Formações e manobras dos soldados de infantaria

Nesta interessantíssima página de Barry L. Siler encontramos exemplos práticos (excelentemente animados) das diferentes formações e manobras que os soldados de infantaria do século XVII deviam executar – entre outras informações muito úteis para quem queira aprender um pouco mais sobre os meandros da disciplina militar do período da Guerra da Restauração.

As manobras apresentadas baseiam-se na obra do coronel inglês Wiliam Barriffe (1600-1643), Military Discipline: or the Young Artillery-Man, Mars his Triumph, and Some Brief Instructions for the Exercising of the Cavalry, or Horse-Troopes (edição de 1661).

Imagem: Batalha de Ameixial, 1663 (água-forte anónima). Detalhe das formações e combate de infantaria. BNL, Iconografia, E649A.

Disposição táctica da cavalaria em campanha

XKH152257

Nas anotações de D. João de Mascarenhas à obra de Galeazzo Gualdo Priorato (veja-se a indicação completa aqui), é referido o modo como se deve dispor o campo da cavalaria quando o exército se encontra em campanha, bem como a disposição táctica que a cavalaria deve assumir quando forma em batalha. Saliente-se que, nesta obra, D. João de Mascarenhas designa por quartel o campo militar composto por tendas para os homens e abrigos (quando possível) para os cavalos – ou seja, o acampamento provisório e não o edifício destinado a albergar, de forma permanente, bestas e homens. A transcrição que se segue, feita a partir do manuscrito existente na secção de Reservados da Biblioteca Nacional de Lisboa, foi vertida para português actual, para facilitar a sua compreensão.

Temos mostrado o que se deve fazer quando a eleição do quartel toca ao mestre de campo general, agora diremos como deve ser quando seja eleição do general da cavalaria, em caso que o mandem com toda ela, ou em caso que deva ir sem que o mandem. Deve o general primeiro que tudo fazer consideração que praças dos inimigos tem para aquela parte, donde deve aquartelar-se conforme as que houver, deve eleger o quartel, ou seja para uma noite, ou para mais, e feita esta diligência e resoluta a parte, deve mandar o comissário com a sua companhia, e com ele o furriel-mor e seus ajudantes, os furriéis de todas as companhias e um soldado de cada uma dos furriéis. Este quartel reconhecerá o comissário geral tanto por dentro como por fora, e por fora repararâ em todos os caminhos que possam vir a ele, e em todas as avenidas, e nestas e nos caminhos, elegerá os postos para as guardas, nos quais ficará logo um soldado dos seus em cada um dos postos, até que chegue a cavalaria, e que se não entregar das guardas as companhias a quem tocarem, deve o comissário ter feito eleição da praça de armas e dito aos furriéis qual é, para que eles digam aos seus capitães, porque em caso que se toque arma, saibam aonde devem acudir. Esta é a forma que deve ter a cavalaria quando se aquartela de per si, e junto aos inimigos. Também será a mesma, servindo-se neste caso de mais guardas e mais patrulhas, estas bem avançadas, e se o quartel for muito perigoso, da meia-noite por diante, montará a cavalaria, e se irá meter na praça de armas.

Convém agora dizermos que coisa é praça de armas, e como se deve eleger. Com todos os quartéis de cavalaria se deve escolher um posto, que não é outra coisa que um tal lugar, destinado a juntar-se nele toda a cavalaria em um corpo, para melhor resistir [a] qualquer invasão. Deve advertir-se que se houver mais quartéis que um (como muitas vezes acontece), que esta praça de armas se deve eleger em distância que seja fácil virem a ela com brevidade de todos os quartéis, e há-de ser ela de modo escolhida, e em sitio tão proporcionado, que vindo os inimigos, se não possam senhorear dela, e deve haver para boa seguridade e melhor doutrina, duas praças de armas, uma para de dia, outra para de noite, as de dia devem sempre ser na vanguarda do quartel, com a cara para os inimigos, as de noite à mão direita ou esquerda dele, no lugar mais forte e mais desembaraçado. Estas praças de armas devem ter capacidade tal que baste para formar toda a cavalaria que houver, com os mesmos claros e distâncias que se requerem quando se forma em batalha, que são de cinquenta passos entre tropa e tropa, e de linha a linha oitenta, porque não sendo assim, e sendo estreitas, se sucedesse ocasião, tudo se confundiria. E nunca se devem pôr quatro tropas juntas sem lhe dar a sua medida, quanto mais toda a cavalaria. Aqui se vêem reduzidas a breves regras as obrigações de saber aquartelar a cavalaria junta com o exército ou separada dele (…). (Maneio da Cavallaria (…), págs. 48-49 do manuscrito. )

Sobre os claros e outros termos respeitantes à cavalaria, veja-se aqui e aqui.

