Efectivos da província da Beira, partido de Penamacor, em 1648

Em Setembro de 1648, a propósito da insuficiência de dinheiro para pagamento de todas as forças da província da Beira, o governador das armas do partido de Penamacor (distrito militar – por vezes também referido como partido de Castelo Branco), D. Sancho Manuel de Vilhena, enviou ao Conselho de Guerra uma lista exaustiva dos efectivos de que dispunha. Através desse rol ficamos a conhecer o detalhe das unidades que serviam então no partido de Penamacor.

PRIMEIRA PLANA DA CORTE [mais do que um Estado Maior, era uma lista que abrangia todos os oficiais que tinham o privilégio de receberem em primeiro lugar a mesada destinada à província, mesmo que o que sobrasse não fosse suficiente para pagar aos restantes oficiais e praças das unidades; incluía oficiais sem unidade, mas com patente e privilégio passado por decreto régio, capitães-mores de algumas localidades do partido (mesmo de zonas afastadas da fronteira de guerra), “oficiais de pena”, ou seja, não combatentes, amanuenses, cirurgiões e outros]:

1 governador das armas; 1 tenente de mestre de campo general; 1 ajudante de tenente de mestre de campo general; 1 vedor geral; 1 pagador geral; 2 oficiais da Vedoria e da Contadoria Geral do exército; 1 guarda-livros da Vedoria e Contadoria Geral do exército; 1 ajudante do pagador geral; o mestre de campo Manuel Lopes Brandão; o capitão-mor da cidade de Coimbra; o capitão-mor da praça de Salvaterra [do Extremo]; 1 auditor geral; 1 administrador; 1 físico-mor [equivalente ao médico dos nossos dias]; 1 cirurgião-mor; 2 almoxarifes das armas e abastecimentos da praça de Penamacor; 1 almoxarife das armas e abastecimentos da praça de Idanha a Nova; 1 almoxarife das armas e abastecimentos da praça de Salvaterra [do Extremo]; 1 almoxarife das armas e abastecimentos da praça de Segura;1 almoxarife das armas e abastecimentos da praça de Rosmaninhal; 1 almoxarife das armas e abastecimentos da praça de Zebreira; 1 almoxarife das armas e abastecimentos da praça de Proença a Velha; 1 almoxarife das armas e abastecimentos da praça de Monsanto; 1 almoxarife das armas e abastecimentos da praça de Penha Garcia; e uma praça morta [pensão por invalidez] que se paga por alvará régio a Francisco Sanchez Bueço. TOTAL: 26 elementos.

INFANTARIA

Terço do mestre de campo João Fialho

Primeira plana do terço: 1 mestre de campo, 1 sargento-mor, 2 ajudantes do número, 2 ajudantes supranumerários, 1 capitão de campanha [oficial de justiça], 1 furriel mor, 1 tambor mor. TOTAL: 9 elementos.

Companhia do mestre de campo: 1 alferes, 1 abandeirado, 1 sargento do número, 1 sargento supranumerário, 2 tambores, 1 capitão reformado, 3 alferes reformados, 1 sargento reformado [estes oficiais e sargentos reformados serviam como praças, recebendo um soldo inferior ao que correspondia à sua patente se estivessem providos nos respectivos postos; logo que vagassem postos numa companhia, poderiam vir a ocupá-los, tornando a receber o soldo correspondente à patente], 4 cabos de esquadra, 74 soldados. TOTAL: 89 elementos.

Companhia do capitão Paulo Craveiro: 1 capitão, 1 pajem, 1 alferes, 1 abandeirado, 1 sargento do número, 1 sargento supranumerário, 2 tambores, 4 cabos de esquadra, 75 soldados. TOTAL: 87 elementos.

Companhia do capitão Simão da Costa Feio: 1 capitão, 1 pajem, 1 alferes, 1 abandeirado, 1 sargento do número, 1 sargento supranumerário, 2 tambores, 4 cabos de esquadra, 46 soldados. TOTAL: 58 elementos.

Companhia do capitão Simão de Oliveira da Gama: 1 capitão, 1 pajem, 1 alferes, 1 abandeirado, 1 sargento do número, 1 sargento supranumerário, 2 tambores, 4 cabos de esquadra, 67 soldados. TOTAL: 79 elementos.

