A situação militar na província da Beira em Junho-Julho de 1645

Meulener

Em 10 de Julho de 1645, o Conselho de Guerra era informado acerca da situação militar na província da Beira, através de um conjunto de cartas enviadas pelo governador das armas, D. Fernando Mascarenhas, 1º Conde de Serém, e do tenente de mestre de campo general João Lopes Barbalho. Na verdade, pelo menos uma das cartas foi colocada no maço em data posterior à data da consulta, visto ter sido remetida de Penamacor em 8 de Julho.

Vejamos como relatava o Conde a situação na província que governava, transcrevendo a sua carta de 25 de Junho de 1645, remetida de Salvaterra do Extremo:

(…) O tenente de mestre de campo general me disse havia de fazer a Vossa Majestade a relação da entrada do inimigo em Portugal, e da festa que ontem nos veio fazer com grande quantidade de cavalaria e duzentos e sessenta infantes; eu estou informado de eles haverem trazido pouca pilha [o Conde quer dizer que levaram para Espanha pouca pilhagem], e ainda essa que trouxeram têm seus donos a culpa, porque tendo aviso de que o inimigo juntava poder, os avisámos que estivessem alerta, e em que tirando uma peça e fazendo facho era sinal que o inimigo estava em Portugal. Assim que chegou aviso, que era uma para as duas, depois da [sic] com grande cuidado tirou e fez facho e nem tanto daí a meia hora, pela manhã, tirámos outra peça a que nos respondeu Idanha, com que fiquei descansado e imaginando que tudo havia recolhido. Na mesma manhã nos trouxeram duas línguas e soubemos delas haverem passado as tropas de Alentejo a noite de sexta-feira e naquela haverem vindo duas para a Zarza, bem entendi eu a peça, vieram-nos tocar arma (…) de que eu zombei bem, e não houve lugar de lograrem os zarzos seu desejo. Dizem estes homens que dizem em Alcântara que temos grande governo, se nós nos víramos com poder não haviam eles de fazer tantas pilharias, por mais que a sua gente cobrisse estes campos, que pela conta eram mais de seiscentos homens de cavalo, afora os que iam com a tropa da pilha que era de dragões. E dizem uns muchachos, que vinham tangendo as ovelhas, que vinham desarmados, dizendo que os haviam enganado os sarcenhos [naturais de Zarza la Mayor] que não levam nada, o que eu posso assegurar a Vossa Majestade é que se nós tivéramos boa artilharia, que lhe havíamos de fazer muito dano, mas não deixámos de lhe fazer algum, de um tiro dou eu fé, que derrubou um do cavalo, e também uma emboscada que lhe tinha o tenente-general feita lhe houvera de matar alguns, se antes de eles chegarem a tiro uma pessoa, que ele deve dizer a Vossa Majestade, não mandara disparar e descobrir a gente, alguns lhe haviam de ficar, como na refrega passada ficaram, que dizem esses línguas que lhe matámos na refrega passada muita gente, e entre eles um capitão de cavalos e um tenente e dois dos principais da Zarza; eles não podem ter aqui muito esta gente e devem ir dando por todas as nossas fronteiras, vendo se podem fazer algumas pilhas [isto é, pilhagens], e não era mau avisar Vossa Majestade a Castelo Rodrigo e a Alfaiates e a Almeida que recolham os gados, que nunca a prevenção fez mal (…).

Na mesma data, o tenente de mestre de campo general João Lopes Barbalho enviou de Salvaterra uma outra carta, com teor muito semelhante à do governador, mas num português mais escorreito. Dois dias mais tarde, o Conde de Serém expedia outra carta, dando conta de que Salvaterra do Extremo se encontrava cercada pelo inimigo. Uma outra carta, remetida de Penamacor em 1 de Julho, dava conta da situação militar na província e referia que o tenente de mestre de campo general se encontrava em Idanha-a-Nova com 200 infantes pagos e 200 cavaleiros. A quinta e última carta, incluída no lote dos anexos em data posterior à da consulta, refere que o inimigo, devido à superioridade numérica da sua cavalaria, se encontrava senhor da campanha e não se lhe podia impedir as pilhagens, tendo realizado algumas entradas.

Fonte: ANTT, Conselho de Guerra, Consultas, 1645, maço 5, doc. nº 81, consulta de 10 de Julho de 1645 e cartas anexas.

Imagem: Combate de cavalaria (pormenor), óleo de Pieter Meulener.

Escaramuças na província da Beira em Maio de 1646

Continuando a transcrever alguns documentos, cujas cópias o estimado amigo Julián García Blanco me remeteu, cabe agora a vez de uma breve carta narrando escaramuças ocorridas na província da Beira. Os manuscritos pertencem ao espólio da Biblioteca Nacional de Madrid e são cópias coevas das cartas originais, para registo de arquivo, à semelhança das que se podem encontrar nos Livros de Registo da Secretaria de Guerra, em Lisboa.

As escaramuças que são descritas numa carta endereçada a um padre jesuíta de Évora não se encontram mencionadas na História de Portugal Restaurado do Conde de Ericeira. Episódios menores, em comparação às operações de maior envergadura que nesse ano ocorreram na província, são todavia de interesse para o conhecimento da vivência da guerra e seus efeitos sobre as populações da fronteira.

Carta de Francisco Leonardo a um religioso da Companhia do Colégio de Évora, em que dá novas de um sucesso que o nossos tiveram na Beira contra os castelhanos em 15 de maio de 1646

Novas da Beira têm sucedido agora muito boas. Em Alfaiates tivemos um bom sucesso, pelejou uma tropa de cavalos nossa de 40 soldados, com duas companhias de infantaria, com 150 cavalos cavalos sarcenhos [ou seja, de Zarza la Mayor] e foram derrotados, deixando no campo mortos 21 e muitos cavalos, e dezassete vivos, e a presa que levavam restituída ao lugar de Souto e Quadrazais. Se o Tejo se pudera vadear tivéramos a maior presa do mundo todo; a qual mandava o Conde [de Serém] fazer pelo tenente-general da artilharia, que passou o rio com 40 cavalos, e o resto deles ficou por se perder a barca, com que a infantaria não teve em que passar também da outra parte. E como se mal logrou esta ocasião, vendo o tenente-general da artilharia que não tinha caminho para Portugal senão marchando por Castela, o fez bizarramente com os 40 cavalos, e chegou a Carvajo de Santiago [Santiago de Carbajo], e a Membrio, e a outros lugares, e recolheu tudo o que neles achou até entrar aqui por Montalvão a salvamento, sem perda mais que de dois homens que se afogaram ao passar do rio. O forte de Zebra, que o Conde mandou fazer, está feito uma Rochella [comparação exagerada, feita pelo autor, com as defesas de La Rochelle, em França], dali se faz grandes estorvos aos danos que o inimigo fazia em algum tempo. O Bispo de Ciudad Rodrigo comete tréguas no que toca a roubos, e que se faça a guerra por termos militares; avisou-se disto a Sua Majestade, para o mandar resolver.

Francisco Leonardo

Fonte: Biblioteca Nacional de Madrid, mss. 8187, “Relações manuscriptas de Portugal, desdo anno de 1643 athe 1646″, fls. 70-70 v.

Imagem: Soldados de infantaria do século XVII. Museu Militar de Estocolmo. Foto de JPF.

Efectivos do partido de Penamacor (província da Beira) em 1659

Numa carta redigida em 18 de Junho de 1659 pelo mestre de campo João Fialho, dirigida ao Conselho de Guerra, é exposta a situação preocupante em que se encontrava o partido de Penamacor. Estava então o governador das armas D. Sancho Manuel ainda ausente, pelo que o mesmo Conselho deu parecer para que D. Sancho regressasse com a maior brevidade à província da Beira. Os efectivos necessários para a defesa e os que na realidade existiam no partido de Penamacor encontram-se expostos na carta de uma forma concisa mas bem detalhada. Escrevia então o mestre de campo João Fialho:

Guarnição que necessitam:

300 infantes, a praça de Penamacor;

300, a praça de Salvaterra [do Extremo], meia légua da da Sarça, donde se metem os comboios com a espada na mão;

200, a praça de Segura, uma légua idem;

50, a praça da Zebreira, duas léguas idem;

50, a praça de Rosmaninhal, duas léguas de Alcântara;

50, a praça de Penha Garcia;

[Total:] 950 infantes que são necessários para guarnição destas praças e atalaias de seu distrito.

Guarnição que tem este partido:

495, o terço pago, inclusas duas companhias de auxiliares que andam anexas a ele;

300, dos auxiliares desta comarca de Castelo Branco;

[Total:] 795. Desta gente paga e auxiliar estão muitos ausentes, e outros não há tê-los nas praças, que forçados da necessidade se vão a casa de seus pais a remediar.

300 cavalos, inclusos os doentes e incapazes, e três companhias de auxiliares dos moradores da raia, e quando se monta aos rebates chega a duzentos.

Compare-se estes números com os efectivos do mesmo partido em 1648 e em 1663.

Fonte: ANTT, Conselho de Guerra, Consultas, 1659, maço 19, “Rellação da guarnição que hão mister as praças da Raya deste partido de Castelo branco, E da que tem, e das Legoas que distam das do inimigo”, anexa à consulta de 27 de Junho de 1659.

Imagem: Pormenor de um mapa francês do início do século XVIII, mostrando parte da região compreendida pelo partido de Penamacor (ou de Castelo Branco) em 1659, bem como as localidades espanholas mencionadas no documento. Biblioteca Nacional, Cartografia, CC1777A.

A destruição parcial da ponte de São Felizes, 20 a 23 de Fevereiro de 1646, e outras operações na província da Beira

Depois de um interregno superior a um mês, o mais longo desde que iniciei o blogue, aqui regresso com um par de testemunhos da pequena guerra de fronteira, ambos aludindo a um acontecimento menor, mas de muita importância para a vivência das populações da raia. Trata-se do assalto e destruição parcial da ponte de São Felizes, um cenário do teatro de operações da província da Beira.

