THE LAST IRONSIDES – The English Expedition to Portugal 1662-1668

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Um livro recente, da autoria do Tenente-Coronel Jonathon Riley (Helion & Company, Solihull, 2014), é dedicado à presença inglesa em Portugal durante a derradeira fase da Guerra da Restauração. Recomendo vivamente a todos os que se interessam por esta temática, em particular pelo trabalho de investigação assente em fontes primárias. Há um ou outro capítulo que me merecem algumas reservas, em especial os que abordam as batalhas do Ameixial e de Montes Claros, onde a interpretação do autor no que toca ao dispositivo e desdobramento no terreno não me parece ser a mais correcta. Todavia, não é suficiente para deslustrar uma obra que, no seu todo, é muitíssimo interessante e merece destaque.
Desconheço se The Last Ironsides se encontra à venda em Portugal. O meu exemplar foi comprado através da Naval & Military Press, embora também esteja disponível na Amazon.

Há 350 anos… Notas sobre a campanha do Alentejo de 1663 – o cerco de Évora, 20 e 21 de Junho

16490911droghedaA 20 de Junho começaram a disparar as baterias e a avançar os aproches. Faziam os quartos por 3 repartições e em 3 terços cada quarto. Coube o 1º pelo quartel da Corte a Sebastião Correia de Lorvela, Lourenço de Sousa e Miguel Barbosa; o 2º aos mestres de campo D. Diogo de Faro, Fernão Mascarenhas e Febo Moniz de Sampaio; o 3º aos mestres de campo Martim Correia de Sá, Roque da Costa Barreto (ambos fazendo um esquadrão), Jacques Alexandre de Tolon, Manuel de Sousa de Castro e José Gomes da Silva (que faziam outro). No quartel de Pedro Jacques se fizeram os mesmos quartos, tocou o 1º aos terços dos mestres de campo Bernardo de Miranda, Manuel Ferreira Rebelo e Simão de Sousa de Vasconcelos; o 2º a Tristão da Cunha, Manuel Teles (Conde de Vilar Maior) e ao coronel James Apsley; e o 3º ao terço de Francisco da Silva de Moura, ao regimento do tenente-coronel Thomas Hunt e ao terço de Francisco de Barros de Almeida.

A 21, ao amanhecer, ambos os quartéis tinham avançado bastante. O da Corte sofria bastante com esta glória, porque fazia este caminho por entre duas fortificações guarnecidas: o forte de Santo António e o baluarte de S. Bartolomeu. Na cabeça da trincheira, que se tinha fabricado aquela noite, havia já D. Luís de Meneses mandado fazer a plataforma da sua artilharia num reduto, em sítio mais próximo à muralha e onde o dano era maior.

O Conde de Vila Flor não consentiu que se trabucasse a praça, que como este género de instrumentos se inventaram para ruína das cidades e assombro dos moradores, a cidade era nossa para a não destruírmos, e os moradores assombrados andavam com o tirano presídio. (Cunha, pág. 62)

Neste dia 21 de Junho, estando de guarda os primeiros terços, fez o inimigo uma sortida. A infantaria susteve a sortida e a cavalaria carregou o inimigo, sob o comando do tenente-general D. Luís da Costa (mas na qual ia sem posto o tenente-general D. Manuel de Ataíde, por dúvidas que tiveram na precedência do comando). Com o exemplo de ambos chegaram os soldados até à barbacã, e deste recontro trouxeram duas milagrosas balas os tenentes-generais, que passando-lhes as poucas armas que levavam, pararam onde as não havia, se seus peitos não são mais impenetrável aço. Na mesma manhã se tomaram dois correios, um que vinha de Badajoz à praça com cartas do Duque de S. German para o Conde de Sartirana, e outro com cartas do dito Conde para o Duque. (Cunha, pág. 62)

Na noite de 21 de Junho determinaram assaltar os portugueses o forte de Santo António. O assalto foi feito por 200 infantes ingleses do regimento de Apsley, com o seu major John Belasyze, e com os capitães Nathaniel Hill, John Smith e Charles Langley; e 200 portugueses, com o sargento-mor Luís de Azambuja, dos terços dos mestres de campo Sebastião Correia de Lorvela e Lourenço de Sousa de Meneses, com os capitães Luís Álvares Pereira de Lacerda, Domingos de Carrião, Manuel Beirão e João Freire Coelho. Uma hora depois da meia-noite, ao sinal de duas peças que se dispararam na primeira investida, assenhorearam-se do forte, matando e prendendo os 400 soldados que o defendiam. Libertaram Manuel Corte Real, Presidente da Inquisição daquela cidade, que o governador da praça tinha mandado prender.

