Comarca de Santarém (e parte das comarcas de Tomar, Leiria, Setúbal e Évora), cerca de 1640

A propósito do pequeno artigo sobre a recondução de soldados pagos às fronteiras de guerra, aqui fica um mapa atribuído a João Teixeira Albernaz, mostrando a correição (zona de acção do corregedor, magistrado administrativo e judicial representante do Rei na respectiva comarca) de Santarém e parte das comarcas de Tomar, Leiria, Setúbal, Évora e Alenquer. São visíveis algumas localidades mencionadas no referido artigo, como Tancos, Punhete, Abrantes e Torres Novas.

Imagem: Biblioteca Nacional, Iconografia, D96R.

A defesa da costa portuguesa em 1644 (7) – Fortaleza de São Filipe de Setúbal

A Fortaleza de São Filipe de Setúbal – também conhecida por Forte de São Filipe e por Castelo de São Filipe (esta última designação era frequente no período da Guerra da Restauração) – foi mandada edificar por Filipe II de Espanha e I de Portugal, e destinava-se a controlar a entrada da barra do rio Sado e o acesso à então vila de Setúbal. As obras iniciaram-se em 1582, tendo ficado concluídas em 1600. Entre 1649 e 1655 (portanto, já em plena Guerra da Restauração, mas em período posterior à descrição que aqui se transcreve), a fortaleza recebeu melhoramentos, de modo a que a artilharia pudesse cobrir com maior eficácia o porto de Setúbal.

Fortaleza de São Filipe de Setúbal

Há nesta fortaleza nove peças de artilharia de diferentes calibres, a saber: quatro canhões, duas colubrinas, um pedreiro e duas peças mais. Necessita de nove peças mais, de artilharia miúda.

E de alçaprimas e lanadas.

E de cartuchos, por ter poucos.

E de se lagearem duas praças, para correr melhor a artilharia.

Dos canhões, um é encampanado, e o outro rendido pelos munhões.

Esta artilharia está encavalgada. Necessita de reparos de sobresselente.

Há algumas rodas por ferrar, e havendo coronhas e eixos se poderão fazer quatro ou cinco reparos.

Balas de artilharia há em abundância para tirarem 20 peças de artilharia.

Mosquetes biscaínhos, noventa e tantos.

Arcabuzes, cento e quarenta e tantos.

Trezentos piques.

Morrão em abundância.

De pólvora, sessenta barris, que parecem ser de duas arrobas.

Soldados, oitenta, pouco mais ou menos, que é a lotação desta fortaleza.

Nove artilheiros. Necessita de mais, havendo mais artilharia.

Tem bastantes ferramentas.

É necessário argamassar toda esta praça, e retelhar os quartéis dos soldados, porque chove em tudo.

Há mister duas estacadas, cordas e cabos e pedras pelas muralhas, por ser a melhor defesa que há em castelos roqueiros.

Bastimentos [mantimentos] tem nenhuns.

E diz António de Barros Cardoso, governador desta fortaleza, que em mão de Brás Aranha há cento e oitenta mil réis procedidos dos bastimentos passados, e que tem por arrecadar coisa de cinquenta mil réis dos soldos que devem os soldados, para arrecadação dos quais há mister tempo. E que o dinheiro que está feito bastará para azeite, vinho e legumes, e com Sua Majestade dar biscoito ficará esta praça abastecida.

E que tem esta fortaleza quarenta e tantos mil réis para as obras em mão do tenente Sanches.

Fonte: Veja-se a 1ª parte desta série.

Imagem: A Fortaleza de São Filipe numa planta de cerca de 1700. Biblioteca Nacional, Iconografia, E3962P.

A defesa da costa portuguesa em 1644 (1) – Torre de Belém

Por decreto de 30 de Julho de 1644, D. João IV ordenou que o Conselho de Guerra desse o seu parecer sobre consulta que o Conselho da Fazenda fizera sobre os artilheiros, o material de guerra e as provisões existentes nas fortalezas da barra de Lisboa, e nas de Setúbal e de Peniche, bem como sobre o que era necessário prover. As listas exaustivas de tudo quanto se encontrava em cada fortaleza surgem em anexo à consulta do Conselho de Guerra de 12 de Agosto de 1644.