Imagem: “Cena de acampamento militar”, período da Guerra dos Trinta Anos (1618-1648), Sebastian Vrancx.

O combate de Cabeço de Vide, 23 de Abril de 1649 (3ª e última parte)

Originalmente, a data que surgia no título desta série de artigos era a de “22 de Abril”. Fora induzido em erro pelo texto de Mateus Rodrigues, mas ao reler um documento oficial (a carta do governador das armas Martim Afonso de Melo) pude verificar que o combate ocorreu, de facto, numa sexta-feira, 23 de Abril, dia de São Jorge. É ao combate e suas consequências que o texto de hoje é dedicado.

Em que consistiu o perder-se o inimigo foi o virmos a buscar para pelejar connosco. Que se se deixara estar como estava, tão forte, estava bem arriscado o não podermos romper, (…) e assim se averiguou que nisso consistiu, porque nunca quem buscou primeiro vai tão forte como o que está quedo. Finalmente, que assim como nós fomos chegando ao regato que estava ao pé do outeiro aonde estava o inimigo, vem-se abaixo com a vanguarda só a receber-nos e a pelejar connosco. Mas o famoso [tenente-general Tamericurt] fez logo alto com o seu batalhão, esperando que o inimigo o cometesse primeiro. Chegou o inimigo à nossa vanguarda com brava resolução (…), e logo deu primeiro uma notável carga de cravinas e pistolas, que não há dúvida que caíram alguns dos nossos com ela. E assim como a deu vem-se a eles à espada com uma fúria que parecia que levavam tudo de coalho, mas a nossa gente se deixou estar mui cerrados que parecia uma muralha, e mais já haviam caído muitos com a carga que o inimigo deu (…). Averbado (…) com a nossa vanguarda, já todos juntos, dando uns nos outros muita pancada, sem o inimigo poder nunca romper (…), que era o que determinava. Contudo, como eles viram que não puderam levar a vanguarda, fazendo-lhe as diligências possíveis, dão as costas outra vez para trás, mas apenas eles as tinham dado, já a nossa vanguarda lhe estava em cima com grande valor, matando e ferindo. E logo a nossa batalha e reserva, que até aquele tempo estavam vendo em que parava a nossa vanguarda, logo foram sempre nas suas costas, sempre formados, dando-lhe calor [ou seja, dando apoio]. E assim como o inimigo chegou ao cimo do outeiro aonde estava sua reserva, quis ali tornar a ter mão com a sua reserva (…). Ali em o outeiro houve mais pancadas que aonde o inimigo nos cometeu [primeiro], mas arrimou-se logo a nossa reserva toda, e com facilidade se determinou o inimigo a fugir (…).

Esta narrativa de um combate de cavalaria deixa bem claro quão importante era a resistência oferecida pela vanguarda que recebia o choque das tropas que a carregavam. Se se rompia essa primeira linha de batalhões, a perseguição podia levar a confusão às outras linhas (chamadas batalha e reserva). Por outro lado, se os atacantes não conseguiam romper a vanguarda inimiga e necessitavam de fazer meia-volta para se reagruparem à retaguarda, a perseguição de que seriam alvo poderia revelar-se fatal para a coesão das restantes forças. Foi isso que sucedeu às tropas comandadas por Juan Jacome Mazacan, neste combate perto de Cabeço de Vide.

(…) E tanto que ele se deliberou a fugir, então direi eu que não havia mãos a medir (…), antes que ele entrasse na coutada de Cabeço de Vide, que estava um quarto de légua de onde foi a bulha, (…) [já] os nossos iam tão enfrascados neles [que] não se podiam apartar deles, que não há gosto para um soldado como ir seguindo o inimigo que vai com a proa no vento, vendo por donde escapará.

