A destruição parcial da ponte de São Felizes, 20 a 23 de Fevereiro de 1646, e outras operações na província da Beira

Depois de um interregno superior a um mês, o mais longo desde que iniciei o blogue, aqui regresso com um par de testemunhos da pequena guerra de fronteira, ambos aludindo a um acontecimento menor, mas de muita importância para a vivência das populações da raia. Trata-se do assalto e destruição parcial da ponte de São Felizes, um cenário do teatro de operações da província da Beira.

O episódio não mereceu mais do que duas linhas ao Conde de Ericeira na História de Portugal Restaurado, tendo certamente consultado para o efeito a breve notícia inserida na Relaçam geral de tvdo o svccedido nas fronteiras de Portugal o mes de Julho, & Agosto, com a tomada da Codiceira, & da Põte de Saõ Felizes na Beira, Em Lisboa, Na Officina de Domingos Lopes Rosa, Anno 1646. Este ano de 1646, em termos de operações bélicas, foi dominado pela última grande campanha ofensiva em vida de D. João IV, a partir do Alentejo, que culminaria nos combates de Codiceira e Telena. Todos os recursos materiais e financeiros foram mobilizados para aquela província, de modo que as restantes ficaram reduzidas ao preparo defensivo e às limitadas actividades da pequena guerra, que de resto caracterizariam o conflito nos dez anos seguintes. Há, no entanto, outras fontes que apresentam mais pormenores sobre este obscuro acontecimento.

A cópia de um manuscrito que em boa hora o amigo Julián García Blanco – a quem eu renovo os meus agradecimentos – me fez chegar às mãos, pertencente ao espólio da Biblioteca Nacional de Madrid, inclui duas cartas (na verdade, cópias coevas das cartas originais, para registo de arquivo, à semelhança das que se podem encontrar nos Livros de Registo da Secretaria de Guerra, em Lisboa) onde é feita menção à operação. A primeira delas, sem data, mas com o registo à margem de Fevereiro de 1646, foi enviada pelo Conde Marechal (D. Francisco de Mascarenhas, Conde de Serém e governador das armas) ao Rei. A outra carta não reporta em primeira mão, tendo sido escrita em Lisboa em 7 de Março de 1646 pelo padre António de Amaral, mas refere no seu conteúdo o que o doutor António Cabral de Castelo Branco, morador em Celorico, escreveu ao padre sobre o assalto à ponte de São Felizes. Dado o interesse de ambos os documentos, passo a transcrevê-los, vertendo-os para português corrente para melhor entendimento.

Cópia da carta para Sua Majestade, do Conde Marechal, sobre a Ponte de São Felizes

Em 20 do corrente mandei intentar a entrepresa da ponte de São Felizes, conforme a ordem de Vossa Majestade. Encarreguei esta facção ao sargento-mor Agostinho de Andrade Freire, soldado de mui boa satisfação. Levou a seu cargo 600 infantes e três companhias de cavalos, e com o favor de Deus se investiu com a ponte somente pela parte deste Reino, por se não poder vadear o rio. Avançou a nossa gente a uma torre forte que havia no meio da ponte, se ganhou com facilidade, logo se passou a gente necessária à parte de Castela [para] ocupar uma colina, posto muito importante para se trabalhar com seguridade, e para impedir o dano que por aquela parte o inimigo nos podia fazer. Julgou-se por tempo necessário um dia para se derrubar a ponte, e não se pôde conseguir em menos de três dias pela grandeza e fortaleza de sua fábrica, desta detença se resultou grande glória, com grande reputação às armas de Vossa Majestade.

O inimigo juntou tudo quanto pôde nestes dias e não ousou acometer a nossa gente, por termos postos avantajados e retirada segura, e só usou de tocar arma de noite em Almeida, entendendo se disparasse a artilharia com que se divertisse a nossa gente [ou seja, procurou fazer soar o alarme para que os portugueses retirassem da ponte e fossem socorrer Almeida], o que lhe não sucedeu por se entender que este era o seu desígnio.

A nossa gente está fortificando o lugar de Vermiosa, e com intento de se fazer atalaia no Cabeço das Mesadas, com que se julga ficarão os lugares de Riba de Coa com quietação e sossego.

Filipe Bandeira de Melo, governador da praça de Almeida, se houve com muito boa disposição e diligência nos aprestos de socorros de mantimentos e munições todos os três dias, com tanto cuidado que me obrigou a lembrar a Vossa Majestade seus procedimentos. Isto é em suma o que tenho sabido deste bom sucesso, de que me pareceu avisar a Vossa Majestade para o ter entendido. (…)

O segundo documento é mais breve, mas reporta uma outra acção, além da ponte de São Felizes.

Novas da Beira em carta de Lisboa do padre António de Amaral,  de sete de Março de 1646

Chegou carta do padre António Cabral de Castelo Branco, morador em Celorico, em que conta a facção da ponte de São Felizes na forma seguinte. O capitão Brás de Amaral, levando até mil soldados, acometeu a ponte e o castelejo, onde achou até 30 soldados castelhanos, os quais, querendo se defender, foram mortos pelos nossos; que vencido este primeiro encontro, passaram fazendo rosto ao lugar de São Felizes de Galegos, deixando oficiais fazendo minas na ponte, que constava de cinco fortes olhões, e tendo-lhe metida a pólvora nas minas, se mandou voltar os nossos e que passassem a ponte, à qual mandou dar fogo e fez voar pelos ares. Ficaram da nossa parte três ou quatro lugares dos castelhanos; com isto ficamos seguros deles poderem passar a nossas terras em Inverno; nelas andam já os nossos semeando os tremoços.

