Gil Vaz Lobo Freire – herói e vilão

Gil Vaz Lobo Freire, filho de Gomes Freire de Andrade e de D. Luísa de Moura, foi um dos mais incensados nomes do período da Guerra da Restauração. Participou com o seu pai no 1º de Dezembro de 1640, tendo sido um dos nobres insurrectos que procurou no Paço a Duquesa de Mântua, para a obrigar a abdicar do cargo de Vice-Rainha de Portugal. Tivesse a Duquesa o dom da premonição, teria razões de sobra para ficar muito preocupada com o jovem espadachim que lhe saíra ao caminho, cujas atitudes no futuro – durante a Guerra da Restauração – demonstrariam uma profunda indiferença pela vida humana. A par da bravura e valor no campo de batalha, Gil Vaz Lobo (é assim que é referido em quase todos os documentos) deixaria um rasto de crimes, que a sua posição social e influência na Corte conseguiriam, todavia, deixar impunes, livrando-se de condenações que pareciam tão severas como certas.

O nobre beirão cedo iniciou a sua carreira militar. Em Fevereiro de 1642 recebeu a patente de capitão de infantaria, passando a servir em Campo Maior com o seu pai. Em Novembro de 1645 foi promovido a capitão de cavalos, continuando a servir no Alentejo. A par das referências elogiosas às qualidades militares do oficial, surgem alusões ao seu carácter violento e criminoso. Os exemplos que aqui trago dizem respeito ao ano de 1652, onde num curto período Gil Vaz Lobo se viu a contas com a justiça por causa de vários crimes. No início desse ano, um grupo de mulheres de Campo Maior, encabeçado por uma Catarina Gomes, enviou uma carta ao Príncipe D. Teodósio, queixando-se da conduta de Gil Vaz Lobo e de outros militares. Quando, em carta datada de 21 de Março de 1652, o Príncipe ordenou ao mestre de campo general do Alentejo, D. João da Costa, e ao auditor geral do exército da mesma província, que abrissem um inquérito (uma devassa, como então se dizia) aos motivos da queixa, já era tarde demais. No livro de registos, à margem da cópia da carta, surge um acrescento recomendando que se iniciasse uma devassa à morte de Catarina Gomes.

Em Abril já Gil Vaz Lobo se encontrava na província da Beira, onde o governador das armas do partido de Penamacor (ou de Castelo Branco, como também era referido) D. Sancho Manuel pretendia nomeá-lo para o posto de comissário geral da cavalaria. A carta de 20 de Abril propondo o nome de Gil Vaz Lobo, enviada ao Príncipe D. Teodósio e observada no Conselho de Guerra, acabou por trazer à discussão os crimes recentes do oficial, que não se resumiam ao acontecido em Campo Maior. No entanto, os próprios conselheiros pareciam dispostos a fechar os olhos à conduta do capitão de cavalos e inclinavam-se para a aceitação da promoção, deixando à Coroa a última palavra. Segue-se a transcrição da consulta:

Nesta carta apresenta Dom Sancho Manuel a Vossa Alteza a grande necessidade que a cavalaria do seu partido tem de oficial maior que a governe porque, por falta dele, tem sucedido e sucedem muitas desordens com a liberdade que os soldados tomam, e pouco respeito com que procedem por não terem cabo maior a quem temam, arriscando-se por esta causa muitas vezes a mesma cavalaria e a reputação das armas de Sua Majestade e Vossa Alteza quando sucede ir buscar ao inimigo, ou em nossa defensa, ou em ofensa sua. E por todas estas razões pede Dom Sancho à Vossa Alteza se sirva de nomear para o posto de Comissário geral da cavalaria do seu partido a Gil Vaz Lobo porque, por seu valor e pelo conhecimento que tem daquela campanha, e por suas partes merece que Vossa Alteza o honre e lhe faça mercê, porquanto a Dom João Flux [capitão de cavalos alemão], a quem Sua Majestade foi servido de encarregar o governo dela, lhe sobrevieram tantos achaques que está impossibilitado por razão deles para exercitar o governo dela, e incapaz para montar a cavalo, havendo pouco de um ano que o não faz.

Vendo-se em Conselho a carta de Dom Sancho, pareceu fazer presente a Vossa Alteza a resolução que Sua Majestade tem tomado, de que os criminosos, enquanto não estiverem livres dos crimes que se lhe imputam, não possam ser providos em postos. E que Gil Vaz Lobo se livra de alguns crimes no juízo da assessoria deste Conselho em três processos, um deles sobre a morte de um homem sucedida em Estremoz, pela qual está sentenciado em final em pena de cinco anos de degredo para o Brasil e guerra de Pernambuco, e em duzentos mil réis para a parte com pregão em audiência. Esta sentença se não tem tirado do processo até agora, nem executada por não haver parte que o requeira.

