte: Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Conselho de Guerra, Consultas, 1661, maço 21-A, caixa 78, consulta de 19 de Julho de 1661 e documentos anexos.

Imagem: Vista de Olivença e arrabaldes a partir da fabulosa torre do castelo. É perceptível a configuração das fortificações seiscentistas, posteriormente melhoradas. Em primeiro plano, o antigo quartel de cavalaria. Foto do autor.

Stéphane Auguste de Castille e a perda de Olivença em 1657 (parte 1)

Em 30 de Maio de 1657, após um mês de cerco pelo exército espanhol, capitulava a vila de Olivença. O mestre de campo Manuel de Saldanha entregava a praça que até então governara ao Duque de San Germán, comandante das forças sitiantes. Contando inicialmente com uma guarnição de 4.000 infantes e uma companhia de 100 cavalos, Olivença viu perecer mais de 1.700 defensores durante as operações de sítio. Enquanto isso, o exército de socorro, confiado pela rainha viúva D. Luísa ao Conde de São Lourenço, desgastava-se inutilmente numa ousada tentativa de tomar Badajoz, em vez de se lançar sobre o exército de San Germán.

A queda de Olivença, coincidindo com o reacender da guerra nas fronteiras do Reino, trouxe consigo um imenso pesar e uma vaga de suspeitas de traição. Nem sequer foi poupado o Conde de São Lourenço, apesar do prestígio alcançado no governo das armas do Alentejo durante a década de 40. Caiu em desgraça, como alguns outros que foram acusados de envolvimento na entrega da praça alentejana ao inimigo.

Uma das acusações mais surpreendentes que os inquéritos em torno da queda de Olivença produziram foi dirigida contra um capitão de cavalos, o francês Stéphane Auguste de Castille, cujo nome aparece também aportuguesado em várias fontes como Estêvão Augusto de Castilho. Não causa estranheza que um estrangeiro fosse tido como suspeito, uma vez que, na época, existia uma enorme desconfiança em relação aos súbditos de reis estrangeiros, mesmo os que se batiam no exército português. Contudo, sobre Castille e um outro seu compatriota, François Du Four, recaíram as culpas da perda da praça, apesar de nenhum deles ter estado envolvido nas negociações da entrega da vila. Condenados, Du Four seguiu para as ferrarias de Tomar, enquanto Stéphane Auguste de Castille foi sentenciado no crime de lesa-majestade e degredado por toda a vida para a Índia por infame, ele e os seus descendentes. O caso deixa entrever uma complexa intriga de bastidores e o envolvimento de pessoas ligadas à burguesia e justiças locais, eventualmente receosas de perderem os bens se a capitulação proposta pelo Duque de San Germán não fosse aceite, e certamente receosas de perderem a vida se acusadas de traição após a rendição. Os estrangeiros poderiam ter servido, assim, de bodes expiatórios muito convenientes.

Entre 1660 e 1661, Stéphane Auguste de Castille escreveu várias petições ao Conselho de Guerra, reafirmando a sua inocência e clamando pela anulação da sentença. Para não tornar esta entrada demasiado extensa, amanhã será aqui publicada a argumentação do cavaleiro francês, bem como a sua versão da estranha intriga em torno da queda de Olivença.

Bibliografia on-line (História de Portugal Restaurado)

Gravura: Planta de Olivença, c. de 1700; Biblioteca Nacional, Iconografia, CC29P. A legenda em francês refere que a tomada da vila pelo exército espanhol ocorreu em 1658, quando na verdade foi no ano anterior. Olivença seria devolvida à Coroa portuguesa em 1668, após a assinatura da paz.