Ao estrondo que se fez durante o assalto ao forte saiu a cavalaria da praça, mas encontrou a resistência de 8 batalhões comandados por D. Manuel de Ataíde, que saiu a cobrir a infantaria. O inimigo recolheu à praça.

O ataque e contra-ataque foi narrado por D. Jerónimo Mascarenhas em pormenor. Assim, foram os ingleses cumprir as ordens recebidas muito a seu gosto e puderam constatar que todos os defensores do forte dormiam, até as sentinelas. A este aviso se preparou o assalto, dando a vanguarda a umas mangas da mesma nação inglesa, com ordem de abrir o caminho e ocupar, por segunda operação, o convento de Santo António como o mais preciso da empresa, pois com ele se impediria aos de dentro a retirada (…). Acercaram-se sem ruído, às doze [horas], ao flanco que tinham reconhecido, e penetrando o fosso e a estacada com o mesmo sossego, subiram ao parapeito (…). Então, rompendo o silêncio com bárbaros gritos e repetidas salvas, foram seguidos dos portugueses, que logo acudiram por todas as partes com a mesma facilidade. Assim ficou a gente espanhola, parte morta antes que desperta, e a demais, passando do sono ao terror e à confusão, fugiu sem armas até à cidade, sem se deter até à praça maior, onde (…) chegaram oficiais, e entre eles capitães, sem suas espadas, que as tinham largado para consegui-lo com mais ligeireza. O inimigo, vendo-os desaparecer tão depressa, teve lugar de alternar os mosquetes com os piques e estacas que sacava do fosso do forte para fortificar-se lá dentro. e quedando o convento em seu poder, lhe faltou pouco que fazer para esperar em boa forma aos que quisessem contestar a sua conquista. O governador encontrava-se no baluarte de São Bartolomeu como no posto mais ameaçado, à primeira notícia que teve da desdita mandou sair imediatamente o batalhão de guarda da porta de Avis com 150 alemães a pé, a quem assistiam em pessoa o coronel Barão de Carondelet e o Barão de Prancq seu tenente-coronel, juntando-se-lhes uma manga de italianos (…) com o capitão Pra, todos sacados do posto de São Bartolomeu, onde trabalhavam no contra-aproche (…). Era a ordem que levavam de passar ao convento, onde se supunha haver-se acolhido parte dos defensores com o sargento-mor, que não aparecia entre os da fuga, e prosseguir em limpar o forte dos inimigos, enquanto (…) se lhes enviava reforço de cavalaria com o comissário geral dela, e outro número da melhor infantaria. Porém a velocidade do sucesso e a disposição ajustada com que o inimigo soube aproveitar-se dele, atalhou o efeito a todas estas diligências. Chegaram os da saída até às ruínas do convento do Carmo, que os cobriam, e vendo a alguma distância atrás infantaria dobrada, que não se movia nem disparava, enviaram batedores a perguntar “quem vive?”, ao qual responderam “viva Espanha!”, convidando-os com esta astúcia a aproximarem-se. Avançaram com efeito até ao princípio da trincheira e quase até aos piques, onde toparam com uma salva tão pronta e numerosa de mosquetaços, que foi milagre não estropiar-se a maior parte. Perdemos então o capitão de cavalos D. Juan de Zurita e outros muitos feridos, com o que pareceu preciso retirar-se a gente a seus primieros postos. (Mascarenhas, fls. 50 v-52)

Naquele mesmo dia 21, o capitão Manuel Rosado, do terço do mestre de campo Sebastião Correia de Lorvela, assenhoreou-se do posto do Carmo. E pelo aproche que ia à porta de Avis, na mesma noite se aproximou do baluarte de S. Bartolomeu, com 150 mosqueteiros, o sargento-mor Manuel da Silva de Orta, do terço do mestre de campo Fernando Mascarenhas, e nele persistiu toda a noite, contra a resistência da praça.

