Hábitos das Ordens Militares em campanha (mais um caso)

Na sequência do que ficou escrito sobre os hábitos das Ordens Militares, apresento mais uma passagem do Manuscrito de Matheus Roiz (Mateus Rodrigues), acrescentando outro exemplo aos que foram então referidos. O relato reporta-se ao rescaldo de uma escaramuça perto de Arronches, que o autor situa em Dezembro de 1643. Como é usual neste blog, actualizou-se a ortografia original.

[Voltámos] para a vila com grandíssimo gosto e alegria, e vendo logo ali na campanha quem nos faltava, não mais que um soldado, que esse logo houve quem o viu matar, porque foi tão bárbaro que ao tempo que chegámos ao inimigo, logo se meteu só neles como um doido, sem consideração nenhuma, mas era homem de grandes forças e bom soldado, só este perdemos, mas feridos vieram 14 ou 15 homens e nenhum morreu. Tomámos logo ali conta dos cavalos que traziam os soldados, acharam-se 37 e todos mui bons, e vinham 18 homens vivos, que os mais ficavam mortos. Nestes vivos entrava o capitão, que era traidor, que o acompanhou um soldado nosso, natural de Elvas, por nome Gaspar Roiz [Rodrigues], e depois de lhe ter já dado uma grã cutilada na mão esquerda [em combate], quis matá-lo, não sabendo que era o capitão. Ele então se descobriu ao soldado, que o não matasse, que era capitão, e tirando-lhe um capotilho vermelho e um bom colete, logo lhe viu o hábito que trazia debaixo, que era o de São Tiago [Santiago], que lhe havia dado El-Rei Filipe [IV]. (Manuscrito de Matheus Roiz, pg. 57)

Neste caso, o hábito seria apenas a insígnia pendente de um colar ou fita.

Imagem: Azulejo seiscentista monocromático representando um cavaleiro armado de pistola. Fotografia enviada por João Torres Centeno.

Cavaleiros e hábitos das Ordens Militares

No século XVII português há muito que estavam remetidos à memória os feitos das Ordens Militares na conquista do território que viria a ser Portugal e na sua consolidação enquanto Reino. Todavia, o prestígio das Ordens permanecia bem forte – e o proveito monetário dos seus membros também. Com a passagem da tutela dos Mestrados das Ordens Militares para a Coroa no século XVI, instalou-se uma verdadeira economia da mercê, em que as comendas eram atribuídas livremente pelo rei a quem bem entendesse. Muito procurados por quem ambicionava aumentar a sua reputação social (e inerente pecúlio), os hábitos das Ordens Militares eram um sinal de privilégio e de proximidade ao monarca por parte deste grupo restrito de servidores. Em Portugal, ao contrário do que sucedia em Espanha, não era necessário ser-se fidalgo para requerer o hábito: bastava provar que os ancestrais do requerente, até à geração dos avós, não tinham desempenhado qualquer ofício mecânico (trabalho braçal), nem tinham sangue cristão-novo.

Durante a Guerra da Restauração, entre o exército pago que combatia nas fronteiras, muitos eram os oficiais que integravam Ordens. Não só portugueses, mas também espanhóis e de outras nações – o prestígio de pertencer a uma Ordem Militar era comum aos católicos de toda a Europa. Ostentava-se o privilégio através do hábito, que já nada tinha que ver com o trajo medieval, limitando-se a um capotilho, ou a uma capa fechada sobre o peito, na qual surgia a cruz  respeitante à Ordem. O negro era a cor mais comum destes hábitos – uma cor cara, por ser difícil de tingir uniformemente com qualidade e de manter-se no vestuário com o uso.

Mas o hábito podia significar, apenas, a insígnia da respectiva ordem, que se usava sob as armas ou o colete, pendente de um colar ou fita. O cónego Aires Varela escreveu, a propósito de um recontro nas proximidades de Badajoz em Setembro de 1642, o seguinte:

Nesta facção [combate] morreram Castelhanos nobres, pela notícia que se teve do sentimento que se fez em Badajoz, e porque também se achou no campo um hábito de ouro com a Cruz de Santiago, e outras insígnias de nobreza.

Outras fontes referem o uso frequente deste género de hábitos, especialmente entre os oficiais da cavalaria.

O capitão francês Henri de La Morlaye (chegado a Portugal em Setembro de 1641 e morto em combate em Outubro de 1642) era conhecido como o Maltês, por ostentar um hábito da Ordem de São João de Jerusalém (Hospitalários), designada como Ordem de Malta a partir de 1530. O Maltês tinha um primo com nome idêntico ao seu, chegado na mesma altura e seu companheiro de armas, o qual morreu em combate em Maio de 1649, quando já era comissário geral na Beira.

Numa época em que os uniformes ainda não eram comuns, os hábitos – sob a forma de capas ou capotilhos, ou apenas o colar com a insígnia – constituíam o sinal visível da pertença a uma unidade – não no sentido militar do termo, mas no de uma verdadeira irmandade.

Bibliografia:

OLIVAL, Fernanda, As Ordens Militares e o Estado Moderno. Honra, Mercê e Venalidade em Portugal (1641-1789), Lisboa, Estar Editora, 2001. (Não se trata de uma obra de História Militar)

VARELA, Aires, Sucessos que ouve [sic] nas fronteiras de Elvas, Olivença, Campo Maior e Ouguella, o segundo anno da Recuperação de Portugal, que começou em 1º de Dezembro de 1641 e fez fim em o ultimo de Novembro de 1642, Elvas, Typografia Progresso de António José Torres de Carvalho, 1906 (excerto: pg. 106).

Imagem: Pormenor de um quadro de Dirk Stoop (década de 1650), representando dois cavaleiros portugueses com seus hábitos e a Cruz da Ordem de Cristo. Museu da Cidade de Lisboa.