O assalto a Oliva, 8 a 11 de Janeiro de 1654 (4ª parte)

Após o fracasso dos petardos, Mateus Rodrigues refere a acção de um frade que, segundo o soldado, pode ter sido determinante para a tomada do castelo de Oliva de la Frontera. No entanto, a narrativa do soldado de cavalos é também, a certa altura, um importante testemunho da violência e terror que as operações de guerra exerciam sobre os civis, que não aparece registado em nenhum outro relato deste acontecimento.

Em esta vila estava um frade trino [ou seja, da Ordem da Santíssima Trindade] castelhano e natural da vila, que tinha ali um irmão e havia vindo a vê-lo. E quando viu que íamos a tomar a vila, não se quis meter dentro do castelo, senão ficar de fora para pedir ao general que (…) não bulissem na casa de seu irmão. (…) O general mandou logo ao frade que fosse ensinar [onde ficava] a casa, que mandava lá pôr sentinelas [para] que ninguém lá fosse e que lhe dava sua palavra que lhe não havia de falta dela coisa alguma. Agradeceu-lhe o frade grandemente o favor (…) e se foi o frade com o general para as casas e nunca de lá saiu, a não ser ao que diante se verá, que pode ter sido a causa de se tomar o castelo. (MMR, pgs. 377-378)

Entretanto, as minas iam progredindo pouco em direcção ao castelo, pois a terra era muito dura e difícil de escavar, e sobre isto avisou D. Manuel de Melo o general da cavalaria. Seriam precisos muitos dias até que as galerias subterrâneas chegassem à muralha do castelo. Porém, André de Albuquerque não se demoveu do seu intento. Tinha vindo até ali para tomar o castelo de Oliva e não partiria sem o fazer, apesar da proximidade da cidade de Jerez de los Caballeros e da possibilidade dos espanhóis enviarem um exército de socorro.

De maneira que, como o frade assistia sempre com o general, ouvia dar as ordens, e ouvindo falar em minas, perguntou o que era aquilo. Disse-lhe então o general que mandava fazer duas minas, uma que havia de ir até à torre que tinha o castelo no meio, e a outra havia de ir parar à muralha, e assim como estivessem já acabadas, que vissem que já lá tinham chegado, haviam de atacá-los com muita pólvora e dar-lhe fogo, para que voasse a torre para o ar e quem estivesse nela, e logo a da muralha havia de abrir uma grande brecha, por onde haveria de mandar avançar mangas de mosquetaria e rodeleiros, para que fossem degolando tudo quanto estava dentro. Tanto que o frade ouviu isto ao general, pediu que o deixasse ir ver aquelas minas. Mandou logo o general que fossem a mostrar as minas ao frade, as quais ele foi ver logo, e assim como as viu ficou parvo. E logo pediu muito ao general que lhe desse sua senhoria licença, que queria ir dentro ao castelo falar com o governador. Que, como o frade tinha lá dentro sua irmã e sobrinhas, não podia levar em paciência o dizerem que o castelo havia de voar e quem estava nele. (…) Como o general viu que nunca a ida do frade ao castelo lhe podia resultar em (…) dano, senão em proveito, deu licença ao frade (…), mas disse-lhe o nosso general que havia de volver com resposta, senão, que lhe havia de pesar. O frade lhe deu sua palavra de tornar. (MMR, pgs. 378-379)

O frade dirigiu-se ao castelo, onde entrou por um postigo falso que tinha a muralha, pois a porta principal estava terraplanada no interior, até ao cimo da muralha. Em conversa com o governador, tentou fazer com que este se rendesse, a fim de poupar as vidas de tanta gente que estava no castelo, contando-lhe acerca das minas e da disposição dos portugueses em as fazer explodir e degolar toda a gente.

A proposta, todavia, teve o efeito contrário ao pretendido. Assim como os habitantes souberam dela, zangaram-se e expulsaram o padre, dizendo que preferiam voar com o castelo a renderem-se. Regressado para junto dos portugueses, o frade não contou a André de Albuquerque como fora infrutífero o seu esforço para salvar as vidas dos habitantes de Oliva. Pelo contrário, deu alguma esperança ao general, pois referiu que o governador do castelo nunca lhe dissera que não se renderia, mas que o tempo lhe daria lugar a decidir o que haveria de fazer. Era este governador homem já avançado em anos, e segundo o frade era desejo do bom velho entregar-se, pois tinha duas filhas donzelas no castelo e elas lho pediam que assim fizesse. O impasse, no entanto, manteve-se.

(…) Em a vila havia uma igreja muito forte, a qual estava perto do castelo; pelo menos ficava-lhe no descoberto de toda a mosquetaria, que não podiam ir à igreja sem que do castelo não fizessem muito dano. E nesta igreja ficaram muitas mulheres, e com 50 homens que pelejavam da torre da igreja infinito, e tinham fazenda dentro dela. E aonde estava a nossa gente pelejando ficava-lhe a igreja junto deles, mas não podiam lá ir senão com muito risco.

Mandou o general (…) um aviso, se se queriam entregar, senão que os haviam de degolar, ao qual aviso eles fizeram pouco caso. Mandou logo o general que fosse uma manta à igreja com um petardo, e que em abrindo as portas, avançassem por elas dentro mangas de mosqueteiros, e que não dessem quartel a castelhano nenhum, só às mulheres não agravassem [ou seja, não fizessem mal]. E preparada a manta, foi o soldado com ela e com o petardo diante, e chegando a uma porta travessa que ficava mais resguardada do castelo, deu fogo ao petardo e logo lançou as portas dentro. E no mesmo tempo avançaram os mosqueteiros por ela dentro, matando a todos os castelhanos que lá estavam, ressalvando as mulheres. E assim como os nossos entraram, era tanta a confusão e gritaria das mulheres que lá estavam, que pareciam os diabos. (…) E em breves palavras estavam todos os castelhanos da igreja estirados na rua, mortos, à vista do castelo, para que os outros os vissem, para pôr medo. E logo tomaram as mulheres todas, que eram 50, e botaram-nas fora para a rua, dizendo-lhe[s] que se fossem para o castelo. E vendo-se elas naquele estado, foram-se ao pé do castelo com grandes gritarias de choros, que as recolhessem para dentro, mas o governador, nem os mais, não as quiseram recolher …). Vendo-se as pobres desta sorte, tornaram-se para a igreja, que não haviam de estar aos pelouros nas ruas. E quando os nossos entraram na igreja não tiveram mais que três homens que morreram, mas os 50 homens que lá estavam todos morreram, e os nossos se aproveitaram de muito bom fato que lá tinham os castelhanos metido.

Feita esta diligência se continuava grandemente com as minas, porém com poucas esperanças de elas chegarem lá devagar, contudo continuava-se com elas. E quando o nosso general soube que já a igreja estava tomada e que estavam lá 50 mulheres, deu uma ordem à vista do frade castelhano: que se mandassem escolher 300 soldados da cavalaria, todos soldados velhos e homens de satisfação, e que haviam todos de trazer cravinas. E quando a mina da muralha estivesse para dar fogo a ela, que haviam de avançar estes 300 soldados pelas brechas dentro, (…) e logo detrás deles mangas de mosquetaria. Mas quando os homens da cavalaria avançassem haviam de levar 50 soldados, os que fossem diante, daquelas que estavam na igreja para amparo dos seus corpos, que se os castelhanos lhe atirassem, matassem primeiro as mulheres. Brava ordem. Mas a verdade é todas estas confusões fazia o general à vista do frade para que, vendo estas coisas, o movesse a querer volver ao castelo a falar com os castelhanos. o que não foi necessário, porque assim como o inimigo, do castelo, viu aquela lástima dos mortos da igreja pela rua e as mulheres com as gritarias, parece que lhe quebrou o coração a todos, e houve entre eles logo um rumor e uma bulha, que se conformaram a mandar pedir quartel ao nosso general. (MMR, pgs. 380-382)

As condições foram recusadas, porém. André de Albuquerque não estava disposto a permitir que os espanhóis permanecessem no castelo até terem recolhido os trigos que tinham semeado pelos campos. Despediu o emissário do governador dizendo que se espantava muito de como em os espanhóis havia tal rudeza e pouco discurso (MMR, pg. 382); que pelejassem o que pudessem, que não fazia concessão nenhuma naqueles termos.

Mas os castelhanos não ficaram muito contentes (…) do que havia trazido o aviso. E quando veio este aviso era no sábado, mas no domingo de madrugada tornaram logo com outro, (…) de como se queriam entregar, mas que lhe haviam de deixar sair com suas armas às costas e bala em boca, e que levariam as mulheres o fato que pudessem levar à cabeça para se remediarem. (MMR, pgs. 382-383)

André de Albuquerque ficou contente com este pedido de capitulação. Sabia que seria impossível tomar o castelo sem a artilharia que havia ficado em Mourão, pois na altura achara que não seria necessária. Assim, tratou de negociar as capitulações.

D. João da Costa, na sua carta, imagina combates a que não assistiu: Prevenindo eu este acidente, mandei levantar mantas e mineiros, e tudo o mais necessário para forçar o castelo, o que se começou a fazer com estes instrumentos, de maneira que o inimigo se viu obrigado a render-se, como o fez ontem às dez horas da manhã. (Livro 2º…, carta de D. João da Costa, Conde de Soure, para D. João IV, datada de 12 de Janeiro de 1654).

(continua)

Imagem: Soldados confraternizando com mulheres. Pintura de Jacob Duck (1600-1667).

O assalto a Oliva, 8 a 11 de Janeiro de 1654 (3ª parte)

Sem saber que tinham sido detectados, os portugueses avançaram sobre Oliva de la Frontera.

Cercada a vila com a cavalaria toda, chegou a infantaria e o nosso general diante dela. Chegaram à trincheira sem ouvirem dentro rumor nenhum, como que não havia ali gente nenhuma. E a esquadra que estava à porta não quis dar tiro nenhum à nossa gente até que eles os não viram subir pela trincheira acima, pelas escadas, e assim como os nossos foram subindo, dá-lhe a esquadra uma carga que logo ali caíram onze homens. Assim como o inimigo deu esta carga logo desamparou a porta e a trincheira e se foram de carreira meter no castelo, porque aquela esquadra não a pôs o inimigo ali para defender a trincheira, senão para que os do castelo soubessem quando nós chegávamos, para se prevenirem. (MMR, pg. 374)

Estes detalhes são omitidos na carta de D. João da Costa para D. João IV. A riqueza do texto de Mateus Rodrigues reside na perspectiva que este tem das operações, à escala das preocupações do homem comum, com pormenores que escapam às mais elaboradas narrativas produzidas com fins informativos e propagandísticos. Esclareça-se que o termo “trincheira” empregue por Mateus Rodrigues correspondia a um baluarte provisório, erigido com terra e eventualmente reforçado com madeira no interior, destinado a proteger as entradas de uma localidade e a reforçar as defesas já existentes.

Depois de terem sofrido as baixas repentinamente, devido à salva disparada de surpresa e à queima-roupa, o ânimo dos soldados portugueses esfriou. Como o nosso general viu isto, pareceu-lhe que os soldados estavam já com medo e que seria necessário muito tornar a fazê-los avançar. E assim disse a Manuel de Melo e ao mestre de campo Manuel de Saldanha (…) que seria necessário eles fazerem exemplo aos soldados, em subirem diante eles pela trincheira, para que os soldados não duvidassem, e apenas tinha dito isto (…) já ele ia subindo pela trincheira com uma rodela e uma espada na mão, seguindo-o logo as duas pessoas nomeadas e assim mais todos os soldados. (…) Contudo, assim como o inimigo, do castelo, os sentiu dentro [da trincheira], eram tantas as balas que botava dele que parecia que botavam como saraiva, porque todas quantas ruas tem e tinha a vila, todas as lavava o castelo com sua mosquetaria. E como fazia grande luar, dava muita ajuda ao inimigo, e foi a coisa de modo que não tiveram os nossos outro remédio para ficarem dentro da vila, senão irem minando as casas por dentro, pelas paredes, e meteram-se dentro, em as casas, todo o terço de Manuel de Melo, em uma rua que ficava bem defronte do castelo; porque, como vinha já amanhecendo, não era possível aparecer ninguém onde chegasse arma de fogo do castelo, porque assim que aparecia algum nosso onde o inimigo lhe chegasse, já ele estava morto; que, de 200 homens que no castelo estavam, não havia um só que não fosse caçador do ar [caçadores de aves], e assim nunca jamais erravam tiro que fizessem. De modo que antes que fosse manhã, já o terço todo estava metido dentro das casas de uma rua fronteira do castelo, e o inimigo mui bem soube logo que a nossa gente estava metida naquela rua, porém pelejava-se grandemente de ambas as partes, mas da nossa com pouco proveito, em razão que como os castelhanos estavam dentro do castelo, não lhes podiam os nossos fazer tanto dano como eles a nós, que nos [a]tiravam de dentro de umas ameias do castelo, e nós não lhe podíamos fazer mal nenhum, porque a nossa infantaria não podia pelejar senão de dentro das casas, que faziam uns buracos por dentro das paredes que ficassem bem defronte do castelo, e metiam por os buracos os mosquetes. E assim como viam assomar algum castelhano, atiravam-lhe; assim como os castelhanos viam atirar, logo atiravam para aquela parte (…). E bem viam os buracos, porque a distância do [desde o] castelo a[té] onde os nossos estavam era coisa pouca. O nosso general logo mandou tomar umas casas em entrando dentro da vila para ele estar, mas não ficava da parte donde o inimigo lhe fizesse dano. E dali não saiu até que a vila e castelo se não tomou. Dali mandava as ordens do que se havia de fazer ao mestre de campo Manuel de Melo, que estava com o seu terço dentro das casas para dar ordem ao terço a pelejar e para mandar fazer as minas (…). (MMR, pgs. 375-376)

O terço de Olivença comandado por Manuel de Saldanha, bem como toda a cavalaria e a bagagem, permaneciam longe da vista dos moradores de Oliva, ocultados em outeiros e vales. Os soldados, desocupados de qualquer acção de combate, aproveitavam a lenha que podiam recolher livremente para se aquecerem com os grandes fogos que faziam, pois o frio era intenso. Entretanto, na vila prosseguia o tiroteio entre os defensores do castelo e o terço de D. Manuel de Melo. Os do castelo apupavam os portugueses, chamando-lhes “galegos” e  gritando-lhes que tinham escolhido mal o dia e “que levassem as casas da vila às costas” (as casas estavam completamente vazias, como refere Mateus Rodrigues; nada havia que pudesse ser pilhado); havia uma enorme confiança entre os defensores de Oliva acerca da inexpugnabilidade do castelo.

André de Albuquerque recebeu uma mensagem de D. Manuel de Melo: a pouco e pouco os soldados do seu terço iam consumindo as munições e alguns tombando, sem que se pudesse fazer qualquer dano aos castelhanos – aguardava, pois, instruções sobre o que fazer. André de Albuquerque mandou então que os mineiros começassem a abrir minas e mandou avançar as mantas. Curiosamente, na carta enviada ao Rei, D. João da Costa afirma que partiram dele estas ordens – mas o mestre de campo general não fez parte da expedição. Aliás, tanto o Conde de Ericeira como Mateus Rodrigues são claros quanto a quem comandou toda a operação, e o soldado de cavalos fez parte da força que nela participou.

(…) Mandaram logo preparar as mantas, que eram duas, que levava cada uma um petardo (…), e lançaram-nas por uma porta grande que estava em uma das casas. Assim como o inimigo as viu sair eram tantas as balas que se cobria o ar com elas. (…) As mantas são de prova de mosquete [ou seja, à prova de mosquete] e mui fortes, contudo lançou o inimigo uma ameia do muro abaixo e botando-a em cima de uma das mantas, a fez numa pasta, que como era grande altura e [a] ameia pesava mais de dez quintais, não pôde a manta sustentar o peso da pedra. E a outra deu fogo à muralha com o petardo, mas não fez nada, que estava já o soldado debaixo dela com grande medo, vendo o fim que a outra teve, e assim como deu fogo ao petardo, vendo que não obrava nada, veio-se embora com a manta, e o inimigo fazendo grande risada e galhofa (…). (MMR, pgs. 376-377)

A carta-relatório de D. João da Costa é muito prosaica a este respeito:

(…) Se arrimou um petardo à porta, e dando-se-lhe fogo três vezes, não tomou, pela humidade do tempo o impedir, até que com as pedras quebraram os castelhanos  as estacas em que se sustentam os petardos. (Livro 2º…, pg. 42)

Mais um ponto em que o discurso de D. João da Costa se afasta do que Mateus Rodrigues viu e escreveu.

(continua)

Léxico:

Manta – protecção de madeira, colectiva ou individual, revestida de peles de animais, sob a qual se abrigavam os soldados que deviam aproximar-se das muralhas ou portas para colocar o petardo.

Petardo – engenho explosivo em forma de sino que se fixava contra uma porta ou uma muralha, a fim de as rebentar.

Imagem: Modo de colocar um petardo. Gravura do século XVII, via The Artillery Garden.

O assalto a Oliva, 8 a 11 de Janeiro de 1654 (2ª parte)

A propósito de Oliva de la Frontera, Juan Antonio Caro del Corral enviou esta ligação para um artigo online de Alfonso Gil Soto, intitulado “El impacto de la Guerra de Secesion Portuguesa (1640-1668) en los territorios de la Extremeña: el caso de Oliva de la Frontera” (in Alcántara, 2001, pgs. 53-54):

http://ab.dip-caceres.org/alcantara/alcantara_online/53_54/53_54_006a.htm

Ao amigo Juan Antonio agradeço, mais uma vez, a sua oportuna colaboração.

Prossigamos a narrativa, seguindo as memórias de Mateus Rodrigues. Com tudo acertado para a operação, o terço de Moura começou a reunir mantimentos para 8 dias. Todas as bestas da vila de Moura, em número de 1.000, foram requisitadas para puxarem as carroças e transportarem os mantimentos e as munições, para além das que os soldados levariam em mochilas (designação dada na altura a grossos sacos usados a tiracolo). Tudo isto foi feito com o sigilo possível, para não despertar qualquer desconfiança no inimigo. O ponto de reunião das forças de cavalaria com a infantaria de Moura seria a vila de Mourão.

Dia de Reis, que foi em 6 de Janeiro de 1654, saiu o nosso general André de Albuquerque da cidade de Elvas pela manhã, pela porta da esquina fora, com duas companhias de cavalo, que era a sua e a minha (…), e com duas peças de artilharia de 24 libras cada uma, e quando saímos (…) não havia ninguém que soubesse para onde marchávamos (…). Havia um rumor de que levávamos aquelas peças para o castelo de Vila Viçosa e que ia lá o general para as mandar pôr, (…) e quando lá chegámos já não havia quem não soubesse que íamos a Castela, mas não adonde.

No dia 7, pela manhã, as duas companhias de cavalos formaram em frente à estalagem onde o general tinha pernoitado, e daí seguiram para Mourão, onde chegaram já de noite e onde já se encontrava D. Manuel de Melo com o seu terço. Os soldados de cavalos tiveram de suportar uma noite bem fria e chuvosa de Inverno, muito mal acomodados ou ao relento, pois os alojamentos (as casas dos moradores da vila) estavam já todos ocupados pelos soldados de infantaria e as cavalariças pelas bestas de carga do terço.