Companhia do capitão Jorge Fagão: 1 capitão, 1 pajem, 1 alferes, 1 abandeirado, 1 sargento do número, 1 sargento supranumerário, 2 tambores, 4 cabos de esquadra, 54 soldados. TOTAL: 66 elementos.

Companhia do capitão Mateus Álvares: 1 capitão, 1 pajem, 1 alferes, 1 abandeirado, 1 sargento do número, 1 sargento supranumerário, 2 tambores, 4 cabos de esquadra, 45 soldados. TOTAL: 57 elementos.

Companhia do capitão Manuel de Brito: 1 capitão, 1 pajem, 1 alferes, 1 abandeirado, 1 sargento do número, 1 sargento supranumerário, 2 tambores, 4 cabos de esquadra, 50 soldados. TOTAL: 62 elementos.

Companhia do capitão Diogo Freire: 1 capitão, 1 pajem, 1 alferes, 1 abandeirado, 1 sargento do número, 1 sargento supranumerário, 2 tambores, 4 cabos de esquadra, 45 soldados. TOTAL: 57 elementos.

Companhia do capitão José de Oliveira: 1 capitão, 1 pajem, 1 alferes, 1 abandeirado, 1 sargento do número, 1 sargento supranumerário, 2 tambores, 4 cabos de esquadra, 46 soldados. TOTAL: 58 elementos.

Companhia do capitão Manuel Correia: 1 capitão, 1 pajem, 1 alferes, 1 abandeirado, 1 sargento do número, 1 sargento supranumerário, 2 tambores, 4 cabos de esquadra, 51 soldados. TOTAL: 63 elementos.

Companhia do capitão Fernão Monteiro: 1 capitão, 1 pajem, 1 alferes, 1 abandeirado, 1 sargento do número, 1 sargento supranumerário, 2 tambores, 4 cabos de esquadra, 44 soldados. TOTAL: 56 elementos.

Companhia do capitão Domingos da Silveira: 1 capitão, 1 pajem, 1 alferes, 1 abandeirado, 1 sargento do número, 1 sargento supranumerário, 2 tambores, 4 cabos de esquadra, 52 soldados. TOTAL: 64 elementos.

Companhia do capitão Simão Feitor: 1 capitão, 1 pajem, 1 alferes, 1 abandeirado, 1 sargento do número, 1 sargento supranumerário, 2 tambores, 4 cabos de esquadra, 70 soldados. TOTAL: 82 elementos.

Efectivo total do terço do mestre de campo João Fialho: 887 homens (111 oficiais, sargentos e outros, fazendo parte da primeira plana do terço e das primeiras planas de cada companhia; 776 cabos de esquadra e soldados), em 13 companhias.

Companhias soltas de auxiliares (assistindo nas diversas praças da fronteira)

Companhia do capitão Manuel de Araújo: 1 capitão, 1 pajem, 1 alferes, 1 abandeirado, 1 sargento do número, 1 sargento supranumerário, 1 tambor, 4 cabos de esquadra, 44 soldados. TOTAL: 55 elementos.

Companhia do capitão António Estaço da Costa: 1 capitão, 1 pajem, 1 alferes, 1 abandeirado, 1 sargento do número, 1 sargento supranumerário, 1 tambor, 4 cabos de esquadra, 55 soldados. TOTAL: 66 elementos.

Companhia do capitão João de Elvas: 1 capitão, 1 pajem, 1 alferes, 1 abandeirado, 1 sargento do número, 1 sargento supranumerário, 1 tambor, 4 cabos de esquadra, 56 soldados. TOTAL: 67 elementos.

Os oficiais e soldados das duas primeiras companhias, apesar de serem de auxiliares, recebiam o mesmo soldo que os seus congéneres do exército pago, o que constituía uma excepção; a companhia do capitão João de Elvas recebia apenas pão de munição por conta da fazenda real, como estava regulamentado para os auxiliares.

Efectivo total das três companhias auxiliares: 188 homens (21 oficiais e outros; 167 cabos de esquadra e soldados).

