O combate de Alcaraviça (2 de Novembro de 1645) e o quadro do Marquês de Leganés – 1.ª parte

Um dos primeiros artigos publicados neste blog, no já distante ano de 2008, foi acerca da destruição da ponte de Nossa Senhora da Ajuda, ou ponte de Olivença, pelas forças espanholas comandadas pelo Marquês de Leganés, numa operação decorrida em Setembro de 1645. Mais tarde, a 2 de Novembro desse mesmo ano, uma incursão sob o comando do mesmo Marquês desbaratou um terço da Ordenança de Évora – um verdadeiro desastre para as forças portuguesas – no que ficou conhecido como o combate das Vendas de Alcaraviça (na actual localidade de Orada, próximo de Borba, e não na moderna Alcaraviça). Em 2009, um muito interessante artigo amavelmente enviado pelo Sr. Santos Manoel foi aqui publicado em duas partes, tendo eu feito um breve acrescentoposteriormente. E em 2010, o estimado amigo Julián García Blanco voltou ao assunto, num artigo também aqui publicado.

Recentemente, tive a grata surpresa de ser contactado pelo Sr. José Maria Villanova-Rattazi Guillén, descendente do Marquês de Leganés, que tem em sua posse um quadro a óleo mandado pintar por aquele seu distinto antepassado, de forma a perpetuar o combate de 2 de Novembro de 1645, no qual as suas forças obtiveram uma retumbante vitória.

Com a devida autorização do Sr. José Maria Villanova-Rattazi Guillén, aqui publico uma das fotos que gentilmente me enviou. Num próximo artigo, dando continuidade ao que aqui se apresenta, voltaremos ao quadro – uma raridade no que toca à iconografia bélica da Guerra da Restauração –  e aos interessantes pormenores que retrata.

 

 

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Há 350 anos… Notas sobre a campanha do Alentejo de 1663 – 26 e 27 de Maio

The-Sacking-of-a-Village-largeNo dia 26 de Maio, na sua tenda de campanha, o Conde de Vila Flor escrevia ao Rei D. Afonso VI:

Por carta de vinte e quatro do corrente é Vossa Majestade servido de me ordenar que com o exército de Vossa Majestade tome tal posto junto do inimigo, que com toda a certeza lhe impidamos [impeçamos] os comboios e a retirada, e oferece-me responder a Vossa Majestade sobre este particular, que assim como Vossa Majestade mo ordena acho que convém, acrescento que também é muito conveniente segurar do mesmo posto Vila Viçosa e Estremoz, e que o sítio seja tal que a inclemência do tempo não ocasione fugirem os soldados, e assim me é preciso para conservar o exército arrimar-me [aproximar-me] às praças, tendo sobre o inimigo de dia e de noite partidas de cavalaria para que de todos os seus movimentos me dêem conta, e juntamente as tenho sobre Olivença, que é a praça de donde lhe hão-de vir os seus comboios (se os mandar vir), para que com aviso de uma ou outra parte eu possa pôr-me diante a impedir-lhe uma ou outra coisa, e assim hoje elegerei com parecer de todos os cabos a parte mais conveniente, assim para estorvar os socorros do inimigo e a sua retirada, como para cobrir as praças e assegurar o melhor possível que os soldados não fujam. E perto do inimigo não será possível fazer a eleição do tal sítio, porque seria deixar as praças expostas a que o inimigo pudesse qualquer dela uma noite, levando co  a metade da sua cavalaria três mil infantes à garupa sem disso ter notícia, e seria dar ocasião a fugirem os soldados com os ter ao terreiro do sol, e poderia o inimigo sitiar-me tirando-me os comboios de mantimentos, sem ser obrigado a pelejar comigo, se o não quisesse fazer, porque, ou eu havia de fazer os comboios com todo o exército, ou eles mos romperiam com a sua muita cavalaria. E assim, Senhor, que o que convém é cobrir as praças e conservar os soldados e estorvar os socorros ao inimigo, e levantando-se de Évora pelejar com ele, e tudo isto se procurará fazer do posto que se eleger, para o que deve Vossa Majestade ser servido mandar logo engrossar este exército, com que se supra a falta de cavalaria e infantaria que se perdeu em Évora, pois é infalível que estorvando ao inimigo os comboios, haja de se pôr em marcha (…).