Na manhã do dia 8, a força seguiu pela estrada de Vilanova de Portugal (Villanueva del Fresno), percorrendo duas léguas até se reunir ao terço de Manuel de Saldanha e à cavalaria de Olivença. Segundo Mateus Rodrigues, o total das cavalgaduras que acompanhava o pequeno exército era de 3.000, mais do que o número de tropas pagas que ali marchava – uma cauda logística bem extensa. Em Vilanova tiveram pouco tempo para descansar e comer, pois a etapa até Oliva, onde tinham de chegar antes do amanhecer, ainda era longa (mais de 4 léguas e mau caminho para a infantaria, que não podia ir formada, nem a cavalaria tampouco). A coluna demorou bastante tempo a formar; a cavalaria toda na vanguarda (1.400, segundo Mateus Rodrigues, mais cem do que D. João da Costa aponta na sua carta), a infantaria (1.500 homens) na retaguarda, e toda a carriagem e cavalgaduras no meio. Em grande silêncio prosseguiu a marcha, passando a ribeira de Alcarrache, uma légua depois de Vilanova, e continuando por azinhais. A precaução destinava-se a não serem sentidos, mas bem podíamos ir com toda a galhofa e bulha, pois o inimigo estava de aviso. Com efeito, na sua carta o Conde de Soure refere que no dia 8 tinha o inimigo uma partida sobre Mourão, a qual, vendo marchar a nossa gente, avisou a sua, com o que nos esperavam recolhidos no castelo com as armas nas mãos. Mateus Rodrigues acrescenta mais detalhes: tinha sido o tenente Marim, com 10 cavaleiros, quem tinha detectado a força portuguesa, e à rédea solta correra a avisar as gentes de Oliva. E suposto que o inimigo já tinha parte do fato metido no castelo, assim como o tenente chegou e deu aquela triste nova, enquanto tiveram tempo meteram tudo quanto puderam no castelo, e deixaram as casas só com as paredes e alguma caixa vazia, e (…) meteu-se toda a gente dentro no castelo, e não deixaram fora mais que trinta homens e a companhia de cavalos que estava na terra. O capitão, que Rodrigues reputa de grande soldado, e antigo, tinha ido comandar as companhias de Talavera (até nisto foi o nosso general bem afortunado, pois se este capitão não tivesse sido transferido e estivesse dentro do castelo, nem o poder do mundo o havia de tomar, porque era homem do diabo e muito valente, chamava-se D. Diego Quexada). Mas era agora o tenente Marim que comandava a cavalaria. Este, logo que caiu a noite, meteu a sua mulher na igreja com as demais mulheres da vila e partiu com os seus soldados para uma ermida de Nosso Senhor que fica em um outeirinho junto da mesma vila, e daí lançou sentinelas para detectar a progressão da força portuguesa.

A um quarto de légua de Oliva, André de Albuquerque fez adiantar a cavalaria, para que fossem tomadas todas as vias de entrada e saída da vila. O general da cavalaria pensava que havia duas companhias de cavalos em Oliva, mas de facto, apenas ali servia a do tenente Marim – e mesmo essa fez o oficial espanhol retirar para Jerez de los Caballeros, não sem antes alertar os soldados que estavam de guarda na trincheira de que os portugueses se aproximavam.

(continua)

Bibliografia: Livro 2º…, pgs. 41-42; MMR, pgs. 369-374; veja-se a 1ª parte desta série para as referências completas.

Imagem: Oliva. Planta publicada em La memoria ausente. Cartografia de España y Portugal en el Archivo Militar de Estocolmo. Siglos XVII y XVIII. O outeiro onde se situa a ermida referida no texto é visível no canto superior direito da planta. Ao contrário do que eu tinha aqui escrito ontem, a colina visível no canto superior direito do mapa não se trata do outeiro da ermida, mas sim de “el Moriscote”. Veja-se o comentário nº 1, do Sr. Andrés Francisco Perez Cuecas (a quem eu agradeço a colaboração), para o completo esclarecimento.

O assalto a Oliva, 8 a 11 de Janeiro de 1654 (1ª parte)

Após o sucesso no combate de Arronches em 8 de Novembro de 1653 e da incursão ao Vale de Matamoros em 25 de Novembro do mesmo ano, o mestre de campo general e governador das armas interino do Alentejo, D. João da Costa, Conde de Soure, decidiu lançar um assalto à vila extremenha de Oliva. Os motivos para tal operação são explicados pelo próprio, em carta dirigida a D. João IV:

Enquanto o tempo não dá lugar de poder obrar o que desejo no serviço de Vossa Majestade, me pareceu livrar aos lugares de Mourão, Monsaraz, Terena e [A]landroal das contínuas moléstias que recebiam da guarnição e moradores da vila de Oliva, que consta de 400 vizinhos e um castelo.

Para se ganhar uma e outra coisa por interpresa, ordenei ao general da cavalaria [André de Albuquerque Ribafria] que com 1.300 cavalos e com os mestres de campo Manuel de Saldanha e Manuel de Melo investisse a vila e procurasse, com os petardos, ganhar o castelo. (ALMEIDA, Manuel Lopes de; PEGADO, César (pub.) –  Livro 2º do Registo das Cartas dos Governadores das Armas (1653-1657), Coimbra, Biblioteca da Universidade, 1940 (transcrição do ms. 540 da BGUC), pg. 41, adaptado para português corrente).

Na operação participou a companhia de cavalos onde servia Mateus Rodrigues, companhia essa que era comandada pelo capitão Fernão Pacheco Mascarenhas. Mateus Rodrigues ainda se encontrava em convalescença das feridas recebidas no combate de Arronches e estava prestes a desertar do exército do Alentejo, onde servia desde Setembro de 1641. O soldado de cavalos deixou uma extensa narrativa do assalto a Oliva, a qual contrasta com a brevidade com que a operação é descrita pelo Conde de Soure e até pelo Conde de Ericeira na História de Portugal Restaurado (edição on-line facsimile da edição de 1759, Parte I, Livro XII, pgs. 439-440). Os pormenores da incursão ainda estavam frescos na memória quando começou a passar as suas recordações para o papel, poucos meses depois, já no sossego de Águeda.

O general André de Albuquerque Ribafria estava a recuperar das pisaduras sofridas no combate de Arronches (onde caíra do cavalo logo no início da refrega e fora atropelado pela sua própria cavalaria, tendo sido mesmo dado como morto) quando lhe foi atribuído o comando da operação. Embora tivesse ainda um braço imobilizado e não pudesse montar a cavalo, fez-se transportar numa liteira. A sua reputação estava no auge e era muito estimado pelos subordinados.

Este lugar ou vila de Oliva estava sete léguas pela terra dentro, e tudo mui grandes azinhais e terra de matos. Contudo era lugar que dava grandes enfados e perseguições, e os lugares (…) que lhe ficavam em a raia, como era a vila de Moura e Serpa e Mourão e Monsaraz e Terena e o [A]landroal, todos estes nossos lugares eram abrasados desta Oliva, em razão que tinha em si duas companhias de cavalos mui boas, e todos eram homens da mesma vila, que toda a nossa campanha sabiam a palmos e aos olhos fechados, e como assim fosse de sorte ventura lhe dávamos em partida nenhuma que entrasse dentro em qualquer lugar destes. Mas a quem este inimigo perseguia com mais continuação era a vila de Moura, por ser terra de maior tráfego de campo e lavouras e gados, e achava o inimigo ali mais certa a pilhagem do que em outro qualquer dos mais. Além de que Moura também tinha sempre duas e três tropas de cavalo, mas nunca jamais podiam apanhar nenhum castelhano, e quando lhe saíam alguma vez sempre os corriam cinco ou seis léguas. De modo que teve esta vila de Moura e mais lugares este aperto e sujeição treze anos, até que Deus se lembrou deles para ficarem descansados, fazendo suas lavouras à sua vontade. (Manuscrito de Matheus Roiz, versão transcrita (AHM), pgs. 366-367).

Segundo Mateus Rodrigues, a iniciativa da operação não partiu directamente do Conde de Soure, mas do governador Moura e mestre de campo do terço de guarnição da vila, D. Manuel de Melo, filho do Porteiro-Mor do Reino, e do próprio André de Albuquerque. D. Manuel de Melo comandava o melhor e mais numeroso terço da província do Alentejo e governava a vila desde 1647, mas nunca ousara falar aos governadores das armas na sua vontade de atacar Oliva, pois sabia bem os riscos que essa operação envolvia. Só depois da vitória de Arronches e da superioridade que a cavalaria portuguesa obtivera a partir daí é que D. Manuel de Melo deciciu revelar o seu plano ao general da cavalaria e ao mestre de campo general. Escreveu cartas a ambos, para Elvas, e logo D. João da Costa foi conversar com André de Albuquerque, de modo a saber se este estava em condições de comandar a operação. Encontrou-o ainda muito combalido, mas sempre animoso e decidido a tomar parte na arriscada empresa. D. Manuel de Melo, para além de ser uma pessoa de grande consideração devido ao alto cargo exercido pelo pai na Corte, oferecia o seu terço para assaltar a vila, sem ser necessário arriscar a cavalaria. Com 1.400 homens bem equipados e bem treinados, tinha por certo  o sucesso. E assim, D. João da Costa deu o seu consentimento ao plano, embora receasse pela diminuída capacidade física de André de Albuquerque.

(continua)

Imagem:  A partida dos soldados. Quadro de Philips Wouwerman.

A incursão a Villanueva del Fresno, 17 de Setembro de 1642

Segundo o soldado de cavalos Mateus Rodrigues, a incursão a Villanueva del Fresno em Setembro de 1642 foi o único sucesso digno de menção comandado pelo general da cavalaria do Alentejo, o Monteiro-Mor D. Francisco de Melo. Esta é a opinião não filtrada pela narrativa propagandística desses primeiros tempos da Guerra da Restauração, emitida por um soldado que participou em muitas acções. Percorrendo outras fontes, encontramos versões mais simpáticas para o general, não só em relações avulsas, como nas mais extensas narrativas de Aires Varela ou Luís Marinho de Azevedo.

Em todo o caso, a incursão às terras de Villanueva del Fresno foi apenas uma das muitas pequenas operações da guerra de fronteira. No caso, destinava~se a castigar a cavalaria daquela localidade, cujo poder atemorizava os moradores do termo de Mourão, pois era ali tão forte que pilhava e se passeava à vontade pelos campos. Os efectivos eram conhecidos dos portugueses: um soldado de cavalos castelhano tinha desertado na sequência de uma briga que tivera com o seu tenente, a quem ferira gravemente, e temendo ser enforcado, fugira para Mourão; interrogado, informara D. Francisco de Melo que a força de cavalaria que havia em Villanueva del Fresno era composta por três companhias pagas e duas milicianas, estas com cerca de 80 cavalos.

Saiu o general de Olivença no dia 16 com 300 ou 400 cavalos (os números apresentados por Aires Varela e Luís Marinho de Azevedo são diferentes), fazendo as vezes de comissário geral o coronel francês François de Huybert de Chantereine (o comissário geral Gaspar Pinto Pestana ficara em Olivença, bastante doente). Conforme refere Mateus Rodrigues, a cavalaria portuguesa tomou um caminho mais longo para não ser detectada, cerca de nove léguas entre Olivença e Mourão, e mais duas dali a Villanueva del Fresno. Na vanguarda ia a companhia do comissário Pinto Pestana, comandada pelo seu tenente Manuel da Costa Monteiro, e a retaguarda cabia à companhia do tenente-general D. Rodrigo de Castro (também ausente da operação), comandada pelo tenente António Machado da França. Pelo caminho, por alturas de Monsaraz, juntou-se o coronel francês Montjouant com o seu regimento (provavelmente, apenas duas companhias). A cavalaria chegou de noite a Mourão e aí descansou.

No dia seguinte, pelas dez horas da manhã, estavam nas proximidades de Villanueva del Fresno. A partir daqui, os pormenores das narrativas de Aires Varela, Marinho de Azevedo e Mateus Rodrigues diferem um pouco, mas não a substância do sucedido, que é no geral coincidente. Segundo Mateus Rodrigues, na madrugada desse dia D. Francisco de Melo escolhera 40 cavaleiros experientes de todas as companhias e entregara o comando desta força ao seu tenente, Francisco Leote (um oficial de grande bravura que iria ascender na carreira militar ao longo da guerra; morreu em Maio de 1655, sendo então tenente de mestre de campo general). O objectivo era emboscar-se num cabeço redondo, de onde se avistava Villanueva del Fresno, de modo a vigiar os movimentos da cavalaria inimiga. De manhã, quando o grosso da força portuguesa tivesse chegado ao cabeço, Francisco Leote e os seus homens deviam ir provocar o inimigo até junto das trincheiras, de modo que a sua cavalaria saísse da localidade e fosse atacada pela restante força portuguesa emboscada. Já Aires Varela refere que o general lançou quinze cavaleiros dos naturais de Mourão, para que a mudança do traje não fizesse reparar o inimigo, e lhes ordenou juntassem o gado, que sem receio pastava por aqueles vales, o que eles fizeram com diligência. Por seu lado, Marinho de Azevedo refere que foram enviados apenas oito cavaleiros tocar arma (ou seja, dar o alarme com disparos para o ar), de forma a espicaçar o inimigo, conforme tinha sido sugerido pelo desertor e informador.

Qualquer que tivesse sido o processo (ainda que Mateus Rodrigues mereça mais crédito, pelo pormenor descrito e pelo facto de ter participado na operação), uma força de cavalaria de Villanueva, comandada por D. Garcia Navarrete, saiu ao encontro dos portugueses por uma das portas da vila, precisamente chamada “porta de Mourão”. Eram somente 40 cavalos, mas um soldado natural de Mourão, que se encontrava de vigia num outeiro, precipitadamente  tocou arma e soltou o alarme de que a cavalaria portuguesa enviada para junto da trincheira estava em risco de ser cortada do resto da força. D. Francisco de Melo revelou então a emboscada e saiu ao encontro do inimigo. Dos 40 cavaleiros, sete fugiram e os restantes foram mortos (segundo Varela), ou dezassete foram mortos e os restantes fugiram (conforme a narrativa mais plausível de Azevedo). Em todo o caso, oito foram capturados, incluindo D. Garcia. A este número acrescenta Mateus Rodrigues mais de 60 paisanos que acorreram a ajudar a sua cavalaria, mas que acabaram cercados “como atuns” e foram trazidos para Mourão. As restantes forças refugiaram-se atrás das muralhas de Villanueva del Fresno e limitaram-se a usar a artilharia com grande prontidão, mas pouca pontaria.

A operação terminou da melhor maneira para a cavalaria comandada pelo Monteiro-Mor, que pôde pilhar à vontade o gado dos campos em redor da vila, não obstante o fogo vivo que cinco peças de artilharia fizeram sobre os portugueses. Uma bala de 9 libras caiu bem perto de D. Francisco de Melo e foi levada, como recordação, para Olivença. Mateus Rodrigues, a quem o general não inspirava muita confiança como comandante, refere – com a irreverência frequentemente encontrada nas suas memórias – que este sucesso foi alcançado porque o general da cavalaria não encontrou grande oposição.

Bibliografia:

AZEVEDO, Luís Marinho de – Commentarios dos valerosos feitos, que os portuguezes obraram em defensa de seu Rey, & patria na guerra de Alentejo que continuava o Capitaõ Luis Marinho d’Azevedo, Lisboa, na officina de Lourenço de Anveres, 1644, pgs. 256-258.

VARELA, Aires – Sucessos que ouve [sic] nas fronteiras de Elvas, Olivença, Campo Maior e Ouguella, o segundo anno da Recuperação de Portugal, que começou em 1º de Dezembro de 1641 e fez fim em o ultimo de Novembro de 1642, Elvas, Typografia Progresso de António José Torres de Carvalho, 1906, pgs. 95-97.

Manuscrito de Matheus Roiz, transcrição do códice 3062 [Campanha do Alentejo (1641-1654)] da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, Lisboa, Arquivo Histórico Militar, 1952 (pgs. 39-42).

Imagem: A entrada nos campos de Villanueva del Fresno. Gravura inclusa na obra de Aires Varela acima referida. De notar os pormenores assinalados na própria gravura e identificados com letras: A, o cabeço redondo onde se emboscou a cavalaria de D. Francisco de Melo; B, o espia João Gonçalves; C, o general da cavalaria; D, a igreja maior; E, a cadeia da vila; F, a casa de D. Garcia Navarrete; G, os corredores portugueses (os cavaleiros que foram destacados para incitarem a saída da cavalaria de Villanueva; alguns são representados com varas, destinadas a conduzir o gado); H, as tropas do inimigo saindo da vila; I, o grosso da cavalaria emboscada; L, a vila de Mourão, ao longe.

O Marquês de Torrecuso – por Juan Antonio Caro del Corral

No seguimento da listagem dos capitães-generais da província de Extremadura (Espanha), Juan Antonio Caro del Corral fez um longo comentário a propósito do Marquês de Torrecuso que, pelo seu interesse, é aqui destacado em artigo próprio. No final, acrescentei uma pequena transcrição do Manuscrito de Matheus Roiz a respeito do mesmo general.

Muy eficaz el listado de Capitanes Generales de Extremadura. A fin de profundizar algo más en la figura de aquellos soldados, sirva este ligero apunte sobre el Marqués de Torrecuso.

MARQUES DE TORRECUSO, CAPITAN GENERAL DE EXTREMADURA

Gerolamo Maria Caracciolo, III marqués de Torrecuso. Natural del Reino de Nápoles, fue un afamado militar que estuvo a las órdenes de la monarquía castellana, ocupando puestos de responsabilidad al frente del ejército imperial. Antes de llegar a Extremadura, destaco en la Guerra de Cataluña, dónde perdió a uno de sus hijos. También estuvo presente en el conflicto de los Treinta Años, llegando a vencer a las tropas francesas en la batalla de Fuenterrabía, librada en 1638.

Dada su condición italiana, no es de extrañar que junto a Torrecuso, llegaran muchos soldados de la misma nacionalidad. Entre estos cabe citar a Giovanni Giacomo Mazzacani-Maza, más conocido entre la tropa con el nombre castellanizado de Mazacan. Fue destinado al distrito cacereño de Alcántara-Sierra de Gata, tomando bajo su mando directo la guarnición existente en Zarza la Mayor.

Volviendo a los rasgos biográficos de nuestro personaje principal, fue el 8 de marzo de 1644 cuando Torrecuso hizo entrada en la ciudad de Badajoz, para hacerse cargo, con el pomposo título de Capitán General, de la defensa de toda la frontera extremeña.

Sustituyó al odiado Marqués de Santisteban, cuyo gobierno había provocado gran rechazo no sólo entre la tropa, sino en los propios habitantes de la región.

Torrecuso venía precedido de una aureola de gran militar y estratega, siendo su nombramiento del agrado de la mayoría de oficiales del ejército, el cual se encontraba en una situación bastante penosa, pues sus anteriores responsables se habían ocupado más de enriquecerse personalmente que de dirigir a la soldada.

Por el motivo anterior, el primer empeño del Marqués fue realizar una reforma general con la cual buscaba organizar adecuadamente a sus subordinados. En este sentido fue el primero que incluyo compañías de infantería a caballo, creando también el puesto de sargentía menor en cada uno de los tercios que componían el llamado Ejército de Extremadura.

Con estas labores pronto se gano la simpatía general y, en comparación con su predecesor, se llegó a decir “… i quanto a su antecesor el Conde de Santisteban desestimauan por su facilidad, tamto al Torrecuxo temian i respetauan por su entereça i valor…”.

Fue mucho el trabajo que el nuevo gobernador militar tuvo en su tiempo de mandato. La guerra en 1644 se recrudeció bastante, y las noticias de escaramuzas portuguesas en tierras extremeñas no dejaron de llegar, día a día, a la sede central de Badajoz.

Ejemplo de aquellos sucesos cotidianos para la gente de frontera los encontramos en la zona norte de la Raya, colindante con la Beira Baixa. Fue aquí dónde poblaciones como Membrío y Zarza la Mayor conocieron la crudeza de la guerra, al ser atacados en los meses de abril y mayo respectivamente.

Las armas castellanas de Torrecuso respondieron a aquellas y otras agresiones, con entradas en territorio lusitano, siendo la frontera pacense el escenario elegido para ello. Así, sitios como Ouguela vieron correr por sus campos a la caballería extremeña en más de una ocasión.

Sin duda alguna el momento álgido del gobierno de Torrecuso acaeció el día del Corpús, 26 de mayo, junto a las llanuras de la localidad de Montijo, muy cerca de Badajoz, lugar en el que se libró la que se considera primera batalla de la Guerra de Restauración.

El resultado del combate fue ambiguo, pues los dos bandos enfrentados se apropiaron de la victoria final. En todo caso parece que la batalla tuvo dos momentos clave, dominados cada uno de ellos, respectivamente, por sendas facciones. De hay la eterna duda de quien fue vencedor general.

Torrecuso no estuvo presente en el famoso lance, enviando en su lugar, como máxima autoridad de la tropa castellana, al Barón de Molinghem.

