Comarca de Santarém (e parte das comarcas de Tomar, Leiria, Setúbal e Évora), cerca de 1640

A propósito do pequeno artigo sobre a recondução de soldados pagos às fronteiras de guerra, aqui fica um mapa atribuído a João Teixeira Albernaz, mostrando a correição (zona de acção do corregedor, magistrado administrativo e judicial representante do Rei na respectiva comarca) de Santarém e parte das comarcas de Tomar, Leiria, Setúbal, Évora e Alenquer. São visíveis algumas localidades mencionadas no referido artigo, como Tancos, Punhete, Abrantes e Torres Novas.

Imagem: Biblioteca Nacional, Iconografia, D96R.

Relação do saque e queima da vila de Membrio em 28 de Abril de 1644 (1ª parte)

A relação que hoje aqui trago não consta do rol de narrativas propagandísticas impressas, nomeadamente do levantamento coordenado por Martinho da Fonseca em 1927 (Elementos bibliográficos para a história das guerras chamadas da Restauração 1640-1668, separata de Arquivo de História e Bibliografia, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1927). Dela existe uma cópia manuscrita no Arquivo Histórico Militar, feita provavelmente nos finais do século XIX. Não sendo muito diferente de outras narrativas apologéticas, esta tem um interesse acrescido pela informação detalhada acerca dos procedimentos tácticos numa incursão mista de cavalaria e infantaria (na versão de dragões improvisados).

A acção ocorreu depois da primeira incursão do governador das armas do Alentejo, Matias de Albuquerque (futuro Conde de Alegrete), à vila de Montijo, cerca de um mês antes da segunda incursão que culminaria na célebre batalha campal. Eis a relação dessa entrada, nas passagens mais significativas e numa escrita actualizada.

Depois de vir o senhor Matias de Albuquerque da jornada de Montijo em 20 de Abril passado, começou a dispor outra, para a qual elegeu por cabo a Diogo Gomes de Figueiredo, tenente de mestre de campo general deste exército [do Alentejo], que com 800 mosqueteiros montados de dois em dois, em quatrocentas bestas de albarda, e duzentos cavalos a empreendeu com particular disposição pela maneira seguinte.

Dos terços que aqui se acham nesta praça de Elvas escolheu oito companhias de infantaria, a 90 mosqueteiros e a dez piques cada uma, e foram os capitães Domingos Carneiro, Inácio Pereira de Aragão e Fulgêncio de Matos, do terço do mestre de campo João de Saldanha, e do terço de Luís da Silva os capitães João de [A]Morim, André de Araújo, Francisco Fernandes o Canastreiro [o mesmo que iria participar na defesa da ponte de Olivença, dois anos mais tarde] e Fernão de Mesquita, e do terço do Conde do Prado o capitão Cristóvão Pantoja; levou consigo para a distribuição das ordens o capitão Bernardim de Sequeira, ajudante de tenente [de mestre de campo general] e os ajudantes Francisco Manuel e António da Costa, aquele do terço de João de Saldanha, e este do terço de Luís da Silva, e todos estes oficiais levaram soldados de muito valor (…). A cargo de um gentil-homem de artilharia [posto de oficial artilheiro] iam doze artilheiros com cem granadas, cem fechos, seis escadas, quatro cargas de pólvora, quatro de corda e quatro de balas sortidas; acompanhou ao tenente [de mestre de campo] general o cirurgião-mor do terço da Armada, e o capelão-mor do terço de João de Saldanha, o padre Frei Simão de Lima, que para isso se lhe ofereceu, como também o fez o capitão reformado Amador Rodolfo.

