Cerco e tomada de Olivença (10ª e última parte – de 23 a 31 de Maio de 1657)

Mapa

[23] [Nota de Horácio Madureira dos Santos: No original está erradamente indicado o dia 24] – Partiram os enviados 4ª feira pela manhã, e nesse dia tornou o padre António de Matos trazendo do Conde general largas promessas de socorro, com que foi grande a alegria que houve na vila comummente em todos. Levava João Mendes Mexia uma instrução que o governador e o Du Four fizeram, em que pediam, afora o que já tinham pedido, que creio era pólvora, que lhe mandassem 1.500 infantes, e nesses viessem duzentos rodeleiros [soldados armados de espada e rodela – escudo pequeno e redondo – que eram empregues em missões especiais], e que esses, em chegando, guarnecessem a estrada encoberta e surtissem pelos aproches do inimigo, e sustentassem o que fosse ganhado, e que ele tinha outros 200 da gente da vila com que render aos que viessem.

E assim lhe mandassem 130 cavalos com um bem valente cabo, e lhe mandassem vinho para as missas, e medicamentos para os feridos, e que se resolvessem em socorrer a praça, o que podia fazer pela parte de Santa Catarina ou pela serra. Afora estas, levava outras advertências. E o sargento-mor Manuel de Magalhães mandou outra instrução por João Rodrigues, lavrador prático, e foi à torre a lhe mostrar o sítio e lugar por onde o socorro podia entrar e por onde o havia de guiar. E para que o inimigo não buscasse os enviados e lhes achasse este papel, o estudou de memória Simão Lopes de Oliveira.

Foram os nossos enviados bem recebidos no exército, e dele partiu pela posta um, que foi João Mendes Mexia, e veio à Corte a pedir socorro. Nós estávamos na praça esperando pelo nosso exército, que viesse conforme à promessa, porém ele se não movia; assim passámos até tornarem os enviados, sem haver de novo outra coisa mais que mandar o governador dar pão de munição a quase todo o povo.

[28] – 2ª feira pela manhã chegaram os enviados à praça, tendo sido retidos um dia do exército do inimigo, e vieram com promessa de socorro; querem alguns senhores e cabos que lhes deram frias esperanças.

O capitão António Barbosa de Brito trazia, sem os outros saberem, uma ordem do Conde general para o governador, e era assinada também pelo mestre de campo general e pelo dito capitão, escrita em um pedaço de papel, que era mais de um quarto, e nela dizia que Sua Majestade, que Deus guarde, por carte de 25 do corrente lhe ordenava que o avisasse de sua parte, lhe mandasse que não guardasse a capitulação feita com o inimigo, nem entregasse a praça,antes a defendesse até pela defensa dela derramar a última gota de sangue. Continha este papel o modo e sinais que se farião, e finalmente que o exército socorreria a praça a todo o risco, em conduzindo a gente que dele se tinha divertido [quer dizer, após reagrupar os soldados que se encontravam dispersos ou que tinham desertado do exército de socorro].

Para ver esta ordem chamou o governador a câmara, nobreza e povo, clérigos e todos os cabos da guarnição, capitães e daí para cima, e propôs que El-Rei [na verdade, a Rainha regente] mandava aquilo, mas que para o executar não havia pólvora para mais que três dias, e poupando-a para quatro, que o punha a votos, e que me pedia que eu os tomasse a todos, assinando cada um o seu.

A mim me pareceu que a ordem se devia executar, e não pôr em conselho, e entre outras coisas que mais disse foi este meu voto. Mandei de tudo fazer auto pelo escrivão da câmara, e por ser a casa do governador pequena e a gente muita, e estar mal acomodada, me passei paraa igreja de Santa Maria, aonde me chegou recado que somente a câmara, clero, governança e povo tomasse os votos, e que os da guerra lhos tomaria o governador. Assim o fiz, e de todos os que votaram só seis ou sete foram de acordo que a capitulação se guardasse, e destes ficaram quatro em Castela, os mais votaram que a praça se defendesse.