El año siguiente, 1645, continuo la misma tónica. Constantes alarmas y salidas cuyo fin básico era el ganado, realizar rapiña, incendiar poblados, desabastecer al contrario… En definitiva, la forma usual de realizar la guerra en una frontera muy extensa, defendida por un ejército poco profesional, pese a la laboriosidad de Torrecuso por mantener siempre el buen orden y disciplina.

Elvas, Campo-Maior, Jérez de los Caballeros y otros tantos lugares del sur, de nuevo se tornaron en escenario de encuentros campales entre fuerzas portuguesas y castellanas. Mientras tanto al norte, los vecinos de Zarza la Mayor, para vengar el ataque sufrido el año anterior, organizaron un nutrido grupo de jinetes voluntarios, los llamados Montados, semejantes a las compañías pilhantes de Portugal, con el cual batieron varias veces la comarca de Castelo Branco, quemando aldeas como Sao Miguel D´Acha, Ladoeiro, Alcafozes, Zebreira…

Debido a un permanente estado de tensión militar y la noticia de varias derrotas, la buena estrella de Torrecuso se fue apagando. También tuvo buena parte de culpa las rencillas internas, pues entre sus propios oficiales surgieron voces en contra, muy críticas con la forma de dirigir el ejército utilizada por el Marqués.

Él noble napolitano comprendió lo difícil de su situación, y no queriendo perder más crédito en la frontera extremeña, solicitó ser relevado de su cargo, cosa que ocurrió rápido, pues también en la corte de Madrid deseaban ver lejos al italiano.

Para sustituirle entró al mando el Marqués de Leganés, dº Diego Mesia Felipez de Guzmán. Las cosas con él tampoco cambiaron en exceso. Buena prueba es que, a poco de llegar al mando, se produjo el choque llamado posteriormente Ventas de Alcarabica.
Pero eso es otra historia.

Juan Antonio Caro del Corral

(Sobre o combate de Alcaraviça, veja-se o artigo gentilmente enviado pelo Sr. Santos Manoel, publicado aqui e aqui – com um acrescento de minha parte aqui).

A propósito do Marquês de Torrecuso, escreveu nas suas memórias o soldado de cavalos Mateus Rodrigues:

Agora falarei do grande soldado que era o Torrecruz [Torrecuso], que não havia em Espanha soldado como ele. Que a sua guerra foi a mais limpa que nenhum até hoje fez, porque nunca jamais quis que a cavalaria fosse às pilhagens, que as podia fazer mui boas, e também nunca quis derrubar os arcos da Amoreira [referia-se ao aqueduto que abastecia a cidade de Elvas], por onde ia a água à cidade, coisa que [a] havia de pôr em grande aperto, mas dizia ele que esas cosas no las hasian sino picaros. (MMR, pg. 91)

Mateus Rodrigues terá escrito esta passagem por volta de 1657. Se a sua memória em relação ao general espanhol não é muito exacta no que toca às operações de pilhagem, já o respeito que demonstra pelo comandante inimigo revela o legado de fama que Torrecuso deixou entre os soldados portugueses.

Imagem: “Soldados equipando-se”, pintura de Jacob Duck, Minneapolis Institute of Arts. Um detalhe deste quadro já foi incluído num artigo anterior. Note-se o equipamento dos soldados de infantaria (e do dragão que coloca a bandola com os “12 apóstolos” – veja-se as esporas, o que demonstra tratar-se de infantaria montada) e, como curiosidade, o modo de acordar o soldado adormecido, fazendo cócegas com uma espiga no nariz; um pormenor que é possível encontrar noutra pintura do mesmo autor.

O ataque ao Vale de Matamoros, 25 de Novembro de 1653 – Parte 3

Gerard

Continuemos com a narrativa de Mateus Rodrigues:

[L]á pela tardezinha [hoje dir-se-ia “lá pela tardinha”], (…) já se ia o sol posto quando a nossa infantaria veio aparecendo a um alto, à vista da vila. Assim como os castelhanos viram a infantaria, ficaram arreados, mas contudo sempre com ânimo dos diabos, que bem se viu no que pelejaram sem terem coisa donde se fizessem fortes, mais que de uma igreja que tinham.

Assim como a infantaria esteve toda junta, formou-se em dois batalhões com suas mangas grossas de mosquetaria diante, e vieram-se chegando para a vila tocando-lhe as caixas [de guerra] a degolar, e a cavalaria toda, por todas as partes também arrimando-se à vila, tocando as trombetas a degolar, que parecia tudo uma notável confusão. As mangas de mosqueteiros que iam diante sempre iam lançando de si muita bala para a vila. O inimigo de dentro da vila choviam [mais correctamente, o autor deveria ter escrito “fazia chover”] balas sobre nós; contudo, assim como se arrimaram às trincheiras foram logo entrando por cima delas, apesar do inimigo. E já a este tempo eram Avé Marias [a hora litúrgica das Vésperas, após o sol posto], que nisso havia ainda mais confusão por ser de noite, que havia tão grande gritaria dentro que se ouvia duas léguas, e já neste tempo estava toda a gente dentro da vila, porém os tiros não cessavam, que até meia-noite houve muitos tiros. O inimigo não tinha donde se fizesse forte senão na igreja, além de que tinham lá a sua fazenda metida, que na vila não havia mais que gado e porcos, muitos, e carne de porco, que havia tanta de porcos vivos e mortos. Tinha este lugar mais de dez mil arrobas de carne, que tratavam ali de fazer chacina [carne conservada em sal] para venderem para fora.

Os defensores refugiaram-se na igreja, sem se quererem render. Só quando viram que os portugueses se preparavam para fazer saltar as portas com um petardo, e sob ameaça de serem todos degolados, decidiram aceitar a capitulação concedida pelo tenente-general Tamericurt, que foi a de poderem sair da vila com todos os bens que pudessem carregar às costas. Para desgosto de Mateus Rodrigues e dos outros soldados, que já contavam com a sua parte da pilhagem,  os cabos maiores do exército entraram no lugar de culto, onde estava reunida a parte mais valiosa dos bens dos moradores, puseram sentinelas à porta e não deixaram entrar os soldados. Logo que os habitantes de Vale de Matamoros saíram com o que puderam carregar, os oficiais trataram de fazer o inventário do valioso saque, pois se o lugar era pequeno, era mui rico, que tinha 200 vizinhos, era o mais fresco lugar de águas e frutas que havia em toda Castela.

Nessa mesma noite puseram fogo a todas as casas. Quando amanheceu, não havia nenhuma que o fogo não tivesse devorado. E foi ao amanhecer que os soldados se puseram em marcha, de regresso às respectivas praças. Mateus Rodrigues refere a desgraça dos feridos: não houve nenhum ferido por coisa pouca que levasse que não morresse, que tinha esta canalha deste lugar tão más entranhas que tinham todas as balas ervadas [untadas com um preparo à base de ervas venenosas – uma prática que, apesar de proibida entre cristãos, ocorria de quando em vez desde a Idade Média, neste caso com as pontas das flechas e dos virotes] e não tinha cura mais senão encomendar a Deus.

Apesar da vila ter sido destruída pelo fogo, a operação custou 200 homens aos portugueses. Nas suas memórias, Mateus Rodrigues recrimina o tenente-general Tamericurt por ter iniciado o ataque ao anoitecer, quando o inimigo estava alerta e ainda podia ver a força atacante. Se tivesse atacado duas horas antes do amanhecer, assevera o memorialista, teria apanhado o inimigo de surpresa e a reacção não seria tão forte. O desprezo que os oficiais demonstraram pela vida dos seus subordinados nesta operação, a desigualdade tremenda na hora de repartir o saque, um sentimento acumulado de injustiça, tudo isto fez crescer  em Mateus Rodrigues – ainda a convalescer da ferida recebida no combate de Arronches – a determinação de deixar o exército e regressar à sua terra de Águeda, ao cabo de mais de 12 anos de serviço.

A queima da vila de Matamoros foi uma pequena operação, que não mereceu mais do que umas breves linhas na monumental obra do Conde de Ericeira. Para o quase desconhecido soldado de cavalos português, autor de um escrito não menos valioso para o estudo da época, tratou-se de um ponto importante de viragem na sua vida. Tomou aí uma decisão: a deserção. Mas ainda antes de a pôr em prática, ver-se-ia envolvido numa outra operação militar, esta de maior envergadura e maior nomeada: a tomada de Oliva. A seu tempo será aqui tratada.

Bibliografia: veja-se a Parte 1 deste artigo.

Imagem: Gerard Terborch, “Oficial ditando uma carta”, c. 1655, National Gallery, Londres. Compare-se este quadro com outro do mesmo autor, já publicado aqui.

O ataque ao Vale de Matamoros, 25 de Novembro de 1653 – Parte 2

1650

A uma légua da vila, a cavalaria adiantou-se à infantaria, que continuou a marchar devagar. Divididos em duas colunas, os cavaleiros acercaram-se da localidade, procurando controlar todas as entradas desta. Mas a parte da cavalaria que estava a cargo do comissário geral da cavalaria de Olivença, o francês Pierre Maurice Duquesne, aproximou-se demasiado das defesas da vila, constituídas por terraplenos de protecção, à laia de baluartes.

Prossegue a narrativa de Mateus Rodrigues: [Os habitantes da vila] havia muitos dias que andava[m] de suspeitas, e além disso mui bem sabiam que íamos lá naquele dia, porque já tinham o melhor fatinho posto em seguro [fato, neste caso, significa todo o tipo de roupa e outros artigos de uso pessoal, e não um grande rebanho de cabras ou ovelhas, como às vezes também surge nas narrativas da época]. E os castelhanos daquele lugar eram os piores que havia em toda Castela, que quando apanhavam algum algumas partidas que lá iam, muitas vezes não se haviam de render senão feitos em pedaços, nem nunca jamais pediam quartel. Quando viram a cavalaria ao redor da vila sem a infantaria imaginaram que a não levávamos, e tomaram tanto ânimo, que (…) saíram fora da vila a pelejar com a cavalaria. Mas suposto que eles o fizessem de valentes ou animosos, contudo ajudava-os muito a terra, que ainda que nós lhes quiséssemos ir fazer algum dano não podíamos chegar aonde eles andavam, e eles nos abrasavam com balas, que estávamos mui cerca deles; e sobretudo não havia ali homem nenhum naquela vila que não fosse caçador do ar [ou seja, caçador de aves], vejam se nos errariam.

Mateus Rodrigues, que participou na operação ainda combalido do ferimento sofrido em Arronches, semanas antes, queixa-se do despropósito do comissário geral Duquesne, o qual expôs a cavalaria às balas certeiras do inimigo, de tal modo que em pouco tempo 10 ou 12 cavaleiros tinham já caído mortos. E como se tal não bastasse, ainda ordenou o francês ao tenente da companhia do capitão Manuel Peixoto – um oficial pouco experiente, segundo o memorialista – que fosse com 50 homens, todos com carabinas, atacar o inimigo: “sai, tenente, bota a Cristo a degolar aqueles cornudos, e se não mos não botar dali fora, você mo há-de pagar”. Os soldados ficaram perplexos com esta ordem, porque o inimigo, isso era o que queria, que lhe fossem lá fazer floreios e escaramuças, que (…) estavam seguros de que lá não havia de chegar cavalo nenhum (…). Apesar da ordem quase suicida, o inexperiente tenente, brioso e mui honrado, lançou-se animoso ao seu destino, mas o pobrezinho o deitaram logo do cavalo abaixo com uma bala e mais alguns dez ou doze dos que levava consigo. Os restantes retiraram apressadamente a incorporar-se com o grosso da cavalaria. Levantou-se então um burburinho entre os soldados, quase princípio de motim, com remoques à grande parvoíce do comissário geral, que era estarem ali parados a servir de alvo, até que por fim o oficial francês mandou retirar as unidades sob o seu comando para um vale abrigado, e aí esperar pela infantaria.

Uma pequena observação a respeito do destacamento enviado por Duquesne ao encontro do inimigo: é provável que os cavaleiros tivessem formado em escaramuça, pois Mateus Rodrigues frisa bem que todos eram carabineiros, e que tivessem principiado por (ou, ao menos, tentado) fazer fogo por fileiras, quer utilizando a táctica do caracoleio, quer revezando-se as fileiras através dos intervalos dos soldados da frente. De qualquer modo, seriam manobras lentas e exporiam os cavaleiros ao tiro certeiro dos experientes caçadores que defendiam a vila de Matamoros.

(continua)

Bibliografia: veja-se a Parte 1 deste artigo.

Imagem: Philips Wouwerman, “Soldados pilhando”, c. 1650, Reiss-Engelhorn-Museen, Mannheim.

O ataque ao Vale de Matamoros, 25 de Novembro de 1653 – Parte 1

Matamoros1

Matamoros2

Uma das consequências imediatas da vitória portuguesa no combate de Arronches, em 8 de Novembro de 1653, foi a supremacia que a cavalaria portuguesa conseguiu alcançar durante algum tempo, o que permitiu lançar incursões a localidades em território inimigo com reduzida oposição.

A primeira dessas incursões ocorreu em 25 de Novembro de 1653. D. João da Costa, Conde de Soure, governador das armas do Alentejo, incumbiu da operação o tenente-general da cavalaria Achim de Tamericurt. O oficial francês comandava a cavalaria da província alentejana enquanto o seu general, André de Albuquerque, recuperava dos graves ferimentos sofridos em Arronches. A História de Portugal Restaurado faz apenas uma breve referência à incursão, na qual participaram as companhias de cavalaria de Elvas, Campo Maior e Olivença e dois terços pagos da guarnição desta vila, sob o comando do mestre de campo de um deles, Manuel de Saldanha (quando Olivença foi tomada pelos espanhóis em 1657, era este oficial o governador da praça). Conforme narra o Conde de Ericeira, saíram estas forças a queimar dois lugares vizinhos à cidade de Jerez [de los Caballeros], chamados os Vales de Matamoros e Santa Ana. Mas a acção é descrita em poucas linhas, ocupando muito menos espaço do que a operação que se lhe seguiu, a tomada da vila de Oliva.

O soldado de cavalaria Mateus Rodrigues, que participou em ambas as operações, deixou nas suas memórias um registo mais detalhado e pitoresco da acção do Vale de Matamoros, contada “a partir de baixo”, da perspectiva do combatente comum. De acordo com Rodrigues, a cavalaria espanhola, derrotada em Arronches, deixara o Vale de Matamoros sem defesa alguma (assim garantiam as línguas – soldados e paisanos capturados para obter informações), pois não tinha gente paga que o defendesse nem castelo onde se fizessem fortes. O Vale de Matamoros ficava a 7 léguas (cerca de 35 quilómetros) de Olivença, que era distância que uma força mista de cavalaria e infantaria, sem outro impedimento (trem e artilharia), podia cobrir em 24 horas de marchas.

Ajustado o dia da operação, juntou-se a cavalaria em Elvas e daí partiu para Olivença, para se incorporar com a infantaria. Chegando o tenente-general Tamericurt com a força montada, estava tudo fora da vila esperando por ele, que assim como chegámos nos pusemos em marcha na via de Alconchel, que é um castelo nosso que está guarnecido e por ali era a nossa marcha [a praça de Alconchel estava então na posse dos portugueses]. E quando ali chegámos seriam dez ou onze horas do dia. Ali fizémos alto todos, descansando um pouco enquanto os corpos se alentavam com alguma coisa, e a dar de comer aos nossos cavalos.

Depois do descanso, Achim de Tamericurt e Manuel de Saldanha mandaram formar as tropas e passaram-nas em revista, ocasião para se assentarem os róis detalhados dos efectivos, de forma a saber quantas baixas se sofrera uma vez finda a operação. Acharam 800 infantes e 1.400 cavalos, e tomado tudo em boa conta e posto tudo em boa forma começamos a marchar, que já dali nos não ficava mais de 4 léguas e sempre por campanha donde nos podia ver o inimigo a maior parte do caminho, porque tem o lugar à roda dele serras tão altas que se vê de cima delas meio mundo.

(continua)

Bibliografia:

ERICEIRA, Conde de, História de Portugal Restaurado, edição on-line (facsimile da edição de 1759), Parte I, Livro XII, pgs. 438-439.

Manuscrito de Matheus Roiz, versão transcrita (AHM), pgs. 360-366.

Imagens: De cima para baixo, localização do Vale de Matamoros em relação à fronteira luso-espanhola e pormenor do palco de operações (imagens retiradas do programa Google Earth).

Os “cavalinhos de pau”

chevaux_2

Os cavalinhos de pau – designação lusitana seiscentista para os obstáculos portáteis vulgarmente conhecidos pelo termo francês “chevaux de frise” – foram muito utilizados em Portugal durante todo o período da Guerra da Restauração. Destinavam-se a proteger a frente dos atiradores de infantaria (arcabuzeiros e mosqueteiros), os quais não dispunham de meios eficazes para se defenderem da cavalaria inimiga no combate corpo-a-corpo. Como uma parte dos atiradores era destacada para formar as mangas do esquadrão, ou para se dispor entre os batalhões de cavalaria, ficavam sem a cobertura próxima dos piqueiros. Daí a utilização dos obstáculos portáteis.

Existem várias referências ao uso dos cavalinhos de pau. O Conde de Ericeira atribui a Joane Mendes de Vasconcelos a responsabilidade da introdução do seu fabrico no Alentejo, província onde foram bastante utilizados devido à natureza do terreno. O soldado Mateus Rodrigues (Matheus Roiz) deixou, nas suas memórias, uma descrição detalhada deste equipamento e do seu uso:

(…) [L]evavam os infantes os cavalinhos de pau às costas, cada dois soldados [levavam] um, e em cima deles levavam seus mosquetes, eram de comprimento de dez palmos [cerca de dois metros], com uma cadeia de ferro cada um em uma ponta, com um gancho, e no outro uma argola metida no mesmo pau, e assim como os queriam pôr como trincheira da infantaria, de noite ficavam todos pegados uns nos outros, de modo que não se podiam despegar; e estando postos na forma que digo, ficavam com uns bicos de pau para o ar, na mesma altura de um cavalo, pelos peitos, e em cada ponta dos paus tinha um bico de ferro como o de uma lança, mas maior e mais agudo, e não tinha cada pau mais de os mesmos dez palmos, mas cada cavalinho tinha cinco pontas destas, e por todas as partes que o pusessem ficava da mesma maneira; e assim a infantaria estava de noite tão segura com isto que bem podiam vir 20 mil cavalos, não haviam de romper a infantaria. (MMR, pgs. 106-107)

A descrição de Mateus Rodrigues reporta-se à campanha do forte de Telena (Setembro de 1646, erroneamente datada pelo soldado, nas suas memórias, em 1645). Ainda nessa campanha, o memorialista descreve um combate em que três terços de infantaria, protegidos por cavalinhos de pau, conseguiram suster os ataques de caballos corazas espanhóis junto às margens do Guadiana.

Os cavalinhos de pau eram, portanto, segmentos de madeira com cerca de dois metros de comprimento, os quais  comportavam cinco espigões de madeira revestidos de pontas de ferro bem aguçadas, e que se podiam atrelar uns aos outros através de um sistema de corrente com argola numa das extremidades, e gancho na outra. Não existe qualquer gravura coeva dos mesmos, mas em breve colocarei aqui um esboço de reconstituição de um desses segmentos.

Apesar de poderem ser transportados por dois soldados, os cavalinhos de pau não eram de fácil deslocação (note-se que os militares tinham ainda de arcar com o peso dos respectivos mosquetes ou arcabuzes). Por isso, havendo veículos hipomóveis disponíveis, os cavalinhos de pau eram neles transportados, como também descreve Mateus Rodrigues a propósito da campanha de Mourão em 1657, durante a qual 500 carretas puxadas por bois foram destinadas ao transporte daquelas defesas da infantaria.

Imagem: Exemplo de chevaux de frise (reconstituição moderna), maior, mais pesado e com mais espigões que os segmentos de cavalinhos de pau de construção portuguesa, mas destinado ao mesmo fim. Foto retirada deste site: http://www.geocities.com/lakeforts/Fort_Ontario.html

Nota à margem: por motivos profissionais, e também porque estou neste momento a avançar com a redacção de mais uma obra, não me tem sido possível actualizar com a frequência desejada a página da Guerra da Restauração. Quero, no entanto, aproveitar para agradecer de novo a Juan Antonio Caro del Corral e Julián García Blanco a preciosíssima ajuda que me têm dado com o envio de publicações e documentação de arquivos de Espanha, que muito úteis me têm sido para o prosseguimento do meu trabalho. O livro que a pouco e pouco vai tomando forma e que (assim espero) chegará aos escaparates no próximo ano será, também, fruto da colaboração daqueles estimados amigos e  investigadores. Bem hajam!