A segunda facção foi em 26 do passado, saíram da Sarça e da parte de Alcântara 40 cavaleiros a roubar-nos as terras das Idanhas, colheu-os da nossa banda a cheia dos rios. Saíram-lhe os nossos e cativaram trinta, os dez que os guiavam e eram portugueses traidores, temendo que, se os cativassem os nossos, haviam de ser arcabuzeados, se lançaram ao rio e nele se afogaram todos. (…)

Estes dois documentos complementam-se nas informações que dão sobre a destruição parcial da ponte de São Felizes. O limitado objectivo estratégico foi – como muitas vezes na pequena guerra de fronteira – o de proteger as populações das incursões predatórias do inimigo. Num pormenor diferem as duas cartas: o comando das operações. Enquanto o governador das armas refere ter atribuído o comando ao sargento-mor Agostinho de Andrade Freire, já as informações recebidas pelo padre de Lisboa indicam o capitão Brás de Amaral Pimentel – provavelmente o oficial que comandou as forças no terreno durante o assalto à ponte. Por outras fontes do período da Guerra da Restauração, sabe-se que Agostinho de Andrade Freire, apesar da sua reputação de soldado experiente, não gostava muito de expor a sua pessoa a riscos desnecessários. Quanto a Brás de Amaral Pimentel, viria a ser capitão-mor de Almeida nos inícios da década de 50, e nesse cargo teve alguns contratempos pessoais. Mas isso fica para outra ocasião.

Fonte: Biblioteca Nacional de Madrid, mss. 8187, “Relações manuscriptas de Portugal, desdo anno de 1643 athe 1646”.

Imagem: Vista parcial do perímetro defensivo da praça de Almeida, na actualidade. À direita, os quartéis de cavalaria, datando do século XVIII. Foto de JPF.

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O assalto a Oliva, 8 a 11 de Janeiro de 1654 (5ª e última parte)

André de Albuquerque Ribafria enviou uma mensagem a D. Manuel de Melo, para que este mandasse dois oficiais do seu terço, dos mais experientes e sagazes, ao castelo de Oliva, a fim de concretizarem os termos da capitulação com o governador. O mestre de campo escolheu o alferes da sua companhia, Manuel Francisco Canais, e o capitão Manuel de Almeida. Os espanhóis enviaram dois elementos para servirem como reféns junto do general da cavalaria – uma prática de etiqueta neste género de situações.

Os ajustes da capitulação não diferiram do que era prática corrente em situações semelhantes: os soldados sitiados saíriam com as armas às costas, e as de fogo carregadas com bala, mas somente até 200 passos da vila – depois, teriam de as entregar; as mulheres poderiam carregar tudo o que conseguissem, de pertences individuais, à cabeça, mas o mesmo não era permitido aos homens.

Segundo Mateus Rodrigues, quando os dois oficiais portugueses regressaram vinham mui bem aproveitados de coisas boas de dentro do castelo, que confessou um deles que lhe rendera a ida lá dentro bons cem mil réis. (MMR, pg. 384)

Seguiram-se então os procedimentos habituais. Os mestres de campo D. Manuel de Melo e Manuel de Saldanha, acompanhados de outros militares, foram ao castelo organizar a evacuação dos moradores e dos soldados. Mateus Rodrigues escreveu, a este respeito, algumas das páginas mais sentidas das suas memórias:

(…) Foi uma confusão notável entre as mulheres, porque além de ver que as faziam sair da sua pátria [ou seja, local de onde eram naturais], para nunca jamais a tornar a ver, por outra parte tinham tanto que levar cada uma que não podiam levar o que desejavam. Vejam bem como se apartariam de boa mente de sua pátria, (…) vendo ficar os maridos mortos, e outras os filhos e irmãos. Assim que não havia quem as fizesse apartar dali. Contudo, como era força fazê-lo, começaram a ir fazendo trouxas, cada uma o que podia levar à cabeça, mas algumas com paixão não levavam nada, senão tudo era prantos e gritos. Finalmente começaram a sair (…) pouco a pouco. (MMR, pg. 384)

Mateus Rodrigues formou, como a restante cavalaria e os infantes do terço de Olivença, em duas alas, de cada lado da estrada por onde a procissão dos desalojados e rendidos iria passar, debaixo de intensa chuva. O resto já aqui foi descrito num artigo anterior, pelo que evito repetir a narrativa do soldado de cavalos a este respeito.

A capitulação previa que as gentes de Oliva fossem escoltadas, a partir de certa altura, por um destacamento de cavalaria de Jerez de los Caballeros, cidade que seria o seu destino. Vieram de Jerez 100 cavalos meia légua de nós, em comboio desta gente (…), e posto que assim se ordenou de lá e de cá, que estavam em Jerez 200 cavalos que se haviam juntado aí, do regimento de Rosalles [Juan de Rosalles, comissário geral]. (MMR, pg. 385)

Após a saída do moradores, vieram os militares (200 homens), de armas às costas. Respeitando as cerimónias usuais nestes casos, e conforme estava combinado na capitulação, os portugueses saudaram os espanhóis com uma salva de mosquetes. Recolhidas as armas após a saída da guarnição, trataram os soldados portugueses de entrar na vila. A cena descrita por Mateus Rodrigues é típica de qualquer conflito da Era Moderna:

(…) Quis Deus que, como demos pelas casas da vila, começamos a fazer grandes fogos com as caixas, cadeiras e portas das casas de onde nos metíamos, que quando amanheceu já não havia ninguém que não estivesse muito bem enxuto e bem farto de carne, que não faltava na vila, assim morta como porcos vivos que na vila havia. (MMR, pg. 387)

Na vila ficou o capitão Manuel de Almeida comandando uma guarnição de 200 homens. Entre a partida  e o regresso da força portuguesa a Elvas e a Olivença passaram-se nove dias. Mateus Rodrigues refere que as perdas portuguesas foram cerca de 150 homens – só no terço de D. Manuel de Melo houve mais de 120 baixas, entre mortos e feridos; o terço de Olivença, de Manuel de Saldanha, não chegou a combater. As perdas dos defensores de Oliva ascenderam a mais de 60 mortos.

O memorialista frisou que a tomada da vila e castelo de Oliva fora a jornada de maior proveito para Portugal em mais de 10 anos. No imaginário castrense, a conquista de uma povoação, pela sua raridade, conferia um prestígio superior a qualquer usual operação de rapina ou combate renhido. No entanto, com esta façanha Mateus Rodrigues colocou um ponto final em 13 anos de serviço ininterrupto no exército do Alentejo. Ainda lá voltaria por um breve período, mas somente passados três anos, durante os quais aproveitou para redigir a maior parte das suas memórias.

