Bandeiras, estandartes e o sentido de honra

Desde tempos muito recuados na História que as insígnias do adversário são um troféu muito procurado, até pela desmoralização que pode causar às tropas do oponente (e em sentido inverso, a galvanização do lado que realiza o feito). A esse respeito, há rituais que chegam praticamente aos nossos dias, transformados apenas pelo evoluir da tecnologia, como o do grupo de militares que se faz fotografar em redor de uma bandeira inimiga capturada. Na essência, não difere muito do orgulho demonstrado por Antão Vasques em Aljubarrota, bailando ante D. João I embrulhado na bandeira de El-Rei de Castela, capturada na batalha, antes de a entregar ao seu soberano (vide Crónica de D. João I, de Fernão Lopes).

A perda de uma bandeira, estandarte ou guião continuava a ser, naturalmente, um facto desonroso no período da Guerra da Restauração. Os códigos de comportamento ditavam que bandeiras ou estandartes capturados durante um combate fossem transportados de arrasto pelo chão, demonstrando a humilhação infligida aos perdedores. Por exemplo, no regresso de uma incursão portuguesa a Valverde, em 1641, as sete bandeiras tomadas ao inimigo foram trazidas pelo chão, no meio das duas filas formadas pelos 300 prisioneiros (Manuscrito de Matheus Roiz, pg. 16).

Ao alferes cabia a guarda da bandeira ou do estandarte. O fracasso nessa missão e a perda da insígnia punham em causa a reputação do indivíduo, mais do a unidade à qual ele pertencia. D. Luís de Meneses, Conde de Ericeira, refere o caso do alferes da ordenança João de Almeida, o qual, em 1642, ao retirar-se de um lugar atacado pelos espanhóis, se esqueceu de levar consigo a bandeira.

Estando distante do lugar, e os castelhanos entrados nele, caiu neste erro; e ainda que achava a vida segura, como o não estava a seu parecer a opinião, procurou o remédio que só a honra costuma buscar no perigo.

Voltou ao lugar onde deixara a bandeira e conseguiu resgatá-la, apesar de atacado e ferido duas vezes pelos inimigos. (Conde de Ericeira, História de Portugal Restaurado, Porto, Civilização, 1945, vol. I, pg. 369).

Imagem: Pormenor da batalha do Ameixial, segundo o painel de azulejos da “Sala das Batalhas” do Palácio dos Marqueses de Fronteira. No canto inferior direito, um alferes da cavalaria espanhola procura salvar o estandarte da sua unidade.

A simbologia das bandeiras no século XVII – o vermelho e o branco

Bandeira vermelha – sinal de guerra

Antes do Conde governador das armas mandar se batesse a vila de Valverde, enviou notificar ao inimigo pelo guardião de S. Francisco do mosteiro recolecto, que junto aí a vila tinha, acompanhado de um atambor, se rendesse, pois via o poder de nosso exército e se lhe faria bom quartel. Respondeu animoso que estava inexpugnável, apercebido de gente, armas e todo necessário para larga defensão. Continuou com ímpeto em despedir cargas contínuas de balas e arvorou bandeiras vermelhas, em sinal de guerra.

Bandeira branca – sinal de capitulação

Sobre a qual tão temerosa tempestade de bocas de fogo deu parecer Matias de Albuquerque, se mandasse por um trombeta denunciar o assalto, declarando aos cercados, que se logo se não dessem, se não perdoaria a vida a coisa vivente. E como o tempo e a necessidade abranda a ira, destituídos os cercados da esperança de socorros, se acovardaram a este aviso, de sorte que logo o governador da praça Dom João Baptista Penhetelo lançou bandeira branca, e escreveu carta ao Conde governador para se render e tratar capitulações, uma hora depois do meio-dia do mesmo Sábado, onze de Setembro de 1643.

Trechos extraídos e adaptados para português corrente da obra de ARAÚJO, João Salgado de, Successos Militares das Armas Portuguesas em suas fronteiras depois da Real acclamação contra Castella. Com a geografia das Prouincias, & nobreza dellas, Lisboa, Paulo Craesbeeck, 1644, respectivamente pgs. 188 v e 191. O contexto é a campanha de Valverde, durante a ofensiva do exército do Alentejo em território inimigo, com a participação (a distância segura) de El-Rei D. João IV.

Imagem: Reconstituição histórica da Guerra Civil Inglesa, Old Sarum, 1991. Foto do autor.