O assalto a Oliva, 8 a 11 de Janeiro de 1654 (5ª e última parte)

André de Albuquerque Ribafria enviou uma mensagem a D. Manuel de Melo, para que este mandasse dois oficiais do seu terço, dos mais experientes e sagazes, ao castelo de Oliva, a fim de concretizarem os termos da capitulação com o governador. O mestre de campo escolheu o alferes da sua companhia, Manuel Francisco Canais, e o capitão Manuel de Almeida. Os espanhóis enviaram dois elementos para servirem como reféns junto do general da cavalaria – uma prática de etiqueta neste género de situações.

Os ajustes da capitulação não diferiram do que era prática corrente em situações semelhantes: os soldados sitiados saíriam com as armas às costas, e as de fogo carregadas com bala, mas somente até 200 passos da vila – depois, teriam de as entregar; as mulheres poderiam carregar tudo o que conseguissem, de pertences individuais, à cabeça, mas o mesmo não era permitido aos homens.

Segundo Mateus Rodrigues, quando os dois oficiais portugueses regressaram vinham mui bem aproveitados de coisas boas de dentro do castelo, que confessou um deles que lhe rendera a ida lá dentro bons cem mil réis. (MMR, pg. 384)

Seguiram-se então os procedimentos habituais. Os mestres de campo D. Manuel de Melo e Manuel de Saldanha, acompanhados de outros militares, foram ao castelo organizar a evacuação dos moradores e dos soldados. Mateus Rodrigues escreveu, a este respeito, algumas das páginas mais sentidas das suas memórias:

(…) Foi uma confusão notável entre as mulheres, porque além de ver que as faziam sair da sua pátria [ou seja, local de onde eram naturais], para nunca jamais a tornar a ver, por outra parte tinham tanto que levar cada uma que não podiam levar o que desejavam. Vejam bem como se apartariam de boa mente de sua pátria, (…) vendo ficar os maridos mortos, e outras os filhos e irmãos. Assim que não havia quem as fizesse apartar dali. Contudo, como era força fazê-lo, começaram a ir fazendo trouxas, cada uma o que podia levar à cabeça, mas algumas com paixão não levavam nada, senão tudo era prantos e gritos. Finalmente começaram a sair (…) pouco a pouco. (MMR, pg. 384)

Mateus Rodrigues formou, como a restante cavalaria e os infantes do terço de Olivença, em duas alas, de cada lado da estrada por onde a procissão dos desalojados e rendidos iria passar, debaixo de intensa chuva. O resto já aqui foi descrito num artigo anterior, pelo que evito repetir a narrativa do soldado de cavalos a este respeito.

A capitulação previa que as gentes de Oliva fossem escoltadas, a partir de certa altura, por um destacamento de cavalaria de Jerez de los Caballeros, cidade que seria o seu destino. Vieram de Jerez 100 cavalos meia légua de nós, em comboio desta gente (…), e posto que assim se ordenou de lá e de cá, que estavam em Jerez 200 cavalos que se haviam juntado aí, do regimento de Rosalles [Juan de Rosalles, comissário geral]. (MMR, pg. 385)

Após a saída do moradores, vieram os militares (200 homens), de armas às costas. Respeitando as cerimónias usuais nestes casos, e conforme estava combinado na capitulação, os portugueses saudaram os espanhóis com uma salva de mosquetes. Recolhidas as armas após a saída da guarnição, trataram os soldados portugueses de entrar na vila. A cena descrita por Mateus Rodrigues é típica de qualquer conflito da Era Moderna:

(…) Quis Deus que, como demos pelas casas da vila, começamos a fazer grandes fogos com as caixas, cadeiras e portas das casas de onde nos metíamos, que quando amanheceu já não havia ninguém que não estivesse muito bem enxuto e bem farto de carne, que não faltava na vila, assim morta como porcos vivos que na vila havia. (MMR, pg. 387)

Na vila ficou o capitão Manuel de Almeida comandando uma guarnição de 200 homens. Entre a partida  e o regresso da força portuguesa a Elvas e a Olivença passaram-se nove dias. Mateus Rodrigues refere que as perdas portuguesas foram cerca de 150 homens – só no terço de D. Manuel de Melo houve mais de 120 baixas, entre mortos e feridos; o terço de Olivença, de Manuel de Saldanha, não chegou a combater. As perdas dos defensores de Oliva ascenderam a mais de 60 mortos.

O memorialista frisou que a tomada da vila e castelo de Oliva fora a jornada de maior proveito para Portugal em mais de 10 anos. No imaginário castrense, a conquista de uma povoação, pela sua raridade, conferia um prestígio superior a qualquer usual operação de rapina ou combate renhido. No entanto, com esta façanha Mateus Rodrigues colocou um ponto final em 13 anos de serviço ininterrupto no exército do Alentejo. Ainda lá voltaria por um breve período, mas somente passados três anos, durante os quais aproveitou para redigir a maior parte das suas memórias.

Imagem: “Dividindo os despojos”. Pintura de Jacob Duck. Museu do Louvre, Paris.

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O assalto a Oliva, 8 a 11 de Janeiro de 1654 (3ª parte)

Sem saber que tinham sido detectados, os portugueses avançaram sobre Oliva de la Frontera.

Cercada a vila com a cavalaria toda, chegou a infantaria e o nosso general diante dela. Chegaram à trincheira sem ouvirem dentro rumor nenhum, como que não havia ali gente nenhuma. E a esquadra que estava à porta não quis dar tiro nenhum à nossa gente até que eles os não viram subir pela trincheira acima, pelas escadas, e assim como os nossos foram subindo, dá-lhe a esquadra uma carga que logo ali caíram onze homens. Assim como o inimigo deu esta carga logo desamparou a porta e a trincheira e se foram de carreira meter no castelo, porque aquela esquadra não a pôs o inimigo ali para defender a trincheira, senão para que os do castelo soubessem quando nós chegávamos, para se prevenirem. (MMR, pg. 374)

Estes detalhes são omitidos na carta de D. João da Costa para D. João IV. A riqueza do texto de Mateus Rodrigues reside na perspectiva que este tem das operações, à escala das preocupações do homem comum, com pormenores que escapam às mais elaboradas narrativas produzidas com fins informativos e propagandísticos. Esclareça-se que o termo “trincheira” empregue por Mateus Rodrigues correspondia a um baluarte provisório, erigido com terra e eventualmente reforçado com madeira no interior, destinado a proteger as entradas de uma localidade e a reforçar as defesas já existentes.

