O outro Jacques Talonneau de la Popelinière, oficial francês de cavalaria ao serviço de Portugal (1646-1658)

Aelber

O primeiro Jacques Talonneau de la Popelinière foi um oficial francês que chegou a Portugal em Setembro de 1641, na armada do Marquês de Brézé, fazendo parte do regimento de cavalaria ligeira do coronel Sebastian de Mahé de la Souche. É indubitável a chegada de Popelinière nesta data, pois o seu nome é referido em diversos documentos, alguns dos quais relações dos oficiais franceses e respectivos regimentos. Quando Mahé de la Souche deixou Portugal em Maio de 1642 e o seu regimento foi dissolvido, Jacques de la Popelinière seguiu com a sua companhia para a Beira, onde logo foi nomeado comissário geral (Conde de Ericeira, História de Portugal Restaurado, vol. I, pg. 387, edição de 1945). Em 1644, aquele oficial é dado como morto em combate – e é assim que o reporto no meu estudo O Combatente durante a Guerra da Restauração, ainda que referindo que o seu último posto foi o de tenente-general da cavalaria na província de Trás-os-Montes.

Na verdade, documentos que posteriormente consultei sugerem ter havido um outro Jacques Talonneau de la Popelinière (casos de homónimos eram raros, mas não impossíveis: houve o exemplo, também entre cavaleiros franceses ao serviço de Portugal na mesma época, dos primos Henri de la Morlaye, um morto em Outubro de 1642, outro em Maio de 1649, ambos em combate). Este Popelinière é que ocupou, como último posto, o de tenente-general da província de Trás-os-Montes. Chegou a Portugal em 1646, portanto já após a morte do primeiro, e também combateu nos mesmos teatros de operações antes de ser promovido a comissário geral na província de Trás-os-Montes, em Janeiro de 1658.

A necessidade de nomeação de um comissário geral da cavalaria para Trás-os-Montes deveu-se ao facto do posto estar vago, por promoção de Domingos da Ponte, o Galego, a tenente-general naquela mesma província. Na consulta do Conselho de Guerra onde são feitas as propostas de sujeitos para o posto vago pode ler-se a respeito do até então capitão Jacques Talonneau de la Popelinière (texto vertido para português corrente):

