O episódio da «Passagem de Alcaraviça» – 2ª parte; artigo do Sr. Santos Manoel

Conclui-se hoje o interessante artigo artigo do Sr. Santos Manoel, cuja publicação foi iniciada no último post. Renovo aqui o meus agradecimentos pela permissão concedida pelo Autor para a publicação desta peça de investigação.

Os documentos

Como já foi dito atrás, as notícias de Cádis somadas à movimentação e entradas de Legañes, das quais a de Alcaraviça foi de particular gravidade, fizeram Rei e Conselho pensarem no pior, e o pior era a invasão estar iminente. D João decreta que a Rainha ficaria em Lisboa e passaria a despachar na sua ausência, enquanto ele passaria a Aldeia Galega do Ribatejo (o antigo nome do Montijo), uma posição bem estudada, suficientemente próxima de Lisboa mas dando-lhe campo aberto para começar de imediato a movimentar-se no interior do país caso a invasão começasse.

O trajecto de D João IV durante as operações nesse último trimestre de 1645, tendo por base os locais de emissão das suas cartas e Decretos, foi aproximadamente o seguinte:

– em 20 de Outubro ainda estava em Lisboa;

– a 27 atravessa o Tejo e parte para Aldeia Galega onde permanece pelo menos até 10 de Novembro;

– a 19 já escreve de Montemor-o-novo onde permanece pelo menos até 7 de Dezembro;

– em 11 já está em Setúbal inspeccionando arranjos de defesa;

– em 30 estava de regresso a Lisboa.

Quando passa o Tejo a 27 de Outubro, o episódio de Alcaraviça ainda não se teria dado, nem saberia nada das operações de Legañes em Olivença e da tomada da ponte uma vez que estavam a dar-se precisamente nesse dia. Nessa mesma data, quando escreve a Martim Afonso de Melo fá-lo como um alerta porque, segundo as informações de que podia dispor até esse dia, o inimigo depois de ter chegado a Badajoz inesperadamente parou, não avançou mais. Esse facto continha para D João, e na sua própria expressão, ‘algum mistério’, parecia ser um indício sério de que Legañes apenas fazia um compasso de espera para se retemperar enquanto a armada não se deslocasse. Estaria em marcha a mais ou menos esperada invasão do reino, qualquer coisa parecida com o que se deu em 1580: por terra, pelo Alentejo até Lisboa; por mar, a armada que estava em Puerto Santa Maria e Cádis – cujas manobras e exercícios já lhe tinham sido notificadas, como prova uma carta sua à vereação da Câmara de Lisboa de três dias depois, 30 de Outubro – avançando até à barra do Tejo. Aldeia Galega era um bom local para se aquartelar em caso de uma súbita ocupação naval de Lisboa, contra o quê pouco se podia fazer. A resistência, a confirmar-se o ataque, dar-se-ia no Alentejo.

Avaliando o Rei este estado de coisas, a 4 de Novembro, ainda em Aldeia Galega, escreve a Castelo Melhor aparentemente apenas por ter sido informado de um caso de má liderança de um capitão de uma praça de primeira linha. Pede-lhe que apure responsabilidades e aja em conformidade em relação ao que se passou perto de Vila Viçosa no dia 31 de Outubro, no que parece ter sido um recontro onde a absoluta falta de comando fez com que o capitão mandasse infantaria sem ao menos um cabo, pelo meio das vinhas, contra cavaleiros espanhóis que exploravam os arrabaldes em ‘Fradaga’, ‘Pexinhos’ e a N. Sª da Luz. Essa operação pífia causou a morte de 15 soldados, a captura de mais alguns e a perda de gado. Mas pior que isso, revelou que havia movimentações bem no interior do nosso território, que havia falhas graves de comandantes de praças onde essas falhas não podia ocorrer, e que o facto provocou um sentimento de insegurança em Estremoz, praça que sabia que estava no caminho do invasor para a capital. D João queria simultaneamente sondar o que realmente se estaria a passar na fronteira, que Castelo Melhor fizesse alguma coisa em relação aos comandos e que isso tivesse um efeito benéfico no moral de Estremoz. Nessa carta D João dá o primeiro sinal de foi informado de Alcaraviça: fala de outra desordem de que também foi informado.

A outra desordem é seguramente o desastre da passagem de Alcaraviça, muito pior e mais grave, mas difícil para nós de saber se foi anterior ou posterior ao de Vila Viçosa. Por isso situarmo-lo vagamente na semana entre 27 de Outubro, dia do ataque à ponte e forte de Olivença, e cerca de dois a três dias antes de D João ter escrito a carta de dia 4 de Novembro, tempo mínimo para que a notícia chegasse a Aldeia Galega.

