A captura do tenente-general Gregorio de Ibarra nos campos de Badajoz, 25 de Maio de 1652 (2ª parte)

Depois de tudo combinado, o capitão João da Silva de Sousa e o soldado regressaram a Campo Maior. O capitão já levava ordens para mandar as partidas de cavalaria às imediações de Badajoz, pelo que se limitou a transmitir as decisões tomadas em Elvas ao governador da praça, Rui Lourenço de Távora, o qual também ficou agradado com a perspectiva da trama que se preparava.

Daí a uns dias foi enviada uma pequena força de 7 cavalos, com um cabo experiente a comandá-la, o qual estava inteirado de que iriam ser atacados pelo inimigo e que deveria deixar-se capturar. Mas nada devia ser contado aos soldados, para que o plano não fosse frustrado.

O soldado “falso traidor” tinha avisado na noite anterior o general de Badajoz acerca daquela força, de tal forma que recebeu mais algumas patacas. E no dia seguinte, no local previsto, saíram 50 cavaleiros espanhóis ao caminho do reduzido grupo português. Conforme fora instruído, o cabo deu ordem de retirada, mas depois mudou de opinião e decidiu empenhar-se em combate com o inimigo – uma resistência simbólica antes de se render, para que os soldados que levava de nada se apercebessem. Muito contente ficou D. Álvaro de Viveros, pois apesar de serem apenas sete os cativos, era uma maneira de ir diminuindo a cavalaria de Campo Maior. À época estavam suspensas as trocas de prisioneiros, de modo que os soldados tinham pela frente uma estadia nas cadeias mais prolongada do que era costume. Apesar de Mateus Rodrigues afirmar que a suspensão das trocas se devia ao facto dos espanhóis terem capturado muita gente do terço pago da Beira, incluindo o mestre de campo, e não estarem interessados na permuta de prisioneiros, o facto é que havia também muitos presos inimigos, incluindo oficiais, nas enxovias portuguesas.

Alguns dias mais tarde, foi a vez de um grupo de 13 cavaleiros ter o mesmo destino do anterior. De novo o soldado avisara o general de Badajoz, aumentando assim a confiança que nele depositavam. A trama ia-se tecendo…

D. João da Costa deu ordens para acicatar ainda mais o inimigo. Desta feita, o soldado português foi instruído para avisar Badajoz que no dia seguinte iria sair uma partida mais numerosa de Campo Maior: 60 cavalos. Eram comandados por um oficial experiente e corajoso, o tenente Manuel Vaz, da companhia de João da Silva de Sousa (anos mais tarde fugiria para Espanha com a sua família e criados, por ter sido acusado de judaísmo pela Inquisição).

D. Álvaro de Viveros, depois de recompensar o soldado português com mais um punhado de patacas, preparou a saída de 200 cavalos de Badajoz. E de novo julgaram colher de surpresa a partida portuguesa. No entanto, Manuel Vaz tinha ordens para não se deixar capturar. A fuga foi de imediato encetada, mal se avistaram as tropas inimigas. Apesar de lograda a captura de mais cavalos e homens, o cabo de guerra espanhol pôde comprovar a informação do suposto traidor português. A parada para o capítulo final estava lançada.

(continua)

Fonte: MMR, pgs. 287-290.

Imagem: “Cavaleiros fazendo alto junto de um acampamento de ciganos”, de Philips Wouwerman.

A captura do tenente-general Gregorio de Ibarra nos campos de Badajoz, 25 de Maio de 1652 (1ª parte)

No último post foi referido o nome do então comissário geral da cavalaria espanhola Gregorio de Ibarra (1645). Num episódio descrito por Mateus Rodrigues nas suas memórias, voltamos a encontrar o oficial sete anos mais tarde, agora já tenente-general da cavalaria, numa acção não muito feliz para o próprio.

Conforme refere Mateus Rodrigues, era então (1652) general da cavalaria na cidade de Badajoz D. Álvaro de Viveros. À sua presença foi levado, certo dia, um soldado português capturado – alguns prisioneiros tomados como “línguas” eram interrogados na presença de oficiais superiores, sendo isto habitual em qualquer dos lados em confronto. O aliciamento para servir de espia era também usual, e foi isso mesmo que foi proposto ao soldado de infantaria de Campo Maior, pois este demonstrava ser pessoa resoluta e determinada. D. Álvaro de Viveros perguntou-lhe se queria ser rico; bastaria para isso que o avisasse quando saísse alguma partida de cavalaria de Campo Maior, pois a cavalaria desta vila não cessava de fazer incursões ao outro lado da fronteira e tinha elementos que conheciam muito bem todas as zonas por onde se faziam as entradas (não é de estranhar que isso acontecesse nessa época, dado que a cavalaria de Campo Maior era comandada pelo capitão João da Silva de Sousa, cuja apetência pela pilhagem era lendária).

Mas o soldado, que era grande (…) demónio, assim como o general lhe cometeu [incumbiu] tal coisa, logo lá dentro em seu coração formou de repente a malícia, enganado o general, dizendo que sim, era muito contente, mas como faria ele isso sem que o viessem a saber, que o não enforcassem? Mas como ele já tinha a tenção de lhe fazer velhacaria, logo tornou a dizer que ele lhe daria a melhor traça [plano] e ordem que pudesse, de modo que não corresse perigo a sua vida. O general do inimigo lhe agradeceu muito o ânimo e logo o mandou para Campo Maior e lhe deu umas poucas de patacas. (MMR, pgs. 284-285)

O plano consistia em o soldado não entrar em Badajoz cada vez que viesse dar notícias, mas ir até à porta da Ponte e fazer um sinal combinado para se encontrar com o general.

No entanto, mal chegou a Campo Maior, o soldado foi logo a casa do governador da vila, Rui Lourenço de Távora, contar-lhe o sucedido em Badajoz. O governador convocou o capitão João da Silva de Sousa e este foi com o soldado até Elvas, dar conta da situação ao mestre de campo general D. João da Costa. O fidalgo ficou muitíssimo contente com a possibilidade de causar grande dano à cavalaria inimiga e premiou o soldado com algumas patacas, para que comprasse um vestido. O soldado disse então que o seu único desejo era que o livrasse da obrigação de ser soldado, que não precisava de dinheiro, pois seu pai tinha o suficiente para lhe dar de comer, e que só desejava essa mercê do mestre de campo general. Assim lhe foi prometido, e mais livraria algum irmão, caso o tivesse e servisse de soldado.

Foi então combinado o modo como o soldado deveria orientar o general da cavalaria inimiga à armadilha. O plano foi urdido entre D. João da Costa, João da Silva de Sousa e o general da cavalaria André de Albuquerque Ribafria. Ficou decidido que deixassem cair nas mãos do inimigo 30 ou 40 cavalos, os quais iriam às pilhagens em território inimigo em duas partidas (designação dada aos grupos de unidades que faziam incursões) , sabendo apenas o comandante das unidades o que iria suceder. O soldado avisaria o general inimigo e as partidas seriam capturadas em dois dias seguidos, para que D. Álvaro de Viveros fosse induzido da boa fé do soldado português.

(continua)

Fonte: MMR (pgs. 284-286).

Imagem: Combate de cavalaria; detalhe do painel relativo à Batalha das Linhas de Elvas (1659), na “Sala das Batalhas” do Palácio dos Marqueses de Fronteira, Lisboa.