Depois de terem sofrido as baixas repentinamente, devido à salva disparada de surpresa e à queima-roupa, o ânimo dos soldados portugueses esfriou. Como o nosso general viu isto, pareceu-lhe que os soldados estavam já com medo e que seria necessário muito tornar a fazê-los avançar. E assim disse a Manuel de Melo e ao mestre de campo Manuel de Saldanha (…) que seria necessário eles fazerem exemplo aos soldados, em subirem diante eles pela trincheira, para que os soldados não duvidassem, e apenas tinha dito isto (…) já ele ia subindo pela trincheira com uma rodela e uma espada na mão, seguindo-o logo as duas pessoas nomeadas e assim mais todos os soldados. (…) Contudo, assim como o inimigo, do castelo, os sentiu dentro [da trincheira], eram tantas as balas que botava dele que parecia que botavam como saraiva, porque todas quantas ruas tem e tinha a vila, todas as lavava o castelo com sua mosquetaria. E como fazia grande luar, dava muita ajuda ao inimigo, e foi a coisa de modo que não tiveram os nossos outro remédio para ficarem dentro da vila, senão irem minando as casas por dentro, pelas paredes, e meteram-se dentro, em as casas, todo o terço de Manuel de Melo, em uma rua que ficava bem defronte do castelo; porque, como vinha já amanhecendo, não era possível aparecer ninguém onde chegasse arma de fogo do castelo, porque assim que aparecia algum nosso onde o inimigo lhe chegasse, já ele estava morto; que, de 200 homens que no castelo estavam, não havia um só que não fosse caçador do ar [caçadores de aves], e assim nunca jamais erravam tiro que fizessem. De modo que antes que fosse manhã, já o terço todo estava metido dentro das casas de uma rua fronteira do castelo, e o inimigo mui bem soube logo que a nossa gente estava metida naquela rua, porém pelejava-se grandemente de ambas as partes, mas da nossa com pouco proveito, em razão que como os castelhanos estavam dentro do castelo, não lhes podiam os nossos fazer tanto dano como eles a nós, que nos [a]tiravam de dentro de umas ameias do castelo, e nós não lhe podíamos fazer mal nenhum, porque a nossa infantaria não podia pelejar senão de dentro das casas, que faziam uns buracos por dentro das paredes que ficassem bem defronte do castelo, e metiam por os buracos os mosquetes. E assim como viam assomar algum castelhano, atiravam-lhe; assim como os castelhanos viam atirar, logo atiravam para aquela parte (…). E bem viam os buracos, porque a distância do [desde o] castelo a[té] onde os nossos estavam era coisa pouca. O nosso general logo mandou tomar umas casas em entrando dentro da vila para ele estar, mas não ficava da parte donde o inimigo lhe fizesse dano. E dali não saiu até que a vila e castelo se não tomou. Dali mandava as ordens do que se havia de fazer ao mestre de campo Manuel de Melo, que estava com o seu terço dentro das casas para dar ordem ao terço a pelejar e para mandar fazer as minas (…). (MMR, pgs. 375-376)

O terço de Olivença comandado por Manuel de Saldanha, bem como toda a cavalaria e a bagagem, permaneciam longe da vista dos moradores de Oliva, ocultados em outeiros e vales. Os soldados, desocupados de qualquer acção de combate, aproveitavam a lenha que podiam recolher livremente para se aquecerem com os grandes fogos que faziam, pois o frio era intenso. Entretanto, na vila prosseguia o tiroteio entre os defensores do castelo e o terço de D. Manuel de Melo. Os do castelo apupavam os portugueses, chamando-lhes “galegos” e  gritando-lhes que tinham escolhido mal o dia e “que levassem as casas da vila às costas” (as casas estavam completamente vazias, como refere Mateus Rodrigues; nada havia que pudesse ser pilhado); havia uma enorme confiança entre os defensores de Oliva acerca da inexpugnabilidade do castelo.

André de Albuquerque recebeu uma mensagem de D. Manuel de Melo: a pouco e pouco os soldados do seu terço iam consumindo as munições e alguns tombando, sem que se pudesse fazer qualquer dano aos castelhanos – aguardava, pois, instruções sobre o que fazer. André de Albuquerque mandou então que os mineiros começassem a abrir minas e mandou avançar as mantas. Curiosamente, na carta enviada ao Rei, D. João da Costa afirma que partiram dele estas ordens – mas o mestre de campo general não fez parte da expedição. Aliás, tanto o Conde de Ericeira como Mateus Rodrigues são claros quanto a quem comandou toda a operação, e o soldado de cavalos fez parte da força que nela participou.

(…) Mandaram logo preparar as mantas, que eram duas, que levava cada uma um petardo (…), e lançaram-nas por uma porta grande que estava em uma das casas. Assim como o inimigo as viu sair eram tantas as balas que se cobria o ar com elas. (…) As mantas são de prova de mosquete [ou seja, à prova de mosquete] e mui fortes, contudo lançou o inimigo uma ameia do muro abaixo e botando-a em cima de uma das mantas, a fez numa pasta, que como era grande altura e [a] ameia pesava mais de dez quintais, não pôde a manta sustentar o peso da pedra. E a outra deu fogo à muralha com o petardo, mas não fez nada, que estava já o soldado debaixo dela com grande medo, vendo o fim que a outra teve, e assim como deu fogo ao petardo, vendo que não obrava nada, veio-se embora com a manta, e o inimigo fazendo grande risada e galhofa (…). (MMR, pgs. 376-377)

A carta-relatório de D. João da Costa é muito prosaica a este respeito:

(…) Se arrimou um petardo à porta, e dando-se-lhe fogo três vezes, não tomou, pela humidade do tempo o impedir, até que com as pedras quebraram os castelhanos  as estacas em que se sustentam os petardos. (Livro 2º…, pg. 42)

Mais um ponto em que o discurso de D. João da Costa se afasta do que Mateus Rodrigues viu e escreveu.