No mesmo dia 4, quando pelos vistos já sabendo da dimensão do que se passou nas Vendas de Alcaraviça, faz Conselho de Estado onde decide e envia ordem a 8 para Pedro Vieira da Silva mandar duas pessoas de qualidade às localidades de onde eram os soldados. A missão era apoiar com ânimo e consolo, mas também com dinheiro as famílias dos que faleceram e foram capturados, bem como com cirurgiões os feridos que necessitassem de cuidados. Ficamos assim a saber que a tropa da Ordenança da Comarca de Évora destroçada pelos espanhóis, contava com um bom número de filhos de Évora, mas também de outra localidade importante a seguir a Estremoz no caminho para Lisboa: da Vila de Arraiolos. Ficamos a saber também que se houve feridos a precisar ser tratados, houve quem escapasse ao massacre. Um deles não foi infelizmente Francisco Gomes de Araújo. Filho de João Gomes de Araújo e de Catarina Jorge de Sousa (ela de Alcácer do Sal), Francisco era um alferes de Évora que morreu no comando de uma companhia ‘na rota de Alcaraviça’, abraçado à bandeira nacional. O alferes e o episódio da sua morte são citados nos ‘Sanches de Vila Viçosa’, que se deu sem margem para dúvidas no episódio de que trata nesta memória.

No dia 10 de Novembro, dois dias após a carta que ordena a transmissão dos sentimentos reais e as ajudas materiais às vítimas e famílias, D João escreve aos juízes, procuradores e vereadores da Câmara de Arraiolos. Alude a uma carta que estes lhe tinham escrito no dia 4 falando do sofrimento que por ali corria pelo que já sabiam ter acontecido à sua gente em Alcaraviça. Esta carta traz um elemento de confirmação dos relatos históricos: o corpo de infantaria era de facto um reforço enviado de Estremoz para Elvas. Assim, acentua-se a impressão de que o corpo de infantaria seguia pela estrada em rota batida e pode ter sido simplesmente emboscado pelo corpo a cavalo espanhol, não tendo tido tempo de se defender ou fortificar-se numa tapada como rezam os cronistas.

Quase um mês depois, a 7 de Dezembro, já em Montemor-o-novo, feitas as diligências junto das famílias e recebendo D João o retorno de informações que entretanto foram colhidas, escreve a Castelo Melhor enviando-lhe petições de familiares dos cativos na refrega e pede-lhe que tente obter as suas libertações pelos meios mais convenientes. As peticionárias que solicitavam prisioneiros espanhóis para troca e eram: D Juliana de Salgado, mulher do Capitão Manuel da Cunha, Antónia de Azevedo, mulher do Alferes Sebastião Rodrigues Francisco e Paula Rodrigues, de Domingos Fernandes, trabalhador. A referência ao estatuto social do preso seria relevante para a escolha dos prisioneiros a trocar.

A 11, D João já está em Setúbal e a 30 de Dezembro de 1645 em Lisboa. Não se encontram mais referências ao caso até 11 de Janeiro de 46. Ignora-se que fim teve a diligência para a troca de presos, mas nessa última data são remetidos ao Dr. João Pinheiro uma carta de Castelo Melhor e outra do Auditor Geral do Exército a acompanhar o dossier da investigação que se fez ao procedimento do Sargento-mor João da Fonseca Barreto ‘quando a gente de Évora e Arraiolos foi morta e aprisionada em Alcaraviça’. O Rei pede que lhe seja enviado o processo para que se formule (ou não, presumo) uma acusação e que se leve a Conselho para se sentenciar.

Ignora-se o teor da relação apresentada, o que se sentenciou sobre o caso e o que se passou a seguir relacionado com ele. Ignora-se mesmo de João da Fonseca Barreto pereceu com os seus ou se sobreviveu. A documentação tem os seus limites. O investigador amador também.

Conclusão

Este episódio de guerra, triste sem dúvida pelas vítimas a lamentar como em todos os episódios de qualquer guerra, se à partida mais utilidade não teria senão permitir que D João regozijasse per opositum com a notícia do feito dos 16 da Atalaia da Terrinha, serviu pelo menos para que o Rei mandasse Joane Mendes de Vasconcelos como Mestre de Campo General para Estremoz, onde segundo os documentos do Conselho chegou de facto a 14 de Novembro. As suas atribuições já previamente definidas tiveram uma adição explícita: receber, treinar e exercitar as levas novas de tropas e conduzi-las a Elvas em segurança. Não se podia repetir o que, certa ou erradamente, ficou na memória da época como um exemplo evitável e absolutamente dispensável de imprudência suicida, explicada pelos dois cronistas por outro problema crónico a somar à escassez de abastecimentos: a inexperiência ou falta de preparação dos comandos.

Imagem: Infantaria do período da Guerra dos 30 Anos (1618-1648). Gravura de Jacques Callot.