Jacques Talonneau de la Popelinière, pessoa de qualidade, de nação francês, que serve a Vossa Majestade há quase doze anos, ocupando os postos, depois de soldado, de alferes, tenente, e de capitão de cavalos, que serve em Trás-os-Montes há seis anos, um mês, e quinze dias, e o mais tempo parte dele na Beira, e outro nas fronteiras de Alentejo, achando-se nelas na maior parte das ocasiões que naquele tempo se ofereceram, e particularmente no encontro que houve em vinte seis de Março de seiscentos quarenta e sete, com vinte quatro tropas na passagem de Cantilhana, na escaramuça que depois se teve com outras tropas de Badajoz, ficando prisioneiro entre elas, e tornando de Castela em sua liberdade, se achou na emboscada que se fez junto a Badajoz em Setembro de quarenta e nove; no encontro que houve com sete tropas em Albufeira, indo mais de uma légua no seguimento delas; e se achou na peleja que a nossa cavalaria teve com a que saiu de Montijo, na correria da campanha de Xerês. E sair de Olivença a pelejar com o inimigo, que se veio emboscar junto da muralha da mesma praça, em Maio de seiscentos e cinquenta, desmontando um castelhano lhe deu uma cutilada no rosto. Na oposição que em treze de Fevereiro de seiscentos cinquenta e um se fez ao inimigo vindo com grosso de sua cavalaria a correr a campanha de Olivença, saiu ferido num braço com bala de pistola. E o mesmo ano se achou na entrada de Salvaterra, e o mesmo ano passou a Trás-os-Montes, onde por ordem do Conde de Atouguia, que governava as armas, por não haver cabo, governou a cavalaria que assistia em Chaves, achando-se nas duas entradas que se fizeram em Castela, e na ausência do capitão-mor da cidade de Miranda a ficou governando, acudindo com grande zelo às fortificações dela, e ultimamente se assinalou, matando e ferindo e rendendo a muitos do inimigo. E na entrada que em dois de Maio de seiscentos cinquenta e cinco se fez, pelas terras de Trás-os-Montes com quatrocentos e quarenta cavalos, tendo-se-lhe encarregado investisse o inimigo, como fez com valor indo em seu seguimento, e da mesma maneira obrar nas ocasiões referidas. Depois delas, acompanhou o mestre de campo António Jacques de Paiva, e achando-se em Miranda, nas entradas que fez em Galiza onze léguas pela terra dentro, saqueando-lhe mais de  setenta lugares, e as Vilas de Pino, Távora e Carvalhosa. E pretendendo o inimigo desquitar-se, vindo com quinhentos infantes pagos e outros tantos milicianos, e cento e quarenta cavalos, achando-se o mestre de campo na campanha com duzentos e três infantes e oitenta cavalos à ordem de Jacques Talonneau, investiu o inimigo com tal resolução, que matando-lhe muita gente e aprisionando-lhe duzentos trinta e sete soldados, com vinte e oito cavalos, e ganhando-lhe as munições e bagagem, e finalmente restaurando a presa que levava se recolheram, assinalando-se este capitão com particular valor, pelejando à espada, rendendo, ferindo e matando muitos castelhanos. Em outra ocasião, por ordem do tenente-general Luís de Figueiredo Bandeira, saiu com a sua companhia, e outra mais, governando-as, por haver o inimigo dado rebate à praça de Bragança, e encontrado-se com ele, pelejou com tal resolução que o pôs em fugida, trazendo ainda alguns prisioneiros do inimigo. Foi de socorro com sua companhia e a mais cavalaria de Trás-os-Montes à fronteira do Minho na ocasião que o inimigo a entrou com exército, e em todo o tempo que ali assistiram, se houve com grande valor nas pelejas, emboscadas e encontros que se teve com o inimigo, em que recebeu muito grande perda de gente morta, ferida, prisioneiros, e de cavalos que se lhe tomaram. Acabada a campanha, tornou para Trás-os-Montes. E vindo a esta Corte a tratar de seu requerimento, escreveu a favor deste capitão Joane Mendes de Vasconcelos, governando as armas naquela província, a Vossa Majestade que lhe devia Vossa Majestade de mandar deferir, assim por seu grande valor, como por ser o capitão mais antigo dela. E havendo Vossa Majestade despachado por seus serviços com o hábito de Santiago, foi servido se lhe mudasse ao de Cristo, com uma comenda de lote de duzentos mil réis.

O outro nome proposto foi o de Manuel da Costa Pessoa, que servia há treze anos, dois meses e vinte dias, tendo começado a servir em Setúbal em Setembro de 1640, na companhia de infantaria do Duque de Aveiro que devia ir à Catalunha; serviu 5 anos no Alentejo como soldado de infantaria e da cavalaria, foi cabo de esquadra e furriel e depois alferes de infantaria; participou na campanha de 1643 e nas duas campanhas de Montijo (como soldado de cavalos). Passou a Trás-os-Montes como alferes reformado, assim permanecendo 5 meses e 17 dias, mas depois, 3 anos e 27 dias de ajudante e como capitão de cavalos 4 anos, 7 meses e 11 dias.

O capitão francês acabou por ser provido no posto de comissário geral por decreto de 21 de Janeiro de 1658.

Fonte: ANTT, Conselho de Guerra, Consultas, 1658, mç. 18, consulta de 9 de Janeiro de 1658.

Imagem: Aelbert Cuyp, “Descanso no acampamento”, c. 1660, Musée des Beaux Arts, Rennes.