Imagem: Infantaria inglesa em acção, 1649 (ilustração moderna, referente ao cerco de Drogheda, Irlanda).

Infantaria do Exército da Província do Alentejo em Maio de 1663

Um dia depois de D. Juan de Áustria ter saído de Badajoz com o seu exército, abrindo a campanha do Alentejo de 1663, era remetida ao Conselho de Guerra em Lisboa a lista da infantaria de que dispunha o exército daquela província. Quase 13.000 homens repartidos por oito praças, efectivos cuja junção levaria vários dias a concretizar-se, impedindo assim que fosse barrada a marcha ao exército espanhol que rumava à conquista de Évora.

As praças e as unidades nelas estacionadas eram as seguintes:

Estremoz

Terço da Armada, do mestre de campo Simão de Vasconcelos e Sousa (irmão do 3º Conde de Castelo Melhor, o Escrivão da Puridade e valido do rei D. Afonso VI) – 825 homens, dos quais 87 de baixa por doença.

Terço do mestre de campo napolitano D. Pedro Opecinga476 homens, dos quais 52 de baixa por doença.

– Terço do mestre de campo Tristão da Cunha de Mendonça287 homens, dos quais 9 de baixa por doença.

– Terço do mestre de campo Roque da Costa Barreto418 homens, dos quais 40 de baixa por doença.

– Terço do mestre de campo Lourenço de Sousa508 homens.

– Terço pago de Trás-os-Montes310 homens.

– Terço pago do Algarve457 homens (faltavam ainda 3 companhias, que eram esperadas em Estremoz).

– Terço de Auxiliares de Santarém310 homens.

– Terço de Auxiliares de Vila Viçosa212 homens.

– Regimento de Ingleses do tenente-coronel Thomas Hunt694 homens, dos quais 45 de baixa por doença.

– Regimento de Ingleses do coronel James Apsley495 homens.

Companhias soltas de Italianos263 homens, dos quais 26 de baixa por doença.

Vila Viçosa

– Terço do mestre de campo D. Diogo de Faro279 homens.

– Terço do mestre de campo João Furtado de Mendonça543 homens.

Elvas

– Terço do mestre de campo Francisco da Silva de Moura734 homens.

– Terço do mestre de campo Fernando de Mascarenhas 550 homens.

Campo Maior

– Terço do mestre de campo Pedro César de Meneses462 homens.

– Terço do mestre de campo francês Jacques Alexandre de Tolon360 homens.

– Terço pago de Cascais532 homens.

– Terço de Auxiliares de Avis350 homens.

Portalegre

– Terço do mestre de campo Alexandre de Moura630 homens, dos quais 130 de baixa por doença.

– Terço de Auxiliares de Portalegre 400 homens.

(Na altura da elaboração da lista, tinha chegado a Portalegre o terço pago da Beira, cujo efectivo ainda não fora contabilizado.)

Mourão

– Terço do mestre de campo Martim Correia de Sá350 homens.

– Terço do mestre de campo Miguel Barbosa da Franca501 homens.

– Terço de Auxiliares de Évora541 homens.

Moura

– Terço de Auxiliares de Campo de Ourique600 homens.

– Terço de Auxiliares de Beja350 homens.

Castelo de Vide

– Terço de Auxiliares do Priorado do Crato320 homens.

A distribuição dos militares por praças era a seguinte:

Estremoz – 5.469 (dos quais 1.259 doentes).

Vila Viçosa – 822.

Elvas – 1.284.

Campo Maior – 1.704.

Portalegre – 1.030 (dos quais 130 doentes).

Mourão – 1.392.

Moura – 950.

Castelo de Vide – 320.

Fonte: ANTT, Conselho de Guerra, Consultas, 1663, maço 23, “Lista da infantaria que se acha nas praças desta prouincia de Alentejo em 7 de Maio 663”.

Imagem: Mapa da Província do Alentejo, c. de 1700. Biblioteca Nacional.