Palcos de operações (1) – Ponte de Nossa Senhora da Ajuda ou de Olivença

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Ponte fortificada sobre o rio Guadiana, construída em 1510. Tinha 380 metros de comprimento e 5,5 metros de largura, com dezanove arcos e um torreão de três pisos a meio. Durante a Guerra da Restauração, a ponte de Nossa Senhora da Ajuda era conhecida simplesmente por ponte de Olivença, pois ligava esta vila à cidade de Elvas. A ponte foi definitivamente destruída pelo exército espanhol no século XVIII, durante a Guerra da Sucessão de Espanha, permanecendo até hoje no estado documentado pelas fotografias.

Facto que parece ter caído no esquecimento geral, uma parte da ponte já tinha sido derrubada durante a Guerra da Restauração, inutilizando deste modo e até ao final do conflito a via de comunicação mais curta entre a principal praça de guerra do Alentejo e a vila além-Guadiana. Nas suas memórias, o ex-soldado de cavalaria Mateus Rodrigues [Matheus Roiz] dedica um capítulo à operação da destruição da ponte, desenrolada em Setembro de 1645 (embora a data referida no manuscrito esteja errada – 1646):

“Como sempre se temeu que o inimigo viesse derrubar-nos a ponte de Olivença, que era muito necessária (…), ordenaram mandar fazer um forte em um outeiro que ficava da outra banda da ponte, donde o inimigo podia bater a ponte com a artilharia. (…) Em breves dias foi feito, mas logo disseram que não era seguro, em razão que era a área onde o formaram, e não ficava a muralha firme. (…) Mas estando feito, meteram-lhe 100 homens de guarnição, com um capitão muito valente. (…) Tanto que o inimigo viu o forte feito, logo (…) se determinou a vir arrasá-lo. (…) E preparado saiu à campanha com seu poder, que constou de 5.000 infantes e dois mil cavalos. (…)

A primeira coisa com que o inimigo investiu foi com o forte e logo lhe pôs bateria com artilharia. (…) E assim pelo decurso de nove ou dez dias lhe desfez a muralha, que podiam entrar carros e carretas dentro nele, e logo que o viu bem aberto (…) tratou então de o escalar. (…) O capitão que lá estava nunca se quis entregar, senão pelejar [até ao fim], que era um demónio, (…) era o Canastreiro de alcunha. De modo que o inimigo avançou duas e três vezes, matando-lhe os nossos de dentro muita gente. Mas como o capitão Canastreiro viu que não tinha já nenhum remédio (…), pediu então quartel. (…)

Assim como o inimigo teve feita a diligência do forte, tratou logo de pôr bateria à ponte, que do mesmo outeiro donde nos pôs bateria no forte, desse mesmo batia a ponte. (…) Mas não que a bateria derrubasse a ponte ou lhe fizesse dano, mas tinha [a ponte] uma mui grande torre no meio, que sempre tinha uma companhia de infantaria de guarnição, com um capitão natural de Olivença, por nome João Domingos, que bem mal se houve na tal ocasião, que se entregou antes que se visse em nenhum aperto. Finalmente o inimigo deu logo com a torre no chão, que era substância da ponte, porque pelejavam de umas varandas que a torre tinha em cima 50 homens, e como lhes faltou a torre, ficaram a peito descoberto e não tinham nenhum remédio. Como o capitão viu o pouco remédio que tinha, mandou logo aviso ao inimigo que se queria entregar (…). E assim como [o inimigo] esteve de posse [da ponte] tratou logo de a derrubar, para que nunca mais passassem por ela, e começando a querer derrubá-la com artilharia não lhe fazia nada, porque era tudo obra de cantaria mui forte (…). Contudo usou então de outro artifício mais cruel, que eram de minas, e começou a fazê-las em os pilares dos arcos, e como foram feitas estas coisas com barris de pólvora, e dando-lhe fogo deu com dois arcos inteiros e parte de outro na água. De maneira que ficou que não se podia passar de nenhum modo, nem nunca mais se consertou, nem se consertará, porque é necessário um poder [militar] grande para assistir [ou seja, proteger] ao conserto, que não se faz nem em 4 meses, por bem que trabalhem. E não há dúvida que fez muito grande falta assim a Olivença como a Elvas, que era uma grande conveniência e mui bizarra ponte, que tinha 400 ameias de cada banda, com aquela grande torre (…). E ficou o caminho daí por diante sempre por Juromenha, que se trazem duas léguas mais, que são de Elvas a Juromenha por Olivença (…) cinco léguas.

Mateus Rodrigues tinha razão: a ponte só seria reparada depois da Guerra da Restauração ter terminado. Mas em 1709 seria de novo arrasada e de um modo mais extenso do que o testemunhado pelo memorialista. E até aos nossos dias assim permanece.

Fotos do autor.

Bibliografia: Manuscrito de Matheus Roiz, transcrição do códice 3062 [Campanha do Alentejo (1641-1654)] da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, Lisboa, Arquivo Histórico Militar, 1952 (1ª divisão, 2ª secção, caixa 3, nº 2), pgs. 130-133. O excerto foi adaptado para português corrente.