Os outros dois processos são sobre o ferimento feito ao corregedor Sebastião Vieira de Matos e morte do seu escrivão; estes estando conclusos a final, se mandou acabar de tirar em Campo Maior certa devassa de outros casos em que também é culpado, e correr folha em Elvas, esta diligência há dias que se cometeu por cartas de Sua Majestade ao mestre de campo general e ao auditor geral em segredo, e até agora se não tem satisfeito a ela, e por se esperar resposta, se não acabam de sentenciar estes dois feitos.

Por ser este o estado em que se encontra o livramento de Gil Vaz Lobo, pareceu também ao Conselho representar a Vossa Alteza que se houver lugar de se poder dispensar no impedimento que Gil Vaz tem (conforme a resolução de Sua Majestade que fica referida) para haver de ser provido em posto, estando criminoso; e Vossa Alteza tiver por conveniente habilitá-lo para ir servir de comissário geral da cavalaria deste partido, será mui bem empregado nele todo o favor e mercê que Vossa Alteza nisto lhe fizer, por o merecer por seu valor e pelo zelo com que tem servido, e também por ter préstimo, experiência e particular génio para ocupar aquele posto. Lisboa 14 de Maio de 1652.  

Entre os crimes cometidos no Alentejo a que a consulta se reporta, um é certamente o que envolveu a morte de Catarina Gomes, e os outros, os que originaram a queixa anterior ao desaparecimento da infeliz mulher. Apesar disso, prevaleceu a influência da poderosa linhagem dos Freires de Andrade, e Gil Vaz Lobo Freire não foi muito apoquentado pelos processos em que estava envolvido. Em Agosto de 1659 foi nomeado governador da cavalaria da Corte e comarcas do Ribatejo, sendo já nessa altura tenente-general da cavalaria da Beira.

Em Maio de 1669, mais de um ano após o final da guerra, Gil Vaz Lobo foi nomeado governador das armas da província da Beira pelo regente D. Pedro (futuro D. Pedro II). Viria a falecer em Castelo Branco em 1678.

Fontes: ANTT, CG, Secretaria de Guerra, Livro 16º, fl. 15; Consultas, 1652, mç. 12, consulta de 14 de Maio de 1652.

Imagem: Jacob Duck, “Mulher e soldados jogando às cartas”.

As relações entre militares e civis e um caso de justiça em 1645

Não era somente devido às acções de guerra e depredação efectuadas pelos exércitos inimigos que as populações civis das fronteiras sofriam. Os próprios exércitos provinciais, em particular no Alentejo (por ser a província mais devastada pelas operações militares e aquela onde estacionaram mais efectivos durante o conflito) eram uma constante fonte de preocupações para as populações que tinham de aboletar e sustentar os oficiais e soldados. Aliás, as tensas relações entre civis e militares durante os conflitos da Era Moderna eram uma constante e o assunto foi abordado, para o caso português, num capítulo d’O Combatente durante a Guerra da Restauração.

No caso concreto da mulher, cujo estatuto era inferior ao do homem em qualquer estrato social, a fragilidade da sua segurança era evidenciada, por vezes de forma brutal, na forma como era tratada pelos militares, qualquer que fosse a patente destes. Se a justiça régia procurava pôr cobro aos abusos mais evidentes ou mais “escandalosos” (isto é, que eram mais notórios), a verdade é que não era fácil romper as barreiras impostas por interesses e privilégios particulares, nem lidar com o usual fechar de olhos a certos excessos da soldadesca. O caso que se passou em 1645 em Évora e que foi exposto ao Conselho de Guerra é um dos vários exemplos de abusos sofridos pelas mulheres e da dificuldade das queixosas em conseguirem aceder à justiça.

A transcrição que aqui se faz da consulta de Junho de 1645 ilustra o que acima fica referido.