Findo o combate com a fuga das forças de Mazacan, a população de Cabeço de Vide veio saudar os vencedores.

(…) Não ficou gente na vila, que todos saíram cá fora (…) e (…) nos davam grandes vivas e louvores e que nos não havia de faltar nada na vila aquela noite, e bem cumpriram sua palavra (…). Entrámos logo para dentro da vila de Cabeço de Vide com grandioso gosto e alegria de ver que nos dera Deus tão honrado dia, e o bem-aventurado São Jorge, que era em o seu dia, a quem o Conde Martim Afonso de Melo faz festa todos os anos por lhe dar aquela vitória. (…) Não sabia a gente de Cabeço de Vide que nos fizesse com tanto gosto como nos receberam aquela noite em suas casas, que não havia galinha que não matassem, nem tinham coisa boa que não nos dessem. De modo que toda a fazenda que o inimigo tinha junto, tudo ali ficou, e foram seus donos a buscar cada um o que lá tinha e não lhe faltou nada. E na verdade que ficavam aqueles lugares todos perdidos se o inimigo lhe levava aquela pilhagem.

No rescaldo do combate, segundo Mateus Rodrigues, foram capturados mais de 250 cavalos, mas os camponeses terão escondidos vários que encontraram pelos campos. As perdas da força incursora cifraram-se em mais de 50 mortos, entre os quais 3 capitães, e 260 prisioneiros. A cavalaria portuguesa sofreu menos de 30 mortos, mas 100 soldados ficaram feridos. A violência da refrega fica bem patente pelas baixas sofridas por ambos os lados, tendo em consideração que os efectivos seriam cerca de 600, do lado português, e cerca de 700, do lado espanhol. Entre os mortos do exército português contava-se o capitão Latouche, francês que servia o rei D. João IV desde 1641, dois tenentes e três alferes. Neste combate também ficou ferido o jovem capitão Dinis de Melo de Castro (uma bala em uma perna e todo o corpo por fora crivado um capotilho que levava sobre as armas), cuja brilhante carreira militar só terminaria no início do século XVIII, durante a Guerra da Sucessão de Espanha, já como Conde de Galveias.

(Citações do Manuscrito de Matheus Roiz, versão transcrita do AHM: pgs. 159-162).

Imagem: Combate de cavalaria em frente de um moinho em chamas, Philips Wouwerman, Gemäldegalerie, Dresden.

O combate de Cabeço de Vide, 23 de Abril de 1649 (2ª parte) – a disposição táctica

Juan Jacome Mazacan (ou Mazacani, pois era napolitano de nascimento) era um militar bem conhecido dos portugueses. O soldado Mateus Rodrigues refere-se-lhe algumas vezes nas suas memórias. Comandava desde 1644 a guarnição de Zarza la Mayor, e embora o seu território de operações fosse habitualmente a fronteira que confinava com a Beira, entrou por vezes com a sua cavalaria pela raia alentejana. É nesta província que se encontra com a cavalaria portuguesa sob o comando do tenente-general francês Achim de Tamericurt em 23 de Abril de 1649, nas proximidades de Cabeço de Vide, não muito distante da vila de Fronteira.

Na continuação da narrativa, percorremos hoje a disposição táctica das forças, segundo o testemunho de Mateus Rodrigues.

