Postos do exército português (2) – o soldado de cavalaria

Sobre o soldado de cavalaria, trago aqui as considerações de D. João de Azevedo e Ataíde. Este oficial relativamente obscuro, apesar de referido em várias Relações propagandísticas dos feitos de armas do início da guerra, foi comissário geral da cavalaria do exército do Alentejo entre 1644 e 1647. Deixou a carreira das armas sem glória, mas com algum proveito material, na última destas datas. Deixou também um esboço manuscrito de tratado militar sobre a cavalaria, cuja transcrição estou a ultimar e que será integrada numa resenha biográfica do ex-oficial a publicar em breve. Como curiosidades adicionais, refira-se que D. João de Ataíde foi responsável pelo recrutamento do soldado e memorialista Mateus Rodrigues, o qual serviu sob seu comando nos primeiros seis anos da guerra e do fidalgo nos legou um testemunho bem mais rico que o da literatura panegírica impressa; e que D. João foi trisavô, pela parte materna, de Sebastião José de Carvalho e Melo, Conde de Oeiras e Marquês de Pombal.

O trecho aqui transcrito para português corrente corresponde às pgs. 17 a 23 de Regras militares da cauallaria ligeira compostas per Dom João de Azeuedo e Attayde, Comissario Geral da caualaria, do exercito, e Prouincia do Alentejo [manuscrito composto após 1644, provavelmente 1644-47].

O soldado de cavalaria

O soldado que se resolver assentar praça de cavalos deve dar por entendido que há-de servir e trabalhar sem passar a vida ociosamente, como muitos cuidam, porque os trabalhos, e principalmente os da cavalaria, são contínuos, de dia ao sol, de noite ao sereno, aos rigores dos tempos, sem ter vontade própria, sofrendo as sem razões de seus superiores, as más pagas dos Príncipes, obrigados a pelejar com risco da vida todas as vezes que o seu capitão quiser, e ainda alguma vez o inimigo, contemporizando com as rigorosas leis da honra e do mundo, certo o perigo, o prémio duvidoso, ou porque o pobre soldado não chega a alcançar o favor dos que governam, ou porque sendo as coisas limitadas, não pode haver prémio para todos (…).

Convém que o soldado de cavalo seja curioso do seu cavalo, trazendo-o sempre bem pensado [isto é, alimentado – o penso era a ração de cevada para a montada], não se desprezando de o limpar por suas próprias mãos (…). Na mesma forma se deve prezar muito do conserto e limpeza de suas armas, porque além de parecerem bem na paz, no tempo da peleja as armas reluzentes metem medo e temor ao inimigo (…).

Deve saber qualquer soldado governar e moderar o seu cavalo, sem o trazer desabrigado e descomposto, correr e escaramuçar assim por terra firme como pela áspera, subir e descer desenvoltamente por um e outro lado, armado e desarmado, que suposto que esteja em uso o subir e descer pela parte esquerda do cavalo, porque por ali fica mais à mão a espada e faz menos estorvo (…), contudo será importante acostumar-se a cavalgar pelas partes ambas (…).

Saberá desenvoltamente jogar todas as armas de cavalo, na tropa [designação para companhia, ou a subdivisão táctica desta, ou a formação táctica designada por batalhão] e fora dela, donde andará com bom conserto, dobrando quanto necessário for, e sucedendo por algum caso duvidar-se, se saberá tornar a reunir e juntar na tropa em seu lugar, sem se perturbar nem confundir (…).

Acudirá dos primeiros em ouvindo que se toca as trombetas, ocupando o lugar que lhe tocar, havendo de marchar seguirá ao que direitamente for diante dele, conservando-se na sua fileira, e na ordem que o seu capitão lhe dá. E quando a não chegue a alcançar de boca, fará e guardará o que vir fazer aos outros que vão diante dele. Dando a carga [quer dizer, disparando a arma de fogo] tornará a carregar depressa, contanto que com muita pressa não acerte a não carregar como convém. Por nenhum modo dará a sua carga senão muito a tempo, e quando puder, de modo que possa fazer golpe, porque o mais é perder pólvora [e] ficar desarmado ao melhor tempo.

Imagem: Combate de cavalaria – Arronches, 8 de Novembro de 1653. Painel de azulejos seiscentistas, “Sala das Batalhas”, Palácio dos Marqueses de Fronteira. Foto do Comandante Augusto Salgado.

