Manuel Freire de Andrade – um pequeno apontamento sobre a sua carreira

Manuel Freire de Andrade foi um oficial que se distinguiu durante a Guerra da Restauração na cavalaria, tendo chegado ao posto de general da cavalaria da Beira, no desempenho do qual viria a ser mortalmente ferido na batalha de Ameixial, em 1663.

A sua ascensão aos postos mais elevados do exército iniciou-se em 1653, quando foi proposto por D. Rodrigo de Castro, então governador do partido de Riba Coa, para comissário geral da cavalaria, posto que se encontrava vago por promoção de João de Melo Feio a mestre de campo.

É dessa proposta, enviada ao Conselho de Guerra, que consta uma abreviada resenha da carreira militar de Manuel Freire de Andrade, na qual se refere que o então capitão de cavalos sempre servira na cavalaria (no Alentejo e na Beira), entrando nas campanhas de 1643, 1645 e 1646, com sua pessoa e 2 criados à sua custa; e que havia 4 anos e meio que servia na da Beira, sendo um deles de soldado com 2 cavalos, e 3 anos e meio como capitão de uma companhia, tendo servido com distinção no assalto e queima da vila de Sabugo, Villa Vieja e Bugajo, na ocasião em que o Marquês de Távora veio à praça de Almeida com 3.000 infantes e 800 cavalos, no assalto ao forte e vila de Ródão, na escalada dos arrabaldes da cidade de Coria, queima da vila de Martingo e em outras ocasiões, tendo também servido na Armada que foi desimpedir a barra de Lisboa dos navios do Parlamento inglês (1650).

A sua nomeação, no entanto, demorou alguns meses a ser efectivada. Só em 14 de Fevereiro de 1654 o Rei confirma, por decreto o novo posto de Manuel Freire de Andrade, e em 23 do mesmo mês é escrita uma carta régia a D. Rodrigo de Castro, dando conta da referida nomeação.

Fontes: ANTT, Conselho de Guerra, Consultas, 1653, mç. 13, consulta de 17 de Julho de 1653; e Secretaria de Guerra, Livro 17º, fls. 125-125 v.

Imagem: vista de Almeida, praça forte onde residia o governador do partido de Riba Coa (ou de Almeida), D. Rodrigo de Castro. Foto de JPF.

Uma incursão em território inimigo – 1661, Outubro, 26

As incursões ou entradas em território inimigo, quer fossem executadas pelo exército português, quer pelo espanhol, foram uma característica marcante da Guerra da Restauração. Os anos iniciais do conflito alimentaram muitas publicações de teor propagandístico que difundiam os feitos de armas dos portugueses, ampliando muitas vezes os resultados práticos das acções. São uma preciosidade para a análise do quadro mental do período e não menos valiosos como documentos no que concerne à História Militar.

As Relações e outros escritos panegíricos são dados à estampa com menos frequência a partir da segunda metade da década de 40. Só na etapa final da guerra, com a publicação periódica (mensal) do Mercúrio Português, da responsabilidade de António de Sousa de Macedo, voltam a espalhar-se com alguma regularidade os ecos dos feitos portugueses. Todavia, os relatórios enviados pelos comandantes operacionais para o Conselho de Guerra dão conta de acções que, em muitos casos, permaneceram desconhecidas do grande público. O fito principal centrava-se habitualmente na pilhagem de gado e haveres das populações raianas, mas também podiam ser concebidas para desgastar o dispositivo inimigo na fronteira e adestrar as próprias forças militares na arte da guerra. Deixo aqui a descrição de uma dessas operações.

Em 26 de Outubro de 1661 o governador das armas da província de Trás-os-Montes, D. Rodrigo de Castro, Conde de Mesquitela, e João de Melo Feio, governador das armas do partido (distrito militar, em termos modernos) de Penamacor, província da Beira, encontraram-se no Sabugal. No princípio do mês tinham recebido uma carta da Rainha regente, ordenando que unissem parte das suas forças e fizessem uma entrada no reino inimigo. Deviam dirigir-se às vilas de Campo e Pozuelo, onde estavam alojadas companhias de cavalaria da Catalunha, e atacá-las a fim de destruir ou capturar aquelas unidades militares. Se isso não fosse conseguido, pelo menos deveriam saquear as localidades, distribuindo o produto da pilhagem pelos soldados, e ao menos tentar levar o inimigo a pelejar.

Os dois cabos de guerra partiram com a força militar combinada nesse mesmo dia 26 de Outubro, desejosos de fazer coisa de utilidade e reputação para as armas reais. Marcharam com tempo seco e sereno, atravessando o rio Côa na passagem de Dois Rios. O efectivo total era de 2.500 infantes e 760 cavaleiros, distribuído pelas seguintes unidades:

– Dois terços pagos (dos mestres de campo Diogo Gomes de Figueiredo (filho) e Bartolomeu de Azevedo Coutinho).

– Três terços de auxiliares (da comarca da Guarda, sob o comando do mestre de campo Cristóvão de Sá de Mendonça; da comarca de Viseu, do mestre de campo João Castanheira de Moura; e da comarca de Castelo Branco, a cargo do sargento-mor Manuel Fernandes Laranjo).

Terço de volantes da Guarda, comandado pelo mestre de campo Francisco Banha de Sequeira.