D. Sancho Manuel justificava a sua prudência na condução do exército (e aparente falta de espírito ofensivo) com a necessidade de obter reforços, em particular de cavalaria, em que o exército de D. Juan de Áustria tinha superioridade. Todavia, a estratégia seguida estava correcta, como em breve se veria.

Em 27 de Maio chegaram a Évora as obediências de Arraiolos, Redondo e Viana do Alentejo. Primeiro que estas localidades, veio a de Montemor-o-Novo, o que não obstou a que tivesse sido saqueada. Conforme narrou D. Jerónimo de Mascarenhas, o clérigo que se manteve fiel a Filipe IV de Espanha, na sua obra De la Guerra de Portugal, Sucessos del año MDCLXIII  (aqui vertido para português a partir da versão manuscrita do Arquivo Histórico Provincial de Badajoz, cuja cópia me foi gentilmente enviada pelo amigo Julián García Blanco, a quem aproveito para agradecer mais uma vez):

Por Montemor, vila considerável, e de território igualmente abundante e ameno, se começou a executar esta resolução, facilitando-a a sua distância de apenas quatro léguas de Évora. Havia assistido no seu castelo, durante o sítio daquela cidade, a companhia da dotação da mesma vila, que ocasionou nos moradores o descuido de enviar a tempo os seus deputados ao senhor Don Juan. Porém, depois de rendida Évora, teve a companhia ordem de passar a juntar-se com o exército português, deixando a sua pátria [no sentido de localidade] ao arbítrio de quem era dono da campanha. Marcharam 1.500 cavalos e algumas mangas de infantaria para dar-lhe a paga da sua necessidade, quando os vizinhos, avisados do seu movimento, despacharam pessoas com poderes e instruções para implorar o perdão. Mas apesar de que se vieram de caminho com o comissário geral Dom Miguel Ramona, comandante daquelas tropas, não puderam evitar a perda do seu gado, que consistia em mais de 4.000 cabeças (…). Aproveitou-se a Provedoria da maior parte do gado, que se passou durante alguns dias a dar ração de carne aos trabalhadores das fortificações (…).

Fontes: ANTT, Conselho de Guerra, 1663, Consultas, maço 23; AHPB,  D. Jerónimo de Mascarenhas, De la Guerra de Portugal, Sucessos del año MDCLXIII.

Imagem: “O saque de uma cidade”, óleo de Philips Wouwerman, in http://www.wouwerman.org

Praças de guerra na fronteira luso-espanhola – Revista “O Pelourinho” nº 16 (2012)

Campo Maior

Do estimado amigo Jesús Corrales, a quem muito agradeço, acabo de receber o exemplar da revista O Pelourinho, Boletín de Realaciones Transfronterizas, (Diputación de Badajoz, nº 16, 2ª época, 2012). Pelo elevado interesse dos diversos artigos, entre os quais se inclui um da autoria de Julián García Blanco acerca do forte de San Cristóbal (conhecido como forte de São Cristóvão entre os portugueses), aqui fica a ligação para a versão PDF da revista.

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Imagem: Planta de Campo Maior, da autoria de Nicolau de Langres (Desenhos e Plantas de todas as praças do Reyno de Portugal pelo Tenente General Nicolao de Langres Francez, que servio na guerra da Acclamação. BNL, cod. 7445)

Em torno das noções de fidelidade e de identidade no contexto da Guerra da Restauração

nrdlingenterciotorralto

No momento em que se aproxima mais um final de ano, começo por agradecer aos amigos Juan Antonio Caro del Corral e Julián García Blanco, que tão generosos têm sido na oferta de preciosa documentação para os meus trabalhos em geral e para a continuidade deste blog em particular. Um grande bem haja a ambos! Agradecimentos que estendo a todos quantos têm colaborado, directa ou indirectamente, para a continuação deste espaço, através de comentários e sugestões.

Uma das últimas ofertas que me chegou por via de Julián García Blanco foi um artigo de Antonio José Rodriguez Hernández, intitulado Nación, Fidelidad y Frontera durante la Guerra de Restauración de Portugal (1640-1668), comunicação apresentada às XII Jornadas de Historia en Llerena (sob o tema geral: “España, Nación y Constitución y otros estudios sobre Extremadura”).