O episódio não mereceu mais do que duas linhas ao Conde de Ericeira na História de Portugal Restaurado, tendo certamente consultado para o efeito a breve notícia inserida na Relaçam geral de tvdo o svccedido nas fronteiras de Portugal o mes de Julho, & Agosto, com a tomada da Codiceira, & da Põte de Saõ Felizes na Beira, Em Lisboa, Na Officina de Domingos Lopes Rosa, Anno 1646. Este ano de 1646, em termos de operações bélicas, foi dominado pela última grande campanha ofensiva em vida de D. João IV, a partir do Alentejo, que culminaria nos combates de Codiceira e Telena. Todos os recursos materiais e financeiros foram mobilizados para aquela província, de modo que as restantes ficaram reduzidas ao preparo defensivo e às limitadas actividades da pequena guerra, que de resto caracterizariam o conflito nos dez anos seguintes. Há, no entanto, outras fontes que apresentam mais pormenores sobre este obscuro acontecimento.

A cópia de um manuscrito que em boa hora o amigo Julián García Blanco – a quem eu renovo os meus agradecimentos – me fez chegar às mãos, pertencente ao espólio da Biblioteca Nacional de Madrid, inclui duas cartas (na verdade, cópias coevas das cartas originais, para registo de arquivo, à semelhança das que se podem encontrar nos Livros de Registo da Secretaria de Guerra, em Lisboa) onde é feita menção à operação. A primeira delas, sem data, mas com o registo à margem de Fevereiro de 1646, foi enviada pelo Conde Marechal (D. Francisco de Mascarenhas, Conde de Serém e governador das armas) ao Rei. A outra carta não reporta em primeira mão, tendo sido escrita em Lisboa em 7 de Março de 1646 pelo padre António de Amaral, mas refere no seu conteúdo o que o doutor António Cabral de Castelo Branco, morador em Celorico, escreveu ao padre sobre o assalto à ponte de São Felizes. Dado o interesse de ambos os documentos, passo a transcrevê-los, vertendo-os para português corrente para melhor entendimento.

Cópia da carta para Sua Majestade, do Conde Marechal, sobre a Ponte de São Felizes

Em 20 do corrente mandei intentar a entrepresa da ponte de São Felizes, conforme a ordem de Vossa Majestade. Encarreguei esta facção ao sargento-mor Agostinho de Andrade Freire, soldado de mui boa satisfação. Levou a seu cargo 600 infantes e três companhias de cavalos, e com o favor de Deus se investiu com a ponte somente pela parte deste Reino, por se não poder vadear o rio. Avançou a nossa gente a uma torre forte que havia no meio da ponte, se ganhou com facilidade, logo se passou a gente necessária à parte de Castela [para] ocupar uma colina, posto muito importante para se trabalhar com seguridade, e para impedir o dano que por aquela parte o inimigo nos podia fazer. Julgou-se por tempo necessário um dia para se derrubar a ponte, e não se pôde conseguir em menos de três dias pela grandeza e fortaleza de sua fábrica, desta detença se resultou grande glória, com grande reputação às armas de Vossa Majestade.

O inimigo juntou tudo quanto pôde nestes dias e não ousou acometer a nossa gente, por termos postos avantajados e retirada segura, e só usou de tocar arma de noite em Almeida, entendendo se disparasse a artilharia com que se divertisse a nossa gente [ou seja, procurou fazer soar o alarme para que os portugueses retirassem da ponte e fossem socorrer Almeida], o que lhe não sucedeu por se entender que este era o seu desígnio.

A nossa gente está fortificando o lugar de Vermiosa, e com intento de se fazer atalaia no Cabeço das Mesadas, com que se julga ficarão os lugares de Riba de Coa com quietação e sossego.

Filipe Bandeira de Melo, governador da praça de Almeida, se houve com muito boa disposição e diligência nos aprestos de socorros de mantimentos e munições todos os três dias, com tanto cuidado que me obrigou a lembrar a Vossa Majestade seus procedimentos. Isto é em suma o que tenho sabido deste bom sucesso, de que me pareceu avisar a Vossa Majestade para o ter entendido. (…)

O segundo documento é mais breve, mas reporta uma outra acção, além da ponte de São Felizes.

Novas da Beira em carta de Lisboa do padre António de Amaral,  de sete de Março de 1646

Chegou carta do padre António Cabral de Castelo Branco, morador em Celorico, em que conta a facção da ponte de São Felizes na forma seguinte. O capitão Brás de Amaral, levando até mil soldados, acometeu a ponte e o castelejo, onde achou até 30 soldados castelhanos, os quais, querendo se defender, foram mortos pelos nossos; que vencido este primeiro encontro, passaram fazendo rosto ao lugar de São Felizes de Galegos, deixando oficiais fazendo minas na ponte, que constava de cinco fortes olhões, e tendo-lhe metida a pólvora nas minas, se mandou voltar os nossos e que passassem a ponte, à qual mandou dar fogo e fez voar pelos ares. Ficaram da nossa parte três ou quatro lugares dos castelhanos; com isto ficamos seguros deles poderem passar a nossas terras em Inverno; nelas andam já os nossos semeando os tremoços.

A segunda facção foi em 26 do passado, saíram da Sarça e da parte de Alcântara 40 cavaleiros a roubar-nos as terras das Idanhas, colheu-os da nossa banda a cheia dos rios. Saíram-lhe os nossos e cativaram trinta, os dez que os guiavam e eram portugueses traidores, temendo que, se os cativassem os nossos, haviam de ser arcabuzeados, se lançaram ao rio e nele se afogaram todos. (…)

Estes dois documentos complementam-se nas informações que dão sobre a destruição parcial da ponte de São Felizes. O limitado objectivo estratégico foi – como muitas vezes na pequena guerra de fronteira – o de proteger as populações das incursões predatórias do inimigo. Num pormenor diferem as duas cartas: o comando das operações. Enquanto o governador das armas refere ter atribuído o comando ao sargento-mor Agostinho de Andrade Freire, já as informações recebidas pelo padre de Lisboa indicam o capitão Brás de Amaral Pimentel – provavelmente o oficial que comandou as forças no terreno durante o assalto à ponte. Por outras fontes do período da Guerra da Restauração, sabe-se que Agostinho de Andrade Freire, apesar da sua reputação de soldado experiente, não gostava muito de expor a sua pessoa a riscos desnecessários. Quanto a Brás de Amaral Pimentel, viria a ser capitão-mor de Almeida nos inícios da década de 50, e nesse cargo teve alguns contratempos pessoais. Mas isso fica para outra ocasião.

Fonte: Biblioteca Nacional de Madrid, mss. 8187, “Relações manuscriptas de Portugal, desdo anno de 1643 athe 1646”.

Imagem: Vista parcial do perímetro defensivo da praça de Almeida, na actualidade. À direita, os quartéis de cavalaria, datando do século XVIII. Foto de JPF.

Espionagem e traição na fronteira da Beira, 1651 – o caso do capitão João Cordeiro

Ao capitão de cavalos da ordenança João Cordeiro já foi feita referência a propósito do assalto à ponte de Alcântara. Nascido ou pelo menos criado em Segura, tido como guia experiente, o capitão perdeu-se quando conduzia a força que devia executar o ataque à praça raiana, resultando daí o atraso no início das operações. Em consequência, D. Sancho Manuel mandou-o prender. Mais tarde, esclarecido o caso, o oficial foi libertado.

Quanto a espionagem e contra-espionagem, recentemente foi trazido aqui um exemplo a partir de um documento coevo. O capitão João Cordeiro também esteve relacionado com este campo particular da guerra de fronteira. A tal ponto que aí ficou traçado o seu destino.

Em 15 de Maio de 1651, uma consulta do Conselho de Guerra tratava de um acontecimento ocorrido – presume-se – na praça de Segura. A falta da carta de D. Sancho Manuel, que a consulta apenas resume, não permite saber ao certo. O que se passou naquela distante fronteira foi considerado assunto grave: o governador das armas dava a conhecer a traição que um castelhano da Sarça [Zarza la Mayor] (que por via do capitão João Cordeiro lhe dava alguns avisos, que se lhe pagavam com pontualidade) cometeu, matando o mesmo capitão João Cordeiro. Sendo o caso que, vindo-se este castelhano a descobrir com os seus oficiais [ou seja, a revelar o seu papel de espião], eles o persuadiram a que matasse o capitão João Cordeiro, como fez, e vindo na noite de 4 do presente comboiado pelas tropas inimigas, chegara à porta do capitão João Cordeiro, metendo-se por onde a praça ainda não estava fechada, sem ser sentido das sentinelas por não vir pelas avenidas; e dizendo ao capitão que lhe trazia um aviso para dar a ele Dom Sancho, se apartara o capitão João Cordeiro com ele, e estando sós lhe dera o castelhano um pistoletaço de que logo morreu, pondo-se o traidor logo em cobro, o que pôde fazer porque no mesmo tempo acometeram as tropas do inimigo às avenidas e se tocou arma, com o que teve lugar o traidor de se meter com os seus, que se retiraram ao som de trombetas, como se com sua traição conseguiram ganhar uma província.

Contava assim D. Sancho Manuel, despeitado, o triste fim do capitão da ordenança, de quem havia três anos desconfiara e mandara prender. Pela traição, sugere que o Rei mande que se não dê quartel a nenhum castelhano, e que permita que o próprio D. Sancho possa mandar executar os inventores desta maldade.

Os conselheiros opuseram-se de forma veemente a esta sugestão de D. Sancho, pois não se devia admitir nem praticar tal coisa, por não se usar entre cristãos o não dar quartel. Sugeriram ao Rei que mandasse D. Sancho acabar de cerrar a praça, para que ninguém pudesse entrar sem ser sentido – e se não pudesse ser com muralha, que fosse com trincheira e estacada. Quanto aos herdeiros do falecido capitão, consideraram ser merecedores de receber alguma mercê régia, em virtude de João Cordeiro ter sido um grande sujeito, bizarro e valente capitão.