Helena da Cruz e sua filha Mariana Correia, moradoras na cidade de Évora fizeram petição neste Conselho, relatando que por decreto de Vossa Majestade acusam a Rodrigo Franco, soldado pago, por haver desonrado a ela, Mariana Correia, e lhes haver levado sua fazenda, e se deu sentença pelo corregedor da dita cidade de Évora, a qual veio por apelação, e estando distribuída ao desembargador Francisco de Leão de Macedo, ouvidor das apelações crimes, se passou carta pelo desembargador conservador do Estanco das cartas de jogar, por o pai do delinquente ser requerente do contrato do Estanco. Pelo que as suplicantes recorreram a Vossa Majestade, que remeteu a causa a este Conselho de Guerra, e nele se pôs despacho, requeresse ao desembargador João Pinheiro, que conhecendo da causa, mandou passar duas cartas para se lhe remeterem os autos a que o conservador não deu cumprimento, sendo que ela, Helena da Cruz, anda nesta corte passando muitos trabalhos, e gastando seu remédio, e pedem a Vossa Majestade lhe faça mercê mandar, que o conservador do Estanco se não intrometa na causa, e remeta os autos ao Conselho de Guerra em comprimento das cartas que se lhe passaram.

Pela Informação que se houve do desembargador João Pinheiro constou que o conservador do Estanco não deu cumprimento às duas cartas, que como juiz dado por Vossa Majestade para as causas dos soldados pagos, lhe passou, deprecando-lhe as cumprisse, e remetesse as culpas para em seu juízo se dar livramento e satisfação à justiça, por ser só o competente por comissão e regimento de Vossa Majestade. E não somente não deu cumprimento a tais cartas, mas nem despacho pôs em que desse a razão de as não cumprir, em grande moléstia e opressão das suplicantes que requerem justiça, pois sendo o culpado soldado pago como se relata, a este Conselho de Guerra privativamente compete o conhecimento desta apelação; maiormente quando se relata que o réu não é o requerente do contrato do Estanco das cartas, senão seu pai, por cuja cabeça quer participar do privilégio do Estanco das cartas, sendo que ele por si é soldado pago, e assim por sua cabeça sujeito a este juízo da guerra, de que se não pode, nem deve isentar pela comunicação e participação do privilégio de seu pai, quando ele por si, e por sua cabeça, como soldado pago tem seu juiz privativo, que é este Conselho, e toda a contraria pretensão não pode ser justificada

E assim pareceu representar a Vossa Majestade a queixa das suplicantes para que seja servido ordenar ao conservador do Estanco dê cumprimento às cartas precatórias que se lhe passaram, ou de a razão por que as não cumpre, para Vossa Majestade mandar o que mais houver por seu Real serviço e satisfação da justiça.

Lisboa, 14 de Junho de 1645

Do seguimento desta consulta apenas se conhece o decreto régio, dado em 30 de Julho de 1645, que manda proceder “como parece” ao Conselho de Guerra.

Deve esclarecer-se que o contrato de Estanco das cartas de jogar concedia o monopólio da emissão das cartas de jogar (detido pela Coroa) a um particular – no caso, o pai do soldado prevaricador. Apesar das leis que proibiam o jogos de cartas (entre outros jogos de azar), na realidade aqueles eram tolerados dentro de certas condições, e eram muito populares entre oficiais e soldados, que jogavam cartas e dados a dinheiro.

Fonte: ANTT, Conselho de Guerra, Consultas, 1645, maço 5, consulta de 14 de Junho de 1645.

Imagem: “Jogadores de cartas”, de Gerard Terborch.

Um crime em Abrantes (3ª parte)

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O processo de Manuel Cornellis surge em anexo a uma consulta do Conselho de Guerra de 4 de Março de 1649, quase dois anos depois de ter sido cometido o crime pelo qual o oficial holandês e o seu tenente respondiam. Em resumo, ficam aqui expostas algumas etapas de um moroso processo judicial que acabou por nada resolver. Apenas serviu para prejudicar a capacidade operacional de uma companhia de cavalaria do exército do Alentejo. Como é hábito neste espaço, o português dos documentos originais foi actualizado.

1648, Julho, 17

Carta do Conde de S. Lourenço para o Rei, em que dá conta de ter recebido no dia 12 a carta régia mandando prender o capitão Manuel Cornellis e o seu tenente. A diligência foi feita. “E porque o capitão Manuel Cornellis estava sentenciado em suspensão da companhia, e o tenente servia com ela, e tendo custado tão grande soma de dinheiro, assegure-se Vossa Majestade que de todo se perderá, porque os soldados são os mais deles estrangeiros, e os cavalos da mesma maneira, e assi me parece que Vossa Majestade proveja esta companhia logo com outros oficiais, se a prisão destes há-de ser dilatada“.