Imagem: “Dividindo os despojos”. Pintura de Jacob Duck. Museu do Louvre, Paris.

O assalto a Oliva, 8 a 11 de Janeiro de 1654 (4ª parte)

Após o fracasso dos petardos, Mateus Rodrigues refere a acção de um frade que, segundo o soldado, pode ter sido determinante para a tomada do castelo de Oliva de la Frontera. No entanto, a narrativa do soldado de cavalos é também, a certa altura, um importante testemunho da violência e terror que as operações de guerra exerciam sobre os civis, que não aparece registado em nenhum outro relato deste acontecimento.

Em esta vila estava um frade trino [ou seja, da Ordem da Santíssima Trindade] castelhano e natural da vila, que tinha ali um irmão e havia vindo a vê-lo. E quando viu que íamos a tomar a vila, não se quis meter dentro do castelo, senão ficar de fora para pedir ao general que (…) não bulissem na casa de seu irmão. (…) O general mandou logo ao frade que fosse ensinar [onde ficava] a casa, que mandava lá pôr sentinelas [para] que ninguém lá fosse e que lhe dava sua palavra que lhe não havia de falta dela coisa alguma. Agradeceu-lhe o frade grandemente o favor (…) e se foi o frade com o general para as casas e nunca de lá saiu, a não ser ao que diante se verá, que pode ter sido a causa de se tomar o castelo. (MMR, pgs. 377-378)

Entretanto, as minas iam progredindo pouco em direcção ao castelo, pois a terra era muito dura e difícil de escavar, e sobre isto avisou D. Manuel de Melo o general da cavalaria. Seriam precisos muitos dias até que as galerias subterrâneas chegassem à muralha do castelo. Porém, André de Albuquerque não se demoveu do seu intento. Tinha vindo até ali para tomar o castelo de Oliva e não partiria sem o fazer, apesar da proximidade da cidade de Jerez de los Caballeros e da possibilidade dos espanhóis enviarem um exército de socorro.

De maneira que, como o frade assistia sempre com o general, ouvia dar as ordens, e ouvindo falar em minas, perguntou o que era aquilo. Disse-lhe então o general que mandava fazer duas minas, uma que havia de ir até à torre que tinha o castelo no meio, e a outra havia de ir parar à muralha, e assim como estivessem já acabadas, que vissem que já lá tinham chegado, haviam de atacá-los com muita pólvora e dar-lhe fogo, para que voasse a torre para o ar e quem estivesse nela, e logo a da muralha havia de abrir uma grande brecha, por onde haveria de mandar avançar mangas de mosquetaria e rodeleiros, para que fossem degolando tudo quanto estava dentro. Tanto que o frade ouviu isto ao general, pediu que o deixasse ir ver aquelas minas. Mandou logo o general que fossem a mostrar as minas ao frade, as quais ele foi ver logo, e assim como as viu ficou parvo. E logo pediu muito ao general que lhe desse sua senhoria licença, que queria ir dentro ao castelo falar com o governador. Que, como o frade tinha lá dentro sua irmã e sobrinhas, não podia levar em paciência o dizerem que o castelo havia de voar e quem estava nele. (…) Como o general viu que nunca a ida do frade ao castelo lhe podia resultar em (…) dano, senão em proveito, deu licença ao frade (…), mas disse-lhe o nosso general que havia de volver com resposta, senão, que lhe havia de pesar. O frade lhe deu sua palavra de tornar. (MMR, pgs. 378-379)

O frade dirigiu-se ao castelo, onde entrou por um postigo falso que tinha a muralha, pois a porta principal estava terraplanada no interior, até ao cimo da muralha. Em conversa com o governador, tentou fazer com que este se rendesse, a fim de poupar as vidas de tanta gente que estava no castelo, contando-lhe acerca das minas e da disposição dos portugueses em as fazer explodir e degolar toda a gente.

A proposta, todavia, teve o efeito contrário ao pretendido. Assim como os habitantes souberam dela, zangaram-se e expulsaram o padre, dizendo que preferiam voar com o castelo a renderem-se. Regressado para junto dos portugueses, o frade não contou a André de Albuquerque como fora infrutífero o seu esforço para salvar as vidas dos habitantes de Oliva. Pelo contrário, deu alguma esperança ao general, pois referiu que o governador do castelo nunca lhe dissera que não se renderia, mas que o tempo lhe daria lugar a decidir o que haveria de fazer. Era este governador homem já avançado em anos, e segundo o frade era desejo do bom velho entregar-se, pois tinha duas filhas donzelas no castelo e elas lho pediam que assim fizesse. O impasse, no entanto, manteve-se.

(…) Em a vila havia uma igreja muito forte, a qual estava perto do castelo; pelo menos ficava-lhe no descoberto de toda a mosquetaria, que não podiam ir à igreja sem que do castelo não fizessem muito dano. E nesta igreja ficaram muitas mulheres, e com 50 homens que pelejavam da torre da igreja infinito, e tinham fazenda dentro dela. E aonde estava a nossa gente pelejando ficava-lhe a igreja junto deles, mas não podiam lá ir senão com muito risco.

Mandou o general (…) um aviso, se se queriam entregar, senão que os haviam de degolar, ao qual aviso eles fizeram pouco caso. Mandou logo o general que fosse uma manta à igreja com um petardo, e que em abrindo as portas, avançassem por elas dentro mangas de mosqueteiros, e que não dessem quartel a castelhano nenhum, só às mulheres não agravassem [ou seja, não fizessem mal]. E preparada a manta, foi o soldado com ela e com o petardo diante, e chegando a uma porta travessa que ficava mais resguardada do castelo, deu fogo ao petardo e logo lançou as portas dentro. E no mesmo tempo avançaram os mosqueteiros por ela dentro, matando a todos os castelhanos que lá estavam, ressalvando as mulheres. E assim como os nossos entraram, era tanta a confusão e gritaria das mulheres que lá estavam, que pareciam os diabos. (…) E em breves palavras estavam todos os castelhanos da igreja estirados na rua, mortos, à vista do castelo, para que os outros os vissem, para pôr medo. E logo tomaram as mulheres todas, que eram 50, e botaram-nas fora para a rua, dizendo-lhe[s] que se fossem para o castelo. E vendo-se elas naquele estado, foram-se ao pé do castelo com grandes gritarias de choros, que as recolhessem para dentro, mas o governador, nem os mais, não as quiseram recolher …). Vendo-se as pobres desta sorte, tornaram-se para a igreja, que não haviam de estar aos pelouros nas ruas. E quando os nossos entraram na igreja não tiveram mais que três homens que morreram, mas os 50 homens que lá estavam todos morreram, e os nossos se aproveitaram de muito bom fato que lá tinham os castelhanos metido.