Uma curiosidade: a título particular, acrescentaram à consulta D. Álvaro de Abranches e Jorge de Melo os seus pareceres, nos quais disseram que os moradores da Sarça são costumados a fazer traições, por onde já tiveram castigo, o que lhes parece que se encomende a Dom Sancho procure fazer o mesmo ao traidor.

Espionagem e contra-espionagem – mas também traições, castigos e vendettas. A fronteira da Beira parece ter sido terreno fértil nestes casos. O historiador Gastão de Melo de Matos, na sua obra Um soldado de fortuna do século XVII (Lisboa, s. n., 1939), narra o episódio de dúbios contornos do então sargento-mor António Soares da Costa, o Machuca, e o triste fim de D. Alfonso de Sande y Dávila. Mas, como costuma dizer Juan Antonio Caro del Corral, isso é outra história.

Fonte: ANTT, Conselho de Guerra, Consultas, 1651, maço 11, consulta de 15 de Maio de 1651.

Imagem: Pausa dos militares. Pintura de Simon Kick (1603-1652).

O assalto à ponte de Alcântara, 25 e 26 de Março de 1648 (2ª parte)

Na madrugada de 26 de Março, uma quinta-feira, D. Sancho Manuel reatou a investida contra a ponte de Alcântara. Duas horas antes do amanhecer, a força portuguesa logrou aproximar-se do objectivo, enganando os sentinelas ao falar-lhes em castelhano, dizendo que eram moradores de Zarza e que vinham pedir socorro, pois que D. Sancho Manuel tinha tomado a vila. Com este estratagema, os homens do terço do mestre de campo João Lopes Barbalho investiram de surpresa a ponte, rompendo três portas, duas estacadas e dois retrincheiramentos com três petardos, e o demais a braço dos infantes, estando de guarnição nelas duzentos e trinta infantes com três capitães e um sargento-mor por cabo, que havendo acudido à defesa com muito valor, não bastou para resistir ao com que os soldados de Vossa Majestade a trataram de ganhar, sobre que pudera dizer grandes encarecimentos, que não faço, porque a poderá melhor significar a consideração de que não era possível ganhar-se tanta fortificação sem demasiado valor, o que experimentaram os castelhanos à custa de muitas mortes, em que entraram pessoas de consideração. (Carta de D. Sancho Manuel).

Os defensores que estavam de guarda retiraram precipitadamente, oferecendo pouca resistência, até ao meio da ponte, onde se juntaram à companhia do capitão D. Rodrigo de Aponte y Zúñiga; recebendo reforços, a força defensora conseguiu parar a investida dos portugueses. De parte a parte houve muitos mortos e feridos, resultantes do encarniçado combate que se travou.

Impossibilitado de avançar mais, João Lopes Barbalho tratou de garantir o terreno já conquistado. (…) [G]anhada a metade da ponte, havendo favorecido muito poder do inimigo, tratou o mestre de campo de se cobrir com trincheiras, em que era noite, por escutar as ofensas que se lhe poderiam seguir, de amanhecer sem estar reparado, maiormente que se não necessitava mais para o intento de derrubar a ponte que o espaço dela que estava ganhada. E assim mandou abrir minas, nas quais se continuaram cinco dias com o cuidado que pedia a matéria, recrescendo no escuro (…) todas as horas socorros de consideração ao inimigo, que para estorvar o intento faziam empenhos que não foi possível conservar o posto sem uma contínua bateria, de que nos resultou perda de 30 mortos e 76 feridos, que recompensou bem o efeito que resultou da mina, que foi arrebentar um arco que tinha de largo cento e cinquenta palmos, e de arco de sessenta, com o que não somente se segue arruinar a Castela uma das maiores obras de seus Reinos, impossibilitar à vila de Alcântara lucro de suas fazendas, impedir à Zarza e aos mais lugares que ficam desta parte do Tejo os socorros que lhe vinham de Badajoz, senão ainda desafogar esta Província dos danos que padecia a este respeito. (Carta de D. Sancho Manuel)

Os alcantarenses tinham recebido reforços de várias partes e de toda a nobreza de Brozas e de Cáceres, mas optaram por não os empregar em operações de contra-ataque devido à duvidosa qualidade dos mesmos. Assim, assistiram impotentes ao derrube do arco da ponte, se bem que um manuscrito coevo, transcrito por Gervasio Velo y Nieto, refere que El daño que el rebelde hizo en el puente no fué tanto como se pensó, porque todo el arco que juzgó volar quedó firme en las claves y solamente de los lados padeció alguna ruina. No ha impedido el paso, antes hoy dice el ingeniero mayor del ejército, que aquí se halla, tiene la cortadura linda disposición para hacerse un puente levadizo, con que quedará más asegurada la defensa de esta plaza y del puente. (Velo y Nieto, pg. 78)

No mesmo manuscrito, elaborado pouco depois do combate, pode ler-se que o número de baixas dos portugueses era desconhecido, e que entre os defensores houve netre 12 e 15 mortos e mais de 300 feridos e queimados, entre eles um sobrinho do mestre de campo D. Simón de Castañiza, caído na ocasião do rebentamento do primeiro petardo português.

Já D. Sancho Manuel termina a sua carta com as considerações finais e as recomendações  dos que mais se tinham distinguido em combate:

E no último dia em que havíamos de dar fogo às minas acabou o inimigo de juntar todos seus socorros, com que fez muito maior número de cavalaria e infantaria do com que eu me achava. E porque me não perturbassem, ordenei ao comissário geral que com trezentos cavalos e cem infantes fosse a impedir-lhe a pasagem do rio Alagão e procurasse queimar-lhe as barcas, o que ele fez com grande bizarria, ocupando o vau e mandando ao ajudante da cavalaria João de Almeida de Loureiro que fosse ao porto das barcas a queimá-las, o que obrou com mui bom sucesso, com o que sem sobressaltos consegui o que pretendia. Estimara ser instrumento para que Vossa Majestade lograra outras maiores facções, se bem esta se deve avaliar por uma das maiores que se tem conseguido depois da feliz aclamação de Vossa Majestade. Nesta ocasião se houve o mestre de campo João Lopes Barbalho com a disposição e valor que as armas de Vossa Majestade têm experimentado de seu talento há muitos anos, assim nas guerras do Brasil como deste Reino, e foi-lhe bom companheiro o capitão António Soares da Costa, ajudante de tenente de mestre de campo general, que foi o primeiro que entrou às portas petardeadas; o capitão Pedro Craveiro de Campos, que nesta ocasião ocupou a vanguarda até ser ferido nela, na qual sucedendo os capitães Filipe do Vale Caldeira e Simão de Oliveira da Gama; que com muito valor pelejaram o ajudante Álvaro Saraiva, que governando uma companhia fez o mesmo; os ajudantes Manuel Machado Caldeira e Domingos da Silveira acudiram com particular satisfação às obrigações de seus cargos, e geralmente o fizeram todos, de maneira que devem ser admitidos em título dos melhores vassalos que logra a Coroa de Vossa Majestade, cuja Católica e Real Pessoa guarde Deus largos e felizes anos, como a Cristandade há mister. Idanha.

Em conclusão, o ambicioso plano de D. Sancho Manuel de Vilhena não pudera concretizar-se na tomada de Alcântara; todavia, restava ao cabo de guerra português demonstrar o seu zelo e  exaltar, do meio-sucesso obtido, um episódio de reputação para as armas régias, como aliás fazia frequentemente. As poucas linhas que dedica à operação o Conde de Ericeira (meia dúzia, literalmente, na edição de 1751, facsimile acessível online a partir de Google ebooks) são demonstrativas do pouco efeito prático que o rebentamento parcial da ponte teve, apesar do que D. Sancho Manuel sugere na sua carta. Mas para a pequena guerra de fronteira, mesmo sem pesar no quadro da estratégia global, foi mais uma ocasião de experiência de combate para as forças envolvidas.

Fontes e bibliografia:

ANTT, Conselho de Guerra, Consultas, 1648, maço 8-A, carta de D. Sancho Manuel, anexa à consulta de 25 de Abril de 1648.

ERICEIRA, Conde de – História de Portugal Restaurado, Parte I, Livro X, edição de 1751, pg. 268; obra parcialmente disponível on-line.

VELO Y NIETO, Gervasio – Escaramuzas en la frontera cacereña, con ocasión de las guerras por la independencia de Portugal, Madrid, s.n., 1952.

Imagem: “Trabalhos de fogo”, pormenor de um quadro de 1645, de Joseph Furttenbach, Germanisches Nationalmuseum. Representa um engenheiro de fogos, armado de capacete, coura e com uma rodela para defesa pessoal, bem como o instrumento com que os artilheiros davam fogo à peça, com dois morrões acesos – e que era usado também para os petardos.

O assalto à ponte de Alcântara, 25 e 26 de Março de 1648 (1ª parte)

Em 25 e 26 de Março de 1648, o governador das armas do partido de Penamacor, província da Beira, D. Sancho Manuel de Vilhena, tentou um arrojado empreendimento militar contra a bem fortificada praça de Alcântara (Alcántara, em castelhano). O acontecimento mereceu uma menção não muito extensa do Conde de Ericeira na História de Portugal Restaurado (parte I, Livro X, pg. 268, da edição de 1751, parcialmente disponível on-line). Já no século XX, o historiador espanhol Gervasio Velo y Nieto dedicou ao assalto algumas páginas em Escaramuzas en la frontera cacereña, con ocasión de las guerras por la independencia de Portugal (Madrid, s.n., 1952, pgs. 74-77), embora tenha transcrito erradamente a data do acontecimento a partir de um documento coevo, situando-o em Maio. Este episódio da pequena guerra de fronteira, tão característica do conflito luso-espanhol, permanece hoje praticamente desconhecido. Tivesse sido o resultado favorável às forças de D. Sancho Manuel, a façanha teria sido certamente perpetuada de modo estrondoso. Mesmo assim, sem ter logrado o objectivo inicial, a operação militar não foi deslustrosa, de acordo com a valoração das atitudes militares da época. Por isso, o futuro Conde de Vila Flor enviou a D. João IV um relatório detalhado, se bem que algo confuso na redacção, onde se refere ao “glorioso sucesso” da ponte de Alcântara.

