Escaramuças na província da Beira em Maio de 1646

Continuando a transcrever alguns documentos, cujas cópias o estimado amigo Julián García Blanco me remeteu, cabe agora a vez de uma breve carta narrando escaramuças ocorridas na província da Beira. Os manuscritos pertencem ao espólio da Biblioteca Nacional de Madrid e são cópias coevas das cartas originais, para registo de arquivo, à semelhança das que se podem encontrar nos Livros de Registo da Secretaria de Guerra, em Lisboa.

As escaramuças que são descritas numa carta endereçada a um padre jesuíta de Évora não se encontram mencionadas na História de Portugal Restaurado do Conde de Ericeira. Episódios menores, em comparação às operações de maior envergadura que nesse ano ocorreram na província, são todavia de interesse para o conhecimento da vivência da guerra e seus efeitos sobre as populações da fronteira.

Carta de Francisco Leonardo a um religioso da Companhia do Colégio de Évora, em que dá novas de um sucesso que o nossos tiveram na Beira contra os castelhanos em 15 de maio de 1646

Novas da Beira têm sucedido agora muito boas. Em Alfaiates tivemos um bom sucesso, pelejou uma tropa de cavalos nossa de 40 soldados, com duas companhias de infantaria, com 150 cavalos cavalos sarcenhos [ou seja, de Zarza la Mayor] e foram derrotados, deixando no campo mortos 21 e muitos cavalos, e dezassete vivos, e a presa que levavam restituída ao lugar de Souto e Quadrazais. Se o Tejo se pudera vadear tivéramos a maior presa do mundo todo; a qual mandava o Conde [de Serém] fazer pelo tenente-general da artilharia, que passou o rio com 40 cavalos, e o resto deles ficou por se perder a barca, com que a infantaria não teve em que passar também da outra parte. E como se mal logrou esta ocasião, vendo o tenente-general da artilharia que não tinha caminho para Portugal senão marchando por Castela, o fez bizarramente com os 40 cavalos, e chegou a Carvajo de Santiago [Santiago de Carbajo], e a Membrio, e a outros lugares, e recolheu tudo o que neles achou até entrar aqui por Montalvão a salvamento, sem perda mais que de dois homens que se afogaram ao passar do rio. O forte de Zebra, que o Conde mandou fazer, está feito uma Rochella [comparação exagerada, feita pelo autor, com as defesas de La Rochelle, em França], dali se faz grandes estorvos aos danos que o inimigo fazia em algum tempo. O Bispo de Ciudad Rodrigo comete tréguas no que toca a roubos, e que se faça a guerra por termos militares; avisou-se disto a Sua Majestade, para o mandar resolver.

Francisco Leonardo

Fonte: Biblioteca Nacional de Madrid, mss. 8187, “Relações manuscriptas de Portugal, desdo anno de 1643 athe 1646″, fls. 70-70 v.

Imagem: Soldados de infantaria do século XVII. Museu Militar de Estocolmo. Foto de JPF.

Relação do saque e queima da vila de Membrio em 28 de Abril de 1644 (3ª e última parte)

Enquanto a força comandada pelo tenente de mestre de campo general Diogo Gomes de Figueiredo (pai) se preparava para iniciar o assalto a Membrio,

(…) O terço de Dom Nuno Mascarenhas (…) fez alto, formado em dois batalhões para aquela parte donde podia vir socorro inimigo, e os nossos batedores de cavalo bem ao largo do lugar por fora da cavalaria, para avisar se de Valença [Valencia de Alcántara], Ferreira [Herreruela], Carvajo [Carbajo] e outros lugares daqueles redores lhe vinha algum socorro.