As mulheres e a guerra

TERBORCH

Um dos títulos mais recentes na área da História Militar da Era Moderna é Women, Armies, and Warfare in Early Modern Europe, de John A. Lynn II (New York, Cambridge University Press, 2008 – este autor assinava anteriormente apenas como John A. Lynn). Não é a melhor das obras de Lynn: uma estrutura pouco clara, um texto assente sobretudo em fontes secundárias, uma quase ausência de fontes primárias. No entanto, não deixa de ter algum interesse, pois entra num campo ainda pouco estudado: a relação das mulheres com o meio militar, numa época em que os interditos e a representação de valores eram, em grande parte, desfavoráveis ao sexo feminino, mas que se esbatiam – sem se apagarem totalmente – no seio da comunidade castrense. A mulher como companheira, legítima ou ilegítima, do militar, ganhando a vida com o comércio, incluindo o do próprio corpo, participando, por vezes activamente, nos perigos dos combates ou, no mínimo, nas actividades rotineiras dos exércitos. Em qualquer dos casos, sempre sujeita a cair vítima da violência de campanha, tal como a mulher que não se integrava na comunidade militar, mas que se deparava com a rudeza dos combatentes quando irrompiam pelas suas casas e propriedades para se alojarem ou, pior, com o intuito de pilhar e violar.

No período da Guerra da Restauração não são muito numerosas as referências à presença feminina enquanto acompanhante regular dos exércitos no terreno. A sazonalidade das operações de maior envergadura e, por outro lado, a especificidade das pequenas operações de saque e pilhagem, não davam azo a que a mulher se encontrasse com frequência ao lado dos militares no terreno, ao contrário do que sucedia, por exemplo, com os exércitos da Guerra dos Trinta Anos. Todavia, no que concerne a situações em que a mulher se podia encontrar no teatro de operações, sob os mais variados aspectos, as fontes não são tão escassas. Respigo aqui algumas passagens de dois casos diferentes: a mulher que participa activamente na guerra e a mulher que é vítima acidental das operações militares. Incentivos ao aprofundamento da pesquisa e análise sobre o tema, vertidas, como é habitual neste espaço, para português actual.

1. A mulher combatente (não enquadrada no exército)

Durante o ataque espanhol a Ouguela, em 1644, saiu a esta defensa uma mulher com um chuço, que pelejou nas trincheiras como qualquer soldado animoso; e se afirma que dos castelhanos mortos teve ela sua parte; foi ferida, e querendo-a um soldado retirar, o não consentiu, antes com maior ânimo se embraveceu e continuou a peleja. (ARAÚJO, João Salgado de, Successos Militares das Armas Portuguesas em suas fronteiras depois da Real acclamação contra Castella. Com a geografia das Prouincias, & nobreza dellas, Lisboa, Paulo Craesbeeck, 1644, pg. 225 v)

Há nesta vila [de Olivença] uma moça, criada no campo, chamada Maria; serve a um seu parente lavrador; esta moça, tocando a rebate, sai no campo armada de peito e espaldar e morrião, com clavina [carabina] nas mãos, em um cavalo de seu amo; vai a ele, e sendo na vila acode à trincheira com valor e bizarria.

É esta moça de tantas forças, que um capitão de pouco mais de vinte anos de idade me afirmou, que pegando-lhe ela de uma mão, para se livrar foi necessário querer ela largar-lha. (Aires Varela, Sucessos que ouve nas fronteiras de Elvas, Olivença, Campo Maior e Ouguela, o primeiro anno da Recuperação de Portugal, que começou em 1º de Dezembro de 1640 e fez fim em ultimo de Novembro de 1641, Elvas, Typografia Progresso de António José Torres de Carvalho, 1901, pg. 33)

2. A mulher enquanto vítima das operações militares

Após a tomada da vila de Oliva pelas forças portuguesas, em 10 de Janeiro de 1654, e de acordo com as capitulações acordadas entre sitiantes e sitiados, o soldado Mateus Rodrigues (Matheus Roiz) assistiu ao desfilar dos civis que abandonavam a vila, passando no meio das fileiras de soldados portugueses que ladeavam a estrada. Comoveu o soldado a situação em que muitas mulheres se encontravam: não poderei aqui encarecer as grandes lástimas que neste dia aqui vi, porque além destas mulheres se verem fora de seu natural [ou seja, da sua terra natal] para sempre, com suas fazendas perdidas, fazia tão mau tempo que não se podia bulir com a muita água que chovia, que quando elas começaram assim era logo pela manhã, em 10 de Janeiro, ao Domingo, de 1654, e até noite nunca jamais deixou de chover, que suposto que Jerez de los Caballeros estava dali duas léguas, [que era] para onde esta gente se havia de retirar, muita dela havia de ficar ainda fora (…). Estas mulheres (…) eram entre todas 704, fora meninos, que passavam de 1.000 crianças e as demais delas mui pequenas. E havia mulher que levava duas nos braços e três em o rabo (…) [ou seja, envoltas num xaile às costas], uns gemendo e as mais chorando. Que como iam carregadas de fato à cabeça e levavam muitas delas muitos mantéus e saias vestidas, e como chovia muito, enchia[m]-se-lhe os fatos de água e não podiam bulir, e a tudo isto nós ali parados (…) esperando a água a pé quedo, (…) que ainda que quiséssemos fazer algum bem áquelas mulheres, não podíamos. (…) E trazia o bom velho [o governador de Oliva] consigo diante as suas duas filhas donzelas, que eram bizarras [quer dizer, bonitas]. Mas vinham elas tão enfadadas, que vinham muito cobertas, e não davam lugar a que víssemos bem suas partes, que não era o tempo para elas se deixarem ver. (Manuscrito de Matheus Roiz, pgs. 385-386).

Imagem: “Homem oferecendo moedas a uma mulher”, 1660-1663, por Gerard Terborch, Museu do Louvre. Um militar (de cavalaria), uma jovem mulher, e a expectativa de uma transacção não inocente.

Badajoz, 1652 – a intentona frustrada (6ª e última parte)

cena

Ao tempo dos preparativos para a operação de tomada de Badajoz, o soldado Mateus Rodrigues encontrava-se com a sua companhia (comandada pelo capitão Francisco Pacheco Mascarenhas) servindo na guarnição de Mourão. Quando D. João da Costa decidiu pôr em andamento as forças, esta companhia, bem como as de Dinis de Melo de Castro e de Diogo de Mendonça, que serviam em Moura, a de Jerónimo de Melo, estacionada em Serpa, e a do holandês van Inguen, que guarnecia Monsaraz, receberam ordem para se incorporarem com o terço de Moura, o melhor do Alentejo, comandado pelo mestre de campo Manuel de Melo. Deviam marchar para Olivença, mas o segredo era tal que ninguém sabia o verdadeiro objectivo de todo aquele aparato bélico. Este só veio a ser revelado quando a força de 1.200 infantes e 300 cavaleiros recebeu ordem de abortar a missão, no dia 19 de Março, pelas razões expostas no anterior capítulo desta narrativa. Não teria o soldado de cavalos ocasião de repetir a marcha.

Desavença e descoberta do plano

Com efeito, a operação de tomada de Badajoz fora adiada para a noite do Domingo de Pascoela. Mas um acontecimento inesperado deitaria tudo a perder para os portugueses. De acordo com o relatório de João Leite de Oliveira,

(…) sucedeu que o sargento galego de nação [Alonso de Castro], temendo que se viesse a descobrir o negócio, disse à sua amiga que andava metido em uns tratos, que não lhe podia durar muito a vida, pelo que se queria ir terra dentro, e a quis persuadir que fosse em sua companhia, o que ela não quis fazer, e assentaram que a mandaria buscar.

E depois de ele ido há 7 ou 8 dias, teve esta [mulher] uma pendência [ou seja, discussão] com a do outro, e eram vizinhas, e tinham comido todos juntos muitas vezes, e com a paixão foi a um ajudante e lhe disse que o sargento flamengo vinha a Portugal algumas vezes, e não levava pilhagem, mas que lhe não faltavam reales de a ocho [moeda espanhola da época, que também circulava em Portugal], com que bem se regalava, e a sua amiga. Com isto e mais alguma diligência que o ajudante fez, deu conta ao seu general, o qual mandou encarregasse também à mulher que o vigiasse [ao sargento flamengo], quando saía fora, como o fez.

E vindo a Elvas dar-nos parte de como o outro sargento era ido, mas que ele se atrevia a fazer só o negócio, porque entrava e saía pela meia-lua cada vez que queria, por ser mui conhecido dos soldados, porém a mulher o vigiou a noite que cá veio, e lhe deram ao outro dia pela manhã em casa, e o acharam almoçando com a amiga, e dando-lhe busca na casa lhe acharam cem patacas que de cá havia levado. Indício certo que o condenou, pelo que dando-lhe tormento, ao sétimo confessou tudo que se havia passado, e o negócio se acabou, e ele também, porque o enforcaram. E os castelhanos ficaram mui assombrados, e dizem que foi em Badajoz um dia de juízo, dando a Deus muitas graças por os livrar de tão manifesto perigo. (“Relação…“, in Madureira, pgs. 183-184)

Assim termina o relatório do tenente-general João Leite de Oliveira. Já a narrativa de Mateus Rodrigues é bem mais colorida na descrição, e sobretudo muito menos refinada no vocabulário. Embora coincidente no essencial dos detalhes, dá como causa principal de tudo se descobrir uma discussão entre o sargento flamengo e a sua amiga, e não entre as duas mulheres. Depois de referir a fuga do sargento galego, o soldado de cavalos prossegue, misturando português com castelhano, como é habitual quando reconstrói diálogos entre espanhóis:

(…) tinha um deles uma amiga das portas adentro [termo usado no período para designar uma amante], e este que a tinha [Alejandro Perez, o flamengo] era aquele  a quem o outro [Alonso de Castro, o galego] havia dado as contas do que tinha tratado com Dom João da Costa. Como [a] amiga viu que o sargento supria a gastos de muita consideração, e viu que as pilhagens lhe não podiam suprir a tantos gastos, e assim que uma noite, estando eles na cama falando nas idas que fazia a Elvas a pilhagens, lhe disse [a] amiga ao sargento «ó fulano [Mateus Rodrigues, tal como o tenente-general, não indica os nomes dos sargentos], por vida vuestra que me digais donde vos viene tantos dineros, como vos veio gastar, perque no me puedo persuadir a que la[s] pilhages puedan suprir a tanto como gastamos, perque unas vezes traeis e outras no, e nunca nos faltan dineros». Pergunta foi esta que tinha a negra puta no corpo, pois deu ocasião a tantas desventuras (…), de sorte que o sargento lhe respondeu (…) um disparate mui grande, que lhe serviu de perder a vida. Disse o sargento que lhe importava saber donde lhe vinham sus dineros, que como ella gastava o que havia mister [ou seja, o que lhe apetecia], que no procurasse naide; e assim que no hablasse mas en ello. Mas como as mulheres são muito curiosas de saber tudo, e além disso putas ainda muito mais, e mais quando a cousa caía em sujeito de castelhanas, que são delgadas como o mesmo diabo. E assim que tornou a replicar ao sargento que era possível que havia de ser su amiga e estar com un hombre en la cama, que no lhe havia de dar sus cuentas de lo que passava en el mundo, e enfadando-se muito com ela o sargento, lhe disse «boto a Cristo que se vuelves a hablar otra vez en eso, que te he de matar, que mis dineros me vem por muchas vias, de que yo no quiero darte esas cuentas (…)». De modo que o diabo da puta ficou tão escandalizada das cousas do sargento, que se lhe meteu o diabo no corpo, e apenas se levantou ao outro dia da cama, logo foi a falar com o governador (…), que era o Marquês de Totavila (…).

Mais do que pelo duvidoso rigor dos pormenores deste episódio, a escrita de Mateus Rodrigues vale pelo que revela da mentalidade característica do homem e soldado (fosse ele português ou não), e pelo modo como a mulher era encarada neste contexto.

Tão resoluta velhaca como foi esta não se acha, que tão bem pagou a quem a sustentou seis ou sete anos, que tantos havia que o sargento confessou que tinha, e pagou-lhe este bem com o levar à forca.

O sargento foi de imediato preso e submetido a tortura. O outro, que se pusera em fuga, foi mais tarde capturado. Mas enquanto o flamengo foi logo condenado à morte e enforcado, o galego foi poupado durante algum tempo, de modo a que pudesse denunciar qualquer português que com ele tivesse negociado em Elvas e que se quisesse de novo infiltrar em Badajoz, ou lá entrar como volantim (homem encarregado de entregar mensagens ou outra correspondência – note-se que, apesar do estado de guerra, continuava a haver correio regular entre os dois reinos). Foi assim que um alfaiate português de Elvas, que se deslocou a Badajoz como volantim, acabou por ser preso, apenas e unicamente porque era muito parecido com o tenente-general João Leite de Oliveira. Esteve quase a ser submetido a tormento, mas foi salvo por um capitão de cavalos castelhano, que havia pouco tempo tinha estado prisioneiro em Elvas, e a quem o alfaiate havia feito duas galas (trajos distintos, para solenidades) durante o tempo de cativeiro. Foi este oficial que reconheceu o alfaiate e falou com o governador, garantindo a verdadeira identidade do português e assim conseguindo a sua libertação.

O sargento galego acabou por ser enforcado mais tarde. Mateus Rodrigues tirou deste episódio de traição gorada uma conclusão misógena: eis aqui o que tem quem de mulheres se fia, que ainda que um homem muito queira a sua mulher, nem tudo que passa lhe há-de descobrir, pois nelas nunca segredo fez morada. (todas as citações do MMR, pgs. 261-267)

Considerações finais

Ter-se-à passado tudo assim, como o descreve Mateus Rodrigues? Há dúvidas sobre a veracidade de alguns pormenores. O episódio do furriel João Dias de Matos não é referido na confissão do sargento flamengo, que apenas nomeia a incursão do tenente-general. Isto não significa que o dito furriel não tivesse contado a história a Mateus Rodrigues, por tê-la ouvido a João Leite de Oliveira, fazendo como sua a aventura do oficial general. Como também não invalida a possibilidade de João Dias de Matos ter mesmo entrado em Badajoz disfarçado – se os textos do relatório e da confissão não referem esta operação, isso pode ter ficado a dever-se ao facto do tenente-general não querer ver diminuído o seu papel em toda esta história, e ao receio do sargento Alejandro Perez agravar ainda mais o caso contra si (receio inútil, de resto, pois o homem estava já de todo perdido). No entanto, faltam suportes mais fidedignos para confirmar a entrada do furriel de cavalaria, que acabaria os seus dias em Portugal, em 1660, enforcado como traidor, quando era capitão de cavalos no exército de Filipe IV.

O caso que levou ao fracasso do plano de traição, conforme conta Mateus Rodrigues, também não coincide com o texto da confissão de Alejandro Perez. A amiga deste chamava-se Isabel Sanchez, a quem o sargento dizia que ia a Lobera, quando na realidade se deslocava a Elvas; não há na confissão qualquer referência a desentendimentos entre ambos. O desentendimento que existiu, opôs o sargento flamengo ao seu camarada e à amiga deste, uma Catalina García, e esteve directamente relacionado com a fuga de Alonso de Castro. Como confessou Alejandro Perez, la pendencia que tubimos fue porque pasabamos en casa de Catalina García, su amiga, y me cargabán la mitad del gasto, sendo ellos dos y yo uno, y temiendo que yo le avia de descubrir hio la fuga. (Arquivo Geral de Simancas, Sección Guerra Moderna, Legajo número 1822 )

O facto é que a importantíssima praça extremenha nunca seria tomada durante a Guerra da Restauração – nem pela astúcia, nem pela força das armas.

A terminar, renovo os meus agradecimentos ao amigo Juan Antonio Caro del Corral por me ter enviado a cópia do manuscrito do AGS, e remeto os leitores para este interessante artigo no blog do amigo Julian García, Puertas de Badajoz.

Imagem: A propósito de militares e amigas… “Cena de bordel”, de Frans van Mieris, o Velho, 1658. Mauritshuis, Haia.

Badajoz, 1652 – a intentona frustrada (4ª parte)

cav

A missão de João Leite de Oliveira (noite de 5 para 6 de Fevereiro de 1652)

Segundo o relatório do tenente-general da artilharia, ficou tudo combinado com os sargentos para que se infiltrasse em Badajoz, na missão de reconhecimento, na noite de 5 para 6 de Fevereiro. Na narrativa de Mateus Rodrigues, foi numa das vezes que um dos sargentos se deslocou a Elvas, a recato da noite, que D. João da Costa revelou que iria enviar o tenente-general, e que não se enfadasse o sargento com aquela decisão e cautela, mas que era necessário ver tudo muito bem. E o oficial português devia entrar e sair de Badajoz numa só noite (ao contrário do que sucedeu com o furriel João Dias de Matos).

Prossigamos com a relação de Leite de Oliveira:

E logo sendo na noite assinada, saí à tarde com todo o recato de Elvas, eu só, e onde se chama Malpica de Castela se tinha mandado vir de Olivença uma guia prática [seria o furriel Dias de Matos?] e o capitão Aguiar, que é engenheiro, o qual não sabia nada, nem a guia, e ajuntando-me aí com eles, lhe[s] disse que tínhamos uma jornada que fazer e aqui neste lugar pasámos o dia, e ao pôr do sol disse ao guia me guiasse ao ribeiro, que passa pela outra parte de Mérida, ao qual chmam ribeiro de Redilhas, e estando já perto dele lhe disse me mostrasse o moinho, e depois de o fazer, mandei se retirasse (…) os três cavalos, e eu me adiantei ao moinho, do qual me saiu o sargento flamengo [Alejandro Perez], e depois de nos reconhecermos tornei atrás, e chamei o engenheiro, e então lhe comuniquei ao que íamos.

Deram dez horas da noite e saiu a lua [ou seja, estava uma noite de luar], que nos podia fazer dano, sem embargo disso nós chegámos ao pé da muralha do castelo, um à vista do outro, sem haver sentinela por aquela parte na muralha, e fomos seguindo (…) até uma meia lua, que fecha por uma e outra parte na muralha do castelo, que terá 18 ou 20 palmos ao mais de alto, a esta meia lua sai uma porta do castelo, que fica de noite somente ferrolhada, porque a meia lua não tem saída para a campanha, e essa é a causa.

Chegou o sargento, que me guiava, diante da meia lua onde estava o outro sargento com dois soldados, que ali havia de sentinela, e lhe perguntou «eres tu?», ao que lhe respondeu o nosso guia «yo soy y no pude pilher el carnero, y aqui vienen comigo dos amigos, que alla topé, que se habian quedado fuera pera el mesmo efecto», com o que nos deu o sargento que estava dentro um chuço pelo pé, e pegando nele, e na muralha nos baldeámos dentro todos três, eu saudei aos soldados, que ali estavam de sentinela, e não repararam no trapilho do vestido que eu levava, e assim abriram o postigo da porta, que estava cerrado, e entrámos no castelo os quatro, no qual eu andei até uma hora depois da meia-noite, correndo a muralha, reconheceno a artilharia, e armazéns de munições e mantimentos, e o trem da artilharia, e onde moravam os almoxarifes que têm as chaves dos armazéns.