Dezasseis companhias de cavalaria, sob o comando do governador da cavalaria, o francês Achim de Tamericurt (um veterano da Guerra da Restauração, já com 20 anos de serviço em Portugal), com o tenente-general João da Silva de Sousa como segundo-comandante (as companhias de ambos eram comandadas pelos respectivos tenentes, Pedro Palho e Manuel Francisco). As restantes companhias eram as dos comissários gerais D. Martinho de Ribeira e D. António Maldonado, e as dos capitães Vasco Gomes de Melo, Baltasar de Melo de Sá, António Mendes de Abreu, Paulo de Noronha, António Estácio da Costa, Manuel de Sousa de Refóios, Manuel Nabais, Paulo Homem Teles, André Tavares de Mendonça, Manuel Martins, António Veloso e Luís da Cunha.

Já em território hostil, as condições climatéricas alteraram-se. As chuvas e o facto da força ter sido detectada pelo inimigo impediram que se obrasse algo mais do que o saque de algumas aldeias. Os guias recomendavam a retirada, para evitar o risco de não se poder atravessar de novo o Côa. O Conde de Mesquitela escreveu a este respeito que

“Aquela noite de 28 alojámos junto a Villas Buenas que, pela havermos entrado e queimado há muitos anos, e nos pedirem misericórdia regalando-nos com os mimos da terra, nos não quisémos ocupar em empreendê-la.”

A 29 começaram a avistar o inimigo que marchava na retaguarda do exército, e constava de cavalaria da Catalunha e da Borgonha (28 companhias organizadas em 14 batalhões – formações tácticas), e um terço de alemães governado por um sargento-mor, com 600 soldados. Entraram os portugueses na vila de Rezalles

“(…) donde também nos renderam a vassalagem, dando-nos dos seus refrescos, e suposto que houve soldados cobiçosos que desejaram que a mandássemos assaltar, como o inimigo vinha na nossa retaguarda nos pareceu que não convinha desfazer a forma em que marchávamos.”

A meia légua de Rezalles dispôs-se o inimigo a combater. Os batedores começaram a disparar e travou-se uma escaramuça, conseguindo os portugueses rechaçar sempre os oponentes. Prosseguiu então a marcha até se encontrar uma zona de campo aberto, onde tornou o inimigo a dar outra investida e com esta se resolveu dar batalha.

O terço de alemães ocupou um posto fortíssimo no sopé de uma elevação rochosa, de onde causava grande dano nas forças portuguesas, flanqueando a infantaria e a cavalaria. Com a cavalaria inimiga bem formada, começaram as escaramuças. Os comandantes portugueses decidiram que seria conveniente desalojar primeiro a infantaria inimiga da posição que ocupava e reforçar a cavalaria com mangas de mosqueteiros, um dispositivo táctico muito comum. O terço do mestre de campo Bartolomeu de Azevedo foi mandado investir por uma parte do monte rochoso, e pelo outro lado evoluiu o terço governado pelo sargento-mor Laranjo e um outro terço. Os alemães já entretanto tinham sido reforçados por muitos civis dos lugares da Serra da Gata que se lhes foram juntando.

No dizer do Conde de Mesquitela, os terços portugueses obraram maravilhas, “porque recebendo as cargas de mosquetaria dos inimigos sem lhe tirarem tiro [ou seja, sem ripostarem] os investiram, subindo pelo rochedo com tão extraordinário valor que a picaços [à força de pique] e a cutiladas mataram os mais deles, fazendo-lhe largar o posto, e as armas, com as vidas.”

Também os destacamentos de mosqueteiros que se constituíram a partir do terço do mestre de campo Diogo Gomes de Figueiredo para reforçar a cavalaria “obraram maravilhas”. Eram comandados pelos capitães João de Sampaio, António Rodrigues Pereira, Paulo Correa, e pelo alferes do mestre de campo, Manuel Homem Corte Real.

O governador da cavalaria Achim de Tamericurt combatia na vanguarda com os comissários gerais, ficando a reserva da cavalaria a cargo do tenente-general João da Silva de Sousa.

Finalmente os alemães começaram a ceder no combate corpo-a-corpo com a infantaria portuguesa. A restante força inimiga, vendo a formação da sua infantaria perder coesão e começar a desfazer-se, virou costas. Foi então que se lançou em sua perseguição a cavalaria portuguesa, reserva incluída, até perto de Rezalles.

Foram tomados 200 cavalos ao inimigo, tendo sido aprisionados 9 capitães (dos quais morreram três, de ferimentos, em pouco tempo), 2 ajudantes e 1 tenente comandante da companhia da guarda do Duque de Osuna, bem como grande número de soldados, com a captura de mais de 300 armas. Dos portugueses só houve 3 mortos e 10 ou 12 feridos, entre os quais o ajudante de cavalaria Pedro Fernandes Magro.

Todos os militares obraram com valor, pedindo o Conde de Mesquitela que a Rainha mandasse agradecer aos oficiais por carta de sua real mão, em especial ao governador da cavalaria Achim de Tamericurt.

Fonte: carta do Conde de Mesquitela, escrita em Penamacor em 31 de Outubro de 1661 e anexa à consulta do Conselho de Guerra de 7 de Novembro do mesmo ano. Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Conselho de Guerra, Consultas, 1661, maço 21-A, caixa 79.

Imagem: Infantaria em marcha. Reconstituição histórica do período da Guerra Civil Inglesa, Kellmarsh Hall, 2007. Foto do autor.