Nessa consulta, o Conselho de Guerra apoiou o parecer do Conselho de Fazenda para que as fortalezas de Setúbal e Peniche, como distavam mais de Lisboa, tivessem tudo quanto fosse necessário dentro das suas muralhas, e para esse efeito o tenente-general da artilharia devia visitar aquelas fortalezas passado o mês de Setembro, numa época do ano em que os seus afazeres eram menores na capital do Reino. Quanto às fortalezas da barra de Lisboa, poderiam ser abastecidas do que estivesse em falta em qualquer altura, não requerendo muita urgência, à excepção da pólvora e das balas de diferentes calibres, que deveriam ser providenciadas de imediato. O Conselho de Guerra advertiu, por fim, que a consignação de 1.000 cruzados (400.000 réis) que se tinha atribuído ao tenente-general da artilharia era insuficiente para as necessidades das fortalezas, pelo que seria conveniente atribuírem-se outros mil cruzados, provenientes das tenças.

Passemos à transcrição (com ortografia actualizada) da parte relativa à…

Torre de Belém

A Torre de Belém tem 14 peças de artilharia de bronze e de diferentes calibres, a saber:

Um canhão de 24 libras de bala.

Sete meios-canhões de 16 [libras].

4 meias-colubrinas de 12 e outra de dez [libras].

Um falconete de uma libra.

Os sete meios-canhões têm duzentas balas. Necessitam de 600 balas novas e 200 de cadeia.

Tem 4 colheres [instrumento utilizado para carregar a peça com bala, pela boca]. Necessita de três mais. Necessitam também de cinco reparos com suas rodas.

As 4 meias-colubrinas têm bastantes balas. Tem uma colher. Necessitam de mais 3. Também faltam 4 rodas para os reparos; 12 hásteas de 21 palmos, duas dúzias de soquetes [peça em madeira que servia para impelir a carga na alma da peça, quando se carregava], uma [dúzia] de 16 [libras] e outra de 12; e duas dúzias de granadas de pau para as lanadas [hastes envolvidas em lã numa das extremidades, para limpar o interior das peças após cada tiro].

À meia-colubrina, falta-lhe um reparo e rodas.

Tem a Torre de Belém 65 quintais de pólvora – faltam-lhe 35 mais.

Tem 50 mosquetes de Flandres com suas bandolas. E 40 de sobresselente de Barcarena, com seus frascos; tem mais 28 mosquetes e arcabuzes. Tem mais 50 piques.

Tem necessidade a dita Torre de 14 pranchadas de chumbo para os fogões da artilharia. Duas dúzias de cortiças para as bocas das peças. Meia dúzia de talhas para abocar a artilharia com seus montões, para a praça de baixo. De 50 varas de pano de linho para cartuchos, por não haver mais que 120 de todos os calibres. Necessita também de 2 quintais de cevo, 4 de breu, 4 de alcatrão, e de uma dúzia de soleiras e de duas dúzias de peles curadas ao vento.

Há na dita Torre 10 quintais de murrão. Tem necessidade de 20 quintais mais. Faltam-lhe também 12 quintais de amarra velha para tacos; meia dúzia de lanternas e meia dúzia de lampiões.

Necessita também de 8 tinas para a artilharia e uma pipa de vinagre. E de biscoito, vinho e legumes, conforme à dotação da mesma Torre.

Tem esta Torre 90 arrobas e três arráteis de arroz, que se lhe meteu em 16 de Abril de 1641, que está ruim e mal acondicionado. É necessário outro [arroz], conforme à dotação desta Torre.

Tem mais 6 alqueires de lentilhas e 6 de ameixas passadas. Necessita de mais. Tem também necessidade de lenha e de 60 cobertores e outros tantos enxergões para os soldados.

Tem 40 e tantos soldados. Faltam os mais para oitenta, que há-de haver nela conforme sua dotação.

Fonte: “Relação da gente paga, artelharia armas munições carretas mantimentos e mais cousas que ha nas fortalezas da barra desta cidade e nas de Setuual, e do que necessita cada huã dellas”, anexa à consulta do Conselho de Guerra de 12 de Agosto de 1644 (ANTT, CG, Consultas, 1644, maço 4-B).

Imagem: Torre de Belém na actualidade. Foto de J. P. Freitas.