Mandei estes autos ao governador e ele mos tornou, dizendo que fosse com um homem da governança a ver a pólvora que tinha e me desenganaria eu e eles; eu lhe respondi que Sua Majestade me tinha mandado uma certidão do almoxarife, em que declarava a pólvora que tinha, que me parecia quantidade bastante, se se gastasse com boa ordem, e não tinha outro parecer senão o que já tinha dito. Disse-me então o procurador, que era o capitão Manuel Mendes Mexias, que o governador, estimulado do meu voto e dos da governança, estava de acordo de queimar os armazéns e formar os terços, investir as linhas, e salva-se quem se salvar.

Eu lhe dei em resposta que a ele lhe ordenavam que defendesse a praça, e não que a perdesse desta ou da outra maneira, e que nem tudo o que dizia podia fazer. Pela tarde apareceu o nosso exército em Vila Real com cavalaria avançada, em modo de nos vir socorrer.

Neste dia entregou o governador todos os armazéns, artilharia e munições e mantimentos a D. Diego de Rueda, e fez esta entrega o Du Four.

29 – 3ª feira mandou o governador ao capitão da ordenança João Lourenço Matos que fosse levar os reféns ao nosso exército; ele foi, e os primeiros que levou não lhos aceitaram, dizendo que haviam de ser à vontade do governador que contratou e que dessa não constava. Sendo disto avisado o governador, deu um rol de seis, os quais eram o Conde de Medellin, o filho do de Montijo, o do Marquês de Barcarrota, D. Rodrigo Mexia, D. Francisco de Guzmán, o Conde del Axenal, e deu um escrito em que dizia que se satisfaria com dois; destes foram levados ao nosso exército o filho 3º do de Montijo e o de Barcarrota, e os aceitaram.

30 – Era o dia final da entrega quarta-feira pela manhã, e sendo já bem tarde, não tinha vindo o nosso capitão a nos fazer certo que os reféns estavam já no nosso exército, contudo chegou com uma hora de dia. O Duque pedia a entrega, o governador dizia que conforme o contratado não havia de sair o povo e guarnição, senão em um dia pela manhã, e que depois de ele sair entraria a sua guarnição, e que aquela hora era tarde, que amanhã faria a entrega. Contudo lhe entregou logo a praça, largando-lhe a porta de São Francisco e o baluarte do mesmo santo, e o de São Brás.

Entrou a bagagem do castelhano, o Duque e alguns cabos e particulares. O nosso exército esteve sempre à nossa vista, esperando algum movimento nosso que não houve.

Ao outro dia, que era 5ª feira, saiu o povo, ficando lá somente, por então, 43 casais, e passaram para cá 942 largando suas casas e fazendas, e ainda dos que ficaram pedem bagagem para virem muitos.

Em meio do caminho nos mandaram fazer alto, e se lançou em nome de El-Rei de Castela um bando em que prometiaa todos os que ficassem que não pagariam alcavalas, nem teriam alojamentos, nem na praça meteriam guarnição estrangeira, senão de espanhóis, que dariam aos moradores razão e o mais que dessem aos soldados, que lhes reformariam as casas que arruinou a artilharia e lhes guardariam seus foros e privilégios, e lhes concederiam outros maiores, contudo nenhum tornou para trás. E vieram ao nosso exército, e daí se repartiram pelos lugares de Borba, Vila Viçosa e Elvas, aonde pelas justiças e câmaras lhes fizeram suas boas passagens.

Antes de Manuel de Saldanha [governador da praça] chegar ao exército, foram 20 cavalos levá-lo preso a Vila Viçosa, de onde depois foi passado à Torre de Belém. O mestre de campo João Álvares de Barbuda foi levado a Évora Monte.

A perda de Olivença teve como resposta, no ano seguinte, a fracassada tentativa de tomada de Badajoz pelos portugueses. A empresa partiu da iniciativa de Joane Mendes de Vasconcelos, cuja opinião tinha sido até aí contrária  a toda e qualquer operação de cerco àquela importante praça raiana. Ainda em 1658, foi a vez de D. Luís de Haro iniciar o cerco de Elvas, que culminaria em Janeiro do ano seguinte na batalha das Linhas de Elvas, da qual o exército português saiu vencedor. Pode afirmar-se que a tomada de Olivença pelo exército espanhol inaugurou o período final da guerra na fronteira alentejana, durante o qual se registou um aumento de intensidade das operações militares. Mas ao contrário do que foi temido aquando da perda da praça pelos portugueses, o revés de Olivença não conferiu grande vantagem estratégica aos exércitos de Filipe IV: toda a região raiana, de um lado e de outro da fronteira daquela parte, estava bastante devastada e incapaz de servir de apoio a exércitos numerosos. De facto, até ao nível das operações de saque e pilhagem, a guerra no Alentejo e na Extremadura flectiu mais para sul, para os campos do Baixo Alentejo e os domínios dos Duques de Medina-Sidónia, que até aí haviam sido relativamente poupados às acções de guerra.