(…) De modo que o dito Mazacan, assim como nos viu a todos, disse para a sua gente (…) senhores, soldados e capitanes, nos tenemos aqui mui buena pillaje de ganados, pero mejor es la que hemos de tener de aquesta que aca viene [em castelhano no original]. (…) E passando o nosso comissário [quer dizer, o tenente-general Tamericurt] pela vanguarda de toda a nossa cavalaria, dizendo aos capitães e mais soldados que não houve[sse] descomposição nem rumor, senão mui calados e cerrados e que fize[sse]mos todos como ele esperava de tão bizarros soldados como nós éramos [na época, a palavra bizarro era aplicada áquele que se distinguia pela sua valentia]; de maneira que se foi para a vanguarda pelejar (…), que iam cinco companhias na vanguarda, muito boas e [com] bons capitães, que era a companhia de um francês, por nome Latuie [Latouche], que o mataram ali, e a companhia do capitão João Homem Cardoso, e a companhia do comissário de Olivença, Duquesne, e a companhia do capitão Dinis de Melo [de Castro], que foi a primeira ocasião em que se achou depois de [promovido a] capitão de cavalaria e procedeu tão bizarramente como adiante direi, e assim mais a companhia do capitão João de Oliveira Delgado, e estas cinco companhias que na vanguarda iam teriam 200 cavalos (…) e as outras iam 4 na batalha e outras 4 na reserva, tudo mui composto e com ordem, na batalha ia o capitão Fernão de Mesquita [Pimentel] por cabo , e na reserva ia o capitão António Jacques de Paiva por cabo. De maneira que assim como o inimigo nos viu com determinação de pelejar, não fez mais que formar-se em (…) vanguarda e reserva, mas na vanguarda pôs todos os bons soldados e oficiais (…), e fê-lo mui grosso, que trazia na vanguarda perto de 400 cavalos, porque fazia conta que, em nos rompendo a vanguarda, que nos fizesse fugir, que logo a demais [cavalaria] havia de fazer o mesmo. Que não há dúvida que era uma ocasião daquelas [em] que é necessário haver bons cabos diante e bons soldados, que se uma vanguarda se rompe, ou sua ou nossa, é necessário muito auxílio de Deus e valor para terem bem mão, vendo fugir a sua vanguarda, e por isso o inimigo se fundava nestas circunstâncias (…). Aonde (…) se formou era um cabeço alto, e ao pé dele corria um ribeiro (…). E todo o gado, assim bois como ovelhas e cabras e porcos e muitas cavalgaduras, tudo isto estava junto, ao pé do inimigo, por onde havíamos de passar forçadamente [forçosamente]. E pelo meio de lá rompemos, e era tanto o fato de roupa que estava pelo chão, que eles haviam roubado pelos montes, que podiam carregar um navio, que todos os castelhanos (…) largaram [d]as garupas para pelejarem mais à sua vontade, e desembaraçados.

(Citações do Manuscrito de Matheus Roiz, versão transcrita do AHM: pgs. 157-159).

Agradeço muito especialmente a colaboração do amigo e investigador de Zarza la Mayor, senhor Juan Antonio Caro del Corral, que tem disponibilizado muita informação sobre o período da Guerra da Restauração – e neste caso, a obra de Gervasio de Velo Y Nieto, Escaramuzas militares en la frontera carcereña con ocasión de las guerras por la independencia de Portugal, Madrid, 1952, de onde me foi possível recolher alguns dados sobre o percurso militar de Juan Jacome Mazacan.

Imagem: Mapa de Portugal, cerca de 1700 (detalhe da província do Alentejo). Note-se a pequena diferença do topónimo, que surge como Cabeça da Vide. Biblioteca Nacional, Cartografia, CC164P.

Imagens de Cabeço de Vide, da arquitectura de hoje e do passado (e da tranquila paisagem dos arredores) podem ser vistas aqui.

O batalhão, formação táctica da cavalaria

Qualquer que fosse a doutrina táctica adoptada – e a que privilegiava o choque e o combate com espada era a dominante entre as cavalarias do exército português e espanhol, durante a Guerra da Restauração – a formação básica consistia no batalhão (termo de significado diferente e que não corresponde, por isso, à actual unidade composta por várias companhias). Por vezes era também designado por esquadrão, embora este termo fosse aplicado com mais propriedade às formações tácticas da infantaria.

Uma companhia podia bastar para formar um batalhão, ou seja, para se dispor no terreno formada a três fileiras de profundidade, à maneira sueca, ou a quatro ou mais, com uma frente de 20 elementos, por vezes até superior. Tudo dependia do número de efectivos e da disposição no terreno ordenada pelo comissário geral, tenente-general ou general que comandasse a força de cavalaria. Quando os efectivos de uma companhia não fossem suficientes, podiam ser reforçados com os de outra, de modo a dar consistência à formação. Em casos mais raros, mas documentados (como o da companhia do general da cavalaria Dinis de Melo de Castro em 1665), uma companhia numerosa, com mais de 100 efectivos, podia constituir dois batalhões.