O castelo tem só uma porta, que sai para a cidade, e a companhia que entra de guarda todas as noites tem cuidado de a fechar às nove da noite, e abrir pela manhã, o que tudo vimos mui devagar, por estar um dos sargentos esta noite de guarda com 2 homens, que é o mais que entram de guarda pela muita falta que têm de gente. Visto tudo à nossa vontade, nos viémos à meia lua, fingindo tornávamos fora ver se os pastores dormiam para lhes furtar o carneiro, e nos viémos. (Relação…, pgs. 180-181)

Segundo Mateus Rodrigues (exagerado, por vezes, no que tocava a referir recompensas materiais), D. João da Costa terá oferecido aos sargentos que preparavam a traição 3.500 réis em moedas de dobrão, só para que esta missão de espionagem se efectuasse, mas os sargentos recusaram, dizendo que, se Deus quisesse, haveria tempo para que o governador das armas os pudesse recompensar. Esta recusa em aceitar o dinheiro fez acreditar D. João da Costa ainda mais na boa fé dos dois sargentos, e afastar qualquer receio de traição por parte deles em relação aos portugueses. Quanto ao resto, a narrativa de Mateus Rodrigues não é completamente coincidente com o relatório em alguns pormenores: diz o soldado que Leite de Oliveira se fez acompanhar por 30 cavalos (e não por três), os quais ficaram afastados da muralha “um bom tiro de mosquete” (correspondente a pouco mais de 100 metros, aproximadamente) – o que é um absurdo, pois seriam facilmente detectáveis. Depois, refere que o tenente-general foi comer e beber com os sargentos a um mesão, falando com eles em bom espanhol, repetindo assim a façanha de João Dias de Matos – outra fantasia do autor, pois para além do despropósito da acção, dada a hora tardia da noite, seria um risco desnecessário e de todo improvável de ser corrido pelo tenente-general. No entanto, o que Mateus Rodrigues descreve sobre o resto do episódio está de acordo com o relatório. (MMR, pgs. 254-257)

Os sargentos continuavam a visitar D. João da Costa em Elvas, de cada vez que vinham a Portugal sob pretexto de fazerem pilhagens, e recebiam algum dinheiro de recompensa do mestre de campo general, pois de facto não levavam nada pilhado.

No próximo artigo serão descritos os preparativos para a operação de conquista de Badajoz, e no seguinte (e último), o resultado final de todos estes planos.

Imagem: “O descanso dos cavaleiros”, quadro de Philips Wouwerman, Koninklijk Museum voor Schone Kusten, Antuérpia.

Badajoz, 1652 – a intentona frustrada (3ª parte)

badajoz1

O furriel João Dias de Matos em Badajoz

Esta parte é omitida por João Leite de Oliveira, mas Mateus Rodrigues conta-a conforme ouviu da boca do próprio furriel de cavalaria.

Mandou Dom João da Costa chamar o furriel João Dias de Matos, e vindo ele lhe falou (…) só em uma casa muito tempo, dando-lhe contas do que tinha entre mãos e que não tinha em quem confiar aquelas cousas senão nele, pois sabia muito bem seu préstimo e valor, que tinha ajustado com os sargentos de como ele havia lá de ir, e que lhe disse o sargento que seguramente podia entrar a cavalo pela porta dentro às trindades [toque do sino, chamando à oração do fim da tarde], que fosse logo direito ao castelo e que em tal calle podia perguntar por su amigo sargento hulano [ou seja, fulano; respeitou-se aqui, e assim será na restante transcrição, a mistura de castelhano com português], e que ele também se obrigava a botá-lo fora seguramente [quer dizer, em segurança]; de maneira que Dom João da Costa lhe disse (…) que se ele lhe trazia boas informações, que lhe dava sua palavra de o acrescentar muito bem; (…) e logo ali ajustaram o dia em que havia de ir lá. Foi-se o furriel para Olivença e lá se preparou de todos os aviamentos castelhanos, como era cavalo castelhano ferrado à espanhola, e sela castelhana e armas também, (…) todos os arreios e cousas que levava eram castelhanos. E assim se partiu um dia de Olivença e se foi emboscar em um olival que chamam a Florida, quero dizer, os olivais das Malas Aradas, que não ficam de Badajoz mais de meia légua, no meio da estrada que vem de Albufeira. E assim como foi sol posto meteu-se na estrada, e foi por ela abaixo como que vinha de Albufeira, e assim como chegou às portas entrou por elas dentro sem que ninguém lhe perguntasse nada, cuidando era algum soldado que vinha com alguma carta de fora ou algum negócio. E assim como entrou, foi pela cidade fora até ao castelo, e perguntando pelo sargento fulano em tal calle, logo lhe disseram aonde morava, que a poucos passos tinha já dado com ele, e assim como se viram, abraçaram-se um ao outro por diante de alguns castelhanos, e a saudação que se davam era perguntar era perguntar «como estás, primo de mi vida?», «bueno, primo de mi anima», «en aquesta terra, primo, que negocio vos ha traído acá?», respondia o furriel «un negocio que no es de mucha importancia, imos tambien a vervos, que muchos tiempos que nos no avemos visto». De modo que se foram para casa, e foi o sargento acomodar-lhe o cavalo a casa de um soldado de cavalo seu amigo, dizendo-lhe que lhe acomodasse aquele cavalo, que era de un primo suio que era de Mérida; acomodou-lhe logo o soldado e foi-se o furriel e mais o castelhano sargento a comer logo a um mesón, que assim chamam lá às bodegas que dão de comer; de modo que em todos estes tempos sempre o furriel falando tão cerrado espanhol, melhor que o mesmo sargento. E assim como comeram, lá pela alta noite foi o sargento a mostrar todos os armazéns do castelo ao furriel, e logo foi pela muralha do mesmo castelo, como que ia o sargento rondando a muralha, e viu tudo mui à sua vontade. E se esteve ali até ao outro dia à noite, que saiu às mesmas horas a que havia entrado, sem haver pessoa alguma que lhe perguntasse nada. E não há dúvida que foi uma grande aventura, e quando eram dez horas da noite já o furriel estava às portas de Elvas. (MMR, pgs. 250-252).

Foi então avisado D. João da Costa da chegada do furriel, e este de imediato foi conduzido à presença do mestre de campo general. Disse-lhe João Dias de Matos que, pelos modos que tinham os dois sargentos, não lhe parecera que tentassem trair os portugueses, e antes pelo contrário, que se esperava uma grande vitória e sucesso na conquista de Badajoz pela traição, e que pelos planos que lhe tinham exposto, seria impossível deixar de se tomar a praça, e com muito pouca perda de vidas. Foi recompensado o furriel com 50 patacas e prometeu-lhe D. João da Costa outros acrescentamentos pelo bom desempenho da missão.

(…) Foi-se o furriel a descansar, que pousava em casa do meu furriel, que eram ambos naturais de Louriçal [na comarca de Esgueira]. Mas nunca este homem dizia onde ia nem de onde vinha, só depois que a cousa não teve efeito (…) se soube então, contava ele tudo o que passava em Badajoz com os sargentos e com D. João da Costa. (MMR, pg. 252)

Esta é a parte que não consta do relatório do tenente-general. Segundo Mateus Rodrigues, só depois da acção de espionagem do furriel é que D. João da Costa mandou chamar João Leite de Oliveira, para o incumbir de missão semelhante, mas visando objectivos finais.

(continua)

Imagem: Planta de Badajoz; in La memoria ausente. Cartografia de España y Portugal en el Archivo Militar de Estocolmo. Siglos XVII y XVIII.

Badajoz, 1652 – a intentona frustrada (2ª parte)

jacob-duck1Prelúdio à traição (continuação)

Tanto o relatório do tenente-general da artilharia João Leite de Oliveira como as memórias do soldado Mateus Rodrigues referem a entrevista de um dos sargentos com o mestre de campo general D. João da Costa. No relatório, refere o tenente-general que

(…) depois de eu ajustar isto tudo com ele [ou seja, com o sargento galego], o comuniquei a D. João da Costa, mestre de campo general do exército, o qual abraçando-me muitas vezes me ordenou que depois de dormirem os outros pilhantes [capturados], lá pela meia-noite adiante, lhe levasse o sargento para falar com ele, e levando-lho tornou a repetir o modo com que nos podia dar entrada no castelo. E logo o senhor mestre de campo general lhe prometeu em nome de Sua Majestade honras e rendas com que luzidamente passaria neste Reino, e dando-lhe os dobrões que ele quis levar, o advertiu que não gastasse mais do que até então era costumado, nem comprasse uns sapatos, para que alguma pessoa não reparasse nisso, e que querendo o outro seu camarada acompanhá-lo, nos viria dar recado à noite, que lhe apontámos, na qual não veio, mas vieram ambos daí a três ou quatro dias. (“Relação…”, in Madureira, pgs. 179-180)

O plano

A narrativa de Mateus Rodrigues não difere até aqui, em substância, do relatório do tenente-general, mas acrescenta alguns pormenores sobre os dois sargentos. Assim, o galego teria exposto, em pormenor, o plano da traição a D. João da Costa:

(…) saberá Vossa Excelência de como eu e o meu camarada, o outro sargento que está no corpo da guarda, somos senhores do castelo de Badajoz, pois que as nossas companhias não têm capitães, há muito tempo que andam lá por suas terras, e nós entramos de guarda e saímos todos os dias e pomos e tiramos sentinelas da muralha toda a noite, e a guarda do castelo corre por nossa conta, sem a isso ser necessário assistência de mais algum oficial de fora (…). De modo que eu e meu companheiro havemos de traçar a cousa; é que a muralha de Badajoz tem um pedaço muito mau, que quase lhe chega um homem com a mão acima, e isto é no castelo; e como nós pomos e tiramos as sentinelas, pode Vossa Excelência juntar 500 ou 600 mosqueteiros pela parte do castelo, que eu tirarei todas as sentinelas da muralha, para que não sejam sentidos na cidade, e logo estarei eu na muralha e darei um sinal (…). E tanto que a gente estiver dentro do castelo, havemos logo de ir mui depressa a terraplanar a porta do castelo que vai para a cidade, e logo ficamos mui seguros senhores de toda a melhor artilharia, que é a do castelo, que todo Badajoz lhe fica debaixo dela; e na mesma noite há Vossa Excelência de ir com toda a mais gente amanhecer às muralhas de Badajoz, e vendo-se Badajoz com o castelo tomado e com poder à roda das muralhas, sem remédio logo se entrega, e quando não seja logo, não haverá dilação, porquanto todas as munições que em a cidade há estão no castelo, que lá estão os armazéns, e não podem pelejar faltando-lhe o melhor; e demais que a artilharia do castelo os fará entregar (…), que iremos arrasando a cidade pouco a pouco. (…) Mande Vossa Excelência um homem a Badajoz da sua parte, para que tome informação da cousa bem à sua vontade, e este tal homem, quando for, seja por minha ordem, para que vá seguro e venha. (MMR, pgs. 244-246)

Interessante é o pormenor da combinação entre os dois sargentos, diálogo embelezado pela imaginação de Mateus Rodrigues, mas certamente fundamentado em dois aspectos essenciais: a vivência da maior parte dos combatentes de ambos os exércitos, padecendo muitas dificuldades e perigos, sem esperança imediata de melhorias (situação que Mateus Rodrigues muito bem conhecia); e as notícias dos acontecimentos mais extraordinários ou curiosos, que rapidamente passavam de um lado a outro da fronteira, quer através das conversas entre prisioneiros e seus guardas (papéis que, por vezes e no espaço de dias ou semanas, se podiam inverter), quer através das comunicações entre não-combatentes de ambos o lados, que sempre se iam fazendo à margem das ordens das autoridades militares. Assim, Mateus Rodrigues recria o diálogo entre os sargentos, depois de estes terem ido à presença de D. João da Costa (conforme se refere no trecho do relatório) e terem sido despedidos de regresso a Badajoz, tudo combinado para a traição…

(…) todo o caminho foram tratando na matéria, e o primeiro sargento que tinha falado na cousa a D. João da Costa foi dando tão boas razões a seu camarada, que lhe dizia «camarada, nosotros somos dos soldados de fortuna, há tantos anos sargentos, sem nenhumas esperanças de acrescentamentos, passamos com grã miséria e nos vemos com mala vida e pouco que comer, assim já que nosostros somos senhores del castillo, com favor de Dios o hemos de arriscar nuestras vidas, o hemos de ser hombres de muchos regalos en la vida; e assim que me parece bien que demos ordem com mucho segredo en lo caso; que tenemos mui buena orden para hablar en la cosa seguramente (…)». O sargento lhe deu tais razões, que o tomou o outro nos braços e lhe disse: «Ó camarada de mi vida y de mi corazón, que bien se hio vuestra voluntad y animo (…), camarada, hased lo que quiseres, que en todo tengo de vos acompanhar y morir com vós, en todo el caso (…) lo que resta ahora es que no demos cuenta per nenhum caso de naide a nuestras amigas, porque son mujeres y no hazen caudal de segredos», porque estes dois sargentos tinham (…) cada um sua amiga das portas adentro, mas cada um deles tinha seu alojamento à parte [respeitou-se neste trecho o hábito de Mateus Rodrigues misturar português e castelhano, quando usava o discurso directo entre militares do exército de Filipe IV]. (MMR, pg. 248)

O papel desempenhado pelas mulheres dos sargentos seria crucial para o desfecho da história. Mas por ora, registemos uma discrepância entre o relatório de João Leite de Oliveira e a narrativa de Mateus Rodrigues. Segundo o tenente-general, depois da segunda conversa entre os sargentos e D. João da Costa,

(…) ajustámos que era necessário darem-me eles entrada no castelo para eu o ver, e reconhecer, e esta foi a noite de cinco para seis de Fevereiro; eles vieram nisso lhanamente, e assim se foram recolhendo a Badajoz, levando dois burros, que eu tinha prevenido e posto em uma horta fora da cidade, para que assim fingissem que os levavam de pilhagem, que era o sobreposto com que de lá [de Badajoz] saíram (…). (“Relação…”, in Madureira, pg. 180)

Mateus Rodrigues insere um episódio omitido no relatório: uma prévia infiltração de um espião português, antes de Leite de Oliveira levar a cabo a sua missão. Terá D. João da Costa querido certificar-se de que tudo correria conforme o acordado, e que não se trataria de nenhuma armadilha, na qual não quereria arriscar um oficial com patente tão superior como a de João Leite de Oliveira. Deste modo, D. João da Costa informou o sargento galego que lá havia de ir [a Badajoz] um homem, por nome João Dias de Matos, que era um furriel de Olivença, da cavalaria, e que era o mais prático homem em a língua castelhana que havia em Portugal e homem de grande préstimo e valor. (MMR, pg. 249)

É sobre esta missão que tratará a próxima parte desta série.

Entretanto, apraz-me convidar os leitores a consultar o blog do estimado amigo Julián García, Puertas de Badajoz, onde encontrarão muitos assuntos de elevado interesse sobre aquela praça de armas.

Imagem: “Soldados e mulheres numa taberna”, pintura de Jacob Duck, meados do séc. XVII, The State Art Museum of Florida.

Badajoz, 1652 – a intentona frustrada (1ª parte)

badajoz

É quase desconhecida a tentativa de tomada de Badajoz pela traição, nos inícios de 1652, por parte dos portugueses. Praça-forte fundamental do sistema defensivo da fronteira extremenha, tal como Elvas o era para o Alentejo, Badajoz correspondia à congénere portuguesa do Alentejo na importância e inexpugnabilidade. Tal como os cercos que Elvas sofreu, também os que os portugueses puseram ou tentaram pôr a Badajoz não resultaram. Um deles, previsto em 1645, não se concretizou por contratempos vários, quando o exército comandado pelo 2º Conde de Castelo Melhor já marchava para o objectivo. Em 1658, Joane Mendes de Vasconcelos (o mesmo que treze anos antes se pronunciara contra tão arriscada aventura) montou um desastroso cerco a Badajoz, em resposta à perda de Olivença no ano anterior. O que quase se perdeu, no rescaldo, foi o exército do Alentejo. E temeu-se pela sorte da guerra quando, nos finais desse ano de 58, D. Luís de Haro foi cercar, por sua vez, a cidade de Elvas. Mas também essa tentativa fracassou.

A solução da traição foi sempre procurada por ambos os lados em conflito, de forma a conseguir tomar uma praça importante, de surpresa e sem esgotamento de meios bélicos. Em Janeiro de 1652 proporcionou-se ao mestre de campo general do Alentejo (que desempenhava também, interinamente, o governo das armas) D. João da Costa, a possibilidade de alcançar esse feito no que respeitava a Badajoz. Para além da menção que ao episódio se faz na História de Portugal Restaurado, do 3º Conde de Ericeira, existe na secção de Reservados da Biblioteca Nacional de Lisboa um relatório detalhado do tenente-general da artilharia João Leite de Oliveira, publicado pelo coronel Horácio Madureira dos Santos (Cartas e outros documentos da época da Guerra da Aclamação, Lisboa, Estado-Maior do Exército, 1973, pgs. 179-184); o tenente-general tomou parte activa na operação e chegou a entrar, sob disfarce, em Badajoz. Ao relatório deste oficial junta-se um capítulo do manuscrito de Mateus Rodrigues (Matheus Roiz), em que o soldado de cavalaria narra o que ouviu contar da boca de João Dias de Matos , então furriel e intrépido espião que se infiltrou em Badajoz, preparando os pormenores da traição (poucos anos depois, sendo tenente da companhia de D. Luís de Meneses, este João Dias de Matos desertaria para o inimigo; e já como capitão de cavalos do exército de Filipe IV, preparou e levou a bom termo a tomada – também pela traição – da praça de Olivença). Todavia, Mateus Rodrigues erra na data do episódio, situando-o um ano mais cedo do que efectivamente se passou. Mas a sua narrativa contém pormenores mais rocambolescos do que o relatório oficial de Leite de Oliveira. Para completar este pequeno leque de fontes primárias, existe o relatório da confissão de um dos militares do exército espanhol envolvidos na traição (Arquivo Geral de Simancas, Sección Guerra Moderna, Legajo número 1822). Chegou-me ao conhecimento por via do estimado amigo Juan Antonio Caro del Corral, investigador e autor, que já teve a grata amabilidade de me permitir aqui publicar algumas das suas excelentes pesquisas, e a quem renovo os meus agradecimentos por tão preciosa ajuda.

Prelúdio à traição

O relatório de Leite de Oliveira principia pela tomada de prisioneiros do exército espanhol (ortografia e pontuação actualizadas para português corrente):

Em 26 de Janeiro [de 1652] se fizeram prisioneiros cinco pilhantes de pé, entre os quais vinha um sargento da companhia do mestre de campo o Conde de Torregon; estes estavam na estrada de Juromenha para fazerem nela alguma pilhagem, foram descobertos dos pastores que os fizeram prisioneiros e trouxeram a Elvas. Nas perguntas que lhe fiz das cousas de Castela, catequisei o sargento, dizendo-lhe que era um soldado pobre, que sua miséria o obrigava às pilhagens a pé, que nos quisesse dar alguns avisos e fazer algum serviço a El-Rei de Portugal, que com isso podia conseguir muito proveito, e livrar-se da miséria em que vivia.

Isto [se] passou entre nós, sem estar outra pessoa presente, ao que me respondeu depois destas promessas que ele não só nos queria dar avisos, senão que se atrevia a entregar o castelo de Badajoz, aonde ele era costumado entrar de guarda cada cinco noites, porém que sempre lhe era necessário comunicar este negócio com um seu camarada, também sargento, de uma companhia do mesmo terço, o qual era natural do país de Flandres, e este era galego de nação. (“Relação…”, in Madureira, pg. 179)

O sargento galego chamava-se Alonso de Castro e o flamengo, com quem queria combinar o assunto da traição, chamava-se Alejandro Perez e nascera em Cambrai, conforme consta da confissão deste, feita sob tortura (AGS, Guerra Moderna, Leg. nº 1822). Na versão do manuscrito de Mateus Rodrigues, eram estes sargentos grandes amigos e camaradas, cujas companhias estavam sempre efectivas de guarnição no castelo de Badajoz, sem se mudarem, e teriam combinado ambos virem às pilhagens a Portugal, já com o intuito de se deixarem prender e proporem a traição a D. João da Costa, livrando-se assim, com a recompensa que receberiam, das muitas necessidades que então padeciam. (MMR, pgs. 143-144)

(continua)

Imagem: Planta do perímetro defensivo de Badajoz (c. 1645), sendo bem visível a localização do castelo mencionado no texto; in La memoria ausente. Cartografia de España y Portugal en el Archivo Militar de Estocolmo. Siglos XVII y XVIII.