Feita esta diligência se continuava grandemente com as minas, porém com poucas esperanças de elas chegarem lá devagar, contudo continuava-se com elas. E quando o nosso general soube que já a igreja estava tomada e que estavam lá 50 mulheres, deu uma ordem à vista do frade castelhano: que se mandassem escolher 300 soldados da cavalaria, todos soldados velhos e homens de satisfação, e que haviam todos de trazer cravinas. E quando a mina da muralha estivesse para dar fogo a ela, que haviam de avançar estes 300 soldados pelas brechas dentro, (…) e logo detrás deles mangas de mosquetaria. Mas quando os homens da cavalaria avançassem haviam de levar 50 soldados, os que fossem diante, daquelas que estavam na igreja para amparo dos seus corpos, que se os castelhanos lhe atirassem, matassem primeiro as mulheres. Brava ordem. Mas a verdade é todas estas confusões fazia o general à vista do frade para que, vendo estas coisas, o movesse a querer volver ao castelo a falar com os castelhanos. o que não foi necessário, porque assim como o inimigo, do castelo, viu aquela lástima dos mortos da igreja pela rua e as mulheres com as gritarias, parece que lhe quebrou o coração a todos, e houve entre eles logo um rumor e uma bulha, que se conformaram a mandar pedir quartel ao nosso general. (MMR, pgs. 380-382)

As condições foram recusadas, porém. André de Albuquerque não estava disposto a permitir que os espanhóis permanecessem no castelo até terem recolhido os trigos que tinham semeado pelos campos. Despediu o emissário do governador dizendo que se espantava muito de como em os espanhóis havia tal rudeza e pouco discurso (MMR, pg. 382); que pelejassem o que pudessem, que não fazia concessão nenhuma naqueles termos.

Mas os castelhanos não ficaram muito contentes (…) do que havia trazido o aviso. E quando veio este aviso era no sábado, mas no domingo de madrugada tornaram logo com outro, (…) de como se queriam entregar, mas que lhe haviam de deixar sair com suas armas às costas e bala em boca, e que levariam as mulheres o fato que pudessem levar à cabeça para se remediarem. (MMR, pgs. 382-383)

André de Albuquerque ficou contente com este pedido de capitulação. Sabia que seria impossível tomar o castelo sem a artilharia que havia ficado em Mourão, pois na altura achara que não seria necessária. Assim, tratou de negociar as capitulações.

D. João da Costa, na sua carta, imagina combates a que não assistiu: Prevenindo eu este acidente, mandei levantar mantas e mineiros, e tudo o mais necessário para forçar o castelo, o que se começou a fazer com estes instrumentos, de maneira que o inimigo se viu obrigado a render-se, como o fez ontem às dez horas da manhã. (Livro 2º…, carta de D. João da Costa, Conde de Soure, para D. João IV, datada de 12 de Janeiro de 1654).

(continua)

Imagem: Soldados confraternizando com mulheres. Pintura de Jacob Duck (1600-1667).

O assalto a Oliva, 8 a 11 de Janeiro de 1654 (3ª parte)

Sem saber que tinham sido detectados, os portugueses avançaram sobre Oliva de la Frontera.

Cercada a vila com a cavalaria toda, chegou a infantaria e o nosso general diante dela. Chegaram à trincheira sem ouvirem dentro rumor nenhum, como que não havia ali gente nenhuma. E a esquadra que estava à porta não quis dar tiro nenhum à nossa gente até que eles os não viram subir pela trincheira acima, pelas escadas, e assim como os nossos foram subindo, dá-lhe a esquadra uma carga que logo ali caíram onze homens. Assim como o inimigo deu esta carga logo desamparou a porta e a trincheira e se foram de carreira meter no castelo, porque aquela esquadra não a pôs o inimigo ali para defender a trincheira, senão para que os do castelo soubessem quando nós chegávamos, para se prevenirem. (MMR, pg. 374)

Estes detalhes são omitidos na carta de D. João da Costa para D. João IV. A riqueza do texto de Mateus Rodrigues reside na perspectiva que este tem das operações, à escala das preocupações do homem comum, com pormenores que escapam às mais elaboradas narrativas produzidas com fins informativos e propagandísticos. Esclareça-se que o termo “trincheira” empregue por Mateus Rodrigues correspondia a um baluarte provisório, erigido com terra e eventualmente reforçado com madeira no interior, destinado a proteger as entradas de uma localidade e a reforçar as defesas já existentes.