O delinear da operação enquadra-se no pensamento militar típico do período: ausência de uma estratégia concertada com as outras frentes de guerra, desejo de notabilização do comandante em chefe por meio do acrescento da reputação das armas de Sua Majestade (que, em caso de sucesso, poderia traduzir-se numa recompensa pecuniária e no acréscimo da reputação do cabo de guerra, por via das mercês régias), reacção a anteriores actividades de depredação levadas a cabo pelo inimigo através de uma operação punitiva. No caso vertente, D. Sancho Manuel não se limitou a preparar uma acção de pilhagem, mas apontou a um fim mais ambicioso: a tomada de uma importante praça. No cerne da sua resolução também se encontra um traço comum à prática da guerra na Era Moderna – a fraca consistência da informação obtida sobre o inimigo, o que neste caso levou D. Sancho a supor que a operação poderia ser coroada de êxito, como veremos pela transcrição da sua carta.

A preparação da acção dificilmente seria mantida em segredo, pois os efectivos mandados concentrar eram de tal número para aquela parte da fronteira, que não passariam despercebidas ao exército espanhol as necessárias movimentações militares. Foram mobilizados 1.000 infantes: o terço do mestre de campo João Lopes Barbalho, reforçado com 200 elementos do terço do mestre de campo Diego Sanchez del Pozo – castelhano que se notabilizou ao serviço de D. João IV – e 100 auxiliares; e 500 cavaleiros comandados pelo comissário geral Pierre Maurice Duquesne, em 9 companhias. Duas destas eram da ordenança, pois a cavalaria de auxiliares só tomaria forma em 1650, e uma  era do exército do Alentejo, enviada como reforço – a do holandês Manuel Cornellis. No regresso desta companhia ao Alentejo ocorreria o episódio já aqui tratado sob o título “Um crime em Abrantes”. Acompanhava esta força de infantaria e cavalaria um grande número de carros e carretas, com diverso material e o necessário equipamento de fogos (petardos para derrubar as portas da fortificação) e os respectivos engenheiros.

Velo y Nieto refere que era esperada uma operação de envergadura por parte dos portugueses, mas não se sabia qual seria o objectivo. Havia receios que fosse Zarza la Mayor, em vingança de alguns dissabores causados pela cavalaria de Zarza, os montados, semelhantes às companhias de cavalos pilhantes ou moradores de algumas localidades portuguesas da fronteira. Mas Alcântara parecia pouco provável:

La conquista de la misma resultaba en extremo difícil, porque para llegar a sus puertas era indispensable vadear el río Tajo o pasar el puente romano, y ambas empresas ofrecían serios peligros; la primera, porque los accidentes de sus orillas imposibilitaban o dificultaban en extremo el paso de la artillería y demás pertrechos, ya que el terreno que circunda a la plaza es escabroso y casi inaccesible; y la segunda, porque si se aventuraban a cruzar el puente, serían barridos con el fuego de los mosquetes y la artillería. (Velo y Nieto, pgs. 74-75)

A progressão da força portuguesa foi lenta e atabalhoada e o factor surpresa, se é que era possível mantê-lo, logo se perdeu. No entanto, os espanhóis tardaram a acreditar que o objectivo de D. Sancho Manuel fosse a praça de Alcântara. Pensaram que se tratava de uma manobra de diversão até que a evidência os desenganou. Seguiu-se um combate renhido. Passemos à narrativa de D. Sancho Manuel, vertida em português corrente:

Por esta dou conta a Vossa Majestade do glorioso sucesso que Deus foi servido dar às armas de Vossa Majestade nesta Província, por meio dos que nela nos desvelamos pelo real serviço, e foi que resolvendo-me a empreender o que mais convinha à reputação das armas de Vossa Majestade, à quietação desta Província e bem deste Reino, me fui aos 24 para os 25 deste mês sobre a ponte de Alcântara, para naquela madrugada a entreprender, facilitando-me a facção haver alcançado notícias da pouca guarda e apercebimento com que estava a ponte, se bem prevenida de fortificação considerável, que constava de uma estacada forte, a que se seguia uma trincheira de 25 palmos de alto com uma porta mui forte, e a esta se seguia outra ainda de mais consideração, a que sucediam dois retrincheiramentos; e a eles outra estacada com porta, e acabado isto se topava com uma torre que havia no meio da ponte, bem aparelhada no forte para a defesa. Para conseguir este intento levei quinhentos cavalos governados pelo comissário Pedro Maurício Duquesne, que constavam das companhias dos capitães Gaspar de Távora, Manuel Furtado de Mesquita, João de Melo Feio, Dom Francisco Naper, e duas da ordenança, de Henrique Leitão Rodrigues, governada pelo seu tenente Fernão da Guarda, e João Cordeiro, com mais as de Manuel Cornellis e Nuno da Cunha de Ataíde, a cujo cargo vieram estas duas companhias, e sem embargo de seus achaques se achou em tudo com grande zelo. Era a infantaria mil infantes, dos terços dos mestres de campo João Lopes Barbalho, em que marchariam setecentos homens das companhias dos capitães Filipe do Vale Caldeira, Simão de Oliveira da Gama, Manuel de Brito, Mateus Alves, Simão da Costa Feio, Simão Fernandes de Faria, Fernão Monteiro Fialho, Jorge Fagão e a do capitão Diogo Freire, governada pelo seu alferes Per André, e a do mestre de campo governada pelo seu sargento com mais três companhias de auxiliares dos capitães João de Elvas, António Estaco, Manuel Laranjo, e marchavam mais duzentos infantes do terço do mestre de campo Diogo Sanches del Poço, a quem chamei com eles para se achar nesta ocasião; eram dos capitães Paulo de Andrade, Bartolomeu de Azevedo e a companhia de Bernardo Pereira, governada pelo ajudante Álvaro Saraiva. Com esta gente, que me pareceu bastante, me saí da praça de Segura, e em razão de lhe tocar por seu turno, nomeei para o primeiro assalto ao mestre de campo Diogo Sanches com a sua gente, dando-lhe do outro terço a que me pareceu necessária e todos os apetrechos de fogo e engenheiros dele que convinha para a execução do intento, e para sua guia ao capitão João Cordeiro, pessoa que por se haver criado na praça de Segura, era mais prático naquele distrito. E nesta conformidade, dando ao mestre de campo a gente que lhe tocava para a facção, o despedi pelo caminho mais oculto por onde se poderia avizinhar a ponte. E eu com o resto do que me ficou, segui via direita a emboscar-me junto a ela, donde havia de arrebentar [ou seja, aparecer], tanto q se petardeasse a primeira porta. Mas sucedeu muito ao contrário do que se podia imaginar, e foi que João Cordeiro, nas duas léguas que há de distância de Segura [a] Alcântara, gastou toda a noite sem acabar de chegar, a cuja causa o tenho prezo por me parecer não podia ser sem culpa sua, e vendo eu que por ser já claro dia se ia perdendo a facção, mandei investir a ponte pelo mestre de campo João Lopes Barbalho, parecendo-me que não podia Diogo Sanches estar tão longe que às primeiras cargas não chegasse com os petardos e mais aparelho de escalar, com o que por esta via se poderia remediar a falta que com sua tardança se seguia. Mas nem por esta via se conseguiu por esta vez a facção, porque havendo o mestre de campo Diogo Lopes Barbalho petardado a ponte, e não entrando só por falta de instrumentos, chegou Diogo Sanches com eles a tempo que o inimigo estava refeito, em razão de haver tido mais de duas horas para se poder prevenir, com o que querendo Diogo Sanches avançar, lhe deu uma pelourada de que está fora de perigo; feriram mais ao capitão Manuel Correia de Mesquita com um mosquetaço, de que morreu, havendo procedido com muito valor; também se deu outro ao sargento-mor Manuel Pinto, que se houve na mesma conformidade, e outra em o capitão Paulo de Andrade. E por ver que não estava já a facção capaz de se lograr me tornei a retirar à praça de Segura, onde me ofereceu à consideração impossíveis para o intento o tornar a conseguir, em razão de haver entrado ao inimigo socorro (…) (carta sem data, anexa à consulta de 25 de Abril de 1648, na véspera do nascimento do infante D. Pedro, futuro D. Pedro II – ANTT, Conselho de Guerra, Consultas, 1648, maço 8-A)

Segundo um documento da Biblioteca Nacional de Madrid, citado por Velo y Nieto (e no qual a força portuguesa de infantaria é ampliada para o triplo: 3.000 homens), habiendo avanzado el Maestre de Campo, Diego Sánchez, a una de las puertas de aquel puesto con el más florido de un tercio, lo rechazó matándole cuatro o seis, y entre ellos un alférez vivo, y el mismo Maestre de Campo se retiró herido y con él la manga que abía avanzado, que por haberse descubierto a las defensas que tiene el puente, recebió mucho daño y por esta causa dejó  de avanzar la otra manga por la puerta de San Lázaro. (Velo y Nieto, pg. 75)

D. Sancho Manuel retirou para Segura, mas os defensores de Alcântara recearam que o exército português fosse atacar Zarza la Mayor, pelo que foram para ali enviados reforços de Ceclavín e outras localidades. Todavia, no dia 26 estava de novo o exército português sobre a ponte de Alcântara.

(continua)

Agradeço ao estimado amigo Juan Antonio Caro del Corral a disponibilização da obra de Velo y Nieto, de que me socorri para compor este pequeno artigo.

Imagem: A praça de Alcântara, sendo visível a ponte onde se travaram os combates. Planta publicada em La memoria ausente. Cartografia de España y Portugal en el Archivo Militar de Estocolmo. Siglos XVII y XVIII.