Os soldados mais experientes e valorosos eram sempre escolhidos para as duas primeiras fileiras. A distância entre fileiras podia variar entre o comprimento de dois cavalos e um mínimo que quase compactava os animais das fileiras anteriores e posteriores (neste último caso, quando se tratava de receber imóvel e firme o choque provocado pela carga da cavalaria inimiga).

D. João de Mascarenhas, Conde de Sabugal, refere de sua lavra nos comentários à obra Maneio da Cavallaria (pgs. 15-15 v) que

(…) reparando na cavalaria com que nos defendemos, que sendo sempre menos que a de nossos inimigos, que não devemos fazer os corpos tão grossos, porque ficaremos diminutos na forma, sendo-o sempre na quantidade, e assim me parece que podemos regular os nossos batalhões ao número de 80 cavalos cada um, porque ainda que os dos castelhanos sejam mais (como eu vi este ano [1663]), contudo poucos passavam de 60, com que os nossos tiverem de menos na forma, terão de mais na resistência, e à forma da batalha sempre se pode acomodar a quantidade da cavalaria, e não será pior por mais unida, antes tenho para mim (segundo os nossos países) que será de mais fortaleza.

Os batalhões eram dispostos no terreno habitualmente em duas linhas, por vezes três, numa formação em xadrez. O intervalo lateral entre cada batalhão designava-se por claro. Serviam os claros para que um batalhão que viesse carregado pelo inimigo pudesse escapar e voltar a formar na retaguarda, ao mesmo tempo que a formação que o perseguia era contra-carregada por uma outra unidade da segunda linha.

Gravura: Modo de formar os batalhões numa disposição em xadrez – note-se que os intervalos entre batalhões (os claros) eram mais espaçosos do que o que aqui está representado. Desenho do autor.

Termos militares do século XVII (2) – a cavalaria

Arcabuzeiro a cavalo – Designação do militar que integrava uma companhia de cavalos arcabuzeiros. A designação remonta ao século XVI, mas durante a Guerra da Restauração o arcabuzeiro a cavalo estava armado de carabina (além de um par de pistolas e espada) e já não com o arcabuz de mecha do século anterior.

Banda – Faixa usada à cintura ou a tiracolo, cuja cor identificava o exército ao qual pertencia o militar.

Bandola – Correia de couro à qual se prendia a carabina.

Batalhão – Formação táctica de cavalaria, por vezes também designada por esquadrão, embora este termo se aplique com mais propriedade à infantaria. Num próximo artigo será desenvolvido este tema.

Bolsa – Coldre pendente do arção, no qual era transportada a pistola.

Carabina – Arma de fogo com fecho de pederneira usada pelos militares de cavalos arcabuzeiros (e também pelos de cavalos couraças, embora não fizesse parte da dotação regulamentar); variantes: clavina, cravina.

Cavalos – Designação genérica de qualquer militar ou unidade de cavalaria (soldado de cavalos, companhia de cavalos).

Cavalos arcabuzeirosTipo mais comum de cavalaria do exército português. Empregue no choque contra cavalaria inimiga e na escaramuça à distância com armas de fogo. Desempenhava tarefas de escolta, reconhecimento e rondas.

Cavalos couraçasTipo de cavalaria cujo emprego era reservado ao choque contra cavalaria inimiga.

“Cerra a eles!” – Ordem para a unidade se lançar a trote ou a galope contra o inimigo, iniciando o combate corpo-a-corpo. Equivalente à ordem “À carga!” de épocas posteriores.

Claro – Espaço deixado livre entre dois batalhões dispostos lado a lado.

Colete – O mesmo que coura. Peça básica de equipamento defensivo. Confeccionado em pele de anta ou de vaca, protegia o tronco e as coxas. Havia versões com mangas compridas, tornando-se assim numa casaca de couro. Também eram usados coletes e casacas em tela.

Companhia – Unidade administrativa básica na cavalaria.

Couraça – Peça de equipamento defensivo composto de peito e espalda (espaldar) de aço. No plural, designava uma companhia de cavalos couraças.

“Dar carga!” – Ordem para a unidade abrir fogo sobre o inimigo. Equivalente à ordem “Fogo!” de épocas posteriores.

Manopla – Peça de equipamento defensivo, em aço, que protegia a mão e o antebraço do cavaleiro.