Música militar do período da Guerra da Restauração – Scotch March

Não será de todo improvável que esta marcha militar tenha sido ouvida em Portugal, tocada pelos tambores e pífaros dos regimentos de infantaria ingleses chegados em 1662. De facto, apesar de se chamar Scotch March, esta marcha que data do século XVI era popular no exército inglês. Além disso, recorde-se que os militares dos regimentos ingleses de infantaria enviados por Carlos II estiveram estacionados durante anos na Escócia, antes de embarcarem para Portugal. Samuel Pepys, Primeiro Secretário do Almirantado Britânico, ouviu a Scotch March ser tocada em Rochester, em 1667, pelos tambores do regimento de Lord George Douglas, que desfilava pelas ruas daquela cidade. Anotou este facto no seu diário – no qual, de resto, também faz algumas referências à guerra e à presença dos soldados ingleses em Portugal, bem como às notícias do seu desempenho em combate, como por exemplo na batalha do Ameixial (de cujo resultado Pepys só veio a ter conhecimento precisamente um mês depois do ocorrido).

Tenha ou não soado em Portugal, aqui fica a Scotch March.

Regimentos ingleses ao serviço da Coroa portuguesa (1662-1668)

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Na sequência do Tratado de Aliança celebrado entre Portugal e Inglaterra em Junho de 1661, ficou acordado que a Coroa inglesa enviaria para Portugal dois regimentos de cavalaria e dois regimentos de infantaria. Os primeiros teriam um efectivo de 500 homens cada e os segundos contariam, cada um, com 1.000 infantes. Uma força de 3.000 militares profissionais, assim se esperava.

Os efectivos totais enviados para Portugal ficaram abaixo do esperado. A cavalaria contou apenas com um regimento composto, inicialmente, por 8 companhias, num total de 400 homens. Uma força bastante heterogénea, com militares provenientes do antigo exército da Commonwealth de Oliver Cromwell e outros que se tinham batido no campo oposto – os Realistas – durante a Guerra Civil Inglesa, incluindo irlandeses. Aliás, o primeiro comandante do regimento foi um irlandês, o coronel Michael Dongan, que até 1661 tinha servido como mestre de campo no exército de Filipe IV. Já os dois regimentos de infantaria embarcaram para Portugal com um efectivo total de 2.200 homens, todos eles voluntários e antigos militares do exército de Cromwell. Após a restauração da monarquia em Inglaterra, Carlos II desmobilizou a maior parte das unidades criadas por Oliver Cromwell, mas algumas mantiveram-se ao serviço da monarquia. Era o caso de três regimentos que tinham a sua guarnição na Escócia, a partir dos quais se formaram os dois que viajaram para Portugal em 1662. A infantaria veio equipada com uniformes de cor vermelha (casaca, colete e calça), provavelmente com vivos nos canhões das mangas de cor diferente para cada regimento, como era usual na época. O vermelho tornara-se cor predominante (embora não a única utilizada) nos uniformes ingleses desde a criação do New Model Army em 1645. Em suma, o efectivo inicial do contingente inglês era de 2.600 militares (2.200 infantes e 400 cavaleiros).

A deserção e o atrito das campanhas fez oscilar grandemente os números ao longo dos anos da guerra, sempre com a tendência para a diminuição, pois as reposições das perdas foram escassas. Por exemplo, na batalha do Ameixial, em Junho de 1663, o contingente inglês compunha-se de 1.600 infantes, em dois regimentos, e 300 cavaleiros, num regimento a 6 companhias. Nos finais de 1666, o regimento de cavalaria mantinha cerca de 300 soldados nas fileiras (graças a um reforço de irlandeses), mas os dois regimentos de infantaria não conseguiam, em conjunto, alinhar mais do que 700 soldados. O contingente tinha então  pouco mais da terça parte do efectivo inicial.

Os ingleses bateram-se com brio e coragem em muitas ocasiões, sendo a sua experiência militar muitísismo importante para os sucessos alcançados na batalha do Ameixial (1663), tomada de Valência de Alcântara (1664) e batalha de Montes Claros (1665).