Olivença seria devolvida à soberania da Coroa portuguesa após o Tratado de Paz de 1668.

O texto, cuja transcrição (com ortografia actualizada) ora se conclui, corresponde a um manuscrito anónimo existente na Biblioteca Nacional, secção de Reservados, agora somente disponível em microfilme (FR 970), cujo título é Relação de tudo o que [se] passou em Oliuença e no Campo do Cerco e tomada da praça pellos Castelhanos. Abril anno de 1657.

Imagem: Nova et accurata tabula Hispaniae, de Cornelis Dancker, c. 1656 (detalhe do mapa). A vila de Olivença, que no mapa não se encontra legendada, está aqui assinalada a vermelho. Biblioteca Nacional, Cartografia, CC 1214 A.

Cerco e tomada de Olivença (9ª parte – de 16 a 22 de Maio de 1657)

Juromenha

[16] – Ao amanhecer deu o inimigo a última investida e meteu no forte quantia de cinquenta homens, sem forma, os quais chegaram até o meio do vão dele e daí tornaram a recolher-se ao vão do fosso; então se retirou a infantaria que aí estava, e o tenente Manuel Pacheco, montando já em outro cavalo, a trouxe toda a salvamento, sem perder homem algum, ainda que dos de cavalo perdeu muitos. Acudiu Domingos Álvares Rogado, cabo dos rocins e éguas da sua terra [cavalaria da ordenança], e rechaçaram aos que entraram no forte, e acabou a infantaria de se pôr em salvamento na nossa estrada encoberta.

O inimigo perdeu muita e a melhor gente nesta investida, entre eles o sargento-mor de D. Pedro Alvarez de Toledo, e a um mestre de campo irlandês, pelo qual fizeram grande sentimento; na algibeira deste se achou a relação do seu terço e tinha 159 praças, contando sete da primeira plana em cada companhia.

Neste dia se pôs em conselho se se recolheria a guarnição da estrada encoberta, porque o inimigo pela parte do forte e dos ataques nos fazia dano; resolveu-se que sim, e pelo meio-dia se recolheu com pressa, sem haver quem os seguisse, contudo deixaram por retirar mortos e munições e madeiras de cortaduras, e outras coisas, como cavalinhos de pau, que tudo ficou no fosso. Fecharam-se as portas e se terraplanaram com a artilharia do cavaleiro, e do baluarte de S. Pedro se bateu o Forte Velho ocupado pelo inimigo, e suposto lhe mataram muita gente, não lhe arruinaram a parede que ficava para a nossa parte, assim por ser a parte dela de formigão, como porque o inimigo a ia terraplanando com faxina e terra.

[17] – Todo o dia de quinta-feira trabalhou o inimigo no terraplano do Forte Velho e fez plataforma nele, ainda que lhe não vi nela artilharia. Meteu de guarda um terço, que ao parecer teria trezentos homens; a nossa artilharia lhe fazia grande dano, por estar a gente mal coberta. Neste dia, por noite, se mandou um correio ao Conde de S. Lourenço.

[18] – 6ª feira todo o dia se pelejou bem, e por noite se despediu a Diogo Soares para levar cartas ao Conde general [Conde de São Lourenço]. Pela meia-noite se viu um sinal em Juromenha, de que o nosso correio era ali chegado. Neste dia tornaram a assistir em cada um dos baluartes os três homens da nobreza e governança, que de antes estavam nomeados; o inimigo fez muitas cortaduras de faxina no fosso do forte ganhado, porque estava descoberto à nossa mosquetaria do baluarte de São Pedro, e por elas se veio chegando à estrada encoberta por aquela parte.