Depois de terem sofrido as baixas repentinamente, devido à salva disparada de surpresa e à queima-roupa, o ânimo dos soldados portugueses esfriou. Como o nosso general viu isto, pareceu-lhe que os soldados estavam já com medo e que seria necessário muito tornar a fazê-los avançar. E assim disse a Manuel de Melo e ao mestre de campo Manuel de Saldanha (…) que seria necessário eles fazerem exemplo aos soldados, em subirem diante eles pela trincheira, para que os soldados não duvidassem, e apenas tinha dito isto (…) já ele ia subindo pela trincheira com uma rodela e uma espada na mão, seguindo-o logo as duas pessoas nomeadas e assim mais todos os soldados. (…) Contudo, assim como o inimigo, do castelo, os sentiu dentro [da trincheira], eram tantas as balas que botava dele que parecia que botavam como saraiva, porque todas quantas ruas tem e tinha a vila, todas as lavava o castelo com sua mosquetaria. E como fazia grande luar, dava muita ajuda ao inimigo, e foi a coisa de modo que não tiveram os nossos outro remédio para ficarem dentro da vila, senão irem minando as casas por dentro, pelas paredes, e meteram-se dentro, em as casas, todo o terço de Manuel de Melo, em uma rua que ficava bem defronte do castelo; porque, como vinha já amanhecendo, não era possível aparecer ninguém onde chegasse arma de fogo do castelo, porque assim que aparecia algum nosso onde o inimigo lhe chegasse, já ele estava morto; que, de 200 homens que no castelo estavam, não havia um só que não fosse caçador do ar [caçadores de aves], e assim nunca jamais erravam tiro que fizessem. De modo que antes que fosse manhã, já o terço todo estava metido dentro das casas de uma rua fronteira do castelo, e o inimigo mui bem soube logo que a nossa gente estava metida naquela rua, porém pelejava-se grandemente de ambas as partes, mas da nossa com pouco proveito, em razão que como os castelhanos estavam dentro do castelo, não lhes podiam os nossos fazer tanto dano como eles a nós, que nos [a]tiravam de dentro de umas ameias do castelo, e nós não lhe podíamos fazer mal nenhum, porque a nossa infantaria não podia pelejar senão de dentro das casas, que faziam uns buracos por dentro das paredes que ficassem bem defronte do castelo, e metiam por os buracos os mosquetes. E assim como viam assomar algum castelhano, atiravam-lhe; assim como os castelhanos viam atirar, logo atiravam para aquela parte (…). E bem viam os buracos, porque a distância do [desde o] castelo a[té] onde os nossos estavam era coisa pouca. O nosso general logo mandou tomar umas casas em entrando dentro da vila para ele estar, mas não ficava da parte donde o inimigo lhe fizesse dano. E dali não saiu até que a vila e castelo se não tomou. Dali mandava as ordens do que se havia de fazer ao mestre de campo Manuel de Melo, que estava com o seu terço dentro das casas para dar ordem ao terço a pelejar e para mandar fazer as minas (…). (MMR, pgs. 375-376)

O terço de Olivença comandado por Manuel de Saldanha, bem como toda a cavalaria e a bagagem, permaneciam longe da vista dos moradores de Oliva, ocultados em outeiros e vales. Os soldados, desocupados de qualquer acção de combate, aproveitavam a lenha que podiam recolher livremente para se aquecerem com os grandes fogos que faziam, pois o frio era intenso. Entretanto, na vila prosseguia o tiroteio entre os defensores do castelo e o terço de D. Manuel de Melo. Os do castelo apupavam os portugueses, chamando-lhes “galegos” e  gritando-lhes que tinham escolhido mal o dia e “que levassem as casas da vila às costas” (as casas estavam completamente vazias, como refere Mateus Rodrigues; nada havia que pudesse ser pilhado); havia uma enorme confiança entre os defensores de Oliva acerca da inexpugnabilidade do castelo.

André de Albuquerque recebeu uma mensagem de D. Manuel de Melo: a pouco e pouco os soldados do seu terço iam consumindo as munições e alguns tombando, sem que se pudesse fazer qualquer dano aos castelhanos – aguardava, pois, instruções sobre o que fazer. André de Albuquerque mandou então que os mineiros começassem a abrir minas e mandou avançar as mantas. Curiosamente, na carta enviada ao Rei, D. João da Costa afirma que partiram dele estas ordens – mas o mestre de campo general não fez parte da expedição. Aliás, tanto o Conde de Ericeira como Mateus Rodrigues são claros quanto a quem comandou toda a operação, e o soldado de cavalos fez parte da força que nela participou.

(…) Mandaram logo preparar as mantas, que eram duas, que levava cada uma um petardo (…), e lançaram-nas por uma porta grande que estava em uma das casas. Assim como o inimigo as viu sair eram tantas as balas que se cobria o ar com elas. (…) As mantas são de prova de mosquete [ou seja, à prova de mosquete] e mui fortes, contudo lançou o inimigo uma ameia do muro abaixo e botando-a em cima de uma das mantas, a fez numa pasta, que como era grande altura e [a] ameia pesava mais de dez quintais, não pôde a manta sustentar o peso da pedra. E a outra deu fogo à muralha com o petardo, mas não fez nada, que estava já o soldado debaixo dela com grande medo, vendo o fim que a outra teve, e assim como deu fogo ao petardo, vendo que não obrava nada, veio-se embora com a manta, e o inimigo fazendo grande risada e galhofa (…). (MMR, pgs. 376-377)

A carta-relatório de D. João da Costa é muito prosaica a este respeito:

(…) Se arrimou um petardo à porta, e dando-se-lhe fogo três vezes, não tomou, pela humidade do tempo o impedir, até que com as pedras quebraram os castelhanos  as estacas em que se sustentam os petardos. (Livro 2º…, pg. 42)

Mais um ponto em que o discurso de D. João da Costa se afasta do que Mateus Rodrigues viu e escreveu.

(continua)

Léxico:

Manta – protecção de madeira, colectiva ou individual, revestida de peles de animais, sob a qual se abrigavam os soldados que deviam aproximar-se das muralhas ou portas para colocar o petardo.

Petardo – engenho explosivo em forma de sino que se fixava contra uma porta ou uma muralha, a fim de as rebentar.

Imagem: Modo de colocar um petardo. Gravura do século XVII, via The Artillery Garden.

O assalto a Oliva, 8 a 11 de Janeiro de 1654 (2ª parte)

A propósito de Oliva de la Frontera, Juan Antonio Caro del Corral enviou esta ligação para um artigo online de Alfonso Gil Soto, intitulado “El impacto de la Guerra de Secesion Portuguesa (1640-1668) en los territorios de la Extremeña: el caso de Oliva de la Frontera” (in Alcántara, 2001, pgs. 53-54):

http://ab.dip-caceres.org/alcantara/alcantara_online/53_54/53_54_006a.htm

Ao amigo Juan Antonio agradeço, mais uma vez, a sua oportuna colaboração.

Prossigamos a narrativa, seguindo as memórias de Mateus Rodrigues. Com tudo acertado para a operação, o terço de Moura começou a reunir mantimentos para 8 dias. Todas as bestas da vila de Moura, em número de 1.000, foram requisitadas para puxarem as carroças e transportarem os mantimentos e as munições, para além das que os soldados levariam em mochilas (designação dada na altura a grossos sacos usados a tiracolo). Tudo isto foi feito com o sigilo possível, para não despertar qualquer desconfiança no inimigo. O ponto de reunião das forças de cavalaria com a infantaria de Moura seria a vila de Mourão.