(continua)

Léxico:

Manta – protecção de madeira, colectiva ou individual, revestida de peles de animais, sob a qual se abrigavam os soldados que deviam aproximar-se das muralhas ou portas para colocar o petardo.

Petardo – engenho explosivo em forma de sino que se fixava contra uma porta ou uma muralha, a fim de as rebentar.

Imagem: Modo de colocar um petardo. Gravura do século XVII, via The Artillery Garden.

O assalto a Oliva, 8 a 11 de Janeiro de 1654 (2ª parte)

A propósito de Oliva de la Frontera, Juan Antonio Caro del Corral enviou esta ligação para um artigo online de Alfonso Gil Soto, intitulado “El impacto de la Guerra de Secesion Portuguesa (1640-1668) en los territorios de la Extremeña: el caso de Oliva de la Frontera” (in Alcántara, 2001, pgs. 53-54):

http://ab.dip-caceres.org/alcantara/alcantara_online/53_54/53_54_006a.htm

Ao amigo Juan Antonio agradeço, mais uma vez, a sua oportuna colaboração.

Prossigamos a narrativa, seguindo as memórias de Mateus Rodrigues. Com tudo acertado para a operação, o terço de Moura começou a reunir mantimentos para 8 dias. Todas as bestas da vila de Moura, em número de 1.000, foram requisitadas para puxarem as carroças e transportarem os mantimentos e as munições, para além das que os soldados levariam em mochilas (designação dada na altura a grossos sacos usados a tiracolo). Tudo isto foi feito com o sigilo possível, para não despertar qualquer desconfiança no inimigo. O ponto de reunião das forças de cavalaria com a infantaria de Moura seria a vila de Mourão.

Dia de Reis, que foi em 6 de Janeiro de 1654, saiu o nosso general André de Albuquerque da cidade de Elvas pela manhã, pela porta da esquina fora, com duas companhias de cavalo, que era a sua e a minha (…), e com duas peças de artilharia de 24 libras cada uma, e quando saímos (…) não havia ninguém que soubesse para onde marchávamos (…). Havia um rumor de que levávamos aquelas peças para o castelo de Vila Viçosa e que ia lá o general para as mandar pôr, (…) e quando lá chegámos já não havia quem não soubesse que íamos a Castela, mas não adonde.

No dia 7, pela manhã, as duas companhias de cavalos formaram em frente à estalagem onde o general tinha pernoitado, e daí seguiram para Mourão, onde chegaram já de noite e onde já se encontrava D. Manuel de Melo com o seu terço. Os soldados de cavalos tiveram de suportar uma noite bem fria e chuvosa de Inverno, muito mal acomodados ou ao relento, pois os alojamentos (as casas dos moradores da vila) estavam já todos ocupados pelos soldados de infantaria e as cavalariças pelas bestas de carga do terço.

Na manhã do dia 8, a força seguiu pela estrada de Vilanova de Portugal (Villanueva del Fresno), percorrendo duas léguas até se reunir ao terço de Manuel de Saldanha e à cavalaria de Olivença. Segundo Mateus Rodrigues, o total das cavalgaduras que acompanhava o pequeno exército era de 3.000, mais do que o número de tropas pagas que ali marchava – uma cauda logística bem extensa. Em Vilanova tiveram pouco tempo para descansar e comer, pois a etapa até Oliva, onde tinham de chegar antes do amanhecer, ainda era longa (mais de 4 léguas e mau caminho para a infantaria, que não podia ir formada, nem a cavalaria tampouco). A coluna demorou bastante tempo a formar; a cavalaria toda na vanguarda (1.400, segundo Mateus Rodrigues, mais cem do que D. João da Costa aponta na sua carta), a infantaria (1.500 homens) na retaguarda, e toda a carriagem e cavalgaduras no meio. Em grande silêncio prosseguiu a marcha, passando a ribeira de Alcarrache, uma légua depois de Vilanova, e continuando por azinhais. A precaução destinava-se a não serem sentidos, mas bem podíamos ir com toda a galhofa e bulha, pois o inimigo estava de aviso. Com efeito, na sua carta o Conde de Soure refere que no dia 8 tinha o inimigo uma partida sobre Mourão, a qual, vendo marchar a nossa gente, avisou a sua, com o que nos esperavam recolhidos no castelo com as armas nas mãos. Mateus Rodrigues acrescenta mais detalhes: tinha sido o tenente Marim, com 10 cavaleiros, quem tinha detectado a força portuguesa, e à rédea solta correra a avisar as gentes de Oliva. E suposto que o inimigo já tinha parte do fato metido no castelo, assim como o tenente chegou e deu aquela triste nova, enquanto tiveram tempo meteram tudo quanto puderam no castelo, e deixaram as casas só com as paredes e alguma caixa vazia, e (…) meteu-se toda a gente dentro no castelo, e não deixaram fora mais que trinta homens e a companhia de cavalos que estava na terra. O capitão, que Rodrigues reputa de grande soldado, e antigo, tinha ido comandar as companhias de Talavera (até nisto foi o nosso general bem afortunado, pois se este capitão não tivesse sido transferido e estivesse dentro do castelo, nem o poder do mundo o havia de tomar, porque era homem do diabo e muito valente, chamava-se D. Diego Quexada). Mas era agora o tenente Marim que comandava a cavalaria. Este, logo que caiu a noite, meteu a sua mulher na igreja com as demais mulheres da vila e partiu com os seus soldados para uma ermida de Nosso Senhor que fica em um outeirinho junto da mesma vila, e daí lançou sentinelas para detectar a progressão da força portuguesa.