Partiu desta cidade segunda-feira pela manhã, que se contavam 25 do passado [Abril] (…), e pelo caminho de Barbacena e de Assumar se foi dormir a Portalegre, que são oito léguas [c. de 40 km] desta cidade, e ao outro dia a Castelo de Vide, donde pelo ruim caminho chegou às três horas da tarde, ali deu umas ordens que levava do governador das armas ao mestre de campo Dom Nuno Mascarenhas [morreria na batalha de Montijo, um mês depois], que assiste naquela cidade com o seu terço, e outro ao capitão de cavalos João de Saldanha da Gama, que por mais antigo governava as companhias de cavalo que ali se achavam, como eram a de António de Saldanha, a de Fernando Pereira de Castro, e as Holandesas de Vagenheim, e outra de dragões da mesma nação, com mais uma companhia de cavalos da ordenança de Portalegre.

Achou aqui o tenente [de mestre de campo] general Diogo Gomes de Figueiredo segunda ordem do Senhor Matias [de Albuquerque] para que com o mestre de campo Dom Nuno e os capitães de cavalos, assentassem a parte aonde ele havia de ir fazer a facção, porquanto aquela para que o tenente [de mestre de campo] general trazia as primeiras ordens se havia alterado com segunda informação de Dom Nuno, (…) porque a primeira ordem era uma praça distante de Castelo de Vide 12 léguas [c. de 60 km], e os soldados não levavam mantimentos para gastar tantos dias, e assim se resolveu que a empresa fosse à vila de Membrio, 7 léguas [c. de 35 km] distante daquela praça.

Era esta vila de mais de 100 vizinhos [c. de 450 habitantes] e com fama de rica pelo trato que tinha das lãs, situada em um lhano, e quase toda de casas terreiras, estava cercada de trincheiras de terra e barro, e as mais das bocas das ruas com suas costaduras da mesma; tem no meio uma igreja com sua torre quadrada, alta e coroada de ameias, donde se descortinavam as mais das ruas, ou por suas bocas, ou por cima dos telhados das casas, por serem baixas, defronte da porta da igreja todo o terreno, adro à maneira de meia lua, com uma parede de altura de dois homens, e vinte pés afastada do adro outra parede a modo de barbacã, que testavam nas esquinas das ruas que iam para a igreja, pelo lado esquerdo dela havia um cercado, onde estava algum gado, e pela direita outro cercado a modo de cemitério, que tornejava a sacristia, tudo com suas torneiras, donde se disparava.

Está montado o cenário. Será continuada a narrativa na próxima entrada.

Nota: os tenentes de mestre de campo general eram considerados oficiais colaterais, que hoje diríamos de Estado-Maior, destinados a distribuir as ordens emanadas do mestre de campo general pelas unidades. Não deveriam comandar contingentes de tropas, excepto em circunstâncias muito extraordinárias. O prestígio de Diogo Gomes de Figueiredo e Bobadilha (pai – o seu filho homónimo também se celebrizou durante a guerra) foi motivo para uma dessas excepções.

Imagens: em cima, Membrio (grafado como Membrilho, forma que aparece por vezes na narrativa transcrita) no mapa de João Teixeira Albernaz, c. de 1650. Biblioteca Nacional, Iconografia, CC254A; em baixo, Membrio na actualidade. Reprodução de imagem obtida a partir do programa Google Earth.

Palcos de operações (3) – A raia de Alcántara a Montijo

Aproveitando uma sugestão do senhor Juan Antonio, visitante deste blogue que se dedica à investigação das acções levadas a cabo na Beira Baixa, na fronteira com o partido de Alcántara, alguns dos próximos artigos serão dedicados àquela região. Para já, deixo aqui um pedaço da carta da fronteira de guerra elaborada por João Teixeira Albernaz (c. de 1650), representando a parte mais a sul de Alcántara, entre esta localidade e Montijo (o norte fica situado para o lado esquerdo do mapa). Note-se a ilustração da batalha de Montijo, à direita da gravura. 

Biblioteca Nacional, Iconografia, CC254A.

