A defesa da costa portuguesa em 1644 (8) – Fortaleza de São Sebastião da Caparica

O historial da Fortaleza de São Sebastião da Caparica (também conhecida por Torre de São Sebastião ou Torre Velha) pode ser encontrado num artigo bastante interessante e fiável da Wikipédia, pelo que dispenso acrescentar mais pormenores. O relatório de 1644 referia o seguinte:

Fortaleza de São Sebastião de Caparica

Há nesta fortaleza seis peças de artilharia, a saber: dois canhões de 44 libras; um pedreiro acamarado de 30 libras de pedra; uma colubrina de 14 libras; um meio-canhão de 24 e um falconete de duas, em que se ensinam os artilheiros. Necessita de duas colubrinas de 16 até 18 libras.

Estas peças estão todas encarretadas. Necessitam de uma carreta cada uma de sobresselente.

Balas de artilharia

Tem a colubrina 163 balas. Necessita de 200 mais.

O pedreiro, 120. Necessita de outras 200 mais.

Os dois canhões, 400. Necessitam de 200 mais.

O meio-canhão, 200. Necessita de outras 200.

O meio-falconete [sic], 100. Necessita de 200 mais.

Há mais nesta fortaleza 100 balas de cadeia, cinquenta de 24 libras e cinquenta de 14.

Armas

Há nesta fortaleza cinquenta mosquetes. Necessita de outros 50 mosquetes.

20 arcabuzes, 16 piques e 9 chuços.

Para os mosquetes há três quintais e meio de balas, para os arcabuzes 4 quintais. Necessita de outra tanta quantidade.

Pólvora

Há 20 quintais de pólvora em 18 barris. Necessita de outros 20 quintais dela.

Mantimentos

Há nesta fortaleza 40 quintais de biscoito.

10 de arroz.

Quatro pipas e vinho.

Seis almudes de azeite.

Duas arrobas de açúcar.

Seis alqueires de lentilhas.

E seis de ameixas.

Havia mais nesta fortaleza 60 arrobas de toucinho, dois moios de feijões, um de chicharros e meio de favas, que por terem recebido algum dano, e se não perderem e corromperem de todo, se deram por ordem do Conselho da Fazenda para a galé, e agora se anda requerendo nele se lhe restituam.

E por estes mantimentos, para cinquenta pessoas de ração que há na dita fortaleza, não bastarem mais que para dois meses, convirá que se metam nela mantimentos para quatro.

Necessita esta fortaleza de uma cisterna dentro, porque não tem nenhuma água.

E que se lhe acabe a ponte que está começada, pois tem a madeira para isso já dentro.

Fonte: “Relação da gente paga, artelharia armas munições carretas mantimentos e mais cousas que ha nas fortalezas da barra desta cidade e nas de Setuual, e do que necessita cada huã dellas”, anexa à consulta do Conselho de Guerra de 12 de Agosto de 1644 (ANTT, CG, Consultas, 1644, maço 4-B).

Imagem: A Fortaleza de São Sebastião da Caparica (ou o que resta dela) na actualidade. Foi nesta “Torre Velha” que esteve preso D. Francisco Manuel de Melo. Foto de Pateb, reproduzida de acordo com a licença em vigor, a partir daqui.

A defesa da costa portuguesa em 1644 (7) – Fortaleza de São Filipe de Setúbal

A Fortaleza de São Filipe de Setúbal – também conhecida por Forte de São Filipe e por Castelo de São Filipe (esta última designação era frequente no período da Guerra da Restauração) – foi mandada edificar por Filipe II de Espanha e I de Portugal, e destinava-se a controlar a entrada da barra do rio Sado e o acesso à então vila de Setúbal. As obras iniciaram-se em 1582, tendo ficado concluídas em 1600. Entre 1649 e 1655 (portanto, já em plena Guerra da Restauração, mas em período posterior à descrição que aqui se transcreve), a fortaleza recebeu melhoramentos, de modo a que a artilharia pudesse cobrir com maior eficácia o porto de Setúbal.

Fortaleza de São Filipe de Setúbal

Há nesta fortaleza nove peças de artilharia de diferentes calibres, a saber: quatro canhões, duas colubrinas, um pedreiro e duas peças mais. Necessita de nove peças mais, de artilharia miúda.

E de alçaprimas e lanadas.

E de cartuchos, por ter poucos.

E de se lagearem duas praças, para correr melhor a artilharia.

Dos canhões, um é encampanado, e o outro rendido pelos munhões.

Esta artilharia está encavalgada. Necessita de reparos de sobresselente.

Há algumas rodas por ferrar, e havendo coronhas e eixos se poderão fazer quatro ou cinco reparos.

Balas de artilharia há em abundância para tirarem 20 peças de artilharia.

Mosquetes biscaínhos, noventa e tantos.

Arcabuzes, cento e quarenta e tantos.

Trezentos piques.

Morrão em abundância.

De pólvora, sessenta barris, que parecem ser de duas arrobas.

Soldados, oitenta, pouco mais ou menos, que é a lotação desta fortaleza.