A um quarto de légua de Oliva, André de Albuquerque fez adiantar a cavalaria, para que fossem tomadas todas as vias de entrada e saída da vila. O general da cavalaria pensava que havia duas companhias de cavalos em Oliva, mas de facto, apenas ali servia a do tenente Marim – e mesmo essa fez o oficial espanhol retirar para Jerez de los Caballeros, não sem antes alertar os soldados que estavam de guarda na trincheira de que os portugueses se aproximavam.

(continua)

Bibliografia: Livro 2º…, pgs. 41-42; MMR, pgs. 369-374; veja-se a 1ª parte desta série para as referências completas.

Imagem: Oliva. Planta publicada em La memoria ausente. Cartografia de España y Portugal en el Archivo Militar de Estocolmo. Siglos XVII y XVIII. O outeiro onde se situa a ermida referida no texto é visível no canto superior direito da planta. Ao contrário do que eu tinha aqui escrito ontem, a colina visível no canto superior direito do mapa não se trata do outeiro da ermida, mas sim de “el Moriscote”. Veja-se o comentário nº 1, do Sr. Andrés Francisco Perez Cuecas (a quem eu agradeço a colaboração), para o completo esclarecimento.

Cerco e tomada de Olivença (10ª e última parte – de 23 a 31 de Maio de 1657)

Mapa

[23] [Nota de Horácio Madureira dos Santos: No original está erradamente indicado o dia 24] – Partiram os enviados 4ª feira pela manhã, e nesse dia tornou o padre António de Matos trazendo do Conde general largas promessas de socorro, com que foi grande a alegria que houve na vila comummente em todos. Levava João Mendes Mexia uma instrução que o governador e o Du Four fizeram, em que pediam, afora o que já tinham pedido, que creio era pólvora, que lhe mandassem 1.500 infantes, e nesses viessem duzentos rodeleiros [soldados armados de espada e rodela – escudo pequeno e redondo – que eram empregues em missões especiais], e que esses, em chegando, guarnecessem a estrada encoberta e surtissem pelos aproches do inimigo, e sustentassem o que fosse ganhado, e que ele tinha outros 200 da gente da vila com que render aos que viessem.

E assim lhe mandassem 130 cavalos com um bem valente cabo, e lhe mandassem vinho para as missas, e medicamentos para os feridos, e que se resolvessem em socorrer a praça, o que podia fazer pela parte de Santa Catarina ou pela serra. Afora estas, levava outras advertências. E o sargento-mor Manuel de Magalhães mandou outra instrução por João Rodrigues, lavrador prático, e foi à torre a lhe mostrar o sítio e lugar por onde o socorro podia entrar e por onde o havia de guiar. E para que o inimigo não buscasse os enviados e lhes achasse este papel, o estudou de memória Simão Lopes de Oliveira.

Foram os nossos enviados bem recebidos no exército, e dele partiu pela posta um, que foi João Mendes Mexia, e veio à Corte a pedir socorro. Nós estávamos na praça esperando pelo nosso exército, que viesse conforme à promessa, porém ele se não movia; assim passámos até tornarem os enviados, sem haver de novo outra coisa mais que mandar o governador dar pão de munição a quase todo o povo.

[28] – 2ª feira pela manhã chegaram os enviados à praça, tendo sido retidos um dia do exército do inimigo, e vieram com promessa de socorro; querem alguns senhores e cabos que lhes deram frias esperanças.

O capitão António Barbosa de Brito trazia, sem os outros saberem, uma ordem do Conde general para o governador, e era assinada também pelo mestre de campo general e pelo dito capitão, escrita em um pedaço de papel, que era mais de um quarto, e nela dizia que Sua Majestade, que Deus guarde, por carte de 25 do corrente lhe ordenava que o avisasse de sua parte, lhe mandasse que não guardasse a capitulação feita com o inimigo, nem entregasse a praça,antes a defendesse até pela defensa dela derramar a última gota de sangue. Continha este papel o modo e sinais que se farião, e finalmente que o exército socorreria a praça a todo o risco, em conduzindo a gente que dele se tinha divertido [quer dizer, após reagrupar os soldados que se encontravam dispersos ou que tinham desertado do exército de socorro].

Para ver esta ordem chamou o governador a câmara, nobreza e povo, clérigos e todos os cabos da guarnição, capitães e daí para cima, e propôs que El-Rei [na verdade, a Rainha regente] mandava aquilo, mas que para o executar não havia pólvora para mais que três dias, e poupando-a para quatro, que o punha a votos, e que me pedia que eu os tomasse a todos, assinando cada um o seu.

A mim me pareceu que a ordem se devia executar, e não pôr em conselho, e entre outras coisas que mais disse foi este meu voto. Mandei de tudo fazer auto pelo escrivão da câmara, e por ser a casa do governador pequena e a gente muita, e estar mal acomodada, me passei paraa igreja de Santa Maria, aonde me chegou recado que somente a câmara, clero, governança e povo tomasse os votos, e que os da guerra lhos tomaria o governador. Assim o fiz, e de todos os que votaram só seis ou sete foram de acordo que a capitulação se guardasse, e destes ficaram quatro em Castela, os mais votaram que a praça se defendesse.

Mandei estes autos ao governador e ele mos tornou, dizendo que fosse com um homem da governança a ver a pólvora que tinha e me desenganaria eu e eles; eu lhe respondi que Sua Majestade me tinha mandado uma certidão do almoxarife, em que declarava a pólvora que tinha, que me parecia quantidade bastante, se se gastasse com boa ordem, e não tinha outro parecer senão o que já tinha dito. Disse-me então o procurador, que era o capitão Manuel Mendes Mexias, que o governador, estimulado do meu voto e dos da governança, estava de acordo de queimar os armazéns e formar os terços, investir as linhas, e salva-se quem se salvar.

Eu lhe dei em resposta que a ele lhe ordenavam que defendesse a praça, e não que a perdesse desta ou da outra maneira, e que nem tudo o que dizia podia fazer. Pela tarde apareceu o nosso exército em Vila Real com cavalaria avançada, em modo de nos vir socorrer.

Neste dia entregou o governador todos os armazéns, artilharia e munições e mantimentos a D. Diego de Rueda, e fez esta entrega o Du Four.