Para mais detalhes, consulte-se O Combatente durante a Guerra da Restauração… e A Cavalaria na Guerra da Restauração…, onde este tema é devidamente aprofundado, bem como as histórias pessoais de alguns oficiais. Aqui ficam os comandantes das unidades:

Comando do contingente: Murrough O’ Brien, Conde de Inchinquin (Julho-Novembro 1662); Christopher O’ Brien (Novembro 1662-Janeiro 1663); Conde de Schomberg (1663-1668).

1º Regimento de infantaria: Coronel James Apsley. A partir de 1665, o regimento passou para o comando pessoal do Conde de Schomberg, mas o comando efectivo foi delegado no tenente-coronel William Sheldon. Este oficial liderou o regimento na batalha de Montes Claros, em 1665, tendo morrido aí em combate.

2º Regimento de infantaria: Coronel Henry Pearson; o regimento foi comandado pelo tenente-coronel Thomas Hunt na batalha do Ameixial. Thomas Hunt morreu em 1664, no ataque a Valência de Alcântara, passando o regimento a ser comandado pelo major John Rumpsey. Foi este oficial que conduziu o regimento em 1665, na batalha de Montes Claros, pois Pearson continuava ausente em Inglaterra.

Regimento de cavalaria: Murrough O’ Brien, Conde de Inchinquin (Julho-Novembro 1662); Conde de Schomberg (comandante honorário. 1662-1668). O comando efectivo do regimento foi desempenhado pelo tenente coronel Michael Dongan, até à sua morte na batalha do Ameixial. Depois,  foi entregue ao major Lawrence Dempsey, e quando este morreu em 1664, coube ao Marquês de Schomberg, o filho mais velho do Conde, chefiar a unidade até ao final da guerra.

Bibliografia:

CHILDS, John – “The British Brigade in Portugal, 1661-1668”, in Journal of the Society for Army Historical Research, vol. LIII, 1975, pp. 135-147.

Id. – The Army of Charles II, London, Routledge & Kegan Paul, 1976. (O apêndice sobre o contingente inglês, no final do volume, contém erros a respeito das unidades em que os oficiais serviram)

HARDACRE, P. H. – “The English Contingent in Portugal, 1662-1668”, in Journal of the Society for Army Historical Research, vol. XXXVIII, 1960, pp. 112-125.

Imagem: Piqueiros ingleses do período da Guerra Civil. É pouco provável que em Portugal tenham usado peitos e espaldares – embora alguns oficiais os utilizassem: numa ocasião, foram as boas armas de corpo usadas por James Apsley que o salvaram de receber danos de armas de fogo. Também as casacas seriam de um modelo diferente, mais compridas, de acordo com a moda da década de 60. Foto de J. P. Freitas – Kelmarsh Hall, “History Day” 2007.

Um escocês ao serviço de D. João IV – o mestre de campo David Caley (1ª parte)

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Desfeita a Monarquia Hispânica, o conflito entre os reinos vizinhos ibéricos atraiu muitos mercenários estrangeiros, dispostos a oferecer os seus serviços a qualquer dos exércitos. No caso de Portugal, eram muito apetecidos, no início da guerra, os militares que pela sua experiência e capacidade pudessem ocupar postos na cavalaria, onde se notava mais a falta de capitães e oficiais superiores com efectiva experiência de comando em cenário de guerra. Já na infantaria o caso não era tão premente, pois havia muitos oficiais com anos passados na guerra contra os holandeses no Brasil, ou contra os inimigos de Filipe IV (III de Portugal) na Flandres. O caso do escocês David Caley é uma dessas excepções, em que um estrangeiro acabou por comandar terços de infantaria portuguesa.

O mercenário David Caley chegou ao Reino em meados de 1641, acompanhado de um outro oficial, o inglês Christopher Potley. Ambos tinham uma longa carreira, tendo servido durante 30 anos nos exércitos dos reis da Suécia e da Dinamarca. Potley atingira o posto de coronel, enquanto Caley, que fizera o mesmo percurso, chegara a tenente-coronel. Em Portugal, propuseram a D. João IV constituir cada um o seu regimento de infantaria, recebendo em troca a patente de coronel e a respectiva paga, que era, em regra, o dobro da que usufruía um mestre de campo português. No caso destes súbditos do rei Carlos I de Inglaterra, o soldo atribuído foi bem mais generoso: 64.000 réis por mês (um mestre de campo português recebia 23.200 réis).