Dia de Reis, que foi em 6 de Janeiro de 1654, saiu o nosso general André de Albuquerque da cidade de Elvas pela manhã, pela porta da esquina fora, com duas companhias de cavalo, que era a sua e a minha (…), e com duas peças de artilharia de 24 libras cada uma, e quando saímos (…) não havia ninguém que soubesse para onde marchávamos (…). Havia um rumor de que levávamos aquelas peças para o castelo de Vila Viçosa e que ia lá o general para as mandar pôr, (…) e quando lá chegámos já não havia quem não soubesse que íamos a Castela, mas não adonde.

No dia 7, pela manhã, as duas companhias de cavalos formaram em frente à estalagem onde o general tinha pernoitado, e daí seguiram para Mourão, onde chegaram já de noite e onde já se encontrava D. Manuel de Melo com o seu terço. Os soldados de cavalos tiveram de suportar uma noite bem fria e chuvosa de Inverno, muito mal acomodados ou ao relento, pois os alojamentos (as casas dos moradores da vila) estavam já todos ocupados pelos soldados de infantaria e as cavalariças pelas bestas de carga do terço.

Na manhã do dia 8, a força seguiu pela estrada de Vilanova de Portugal (Villanueva del Fresno), percorrendo duas léguas até se reunir ao terço de Manuel de Saldanha e à cavalaria de Olivença. Segundo Mateus Rodrigues, o total das cavalgaduras que acompanhava o pequeno exército era de 3.000, mais do que o número de tropas pagas que ali marchava – uma cauda logística bem extensa. Em Vilanova tiveram pouco tempo para descansar e comer, pois a etapa até Oliva, onde tinham de chegar antes do amanhecer, ainda era longa (mais de 4 léguas e mau caminho para a infantaria, que não podia ir formada, nem a cavalaria tampouco). A coluna demorou bastante tempo a formar; a cavalaria toda na vanguarda (1.400, segundo Mateus Rodrigues, mais cem do que D. João da Costa aponta na sua carta), a infantaria (1.500 homens) na retaguarda, e toda a carriagem e cavalgaduras no meio. Em grande silêncio prosseguiu a marcha, passando a ribeira de Alcarrache, uma légua depois de Vilanova, e continuando por azinhais. A precaução destinava-se a não serem sentidos, mas bem podíamos ir com toda a galhofa e bulha, pois o inimigo estava de aviso. Com efeito, na sua carta o Conde de Soure refere que no dia 8 tinha o inimigo uma partida sobre Mourão, a qual, vendo marchar a nossa gente, avisou a sua, com o que nos esperavam recolhidos no castelo com as armas nas mãos. Mateus Rodrigues acrescenta mais detalhes: tinha sido o tenente Marim, com 10 cavaleiros, quem tinha detectado a força portuguesa, e à rédea solta correra a avisar as gentes de Oliva. E suposto que o inimigo já tinha parte do fato metido no castelo, assim como o tenente chegou e deu aquela triste nova, enquanto tiveram tempo meteram tudo quanto puderam no castelo, e deixaram as casas só com as paredes e alguma caixa vazia, e (…) meteu-se toda a gente dentro no castelo, e não deixaram fora mais que trinta homens e a companhia de cavalos que estava na terra. O capitão, que Rodrigues reputa de grande soldado, e antigo, tinha ido comandar as companhias de Talavera (até nisto foi o nosso general bem afortunado, pois se este capitão não tivesse sido transferido e estivesse dentro do castelo, nem o poder do mundo o havia de tomar, porque era homem do diabo e muito valente, chamava-se D. Diego Quexada). Mas era agora o tenente Marim que comandava a cavalaria. Este, logo que caiu a noite, meteu a sua mulher na igreja com as demais mulheres da vila e partiu com os seus soldados para uma ermida de Nosso Senhor que fica em um outeirinho junto da mesma vila, e daí lançou sentinelas para detectar a progressão da força portuguesa.

A um quarto de légua de Oliva, André de Albuquerque fez adiantar a cavalaria, para que fossem tomadas todas as vias de entrada e saída da vila. O general da cavalaria pensava que havia duas companhias de cavalos em Oliva, mas de facto, apenas ali servia a do tenente Marim – e mesmo essa fez o oficial espanhol retirar para Jerez de los Caballeros, não sem antes alertar os soldados que estavam de guarda na trincheira de que os portugueses se aproximavam.

(continua)

Bibliografia: Livro 2º…, pgs. 41-42; MMR, pgs. 369-374; veja-se a 1ª parte desta série para as referências completas.

Imagem: Oliva. Planta publicada em La memoria ausente. Cartografia de España y Portugal en el Archivo Militar de Estocolmo. Siglos XVII y XVIII. O outeiro onde se situa a ermida referida no texto é visível no canto superior direito da planta. Ao contrário do que eu tinha aqui escrito ontem, a colina visível no canto superior direito do mapa não se trata do outeiro da ermida, mas sim de “el Moriscote”. Veja-se o comentário nº 1, do Sr. Andrés Francisco Perez Cuecas (a quem eu agradeço a colaboração), para o completo esclarecimento.

Em torno da operação da ponte de Alcântara, Março de 1648 – por Juan Antonio Caro del Corral

Como já vem sendo hábito, o estimado amigo Juan Antonio Caro del Corral achou por bem dar o seu contributo sobre o recente artigo a respeito da operação da ponte de Alcântara. Aqui fica, com os meus agradecimentos, a sua colaboração.

Marzo de 1648 fue buena época para el clamor de las armas en la frontera. Apenas comenzado dicho mes, en la comarca defendida por la plaza de Valencia de Alcántara, hubo una sangrienta disputa en la cual los castellanos perdieron 20 soldados. Para responder aquella agresión, desde Badajoz se formó un grueso de tropa que entre el 15 de marzo y el 21 de abril, corrió la campiña de Elvas y sus alrededores; incluso tuvieron tiempo de subir en ayuda de la Raya norte, dónde el ingenio de don Sancho Manuel, general de la provincia beirense, había planeado un ataque para conquistar la agreste posición de Alcántara y su famoso puente romano.