CAVALARIA

Por não haver na altura comissário geral da cavalaria naquele partido, toda a cavalaria (constituída inteiramente por arcabuzeiros a cavalo) era governada pelo capitão Gaspar de Távora e Brito. Existia, todavia, uma primeira plana da cavalaria.

Cavalaria paga

Primeira plana da cavalaria: 1 ajudante; 1 capelão mor. TOTAL: 2 elementos.

Companhia do capitão Gaspar de Távora e Brito: 1 capitão, 1 pajem, 1 tenente, 1 alferes, 1 furriel, 1 capelão, 2 trombetas, 4 cabos de esquadra, 47 soldados. Total: 59 elementos.

Companhia do capitão Manuel Furtado de Mesquita: 1 capitão, 1 pajem, 1 tenente, 1 alferes, 1 furriel, 1 capelão, 2 trombetas, 4 cabos de esquadra, 66 soldados. Total: 88 elementos.

Companhia que foi do comissário geral, governada pelo tenente João Colmar: 1 tenente, 1 alferes, 1 furriel, 1 capelão, 2 trombetas, 4 cabos de esquadra, 52 soldados. Total: 62 elementos.

Efectivo total das três companhias de cavalaria paga: 200 homens (23 oficiais e outros; 177 cabos de esquadra e soldados).

Cavalaria da ordenança

Companhia do capitão João Cordeiro: 1 capitão, 1 tenente, 1 furriel, 1 capelão, 2 trombetas, 4 cabos de esquadra, 85 soldados. Total: 95 elementos.

Companhia do capitão Henrique Leitão Rodrigues: 1 capitão, 1 tenente, 1 furriel, 1 capelão, 2 trombetas, 4 cabos de esquadra, 41 soldados. Total: 51 elementos.

Estas companhias recebiam apenas pão de munição e o centeio para o animais, por conta da fazenda real.

Efectivo total das duas companhias de cavalaria da ordenança: 146 homens (12 oficiais e outros; 134 cabos de esquadra e soldados).

O partido de Penamacor contava com 31 “Vigias do Largo” (montados, pois vêm referidos na parte correspondente à cavalaria), destinados dar o alerta de quaisquer entradas que o inimigo fizesse, os quais recebiam 160 réis por dia. Os cavalos deviam ser dos próprios e não recebiam qualquer provimento de cevada ou centeio para os animais nem pão de munição, pois nada consta a este respeito na minuciosa lista mandada elaborar por D. Sancho Manuel.

ARTILHARIA

Plana dos oficiais da artilharia: 1 capitão da artilharia, 1 gentil homem da artilharia, 2 condestáveis da artilharia, 10 artilheiros. Total: 14 elementos.

Como nota adicional, acrescente-se que a lista incluía nas despesas os gastos com 40 prisioneiros castelhanos, que recebiam cada mês um total de 1.200 pães de munição de um arrátel cada, as quantias com despesas secretas (destinadas a espionagem) e correios, e com 22 cavalos desmontados (provavelmente em adestramento para servirem nas companhias), os quais recebiam rações de centeio.

Fonte: ANTT, Conselho de Guerra, Consultas, 1648, mao 8-B, “Rellação da Gente de guerra, Infantaria, Caualaria e Artilharia, que assiste nesta Prouincia da Beira em o Partido das tres Comarcas Castelo Branco Viseu e Coimbra de que he Gouernador das Armaz D. Sancho Manuel…”, anexa à consulta de 11 de Dezembro de 1648.

Imagem: “Soldados numa aldeia” (1644), pintura de Joost Cornelisz (1586-1666).

O mestre de campo João Fialho

A propósito do mestre de campo João Fialho, acima referido como comandante do terço pago do partido de Penamacor, o leitor JCPort deixou aqui há algumas semanas comentários interessantes sobre aquele seu antepassado, que passo a reproduzir, agradecendo mais uma vez a sua colaboração:

João Fialho, natural de Alenquer, Vila Verde dos Francos, era Fidalgo da Casa Real por serviços prestados na sua acção durante a Guerra da Restauração, no comando de um terço de infantaria na zona fronteiriça do Alentejo [e principalmente na Beira, como é patente].