1648, Julho, 22

Carta do general da cavalaria D. João de Mascarenhas para o Rei. Adverte para as consequências da prisão de Manuel Cornellis, que é a de perder-se a sua companhia. “A demais cavalaria de que estou entregue está muito boa e muito bem montada, com a companhia que esperamos de Santarém fazemos conta a mil e oitocentos cavalos, sem os que estão repartidos pelas praças, e em guarda delas, dos quais nos não ajudaremos senão em caso de necessidade“.

1648, Julho, 27

Consulta do Conselho de Guerra, que além das cartas acima, viu também duas petições de Manuel Cornellis. Numa pede que a sua companhia fosse entregue a outro oficial e que não corresse por sua conta desde o primeiro dia em que foi preso, visto também estar preso o tenente e não a unidade ter mais nenhum oficial que olhasse por ela, “para que se não perca sendo tão luzida, e em que ele está tão empenhado, havendo-a armado de coletes, botas e armas, o que até agora se lhe não tem pago, havendo servido a Vossa Majestade nisto como também o fez nas ocasiões em que se achou com a companhia com grande satisfação e dispêndio, como é notório“. À segunda petição junta a certidão de um médico, da qual consta que se acha enfermo de graves achaques, e cada vez pior. Pede ao Rei que seja servido de o mandar mudar da prisão para onde tenha mais comodidade e se possa curar, “pois não causa por que deva perder as preeminências, e isenções que Vossa Majestade costuma conceder aos capitães de cavalos“.

O Conselho de Guerra pronuncia-se a favor da manutenção do capitão e do tenente nos seus postos, argumentando que não deve a companhia ser entregue a outros oficiais sem que antes o capitão e o tenente sejam sentenciados a perder os postos, e que ambos devem procurar, por seu cuidado, que a companhia se conserve. Entenda-se: que continuem a pagar do seu bolso o sustento dos cavalos.

O Conselho de Guerra também se debruça sobre a demora do processo. Refere que o governador das armas do Alentejo, Conde de S. Lourenço, deve sentenciar de imediato os culpados do crime logo que tenha em mãos o resultado da devassa (inquérito) que o corregedor de Tomar fez da morte de João Rodrigues, o Campos. O corregedor tem-se desculpado pelo atraso do processo com o facto de andar ocupado com outras diligências, justificando-se também com o argumento de que a devassa tinha sido primeiro entregue ao corregedor seu antecessor.

No parecer final, o Conselho de Guerra informa o Rei de que, se tivesse tido conhecimento da ordem para proceder à prisão dos dois oficiais (emitida por D. Sancho Manuel), teria dado o parecer negativo até que – conforme os termos da justiça – o resultado da devassa tivesse sido conhecido e resultasse em culpa formada contra eles. Deste modo, “nem se faltará na observância dos privilégios concedidos aos que ocupam semelhantes postos, com escândalo, e desconsolação dos que servem a Vossa Majestade na guerra, e trazem a vida arriscada nela; e também não faltarão [sic – o termo correcto seria faltariam] no governo da companhia estes oficiais que a formaram, senão nos breves dias que eram necessários para se sentenciar a devassa; mas entende o Conselho que os motivos que Vossa Majestade teve para se anteciparem estas prisões, deviam ser tão justificados que não dariam lugar a se obrar em outra forma“. Este remate de parecer foi a maneira airosa (bem em conformidade com o discurso sinuoso e dissimulado da época) que o Conselho encontrou para criticar a decisão régia, sem no entanto ousar afrontá-la directamente.

1648, Outubro, 27

Relembra o Conselho de Guerra que é inconveniente manter Manuel Cornellis preso, estando doente, e que o Rei deve ser servido tomar resolução na primeira consulta enviada ao Conselho sobre este caso. A resposta do Rei, de 4 de Dezembro de 1648, manda que se escreva ao Conde de S. Lourenço, para que apresse a conclusão do processo.

1648, Novembro, 18

Aludindo a um decreto de 14 de Novembro, o Conselho de Guerra diz que a devassa de Manuel Cornellis não estava em poder do Dr. João Pinheiro, juiz assessor do Conselho, mas que tinha sido remetida pelo corregedor de Tomar directamente ao governador das armas do Alentejo.

1648, Dezembro, 23

O Conselho reporta-se à devassa que tinha sido enviada pelo Conde de S. Lourenço, tendo este escrito que era apenas o que lhe tinha chegado às mãos, não estando sentenciada, como o devia, na primeira instância no juízo da Auditoria Geral do Exército do Alentejo.