29 – 3ª feira mandou o governador ao capitão da ordenança João Lourenço Matos que fosse levar os reféns ao nosso exército; ele foi, e os primeiros que levou não lhos aceitaram, dizendo que haviam de ser à vontade do governador que contratou e que dessa não constava. Sendo disto avisado o governador, deu um rol de seis, os quais eram o Conde de Medellin, o filho do de Montijo, o do Marquês de Barcarrota, D. Rodrigo Mexia, D. Francisco de Guzmán, o Conde del Axenal, e deu um escrito em que dizia que se satisfaria com dois; destes foram levados ao nosso exército o filho 3º do de Montijo e o de Barcarrota, e os aceitaram.

30 – Era o dia final da entrega quarta-feira pela manhã, e sendo já bem tarde, não tinha vindo o nosso capitão a nos fazer certo que os reféns estavam já no nosso exército, contudo chegou com uma hora de dia. O Duque pedia a entrega, o governador dizia que conforme o contratado não havia de sair o povo e guarnição, senão em um dia pela manhã, e que depois de ele sair entraria a sua guarnição, e que aquela hora era tarde, que amanhã faria a entrega. Contudo lhe entregou logo a praça, largando-lhe a porta de São Francisco e o baluarte do mesmo santo, e o de São Brás.

Entrou a bagagem do castelhano, o Duque e alguns cabos e particulares. O nosso exército esteve sempre à nossa vista, esperando algum movimento nosso que não houve.

Ao outro dia, que era 5ª feira, saiu o povo, ficando lá somente, por então, 43 casais, e passaram para cá 942 largando suas casas e fazendas, e ainda dos que ficaram pedem bagagem para virem muitos.

Em meio do caminho nos mandaram fazer alto, e se lançou em nome de El-Rei de Castela um bando em que prometiaa todos os que ficassem que não pagariam alcavalas, nem teriam alojamentos, nem na praça meteriam guarnição estrangeira, senão de espanhóis, que dariam aos moradores razão e o mais que dessem aos soldados, que lhes reformariam as casas que arruinou a artilharia e lhes guardariam seus foros e privilégios, e lhes concederiam outros maiores, contudo nenhum tornou para trás. E vieram ao nosso exército, e daí se repartiram pelos lugares de Borba, Vila Viçosa e Elvas, aonde pelas justiças e câmaras lhes fizeram suas boas passagens.

Antes de Manuel de Saldanha [governador da praça] chegar ao exército, foram 20 cavalos levá-lo preso a Vila Viçosa, de onde depois foi passado à Torre de Belém. O mestre de campo João Álvares de Barbuda foi levado a Évora Monte.

A perda de Olivença teve como resposta, no ano seguinte, a fracassada tentativa de tomada de Badajoz pelos portugueses. A empresa partiu da iniciativa de Joane Mendes de Vasconcelos, cuja opinião tinha sido até aí contrária  a toda e qualquer operação de cerco àquela importante praça raiana. Ainda em 1658, foi a vez de D. Luís de Haro iniciar o cerco de Elvas, que culminaria em Janeiro do ano seguinte na batalha das Linhas de Elvas, da qual o exército português saiu vencedor. Pode afirmar-se que a tomada de Olivença pelo exército espanhol inaugurou o período final da guerra na fronteira alentejana, durante o qual se registou um aumento de intensidade das operações militares. Mas ao contrário do que foi temido aquando da perda da praça pelos portugueses, o revés de Olivença não conferiu grande vantagem estratégica aos exércitos de Filipe IV: toda a região raiana, de um lado e de outro da fronteira daquela parte, estava bastante devastada e incapaz de servir de apoio a exércitos numerosos. De facto, até ao nível das operações de saque e pilhagem, a guerra no Alentejo e na Extremadura flectiu mais para sul, para os campos do Baixo Alentejo e os domínios dos Duques de Medina-Sidónia, que até aí haviam sido relativamente poupados às acções de guerra.

Olivença seria devolvida à soberania da Coroa portuguesa após o Tratado de Paz de 1668.

O texto, cuja transcrição (com ortografia actualizada) ora se conclui, corresponde a um manuscrito anónimo existente na Biblioteca Nacional, secção de Reservados, agora somente disponível em microfilme (FR 970), cujo título é Relação de tudo o que [se] passou em Oliuença e no Campo do Cerco e tomada da praça pellos Castelhanos. Abril anno de 1657.

Imagem: Nova et accurata tabula Hispaniae, de Cornelis Dancker, c. 1656 (detalhe do mapa). A vila de Olivença, que no mapa não se encontra legendada, está aqui assinalada a vermelho. Biblioteca Nacional, Cartografia, CC 1214 A.

Cerco e tomada de Olivença (4ª parte – de 22 a 30 de Abril de 1657)

Olivença3

[22 de Abril – Está, por lapso, indicado no original com o nº 23; nota introduzida por Horácio Madureira dos Santos na sua transcrição] – Domingo se viram mui avante as linhas do inimigo que, como trabalhavam nelas de noite, apareciam pela manhã crescidas; pela tarde deu uma bala grossa na rua das Flores, e na chapeleta que fez matou um alferes auxiliar, foi este o primeiro homem que o inimigo nos matou.

Desde este dia se deu carga contínua de mosquetaria de dia e de noite pelas partes em que o inimigo trabalhava, para lhe impedirem o seu serviço.

23 – 2ª feira amanheceu uma nova plataforma no mosteiro de São Bartolomeu, mas por baixo, coisa de trezentos passos, e para ela passou o inimigo as peças que na outra tinha; ficava esta menos de tiro de mosquete da praça.

[24] – 3ª feira ao amanhecer entrou na praça Diogo Soares, soldado honrado, o qual estava fora dela ao tempo que chegou o inimigo. Neste dia amanheceu outra bateria, posta por baixo da Cruz de São Pedro; nesta havia três peças grossas, duas faziam tiro aos baluartes da Rainha e uma à Torre d’El-Rei, e esta lhe quebraram algumas pedras junto às obras mortas. Um auxiliar de Évora falou da praça, entendeu-se que se passara ao inimigo.