Regimentos franceses de 1641 ao serviço da Coroa portuguesa (cavalaria e infantaria – organização teórica)

franceses-1640s

Regimentos constituídos em Setembro de 1641, a partir do contingente enviado pelo Cardeal Richelieu. Organização teórica, nunca cumprida no terreno. A maioria dos regimentos de cavalaria só conseguiu alinhar duas companhias, inicialmente com 25-30 efectivos cada, quando era suposto terem quatro companhias de 40 a 50 efectivos cada uma, a do coronel incluída. Nunca combateram como unidades autónomas, e várias companhias actuaram como as portuguesas, isto é, independentes ou integradas em troços (agrupamentos) temporários, sob as ordens de um coronel estrangeiro ou um comissário geral português. Uma curiosidade: de acordo com as listas de equipamento apresentado nas mostras, a cavalaria francesa em Portugal nunca utilizou protecções metálicas (peito, espaldar e murrião), limitando-se a usar um colete de couro para protecção do tronco e chapéu de aba larga para a cabeça.

Os regimentos de infantaria nunca se formaram por falta de oficiais e soldados franceses em número suficiente. Os coronéis e restantes oficiais das companhias foram comandar ou integrar terços mistos de portugueses e estrangeiros.

Para mais detalhes, consulte-se O Combatente durante a Guerra da Restauração… e A Cavalaria na Guerra da Restauração…, onde este assunto é devidamente aprofundado, bem como as histórias pessoais de alguns oficiais.

Cavalaria (apesar das diferentes designações, os elementos da cavalaria ligeira e os carabineiros estavam equipados de maneira idêntica, correspondendo aos chevaux légers franceses: carabina e um par de pistolas; o regimento de dragões nunca se constituiu como tal, apesar de, em 1644, uma das duas companhias comandadas então pelo Marquês de Gravelines ser nominalmente de dragões, mas sem um único arcabuz entre os 20 elementos que a constituíam – presume-se que combatesse unicamente com espada, como a restante cavalaria)

Regimento de cavalaria ligeira de du Boucquoy. Coronel: Jean du Boucquoy de La Motte; capitães: Arnaud Bruneau de La Chabatière, Bernabé Brisson de La Touche, Théodore de Murasson.

Regimento de cavalaria ligeira de Montjouant. Coronel: Claude de Montjouant, Barão de Cornau; capitães: Jacques de Grille de Roubiac, Jean Danse d’Erbauvillins, Stéphane Paschier de Brussy.

Regimento de cavalaria ligeira de Gravelines. Coronel: Jean Pierre de la Roque, Marquês de Gravelines; capitães: Achim Avaux de Tamericurt, Jean Heitor de Nier, Stéphane Boule de Rosières (m. 1653).

Regimento de cavalaria ligeira de Chantereine. Coronel: François de Huybert de Chantereine; capitães: Louis de Chivray du Plessis, Henri de Belys de Billon, Michel du Bocage (a partir de Dezembro de 1641).

Regimento de cavalaria ligeira de Mahé. Coronel: Sebastian de Mahé de La Souche; capitães: Adrien de Mahé du Plessis, Pierre Guerineau de La Tortinière, Jacques Talonneau de La Popelinière.

Regimento de carabineiros de Boisemont. Coronel: Esme de Pillavoine de Boisemont; capitães: Jean Baptiste Lambert de Gransan, Urbain de Boissey de Chandonville, Nicolas Verniere de Lousières.

Regimento de dragões de Mazeros. Coronel: Pierre de Berfriert de Mazeros; capitães: Jean Chevallier de La Blanchardière, Jean de La Valée de Beaulieu, Henri de La Morlaye, o Maltês (m. 1642).

Nota: com os militares franceses chegou também a Portugal um capitão genovês, Francisco Fiesco, Conde de Lavagna, que comandou uma companhia de cavalos. Embora não estivesse originalmente integrada em nenhum regimento, a sua companhia é sempre incluída na cavalaria francesa nos documentos da época, pois os oficiais e soldados eram franceses. Francisco Fiesco foi capturado pelos espanhóis na batalha de Montijo, tendo passado alguns anos no cárcere.

Infantaria (os regimentos nunca tomaram forma)

Regimento de infantaria de Viole d’Athis. Coronel: Eustache Pierre Viole d’Athis (m. 1643); capitães: François Bouchel de Mirville, Stephan Damar de La Molière, Charles Yvelin de Roquemont.

