A situação militar na província da Beira em Junho-Julho de 1645

Meulener

Em 10 de Julho de 1645, o Conselho de Guerra era informado acerca da situação militar na província da Beira, através de um conjunto de cartas enviadas pelo governador das armas, D. Fernando Mascarenhas, 1º Conde de Serém, e do tenente de mestre de campo general João Lopes Barbalho. Na verdade, pelo menos uma das cartas foi colocada no maço em data posterior à data da consulta, visto ter sido remetida de Penamacor em 8 de Julho.

Vejamos como relatava o Conde a situação na província que governava, transcrevendo a sua carta de 25 de Junho de 1645, remetida de Salvaterra do Extremo:

(…) O tenente de mestre de campo general me disse havia de fazer a Vossa Majestade a relação da entrada do inimigo em Portugal, e da festa que ontem nos veio fazer com grande quantidade de cavalaria e duzentos e sessenta infantes; eu estou informado de eles haverem trazido pouca pilha [o Conde quer dizer que levaram para Espanha pouca pilhagem], e ainda essa que trouxeram têm seus donos a culpa, porque tendo aviso de que o inimigo juntava poder, os avisámos que estivessem alerta, e em que tirando uma peça e fazendo facho era sinal que o inimigo estava em Portugal. Assim que chegou aviso, que era uma para as duas, depois da [sic] com grande cuidado tirou e fez facho e nem tanto daí a meia hora, pela manhã, tirámos outra peça a que nos respondeu Idanha, com que fiquei descansado e imaginando que tudo havia recolhido. Na mesma manhã nos trouxeram duas línguas e soubemos delas haverem passado as tropas de Alentejo a noite de sexta-feira e naquela haverem vindo duas para a Zarza, bem entendi eu a peça, vieram-nos tocar arma (…) de que eu zombei bem, e não houve lugar de lograrem os zarzos seu desejo. Dizem estes homens que dizem em Alcântara que temos grande governo, se nós nos víramos com poder não haviam eles de fazer tantas pilharias, por mais que a sua gente cobrisse estes campos, que pela conta eram mais de seiscentos homens de cavalo, afora os que iam com a tropa da pilha que era de dragões. E dizem uns muchachos, que vinham tangendo as ovelhas, que vinham desarmados, dizendo que os haviam enganado os sarcenhos [naturais de Zarza la Mayor] que não levam nada, o que eu posso assegurar a Vossa Majestade é que se nós tivéramos boa artilharia, que lhe havíamos de fazer muito dano, mas não deixámos de lhe fazer algum, de um tiro dou eu fé, que derrubou um do cavalo, e também uma emboscada que lhe tinha o tenente-general feita lhe houvera de matar alguns, se antes de eles chegarem a tiro uma pessoa, que ele deve dizer a Vossa Majestade, não mandara disparar e descobrir a gente, alguns lhe haviam de ficar, como na refrega passada ficaram, que dizem esses línguas que lhe matámos na refrega passada muita gente, e entre eles um capitão de cavalos e um tenente e dois dos principais da Zarza; eles não podem ter aqui muito esta gente e devem ir dando por todas as nossas fronteiras, vendo se podem fazer algumas pilhas [isto é, pilhagens], e não era mau avisar Vossa Majestade a Castelo Rodrigo e a Alfaiates e a Almeida que recolham os gados, que nunca a prevenção fez mal (…).

Na mesma data, o tenente de mestre de campo general João Lopes Barbalho enviou de Salvaterra uma outra carta, com teor muito semelhante à do governador, mas num português mais escorreito. Dois dias mais tarde, o Conde de Serém expedia outra carta, dando conta de que Salvaterra do Extremo se encontrava cercada pelo inimigo. Uma outra carta, remetida de Penamacor em 1 de Julho, dava conta da situação militar na província e referia que o tenente de mestre de campo general se encontrava em Idanha-a-Nova com 200 infantes pagos e 200 cavaleiros. A quinta e última carta, incluída no lote dos anexos em data posterior à da consulta, refere que o inimigo, devido à superioridade numérica da sua cavalaria, se encontrava senhor da campanha e não se lhe podia impedir as pilhagens, tendo realizado algumas entradas.