Trata-se de um artigo com muito interesse, debruçando-se sobre as mudanças de campo de portugueses e espanhóis durante a Guerra da Restauração e as suas motivações. Todavia, gostaria de enumerar alguns pontos em relação aos quais não estou em sintonia com as conclusões do autor. Em primeiro lugar, a generalização algo arriscada de que foram em maior número as deserções portuguesas para o campo oposto do que as espanholas. Não contesto esta opinião por qualquer preconceito de índole nacionalista, mas muito simplesmente porque não há dados quantitativos sólidos que permitam tecer uma conclusão tão peremptória como aquela. Seria necessário compilar, de uma maneira minuciosa, e comparar posteriormente toda a documentação referente a episódios de deserção para o campo inimigo. Tarefa que, não sendo impossível de concretizar, não é de maneira nenhuma fácil, tendo em conta a falta de dados quantitativos objectivos acerca deste fenómeno. É diferente ter uma intuição de base empírica, de fundamentar uma conclusão assente em dados concretos.

Em segundo lugar, coloco algumas reservas em relação à terminologia utilizada, nomeadamente quanto  de forma ao conceito de ideologia. Tendo em conta a estrutura mental e conceptual da época, aquilo que hoje em dia podemos considerar como ideologia era praticamente monopolizado, no século XVII, pelas concepções religiosas – com destaque óbvio para a divisão entre as várias crenças monoteístas (cristianismo, islamismo, judaísmo), e de forma mais aguda, no período em causa e na Europa ocidental em particular, no que respeita às diversas maneiras de exprimir a religião cristã, com o confronto aberto desde o século XVI entre o catolicismo e as Igrejas reformistas. Curiosamente, era este um dos aspectos que mais aproximava os campos em confronto (portugueses e espanhóis), em contraposição a alguns dos seus aliados, nomeadamente os holandeses e ingleses (e alguns franceses) que vieram para Portugal ajudar a combater os exércitos de Filipe IV.

Por fim, há que ter em conta que não era só a nação de origem – para utilizar um termo em uso na época – ou a religião que contavam como elementos polarizadores da noção identitária. O sentimento de fidelização a um soberano e os interesses pessoais e particulares (que, embora de forma muito diferente, tinham expressão em todas as categorias sociais) eram muito importantes. Será aí que devemos procurar, em primeiro lugar, a explicação para a manutenção de fidelidades de portugueses ao soberano espanhol e vice-versa, por ocasião do rompimento da monarquia dual. A guerra que se seguiu quebrou equilíbrios e vivências de décadas, particularmente sentidas nas fronteiras agora de novo demarcadas e em ebulição. E se em alguns casos se manteve a cooperação entre as populações (por vezes, em oposição às próprias forças militares), em muitos outros se verificou uma verdadeira guerra de vendetta e de rivalidades locais.

Estes breves reparos não pretendem beliscar o estudo meritório de Rodriguez Hernández, mas tão somente contribuir com alguns pontos de vista diferentes para a problemática. Curiosamente, entre os nomes que o autor refere, de espanhóis que permaneceram fiéis à Coroa Portuguesa após a Aclamação, falta um bem importante: o do sargento-mor Antonio Gallo, que serviu no exército do Alentejo entre 1641 e 1644 e que, já avançado em anos e doente, em 1645 se aposentou, fixando residência na ilha Terceira. Foi autor do tratado militar Regimiento Militar, que trata de como los soldados se hande governar, obedecer, y guardar las ordenes, y como los oficiales los han de governar (Lisboa, Paulo Craesbeeck, 1644). Também Domingos da Ponte, o Galego, que viajou para Portugal com D. Francisco Manuel de Melo (o prolífico literato – não confundir com o homónimo que comandou as forças espanholas na batalha de Rocroi) e muitos ex-combatentes portugueses do exército da Flandres, foi outro oficial que ganhou notoriedade ao serviço de Portugal. De resto, as mudanças de campo eram muitas vezes motivadas por questões pessoais, sobretudo crimes cometidos num dos reinos e em relação aos quais o indivíduo procurava escapar à justiça régia. O mestre de campo napolitano D. Pedro Opecinga trocou o exército espanhol pelo português por via de um caso desses, tal como o fez outro mestre de campo, D. Sanchez del Pozo (referido no artigo de Rodriguez Hernández). Entre os oficiais de menor categoria – tanto no que respeita à patente como ao estrato social – e sobretudo entre os soldados, as necessidades que padeciam na zona de guerra eram muitas vezes determinantes para a deserção em direcção ao território do inimigo. Todavia, como procurei demonstrar em O Combatente da Guerra da Restauração, este fluxo era o menos importante de todos os destinos da deserção, que se dirigia, principalmente, para as terras de origem dos militares foragidos.