É de notar a referência ao emprego, muito vulgar nas incursões, de uma força de cobertura e apoio, normalmente composta por um ou mais terços de infantaria e alguma cavalaria. A sua missão era aguardar, num determinado ponto afastado do objectivo, pelas unidades mais móveis que executavam o golpe de mão, evitando a intercepção destas por eventuais forças inimigas de reforço. Finda a acção de saque e pilhagem, a força pilhante incorporava-se com a de cobertura e apoio, regressando às suas praças de origem com o produto do saque. Este procedimento era posto em prática por ambos os exércitos beligerantes nas respectivas entradas em território inimigo. Mas prossigamos com a acção em Membrio:

Resistiram os nossos pelejando contra o inimigo fortificado na igreja mais de quatro horas, fazendo-lhe muito dano com a mosqueteria e granadas, e porque o principal intento era queimar o lugar depois de saqueado (…), brevemente ardeu de sorte que nenhuma casa ficou por abrasar, aproveitando-se do saque mais os moradores de nossas fronteiras do que os soldados, que nesta ocasião só se empregaram em pelejar, não largando nunca as armas da mão.

Vendo o tenente [de mestre de campo] general Diogo Gomes que tinha satisfeito com a ordem que levava, porque para o mais que a ocasião e o ânimo dos soldados lhe oferecia não levava instrumentos convenientes, e que os mesmos capitães, por falta deles, faziam torneiras [buracos por onde podiam disparar] nas paredes com as adagas e as espadas, e que as informações que se deram do lugar foram que não havia nele coisa forte, e que da igreja lhe matavam alguma gente, não podendo atalhar este dano por[que] as nossas granadas não eram de proveito por ser muita a distância, mandou pôr fogo às casas junto da igreja, para que com o fumo, ou não fôssemos vistos, ou se o inimigo saísse nós entrássemos com ele de companhia na sua fortificação. E reconhecendo tudo pessoalmente, ordenou aos capitães que retirasse a gente com estes intentos, o que se fez com muito vagar e boa ordem, e porque então com mais ousadia se descobria o inimigo, é provável que se lhe matou muita gente, assim o disse um prisioneiro (…).

Retirada toda a gente à parte donde havia desmontado a infantaria das cavalgaduras de albarda, juntamente cinco soldados mortos e dois artilheiros, catorze ou quinze feridos, entre os quais foi o capitão Inácio Pereira com três balázios, o ajudante António da Costa e três sargentos e os demais soldados, a que o padre Frei Simão de Lima acudia entre as balas a confessar e fazer curar com grande caridade e valor, e postos todos a cavalo por caminho mais breve se marchou para Castelo de Vide à vista de Valença, recolhendo a nossa cavalaria toda a sorte de gado que se achou por aqueles distritos, que foi muito, e fermoso.

O inimigo saiu de Valença com intento de impedir-nos o passo no rio de Sever, que por ali não é tão fragoso, e tendo disto notícia (…) [Diogo Gomes] se adiantou com 200 mosqueteiros e duas tropas de cavalos da vanguarda a ocupar primeiro aquele passo (…).

Passou a nossa gente o rio antes da noite, e (…) a sexta-feira de madrugada se entrou em Castelo de Vide, donde depois de se refrescarem os soldados e a cavalaria com pão e cevada que ali tinha Dom Nuno Mascarenhas, prevenido se partiu cada um a seu alojamento, entrando nesta cidade de Elvas ao sábado último de Abril passado (…).

Fonte: Rellação do saque e queima da Villa de Membrio em 28 de Abril deste prezente anno de 644 (AHM, 1ª divisão, 2ª secção, caixa 2, nº 26).

Imagem: Cavalaria e infantaria do período da Guerra Civil Inglesa, contemporânea da Guerra da Restauração. Foto do autor. Kellmarsh Hall, 2007.

Relação do saque e queima da vila de Membrio em 28 de Abril de 1644 (2ª parte)

A força portuguesa comandada por Diogo Gomes de Figueiredo (pai) chegara a Portalegre e fazia os preparativos para a jornada até ao objectivo. Continuando a narrativa:

Chamados os homens práticos que havia[m] de guiar ao tenente [de mestre de campo] general (…) se resolveu que se não podia partir aquela mesma tarde, (…) porquanto se não podia ir amanhecer a Membrio pela distância do caminho, pela sua fragosidade, pelos ruins passos de dois rios que desembocam no Tejo, Sever e Alburrel, e pelo cansaço das cavalgaduras, que até então não haviam parado, nem comido, e que assim mais convinha partisse ao outro dia pelas nove horas, para ir ao lugar à quinta-feira ao amanhecer, tempo mais acomodado para semelhantes facções.