El asalto al puente de Alcántara comenzó en las primeras horas del día 24 de marzo. Al llegar a su objetivo, las tropas de don Sancho Manuel, que habían salido la noche antes desde la plaza fronteriza de Segura, se situaron al pie del denominado Cerro de las Vigas, en la orilla derecha del río Tajo, haciendo frente al acceso principal del puente. El defensor de la villa alcantarina, don Simón de Castañiza, ya tenía preparadas algunas prevenciones para intentar repeler el ataque, pues durante la noche precedente había recibido avisos de movimientos enemigos en las proximidades. El combate fue muy intenso, perdurando hasta las dos de la tarde del día citado. A lo largo de esta jornada, Castañiza envió peticiones de socorro, primero a las poblaciones más cercanas (Brozas, Garrovillas y Arroyo de la Luz), y en última instancia a Badajoz, dónde la noticia llegó en la madrugada del 25. Desde aquí el gobernador interino al mando, don Alonso Dávila, instó a las principales plazas fuertes de la provincia ayudasen en todo lo necesario para levantar el cerco sobre Alcántara; por otra parte él mismo comenzó a organizar soldada para enviarla a dicho lugar. Mientras tanto, Guislain de Bryas, Marqués de Molinghem, avanzaba desde el norte cacereño reclutando más tropas. Los primeros refuerzos llegaron la misma tarde del 24; pero fue durante los días siguientes cuando llegó la mayor parte de la ayuda solicitada por Castañiza. Además, en la frontera de Ciudad Rodrigo, su gobernador, el capitán Francisco de Rada, organizó algunas correrías para llamar la atención del enemigo, intentado que con esta táctica de desvio los sitiadores abandonasen sus propósitos de tomar Alcántara. En un principio parece que la estratagema tuvo resultado, pues Sancho Manuel retiró a sus hombres; pero fue un falso movimiento pues en la noche del 25 ordenó volver a atacar el puente. En esa madrugada los portugueses lograron ganar la mitad del mismo. Desde esta aventajada posición, a partir del día 26 los atacantes se afanaron en colocar minas para volar la fábrica sobre el río Tajo. Don Simón de Castañiza intentó frenar aquellos trabajos, pero dada la carestía de munición y hombres, espero mejor ocasión. Transcurrieron lentamente tres nuevas jornadas, hasta que al atardecer del 29, habiendo tenido noticia don Sancho Manuel de que el Marqués estaba cerca de Alcántara acompañado de mucha gente de guerra, decidió retirarse definitivamente no sin antes dar fuego a la pólvora colocada en el puente. Reventó de esta forma el primer arco, dejando inutilizado el paso. A la mañana siguiente las tropas llegadas desde Badajoz, comandadas por don Juan de Santano, comprobaron los efectos de la mina, poniéndose de inmediato a arreglar los desperfectos construyendo un levadizo de madera en el lugar que anteriormente ocupará la parte volada del puente. En tanto Molinghem, que también había llegado con su gente, se dedicó a cubrir los vados del Tajo para evitar que los portugueses reiniciaran el ataque. Paralelamente, Sancho Manuel envió a Joao de Almeida a quemar las barcas que transitaban en dicho río. A pesar de que los dos cuerpos de milicia llegaron a verse, no hubo combate.

En cambio sí se planteó escaramuza unos días antes, concretamente el 26, cuando la tropa que desde Badajoz subía en auxilio de Alcántara chocó, en las márgenes del Gévora, con otra de seiscientos caballos lusitanos, cuya misión era cortar citados socorros. Se saldó con victoria castellana; de ese modo Santano pudo continuar sin problemas su camino hasta la villa alcantarina, tal como ya hemos comentado anteriormente.

Sancho Manuel quedo bastante satisfecho de su acción, y aunque no consiguió tomar la plaza, al menos por un tiempo logró que los pueblos situados al otro lado del Tajo, como el caso de Zarza la Mayor, Ceclavín y otros, tardaran en recibir refuerzos. Gracias a ello, salvaguardada su retaguardia, en el mes de junio hizo una entrada en tierras castellanas, logrando arrasar varias aldeas del alfoz cauriense. Ese fue el final de la primera parte de la campaña militar de 1648. Mediado septiembre comenzarían de nuevo las hostilidades.

Pero eso es otra historia.

JUAN ANTONIO CARO DEL CORRAL

Imagem: Soldados do período da Guerra Civil Inglesa; reconstituição histórica em Old Sarum, Inglaterra, inícios da década de 90. Foto de J. P. Freitas.

O assalto à ponte de Alcântara, 25 e 26 de Março de 1648 (2ª parte)

Na madrugada de 26 de Março, uma quinta-feira, D. Sancho Manuel reatou a investida contra a ponte de Alcântara. Duas horas antes do amanhecer, a força portuguesa logrou aproximar-se do objectivo, enganando os sentinelas ao falar-lhes em castelhano, dizendo que eram moradores de Zarza e que vinham pedir socorro, pois que D. Sancho Manuel tinha tomado a vila. Com este estratagema, os homens do terço do mestre de campo João Lopes Barbalho investiram de surpresa a ponte, rompendo três portas, duas estacadas e dois retrincheiramentos com três petardos, e o demais a braço dos infantes, estando de guarnição nelas duzentos e trinta infantes com três capitães e um sargento-mor por cabo, que havendo acudido à defesa com muito valor, não bastou para resistir ao com que os soldados de Vossa Majestade a trataram de ganhar, sobre que pudera dizer grandes encarecimentos, que não faço, porque a poderá melhor significar a consideração de que não era possível ganhar-se tanta fortificação sem demasiado valor, o que experimentaram os castelhanos à custa de muitas mortes, em que entraram pessoas de consideração. (Carta de D. Sancho Manuel).

Os defensores que estavam de guarda retiraram precipitadamente, oferecendo pouca resistência, até ao meio da ponte, onde se juntaram à companhia do capitão D. Rodrigo de Aponte y Zúñiga; recebendo reforços, a força defensora conseguiu parar a investida dos portugueses. De parte a parte houve muitos mortos e feridos, resultantes do encarniçado combate que se travou.