Postos do exército português (1) – o soldado de infantaria

 

O tema desta série de entradas, que alternará com outros temas já em curso, centrar-se-á na hierarquia do exército português da Guerra da Restauração. Não se trata somente de expor os postos, funções e cargos, tentando quando possível traçar paralelos com os actuais. O traço da mentalidade do período será aqui trazido, através das regras de conduta e conselhos presentes em manuais e tratados militares para cada um dos postos.

O soldado (pago, ou seja, profissional), bastas vezes anónimo e sacrificado combatente, o mais raso da hierarquia militar, é o primeiro a passar por aqui. E ao de infantaria, contingente mais numeroso, será dada a primazia. As linhas que se seguem foram redigidas em castelhano, nos primeiros anos da Guerra da Restauração, pelo sargento-mor António Gallo. Nascido no reino vizinho, cavaleiro professo da Ordem de Cristo, optou por tomar como seu soberano D. João IV, continuando a residir em Portugal após a Aclamação. Foi nomeado sargento-mor de um terço pago na província do Alentejo em Janeiro de 1641, quando já estava no Outono da vida. Valente militar, muito experiente, combateu em vários recontros, aposentando-se em finais de 1643, por motivos de saúde, quando era sargento-mor do terço do mestre de campo holandês Estacius Pick. No ano seguinte saiu à estampa a sua obra Regimiento Militar, que trata de como los soldados se hande governar, obedecer, y guardar las ordenes, y como los oficiales los han de governar, Lisboa, Paulo Craesbeeck, 1644. O texto a seguir apresentado foi vertido para português corrente, correspondendo ao texto das fls. 1 a 3 da referida obra:

O Soldado

Em assentando praça o soldado nas listas do Rei nosso Senhor, fica honrado e obrigado a servir bem a seu Rei e capitão-general, e a  obedecer a todos os seus oficiais, em tudo o que fôr de serviço do Rei nosso Senhor, sob pena de grave castigo (…).

E para ser honrados, e alcançar vitórias e ser providos em cargos honrados, devem ser bons Cristãos (…) os soldados, pois sua profissão é mais arriscada que outras, por trazerem, como trazem, a morte diante dos seus olhos, pelas ocasiões de guerra que se oferecem a cada hora de repente.

Pela qual causa todo o soldado se há-de confessar muitas vezes no ano, ao menos quatro, recebendo a Santa Comunhão.

E deve guardar-se com grandíssimo cuidado de cair em infâmia, como é estar amancebado, trazer consigo mulher que não seja a sua, beber de modo que se prive com o vinho do seu sentido: e a estes tais bêbados deve-se-lhes retirar a praça. Não sejam ladrões, nem encobridores, nem amotinadores, que se lhes dará morte com desonra. Não seja falador, ouvir aqui e murmurar ali, que fará inimigos, e ninguém o quererá ver.

O hábito de soldado arma a todos, e é-lhes muito necessário saber-se governar com o seu soldo, porque não há coisa neste hábito mais vil que o pedir, nem de mais grandeza, que o dar. (…)

Seja curioso de saber jogar a espada, adaga, broquel e rodela, pique, arcabuz e mosquete, que é importante a este hábito militar.

Será vigilantíssimo a fazer a sua guarda, assim de posto como de ronda, em qualquer lugar que o puserem, que é a principal obrigação que tem. (…)

Se o seu capitão, alferes, ou sargento, ou cabo de esquadra, ou sargento-mor deitarem mão à espada ou à insígnia que trazem para o castigar com cólera, ainda que não tenham razão, oiça-os e não replique (…). E aviso-o que não deite a mão à espada, nem a outra arma alguma para resistir e defender-se, que lhe custará a vida (…).

Havendo licença para saquear alguma vila ou lugar, avise-se que não toque em coisa alguma das igrejas (…).

Não há-de jogar sobre as armas [ou seja, apostando as armas], que sem elas não se pode servir a El-Rei; nem jogará vestidos (…), nem sobre palavra, que é a causa de perder o crédito.

 Foto do autor: Mosqueteiros e piqueiros; reconstituição histórica da Guerra Civil Inglesa, Kellmarsh Hall, 2007.