Pilhante – Combatente miliciano de cavalaria pertencente a uma companhia formada voluntariamente por moradores de uma determinada localidade, para protecção dos seus gados e propriedades e para levar a cabo incursões de pilhagem em território inimigo (daí o nome). As companhias podiam ser designadas por pilhantes, de moradores ou amunicionadas.

Regimento – Unidade composta por diversas companhias. Inexistente no exército português, só se encontrava entre a cavalaria estrangeira. Era comandado por um coronel ou tenente-coronel.

Troço – Agrupamento de diversas companhias, normalmente comandado por um comissário geral.

Tropa -Termo genérico para qualquer força de cavalaria, mas frequentemente usado para referir uma companhia.

Imagem: Cavalaria do período da Guerra Civil Inglesa, semelhante à da Guerra da Restauração. O equipamento defensivo (apenas casacas de couro, excepto um elemento que usa uma couraça) é característico dos cavalos arcabuzeiros, mesmo se os cavaleiros retratados não apresentam armas de fogo (situação que era muito vulgar, também, na Guerra da Restauração). Foto do autor, Kellmarsh Hall, 2007.

A formação táctica da infantaria – o esquadrão

A imagem mostra a infantaria formada em esquadrão, com a respectiva batalha de piques e as guarnições e mangas de mosqueteiros e arcabuzeiros. Faltam na imagem as alas, que se colocavam a alguma distância das mangas, em ambos os lados da formação e paralelos às guarnições laterais.

Quando uma força militar se dispunha no terreno, preparada para um recontro ou batalha, cada terço de infantaria constituía o núcleo de um esquadrão (a menos que estivesse tão desfalcado que não bastasse para tal). A realização de uma formação destas no terreno era complexa. Implicava muita prática por parte dos sargentos-mores, o quais deviam saber calcular com presteza raízes quadradas, de forma a conseguirem organizar os soldados no terreno. Para isso eram auxiliados por dois ajudantes e pelos sargentos do terço. Esta formação era utilizada apenas para a defesa estática e para a progressão no terreno após o contacto estabelecido com o inimigo. As marchas de aproximação não eram efectuadas com os esquadrões formados, pois tornar-se-iam demasiado lentas e impraticáveis.

Na década de 60, o esquadrão guarnecido de mangas e alas caiu em desuso. A evolução da táctica passou a favorecer formações mais lineares e de maior capacidade de movimento debaixo de fogo. Em Portugal, o advento da marcha de costado (já conhecida dos portugueses na teoria, mas não praticada antes da chegada do Conde de Schomberg), em que o exército progredia já em formação de batalha, impôs o abandono do complexo esquadrão herdado da escola militar espanhola, que tão bons resultados havia dado na primeira metade do século XVII. No entanto, essa transição não terá sido muito rápida. Escrevendo sobre a situação do exército português do início da década de 60, o francês Frémont d’Ablancourt observou que os portugueses mantinham o hábito de colocarem sobre as alas dos seus esquadrões “quatro a cinco filas de mosqueteiros, cujos mosquetes se assemelham a pequenos arcabuzes pesados” (Mémoires de Monsieur d’Ablancourt, Amsterdam, J. Louis De Lorme, 1701, p. 30). Referia-se, com toda a probabilidade, às mangas.

Gravura baseada numa outra, apresentada em JÖRGENSEN, Christer, e outros, Fighting Techniques of the Early Modern World, AD 1500-AD 1763, Equipment, Combat Skills and Tactics, London, Amber Books, 2005.

Termos militares do século XVII (1) – a infantaria

Joane Mendes de Vasconcelos foi general e membro do Conselho de Guerra durante a Guerra da Restauração. Era filho de Luís Mendes de Vasconcelos, escritor e tratadista militar dos inícios do século XVII (autor da Arte Militar, da qual só foi publicada a primeira parte em 1612). Com uma larga experiência militar, adquirida nos campos de batalha europeus ao serviço da monarquia dual e no Brasil, Joane Mendes foi encarregado por D. João IV de comentar o projecto manuscrito de Ordenanças Militares de 1643. Embora o projecto nunca tenha sido publicado, as práticas seguidas e muita da regulamentação impressa posteriormente demonstram a sua influência informal – ou, em certos casos, o prosseguimento de linhas de conduta que antecediam o projecto e que este procurou uniformizar.