O Marquês de Torrecuso – por Juan Antonio Caro del Corral

No seguimento da listagem dos capitães-generais da província de Extremadura (Espanha), Juan Antonio Caro del Corral fez um longo comentário a propósito do Marquês de Torrecuso que, pelo seu interesse, é aqui destacado em artigo próprio. No final, acrescentei uma pequena transcrição do Manuscrito de Matheus Roiz a respeito do mesmo general.

Muy eficaz el listado de Capitanes Generales de Extremadura. A fin de profundizar algo más en la figura de aquellos soldados, sirva este ligero apunte sobre el Marqués de Torrecuso.

MARQUES DE TORRECUSO, CAPITAN GENERAL DE EXTREMADURA

Gerolamo Maria Caracciolo, III marqués de Torrecuso. Natural del Reino de Nápoles, fue un afamado militar que estuvo a las órdenes de la monarquía castellana, ocupando puestos de responsabilidad al frente del ejército imperial. Antes de llegar a Extremadura, destaco en la Guerra de Cataluña, dónde perdió a uno de sus hijos. También estuvo presente en el conflicto de los Treinta Años, llegando a vencer a las tropas francesas en la batalla de Fuenterrabía, librada en 1638.

Dada su condición italiana, no es de extrañar que junto a Torrecuso, llegaran muchos soldados de la misma nacionalidad. Entre estos cabe citar a Giovanni Giacomo Mazzacani-Maza, más conocido entre la tropa con el nombre castellanizado de Mazacan. Fue destinado al distrito cacereño de Alcántara-Sierra de Gata, tomando bajo su mando directo la guarnición existente en Zarza la Mayor.

Volviendo a los rasgos biográficos de nuestro personaje principal, fue el 8 de marzo de 1644 cuando Torrecuso hizo entrada en la ciudad de Badajoz, para hacerse cargo, con el pomposo título de Capitán General, de la defensa de toda la frontera extremeña.

Sustituyó al odiado Marqués de Santisteban, cuyo gobierno había provocado gran rechazo no sólo entre la tropa, sino en los propios habitantes de la región.

Torrecuso venía precedido de una aureola de gran militar y estratega, siendo su nombramiento del agrado de la mayoría de oficiales del ejército, el cual se encontraba en una situación bastante penosa, pues sus anteriores responsables se habían ocupado más de enriquecerse personalmente que de dirigir a la soldada.

Por el motivo anterior, el primer empeño del Marqués fue realizar una reforma general con la cual buscaba organizar adecuadamente a sus subordinados. En este sentido fue el primero que incluyo compañías de infantería a caballo, creando también el puesto de sargentía menor en cada uno de los tercios que componían el llamado Ejército de Extremadura.

Con estas labores pronto se gano la simpatía general y, en comparación con su predecesor, se llegó a decir “… i quanto a su antecesor el Conde de Santisteban desestimauan por su facilidad, tamto al Torrecuxo temian i respetauan por su entereça i valor…”.

Fue mucho el trabajo que el nuevo gobernador militar tuvo en su tiempo de mandato. La guerra en 1644 se recrudeció bastante, y las noticias de escaramuzas portuguesas en tierras extremeñas no dejaron de llegar, día a día, a la sede central de Badajoz.

Ejemplo de aquellos sucesos cotidianos para la gente de frontera los encontramos en la zona norte de la Raya, colindante con la Beira Baixa. Fue aquí dónde poblaciones como Membrío y Zarza la Mayor conocieron la crudeza de la guerra, al ser atacados en los meses de abril y mayo respectivamente.

Las armas castellanas de Torrecuso respondieron a aquellas y otras agresiones, con entradas en territorio lusitano, siendo la frontera pacense el escenario elegido para ello. Así, sitios como Ouguela vieron correr por sus campos a la caballería extremeña en más de una ocasión.

Sin duda alguna el momento álgido del gobierno de Torrecuso acaeció el día del Corpús, 26 de mayo, junto a las llanuras de la localidad de Montijo, muy cerca de Badajoz, lugar en el que se libró la que se considera primera batalla de la Guerra de Restauración.

El resultado del combate fue ambiguo, pues los dos bandos enfrentados se apropiaron de la victoria final. En todo caso parece que la batalla tuvo dos momentos clave, dominados cada uno de ellos, respectivamente, por sendas facciones. De hay la eterna duda de quien fue vencedor general.

Torrecuso no estuvo presente en el famoso lance, enviando en su lugar, como máxima autoridad de la tropa castellana, al Barón de Molinghem.

El año siguiente, 1645, continuo la misma tónica. Constantes alarmas y salidas cuyo fin básico era el ganado, realizar rapiña, incendiar poblados, desabastecer al contrario… En definitiva, la forma usual de realizar la guerra en una frontera muy extensa, defendida por un ejército poco profesional, pese a la laboriosidad de Torrecuso por mantener siempre el buen orden y disciplina.

Elvas, Campo-Maior, Jérez de los Caballeros y otros tantos lugares del sur, de nuevo se tornaron en escenario de encuentros campales entre fuerzas portuguesas y castellanas. Mientras tanto al norte, los vecinos de Zarza la Mayor, para vengar el ataque sufrido el año anterior, organizaron un nutrido grupo de jinetes voluntarios, los llamados Montados, semejantes a las compañías pilhantes de Portugal, con el cual batieron varias veces la comarca de Castelo Branco, quemando aldeas como Sao Miguel D´Acha, Ladoeiro, Alcafozes, Zebreira…

Debido a un permanente estado de tensión militar y la noticia de varias derrotas, la buena estrella de Torrecuso se fue apagando. También tuvo buena parte de culpa las rencillas internas, pues entre sus propios oficiales surgieron voces en contra, muy críticas con la forma de dirigir el ejército utilizada por el Marqués.

Él noble napolitano comprendió lo difícil de su situación, y no queriendo perder más crédito en la frontera extremeña, solicitó ser relevado de su cargo, cosa que ocurrió rápido, pues también en la corte de Madrid deseaban ver lejos al italiano.

Para sustituirle entró al mando el Marqués de Leganés, dº Diego Mesia Felipez de Guzmán. Las cosas con él tampoco cambiaron en exceso. Buena prueba es que, a poco de llegar al mando, se produjo el choque llamado posteriormente Ventas de Alcarabica.
Pero eso es otra historia.

Juan Antonio Caro del Corral

(Sobre o combate de Alcaraviça, veja-se o artigo gentilmente enviado pelo Sr. Santos Manoel, publicado aqui e aqui – com um acrescento de minha parte aqui).

A propósito do Marquês de Torrecuso, escreveu nas suas memórias o soldado de cavalos Mateus Rodrigues:

Agora falarei do grande soldado que era o Torrecruz [Torrecuso], que não havia em Espanha soldado como ele. Que a sua guerra foi a mais limpa que nenhum até hoje fez, porque nunca jamais quis que a cavalaria fosse às pilhagens, que as podia fazer mui boas, e também nunca quis derrubar os arcos da Amoreira [referia-se ao aqueduto que abastecia a cidade de Elvas], por onde ia a água à cidade, coisa que [a] havia de pôr em grande aperto, mas dizia ele que esas cosas no las hasian sino picaros. (MMR, pg. 91)

Mateus Rodrigues terá escrito esta passagem por volta de 1657. Se a sua memória em relação ao general espanhol não é muito exacta no que toca às operações de pilhagem, já o respeito que demonstra pelo comandante inimigo revela o legado de fama que Torrecuso deixou entre os soldados portugueses.

Imagem: “Soldados equipando-se”, pintura de Jacob Duck, Minneapolis Institute of Arts. Um detalhe deste quadro já foi incluído num artigo anterior. Note-se o equipamento dos soldados de infantaria (e do dragão que coloca a bandola com os “12 apóstolos” – veja-se as esporas, o que demonstra tratar-se de infantaria montada) e, como curiosidade, o modo de acordar o soldado adormecido, fazendo cócegas com uma espiga no nariz; um pormenor que é possível encontrar noutra pintura do mesmo autor.

Os antecedentes do combate de Moraleja (23 de Março de 1650), por Juan Antonio Caro del Corral

A propósito do artigo recentemente aqui colocado sobre o combate de Moraleja, o estimado amigo e investigador Juan Antonio Caro de Corral inseriu um comentário que, em si mesmo, é um interessante artigo, que completa e esclarece o anterior por mim publicado. Por esse motivo, e com a devida vénia, aqui lhe dou o devido destaque:

Muy cerca de dicha plaza de armas portuguesa – que era el cuartel principal de esta zona fronteriza – se situaban, en el lado extremeño, dos localidades de igual importancia: Moraleja y Zarza la Mayor.


De ambas solían partir las milicias que se internaban en Portugal a saquear. Por dicho motivo, don Sancho Manuel lanzaba, siempre que podía, ataques para contrarrestar tales entradas.

La orografía del terreno era muy propicia para llevar a cabo emboscadas, que era la táctica más usual empleada por los militares, con el fin de obtener un mayor benefício con un coste mínimo.

Con tales precedentes, ya en los inicios de febrero tuvo lugar una escaramuza en un lugar situado a medio camino entre las citadas Zarza y Moraleja, llamado Ventas del Caballo, escondido entre la Sierra de la Garrapata, límite natural de los términos municipales de sendas localidades.


Los hombres de Sancho Manuel consiguierón excelente botín, lo que propició una respuesta castellana; precisamente el ataque a las proximidades de Penamacor, en el cual murieron los dos oficiales que cita el artículo de Jorge P. Freitas, y que aparece como cabecera de este breve comentario.

Tras dicha cabalgada, y sin apenas tiempo para descansar, se produjo una nueva operación militar. Esta vez se trato de una acción a modo particular, protagonizada por un soldado de Zarza la Mayor que respondía al nombre de Juan Martín Garrido. Sin contar con apoyos, trabó combate con un grupo de caballería portuguesa que realizaba un reconocimiento de vigilancia en los alrededores de Salvaterra do Extremo, localidad rayana muy próxima a Zarza la Mayor. Logró arrebatarles varias monturas, regresando a su cuartel muy satisfecho.