Impossibilitado de avançar mais, João Lopes Barbalho tratou de garantir o terreno já conquistado. (…) [G]anhada a metade da ponte, havendo favorecido muito poder do inimigo, tratou o mestre de campo de se cobrir com trincheiras, em que era noite, por escutar as ofensas que se lhe poderiam seguir, de amanhecer sem estar reparado, maiormente que se não necessitava mais para o intento de derrubar a ponte que o espaço dela que estava ganhada. E assim mandou abrir minas, nas quais se continuaram cinco dias com o cuidado que pedia a matéria, recrescendo no escuro (…) todas as horas socorros de consideração ao inimigo, que para estorvar o intento faziam empenhos que não foi possível conservar o posto sem uma contínua bateria, de que nos resultou perda de 30 mortos e 76 feridos, que recompensou bem o efeito que resultou da mina, que foi arrebentar um arco que tinha de largo cento e cinquenta palmos, e de arco de sessenta, com o que não somente se segue arruinar a Castela uma das maiores obras de seus Reinos, impossibilitar à vila de Alcântara lucro de suas fazendas, impedir à Zarza e aos mais lugares que ficam desta parte do Tejo os socorros que lhe vinham de Badajoz, senão ainda desafogar esta Província dos danos que padecia a este respeito. (Carta de D. Sancho Manuel)

Os alcantarenses tinham recebido reforços de várias partes e de toda a nobreza de Brozas e de Cáceres, mas optaram por não os empregar em operações de contra-ataque devido à duvidosa qualidade dos mesmos. Assim, assistiram impotentes ao derrube do arco da ponte, se bem que um manuscrito coevo, transcrito por Gervasio Velo y Nieto, refere que El daño que el rebelde hizo en el puente no fué tanto como se pensó, porque todo el arco que juzgó volar quedó firme en las claves y solamente de los lados padeció alguna ruina. No ha impedido el paso, antes hoy dice el ingeniero mayor del ejército, que aquí se halla, tiene la cortadura linda disposición para hacerse un puente levadizo, con que quedará más asegurada la defensa de esta plaza y del puente. (Velo y Nieto, pg. 78)

No mesmo manuscrito, elaborado pouco depois do combate, pode ler-se que o número de baixas dos portugueses era desconhecido, e que entre os defensores houve netre 12 e 15 mortos e mais de 300 feridos e queimados, entre eles um sobrinho do mestre de campo D. Simón de Castañiza, caído na ocasião do rebentamento do primeiro petardo português.

Já D. Sancho Manuel termina a sua carta com as considerações finais e as recomendações  dos que mais se tinham distinguido em combate:

E no último dia em que havíamos de dar fogo às minas acabou o inimigo de juntar todos seus socorros, com que fez muito maior número de cavalaria e infantaria do com que eu me achava. E porque me não perturbassem, ordenei ao comissário geral que com trezentos cavalos e cem infantes fosse a impedir-lhe a pasagem do rio Alagão e procurasse queimar-lhe as barcas, o que ele fez com grande bizarria, ocupando o vau e mandando ao ajudante da cavalaria João de Almeida de Loureiro que fosse ao porto das barcas a queimá-las, o que obrou com mui bom sucesso, com o que sem sobressaltos consegui o que pretendia. Estimara ser instrumento para que Vossa Majestade lograra outras maiores facções, se bem esta se deve avaliar por uma das maiores que se tem conseguido depois da feliz aclamação de Vossa Majestade. Nesta ocasião se houve o mestre de campo João Lopes Barbalho com a disposição e valor que as armas de Vossa Majestade têm experimentado de seu talento há muitos anos, assim nas guerras do Brasil como deste Reino, e foi-lhe bom companheiro o capitão António Soares da Costa, ajudante de tenente de mestre de campo general, que foi o primeiro que entrou às portas petardeadas; o capitão Pedro Craveiro de Campos, que nesta ocasião ocupou a vanguarda até ser ferido nela, na qual sucedendo os capitães Filipe do Vale Caldeira e Simão de Oliveira da Gama; que com muito valor pelejaram o ajudante Álvaro Saraiva, que governando uma companhia fez o mesmo; os ajudantes Manuel Machado Caldeira e Domingos da Silveira acudiram com particular satisfação às obrigações de seus cargos, e geralmente o fizeram todos, de maneira que devem ser admitidos em título dos melhores vassalos que logra a Coroa de Vossa Majestade, cuja Católica e Real Pessoa guarde Deus largos e felizes anos, como a Cristandade há mister. Idanha.

Em conclusão, o ambicioso plano de D. Sancho Manuel de Vilhena não pudera concretizar-se na tomada de Alcântara; todavia, restava ao cabo de guerra português demonstrar o seu zelo e  exaltar, do meio-sucesso obtido, um episódio de reputação para as armas régias, como aliás fazia frequentemente. As poucas linhas que dedica à operação o Conde de Ericeira (meia dúzia, literalmente, na edição de 1751, facsimile acessível online a partir de Google ebooks) são demonstrativas do pouco efeito prático que o rebentamento parcial da ponte teve, apesar do que D. Sancho Manuel sugere na sua carta. Mas para a pequena guerra de fronteira, mesmo sem pesar no quadro da estratégia global, foi mais uma ocasião de experiência de combate para as forças envolvidas.

Fontes e bibliografia:

ANTT, Conselho de Guerra, Consultas, 1648, maço 8-A, carta de D. Sancho Manuel, anexa à consulta de 25 de Abril de 1648.

ERICEIRA, Conde de – História de Portugal Restaurado, Parte I, Livro X, edição de 1751, pg. 268; obra parcialmente disponível on-line.

VELO Y NIETO, Gervasio – Escaramuzas en la frontera cacereña, con ocasión de las guerras por la independencia de Portugal, Madrid, s.n., 1952.

Imagem: “Trabalhos de fogo”, pormenor de um quadro de 1645, de Joseph Furttenbach, Germanisches Nationalmuseum. Representa um engenheiro de fogos, armado de capacete, coura e com uma rodela para defesa pessoal, bem como o instrumento com que os artilheiros davam fogo à peça, com dois morrões acesos – e que era usado também para os petardos.