Não foi possível formar os regimentos conforme pretendiam os oficiais, que no entanto receberam as patentes de coronel. Em Agosto de 1641, David Caley e Christopher Potley acompanharam o governador das armas Martim Afonso de Melo na jornada para Elvas, quando o futuro Conde de São Lourenço assumiu pela primeira vez o governo das armas do Alentejo. Deviam servir a título individual e esperar que vagasse um posto de comando num dos terços portugueses do exército da província. Em 28 de Outubro de 1641, Caley e Potley estiveram presentes no assalto e saque de Valverde, na primeira operação ofensiva do exército português desencadeada na província da Extremadura espanhola. Uma operação confusa, dirigida pelo mestre de campo D. João da Costa (futuro Conde de Soure), na qual perdeu a vida o comissário geral Francisco Rebelo de Almada, que comandava operacionalmente a cavalaria então existente no Alentejo. O exército português sofreu muitas baixas nessa ocasião, tendo David Caley ficado ferido nos combates.

No início de 1642, Caley e Potley estavam de regresso a Lisboa. Como muitos outros oficiais estrangeiros ao serviço da Coroa portuguesa, abandonaram os seus postos na fronteira, exasperados com a falta de cumprimento no pagamento dos soldos. Regressaram ao Alentejo em Abril, após receberem o soldo de dois meses (entre os vários que estavam em atraso) e a promessa de que não veriam os pagamentos diminuídos. Corriam então rumores que os contratos com os estrangeiros iriam ser revistos, baixando-lhes as exageradas pagas, as quais eram incomportáveis para as finanças da Coroa; de facto, tal medida veio a ser tomada nos primeiros meses de 1643.

Talvez por isso Christopher Potley tenha decidido regressar a Inglaterra entre Abril e Junho de 1643 (viria a participar na Guerra Civil Inglesa, nas forças fiéis ao Parlamento). Entretanto, em 14 de Abril de 1643, recebera nova patente, a de mestre de campo, e o comando de um dos dois novos terços da ordenança de Lisboa que iriam ser formados e enviados para o Alentejo. Nunca chegou a assumir o posto, pelo que a unidade foi “herdada” por David Caley, que também recebera patente de mestre de campo. Foi à frente desse terço a 10 companhias que Caley fez a campanha de Setembro de 1643, no Alentejo e na Extremadura espanhola. O sargento-mor era um francês, João de Canton (o nome próprio era quase sempre aportuguesado nos documentos), o ajudante era Francisco Vaz Aranha, e os comandantes das companhias os seguintes: Roland Baix (alferes que comandava a companhia do mestre de campo – todos os outros a seguir referidos eram capitães), Lourenço Lousado, D. Vasco Coutinho, Álvaro de Carvalho, Francisco Barreto, Aires de Figueiredo, Manuel da Veiga, António Fernandes de Lima, Guilherme De Brum e Fernando Yanses. Note-se a seguinte curiosidade: as grandes unidades da ordenança de Lisboa eram tradicionalmente designadas por regimentos e não por terços, e os seus comandantes eram coronéis e não mestres de campo; todavia, os dois terços temporários que se formaram propositadamente para a campanha de 1643 não partilharam dessa tradição.

No decurso da campanha de 1643, Caley regressou a Valverde, onde tinha sido ferido cerca de dois anos antes. Desta feita, a localidade caiu nas mãos dos portugueses, bem como Villanueva del Fresno, rebaptizada Vila Nova de Portugal. Foi aqui que o terço de David Caley se manteve em guarnição durante algum tempo. Finda a campanha, a unidade foi dissolvida, e o mestre de campo escocês passou os meses seguintes alojado no castelo de S. Jorge.

(continua – fontes e bibliografia serão referidas no final da série).

Imagem: Piqueiros exercitando-se sob as ordens de um capitão. Reconstituição histórica do período da Guerra Civil Inglesa, em Old Sarum. Foto de Jorge P. Freitas.