Como otras veces anteriores, Sancho Manuel dispuso una salida de represalía, que fue abortada por el capitán extremeño Fernando Alonso Torobico, quien parapetó en Zarza más de 400 infantes.

Insitió el empeño del general lusitano, y fue entonces cuando se produjo el combate de Moraleja, durante la noche del 23 de marzo, volviendo a ser escenario del suceso el paraje de las Ventas del Caballo.


La noticia de la derrota castellana fue muy bien aprovechada y publicitada por el bando portugués. No en vano, entre los soldados caídos, se encontraban varios oficiales que se habían distinguido por su eficacia en escaramuzas anteriores, causando graves daños a los pueblos lusitanos de la frontera beirense. Entre los muertos estaba el capitán zarceño Juan Montero Polán, uno de los más destacados de las milicias populares de la localidad, comunmente llamadas Montados de Zarza (un escuadrón semejante a los caballos pillantes portugueses)y, como no, la muerte más aplaudida (y llorada) fue la del oficial al mando, don Sancho de Monroy, de ilustre familia con mucha historia militar a sus espaldas. Dicen las viejas crónicas que el combate de aquella madrugada fue tan sanguinolento, que a varios de los muertos les cortaron posteriormente las orejas.

Apenas se dió la alarma de lo sucedido, toda la comarca se puso en defensa, pensando que los portugueses, animados con su victoria, continuarían su avance demoledor.

Gracias a los socorros enviados, desde la plaza de Alcántara, por el maestre de campo don Simón de Castañizas, a los que se sumaron los vecinos de pueblos cercanos (unos 150 jinetes), se logró detener a la tropa de Sancho Manuel.

Más tarde se reanudarían los ataques recíprocos, pero eso es otra historia.

Como nota final, comentar que existe un folleto propagandístico de lo sucedido. Se titula de la siguiente manera:
Relaçam da insigne Vitoria que o Gouernador das Armas D. Sancho Manoel alcançou dos caftelhanos en que foi morto, Don Sancho de Monroy feu Gouernador das Armas.

Imagens:

Em cima, vista de satélite das localidades de Moraleja (canto superior direito) e Zarza la Mayor (em baixo) na actualidade, a partir do programa Google Earth; a amarelo, a fronteira hispano-portuguesa.

Em baixo, reprodução parcial de Le Portugal, exemplar de cartografia francesa dos inícios do século XVII. Note-se, na parte superior direita deste pormenor do mapa, a localidade de “Moralexa”, ou seja, Moraleja. Biblioteca Nacional de Lisboa, Cartografia, CC1777A.

O combate de Castelo de Vide – 8 de Outubro de 1650 (2ª parte)

pictureasp

Continuando a narrativa de Mateus Rodrigues, adaptada para português actual…

“Assim como saímos das encruzilhadas de Portalegre, fomos sempre a meia rédea (…) e quando íamos já perto de onde estava o mestre de campo com a sua gente, fizeram as nossas tropas alto, e tiraram 60 cavalos das tropas e fizeram duas partidas de 30 cavalos cada uma; e deram 30 ao alferes que era então de Dinis de Melo [de Castro], por nome Baltasar Nunes, grande soldado, e os outros 30 ao alferes de Lopo de Sequeira, também muito valente, por nome António Gomes, e a ordem que (…) deram a ambos foi que fossem cada um por sua parte lá para a ribeira de Nisa, que havia o inimigo de vir por aí. E que assim que dessem com o inimigo, qualquer deles, logo se incorporassem ambos em uma tropa [ou seja, que se juntassem para formar um batalhão, formação táctica de cavalaria] e viessem à vista do inimigo com suas escaramuças e tiros (…), mas de maneira que por nenhum caso o inimigo lhe[s] tomasse ninguém, para não saber das tropas (…), e eu também ia em uma das partidas”.

Pouco tempo depois, o destacamento avistou o terço de Castelo de Vide, que tinha cerca de 400 homens, e a companhia de Duarte Lobo da Gama, com 80 bons cavalos, já formados no local de encontro combinado. Prosseguindo a sua missão, não tardou a cavalaria portuguesa a encontrar a do inimigo, que dava de beber às montadas na ribeira de Nisa. Conforme planeado, principiou-se uma escaramuça, enviaram-se avisos ao grosso da força portuguesa, e depois juntaram os alferes as suas tropas nas elevações que dominavam a linha de progressão inimiga. No entanto, devido à natureza do terreno, não puderam aperceber-se, de imediato, do efectivo da força incursora. Logo foram carregados por esta, de modo que os alferes retiraram para o sítio onde estava o grosso do efectivo português, furtando-se ao combate, conforme as ordens que haviam recebido.

“Assim como o inimigo nos viu, imaginou que tinha (…) outro dia como o que já havia tido em o mesmo sítio [cinco anos antes, quando derrotara o terço de Castelo de Vide e destroçara a companhia de cavalos de D. Pedro de Lencastre]. E cuidou que aqueles que lá andávamos diante (…) era a companhia de Castelo de Vide e que o terço (…) havia de estar ali e que o haviam de tornar a derrotar. E para isso tomaram cem cavalos, com um capitão (…) João de Ribera, e mandaram-no mui ao largo, a rédea solta, a tomar as entradas da vila, para que a companhia se não metesse dentro, que apanhassem fora o terço e que tudo haviam de degolar”.

Não podiam os espanhóis imaginar que tinham como adversária a cavalaria de Elvas, pois não fora o acaso de esta se encontrar em Arronches quando foi dado o alarme, não seria possível estar agora ali, a dez léguas (c. 50 Km) da sua guarnição. Mesmo assim, foi com espanto que os portugueses verificaram que tinham pela frente uma força com quase o dobro do efectivo da sua, “(…) e suposto que os sucessos estão na mão de Deus, dizem lá que os muitos tiram a virtude aos poucos, que eles também têm unhas como nós, e as suas balas matam e as espadas cortam e furam melhor, de sorte que logo julgaram ali que o inimigo trazia 600 cavalos, fora os (…) que havia mandado a tomar as entradas da vila”.

Rapidamente tomou Lopo de Sequeira conselho com os restantes capitães, e todos decidiram resistir ali ao inimigo. Avisaram o mestre de campo da sua resolução. O terço de Castelo de Vide estava formado à distância de um tiro de carabina da cavalaria, “entre umas rochas mui ásperas”, pelo que, segundo a observação de Mateus Rodrigues, nem dois mil cavalos conseguiriam fazer-lhe mal. A cavalaria portuguesa (380 homens) formou-se atrás de um pequeno outeiro, por onde o inimigo teria de passar, pronta para o choque. A vantagem do terreno acabou por ser preciosa para o desfecho da peleja, pois as forças que os espanhóis lançaram em perseguição das tropas de reconhecimento portuguesas só podiam progredir através de um caminho estreito, uma companhia de cada vez.

“Assim como o inimigo chegou ao alto do outeiro (…), sai a nossa cavalaria de repente, tocando as trombetas a degolar [ou seja, aquilo que mais tarde seria conhecido por toque de carga]“. Surpreendidos, os espanhóis que vinham à cabeça da coluna retirararam e procuraram formar o seu dispositivo um pouco mais atrás, montando ali uma vanguarda, “porquanto não podiam pelejar da sorte que estavam. Mas como nós lhe saímos tão perto e bem formados, não lhe demos lugar a que eles se pudessem formar”. Ainda assim, os cavaleiros espanhóis bateram-se bravamente, pois mesmo desorganizados, tinham a seu favor o peso dos números. Mas, “suposto que éramos muito menos do que eles, era a nossa gente muito boa, e além disso foi grande fortuna nossa o acharmo-lo desformado, que não tem dúvida, que se o achá[ra]mos bem composto (…), nos perde[ra]mos totalmente, que eram 280 cavalos mais do que os nossos e mui boa cavalaria, que era o regimento da Sarça [Zarza la Mayor – por regimento, entenda-se o total das companhias aquarteladas naquela localidade], que vinha ali o comissário Mazacan por cabo delas”.

(Citações do Manuscrito de Matheus Roiz, versão transcrita do AHM, pgs. 226-230).

(continua)

Imagem: Jan Martszen de Jonge, Paisagem com combate de cavalaria e couraceiros formados atrás (meados do séc. XVII).

O assalto a Zarza la Mayor, 11 a 16 de Junho de 1665 (2ª parte)

O saque e incêndio de Zarza la Mayor pelas forças comandadas por Afonso Furtado de Mendonça ocorreram após a imposição de severas capitulações e a evacuação da guarnição e população locais. Somente dois anos e meio depois, com a assinatura da paz, regressariam os habitantes, aos quais se juntariam algumas famílias de Ceclavín, Brozas, Membrio e outras localidades. O sucedido em 1665 reflectiu-se no topónimo pelo qual a vila ficou conhecida durante algum tempo: Zarza la Quemada. Mas vejamos a descrição do assalto pela pena de um habitante de Zarza, aqui transcrita no castelhano original, que não será de difícil entendimento:

“… En las pocas ocasiones que he tenido en que servir a Vmd. no me han dado lugar a que haya tenido hasta agora ninguna en que escriba a Vmd, aunque en mi memoria y voluntad siempre ha estado vivo el recuerdo de servirle. Y porque ahora le considero no solamente apesarado, sino confuso con la variedad de nuevas que por allá han corrido, he querido en esta darle a Vmd. cuenta de todo cuanto ha sucedido en nuestra Zarza.

Vinó el enemigo, jueves medio día 11 del corriente, con 4000 infantes y 600 caballos, y de hecho se arrimó a tiro de pistola de la muralla, porque como el tiempo era de segada y el lugar se componía de gente trabajadora, estaban los más fuera, con que adentro no se hallarón más de 204 hombres, soldados y vecinos, en que entraba la compañia de caballos naturales; puso tres ataques; el uno se entró luego en la ermita de Nuestra Señora del Castillo; el otro desde la Fuente Concejo, aquel arroyo abaxo a su cortina de Vmd. hasta San Gregorio, y el otro hasta San Sebastian en unos huertos que estaban muy arrimados a aquel fuerte de este sitio. La poca gente nuestra se repartió, poniendo en cada fuerte de los dos que había, en el de San Roque 40 hombres, en el de San Sebastian 30 y en los demas fuertes, que eran 11, unos a 3 y otros a 4, y los caballos repartidos por puestos a 10 y 12 en cada uno para defender los lienzos que estaban desmantelados; de este modo se ajustó la gente y pelearon con tanto valor que el enemigo no pudó conocer nuestra flaqueza.