Conforme biografia incluída nos Livros de RGM – Ordens, nºs 2,7 e 10, na atribuição de duas Comendas na Ordem de Cristo entre 26-06-1644 e 15-02-1669 (S. Miguel do Outeiro e St.a Maria de Almendra), refere-se, na atribuição da Comenda de Sta. Maria de Almendra, que fora Mestre de Campo e Governador de Armas da Província da Beira no impedimento do proprietário [provavelmente por um breve período, como interino, pois não consta nas listas oficiais].

João Fialho teve um filho natural de nome Luís Fialho, que se destacou, como o pai, na defesa fronteiriça do Alentejo, e uma irmã Mariana, que casou com um João Correia (Felgueiras Gayo, título “Salinas”). Desconhece-se se eram filhos da mesma progenitora.

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O combate dos campos de Moraleja, 23 de Março de 1650

Assistindo D. Sancho em Viseu, vieram os Castelhanos com trezentos cavalos correr a campanha de Penamacor. Saiu desta praça o mestre de campo João Fialho com o seu terço, e o capitão de cavalos Manuel Furtado com sua tropa. Adiantou-se este da infantaria intempestivamente; investiram os Castelhanos, mataram-no logo, e ao ajudante da cavalaria Francisco de Figueiredo. Acudiu João Fialho, retiraram-se os Castelhanos, e foram os dois mortos geralmente sentidos por haverem servido com grande valor e satisfação.

(ERICEIRA, Conde de, História de Portugal Restaurado, edição on-line (facsimile da edição de 1759), Parte I, Livro XI, pg. 338 – citação vertida para português actual)

Este trecho publicado pelo Conde de Ericeira na História de Portugal Restaurado serve de introdução ao combate dos campos de Moraleja, pois que a incursão espanhola que custou a vida aos dois oficiais portugueses provocou uma resposta por parte de D. Sancho Manuel de Vilhena, então governador das armas do partido de Penamacor. O resultado da operação de desforra foi superior ao inicialmente pretendido, uma vez que nos combates entre as duas forças inimigas – tão característico da longa guerra de baixa intensidade travada nas fronteiras – acabou por perder a vida D. Sancho de Monroy, galhardo e experiente militar espanhol, governador das armas do partido de Alcântara. Como sempre, D. Sancho Manuel não perdeu tempo em enviar para o Conselho de Guerra um relatório com a sua versão dos acontecimentos. Esta era uma forma muito usual do futuro Conde de Vila Flor mostrar os seus serviços à Coroa portuguesa, num misto de auto-propaganda e dever de ofício, tendo sempre no horizonte a almejada recompensa pelo zelo demonstrado. Ainda que pouco significativos fossem os combates, se a sorte das armas pendesse para as hostes lusas, aí estava célere D. Sancho Manuel de pena em punho, passando ao papel os momentos de ferro, chumbo e pólvora. Com esta prolixidade, os arquivos respeitantes ao Conselho de Guerra contêm um manancial de informação sobre os combates da fronteira da Beira, em boa parte (mas não na totalidade) aproveitados pelo Conde de Ericeira para compor a sua monumental obra.

A versão dos acontecimentos passados em 22 de Março de 1650, nos campos de Moraleja (distrito de Cáceres), durante os quais perdeu a vida D. Sancho de Monroy, é aqui trazida através da transcrição para português corrente de uma carta de D. Sancho Manuel, datada de 25 de Março e anexa à consulta do Conselho de Guerra de 4 de Abril de 1650 (ANTT, Conselho de Guerra, Consultas, 1650, maço 10):

Relata esta carta a Vossa Majestade o mais feliz sucesso e a maior vitória que as armas de Vossa Majestade alcançaram nesta Província desde sua feliz aclamação a esta parte.

Já avisei a Vossa Majestade como o inimigo na campanha desta praça matou ao capitão de cavalos Manuel Furtado de Mesquita e ao ajudante Francisco de Figueiredo, e como estes dois cabos eram pessoas de opinião e bom procedimento no serviço de Vossa Majestade, foram suas mortes mui sentidas e mais por serem mortos a sangue frio, ficando por minha conta a satisfação deste empenho, que procurei como abaixo digo.