Bandeiras, estandartes, guiões – exército português (2)

As bandeiras, os estandartes e os guiões eram habitualmente confeccionados em diversos tipos de seda, como por exemplo damasco, tafetá, ruão, etc. Existem referências quanto às dimensões dos estandartes da cavalaria, que teriam uma vara de lado (ou seja, 1,1m). As bandeiras e guiões eram maiores, embora não tenha encontrado referências precisas às dimensões.

guião real (por vezes designado por estandarte real) tinha numa das faces as armas do Reino (sobre o lado, como no guião de capitão general já aqui apresentado – o qual poderá ser, porventura, um guião real); e na outra, desde 1646, a representação de Nossa Senhora da Conceição. Quanto à cor do fundo, presume-se que fosse branco, havendo até a sugestão de uma hipotética orla azul, mas aqui, tal como nos outros casos da vexilografia restauracionista, as certezas são poucas. De concreto, sabe-se que  só fazia a a sua aparição quando um exército saía em campanha. Quando cumpria à companhia do general da cavalaria transportá-lo, era ao alferes da dita companhia que cabia a honra, o qual ia metido no meio da fileira intermédia da formação (Manuscrito de Matheus Roiz, transcrição dactilografada do Arquivo Histórico Militar, pg. 116).

As fontes iconográficas do período mostram, com muita frequência, as bandeiras da infantaria e os estandartes da cavalaria ostentando a Cruz de Cristo. Tratava-se de um elemento identificativo das forças portuguesas, tal como a Cruz de Borgonha o era para o exército espanhol. Há um ou outro pormenor dissonante desta aparente ubiquidade – por exemplo, a bandeira que surge no quadro de Dirk Stoop referente ao cortejo no Terreiro do Paço, já aqui tratado noutra entrada.

Havendo uma bandeira ou estandarte por companhia (note-se que os terços de infantaria não tinham bandeiras identificativas da unidade como um todo, apenas as das suas companhias), é provável que houvesse variantes nas cores e até no símbolo de cada uma. Gastão de Melo de Matos (ver bibliografia) duvidava da uniformidade do verde como cor de campo das bandeiras e estandartes, conforme fora sugerido no estudo do padre Ernesto Sales. O eclesiástico tomara como fonte iconográfica segura a este respeito o biombo do Visconde de Fonte Arcada (Pedro Jacques de Magalhães, general durante a Guerra da Restauração), hoje patente no Museu Nacional de Arte Antiga. Mas Gastão de Melo de Matos argumentava que as bandeiras talvez tivessem cores diferentes, fundamentando-se em fontes literárias muito diversas, como obras de tratadistas militares anteriores à Restauração (Luís Mendes de Vasconcelos, 1612; João Brito de Lemos, 1631), ou poemas laudatórios do período da guerra (Epinício lusitano à memorável victoria de Montes Claros, de João Pereira da Silva; Phaenix da Lusitania, de Manuel Tomás). Do Epinício… respiga:

“Mil vezes dezasseis Lusos armados/(…)/Em terços vinte e nove moderados/(…)/Volteando tafetás de várias cores/Dão lisonjas ao vento, enveja às flores” (estrofe 68).

Já da Phaenix da Lusitania cita o seguinte: “Animan ondeandose, as bandeiras/Os terços com as cores variadas” (Livro X, estrofe 48).

Há outras fontes que sugerem o uso da Cruz de Cristo em campo branco. De resto, não será difícil admitir a predominância do verde e do branco como fundo para bandeiras e estandartes, pois estas eram então as cores da Casa de Bragança (foram mudadas em 1707 para azul e vermelho).

Imagens: Em cima, alferes volteando bandeira com cruz verde em fundo branco (pormenor de um quadro atribuído a Dirk Stoop, Museu da Cidade de Lisboa); em baixo, pormenor de estandartes de cavalaria, ilustração de Pedro de Santa Colomba (1662) relativa à batalha das Linhas de Elvas; bandeira ou estandarte, ilustração do mapa de João Teixeira Albernaz, c. 1650 (Biblioteca Nacional, Iconografia, respectivamente E1090V e CC254A). Nestes dois últimos documentos está presente a Cruz de Cristo, o que não acontece no primeiro.