O combate da Atalaia da Terrinha, 5 de Junho de 1647 (4ª parte)

cav

O desaire da Atalaia da Terrinha não foi diferente de muitos outros que ocorreram durante o conflito, fossem os vencidos do exército português ou do espanhol. Contudo, este sucedeu num período particularmente difícil para a cavalaria do exército do Alentejo. Martim Afonso de Melo, recém-nomeado governador das armas, tratou de afastar D. João de Azevedo e Ataíde do comando da cavalaria. O fidalgo foi preso e depois enviado a Lisboa para tratar de assuntos pessoais (uma forma airosa de não embaraçar ainda mais o comissário geral, que em 1641 levantara à sua custa a companhia de cavalos que comandava e fora dos primeiros combatentes na fronteira do Alentejo). Não escapou a um processo e consequente condenação, por causa do comportamento da cavalaria no combate da Atalaia da Terrinha. Como bom conhecedor das leis, D. João de Ataíde soube defender-se brilhantemente, interpondo recursos que resultaram na anulação da desonrosa sentença de perda do posto. Mateus Rodrigues refere que o seu comandante se retirou para os domínios que possuía em Coimbra, deixando definitivamente a fronteira do Alentejo e a carreira das armas. Mas uma carta de Martim Afonso de Melo ainda menciona uma operação levada a cabo por D. João de Ataíde em Junho de 1648, uma incursão ao outro lado da fronteira em represália pelo fracassado assalto espanhol a Olivença, durante o qual morreu o engenheiro João Pascácio Cosmander. Ter-se-á tratado de um breve regresso ao Alentejo para provar que vencera a argumentação legal e mantinha o posto, dele saindo só por sua vontade e com a honra intacta. Antes e depois desta ocasião, a companhia onde servia Mateus Rodrigues foi comandada interinamente pelo tenente Agostinho Ribeiro, sendo posteriormente entregue ao capitão Francisco Pacheco Mascarenhas.

Outros oficiais foram castigados em consequência do desastre militar na Atalaia da Terrinha. O capitão João da Silva de Sousa, que além de correr atrás do ajudante de D. João de Ataíde de espada na mão, insultou o comissário geral e o desafiou para um duelo (um crime muito grave), foi preso e condenado a degredo na província de Entre-Douro-e-Minho. Mas também este oficial soube mover influências, pelo que continuou a servir no Alentejo com a sua companhia. Outro capitão que foi preso, Luís Gomes de Figueiredo, acabaria de igual modo perdoado, tendo mesmo sido promovido a comissário geral. Poucos meses depois, em Setembro de 1647, seria mortalmente ferido num combate.

Em Outubro de 1647, a Atalaia da Terrinha foi palco da desforra portuguesa, com o general da cavalaria D. João de Mascarenhas (futuro Conde de Sabugal) a derrotar uma incursão do congénere espanhol recém-chegado à fronteira. Apenas mais um episódio, entre os muitos combates que se travaram nas proximidades da Atalaia durante a Guerra da Restauração.

Fonte: Cartas dos Governadores da Província do Alentejo a El-Rei D. João IV e a El-Rei D. Afonso VI, Lisboa, Academia Portuguesa da História, 1940, vol. I,  pgs. 149, 171, 195 e 288.

Imagem: Cavalaria inglesa do período da Guerra Civil entre Realistas e Parlamentários. A aparência e o equipamento eram muito semelhantes ao da cavalaria portuguesa e espanhola da época. Reconstituição histórica, Kelmarsh Hall Festival of History, 2007. Foto de Jorge P. de Freitas.

O combate da Atalaia da Terrinha, 5 de Junho de 1647 (3ª parte)

combate-de-cavalaria

Recebera D. João de Ataíde ordem de atacar a cavalaria inimiga, mas a progressão foi feita com tanto vagar que a força espanhola passou primeiro o ribeiro e ficou do lado oposto, à espera da reacção portuguesa. Conforme relatou o governador das armas Martim Afonso de Melo…

(…) como não o investimos antes de o passar, com quatro tropas [companhias] que o comissário tinha apartadas, depois foi com grande risco avançar com o inimigo passada a ribeira, o que fez o capitão António Jacques de Paiva e Lopo de Sequeira, tenente da companhia de António Saldanha [da Gama], que ficou na praça [de Elvas] mal disposto, e como estavam da outra banda carregaram todas as tropas do inimigo, que seriam oitocentos cavalos, sobre estas duas nossas, que não puderam aguentar o choque e voltando feriram alguns soldados e o mesmo capitão António Jacques de Paiva e o capitão de dragões [René] Grudé [francês] e o capitão Van Ingen [holandês], a quem levaram prisioneiro por se ir nas companhias que passaram a ribeira; o general da artilharia me fez queixa que os oficiais da cavalaria não fizeram o que ele lhe ordenara (…), e hei-de castigar com todo o rigor ao que achar culpado em não querer investir quando o mandaram, porque o certo é que anda mal acostumada esta nossa cavalaria, mas contudo o inimigo se retirou e largou o posto e nós ficámos nele até às cinco da tarde (…).

O que aconteceu entre a ordem de atacar e a sua tardia e incompleta execução (estando a cavalaria espanhola já formada no lado oposto do ribeiro) é narrado pelo soldado Mateus Rodrigues, que participou na acção:

Dom João (…) chamou um ajudante da cavalaria para levar as ordens do que haviam de fazer, e como este tal ajudante lhe não eram os capitães fidalgos muito afeiçoados, por haver sido criado do mesmo Dom João de Ataíde, (…) quando (…) levou as ordens aos capitães houve uma descomposição com ele, e um capitão de cavalos, por nome João da Silva [de Sousa] lhe disse mui más palavras, e correu após dele com a espada na mão para lhe dar, e o dito ajudante se veio mui queixoso (…) ter com Dom João do que lhe haviam feito. De modo que o mesmo Dom João levou as ordens  pessoalmente a todos os capitães e mandou a um capitão, por nome António Jacques de Paiva, com três companhias, que era a sua e a do tenente Lopo de Sequeira e a (…) companhia de Dom João, que era a minha, e o cabo [ou seja, comandante] que ia na minha [era] o alferes Agostinho Ribeiro, e (…) disse Dom João ao capitão António Jacques que fosse sua mercê com aquelas três companhias a pelejar com o inimigo, mas que não passasse o ribeiro além (…), que assim como chegasse [a] averbar com o inimigo ao pé do ribeiro, lhe desse uma carga de cravinas e pistolas, mas que logo voltasse na mesma hora para trás, dando as costas ao inimigo, e que era força que, vendo-o o inimigo fugir, o havia de carregar logo, e tanto que o inimigo passasse o ribeiro após eles, era força que se havia de descompor (…).

D. João de Ataíde foi então dar as ordens aos capitães, para que atacassem todos ao mesmo tempo logo que o inimigo passasse o ribeiro em perseguição das companhias (quatro, segundo Martim Afonso de Melo; três, na versão de Mateus Rodrigues). Mas, segundo escreve o soldado, o mesmo foi dar-lhe[s] esta ordem que dizer-lhes que fugissem.  António Jacques de Paiva, por seu lado, excedeu as ordens que recebera, pois passou o ribeiro com as companhias, e na desorganizada retirada veio [o inimigo] logo sobre os nossos como um raio, fazendo tudo numa poeira. Mas o que os nossos batalhões haviam de fazer em investir o inimigo, fizeram em fugir todos à rédea solta para [a] Atalaia, e são [sic] o mais infame que jamais se há visto. Tanto que o inimigo (…) viu nossa pouca vergonha, aproveita-se logo da ocasião, seguindo-nos como uns cães, e o pior de tudo que quem ficava nas piores eram as três companhias que havíamos ido a picá-lo, pois lhe ficávamos mais à mão. E assim a perda que houve foi delas, que lhe tomou o inimigo mais de 60 cavalos (…), matando-lhe 20 ou 30 homens.

O general da artilharia André de Albuquerque, que estava na Atalaia com a infantaria, mal viu a fuga precipitada da cavalaria portuguesa, mandou avançar os terços.

(…) o inimigo, assim como viu nossa infantaria, logo se retirou mui depressa, visto haver feito já o que podia fazer, e se retirou a Badajoz, donde teve aquele capitão [D. Alonso Cabrera], que foi causa daquilo, grandes louvores do seu governador; e na verdade os merecia tanto como os nossos mereciam o castigo.

Do lado português, o governador das armas Martim Afonso de Melo ficou furioso com o sucedido. Das consequências finais tratará o derradeiro capítulo desta série.

(continua)

Citações: Cartas dos Governadores da Província do Alentejo a El-Rei D. João IV e a El-Rei D. Afonso VI, Lisboa, Academia Portuguesa da História, 1940, vol. I,  pgs. 144-145; Manuscrito de Matheus Roiz, pgs. 176-178.

Imagem: Adam Frans van der Meulen, “Combate de cavalaria”, Kunsthistorisches Museum, Viena.

O combate da Atalaia da Terrinha, 5 de Junho de 1647 (2ª parte)

atalaia-da-terrinha

Prossigamos a narrativa do sucedido na Atalaia da Terrinha com a versão “oficial”, o relatório do governador das armas Martim Afonso de Melo (vertido para português corrente). Conforme foi referido, tratou-se da primeira acção de importância após a chegada a Elvas, em 22 de Maio, daquele cabo de guerra.

Hoje, que foram 5 do corrente, das sete para as oito do dia, veio o inimigo com duas tropas grandes dando em uma nossa que estava de guarda, a qual se veio retirando até perto dos muros desta cidade; e dando-se-me aviso mandei montar a cavalaria e lhe ordenei que fosse tomar o posto que a nossa tropa de guarda ocupava; e porque poderia suceder que carregasse muita cavalaria do inimigo sobre a nossa, mandei marchar a infantaria também para que estivesse dentro nos olivais dando favor à nossa cavalaria, e tendo nós tomado o posto se me avisou que a cavalaria do inimigo se havia descoberto e que estava repartida, uma da ribeira para cá, e outra da outra parte; ordenei ao general da artilharia André de Albuquerque (por ser o cabo maior que está nesta fronteira) que fossem investir o inimigo, estando ainda dividido desta nossa parte da ribeira, e não estando a não passassem nem empenhassem a nossa cavalaria, e que mandassem marchar a infantaria de modo que não fosse vista do inimigo, e que pudesse ajudar-nos se fosse necessário; foi o general da artilharia e diz que achando ainda três tropas do inimigo desta nossa parte mandara ao comissário geral Dom João de Ataíde que com quatro nossas as investisse, e ele com o restante fora baixando da Atalaia da Terrinha, que era o posto que ocupávamos, o que vendo o inimigo passou o ribeiro (…)

É tempo de voltar ao testemunho do soldado Mateus Rodrigues, que pinta o quadro do lado da cavalaria espanhola (provavelmente reconstituindo a memória do sucedido a partir das conversas que tivera com soldados de ambos os lados – episódios como este eram contados e recontados ao longo dos anos, e as conversas entre soldados dos dois exércitos eram frequentes, pois tanto uns como outros se encontravam de vez em quando ora na situação de cativos, ora na de guarda de prisioneiros)

(…) de modo que o inimigo se veio encostando ao ribeiro da Veuda (…) e assim como ele se veio chegando para onde as nossas tropas estavam, mandou então André de Albuquerque ir as outras tropas que estavam detrás da Atalaia a incorporar-se com as outras que lá estavam. e uma ordem (…) mandou a Dom João de Ataíde que pelejasse com o inimigo, já que tinham tão boa ocasião, pois o inimigo fora desgraçado em vir naquela ocasião de ter ali a cavalaria das outras praças (…) [e] porque estava já averbado connosco [isto é, em contacto, ou a distância de fogo ou em escaramuça à espada] e não se podia já retirar sem pelejar, porque [senão] tinha a perdição certa. Mas um comissário que ali vinha de novo [ou seja, pela primeira vez] por cabo deles não queria pelejar, porquanto antevia a muita desigualdade que tinha, e como era a primeira vez que saía à campanha, não queria que logo lhe sucedesse uma desgraça. Mas vinha ali com eles um capitão de cavalos a que chamavam Dom Alonso Cabrera, natural de Badajoz, que foi o mais valente soldado que em os nossos tempos conhecemos ao inimigo, e assim como viu o seu comissário frio de pelejar e com determinação de se tornar a retirar e não pelejar, disse-lhe que no se havia de retirar que cuando no quisesse pelear que le dejase la ocasion por sua cuenta, que el se lo queria tomar a su cargo e que no tuviesse cuidado [Mateus Rodrigues mistura português e castelhano “aportuguesado” nesta parte].

E assim, com a confiança assente na experiência e bravura de D. Alonso Cabreira, o comissário geral espanhol decidiu pelejar. Do outro lado, D. João de Ataíde também recebera ordens de atacar…

(continua)

Citações: Cartas dos Governadores da Província do Alentejo a El-Rei D. João IV e a El-Rei D. Afonso VI, Lisboa, Academia Portuguesa da História, 1940, vol. I,  pg. 144; Manuscrito de Matheus Roiz, pgs. 175-176.

Imagem: O teatro de operações na região de Elvas; a Atalaia da Terrinha aparece destacada a verde. Nota: o norte encontra-se para a esquerda da imagem, o topo aponta a leste. Mapa de Nicolau de Langres, década de 1650. Biblioteca Nacional, Reservados, F2359.

O combate da Atalaia da Terrinha, 5 de Junho de 1647 (1ª parte)

25

Os anos de 1646 e 1647 foram muito difíceis para a cavalaria portuguesa da província do Alentejo. Foi uma época de transição nos comandos, de mudança estratégica (as campanhas ofensivas do exército no Verão, que marcaram os anos de 1643 a 1646, foram suspensas a partir de 1647) e de reorganização administrativa (o Contrato com os capitães de cavalos entrou em vigor em Abril de 1647). No terreno, a supremacia da cavalaria espanhola sobre a portuguesa ficou exposta numa série de desaires para as armas lusas. Durante algum tempo, a cavalaria não teve general nem tenente-general a comandá-la no terreno. Esse papel coube a um comissário geral, o inepto D. João de Azevedo e Ataíde, a cuja companhia pertencia o soldado e memorialista Mateus Rodrigues. O combate da Atalaia da Terrinha, a cerca de uma légua (5 Km) de Elvas, marcou o fim da carreira militar do fidalgo. Os  ventos da Fortuna soprariam para longe na História, para o século seguinte, a fama imorredoira que o comissário sonhara para si, presenteando com ela um seu trineto, um tal Sebastião José de Carvalho e Melo…

Tudo começou com a chegada do novo governador das armas do Alentejo, o regressado Martim Afonso de Melo, Conde de São Lourenço. Seria ele a recuperar a cavalaria do Alentejo, mas o começo não podia ter sido menos auspicioso. O governador das armas convocou todas as companhias de cavalos do exército para uma mostra na cidade de Elvas – existiam então 26 companhias, que alinhavam cerca de 1.000 efectivos. Estavam todas juntas na cidade quando tocou a rebate: havia cavalaria castelhana nos olivais das cercanias de Elvas! O general da artilharia André de Albuquerque Ribafria (que se distinguiria, anos depois, como brilhante general da cavalaria) mandou toda a cavalaria sair da cidade. Uma companhia foi adiante, para entrar em contacto com a força de reconhecimento inimiga, composta por 100 cavalos, e afastá-la das tropas que se formavam na encosta. Segundo recorda Mateus Rodrigues…

…assim como eles viram (…) a nossa cavalaria fora, foram (…) andando para a Atalaia da Terrinha; e a nossa cavalaria foi um vale abaixo, encoberta [para] que não a visse o inimigo, porque já se sabia muito bem que o inimigo tinha [montado] emboscada em Guadiana, que fica da nossa Atalaia um quarto de légua. (…) Desceram as tropas de Elvas abaixo à campanha, e as outras de Olivença e de Campo Maior deixaram-se ficar detrás da nossa Atalaia, que as não visse o inimigo. E já neste tempo o nosso general da artilharia André de Albuquerque estava na Atalaia com os três terços de Elvas, mas não via o inimigo nada. Assim como a sua [(dos espanhóis, entenda-se)] emboscada que estava em Guadiana viu (…) as tropas lá em baixo em o ribeiro da Veuda, saiu de Guadiana à rédea solta com 600 cavalos que lá tinha, não mais, e que em bem má hora vinha ele, se não houvera tanta desordem como houve ou, para melhor dizer, tanto medo e pouca vergonha entre todos [nós], que naqueles casos não se culpa mais senão tudo em geral, porque todos têm culpa. (Manuscrito de Matheus Roiz, pgs. 173-174)

(continua)

Imagem: “Combate de Cavalaria”, de Jan Martszen de Jonge, meados do séc. XVII.

O combate de Castelo de Vide – 8 de Outubro de 1650 (3ª parte)

combate

Conclui-se hoje a narrativa do combate, segundo a descrição que é feita pelo soldado de cavalaria Mateus Rodrigues, que nele participou.

“Duraria a força da pendência uma hora, (…) mas como o inimigo viu que andava (…) já desbaratado, e além disso as companhias que lhe ficavam pela retaguarda, assim como nos viram, imaginaram que era toda a nossa cavalaria e logo se puseram em fugida, que deram ocasião a que os demais o fizessem também (…), de que nós tivemos grandíssimo gosto, que logo lhes fomos zurzindo em cima, daí uma grande légua até noite escura. E quando o inimigo se pôs em fugida, foi passando pelas barbas do nosso terço, mas já não havia lugar de lhe dar carga [quer dizer, disparar as armas de fogo], porquanto nós íamos já muito baralhados com eles, mas o mestre de campo [Gonçalo Vaz Coutinho], com a muita alegria de ver que nos fugia o inimigo, não se pôde ter que não mandasse dar carga aos soldados, que mais valera que nunca a dera, pois mataram de um mosquetaço o tenente do capitão Lopo de Sequeira, que era um bizarro moço, e alguns soldados mais.”

Note-se que o termo “bizarro”, aqui, significa “valente”. Os cavaleiros portugueses só abandonaram a perseguição após meia légua (c. 2,5 Km) percorrida, já anoitecia, na ermida de S. Amador. Os espanhóis tinham aí deixado perto de 800 infantes, mas este facto só veio a ser conhecido no dia seguinte.

Outro aspecto digno de nota é a inexperiência revelada pelo mestre de campo Gonçalo Vaz Coutinho numa situação de combate, ao dar ordem para os mosqueteiros e arcabuzeiros do terço dispararem sobre a cavalaria que passava ao seu alcance, sem ter em consideração que havia soldados portugueses colados ao inimigo.

“Agora direi o que sucedeu aos cem cavalos que o inimigo botou por cima, a tomar as entradas da vila. Assim como eles sentiam lá com as suas tropas a bulha, foi tratando do seu livramento, mas ainda levou seu esfola gato, que o corremos mui bem e ainda lhe ficaram mais de 20 cavalos dos que levava. E o capitão escapou pelo pó do gato, que esteve bem arriscado a matarem-no ou cativarem-no. Assim como foi noite começámos a juntar-nos e começaram a marchar para a vila de Castelo de Vide, que estava dali meia légua. E como fazia então mui bom luar, víamos mui bem o que havíamos de fazer, contudo, ainda não sabíamos quem nos faltava. Fomos para a vila levando connosco uma procissão de nus dos castelhanos (…).”

Era prática comum, tanto na Guerra da Restauração como em outros conflitos da era pré-industrial, despir os mortos e prisioneiros de guerra, a fim de aproveitar as roupas e todo o equipamento militar que fosse possível. Daí a referência aos prisioneiros nus.

Entre os mortos portugueses contava-se o tenente Agostinho Ribeiro, que comandava naquela ocasião a companhia do general da cavalaria André de Albuquerque Ribafria. Foi a sua morte muito sentida entre todos, principalmente pelo memorialista Mateus Rodrigues e pelos seus camaradas veteranos, pois Agostinho Ribeiro era um velho companheiro de armas, tendo começado a guerra como furriel da companhia de D. João de Ataíde, onde servia Mateus Rodrigues, quando esta foi formada em 1641 (depois de D. João de Azevedo e Ataíde ter deixado o exército em 1647, a companhia passou a ser comandada pelo capitão Francisco Pacheco Mascarenhas). Também o general da cavalaria ficou muito desgostoso com a morte do seu tenente, acontecimento que ensombrava a vitória alcançada e a captura de 250 cavalos.