Alcancei, por confissões de algumas línguas, que o inimigo estava com seis tropas de cavalos na sua praça da Moraleja, aguardando que a cavalaria deste partido fizesse alguma entrada por aquela parte, por ser mui cómoda para atalhar todas as entradas na sua campanha. E como me constou esta certeza, tratei de de mandar àquela praça um troço de gente capaz de poder chocar com a que o inimigo se achava, como em efeito mandei em 22 deste [mês],ordenando ao mestre de campo João Fialho que com quinhentos mosqueteiros, que tirei das guarnições das praças, pagos e auxiliares, ocupasse o posto da Venda do Cavalo, sítio que tem grandes conveniências para infantaria, e com duzentos cavalos da mesma qualidade, que constam das três tropas pagas e três da ordenança, ordenei ao capitão Gaspar de Távora e Brito que fosse à campanha da Moraleja, onde as tropas do inimigo alojavam, e que tocando-lhe armas, pegando-se no que se achasse sem fazer demora nem lançar partidas ao largo, se tornasse a retirar onde o mestre de campo o aguardava com a infantaria, e que ali fizesse alto e desse penso [ou seja, a ração] à cavalaria, esperando pelo inimigo que se havia de ver marchar de meia légua de distância [cerca de 2,5 Km]. E assim sucedeu como eu o podia desejar, porque tomando o inimigo a vista da nossa cavalaria, a veio buscando até chegar ao sítio onde a nossa gente o aguardava. Trazia o inimigo seis tropas de cavalos, que constavam de duzentos e trinta [cavaleiros],  governadas pelo capitão Dom Francisco dal Mesquita, e com eles vinha o mestre de campo Dom Sancho Monroy, governador das armas do partido de Alcântara, bem conhecido nos exércitos del-Rei de Castela por sua qualidade e valor. Vindo em direitura buscar a nossa gente, e como a ordem que eu tinha dado ao mestre de campo João Fialho era que se chocasse sem se dar quartel a ninguém, por eles assim o haverem usado com o capitão Manuel Furtado e ajudante, pedindo-lhe as vidas, o dispôs ele assim, mandando formar das nossas seis tropas três batalhões [formações tácticas da cavalaria – note-se que D. Sancho Manuel refere-se a companhias quando refere tropas], e entre eles mangas de infantaria à ordem do sargento-mor António Soares da Costa,  com que se marchou com a cara ao inimigo, e este formado aguardou o choque. Levava a vanguarda, com o primeiro batalhão, o capitão João de Almeida Loureiro, que foi o primeiro que se misturou com o inimigo, e seguindo-o a ele a mais cavalaria com o capitão Gaspar de Távora, que pelejou com grande valor, e o capitão Paulo de Brito da Costa fizeram o mesmo, e depois de apertado o inimigo das nossas armas, havendo pelejado com grande instância por grande espaço, se quis pôr em fugida, mas não lhe valeu, porque se lhe foi dando alcance mais de uma légua, e de toda a sua cavalaria se não viram recolher mais que até vinte e cinco cavalos. Teve o inimigo nesta ocasião uma considerável perda com a morte de todos os seus cabos, a saber: o governador da cavalaria Dom Francisco dal Mesquita, o capitão de cavalos Dom Fernão [Fernando] de Alonso Torobico, o capitão de cavalos João Polão [Juan Montero Polán], o capitão de cavalos Dom Fabião de Cabrera, dois ajudantes da cavalaria, três tenentes, todos mortos naquela investida. Antes de o inimigo voltar as costas morreram mais de cem homens da sua parte, e para lustre de tão grande vitória morreu também o mestre de campo Dom Sancho Monroy, governador das armas do partido de Alcântara, pessoa da maior experiência e talento que tinha o inimigo, tomado-se-lhe muitos cavalos de que têm aparecido sessenta, que ficam nas cavalarias de Vossa Majestade (…). E para que Vossa Majestade saiba que este sucesso foi obrado mais por promissão divina que por braço de soldados, se não perdeu da nossa gente mais que dois mortos, valendo-lhe [aos restantes] irem armados de peito, espaldar e murrião, e nove feridos com um alferes; morreram no alcance nove cavalos nossos (…). Penamacor, 25 de Março de 1650.

Imagem: “Cena de Batalha”, por Philips Wouwerman (1619-1668).