Dois casos referidos no estudo merecem uma menção particular. O capitão de cavalos português ao serviço do exército espanhol João Dias de Matos, desertor em 1657 e responsável pela conquista de Olivença nesse ano, não seria propriamente um exemplo de fidelidade a uma causa. É mencionado em várias fontes portuguesas, entre as quais o Memorial de Mateus Rodrigues. Enquanto furriel de cavalaria, foi um dos espiões infiltrados em Badajoz, aquando da fracassada tentativa portuguesa de tomar aquela importante praça de armas pela traição em 1652. Foi tenente da companhia de D. Luís de Meneses e a deserção em 1657 terá sido motivada pelo descontentamento com a sua situação e pela ambição em alcançar mais altos voos. Tratava-se de um aventureiro, como outros havia em ambos os exércitos. Acabou mal, tendo sido capturado por militares portugueses em 1660 e enforcado.

O outro caso, porventura mais interessante, é o do capitão de cavalos Manuel Vaz. Rodriguez Hernández refere-o como Manuel Báez e cita-o como exemplo de um dos casos em que uma companhia inteira teria desertado. Passo a transcrever uma parte do artigo, pois complementa o que a documentação portuguesa refere acerca deste oficial:

En 1660 toda una compañia de caballería portuguesa se pasó al bando español. Para conseguirlo el capitán de lamisma, Manuel Baéz, inventó una argucia para evitar los recelos de sus superiores. Con la escusa de disponer una fiesta con su familia en una ermita cercana a Campo Maior, el capitán llevó a su compañia como convoy sin ser advertido, pasándose a los españoles con su familia y parientes, pero también con la mayor parte de sus soldados. Éstos no conocían el designio de su capitán, por lo que algunos se resistieron, trabándose una pequeña escaramuza con las tropas estremeñas que salieron a recibirlos. En total cerca de 40 personas cambiaron de bando, estando entre ellos la mujer del capitán, su cuñado, varios primos del capitán y otros familiares y adeptos. En Portugal Manuel Báez dejaba 6.000 ducados de hacienda, por lo que fue recompensado con nuevos puestos en el ejército y diferentes ayudas de costa, algo que se extendió a sus parientes. (pg. 72)

Manuel Vaz era um oficial muito capaz e de boa reputação, destacando-se pelo menos desde os inícios da década de 50 como valente militar, quando servia como tenente de cavalos na companhia do capitão João da Silva de Sousa. A ele se refere com admiração Mateus Rodrigues, nas suas memórias. Já como capitão, continua a receber elogios, como se vê numa carta de Joane Mendes de Vasconcelos de 18 de Setembro de 1657, a propósito de uma escaramuça nos arredores de Campo Maior. O que levaria um oficial veterano com tal folha de serviços a desertar e a deixar para trás tão valioso património? Muito simplesmente: para escapar às garras da Inquisição. Manuel Vaz era cristão-novo e estava na iminência de ser preso pelo Tribunal do Santo Ofício. Daí o acto desesperado de sair em segredo de Campo Maior com 31 familiares, incluindo mulheres e crianças, em 21 cavalos da sua companhia (a carta do Conde de Atouguia para o Conselho de Guerra, de 13 de Fevereiro de 1660, descreve em pormenor o sucedido; cf. Cartas dos Governadores da Província do Alentejo…, publ. por P. M. Laranjo Coelho, Lisboa, 1940, vol. III, pg. 11). A acusação de heresia, no caso vertente por alegadamente seguir a religião judaica em segredo, podia ter consequências terríveis. Que o diga Jácome de Melo Pereira, também ele veterano capitão de cavalos do exército do Alentejo, condenado à fogueira e executado em Évora pela Inquisição em 1666.

Imagem: Combate entre cavalaria e infantaria. Ilustração moderna, representando um confronto do período da Guerra dos 30 Anos.

Escaramuças na província da Beira em Maio de 1646

Continuando a transcrever alguns documentos, cujas cópias o estimado amigo Julián García Blanco me remeteu, cabe agora a vez de uma breve carta narrando escaramuças ocorridas na província da Beira. Os manuscritos pertencem ao espólio da Biblioteca Nacional de Madrid e são cópias coevas das cartas originais, para registo de arquivo, à semelhança das que se podem encontrar nos Livros de Registo da Secretaria de Guerra, em Lisboa.