[25] – 4ª feira esforçou muito o inimigo as suas baterias, e as balas, que davam no muro, tornavam para trás, estas nos mataram cinco soldados, e as que saltavam para dentro da vila fazendo chapeletas mataram cinco bois; as primeiras três bombardas arruinaram três moradas de casas.

As sentinelas da ronda tocaram arma ao inimigo, e enquanto durou, largaram todos o trabalho, e todos andavam com tanta confusão que os não podiam os cabos reduzir à forma. Nesta noite escreveu o governador [da praça, Manuel de Saldanha] ao Conde [de São Lourenço] e a Câmara [de Olivença] lhe escreveu o seguinte:

Presente é a Vossa Senhoria quantos dias há que o inimigo nos tem sitiados, e com não serem muitos nos tem cortado os olivais, destruindo os pães [ou seja, as culturas], e comida da sua cavalaria e bagagens; com a artilharia e bombas nos vai arruinando as casas, com o que nos não deixa fora de toda a pobreza e miséria. Nós somos e fomos sempre bons e fiéis vassalos a Sua Majestade, e como tais merecemos ser socorridos, o que temos por muito certo, confiados na grande mercê que Vossa Majestadefez sempre aos moradores desta vila. este socorro ficamos esperando, e pedindo a Deus que nele dê a Vossa Senhoria os bons sucessos que desejamos.

Esta carta cifrou [ou seja, pôs em cifra, em código] Gilot, e creio que fielmente, se bem me disse o que escreveu a cifra que lhe acrescentou ou cortou, mas ele passou, e a levou o Franco. Neste dia se tomou língua, e uma das balas que faziam tiro à torre fez em pedaços um sino que estava nela e servia de tocar a rebate.

26 – Quinta-feira pela manhã teve a nossa cavalaria uma escaramuça com a companhia da guarda do inimigo junto das hortas, no Ferragial do Azoche; durou um bom espaço e foi bem travada. Os nossos se recolheram sem dano, o inimigo algum recebeu, e eu soube do tenente Pantoja [oficial espanhol], [n]o dia em que saímos rendidos, que lhe morreram quatro e foram feridos quinze, e muitos cavalos. Neste dia fez o governador repartição dos homens nobres para estarem nos baluartes, três em cada um, mandando na artilharia e vendo como se pelejava por aquelas partes, para que, parecendo-lhes necessário, o advertissem [no sentido de “avisassem”] aos capitães, e a ele.

Por noite um soldado de D. Tomás Geraldino se passou para o inimigo, um mosquete que rebentou matou um soldado e levou a outro uma mão. Uma bala grossa quebrou pela jóia um sacre que estava na torre, com a qual e outra peça de três libras se fez grande dano ao inimigo.

[27] – Sexta feira se começou de ver uma linha que de novo fazia o inimigo; começava no quartel do olival de João Cabelo e ia caminhando ao redor da praça, a tiro de arcabuz da estrada encoberta para a parte da Corna. O governador mandou com grande cuidado segar os pães [ceifar o trigo e outros cereais] que estavam ao redor da vila, por estarem tão crescidos que se não viam as obras do inimigo senão quando eram já mais altas que eles; isto cometeu ao sargento-mor da terra Gil Vaz cabeça, o qual o fez com os moradores dela.

Neste dia acabou o inimigo de fazer a outra linha de comunicação de uma bateria para a outra, e ambas guarnecia do quartel de Vale Mimoso. Daquela linha saíam soldados a tomar alfaces nas hortas do Ral, que ficavam entre nós e eles, e lhe mataram os nossos alguns com tiros, da estrada encoberta. Acabou-se uma meia lua que o governador mandou fazer entre os baluartes da Corna e do Calvário, e se guarneceu e começou de se trabalhar em outra, que mandou fazer defronte da porta do Calvário.

O inimigo, desenganado com o pouco efeito que a sua artilharia fazia no baluarte da Rainha, deu mais elevação às peças e meteu os tiros por dentro da vila, com o que fez grande dano nas casas daqueles bairros; deixou de atirar à torre e algumas vezes atirou à estacada da estrada encoberta, com o que nos matou e feriu alguns soldados.

28 – Sábado pela manhã apareceu um quartel escrito em meia folha de papel perto da nossa estrada encoberta, em um pau que parecia cabo de enxada; trouxeram-no ao governador e ele o recolheu.

Também apareceu mui avante a linha que fazia pela parte do campo de [espaço em branco no texto original; nota de HMS]. A artilharia do inimigo arruinou muitas casas na rua grande de S. Bartolomeu, e entre estas as em que eu vivia. Trabucou e lançou esta noite vinte e uma bombas, que arruinaram algumas casas.

Pôs o governador fachos em a torre e sucedeu que estando ele com muita gente na abóbada da porta do Calvário, dos quais todos dormiam, senão João Mendes Mexia, Fernão Gomes de Cabreira e Gilot, que passeavam, se disparou uma arma, e o pelouro dela deu em Salvador Machado, sargento-mor dos auxiliares de Beja, e lhe quebrou uma perna, de que morreu em três dias. Como era noite em que se trabucava, com  o ruído do tiro saíram todos fugindo desacordados, cuidando que era bomba que ali caíra, com o que se não pôde fazer averiguação certa do caso, mas sempre se teve que foi desastre.

Duravam as baterias, e de uma e outra plataforma atiravam furiosamente. Em tanto que houve dia em que se contaram setecentos tiros, segundo me afirmaram soldados curiosos e de verdade. Domingo [dia 29] pela manhã se passou para a praça um soldado do exército, era português, deu algumas notícias do poder do inimigo, mas pouco certas. de tarde saíram a tomar língua dois soldados nossos que foram Gonçalo Vaz e outro, o inimigo os carregou com muitos, contra os quais sustentaram uma escaramuça por muito tempo, e se retiraram sem dano.

À noite começámos de ver fogos por junto de Juromenha, tivémos grande festa, entendendo que era o nosso exército. Como assim foi sem embargo de que Castilho [Stéphane Auguste de Castille] sustentava, e com apostas, que nem era o exército, nem havíamos de ser socorridos, o que dava grande escândalo a todos. O governador mandou continuar os fachos na torre.