1649, Janeiro, 11

O Conselho de Guerra, em resposta ao pedido do Rei para que fosse posto ao corrente de tudo quanto se tem passado, envia a cópia de duas cartas escritas pelo Rei ao Conde de S. Lourenço.

1649, Fevereiro, 15

Continua o Conselho a reportar-se à devassa e às anteriores consultas; o Rei mandou reformar a consulta de 27 de Outubro de 1648. Ainda não há decisão sobre o caso.

1649, Março, 4

Volta a enviar-se a devassa ao Rei, mas a decisão ainda não é tomada no posterior decreto de 12 de Abril de 1649.

A partir daqui não existe mais nenhuma menção ao processo, mas outros documentos de 1649 permitem concluir que os oficiais holandeses terão sido libertados e que a companhia formada a expensas de Cornellis se manteve no activo, embora os oficiais possam não ter recuperado os postos, .pelo menos de imediato. O soldado Mateus Rodrigues (Matheus Roiz) refere que a companhia de Cornellis estava aquartelada em Terena em Janeiro de 1654, tinha 80 cavalos e o tenente era um francês, Monsieur La Roche. Em Junho de 1654, Manuel Cornellis escreve ao Rei, reclamando os privilégios de capitão, que entretanto perdera. O monarca tem dúvidas e pede um esclarecimento ao general da cavalaria do Alentejo, André de Albuquerque Ribafria. O certo é que o oficial holandês permaneceu ao serviço da Coroa portuguesa, pois em 1657 solicitou autorização para integrar na sua companhia, então muito diminuída, um soldado que ainda estava a contas com a justiça.

Fontes: Arquivo Nacional da Torre do Tombo – Conselho de Guerra, Consultas, 1649, maço 9, nº 47; Secretaria de Guerra, Livro 16, fl. 152; Arquivo Histórico Militar – Manuscrito de Matheus Roiz, p. 396.

Imagem: Cavaleiros num acampamento militar. Quadro de Philips Wouwerman, Museu do Louvre.

Um crime em Abrantes (2ª parte)

Em 23 de Maio de 1648, o Rei D. João IV escreve uma carta ao governador das armas do Alentejo, Conde de São Lourenço, acerca de um crime praticado em Abrantes e dos procedimentos que deviam ser tomados a esse respeito (missiva aqui vertida para português corrente, para melhor entendimento):

Conde amigo. Eu, El-Rei, vos envio muito saudar, como aquele que amo. Da carta e outros que com esta se vos remetem, vereis o excesso que os soldados de cavalo da companhia do capitão Manuel Cornellis, que estiveram alojados na vila de Abrantes, cometeram matando a João Roiz, o Campos, que encontraram caçando na vila de Abrantes, e porque este caso, segundo se tem entendido, foi cometido com grande atrocidade, e não convém que fique sem castigo pelo geral escândalo que tem dado, sendo mandado ordenar ao corregedor da comarca passe logo àquela vila a tirar devassa dele, e tanto que a tiver acabada vo-la remeta para fazerdes sentenciar no juízo da auditoria geral os culpados nela, de que me pareceu avisar-vos para que o tenhais entendido. E vós ordenareis (se já o não tiverdes feito, em virtude da ordem que vos foi) que logo seja preso a bom recado o capitão Manuel Cornellis, e posto em prisão segura a respeito da graveza [gravidade] do delito até ser sentenciado. Escrita em Lisboa a 23 de Maio de 1648.

O oficial respondia pelo crime cometido por alguns dos seus subordinados. Uma desavença por causa da caça? Os documentos não esclarecem os motivos da morte do paisano João Rodrigues, mais conhecido por Campos (o uso de alcunhas era vulgar na época; por vezes, tornavam-se nomes de família, que a descendência já não conseguia descartar e acabava por adoptar como patronímico).

Quem era este oficial holandês, Manuel Cornellis? Como já foi referido, o seu pai era cônsul da Províncias Unidas (vulgo, Holanda) em Portugal. Fora tenente na companhia do comissário geral Alexandre van Harten, um dos militares sobreviventes do contingente holandês que em Setembro de 1641 entrara ao serviço de D. João IV. Mas a chegada de Cornellis a Portugal é muito posterior àquela data – provavelmente durante o ano de 1646. Em Março de 1647 recebe patente de capitão de cavalos couraças. É então que parte para a Holanda, disposto a comprar 100 cavalos e recrutar 100 soldados para a sua companhia. Regressa em meados de Agosto, trazendo os cavalos prometidos, mas somente 30 soldados. Para completar o efectivo previsto, a sua companhia terá de integrar soldados portugueses – e também alguns estrangeiros cujas companhias haviam sido reformadas, como foi o caso do alferes holandês Guilherme (Willem) Liner, que se oferece para a unidade de Cornellis.