As escaramuças que são descritas numa carta endereçada a um padre jesuíta de Évora não se encontram mencionadas na História de Portugal Restaurado do Conde de Ericeira. Episódios menores, em comparação às operações de maior envergadura que nesse ano ocorreram na província, são todavia de interesse para o conhecimento da vivência da guerra e seus efeitos sobre as populações da fronteira.

Carta de Francisco Leonardo a um religioso da Companhia do Colégio de Évora, em que dá novas de um sucesso que o nossos tiveram na Beira contra os castelhanos em 15 de maio de 1646

Novas da Beira têm sucedido agora muito boas. Em Alfaiates tivemos um bom sucesso, pelejou uma tropa de cavalos nossa de 40 soldados, com duas companhias de infantaria, com 150 cavalos cavalos sarcenhos [ou seja, de Zarza la Mayor] e foram derrotados, deixando no campo mortos 21 e muitos cavalos, e dezassete vivos, e a presa que levavam restituída ao lugar de Souto e Quadrazais. Se o Tejo se pudera vadear tivéramos a maior presa do mundo todo; a qual mandava o Conde [de Serém] fazer pelo tenente-general da artilharia, que passou o rio com 40 cavalos, e o resto deles ficou por se perder a barca, com que a infantaria não teve em que passar também da outra parte. E como se mal logrou esta ocasião, vendo o tenente-general da artilharia que não tinha caminho para Portugal senão marchando por Castela, o fez bizarramente com os 40 cavalos, e chegou a Carvajo de Santiago [Santiago de Carbajo], e a Membrio, e a outros lugares, e recolheu tudo o que neles achou até entrar aqui por Montalvão a salvamento, sem perda mais que de dois homens que se afogaram ao passar do rio. O forte de Zebra, que o Conde mandou fazer, está feito uma Rochella [comparação exagerada, feita pelo autor, com as defesas de La Rochelle, em França], dali se faz grandes estorvos aos danos que o inimigo fazia em algum tempo. O Bispo de Ciudad Rodrigo comete tréguas no que toca a roubos, e que se faça a guerra por termos militares; avisou-se disto a Sua Majestade, para o mandar resolver.

Francisco Leonardo

Fonte: Biblioteca Nacional de Madrid, mss. 8187, “Relações manuscriptas de Portugal, desdo anno de 1643 athe 1646″, fls. 70-70 v.

Imagem: Soldados de infantaria do século XVII. Museu Militar de Estocolmo. Foto de JPF.

A tentativa de tomada de Badajoz pelo 2º Conde de Castelo Melhor, segundo uma carta do mestre de campo João de Saldanha da Gama (1645) – 2ª parte

Conclui-se aqui a transcrição da carta do mestre de campo João de Saldanha da Gama:

Eu levava à minha conta pôr o petardo principal,e o efeito dele devia ser sinal para se investir pelas outras partes. E com estes fundamentos, que pareceram bastantes para se intentar a facção, deu o Conde de Castelo Melhor conta a Sua Majestade e lhe perguntou se queria que se obrasse. Sua Majestade respondeu que sim, escrevendo uma carta ao Conde e pondo quatro regras de sua mão. Dizia que tomando-se a cidade, ele partia logo de Lisboa com todo o socorro possível, e que da Beira, Trás-os-Montes, Entre-Douro-e-Minho e Algarve mandava vir gente paga, para que de tudo se formasse um exército capaz de defender Badajoz e fortificá-lo, e que por todo o Reino mandava fazer orações para o bom sucesso da jornada. Com a resolução de Sua Majestade se preveniu tudo para o último de Julho marcharmos, e ao amanhecer dar em Badajoz. Mandou-se ordem à gente de Olivença e à de Campo Maior, para que se ajuntasse em Telena, que [é] légua e meia desta praça e duas de Badajoz pelo caminho por onde íamos. Começámos a marchar desta praça para Telena e três peças de artilharia que levávamos, e outras carroças com ferramentas e as escadas, quebraram tantas vezes, que com as consertarem e passagem do rio, chegámos a Telena uma hora antemanhã [isto é, antes do amanhecer], e não poderíamos chegar a Badajoz senão com duas ou três de dia, e como a ordem de Sua Majestade era chegando de dia não acometêssemos a praça, nos retirámos cada um para a praça donde tinha saído. E Dom Rodrigo de Castro foi com a cavalaria a correr o campo de Xerez de los Caballeros, donde trouxe novecentas vacas.