“O capitão Dinis de Melo [de Castro] trouxe uma pelourada em uma perna, mas não foi coisa que fizesse mal (…). Morreriam 40 homens nossos e feridos mais de 80, mas o inimigo perdeu 5 capitães, 4 mortos e um cativo, destes 250 cavalos que nós lhe tomámos viriam 200 homens prisioneiros, e os mais morreram, de sorte que a minha companhia só trouxe 28 cavalos da ocasião (…). Mas não há dúvida que foi um sucesso notável, com o tão pouco poder que nós tínhamos, que o inimigo trazia treze tropas mui grandes, que constavam de 700 cavalos, e as nossas tropas eram 7, (…) que não éramos mais que 380.”

Fonte: Manuscrito de Matheus Roiz, versão transcrita do AHM, pgs. 230-232.

Veja-se também a descrição do combate em ERICEIRA, Conde de, História de Portugal Restaurado, edição on-line, pgs. 333-334.

Imagem: Jan Martszen de Jonge, Combate de cavalaria (meados do séc. XVII).

O combate de Castelo de Vide – 8 de Outubro de 1650 (2ª parte)

pictureasp

Continuando a narrativa de Mateus Rodrigues, adaptada para português actual…

“Assim como saímos das encruzilhadas de Portalegre, fomos sempre a meia rédea (…) e quando íamos já perto de onde estava o mestre de campo com a sua gente, fizeram as nossas tropas alto, e tiraram 60 cavalos das tropas e fizeram duas partidas de 30 cavalos cada uma; e deram 30 ao alferes que era então de Dinis de Melo [de Castro], por nome Baltasar Nunes, grande soldado, e os outros 30 ao alferes de Lopo de Sequeira, também muito valente, por nome António Gomes, e a ordem que (…) deram a ambos foi que fossem cada um por sua parte lá para a ribeira de Nisa, que havia o inimigo de vir por aí. E que assim que dessem com o inimigo, qualquer deles, logo se incorporassem ambos em uma tropa [ou seja, que se juntassem para formar um batalhão, formação táctica de cavalaria] e viessem à vista do inimigo com suas escaramuças e tiros (…), mas de maneira que por nenhum caso o inimigo lhe[s] tomasse ninguém, para não saber das tropas (…), e eu também ia em uma das partidas”.

Pouco tempo depois, o destacamento avistou o terço de Castelo de Vide, que tinha cerca de 400 homens, e a companhia de Duarte Lobo da Gama, com 80 bons cavalos, já formados no local de encontro combinado. Prosseguindo a sua missão, não tardou a cavalaria portuguesa a encontrar a do inimigo, que dava de beber às montadas na ribeira de Nisa. Conforme planeado, principiou-se uma escaramuça, enviaram-se avisos ao grosso da força portuguesa, e depois juntaram os alferes as suas tropas nas elevações que dominavam a linha de progressão inimiga. No entanto, devido à natureza do terreno, não puderam aperceber-se, de imediato, do efectivo da força incursora. Logo foram carregados por esta, de modo que os alferes retiraram para o sítio onde estava o grosso do efectivo português, furtando-se ao combate, conforme as ordens que haviam recebido.

“Assim como o inimigo nos viu, imaginou que tinha (…) outro dia como o que já havia tido em o mesmo sítio [cinco anos antes, quando derrotara o terço de Castelo de Vide e destroçara a companhia de cavalos de D. Pedro de Lencastre]. E cuidou que aqueles que lá andávamos diante (…) era a companhia de Castelo de Vide e que o terço (…) havia de estar ali e que o haviam de tornar a derrotar. E para isso tomaram cem cavalos, com um capitão (…) João de Ribera, e mandaram-no mui ao largo, a rédea solta, a tomar as entradas da vila, para que a companhia se não metesse dentro, que apanhassem fora o terço e que tudo haviam de degolar”.

Não podiam os espanhóis imaginar que tinham como adversária a cavalaria de Elvas, pois não fora o acaso de esta se encontrar em Arronches quando foi dado o alarme, não seria possível estar agora ali, a dez léguas (c. 50 Km) da sua guarnição. Mesmo assim, foi com espanto que os portugueses verificaram que tinham pela frente uma força com quase o dobro do efectivo da sua, “(…) e suposto que os sucessos estão na mão de Deus, dizem lá que os muitos tiram a virtude aos poucos, que eles também têm unhas como nós, e as suas balas matam e as espadas cortam e furam melhor, de sorte que logo julgaram ali que o inimigo trazia 600 cavalos, fora os (…) que havia mandado a tomar as entradas da vila”.

Rapidamente tomou Lopo de Sequeira conselho com os restantes capitães, e todos decidiram resistir ali ao inimigo. Avisaram o mestre de campo da sua resolução. O terço de Castelo de Vide estava formado à distância de um tiro de carabina da cavalaria, “entre umas rochas mui ásperas”, pelo que, segundo a observação de Mateus Rodrigues, nem dois mil cavalos conseguiriam fazer-lhe mal. A cavalaria portuguesa (380 homens) formou-se atrás de um pequeno outeiro, por onde o inimigo teria de passar, pronta para o choque. A vantagem do terreno acabou por ser preciosa para o desfecho da peleja, pois as forças que os espanhóis lançaram em perseguição das tropas de reconhecimento portuguesas só podiam progredir através de um caminho estreito, uma companhia de cada vez.

“Assim como o inimigo chegou ao alto do outeiro (…), sai a nossa cavalaria de repente, tocando as trombetas a degolar [ou seja, aquilo que mais tarde seria conhecido por toque de carga]“. Surpreendidos, os espanhóis que vinham à cabeça da coluna retirararam e procuraram formar o seu dispositivo um pouco mais atrás, montando ali uma vanguarda, “porquanto não podiam pelejar da sorte que estavam. Mas como nós lhe saímos tão perto e bem formados, não lhe demos lugar a que eles se pudessem formar”. Ainda assim, os cavaleiros espanhóis bateram-se bravamente, pois mesmo desorganizados, tinham a seu favor o peso dos números. Mas, “suposto que éramos muito menos do que eles, era a nossa gente muito boa, e além disso foi grande fortuna nossa o acharmo-lo desformado, que não tem dúvida, que se o achá[ra]mos bem composto (…), nos perde[ra]mos totalmente, que eram 280 cavalos mais do que os nossos e mui boa cavalaria, que era o regimento da Sarça [Zarza la Mayor – por regimento, entenda-se o total das companhias aquarteladas naquela localidade], que vinha ali o comissário Mazacan por cabo delas”.

(Citações do Manuscrito de Matheus Roiz, versão transcrita do AHM, pgs. 226-230).

(continua)

Imagem: Jan Martszen de Jonge, Paisagem com combate de cavalaria e couraceiros formados atrás (meados do séc. XVII).

O combate de Castelo de Vide – 8 de Outubro de 1650 (1ª parte)

cc-1681-a_0001c4_1_p24-c-r0150

“Na entrada do Inverno tornou o Conde de S. Lourenço a alcançar licença para vir à Corte, e ficou governando a Província de Alentejo o Mestre de Campo General D. João da Costa. Poucos dias depois de dar princípio ao seu governo, soube por inteligências que havia grangeado, que os Castelhanos juntavam algumas tropas, e que estas ameaçavam a campanha de Castelo de Vide, e Portalegre.”

É assim que o Conde de Ericeira começa a narrativa (História de Portugal Restaurado, pg. 333) do episódio que iria culminar no combate de Castelo de Vide, travado em 8 de Outubro de 1650. Entre as fontes disponíveis para esta ocorrência da pequena guerra de fronteira, sem dúvida a mais colorida é a que nos deixou o soldado de cavalaria Mateus Rodrigues (Matheus Roiz), ele próprio participante na acção. E a sua parte da história começa deste modo:

“Estavam um dia (…) [alguns] capitães em casa do general [da cavalaria, André de Albuquerque Ribafria, em Elvas] e disse-lhe Lopo de Sequeira que fosse sua senhoria servido lhe desse licença, e mais a outros quatro ou cinco camaradas, que fossem com suas companhias a São Vicente e Albuquerque, a fazer uma entrada, e ver se podiam dar algum repelão às tropas que estavam naqueles lugares, que quando lhe não saíssem fariam lá mui boa presa, já que estavam ali ociosos, sem fazerem nada. Como estes homens (…) eram tanto seus amigos, disse-lhe o general logo que bem se podiam ir aprestar e com segredo, mas que não haviam de ir mais que cinco companhias (…), em primeiro lugar a sua, que era tenente capitão dela um Agostinho Ribeiro (…), e mais a companhia do meu capitão Francisco Pacheco [Mascarenhas], e mais a companhia de Dinis de Melo [de Castro, futuro Conde de Galveias], e a companhia de Diogo de Mendonça [Furtado] e a do capitão Lopo de Sequeira, que vinham a ser cinco, todas teriam 250 cavalos, de modo que logo os mandou que se fossem aprestar, para ir dormir aquele dia a Arronches, que no outro dia nos havíamos de partir daí para as terras nomeadas, que não são de Arronches lá mais de quatro léguas [c. de 20 Km], e de Arronches haviam de ir connosco uns 20 cavalos que aí estão de pilhantes, que são homens que sabem as terras de Castela a palmos de noite (…).”

O capitão Lopo de Sequeira, sendo o mais antigo dos que iam naquela jornada, foi como comandante da força. Por volta da meia-noite, estando já os soldados a dormir em Arronches, ouviu-se um grande estrondo de artilharia para os lados de Castelo de Vide, a sete léguas de distância (c. de 35 Km). Os capitães rapidamente conferenciaram e concluíram que eram tiros de aviso. O inimigo andaria com cavalaria por aqueles campos, e os tiros serviam para alertar os lugares vizinhos, de modo a que os camponeses guardassem os gados. Foi tomada a decisão de desistirem da entrada e rumarem a Portalegre, para investigar o que se passava, e logo mandaram montar os soldados. Foram escritas duas cartas, uma para o general da cavalaria, dando conta do sucedido, e outra para o mestre de campo comandante da guarnição de Castelo de Vide, informando-o que aquela força de cavalaria seguiria para Portalegre e aí aguardaria pela companhia de Monforte, comandada por D. Fernando da Silva, e que se fosse necessário qualquer auxílio a Castelo de Vide, estariam à disposição.

Chegados a Portalegre, mal tinham desmontado e começado a dar a ração de cevada aos cavalos, receberam um aviso do mestre de campo de Castelo de Vide, dando conta da entrada de uma força inimiga de cerca de 400 cavalos nos campos de Nisa, Alpalhão e Crato. O mestre de campo iria sair com o seu terço e a companhia de cavalos de Duarte Lobo da Gama, e indicava o local para o encontro com o reforço comandado por Lopo de Sequeira. “Podem vossas mercês marchar ao dito posto, que lá me acharão”, rematava a carta.

“Assim como os capitães leram a carta, começam todos com grande festa dizendo «Monta! Monta!». Começámos todos a tirar as mochilas das bocas dos cavalos, que ainda não tinham acabado de comer a sua ração, e mui depressa começámos logo a montar e marchar pela cidade fora na via de Castelo de Vide.” (Citações do Manuscrito de Matheus Roiz, versão transcrita do AHM, pgs. 222-226).

(continua)

Imagem: Detalhe da zona de operações mencionada no texto, in Novissima regnorum Portugalliae et Algarbiae descriptio, c. 1680, Biblioteca Nacional, Cartografia, CC1681A.

Um crime em Abrantes (3ª parte)

cavaliers-dans-un-camp-militaire-philips-wouwerman-louvre

O processo de Manuel Cornellis surge em anexo a uma consulta do Conselho de Guerra de 4 de Março de 1649, quase dois anos depois de ter sido cometido o crime pelo qual o oficial holandês e o seu tenente respondiam. Em resumo, ficam aqui expostas algumas etapas de um moroso processo judicial que acabou por nada resolver. Apenas serviu para prejudicar a capacidade operacional de uma companhia de cavalaria do exército do Alentejo. Como é hábito neste espaço, o português dos documentos originais foi actualizado.

1648, Julho, 17

Carta do Conde de S. Lourenço para o Rei, em que dá conta de ter recebido no dia 12 a carta régia mandando prender o capitão Manuel Cornellis e o seu tenente. A diligência foi feita. “E porque o capitão Manuel Cornellis estava sentenciado em suspensão da companhia, e o tenente servia com ela, e tendo custado tão grande soma de dinheiro, assegure-se Vossa Majestade que de todo se perderá, porque os soldados são os mais deles estrangeiros, e os cavalos da mesma maneira, e assi me parece que Vossa Majestade proveja esta companhia logo com outros oficiais, se a prisão destes há-de ser dilatada“.

1648, Julho, 22

Carta do general da cavalaria D. João de Mascarenhas para o Rei. Adverte para as consequências da prisão de Manuel Cornellis, que é a de perder-se a sua companhia. “A demais cavalaria de que estou entregue está muito boa e muito bem montada, com a companhia que esperamos de Santarém fazemos conta a mil e oitocentos cavalos, sem os que estão repartidos pelas praças, e em guarda delas, dos quais nos não ajudaremos senão em caso de necessidade“.

1648, Julho, 27

Consulta do Conselho de Guerra, que além das cartas acima, viu também duas petições de Manuel Cornellis. Numa pede que a sua companhia fosse entregue a outro oficial e que não corresse por sua conta desde o primeiro dia em que foi preso, visto também estar preso o tenente e não a unidade ter mais nenhum oficial que olhasse por ela, “para que se não perca sendo tão luzida, e em que ele está tão empenhado, havendo-a armado de coletes, botas e armas, o que até agora se lhe não tem pago, havendo servido a Vossa Majestade nisto como também o fez nas ocasiões em que se achou com a companhia com grande satisfação e dispêndio, como é notório“. À segunda petição junta a certidão de um médico, da qual consta que se acha enfermo de graves achaques, e cada vez pior. Pede ao Rei que seja servido de o mandar mudar da prisão para onde tenha mais comodidade e se possa curar, “pois não causa por que deva perder as preeminências, e isenções que Vossa Majestade costuma conceder aos capitães de cavalos“.

O Conselho de Guerra pronuncia-se a favor da manutenção do capitão e do tenente nos seus postos, argumentando que não deve a companhia ser entregue a outros oficiais sem que antes o capitão e o tenente sejam sentenciados a perder os postos, e que ambos devem procurar, por seu cuidado, que a companhia se conserve. Entenda-se: que continuem a pagar do seu bolso o sustento dos cavalos.

O Conselho de Guerra também se debruça sobre a demora do processo. Refere que o governador das armas do Alentejo, Conde de S. Lourenço, deve sentenciar de imediato os culpados do crime logo que tenha em mãos o resultado da devassa (inquérito) que o corregedor de Tomar fez da morte de João Rodrigues, o Campos. O corregedor tem-se desculpado pelo atraso do processo com o facto de andar ocupado com outras diligências, justificando-se também com o argumento de que a devassa tinha sido primeiro entregue ao corregedor seu antecessor.

No parecer final, o Conselho de Guerra informa o Rei de que, se tivesse tido conhecimento da ordem para proceder à prisão dos dois oficiais (emitida por D. Sancho Manuel), teria dado o parecer negativo até que – conforme os termos da justiça – o resultado da devassa tivesse sido conhecido e resultasse em culpa formada contra eles. Deste modo, “nem se faltará na observância dos privilégios concedidos aos que ocupam semelhantes postos, com escândalo, e desconsolação dos que servem a Vossa Majestade na guerra, e trazem a vida arriscada nela; e também não faltarão [sic – o termo correcto seria faltariam] no governo da companhia estes oficiais que a formaram, senão nos breves dias que eram necessários para se sentenciar a devassa; mas entende o Conselho que os motivos que Vossa Majestade teve para se anteciparem estas prisões, deviam ser tão justificados que não dariam lugar a se obrar em outra forma“. Este remate de parecer foi a maneira airosa (bem em conformidade com o discurso sinuoso e dissimulado da época) que o Conselho encontrou para criticar a decisão régia, sem no entanto ousar afrontá-la directamente.

1648, Outubro, 27

Relembra o Conselho de Guerra que é inconveniente manter Manuel Cornellis preso, estando doente, e que o Rei deve ser servido tomar resolução na primeira consulta enviada ao Conselho sobre este caso. A resposta do Rei, de 4 de Dezembro de 1648, manda que se escreva ao Conde de S. Lourenço, para que apresse a conclusão do processo.

1648, Novembro, 18

Aludindo a um decreto de 14 de Novembro, o Conselho de Guerra diz que a devassa de Manuel Cornellis não estava em poder do Dr. João Pinheiro, juiz assessor do Conselho, mas que tinha sido remetida pelo corregedor de Tomar directamente ao governador das armas do Alentejo.

1648, Dezembro, 23

O Conselho reporta-se à devassa que tinha sido enviada pelo Conde de S. Lourenço, tendo este escrito que era apenas o que lhe tinha chegado às mãos, não estando sentenciada, como o devia, na primeira instância no juízo da Auditoria Geral do Exército do Alentejo.

1649, Janeiro, 11

O Conselho de Guerra, em resposta ao pedido do Rei para que fosse posto ao corrente de tudo quanto se tem passado, envia a cópia de duas cartas escritas pelo Rei ao Conde de S. Lourenço.

1649, Fevereiro, 15

Continua o Conselho a reportar-se à devassa e às anteriores consultas; o Rei mandou reformar a consulta de 27 de Outubro de 1648. Ainda não há decisão sobre o caso.

1649, Março, 4

Volta a enviar-se a devassa ao Rei, mas a decisão ainda não é tomada no posterior decreto de 12 de Abril de 1649.

A partir daqui não existe mais nenhuma menção ao processo, mas outros documentos de 1649 permitem concluir que os oficiais holandeses terão sido libertados e que a companhia formada a expensas de Cornellis se manteve no activo, embora os oficiais possam não ter recuperado os postos, .pelo menos de imediato. O soldado Mateus Rodrigues (Matheus Roiz) refere que a companhia de Cornellis estava aquartelada em Terena em Janeiro de 1654, tinha 80 cavalos e o tenente era um francês, Monsieur La Roche. Em Junho de 1654, Manuel Cornellis escreve ao Rei, reclamando os privilégios de capitão, que entretanto perdera. O monarca tem dúvidas e pede um esclarecimento ao general da cavalaria do Alentejo, André de Albuquerque Ribafria. O certo é que o oficial holandês permaneceu ao serviço da Coroa portuguesa, pois em 1657 solicitou autorização para integrar na sua companhia, então muito diminuída, um soldado que ainda estava a contas com a justiça.

Fontes: Arquivo Nacional da Torre do Tombo – Conselho de Guerra, Consultas, 1649, maço 9, nº 47; Secretaria de Guerra, Livro 16, fl. 152; Arquivo Histórico Militar – Manuscrito de Matheus Roiz, p. 396.

Imagem: Cavaleiros num acampamento militar. Quadro de Philips Wouwerman, Museu do Louvre.

Hábitos das Ordens Militares em campanha (mais um caso)

Na sequência do que ficou escrito sobre os hábitos das Ordens Militares, apresento mais uma passagem do Manuscrito de Matheus Roiz (Mateus Rodrigues), acrescentando outro exemplo aos que foram então referidos. O relato reporta-se ao rescaldo de uma escaramuça perto de Arronches, que o autor situa em Dezembro de 1643. Como é usual neste blog, actualizou-se a ortografia original.

[Voltámos] para a vila com grandíssimo gosto e alegria, e vendo logo ali na campanha quem nos faltava, não mais que um soldado, que esse logo houve quem o viu matar, porque foi tão bárbaro que ao tempo que chegámos ao inimigo, logo se meteu só neles como um doido, sem consideração nenhuma, mas era homem de grandes forças e bom soldado, só este perdemos, mas feridos vieram 14 ou 15 homens e nenhum morreu. Tomámos logo ali conta dos cavalos que traziam os soldados, acharam-se 37 e todos mui bons, e vinham 18 homens vivos, que os mais ficavam mortos. Nestes vivos entrava o capitão, que era traidor, que o acompanhou um soldado nosso, natural de Elvas, por nome Gaspar Roiz [Rodrigues], e depois de lhe ter já dado uma grã cutilada na mão esquerda [em combate], quis matá-lo, não sabendo que era o capitão. Ele então se descobriu ao soldado, que o não matasse, que era capitão, e tirando-lhe um capotilho vermelho e um bom colete, logo lhe viu o hábito que trazia debaixo, que era o de São Tiago [Santiago], que lhe havia dado El-Rei Filipe [IV]. (Manuscrito de Matheus Roiz, pg. 57)

Neste caso, o hábito seria apenas a insígnia pendente de um colar ou fita.