Regimento de infantaria de Orelio (ou O’Reilly, irlandês). Coronel: Hugo Orelio (ou O’Reilly, irlandês); capitães: Carlos Orelio (ou O’Reilly, irlandês), Nicolas de La Rocca, Volant de Roufiat.

Regimento de infantaria de MacSuey (escocês). Coronel: Maurice MacSuey (escocês); capitães: Henri Marast de Loges, Louis de La Motte de La Prelle, Guillaume Giroult de La Vardin

Regimento de infantaria de Tirel (italiano). Coronel: Gualtiero Tirel (italiano); capitães: Rodrigo Chiogo (italiano – em 1644 deixou o exército e tornou-se frade), John Dungan (irlandês).

Imagem: Soldados franceses – um cavaleiro e um infante mosqueteiro da década de 1640. Gravura extraída da obra de Philip Haythornthwayte The English Civil War 1642-1651. An Illustrated Military History, London, Brockhampton Press,1994.

Postos do exército português (14) – o tenente-general da cavalaria

Para tenentes-generais da cavalaria se hão-de nomear dos comissários gerais da cavalaria de melhor aprovação, e também se poderão eleger de capitães de couraças, cuja qualidade, serviços e partes obriguem a serem escolhidos [ou seja, os distingam para a promoção] para exercitarem o dito posto; são os que ajudam e hão-de dar todas as ordens que o comissário geral da cavalaria e mais oficias houverem de receber (…).

Era esta a disposição do título 15 do projecto de Ordenanças Militares de 1643. O comentário de Joane Mendes de Vasconcelos acrescentava que também deviam os tenentes-generais da cavalaria provir da infantaria, promovendo-se mestres de campo àquele posto. Seria conveniente, acrescentava, porque muitas vezes iam os tenentes-generais em operações com forças mistas de cavalaria e infantaria, e era necessário que saibam de uma e outra cousa, para mandar com acerto.

Este posto tinha a particularidade de poder ser também um cargo. Isto é, podia ser desempenhado por um oficial com outra patente, como coronel (estrangeiro) ou comissário geral. No entanto, não foram muito frequentes estes casos. Em cada exército provincial começou por haver um tenente-general da cavalaria – mas não antes de 1643, nem sequer no Alentejo, cujo exército era o maior de todos. Com o decorrer do conflito, o aumento dos efectivos da cavalaria impôs o consequente aumento do número de oficiais com aquela patente. Idealmente, o topo da estrutura hierárquica na cavalaria devia compreender um general, dois tenentes-generais e quatro comissários gerais, embora em certos casos um tenente-general pudesse bastar para assegurar o comando da cavalaria de um exército provincial pouco numeroso, podendo ser então designado como governador da cavalaria.

Nos primeiros anos da Guerra da Restauração, alguns oficiais estrangeiros obtiveram a patente de tenente-general. Na Beira, o francês Jacques Talonneau de La Popelinière morreria em combate em Março de 1644, já com aquele posto (chegara a Portugal havia dois anos e meio com a patente de capitão de cavalos). O holandês Jan Willem van Til foi tenente-general no Alentejo em 1645, embora sem grande destaque. Já o francês Achim Avaux de Tamericurt foi um do mais brilhantes naquele posto, que desempenhou no Alentejo e na Beira. Também se destacou, no Alentejo, o italiano (de Roma) João Vannicelli. Entre os portugueses, merecem destaque grandes comandantes da cavalaria como D. João de Mascarenhas (mais tarde, Conde de Sabugal), Dinis de Melo de Castro, D. João da Silva, entre vários que ocuparam aquele posto.

Bibliografia: AIRES, Cristóvão, Historia Organica e Politica do Exercito Português – Provas, vol. IV, Lisboa, Imprensa Nacional, 1908, pg. 61.

Imagem: Capa da edição impressa de 1707 da obra Maneio da Cavallaria escrito pello Conde Galeaço Gualdo Priorato Com annotaçoens de Dom João Mascarenhas Conde do Sabugal do Conselho de Guerra d’ElRei Dom Affonço 6º. D. João de Mascarenhas foi tenente-general e general da cavalaria do Alentejo na segunda metade da década de 1640.