Nove artilheiros. Necessita de mais, havendo mais artilharia.

Tem bastantes ferramentas.

É necessário argamassar toda esta praça, e retelhar os quartéis dos soldados, porque chove em tudo.

Há mister duas estacadas, cordas e cabos e pedras pelas muralhas, por ser a melhor defesa que há em castelos roqueiros.

Bastimentos [mantimentos] tem nenhuns.

E diz António de Barros Cardoso, governador desta fortaleza, que em mão de Brás Aranha há cento e oitenta mil réis procedidos dos bastimentos passados, e que tem por arrecadar coisa de cinquenta mil réis dos soldos que devem os soldados, para arrecadação dos quais há mister tempo. E que o dinheiro que está feito bastará para azeite, vinho e legumes, e com Sua Majestade dar biscoito ficará esta praça abastecida.

E que tem esta fortaleza quarenta e tantos mil réis para as obras em mão do tenente Sanches.

Fonte: Veja-se a 1ª parte desta série.

Imagem: A Fortaleza de São Filipe numa planta de cerca de 1700. Biblioteca Nacional, Iconografia, E3962P.

A defesa da costa portuguesa em 1644 (6) – Fortaleza de Cascais

Fortaleza de Cascais

Há nesta fortaleza sete peças de artilharia de diferentes calibres com seus encavalgamentos novos e o mais tocante a elas. Necessita de mais artilharia e de pólvora, e morrão, porque há muito pouco e mau. E também de lanadas e tacos para a artilharia.

Pelouros de canhão, 450.

De colubrina, 170.

De meia-colubrina, 130.

Pelouros de pedra de pedreiro, 60.

Trezentos e quarenta arcabuzes com 20 frascos de pouco serviço. Necessita de dez frascos de arcabuzes.

26 mosquetes com 20 frascos, e os seis desmanchados. Necessita de mais 29 com seus frascos.

Dez quintais de pelouros de chumbo de mosquete e arcabuz, onde entram quatro pastas de chumbo.

Dezanove piques velhos, a metade sem ferro e carunchoso. Necessita de cinquenta chuços.

Há nesta fortaleza vinte e três pipas de vinho.

50 quintais de biscoito.

30 de toucinho.

23 de arroz.

Quatro moios de legumes sorteados.

Um quarto com seis alqueires de lentilhas.

Outro com duas arrobas de açúcar.

Outro com seis cântaros de azeite.

Outro de seis almudes cheio de ameixas.

Necessita também de um sino para a sentinela e de um cabo para guindar a artilharia.

Fonte: Veja-se a 1ª parte desta série.

Imagem: Fortaleza de Cascais na actualidade. Foto de Carlos Luís M. C. da Cruz, reproduzida de acordo com a licença em vigor, a partir daqui.

A defesa da costa portuguesa em 1644 (3) – Torre da Cabeça Seca (Forte de São Lourenço da Cabeça Seca, ou Bugio)

Conhecida durante a Guerra da Restauração como Torre da Cabeça Seca, esta fortificação é actualmente designada por Forte de São Lourenço da Cabeça Seca, ou simplesmente Forte do Bugio.

Torre da Cabeça Seca

Tem esta força sete peças de artilharia de diferentes calibres.

662 balas de artilharia de todo o calibre, em que entram 32 balas de pedra.

9 barris de pólvora.

4 caixões de balas de mosquete e arcabuz.

5 colheres de todo calibre.

3 sacatrapos.

24 mosquetes com doze frascos.

Um arcabuz.

Quatro pés de cabra.

Mantimentos

Doze quintais de biscoito.

4 de arroz.

3 de toucinho.

40 alqueires de grãos.

Duas pipas de vinho.

Necessita de 25 soldados, [e] dez artilheiros com um bom condestável.

De três colubrinas e quatro canhões com suas talhas e bargeiros para estarem na praça baixa, junto ao mar.

E de dois pedreiros [peça de artilharia] mais com a mesma prevenção.

Necessita também de hastes, soquetes, cocharras e lanadas para toda a artilharia, e de reparos.

E de 300 balas para a artilharia que for de novo, e de cem palanquetas.

E de seis quintais de morrão.

40 varas de setelarã para cartuchos.

E acudir-se com brevidade ao parapeito da plataforma de cima, que levou o mar, antes que arruine de todo.

Imagem: O Forte do Bugio, com o seu farol, na actualidade. Foto de Jorge P. Freitas.

A defesa da costa portuguesa em 1644 (2) – Fortaleza de São Gião (São Julião da Barra)

Continuando a transcrição iniciada aqui, passemos à Fortaleza de São Gião, hoje designada por São Julião da Barra.

Fortaleza de São Gião

Há nesta fortaleza [espaço em branco] peças de artilharia de bronze de diferentes calibres.

344 quintais e 22 arráteis de pólvora.

813 mosquetes de toda a sorte, velhos e novos; oito esmerilhões [espingarda antiga de cano comprido] de ferro.

128 arcabuzes velhos, e os mais deles sem caixas.

209 frascos de mosquetes velhos e novos.

193 bandolas de mosquetes.