Marchou-se na hora sinalada a quarta-feira, por caminhos tão ásperos e estreitos que sempre iam soldados enfiados uns atrás outros. Fez-se alto de noite, depois de passar os rios, [a] duas léguas [c. 10 km] de Membrio até sair a lua, que foi pela meia-noite, em que houve tempo, ainda que breve, para refrescar a infantaria e cavalaria.

Daqui se começou a marchar com grande silêncio e boa ordem por não serem sentidos, e chegados ao romper da alva à vista do lugar de Membrio, ocupou a cavalaria os postos mais altos, rodeando, e detrás de umas árvores, a pouco mais de tiro de mosquete, se apeou a infantaria, e formada em troços de mosqueteiros, depois de reconhecidas as partes por onde se havia de investir o lugar, se repartiu a todos com grande brevidade as granadas, os fechos e as escadas que haviam de levar (…).

Separou o tenente [de mestre de campo] general 80 piques, que levava em um batalhão com suas guarnições, que todos pelo desejo que tinham de pelejar ficaram de má vontade, e logo adiante com quatro mangas de mosqueteiros (…) a bom passo se foi para o lugarejo debaixo de sua mosquetaria. Dividiu aos quatro capitães para quatro partes sinaladas, para que se investisse a praça, e detrás, em socorro destas mangas, ordenou outras quatro (…).

Com pouca resistência treparam as primeiras trincheiras até abarbarem de carreira com a igreja [para] onde o inimigo se retirou fugindo, e se fez forte, porquanto uma hora antes de se avistar o lugar foi a nossa gente sentida, ou já por se haverem adiantado uns cavalos holandeses a furtar o gado, ou já porque a gente solta de nosso país, que saiem à pilhagem, deram com uns lavradores, de que escapando algum, foi dar aviso à vila, e fez recolher com tempo a mais da gente e mulheres à igreja, que assim o disse (…) um castelhano que pouco antes se havia tomado, e que no lugar havia uma companhia de 80 homens pagos e mais de 300 que tomaram armas.

A narrativa terminará no próximo artigo.

Imagem: Tropa de Cavalaria. Quadro de Peter Snayers, c. 1640. Kunsthistorisches Museum, Viena.

Relação do saque e queima da vila de Membrio em 28 de Abril de 1644 (1ª parte)

A relação que hoje aqui trago não consta do rol de narrativas propagandísticas impressas, nomeadamente do levantamento coordenado por Martinho da Fonseca em 1927 (Elementos bibliográficos para a história das guerras chamadas da Restauração 1640-1668, separata de Arquivo de História e Bibliografia, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1927). Dela existe uma cópia manuscrita no Arquivo Histórico Militar, feita provavelmente nos finais do século XIX. Não sendo muito diferente de outras narrativas apologéticas, esta tem um interesse acrescido pela informação detalhada acerca dos procedimentos tácticos numa incursão mista de cavalaria e infantaria (na versão de dragões improvisados).

A acção ocorreu depois da primeira incursão do governador das armas do Alentejo, Matias de Albuquerque (futuro Conde de Alegrete), à vila de Montijo, cerca de um mês antes da segunda incursão que culminaria na célebre batalha campal. Eis a relação dessa entrada, nas passagens mais significativas e numa escrita actualizada.

Depois de vir o senhor Matias de Albuquerque da jornada de Montijo em 20 de Abril passado, começou a dispor outra, para a qual elegeu por cabo a Diogo Gomes de Figueiredo, tenente de mestre de campo general deste exército [do Alentejo], que com 800 mosqueteiros montados de dois em dois, em quatrocentas bestas de albarda, e duzentos cavalos a empreendeu com particular disposição pela maneira seguinte.