19 – Sábado por noite fez sinal Juromenha de que o nosso correio era chegado àquela praça; de tarde se viram na atalaia de S. Robes Vieira fumaças, de que se deu parte ao governador. De tarde fez o inimigo chamada, e a ela mandaram o capitão António Barbosa, e trouxe recado [do] que o Duque dizia. Quinta-feira, 17 do presente, acometeu o nosso exército a escalar Badajoz, e fora rechaçado com perda de 500 homens, e assim o Conde [de São Lourenço], desesperado, se recolhera com parte do exército para Campo Maior e parte para Elvas, e ele desfeito como estava ficávamos impossibilitados de socorro, e assim nos convinha entregar a praça, para o que se faziam todos os bons partidos, aliás [ou seja, em caso contrário] a força, a fogo e sangue.

Trouxe esta embaixada o general da artilharia Tarragona, e a chamada a fez o tenente João de Vilanova, soldado conhecido e prático. Recolhido o capitão com o recado, sucedeu que o inimigo, pela parte de São Pedro, disparou uma peça de artilharia, com que nos matou um soldado; fez-se queixa ao governador, e ele mandou que desde o baluarte de Santa Quitéria até o de São João atirasse quem visse a quem, e daí para diante houve cessação de armas; foi um ajudante com a ordem para uma parte, e outro para outra, mas o que mandou atirar chegou primeiro, com o que os soldados pela muralha foram atirando à roda e com tanta presteza, que por toda a parte se deu uma redonda carga que lhe matou muita gente, principalmente a artilharia, contudo se mandou cessar por uma e outra parte.

Deu-se em resposta ao inimigo que um exército de 20.000 homens como o nosso se não derrotava com perda de 500, nem o governador estava certo disso; que a ordem que tinha era de pelejar, para o que tinha pólvora e balas, que o senhor Duque fizesse o que melhor lhe parecesse. Despedido o da chamada, se deu outra carga redonda de mosquetaria e artilharia, e ficámos à bateria como dantes. Estava pela parte [do baluarte] da Rainha chegado o inimigo com o seu ataque, sem haver entre ele e a nossa estrada encoberta maior distância que a grossura da tapa que fazia face ao parapeito, e daquele lugar se pelejou muitos dias até com manguais, contudo o suposto largámos a estrada encoberta; o inimigo não rompeu para ela, nem passou ao fosso, mas porque o devia fazer para chegar à muralha, e o fazia com menos risco de noite, lhe punha o De Four uns fachos acesos, que lançava no fosso, com o que tudo ficava claro, e nós vendo se o inimigo obrava alguma coisa.

Pareceu-lhe, ao sargento-mor Manuel de Magalhães, que se o inimigo entrasse poderia facilmente apagar os fachos que estavam no chão, e assim ordenou outros, que foram os candeeiros da Misericórdia com novelos de azeite, que a Câmara deu os necessários, e pendurava estes da muralha bem acesos, e davam luz bastante, com que o fosso ficava bem claro.

Desta maneira, de dia e de noite, até terça-feira 22 deste mês, neste fatal dia para Olivença, fez o inimigo chamada pela uma hora depois do meio-dia; veio a ela o Tarragona, que sempre foi o que as fazia, e tornou a pedir que se tratasse das antigas capitulações; o governador veio nisso, e mandou ao ajudante Domingos Martins Porto que me fosse pedir o primeiro original delas, que me tinha ficado. Estava eu dormindo no corpo da guarda da Corna e chegou o ajudante e me acordou, dizendo da parte do governador que lhas desse. Eu as tirei da algibeira e lhas dei, e tornei a dormir, quando daí a pouco ouvi grande rumor, e me acordou o sargento, dizendo [“]Senhor, acuda Vossa Mercê ao capitão Barbosa, que o mata o povo[“], e me disse que era motim, em razão de que se capitulava com o inimigo. Eu acudi e o capitão já era livre e enviado ao governador, aonde fui a informar-me do que passava, e ele me disse que o nosso exército nos não socorria e que o inimigo lhe concedia três dias para mandar a ele enviados, que o queria fazer porque desse modo punha a praça nas mãos do Conde general, se a quisesse socorrer, que podia, porque cá tinha no exército tudo o que podia esperar, e se não quisesse, que então o dito general a entregava com a não socorrer, e não ele.

Eu não consenti em o termo, nem em muitos artigos, e assim chamei a Câmara e governança e povo, e juntos fomos a Santa Maria, e levei a capitulação que o governador me largou, e lá fiz quatro artigos. O primeiro, que os moradores pudessem levar tudo o que seu fosse no termo de 8 meses, ainda que as coisas que quisessem levar fossem mantimentos ou coisas defesas [proibidas] de passar de um Reino para outro, e que pudessem deixar um feitor para lhas vender se lhes estivesse bem, e remeter o procedido delas, e querendo-as trazer, lhe daria o Duque bagagem, comboio e segurança necessária.