Este é pontualmente o sucesso da jornada de Badajoz. os motivos com que se intentou e os defeitos por que se não executou. Os castelhanos não tiveram notícia nenhuma de nossa jornada, nem souberam que havíamos marchado senão a dois de Agosto, que acaso vieram a Telena e viram a trilha da gente que ali havia estado.Todos os que têm vindo de Badajoz depois disto, assim castelhanos como portugueses, dizem que tomávamos a praça sem dúvida nenhuma, e isto mesmo disse Jorge de Melo e Dom Diogo de Meneses e o Conde de Santa Cruz. Queira Deus termos guardado esta empresa para melhor ocasião. Os castelhanos depois disto têm crescido a infantaria, e têm seis mil homens e dois mil e quinhentos cavalos, e a nossa cavalaria consta só de mil e cento, com que nos levam uma grande vantagem.

Haverá sete dias que o capitão de cavalos Francisco Barreto, filho natural de Francisco Barreto, único filho do morgado de Quarteira, que estava alojado com a sua companhia em Arronches, fez uma emboscada a uma companhia de infantaria que de Albuquerque vem todos os meses mudar o presídio da Codiceira, e deu nela de repente e matou trinta castelhanos e trouxe dezanove prisioneiros com as armas de todos, e as cavalgaduras em que traziam a bagagem. Eles se quiseram vingar e nos vieram aqui armar uma emboscada da outra parte de Guadiana, ainda na sua terra, e mandaram vinte cavalos que viessem tomar o gado. A nossa companhia de cavalos que estava de guarda no campo mandou alguns atrás deles, os quais, contra a ordem que levavam, passaram o rio. O inimigo, em nos vendo da outra parte, carregou sobre eles, e como levavam os cavalos cansados de correr tanto, não se puderam livrar todos, e ficaram prisioneiros doze e o tenente de  Dom Vasco Coutinho. Ficaram mortos dois. E quando fomos saindo desta cidade, se foi o inimigo retirando logo.

De Olivença saíram oito soldados de cavalo a tomar língua, e encontrando-se com trinta soldados que iam para Badajoz de uma leva, os prenderam e trouxeram todos a Olivença.

Isto é o que por cá há estes dias, e do mais que houver avisarei a Vossa Mercê. A Relação da Índia folgarei muito de ver, ainda que é grande o mal que ali nos têm feito os holandeses.

Ao senhor Chantre beijo as mãos e a Vossa Majestade Deus guarde como desejo. Elvas, 12 de Setembro de 1645. João de Saldanha

A propósito de Francisco Barreto de Meneses, que João de Saldanha refere na parte final da sua carta, assinale-se o estudo de José Gerardo Barbosa Pereira, A Restauração de Portugal e do Brasil. A Figura de Francisco Barreto (ou Francisco Barreto de Menezes), texto policopiado, dissertação de Mestrado em História Moderna, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, 2001. Francisco Barreto partiria para o Brasil em 1647 e aí viria a comandar o exército que derrotou os holandeses nas duas batalhas dos Guararapes (1648 e 1649), o que lhe valeu o epíteto de “Restaurador de Pernambuco”. Em Portugal, a sua participação na Guerra da Restauração decorreu no Alentejo e na Beira, como capitão de infantaria do terço do mestre de campo David Caley, tendo demonstrado valor para ser promovido a capitão de cavalaria em 13 de Abril de 1644 e posteriormente a mestre de campo. Distinguiu-se especialmente no ataque à praça de Valença de Alcântara onde recebeu vários ferimentos em combate.

Fonte: Biblioteca Nacional de Madrid, mss. 8187, “Interpreza intentada contra Badajoz a 31 de Julho”, fls. 36-37 v.

Imagem:”Cerco de uma cidade”, óleo de Peter Snayers.