[30] 2ª feira pela manhã se via que da linha da comunicação entre as baterias do inimigo saía formado um aproche, com que caminhava direito à estrada encoberta, pela parte do baluarte da Rainha. Este formavam de noite, e faziam o que lhe bastava para se cobrirem de alto e grosso, e de dia o engrossavam e trabalhavam cobertos.

Pela manhã veio um escravo branco e ferrado, que era tambor-mor, e cuidava que o nosso forte era quartel seu, e se veio meter nele. Este foi trazido ao governador e disse que no dia atrás tinha chegado ao exército D. Francisco de Guzmán, novo mestre de campo que vinha de Sevilha com nove companhias de infantaria, e que logo lhe mataram um moço que era o melhor sapateiro que havia na cidade.

Do quartel de S. Francisco Velho se passou para cá outro castelhano bem fardado, mas ao meu ver e ao de todos, falto de juízo. Outro se tomou para língua, de todos soubemos que entre os Duques de S. Germán e o de Osuna houvera diferenças e que chegaram [a] vir à espada, e foi porque o de Osuna disse que era ruim guerra atirar às casas da vila, que queria ganhar, e que rompesse a muralha e entrasse a praça, que a isso vinha; sobre estas tiveram outras razões, e a final a de Osuna foi que em Espanha, depois de El-Rei, só ele era e ninguém lhe precedia. Na noite deste dia trabucou o inimigo e lançou sete bombas, com o que arruinou quatro moradas de casas.

(continua)

Este texto corresponde à transcrição (com ortografia actualizada) de um manuscrito anónimo existente na Biblioteca Nacional, secção de Reservados, agora somente disponível em microfilme (FR 970), cujo título é Relação de tudo o que [se] passou em Oliuença e no Campo do Cerco e tomada da praça pellos Castelhanos. Abril anno de 1657.

Imagem: Olivença – vista parcial a partir da Torre d’El-Rei, mencionada no texto. Foto de Jorge P. Freitas.

Cerco e tomada de Olivença, 1657 (1ª parte – 13 e 14 de Abril de 1657)

Luís XIV com soldados franceses no cerco de Tournai, 21-6-1667, Adam Meulen

Inicio aqui a transcrição de um manuscrito existente na Biblioteca Nacional, secção de Reservados, agora somente disponível em microfilme (FR 970), com o título Relação de tudo o que [se] passou em Oliuença e no Campo do Cerco e tomada da praça pellos Castelhanos. Abril anno de 1657. Este manuscrito anónimo foi transcrito e publicado por Horácio Madureira dos Santos em 1973, em Cartas e outros documentos da época da Guerra da Aclamação, Lisboa, Estado-Maior do Exército, pgs. 185-212. No entanto, dado o interesse do documento e a restrita divulgação do mesmo, creio ser oportuna a sua apresentação aqui. A diferença em relação ao original e à transcrição efectuada por Horácio Madureira dos Santos consistirá na actualização da ortografia utilizada, da pontuação (para facilitar a inteligibilidade do texto), na correcção de alguns erros de transcrição da versão de Horácio Madureira dos Santos e o acrescento de alguns apontamentos (mantendo, porém, os que foram da lavra de Madureira dos Santos, identificados com HMS). Trata-se um documento longo, que irá ocupar uma série de entradas superior à habitual, pelo que será possível que intercale esta série com outros artigos.

Relação de tudo o que [se] passou em Olivença e no campo do cerco e tomada da praça pelos Castelhanos. Abril ano de 1657

A 12 de Abril tocaram arma as atalaias que ficam dando vista à ribeira, quarta-feira [erro; trata-se de quinta-feira, conforme notou HMS] pelas sete horas da manhã, e como não tínhamos particular aviso que o inimigo marchava para Olivença, tivemos que seria rebate ordinário. Montou-se a cavalaria governada pelo tenente-general Achim de Temarachut [Tamericurt], e foram descobrindo para aquela parte [de] Joana Castanha. Tinham parado doze batalhões direito ao caminho que vai de Juromenha para Olivença, a fim de não deixarem passar pelo porto de Guadiana nenhuma coisa de uma praça para a outra. Com este aviso se acolheram à praça todos bem sentidos de ficar a cavalaria dentro, pela falta que faria aquele troço de nove companhias no nosso exército.

Pelas dez horas do dia vimos a vanguarda do exército marchando da coutada da ventana pela de Fiselha para a fralda da serra de Olor e se foram entrando pelos olivais, ocupando o outeiro do Espinhaço de Cabra e Vale de São Francisco o Velho, e ali começaram o seu primeiro quartel que por muitos dias foi o da Corte [ou seja, o do Estado-Maior do Exército].

Sexta-feira 13 do dito mês saíram da guarda as companhias dos tenentes-generais e as de D. Luís da Costa e João do Crato da Fonseca, que por ser mais antigo as governava, e indo ele descobrindo pela parte do Pereirão, deu vista de uma partida do inimigo, que trazia língua [ou seja, um civil português, capturado para da informações] e uns burros; arrojou-se a ela com cinco cavalos e tomou doi do castelhano e a presa.

Pelas dez horas do dia quis o inimigo reconhecer a praça e a viu em redondo, e todos os sítios em que podia aquartelar-se. A artilharia da praça fazia com que eles vissem tudo mais ao largo e com pouca segurança.

Estava o capitão D. Luís da Costa com a sua companhia junto da ponte de Ramapalhas e os batalhões do inimigo iam pela outra parte do ribeiro, e atrás deles dois soldados infantes por verem também, mas logo que foram vistos da nossa tropa mandou o capitão três soldados que pegassem deles, e intentando tomaram um que era vilão [civil, paisano], e não acharam o outro.