En viernes en la noche, a la 10 della, dió avance general y se resistió tanto que el enemigo se volvió atrás muy de veras. El sábado, con 5 piezas de artillería que tenía de a 25 y de a 30 libras, se disparó sobre 200 cañonazos, cosa increíble para los soldados, pues todos decían que era cosa de admiración tanto disparar. Y echaron 6 bombas, que aunque atemorizaron, no hicieron daño; las baterías tampoco lo hicieron, porque las pusieron a los fuertes, que era lo de mayor resistencia. En la noche volvieron a dar dicho avance general y por la parte de San Gregorio subieron la escala muchos que desde encima la muralla tuvieron la fortuna de volver a salir fuera, porque los caballos estuvieron tan briosos que no dieron lugar a que osasen entrar dentro. En esta noche arrimaron mantas al fuerte de San Sebastián y lo minaron, porque aunque procuraron con paja, aceite y otras cosas quemarle las mantas, no pudieron, porque las traían aforradas en hoja de lata.

El enemigo había pedido capitulaciones y no se habían admitido, pero ya con la mina y la demasiada artillería y bombas que los iba descomponiendo y más el demasiado trabajo que no podía ninguno reposar un instante, procuraron capitular y ajustaron lo siguiente: Que habían de salir los soldados con sus armas cuerda encendida y vala en boca los de a caballo desmontados y con sus armas, que para la gente de guerra habían de dar 20 carros en que sacasen su ropa y para los vecinos 50 cabalgaduras que sacasen cargadas, y que cada uno, tanto soldados y vecinos, como mujeres y zagales, sacasen sobre sí lo que pudiesen.

De contrario sentir fueron muchos que no querían todavía capitular; otros quisieron, y Martín Sánchez Pardo, con otros majaderos que le acompañaron, los ajustó y firmó, domingo a 5 de la tarde, con que si con socorro real no fuese socorrido, entregaría la plaza martes a las 6 de la mañana. No lo fué, y entrególa, saliendo la gente para Ceclavín los más. y algunos para esta villa, que así fué el trato.

Entró el enemigo, quemó y destruyó el lugar tan de todo punto que no quedó casa sin esta diligencia. Y a la iglesia hizó 3 minas, con que la arruinó toda, cosa tan lastimosa que esto me tiene sin sentido.

La gente se hallaba tan desvalida que todos a una quisieran volverse. Y para ello han despositado dinero con su demasiada pobreza para que mi primo Don Juan Fernández Cabronero vaya a esa Corte a pedir el que S.M los fortifique y le de pan de munición por familias y 200 caballos que montarán 200 naturales y servirán a S.M, destruyendo el país vecino como lo han hecho hasta aquí.

Esto se ha entibiado algo con la rota de nuestro ejército, que porque Vmd. por allá ya lo sabrá por extenso no escribo como fué.

Ante ayer en la noche vino el enemigo a Herrera, que está a la parte de Valencia; quemó el lugar, retiróse ayer a medio día, quedó el castillo; no sé la resolución que tomarán los vecinos, que han sido también muy famosos y han hecho mucho daño por aquella parte; dícese que su exército está junto y quieren dar en Plaza; Dios nos remedie, que esto está de muy mala calidad.

Vmd. me avisará de su salud y de la resolución que para ella se toma con estas cosas de nuestra Zarza; no murieron más de 2 hombres y 2 forasteros; llevaron los ornamentos de la iglesia, el Santo Cristo que habían traído de esa Corte, a la Virgen del Rosario y la de Sequeros, a Santa Clara, San José y otros santos, y en medio de la codicia dejaron a la Virgen Santísima del Castillo, con quien ellos tienen toda devoción. Y ya la tenemos en Ceclavín, cosa que habíamos tenido a milagro de su Divina Majestad. Al Santo Cristo del Paso le quitaron un brazo para desnudarle la túnica de tafetán que tenía tanto tiempo ha; a San Marcos descabezaron, y de este modo hicieron otras infamias ellos, que entre nosotros no faltaron, pues el cura por sacar en 2 carros que le dieron azúcar y cera a medias de solos vasos sagrados y todos los ornamentos de la iglesia, de que el general enemigo hizo mucha novedad, en que se conoce que ya la codicia seria en todos sujetos.

Guarde Dios a Vmd. muchos años. Alcántara y junio, 26 de 1665…”

Agradeço ao estimado amigo Juan Antonio Caro del Corral o envio do documento acima transcrito e do seu trabalho Zarza la Mayor: tierra de frontera y escenario de guerras, recentemente apresentado durante as 1as. Jornadas Culturales Zarceñas, bem como de várias outras informações que permitiram a elaboração deste apontamento sobre o assalto a Zarza la Mayor. De facto, a ele cabe todo o mérito da investigação, eu aqui fui somente escriba.

Imagens: Ambas da autoria de Juan Antonio Caro del Corral – a primeira mostra a vila de Zarza la Mayor em 1665 e os locais de assédio das forças portuguesas, e a segunda apresenta o campanário da igreja paroquial, onde ainda são visíveis os danos sofridos durante o assalto.

O assalto a Zarza la Mayor, 11 a 16 de Junho de 1665 (1ª parte)


O estimado amigo e investigador Sr. Juan Antonio Caro del Corral tem sido de uma inexcedível gentileza ao enviar-me muitos documentos, além de excelentes trabalhos de sua lavra (nomeadamente sobre a história de Zarza la Mayor), que muito enriquecem o conhecimento sobre um teatro de operações menos citado que o do Alentejo, mas nem por isso menos importante: o da raia da Beira Baixa e Extremadura (partido de Alcántara). Cabe hoje trazer aqui, precisamente, um acontecimento que marcou os anos finais da Guerra da Restauração no que a Zarza la Mayor diz respeito: o assalto e destruição da vila extremenha, que ficou despovoada até à cessação das hostilidades, cerca de dois anos e meio depois.

A operação, que decorreu ao mesmo tempo que o Marquês de Caracena entrava em Portugal pela fronteira do Alentejo e punha cerco a Vila Viçosa (uma campanha que culminou na importante batalha de Montes Claros, em 17 de Junho), mereceu algumas linhas no Mercurio Portuguez de Junho de 1665, a publicação periódica redigida por António de Sousa de Macedo:

(…) O governador das armas do partido de Castelo Branco na Província da Beira, Afonso Furtado [de Mendonça], entrou em Castela pela Estremadura (que é a mesma província do governo [do Marquês] de Caracena), com parte de cinco mil infantes, e de quinhentos cavalos, com que se achava, e de seis peças de artilharia; e aos 14 deste mês, depois de três dias de brava peleja, se lhe entregou a Sarça, praça de mil vizinhos. que, demais de sua muralha, tinha três fortes, e outras fortificações modernas, governada por Martim Sanches Pardo general da artilharia ad honorem, com guarnição de cem cavalos, e duzentos infantes, além dos moradores ordinários. Custou-nos a vida de vinte e dois soldados, e de um mestre de campo auxiliar; e arrazámos esta praça de modo que não ficasse habitável, nem pedra sobre pedra dela, em castigo da insolência de seus habitadores [sic], cujo ofício, ainda dos que não professavam ser soldados, era não só roubar os campos, mas também ter por gosto matar os nossos a sangue frio.

Para melhor compreender esta última afirmação, convém dizer que Zarza tinha uma companhia de caballos naturales, conhecida por Montados de la Zarza – o equivalente às companhias de moradores ou cavalos pilhantes dos portugueses. Esta unidade, que tanto servia para defender os campos de Zarza como para fazer incursões de pilhagem em território português, era um pesadelo para os habitantes da raia beirã. A julgar pelo modo como eram considerados, dentro do exército português, os próprios pilhantes (intratáveis e indisciplinados), não será de admirar que Sousa de Macedo tenha estendido a todos os zarzenses a crueldade que, muito provavelmente, seria perpetrada pelos milicianos dos caballos naturales.

Na segunda parte veremos como o assalto foi reportado por um habitante de Zarza la Mayor.

Imagens: Na primeira foto, reproduzida a partir do programa Google Earth, vemos a localização de Zarza la Mayor, a leste de Salvaterra do Extremo (para ampliar, basta clicar sobre a imagem). Na segunda foto, da autoria de Juan Antonio Caro del Corral, a igreja paroquial de Zarza, muito danificada nos combates de 1665.

O combate de Cabeço de Vide, 23 de Abril de 1649 (2ª parte) – a disposição táctica

Juan Jacome Mazacan (ou Mazacani, pois era napolitano de nascimento) era um militar bem conhecido dos portugueses. O soldado Mateus Rodrigues refere-se-lhe algumas vezes nas suas memórias. Comandava desde 1644 a guarnição de Zarza la Mayor, e embora o seu território de operações fosse habitualmente a fronteira que confinava com a Beira, entrou por vezes com a sua cavalaria pela raia alentejana. É nesta província que se encontra com a cavalaria portuguesa sob o comando do tenente-general francês Achim de Tamericurt em 23 de Abril de 1649, nas proximidades de Cabeço de Vide, não muito distante da vila de Fronteira.

Na continuação da narrativa, percorremos hoje a disposição táctica das forças, segundo o testemunho de Mateus Rodrigues.