Dos terços que aqui se acham nesta praça de Elvas escolheu oito companhias de infantaria, a 90 mosqueteiros e a dez piques cada uma, e foram os capitães Domingos Carneiro, Inácio Pereira de Aragão e Fulgêncio de Matos, do terço do mestre de campo João de Saldanha, e do terço de Luís da Silva os capitães João de [A]Morim, André de Araújo, Francisco Fernandes o Canastreiro [o mesmo que iria participar na defesa da ponte de Olivença, dois anos mais tarde] e Fernão de Mesquita, e do terço do Conde do Prado o capitão Cristóvão Pantoja; levou consigo para a distribuição das ordens o capitão Bernardim de Sequeira, ajudante de tenente [de mestre de campo general] e os ajudantes Francisco Manuel e António da Costa, aquele do terço de João de Saldanha, e este do terço de Luís da Silva, e todos estes oficiais levaram soldados de muito valor (…). A cargo de um gentil-homem de artilharia [posto de oficial artilheiro] iam doze artilheiros com cem granadas, cem fechos, seis escadas, quatro cargas de pólvora, quatro de corda e quatro de balas sortidas; acompanhou ao tenente [de mestre de campo] general o cirurgião-mor do terço da Armada, e o capelão-mor do terço de João de Saldanha, o padre Frei Simão de Lima, que para isso se lhe ofereceu, como também o fez o capitão reformado Amador Rodolfo.

Partiu desta cidade segunda-feira pela manhã, que se contavam 25 do passado [Abril] (…), e pelo caminho de Barbacena e de Assumar se foi dormir a Portalegre, que são oito léguas [c. de 40 km] desta cidade, e ao outro dia a Castelo de Vide, donde pelo ruim caminho chegou às três horas da tarde, ali deu umas ordens que levava do governador das armas ao mestre de campo Dom Nuno Mascarenhas [morreria na batalha de Montijo, um mês depois], que assiste naquela cidade com o seu terço, e outro ao capitão de cavalos João de Saldanha da Gama, que por mais antigo governava as companhias de cavalo que ali se achavam, como eram a de António de Saldanha, a de Fernando Pereira de Castro, e as Holandesas de Vagenheim, e outra de dragões da mesma nação, com mais uma companhia de cavalos da ordenança de Portalegre.

Achou aqui o tenente [de mestre de campo] general Diogo Gomes de Figueiredo segunda ordem do Senhor Matias [de Albuquerque] para que com o mestre de campo Dom Nuno e os capitães de cavalos, assentassem a parte aonde ele havia de ir fazer a facção, porquanto aquela para que o tenente [de mestre de campo] general trazia as primeiras ordens se havia alterado com segunda informação de Dom Nuno, (…) porque a primeira ordem era uma praça distante de Castelo de Vide 12 léguas [c. de 60 km], e os soldados não levavam mantimentos para gastar tantos dias, e assim se resolveu que a empresa fosse à vila de Membrio, 7 léguas [c. de 35 km] distante daquela praça.

Era esta vila de mais de 100 vizinhos [c. de 450 habitantes] e com fama de rica pelo trato que tinha das lãs, situada em um lhano, e quase toda de casas terreiras, estava cercada de trincheiras de terra e barro, e as mais das bocas das ruas com suas costaduras da mesma; tem no meio uma igreja com sua torre quadrada, alta e coroada de ameias, donde se descortinavam as mais das ruas, ou por suas bocas, ou por cima dos telhados das casas, por serem baixas, defronte da porta da igreja todo o terreno, adro à maneira de meia lua, com uma parede de altura de dois homens, e vinte pés afastada do adro outra parede a modo de barbacã, que testavam nas esquinas das ruas que iam para a igreja, pelo lado esquerdo dela havia um cercado, onde estava algum gado, e pela direita outro cercado a modo de cemitério, que tornejava a sacristia, tudo com suas torneiras, donde se disparava.

Está montado o cenário. Será continuada a narrativa na próxima entrada.

Nota: os tenentes de mestre de campo general eram considerados oficiais colaterais, que hoje diríamos de Estado-Maior, destinados a distribuir as ordens emanadas do mestre de campo general pelas unidades. Não deveriam comandar contingentes de tropas, excepto em circunstâncias muito extraordinárias. O prestígio de Diogo Gomes de Figueiredo e Bobadilha (pai – o seu filho homónimo também se celebrizou durante a guerra) foi motivo para uma dessas excepções.

Imagens: em cima, Membrio (grafado como Membrilho, forma que aparece por vezes na narrativa transcrita) no mapa de João Teixeira Albernaz, c. de 1650. Biblioteca Nacional, Iconografia, CC254A; em baixo, Membrio na actualidade. Reprodução de imagem obtida a partir do programa Google Earth.