Postos do exército português (12) – o sargento-mor

O sargento-mor era o segundo-comandante de um terço de infantaria. A designação do posto mudaria para major já no século XVIII, bem como as responsabilidades de comando. Na verdade, apesar de em alguns exércitos europeus – como o inglês, por exemplo – existir o posto de major, as atribuições daquele oficial eram então diferentes daquelas que viria a ter mais tarde, quando se tornaria comandante de um batalhão (e este passaria a ser uma sub-unidade do regimento). A respeito da evolução de sargento-mor para major, veja-se este artigo de Lagos Militar.

No período da Guerra da Restauração, o sargento-mor tinha funções muito técnicas, as quais já foram abordadas neste artigo. Vejamos o que dizia o projecto de Ordenanças Militares de 1643 a respeito deste posto:

Os cargos de sargentos-mores se hão-de prover em capitães de muita teórica, prática e valor, e quando se façam de terços já formados, se há-de procurar elegê-los dos mesmos capitães que neles houver; há-de ter dois ajudantes cada um, e ajudam aos mestres de campo imediatos a eles, no governo dos terços e a quem toca formá-los, receber as ordens e dá-las, e fazer que se observem todas as mais que devem guardar os oficiais e soldados de cada terço (…). (AIRES, Cristóvão, Historia Organica e Politica do Exercito Português – Provas, vol. IV, Lisboa, Imprensa Nacional, 1908, pgs. 62-63).

A necessidade de haver sargentos-mores experientes nos terços (experiência que podia faltar aos mestres de campo, ou por serem de recente promoção a partir de capitães de cavalos, ou por serem providos no posto devido à sua nobreza, mas sem conhecimento profundo da guerra viva) fazia com que a maioria destes oficiais fosse de origem plebeia. Eram chamados soldados de fortuna, isto é, profissionais das armas, e como tal podiam ser estrangeiros, ainda que súbditos do rei de Portugal. Alguns destacaram-se pela sua qualidade e competência, como os espanhóis Antonio Gallo (reformado em 1643, já idoso e com pouca saúde) e Antonio Sanchez del Pozo (que morreu em combate). Muitas vezes, os terços eram comandados pelos sargentos-mores, devido à ausência dos respectivos mestres de campo. Isto era mais frequene entre as forças milicianas de auxiliares e da ordenança.

É precisamente da obra Regimiento Militar de Antonio Gallo que se retira esta passagem:

El Sargento mayor traerà un baston de quatro palmos y medio, que es el terreno, que el soldado en escuadron ocupa de costado a costado, y le puede servir quando quisiere medir un terreno justo, y no es necessario que el baston tienga hierro, que no agravia al soldado, castigandole con el, que es su insignia. (pg. 28 v)

Já perto do final da Guerra da Restauração, um relatório inglês elogiava a competência e combatividade dos sargentos-mores portugueses. O elogio é de salientar, numa época em que a apreciação (ou depreciação) dos estrangeiros era condicionada por muitos preconceitos e algum desprezo.

Imagem: Infantaria em progressão. O controlo da formação no terreno era uma das tarefas do sargento-mor. Reconstituição histórica da Guerra Civil Inglesa, Kelmarsh Hall, 2007. Foto do autor.

Postos do exército português (11) – os ajudantes de sargento-mor e de comissário geral

Entramos aqui no terreno do que, à época, se designava por oficiais colaterais. Não existe um paralelo directo com a actualidade, a menos que queiramos ver nesta categoria de oficiais um ajudante de campo – algo que, neste escalão de comando, seria bastante invulgar (sargento-mor na infantaria e comissário geral na cavalaria corresponderiam, com alguma liberdade de aproximação, ao actual posto de major).

Tendo em consideração as necessidades dos postos de sargento-mor e de comissário geral, exigindo o comando e disposição no terreno das companhias, tornava-se necessária a colaboração de um – ou mais vulgarmente dois – ajudantes. Na infantaria existia uma hierarquia entre estes oficiais: o ajudante do número e o ajudante supranumerário. A raiz desta distinção estará relacionada com o facto do sargento-mor poder delegar funções num dos seus ajudantes quando tivesse de se ausentar do terço (conforme refere René Quatrefages na sua obra Los Tercios, Madrid, Servicio de Publicaciones del Estado Mayor del Ejército, 1983). Daí necessidade de se estabelecer uma hierarquia entre os ajudantes, para evitar situações de pouca clareza sobre quem teria a primazia numa situação de emergência em que o sargento-mor estivesse ausente ou incapacitado. A função habitual dos ajudantes era a distribuição das ordens pelos capitães, mas também colaboravam com o sargento-mor na demorada tarefa de preparar o esquadrão (formação táctica) a partir do terço. Ao posto de ajudante do número podiam ser promovidos os alferes de infantaria e os ajudantes supranumerários, e a este último posto os alferes de infantaria, dando sempre primazia ao da companhia do mestre de campo.

No caso da cavalaria não havia esta distinção. As funções dos ajudantes de comissário geral eram a de distribuir as ordens pelos capitães e a de auxiliar o comissário geral na disposição táctica dos batalhões. A promoção fazia-se a partir do posto de tenente de couraças ou de cavalos arcabuzeiros.

Imagem: Militares de meados do século XVII. Reconstituição histórica, Old Sarum. Foto do autor.