A tentativa de tomada de Badajoz pelo 2º Conde de Castelo Melhor, segundo uma carta do mestre de campo João de Saldanha da Gama (1645) – 1ª parte

A fracassada tentativa de João de Vasconcelos e Sousa, 2º Conde de Castelo Melhor e governador das armas do Alentejo, de tomar Badajoz em 1645, é um episódio bem conhecido da Guerra da Restauração. Além da narrativa do Conde de Ericeira na História de Portugal Restaurado, outros documentos impressos, nomeadamente as Cartas dos Governadores da Província do Alentejo… publicadas em 1940 por P. M. Laranjo Coelho, se referem a esse empreendimento bélico frustrado (ou sabotado pelos inimigos internos do Conde) ainda na fase de aproximação ao objectivo – mais por malícia, que por descuido, segundo escreveu o Conde de Ericeira. Também o soldado Mateus Rodrigues se refere, nas suas memórias, à incompleta campanha do desafortunado Conde, na qual participou.

Uma outra descrição da operação manteve-se até agora inédita. Trata-se de uma carta do mestre de campo João de Saldanha da Gama, comandante de um terço de infantaria, escrita ao chantre da Sé de Évora, Manuel Severim de Faria – não é referido o nome do destinatário na carta, mas o contexto dos restantes manuscritos permite identificá-lo, com razoável certeza. Uma cópia (treslado, na designação comum do período) da carta encontra-se na Biblioteca Nacional de Madrid, mss. 8187, que em boa hora o prezado amigo Julián García Blanco me fez chegar às mãos. É essa carta que aqui se apresenta, modernizada na grafia, e que por ser algo extensa ocupará dois artigos.

Beijo a mão a Vossa Mercê pela mercê que me faz nesta sua carta, pois além do interesse que tenho de boas novas suas, me mostra o caminho de as procurar, o que farei sempre como tão interessado nelas, e com a certeza deste portador não se perderão as cartas, como devia suceder à que escrevi a Vossa Mercê sobre Badajoz, pois não chegou às suas mãos, e assim torno a referir a Vossa Mercê os motivos que houve para se intentar a jornada. Badajoz é uma praça de grande circuito, tinha quatrocentos soldados pagos e os moradores da cidade faziam as guardas das portas e as sentinelas da muralha, os quais ordinariamente as não fazem com o cuidado necessário. Havia mais quatrocentos cavalos. O Marquês de Leganés estava doente. As portas da cidade eram direitas, e só com uma porta singela e sem rastilho, todas eram nove, quatro grandes e cinco pequenas que caíam para a parte do rio. A muralha toda sem flancos e pela parte por onde havíamos de cometer muito baixo. Dentro nela grande quantidade de moradores portugueses, e muitas mulheres e gente inútil. Todas estas coisas, e o desunido e segurança com que estava o inimigo ajudavam a se poder conseguir a entrepresa. As notícias de tudo isto se souberam por diferentes pessoas, línguas que se tomaram, prisioneiros que vieram, um português que ali vivia há muitos anos, que se passou para nós e um capitão castelhano, que por uma morte que lá fez se veio também a esta praça. E para maior segurança de tudo, foi daqui um sargento nosso feito almocreve a reconhecer tudo muito bem, e também um criado meu entrou lá do mesmo modo, e reconheceu as portas e o corpo da guarda, e fez as plantas de tudo. Também um engenheiro francês que ficou prisioneiro na batalha de Montijo, esteve prisioneiro sete meses sem saberem que era engenheiro, nos deu notícia de tudo. Nós tínhamos seis mil homens nestas três praças de Elvas, Olivença e Campo Maior, e mil cavalos que se podiam ajuntar com grande segredo, como se fez. Havíamos de cometer por três partes, com o grosso da gente por duas partes com os petardos, e pela muralha baixa com as esquadras; e pelas outras cinco partes da muralha se haviam de tocar armas mui rijas, para que não soubessem os de dentro por que parte lhe haviam de entrar. E como eram tão poucos, não podiam guarnecer as muralhas, ainda estando todos prevenidos, e quanto mais tomando-os nós nas camas sem sermos sentidos.

(continua)

Fonte: Biblioteca Nacional de Madrid, mss. 8187, “Interpreza intentada contra Badajoz a 31 de Julho”, fls. 36-37 v.

Imagem: Porta de Palmas, em Badajoz. Foi provavelmente por esta porta que passaram os espiões disfarçados de almocreves, a fazer o reconhecimento para a intentada operação de tomada da cidade. Fotografia retirada do blog Puertas de Badajoz, de Julián García Blanco.