Imagem: Azulejo seiscentista monocromático representando um cavaleiro armado de pistola. Fotografia enviada por João Torres Centeno.

“Um general, em uma batalha ou em choque, não há-de levar insígnia nenhuma de general”

Este fragmento das memórias de Mateus Rodrigues refere um caso curioso, passado durante os preparativos para o combate de Arronches (8 de Novembro de 1653):

Assim como o nosso famoso general André de Albuquerque viu ao inimigo, parece que viu o céu aberto, por ver que lhe mostrava Deus o que havia tanto tempo andava buscando; que era dos desejos de se encontrar com o inimigo, de modo que pelejassem ambos e assim como compôs mui bem a cavalaria, (…) foi passando pela vanguarda com a espada na mão, (…) ia mui bem armado e mudado dos fatos, que tirou os que levava e os deu a um pajem seu e vestiu os do pajem para ficar desconhecido, porque um general em uma batalha ou em choque não há-de levar insígnia nenhuma de general. (Manuscrito de Matheus Roiz, pgs. 345-346)

O excerto indica uma prática que não era invulgar na época. Convém esclarecer, no entanto, que o autor pode estar a referir-se a uma capa ou casaca usada sobre a protecção de couro e a couraça, não ao equipamento militar na totalidade. O propósito de André de Albuquerque Ribafria seria, talvez, tornar menos evidente ao inimigo a sua posição, uma vez iniciada a confusão do combate corpo-a-corpo. No caso, de pouco lhe valeu, pois foi derrubado logo no início da peleja, tendo ficado bastante ferido.

Imagem: André de Albuquerque Ribafria, um dos melhores generais da cavalaria portuguesa durante a Guerra da Restauração. Morreu na batalha das Linhas de Elvas em 14 de Janeiro de 1659.

Bandeiras, estandartes e o sentido de honra

Desde tempos muito recuados na História que as insígnias do adversário são um troféu muito procurado, até pela desmoralização que pode causar às tropas do oponente (e em sentido inverso, a galvanização do lado que realiza o feito). A esse respeito, há rituais que chegam praticamente aos nossos dias, transformados apenas pelo evoluir da tecnologia, como o do grupo de militares que se faz fotografar em redor de uma bandeira inimiga capturada. Na essência, não difere muito do orgulho demonstrado por Antão Vasques em Aljubarrota, bailando ante D. João I embrulhado na bandeira de El-Rei de Castela, capturada na batalha, antes de a entregar ao seu soberano (vide Crónica de D. João I, de Fernão Lopes).

A perda de uma bandeira, estandarte ou guião continuava a ser, naturalmente, um facto desonroso no período da Guerra da Restauração. Os códigos de comportamento ditavam que bandeiras ou estandartes capturados durante um combate fossem transportados de arrasto pelo chão, demonstrando a humilhação infligida aos perdedores. Por exemplo, no regresso de uma incursão portuguesa a Valverde, em 1641, as sete bandeiras tomadas ao inimigo foram trazidas pelo chão, no meio das duas filas formadas pelos 300 prisioneiros (Manuscrito de Matheus Roiz, pg. 16).

Ao alferes cabia a guarda da bandeira ou do estandarte. O fracasso nessa missão e a perda da insígnia punham em causa a reputação do indivíduo, mais do a unidade à qual ele pertencia. D. Luís de Meneses, Conde de Ericeira, refere o caso do alferes da ordenança João de Almeida, o qual, em 1642, ao retirar-se de um lugar atacado pelos espanhóis, se esqueceu de levar consigo a bandeira.

Estando distante do lugar, e os castelhanos entrados nele, caiu neste erro; e ainda que achava a vida segura, como o não estava a seu parecer a opinião, procurou o remédio que só a honra costuma buscar no perigo.

Voltou ao lugar onde deixara a bandeira e conseguiu resgatá-la, apesar de atacado e ferido duas vezes pelos inimigos. (Conde de Ericeira, História de Portugal Restaurado, Porto, Civilização, 1945, vol. I, pg. 369).

Imagem: Pormenor da batalha do Ameixial, segundo o painel de azulejos da “Sala das Batalhas” do Palácio dos Marqueses de Fronteira. No canto inferior direito, um alferes da cavalaria espanhola procura salvar o estandarte da sua unidade.

Artilharia (3) – Os tipos de munição e a sua eficácia

Os projécteis mais utilizados pelas peças de campanha, designados por pelouros ou balas, eram esféricos, sólidos e de ferro. O diâmetro do projéctil era sempre inferior ao diâmetro da boca da peça, para que aquele não ficasse entalado no cano. Como as peças eram de alma lisa, por muito experiente que fosse o oficial artilheiro encarregado de calcular a elevação necessária à peça e a distância relativamente ao alvo, o efeito do tiro estava sujeito a algumas das contingências aqui apontadas para as armas de fogo pessoais. No entanto, ao contrário das balas de mosquete ou arcabuz, os pesados projécteis de artilharia podiam manter um efeito devastador, mesmo perdendo a velocidade inicial, e a imprevisibilidade da sua trajectória era agravada pelo facto de ricochetearem no solo e continuarem a ser letais. Filas ou fileiras inteiras podiam ser vítimas de uma única pelourada. O efeito sobre os indivíduos atingidos é por vezes descrito nas narrativas coevas:

O inimigo continuava com a artilharia, de que os nossos recebiam dano; uma bala arrancou dos ombros a cabeça a António Machado da França, capitão de cavalos. [Episódio ocorrido durante o cerco de Badajoz em 1644] (Aires Varela, Sucessos que houve nas fronteiras (…), o terceiro anno da Recuperação de Portugal, que começou em o 1º de Dezembro de 1643, Elvas, Typografia Progresso de António José Torres de Carvalho, 1900, pg. 109)

Mateus Rodrigues descreve um acontecimento semelhante, mas situa-o na campanha do forte de Telena em 1645. Contudo, pode tratar-se do mesmo evento descrito por Aires Varela, pois confusões deste tipo surgem com alguma frequência nas memórias escritas – mais de dez anos depois dos acontecimentos – pelo ex-soldado:

E vinha ali um capitão de cavalos na sua companhia, por nome Manuel da Gama, um bizarro soldado e mui cavalheiro e grande músico e mui bem entendido, que tinha seus dedos de poeta, (…) mui querido de todos os fidalgos, (…) vem uma peça do inimigo a dar-lhe só nele e tira-lhe a cabeça fora dos ombros, ficando o corpo a cavalo por espaço de um bom credo, sem cair no chão [e] sem a bala ofender mais a ninguém (…). (Manuscrito de Matheus Roiz, pg. 118 )

Havia outros tipos de munição, como as balas de cadeia ou grilhão, utilizadas frequentemente pela marinha de guerra para derrubar o cordame, rasgar o velame ou desmastrar os navios inimigos. Em terra firme era temível na ceifa de cavaleiros ou infantes em densa formação de batalha. Algumas variantes são mostradas na gravura acima. A forma mais básica consistia em duas balas ligadas por uma corrente. O disparo exigia mais pólvora e o alcance efectivo era muito inferior ao do tiro com munição normal, pelo que era reservado para o tiro contra formações inimigas a curta distância, sendo o alvo preferencial a cavalaria. Este tipo de munição também sujeitava o cano a um desgaste mais intenso. No entanto, foi expressamente requisitado por D. João da Costa em 1646, para o exército do Alentejo (Balas de cadeia, ou grilhão, 200 balas – carta anexa a um decreto de 11 de Agosto de 1646).

Para distâncias mais curtas utilizava-se a carga oca repleta de balas de mosquete: os sacos de bala miúda. Bastante eficaz contra cavalaria, conforme relata Mateus Rodrigues, ainda a propóito da campanha de Telena em 1645:

(…) Logo o inimigo veio com toda a cavalaria carregando-nos com grã força e trazendo duas peças entre a mesma cavalaria, com seis mulas cada peça, que corriam com elas como a mesma cavalaria, e assim como chegavam a tiro davam carga com elas que faziam muito dano, porque ia a nossa gente toda numa pinha e não podia deixar de matar muita gente, porque fazia o tiro de perto. (Manuscrito de Matheus Roiz, pg. 113)

Vinte anos mais tarde, na batalha de Montes Claros, fica registado o uso dos projécteis de carga oca pela artilharia portuguesa:

(…) E o Conde de S. João e o general da artilharia (…) deram ordem que as peças de artilharia, que estavam carregadas de sacos de balas miúdas, não dessem a primeira carga, senão ao tempo que os inimigos estivessem na distância de cinquenta passos (…); e foi tão notável o dano que padeceram, que os batalhões do corno direito, obrigados do receio, voltaram os meios corpos dos cavalos com aparência de quererem fugir (…). (Conde de Ericeira, História de Portugal Restaurado, Porto, Livraria Civilização, 1945-46, vol. IV, pg. 300)

Os trabucos e morteiros disparavam projécteis sólidos de ferro, ou esféricos e ocos, neste caso com uma carga de pólvora que era detonada por um fuso (na versão mais simples, um morrão que se incendiava com o disparo propulsor). Conforme o fuso, assim o projéctil poderia explodir pouco depois do impacto no alvo ou mesmo no ar. No entanto, os efeitos sobre as tropas não eram tão devastadores como as munições explosivas empregues a partir do século XIX. Os alvos principais deste tipo de artilharia de cerco eram edifícios e fortificações.

Imagem: Vários tipos de munição de artilharia, nomeadamente variantes de balas de cadeia (ao centro, o modelo mais usual) e palanquetas (balas ligadas por uma haste de ferro). Gravura apresentada em JÖRGENSEN, Christer, e outros, Fighting Techniques of the Early Modern World, AD 1500-AD 1763, Equipment, Combat Skills and Tactics, London, Amber Books, 2005.

Balas e consequências, ou a eficácia das armas de fogo pessoais

Ia Bento Maciel reconhecer a trincheira, a bala de um mosquete lhe deu nos peitos, e o derrubou; foi julgado por morto, acudiram ao retirar; ele se levantou, e desabotoado lhe acharam o jubão de tafetás passado, e uma grande pisadura, que o teve molestado muitos dias. (Aires Varela, Sucessos que houve nas fronteiras (…), o terceiro anno da Recuperação de Portugal, que começou em o 1º de Dezembro de 1643, Elvas, Typografia Progresso de António José Torres de Carvalho, 1900, pgs. 90-91).

O mestre de campo João de Saldanha recebeu um balaço de mosquete nos peitos que deu com ele em terra dez palmos atrás, e não lhe fez mais dano que um inchaço na carne, tão boas eram as armas que levava, mas ficou quase sem acordo. (João Salgado de Araújo, Successos Militares das Armas Portuguesas em suas fronteiras depois da Real acclamação contra Castella. Com a geografia das Prouincias, & nobreza dellas, Lisboa, Paulo Craesbeeck, 1644, pg. 189 v)

Já neste tempo haviam dado um pistoletaço em meu irmão, que era alferes da minha companhia, por nome Feliciano Gomes, mas não lhe fez nenhum mal, (…) meteram a pistola a queima-fato, não fez mais que queimar-lhe o couro por uma ilharga e o gibão (…). (Manuscrito de Matheus Roiz, versão transcrita do AHM, pg. 299).

As narrativas do período da Guerra da Restauração referem amiúde casos curiosos como os que acima foram transcritos. Se nos reportássemos apenas a exemplos destes, ficaria a ideia de que as armas de fogo eram quase ineficazes. Não era bem assim.

As armas de fogo pessoais mais utilizadas durante a Guerra da Restauração eram a pistola, a carabina, o arcabuz, o mosquete e o bacamarte. Por vezes surgem referências à espingarda, variante do arcabuz que era usada na caça, principalmente por civis, mas que também se encontrava aqui e ali nos arsenais militares. À excepção da pistola e da carabina usadas pela cavalaria e que tinham fecho de pederneira, as restantes eram armas de fecho de mecha. A alma lisa (ou seja, interior do cano sem estrias) destas armas
conferia ao projéctil disparado uma baixa velocidade e uma trajectória errática, para o que também contribuía a forma esférica da bala de chumbo. O alcance dentro do qual era esperado causar baixas ao inimigo era limitado: cerca de 5-10 metros para a pistola, cerca de 60-80 metros para a carabina e o arcabuz, cerca de 100 metros para o mosquete (alcances aproximados, segundo as estimativas da época e reconstituições actuais, nem sempre coincidentes entre elas).

Um conjunto de variáveis influenciava a eficácia: as condicionantes atmosféricas, o estado de conservação da arma, a qualidade da pólvora (e a quantidade utilizada para permitir a detonação), o cansaço do militar, o moral e o seu treino ou experiência. Na cavalaria, por exemplo, com os solavancos da montada e o efeito da gravidade, mesmo utilizando uma segunda estopa para fixar melhor o projéctil, podia acontecer que a bala se deslocasse no interior do cano e se afastasse da carga de pólvora que provocava a detonação. Deste modo, a velocidade inicial e logo a capacidade perfurante seriam muito reduzidas.

As características acima referidas condicionavam o emprego táctico das tropas equipadas com armas de fogo. As carabinas eram disparadas antes de se iniciar uma carga ou durante uma escaramuça à distância, enquanto as pistolas eram reservadas para o corpo-a-corpo, sendo disparadas muito perto do contacto, antes de se recorrer à espada, ou até desfechadas à queima-roupa. Arcabuzes e mosquetes eram muito mais eficazes se disparados em salva: tiro efectuado à voz de comando, normalmente pelas duas primeiras fileiras.

Devido à rápida perda de velocidade da bala, aconteciam situações como as citadas no início deste artigo. Por isso, um colete ou casaca de couro podia ser suficiente para proteger o combatente de cavalaria, poupando os mais temerários ao incómodo suplementar de uma couraça metálica (o uso destas peças entre a infantaria era mais raro, excepto entre os oficiais). Mas se o militar fosse atingido, principalmente por uma bala mais pesada e volumosa como a de mosquete (cerca de 18mm de diâmetro), as consequências podiam ser bem complicadas. Até 40 ou 50 metros de distância, com alguma sorte a bala podia passar através do corpo sem atingir ossos ou tocar artérias ou órgãos vitais, ou ficar alojada num local de fácil extracção. Este tipo de feridas sarava bem com os tratamentos empregues na época. O pior era quando um projéctil atingia um osso, quebrando-o, e depois deflectia para outras partes do corpo. Os ferimentos internos assim causados pela bala (que podia, ela própria, fragmentar-se, assim como ao osso, ampliando os danos) eram muito graves e quase sempre fatais. Na maior parte dos casos, a fractura de um membro provocada por uma bala levava à amputação do mesmo.

Os autores das narrativas de guerra dão ênfase aos eventos curiosos de pessoas atingidas por balas que pouco ou nada as incomodavam – o inverso não merecia grande destaque, porque era mais frequente.

Bibliografia adicional:

HUGHES, Major-General B. P., Firepower. Weapons Effectiveness on the Battlefield, 1630-1850, Staplehurst, Spellmount, 1997.

JÖRGENSEN, Christer, e outros, Fighting Techniques of the Early Modern World, AD 1500-AD 1763, Equipment, Combat Skills and Tactics, London, Amber Books, 2005.

Imagem: Mosqueteiros e piqueiros da Guerra Civil Inglesa. Reconstituição histórica em Old Sarum. Foto do autor.

O combate de Cabeço de Vide, 23 de Abril de 1649 (2ª parte) – a disposição táctica

Juan Jacome Mazacan (ou Mazacani, pois era napolitano de nascimento) era um militar bem conhecido dos portugueses. O soldado Mateus Rodrigues refere-se-lhe algumas vezes nas suas memórias. Comandava desde 1644 a guarnição de Zarza la Mayor, e embora o seu território de operações fosse habitualmente a fronteira que confinava com a Beira, entrou por vezes com a sua cavalaria pela raia alentejana. É nesta província que se encontra com a cavalaria portuguesa sob o comando do tenente-general francês Achim de Tamericurt em 23 de Abril de 1649, nas proximidades de Cabeço de Vide, não muito distante da vila de Fronteira.

Na continuação da narrativa, percorremos hoje a disposição táctica das forças, segundo o testemunho de Mateus Rodrigues.

(…) De modo que o dito Mazacan, assim como nos viu a todos, disse para a sua gente (…) senhores, soldados e capitanes, nos tenemos aqui mui buena pillaje de ganados, pero mejor es la que hemos de tener de aquesta que aca viene [em castelhano no original]. (…) E passando o nosso comissário [quer dizer, o tenente-general Tamericurt] pela vanguarda de toda a nossa cavalaria, dizendo aos capitães e mais soldados que não houve[sse] descomposição nem rumor, senão mui calados e cerrados e que fize[sse]mos todos como ele esperava de tão bizarros soldados como nós éramos [na época, a palavra bizarro era aplicada áquele que se distinguia pela sua valentia]; de maneira que se foi para a vanguarda pelejar (…), que iam cinco companhias na vanguarda, muito boas e [com] bons capitães, que era a companhia de um francês, por nome Latuie [Latouche], que o mataram ali, e a companhia do capitão João Homem Cardoso, e a companhia do comissário de Olivença, Duquesne, e a companhia do capitão Dinis de Melo [de Castro], que foi a primeira ocasião em que se achou depois de [promovido a] capitão de cavalaria e procedeu tão bizarramente como adiante direi, e assim mais a companhia do capitão João de Oliveira Delgado, e estas cinco companhias que na vanguarda iam teriam 200 cavalos (…) e as outras iam 4 na batalha e outras 4 na reserva, tudo mui composto e com ordem, na batalha ia o capitão Fernão de Mesquita [Pimentel] por cabo , e na reserva ia o capitão António Jacques de Paiva por cabo. De maneira que assim como o inimigo nos viu com determinação de pelejar, não fez mais que formar-se em (…) vanguarda e reserva, mas na vanguarda pôs todos os bons soldados e oficiais (…), e fê-lo mui grosso, que trazia na vanguarda perto de 400 cavalos, porque fazia conta que, em nos rompendo a vanguarda, que nos fizesse fugir, que logo a demais [cavalaria] havia de fazer o mesmo. Que não há dúvida que era uma ocasião daquelas [em] que é necessário haver bons cabos diante e bons soldados, que se uma vanguarda se rompe, ou sua ou nossa, é necessário muito auxílio de Deus e valor para terem bem mão, vendo fugir a sua vanguarda, e por isso o inimigo se fundava nestas circunstâncias (…). Aonde (…) se formou era um cabeço alto, e ao pé dele corria um ribeiro (…). E todo o gado, assim bois como ovelhas e cabras e porcos e muitas cavalgaduras, tudo isto estava junto, ao pé do inimigo, por onde havíamos de passar forçadamente [forçosamente]. E pelo meio de lá rompemos, e era tanto o fato de roupa que estava pelo chão, que eles haviam roubado pelos montes, que podiam carregar um navio, que todos os castelhanos (…) largaram [d]as garupas para pelejarem mais à sua vontade, e desembaraçados.

(Citações do Manuscrito de Matheus Roiz, versão transcrita do AHM: pgs. 157-159).

Agradeço muito especialmente a colaboração do amigo e investigador de Zarza la Mayor, senhor Juan Antonio Caro del Corral, que tem disponibilizado muita informação sobre o período da Guerra da Restauração – e neste caso, a obra de Gervasio de Velo Y Nieto, Escaramuzas militares en la frontera carcereña con ocasión de las guerras por la independencia de Portugal, Madrid, 1952, de onde me foi possível recolher alguns dados sobre o percurso militar de Juan Jacome Mazacan.

Imagem: Mapa de Portugal, cerca de 1700 (detalhe da província do Alentejo). Note-se a pequena diferença do topónimo, que surge como Cabeça da Vide. Biblioteca Nacional, Cartografia, CC164P.

Imagens de Cabeço de Vide, da arquitectura de hoje e do passado (e da tranquila paisagem dos arredores) podem ser vistas aqui.