O segundo, que de qualquer modo que o nosso exército se afrontasse com o do inimigo e pelejassem, ainda que fosse só com a artilharia, não seríamos obrigados a estar pelo capitulado. O terceiro, que de qualquer modo que fôssemos socorridos e com qualquer número de gente que fosse, ficaríamos livres do capitulado. O quarto, que o Duque nos daria tempo de dez dias, e lugar para neles mandarmos sete enviados para dar conta ao Conde general do estado da praça, e que estes poderiam dentro deste termo passar e repassar pelo seu exército com toda a segurança, e se lhes daria um comboio [escolta] até chegarem ao nosso exército.

O primeiro intento que tivemos nisto foi desavirmo-nos com o Duque, e em caso que tudo concedesse podia o nosso exército, com qualquer gente que tivesse, vir de S. Ildefonso, aonde estava, para o quartel da Amoreira, ou tomar outro que melhor lhe conviesse, e pondo-se à bateria com o inimigo, nos iria defender, e em qualquer boa hora nos socorresse, ainda que furtivamente com algum número de gente, e parece que bastaria qualquer socorro para o inimigo largar a empresa, ou nós podermos tornar a guarnecer o que lhe tínhamos ganhado.

Fizeram-se outros motins contra algumas pessoas, o governador mandou formar na sua porta três companhias de infantaria, e assim as teve até o dia da entrega. Entendeu o governador que, para dar satisfação ao Paço do que se tratava com o inimigo, convinha mandar com o seu capitão algum homem da governança, e assim mandou naquele dia ao tenente Rui Peres Sardinha [oficial da cavalaria da ordenança – era muito frequente os oficiais das companhias da ordenança serem membros do poder local; por exemplo, vereadores das câmaras], e ao outro dia a Lourenço Galego Fajardo e o padre António de Matos, e de outra vez a Fernando Gomes de Cabreira e o padre Manuel Frade Lobo, e outra vez a João Farinha Lobo; porém, estes não levavam ordem demais que ouvirem o que se dizia e o capitão tratava.

Dilatámos a resposta acima, e ficou para responder-se ao outro dia até o meio-dia, o que o inimigo levou muito contra sua vontade, mas esperou até o outro dia pelas dez horas [que] se lhe respondesse; assim, ele concedeu oito dos dez dias pedidos, e sem conceder mais coisa alguma do que de novo pedimos, concluiu o governador com o seu conselho este negócio, e mandou reféns, que foram o mestre de campo João Álvares de Barbuda e o capitão Manuel de Brito do Carvalhal, que governava o terço de Beja, e de lá vieram o Conde de Torrejon e o sargento-mor D. Diego de Rejeda.

Estando já neste estado a praça, pediu o governador que na Câmara nomeássemos os sete homens qu haviam de ir ao exército, e entre outros me nomearam a mim e ao sargento-mor Manuel de Magalhães Galvão; porém ele disse que em nenhum caso podia ficar sem nós, porque temia alguma invasão, ou desavença do inimigo; com isto nomeámos, com seu acordo, a João Mendes Mexia, que é o que passou à Corte, e Fernando Gomes Cabreira, Gil Lourenço Codesa, vereador, o capitão António Barbosa de Brito, Simão Lopes de Oliveira, João Rodrigues, lavrador, e para os levar e vir com certeza de que lá ficavam, foi o padre António de Matos Mexia, a quem Sua Mejestade fez mercê da abadia de Carrapeto.

(conclui na próxima parte)

Este texto corresponde à transcrição (com ortografia actualizada) de um manuscrito anónimo existente na Biblioteca Nacional, secção de Reservados, agora somente disponível em microfilme (FR 970), cujo título é Relação de tudo o que [se] passou em Oliuença e no Campo do Cerco e tomada da praça pellos Castelhanos. Abril anno de 1657.

Imagem: Juromenha – praça com a qual a vila de Olivença mantinha comunicação por sinais visuais à distância (fogos, à noite), durante o cerco de 1657. Foto de J. P. Freitas.