O militar e investigador dos finais do século XIX e princípios do XX, Cristóvão Aires de Magalhães Sepúlveda, publicou o projecto de Ordenanças Militares e os respectivos comentários de Joane Mendes de Vasconcelos no 3º volume da Historia Organica e Politica do Exercito Português – Provas (Lisboa, Imprensa Nacional, 1908). Nessa mesma obra publicou também um manuscrito intitulado Advertências de Joanne Mendes Sobre Alguas Cousas Militares, com conselhos para o treino dos soldados e o significado de alguns termos militares usados na infantaria. É com base nesse documento que aqui são apresentados esses termos, que em certos casos também se aplicavam à cavalaria.

Disciplina militar – consiste em entender as ordens, conservar as distâncias e manejar as armas; isto se deve ensinar aos soldados, porque sabendo-o, se pode esperar que com facilidade e confiança executem tudo o que lhe for encomendado. Neste pressuposto, chegados os soldados à praça de armas e ajustados aos seus lugares, a primeira coisa que se deve encomendar é a obediência e o silêncio, ensinando-lhes que coisa é Esquadrão, Batalha, Guarnição, Manípulo, Fileira e Fila.

Esquadrão – é toda a quantidade de gente unida, armada de piques, mosquetes e toda outra sorte de armas, ordenadamente repartida em manípulos, filas e fileiras. [O termo para a formação táctica correspondente na cavalaria era batalhão, mas por vezes ambos os termos eram utilizados na infantaria e na cavalaria.]

Batalha – É uma quantidade de soldados unidos e armados de piques, ordenadamente repartidos em manípulos, filas e fileiras.

Guarnição – é o manípulo de gente armada de mosquetes, posto ao lado da batalha dos piques, repartido em filas e fileiras.

Manípulo – é o número de soldados piqueiros, ou mosqueteiros, ou de qualquer outra sorte de gente armada e unida, a tantos por fileira, a cinco, a seis, ou mais ou menos, repartidos em fileiras e filas.

Fileira – é o número de gente posta igual uma de outra, de ombro a ombro, ordenadamente em linha recta.

Fila – é o número de gente posta de trás uma da outra, em linha recta de peito e espalda.

Manga – é o manípulo de gente que, tirado fora do esquadrão, se põe diante e detrás dele, sobre os ângulos, em conveniente distância.

Ala – é o manípulo de gente posto ao lado do esquadrão, depois da guarnição, em conveniente distância, e que fecha o lado da manga da vanguarda até o da retaguarda.

Endireitar as fileiras (prática de treino) – Depois dos soldados conhecerem todos os termos acima referidos [o que não seria fácil a início, dado que os homens eram na sua maior parte analfabetos e completamente ignorantes dos assuntos militares], e estando nos lugares destimados, ordenará o cabo que se endireitem as fileiras, ou seja, que fiquem os soldados em linha recta de ombro a ombro. Mandará a seguir que se endireitem as filas, ou seja, que se ajustem os soldados uns detrás dos outros, de modo que fiquem em linha recta de peito a espalda. Ordenará também que se tomem as justas distâncias, mas porque estas são muitas, a saber, para marchar em ordenança, com o pique ao ombro, para pelejar contra a infantaria ou cavalaria, para fazer voluções, conversões e diversões, é necessário declarar e explicar as ditas distâncias, para não confundir os soldados.

Distância de marchar em ordenança – Para marchar, ou parar em ordenança com o pique ao ombro, será a distância de sete pés geométricos de peito a espalda, e três de ombro a ombro.

Distância para pelejar infantaria contra infantaria – Será a distância três pés de ombro a ombro, e outros tantos de peito a espalda.

Distância para pelejar contra cavalaria – Será a distância de pé e meio de peito a espalda e de ombro a ombro.

Distâncias para fazer voluções, conversões e diversões – Alguns preferem que seja de seis pés de ombro a ombro e de peito a espalda, outros preferem cinco somente.

Gravura: Formatura militar no Terreiro do Paço. Museu da Cidade de Lisboa, autor desconhecido, 2ª metade do século XVII.