Nesta vista que o inimigo deu à praça chegou ao olival de João cabelo e para receber melhor o sítio, travou uma escaramuça com a companhia do tenente-general Dinis de Melo [de Castro], governada pelo seu tenente Manuel Dias Veloso, que se houve com muito valor e resolução. Da muralha e do forte lhe deram, ao inimigo, carga alguns mosqueteiros [dar carga, neste sentido, significa disparar], com que se  afastou e foi continuando em ver a praça e quartéis ou sítio acomodado para eles, e no fim se recolheu para o vale de São Francisco o Velho.

Pelo meio-dia veio marchando a bagagem e artilharia do inimigo e retaguarda do seu exército pelo mesmo caminho, e se recolheu tudo em o mesmo sítio que a vanguarda.

Logo que o inimigo chegou, mandou o governador Manuel de Saldanha guarnecer a estrada coberta tudo ao redor da muralha, a qual, em poucos dias que havia que estava na praça, tendo vindo da Corte, a mandou reformar com estacas de novo, que eu tinha nos meses de antes conduzido, e mandou consertar os parapeitos que em muitas partes estavam arruinados, e com o terço do mestre de campo João Álvares de Barbuda mandou trabalhar ao forte que Gilot [Jean Gilot, engenheiro militar] tinha principiado defronte da porta do Calvário, o qual era uma obra curva que continha três baluartes e dois meios, tudo pequeno, e fechava na estrada coberta com duas linhas, ficando a porta ou rastilho dela em o meio delas.

Estava esta obra muito imperfeita e a meu juízo feito menos de metade dela, conforme ao voto de todos se pudera escusar com um forte pequeno que ali tinha mandado fazer o mestre de campo João Lopes Barbalho, o qual se guarnecia com cinquenta mosqueteiros e bastava para impedir ao inimigo o alojar-se ali e bater daquela parte, e este outro nos ocupava nove companhias de guarnição com um cabo [no sentido de “cabo de guerra”, oficial superior, provavelmente um sargento-mor], e assim ficava a estrada coberta menos sortida de gente, e aquela ocupada com pouca utilidade e grande discómodo.

Abril 14. Teve notícia por algumas pessoas que passaram de Juromenha para Olivença que o inimigo não tinha impedido o caminho, o que foi parte para que a guarnição da atalaia de São João se recolhesse à praça depois de queimar a pólvora que tinha.

De tarde se mandaram aplicar as cavalgaduras que tinham vindo com o último comboio, e sendo noite as mandaram pelo caminho de Juromenha a cargo de um condutor da artilharia que tinha vindo com elas e passaram todas segundo nos informaram. Nesta noite partiu para o nosso exército [o exército de socorro, comandado pelo Conde de São Lourenço], com cartas, o ajudante de cavalaria Manuel da Silva Falcão, e chegou a ele com elas. Também entrou na praça um correio do Conde de São Lourenço.

(continua)

Imagem: Um cerco dez anos posterior ao mencionado na relação que acima se transcreve, e noutra latitude – Luís XIV de França assistindo ao cerco de Tournai em Junho de 1667. Quadro de Adam Meulen.

Stéphane Auguste de Castille e a perda de Olivença em 1657 (parte 1)

Em 30 de Maio de 1657, após um mês de cerco pelo exército espanhol, capitulava a vila de Olivença. O mestre de campo Manuel de Saldanha entregava a praça que até então governara ao Duque de San Germán, comandante das forças sitiantes. Contando inicialmente com uma guarnição de 4.000 infantes e uma companhia de 100 cavalos, Olivença viu perecer mais de 1.700 defensores durante as operações de sítio. Enquanto isso, o exército de socorro, confiado pela rainha viúva D. Luísa ao Conde de São Lourenço, desgastava-se inutilmente numa ousada tentativa de tomar Badajoz, em vez de se lançar sobre o exército de San Germán.

A queda de Olivença, coincidindo com o reacender da guerra nas fronteiras do Reino, trouxe consigo um imenso pesar e uma vaga de suspeitas de traição. Nem sequer foi poupado o Conde de São Lourenço, apesar do prestígio alcançado no governo das armas do Alentejo durante a década de 40. Caiu em desgraça, como alguns outros que foram acusados de envolvimento na entrega da praça alentejana ao inimigo.

Uma das acusações mais surpreendentes que os inquéritos em torno da queda de Olivença produziram foi dirigida contra um capitão de cavalos, o francês Stéphane Auguste de Castille, cujo nome aparece também aportuguesado em várias fontes como Estêvão Augusto de Castilho. Não causa estranheza que um estrangeiro fosse tido como suspeito, uma vez que, na época, existia uma enorme desconfiança em relação aos súbditos de reis estrangeiros, mesmo os que se batiam no exército português. Contudo, sobre Castille e um outro seu compatriota, François Du Four, recaíram as culpas da perda da praça, apesar de nenhum deles ter estado envolvido nas negociações da entrega da vila. Condenados, Du Four seguiu para as ferrarias de Tomar, enquanto Stéphane Auguste de Castille foi sentenciado no crime de lesa-majestade e degredado por toda a vida para a Índia por infame, ele e os seus descendentes. O caso deixa entrever uma complexa intriga de bastidores e o envolvimento de pessoas ligadas à burguesia e justiças locais, eventualmente receosas de perderem os bens se a capitulação proposta pelo Duque de San Germán não fosse aceite, e certamente receosas de perderem a vida se acusadas de traição após a rendição. Os estrangeiros poderiam ter servido, assim, de bodes expiatórios muito convenientes.

Entre 1660 e 1661, Stéphane Auguste de Castille escreveu várias petições ao Conselho de Guerra, reafirmando a sua inocência e clamando pela anulação da sentença. Para não tornar esta entrada demasiado extensa, amanhã será aqui publicada a argumentação do cavaleiro francês, bem como a sua versão da estranha intriga em torno da queda de Olivença.

Bibliografia on-line (História de Portugal Restaurado)

Gravura: Planta de Olivença, c. de 1700; Biblioteca Nacional, Iconografia, CC29P. A legenda em francês refere que a tomada da vila pelo exército espanhol ocorreu em 1658, quando na verdade foi no ano anterior. Olivença seria devolvida à Coroa portuguesa em 1668, após a assinatura da paz.