235 forquilhas.

705 piques.

48 dardos.

31 quintais de morrão.

24 colheres de todo o calibre.

45 soquetes e lanadas já velhas.

Duas cabrilhas de encavalgar a artilharia.

12 pés de cabra.

4.608 balas de artilharia de toda a sorte.

Um monte de balas de pedra, e outro de ferro, miúdas, que não servem na artilharia que há.

30 quintais de balas de mosquete e arcabuz.

41 pães de chumbo.

140 cartuchos de pano de toda a sorte.

Mantimentos

200 quintais de biscoito.

Duas pipas de vinho.

Oito moios de grãos, favas, e chicharros.

12 quintais de bacalhau.

80 quintais de toucinho.

60 barris de arroz velho, e muito velho.

5 moios de feijões brancos velhos, 35 de feijões fradinhos, moio e meio de chicharros velhos.

4 pipas de vinagre.

Mantimentos de sobresselente

Trinta pipas de vinho, 4 de azeite e seis de vinagre.

Trezentos quintais de biscoito, de mais dos mantimentos que há na dita fortaleza, os quais convém se renovem, principalmente o toucinho, arroz e bacalhau.

Há nesta fortaleza 180 soldados e necessita de mais gente para guarnecer os três fortes da Cabeça Seca, Maias e Paço de Arcos, e levantar-se mais para este é preciso uma companhia, como Sua Majestade tem mandado.

Necessita também de 4 colubrinas de alcance, e seis pedreiros para as casamatas.

De 36 reparos.

50 peles para lanadas.

1.000 tachas para as pregar.

50 soquetes de todo o calibre.

100 espeques.

50 sotroços de ferro, e 50 arandelas.

200 varas de setelarã [tecido grosseiro] para cartuchos.

Oito barris de alcatrão e 6 quintais de breu.

200 granadas e 200 alcancias.

Dois quintais de enxofre.

4 pães de cevo e cabos velhos em quantidade para tacos.

500 balas de 24 libras e 200 de cinco.

250 quintais de pólvora e 200 palanquetas.

80 quintais de morrão para sobresselente.

50 tabulões.

400 sacos, ou pano para eles, para servirem de parapeitos.

400 carradas de lenha para esta fortaleza de São Gião e Cabeça Seca, e um barco de sal.

Fonte: Ver aqui.

Imagens: Em cima, planta da fortaleza de São Gião, c. de 1655, publicada em La memoria ausente. Cartografia de España y Portugal en el Archivo Militar de Estocolmo. Siglos XVII y XVIII. Em baixo, a fortaleza de São Julião, na actualidade, vista de norte para sul. Foto de Jorge P. Freitas.

Artilharia (6) – Artilharia da Praça de Elvas em 1663

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Descrição pormenorizada do número de peças existentes, em 31 de Dezembro de 1663, na praça de Elvas. Em primeiro lugar, é referido o local, em segundo, o número e tipo de peça, e em terceiro, o calibre em libras (lb). Remeto os leitores para os artigos já publicados sobre a artilharia, de modo a compreender as designações das peças e respectivos calibres.

Castelo: 1 meio canhão de 24 lb; Baluarte de S. João: 1 meio canhão de 24 lb, 1 meia colubrina de 16 lb, 1 meio sacre de 4 lb; Baluarte de S. Vicente: 1 meio canhão de 12 lb, 1 sacre de 7 lb; Baluarte de Stª Maria: 1 sacre de 7 lb; Quartina de S. Domingos: 1 quarto de canhão de 10 lb; Baluarte de S. Pedro: 1 meio canhão de 24 lb, 1 sacre de 7 lb, 1 pedreiro de 10 lb; Quartina da Porta de Olivença: 1 peça de Suécia de 6 lb; Baluarte da Cruz: 2 meios canhões de 24 lb; Muralha junto à cisterna: 1 falcão de 2 lb; Porta da Esquina: 4 meios canhões de 24 lb, 1 pedreiro de 8 lb; Muralha de trás do trem: 1 peça de Suécia de 9 lb; Baluarte do Príncipe: 1 falcão de 2 lb; Forte de Stª Luzia: 2 meios canhões de 24 lb, 2 terços de canhão de 16 lb; 3 peças de Suécia de 9 lb; 1 quarto de canhão de 10 lb, 1 sacre de 7 lb.

Peças montadas no trem: 1 terço de canhão de 16 lb, 3 meias colubrinas de 12 lb, 1 quarto de canhão de 10 lb, 3 peças de cavalaria de 4 lb, 1 falcão de 2 lb, 1 peça de ferro de 4 lb, 1 falcão da escola de 1 lb.

TOTAL: 42 peças.

Fonte: ANTT, Conselho de Guerra, Consultas, 1664, maço 24, relação anexa à consulta de 30 de Janeiro de 1664, reportada a 31 de Dezembro de 1663.

Imagem: Mapa do cerco de Elvas (Outubro 1658-Janeiro 1659), in La memoria ausente. Cartografia de España y Portugal en el Archivo Militar de Estocolmo. Siglos XVII y XVIII.