(…) De modo que o dito Mazacan, assim como nos viu a todos, disse para a sua gente (…) senhores, soldados e capitanes, nos tenemos aqui mui buena pillaje de ganados, pero mejor es la que hemos de tener de aquesta que aca viene [em castelhano no original]. (…) E passando o nosso comissário [quer dizer, o tenente-general Tamericurt] pela vanguarda de toda a nossa cavalaria, dizendo aos capitães e mais soldados que não houve[sse] descomposição nem rumor, senão mui calados e cerrados e que fize[sse]mos todos como ele esperava de tão bizarros soldados como nós éramos [na época, a palavra bizarro era aplicada áquele que se distinguia pela sua valentia]; de maneira que se foi para a vanguarda pelejar (…), que iam cinco companhias na vanguarda, muito boas e [com] bons capitães, que era a companhia de um francês, por nome Latuie [Latouche], que o mataram ali, e a companhia do capitão João Homem Cardoso, e a companhia do comissário de Olivença, Duquesne, e a companhia do capitão Dinis de Melo [de Castro], que foi a primeira ocasião em que se achou depois de [promovido a] capitão de cavalaria e procedeu tão bizarramente como adiante direi, e assim mais a companhia do capitão João de Oliveira Delgado, e estas cinco companhias que na vanguarda iam teriam 200 cavalos (…) e as outras iam 4 na batalha e outras 4 na reserva, tudo mui composto e com ordem, na batalha ia o capitão Fernão de Mesquita [Pimentel] por cabo , e na reserva ia o capitão António Jacques de Paiva por cabo. De maneira que assim como o inimigo nos viu com determinação de pelejar, não fez mais que formar-se em (…) vanguarda e reserva, mas na vanguarda pôs todos os bons soldados e oficiais (…), e fê-lo mui grosso, que trazia na vanguarda perto de 400 cavalos, porque fazia conta que, em nos rompendo a vanguarda, que nos fizesse fugir, que logo a demais [cavalaria] havia de fazer o mesmo. Que não há dúvida que era uma ocasião daquelas [em] que é necessário haver bons cabos diante e bons soldados, que se uma vanguarda se rompe, ou sua ou nossa, é necessário muito auxílio de Deus e valor para terem bem mão, vendo fugir a sua vanguarda, e por isso o inimigo se fundava nestas circunstâncias (…). Aonde (…) se formou era um cabeço alto, e ao pé dele corria um ribeiro (…). E todo o gado, assim bois como ovelhas e cabras e porcos e muitas cavalgaduras, tudo isto estava junto, ao pé do inimigo, por onde havíamos de passar forçadamente [forçosamente]. E pelo meio de lá rompemos, e era tanto o fato de roupa que estava pelo chão, que eles haviam roubado pelos montes, que podiam carregar um navio, que todos os castelhanos (…) largaram [d]as garupas para pelejarem mais à sua vontade, e desembaraçados.

(Citações do Manuscrito de Matheus Roiz, versão transcrita do AHM: pgs. 157-159).

Agradeço muito especialmente a colaboração do amigo e investigador de Zarza la Mayor, senhor Juan Antonio Caro del Corral, que tem disponibilizado muita informação sobre o período da Guerra da Restauração – e neste caso, a obra de Gervasio de Velo Y Nieto, Escaramuzas militares en la frontera carcereña con ocasión de las guerras por la independencia de Portugal, Madrid, 1952, de onde me foi possível recolher alguns dados sobre o percurso militar de Juan Jacome Mazacan.

Imagem: Mapa de Portugal, cerca de 1700 (detalhe da província do Alentejo). Note-se a pequena diferença do topónimo, que surge como Cabeça da Vide. Biblioteca Nacional, Cartografia, CC164P.

Imagens de Cabeço de Vide, da arquitectura de hoje e do passado (e da tranquila paisagem dos arredores) podem ser vistas aqui.

O combate de Cabeço de Vide, 23 de Abril de 1649 (1ª parte)

As narrativas de Mateus Rodrigues (Matheus Roiz) sobre as operações militares em que participou são muito interessantes pelos detalhes que revela, ainda que escritas num português pouco correcto no estilo e na forma, mesmo pelos padrões do século XVII. Como as memórias foram passadas ao papel vários anos após os acontecimentos vividos, o autor comete, por vezes, erros de pormenor, principalmente quanto à datação dos eventos. É o caso da interessante narrativa que o ex-soldado de cavalaria produziu a respeito do combate de Cabeço de Vide, ocorrido em 23 de Abril de 1649 – mas que o memorialista situa no tempo dois anos e um dia antes. Uma carta de Martim Afonso de Melo, Conde de São Lourenço, datada de 24 de Abril de 1649 (Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Conselho de Guerra, Consultas, 1649, maço 9, nº 93) permite corrigir o erro de Mateus Rodrigues e corroborar, no essencial, o que se passou nesse recontro. Mas para os detalhes bélicos vistos a partir do chão (ou melhor, da sela do cavalo), nada melhor do que seguir o que a pena do combatente riscou no papel há mais de 350 anos.

Martim Afonso de Melo, governador das armas do Alentejo, teve conhecimento que o inimigo tinha tenção de fazer uma entrada às nossas partes de Cabeço de Vide e Crato e Fronteira e Monforte. (…) Mandou logo a Olivença uma ordem, que viessem das companhias que lá estavam três ou quatro para Vila Viçosa, e assim mais a que estava em Terena e a do Alandroal. (…) E logo o Conde Martim Afonso de Melo mandou para lá ao comissário, que então era Achim de Tamericurt [mais uma confusão do autor – o francês Tamericurt era já tenente-general, e foi acompanhado nessa missão pelo seu compatriota Pierre Maurice Duquesne, esse sim, comissário geral] para que assistisse com elas, para dali acudir a qualquer parte donde o inimigo entrasse.

Passaram 5 ou 6 dias sem que houvesse notícia da cavalaria espanhola, até que o Conde de São Lourenço recebeu a informação de que as forças inimigas se preparavam para acampar entre Assumar e Arronches e que eram compostas por 800 cavalos e 600 infantes, e que enviara mais 700 cavalos a pilhar várias localidades. Os portugueses tinham menos de 400 cavaleiros para se lhes oporem, entrando aqui em conta as companhias de Elvas (segundo o Conde de São Lourenço, pois Mateus Rodrigues refere que eram quase 600).

(…) Mas não foram todas senão oito [Elvas tinha então 12 companhias], as maiores e melhores. E logo saímos para fora da cidade a sol posto e (…) já fora, junto dos arcos da Moreira, (…) chamou [Martim Afonso de Melo] o meu tenente, que era homem de grande préstimo e valor, e lhe disse que havia de ir (…) a Vila Viçosa avisar [Tamericurt] (…) que montasse com elas [as 6 companhias que lá estavam] e fosse ter a Veiros [n]aquela noite. (…) Partiu-se o meu tenente em um cavalo que tinha, que era um assombro, o nome do tenente era Agostinho Ribeiro. (…) E quando nós juntámos todas as nossas companhias em Veiros (…), algumas delas eram mui pequenas, mas ainda tinham mui perto de 600 cavalos, porque havia algumas companhias grandes (…), a minha não levava mais de 24 cavalos e não levava capitão, que já D. João de Ataíde (…) se havia ausentado para Coimbra [na verdade, havia quase dois anos que isso sucedera; a companhia foi entregue posteriormente ao capitão Francisco Pacheco Mascarenhas], não ia senão o tenente e alferes.

O tenente general Tamericurt recebera ordens escritas do governador das armas para se opor à entrada do inimigo, e que peleje com ele, pois é crédito nosso, e não repare em que tenha mais cavalaria, que a não o fazer assim se haverá El-Rei por muito mal servido de vossa mercê e em mim me terá por inimigo. (…) Saímos de Veiros já quase manhã e nos fomos marchando na via de Cabeço de Vide, aonde era que o inimigo se dizia andar. E já tínhamos marchado duas léguas de Veiros pela estrada adiante sem em todos aqueles campos haver notícia alguma de inimigo, (…) que como aqueles campos estão ainda povoados de montes com lavradores, era de espantar não haver um aviso, estando o inimigo naquelas partes. E assim como [o tenente-general Tamericurt] viu a quietação da campanha, mandou chamar todos os furriéis das tropas para que fossem diante tomar alojamentos para as companhias e livranças de mantimentos para os cavalos e pão para os soldados.

Partindo para a missão que lhes tinha sido confiada, os 17 homens destacados (os furriéis, alguns soldados e um ajudante da cavalaria) em breve toparam 40 cavaleiros espanhóis que guardavam uma passagem num ribeiro. Esta pequena força retirou, sendo seguida pelos portugueses, a quem procuravam os espanhóis atrair a uma emboscada. Pouco tempo depois travou-se uma escaramuça, à qual foram acudindo mais tropas portuguesas. Entretanto, os batedores informaram Tamericurt que tinham descoberto o grosso da força inimiga, a cerca de meia légua de Cabeço de Vide, perto do local onde se escaramuçava.

O inimigo [estava] mui bem formado em três formas, que era vanguarda e batalha e reserva. (…) Ele via-se com mais cavalaria do que nós íamos, e além disso tinha uma notável presa de gados (…) que havia juntado em todos os campos daqueles lugares que ficavam destruídos para sempre, e também via o inimigo que era a primeira vez que vinha a fazer entrada com a cavalaria lá de cima da Beira, que vinha ali por cabo um comissário da Sarsa [Zarza la Mayor] que chamam Mazacan, que o mandou vir o governador de Badajoz de lá com o seu partido para fazer a dita entrada. (Citações do Manuscrito de Matheus Roiz, versão transcrita do AHM: pgs. 153-157).

A entrada fora ordenada pelo Barão de Mollingen, o qual estava quase a ser substituído como mestre de campo general pelo Marquês de Mortara. Como era costume na fronteira, quando um cabo de guerra estava prestes a deixar o seu cargo, mandava fazer uma grande incursão de pilhagem “de despedida”, visando obter lucros consideráveis com a venda das presas. E assim nos aproximamos do combate, que será descrito nos próximos artigos.

Imagem: Cavalos arcabuzeiros em acção. Reconstituição histórica, Kellmarsh Hall, 2007. Foto do autor.