Em Abril de 1648, a companhia de Manuel Cornellis encontra-se na província da Beira, para onde fora enviada com outras unidades, a fim de reforçar o exército que D. Sancho Manuel lançara em operações sobre Valência de Alcântara, no mês anterior. O capitão desespera por regressar ao Alentejo. Escreve ao Conde de São Lourenço, pedindo licença para levar os cavalos a tomar o verde a Estremoz ou Vila Viçosa. O Conde, por sua vez, pede autorização ao Rei. Afirma que se a companhia tardar muito e já não encontrar pastagens, os cavalos ficarão perdidos de todo. Mas a resposta demora a chegar, e Cornellis decide abandonar a Beira por sua iniciativa, precipitando os acontecimentos. O crime cometido pelos seus subordinados levá-lo-á a um penoso processo, que será descrito no próximo e derradeiro artigo.

Fontes: ANTT, Conselho de Guerra, Livros de Registos, Livro 10, fl. 7 e Livro 11, fl. 110 v; Cartas dos Governadores da Província do Alentejo a El-Rei D. João IV, vol. I, pgs. 171, 210, 233, 246 e 250.

Imagem: Cavaleiros do período da Guerra Civil Inglesa, reconstituição histórica, Kelmarsh Hall, 2008. Foto emprestada pela English Civil War Society.

Um crime em Abrantes (1ª parte)

Entre Abril e Maio de 1648, duas companhias de cavalaria que tinham estado em operações na fronteira da província da Beira, uma delas enviada como reforço a partir do Alentejo, encontravam-se em Abrantes.  Uma das companhias, a que tinha o seu quartel de origem no Alentejo, era comandada por Manuel Cornellis, capitão holandês, filho de Pedro Cornellis, cônsul das Províncias Unidas em Portugal. A outra era a do capitão Nuno da Cunha de Ataíde, que anos mais tarde se distinguiria como oficial general da cavalaria.

O desvio por Abrantes pode ter sido ditado pela necessidade de dar verde aos cavalos – isto é, proporcionar-lhes alimento de erva fresca, variante nutritiva da habitual dieta na maior parte do ano, os pensos de cevada. Esta actividade tinha lugar durante a Primavera, sempre que fosse possível. De qualquer modo, o regresso da companhia de Cornellis ao Alentejo foi feito sem a autorização de D. Sancho Manuel, governador das armas da Beira, conforme consta da carta que D. João IV escreveu ao governador das armas do Alentejo, Martim Afonso de Melo, Conde de São Lourenço:

Conde amigo, Eu El-Rei vos envio muito saudar, como aquele que amo. Com esta carta se vos remeterá outra de Dom Sancho Manuel, em que pede se castigue ao capitão de cavalos Manuel Cornellis, que havendo sido mandado ir à Província da Beira para se achar com os soldados da sua companhia na facção da Ponte de Alcântara, depois de acabada se veio dela sem ordem do mesmo Dom Sancho, e juntamente se vos remete  uma petição do mesmo capitão Manuel Cornellis, em que aponta as razões por que se deve recolher com a sua companhia a essa fronteira para nela se dar verde aos cavalos, e os guarnecer por ser a parte em que assistia mui nociva para eles, por razão dos mantimentos. Encomendo-vos que vendo tudo o que se contém na carta de Dom Sancho, e petição de Manuel Cornellis, ordeneis que aos cavalos da sua companhia se lhes dê verde, como já se lhe tem avisado, e a ele o façais logo prender no castelo de Vila Viçosa, e dando-lhe cargos [acusações] pelo que Dom Sancho avisa em ordem à sua desobediência, o ouçais sobre tudo, e não se descarregando nem dando satisfação a eles bastante o sentencieis, e castigueis como for justiça. Escrita em Lisboa, 2 de Maio de 1648.

Mas se o capitão holandês já tinha sobre si a justiça militar devido ao seu acto de desobediência, pior ficaria quando, estando ainda em Abrantes, alguns soldados da sua companhia praticaram um crime grave.

(continua)

Fonte: ANTT, Conselho de Guerra, Consultas, 1649, maço 9, nº 47.

Imagem: Cavaleiros. Quadro de Philips Wouwerman, Museu do Louvre.