Fonte: ANTT, Conselho de Guerra, Consultas, 1645, maço 5, doc. nº 81, consulta de 10 de Julho de 1645 e cartas anexas.

Imagem: Combate de cavalaria (pormenor), óleo de Pieter Meulener.

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Escaramuças na província da Beira em Maio de 1646

Continuando a transcrever alguns documentos, cujas cópias o estimado amigo Julián García Blanco me remeteu, cabe agora a vez de uma breve carta narrando escaramuças ocorridas na província da Beira. Os manuscritos pertencem ao espólio da Biblioteca Nacional de Madrid e são cópias coevas das cartas originais, para registo de arquivo, à semelhança das que se podem encontrar nos Livros de Registo da Secretaria de Guerra, em Lisboa.

As escaramuças que são descritas numa carta endereçada a um padre jesuíta de Évora não se encontram mencionadas na História de Portugal Restaurado do Conde de Ericeira. Episódios menores, em comparação às operações de maior envergadura que nesse ano ocorreram na província, são todavia de interesse para o conhecimento da vivência da guerra e seus efeitos sobre as populações da fronteira.

Carta de Francisco Leonardo a um religioso da Companhia do Colégio de Évora, em que dá novas de um sucesso que o nossos tiveram na Beira contra os castelhanos em 15 de maio de 1646

Novas da Beira têm sucedido agora muito boas. Em Alfaiates tivemos um bom sucesso, pelejou uma tropa de cavalos nossa de 40 soldados, com duas companhias de infantaria, com 150 cavalos cavalos sarcenhos [ou seja, de Zarza la Mayor] e foram derrotados, deixando no campo mortos 21 e muitos cavalos, e dezassete vivos, e a presa que levavam restituída ao lugar de Souto e Quadrazais. Se o Tejo se pudera vadear tivéramos a maior presa do mundo todo; a qual mandava o Conde [de Serém] fazer pelo tenente-general da artilharia, que passou o rio com 40 cavalos, e o resto deles ficou por se perder a barca, com que a infantaria não teve em que passar também da outra parte. E como se mal logrou esta ocasião, vendo o tenente-general da artilharia que não tinha caminho para Portugal senão marchando por Castela, o fez bizarramente com os 40 cavalos, e chegou a Carvajo de Santiago [Santiago de Carbajo], e a Membrio, e a outros lugares, e recolheu tudo o que neles achou até entrar aqui por Montalvão a salvamento, sem perda mais que de dois homens que se afogaram ao passar do rio. O forte de Zebra, que o Conde mandou fazer, está feito uma Rochella [comparação exagerada, feita pelo autor, com as defesas de La Rochelle, em França], dali se faz grandes estorvos aos danos que o inimigo fazia em algum tempo. O Bispo de Ciudad Rodrigo comete tréguas no que toca a roubos, e que se faça a guerra por termos militares; avisou-se disto a Sua Majestade, para o mandar resolver.

Francisco Leonardo

Fonte: Biblioteca Nacional de Madrid, mss. 8187, “Relações manuscriptas de Portugal, desdo anno de 1643 athe 1646″, fls. 70-70 v.

Imagem: Soldados de infantaria do século XVII. Museu Militar de Estocolmo. Foto de JPF.

Efectivos do partido de Penamacor (província da Beira) em 1659

Numa carta redigida em 18 de Junho de 1659 pelo mestre de campo João Fialho, dirigida ao Conselho de Guerra, é exposta a situação preocupante em que se encontrava o partido de Penamacor. Estava então o governador das armas D. Sancho Manuel ainda ausente, pelo que o mesmo Conselho deu parecer para que D. Sancho regressasse com a maior brevidade à província da Beira. Os efectivos necessários para a defesa e os que na realidade existiam no partido de Penamacor encontram-se expostos na carta de uma forma concisa mas bem detalhada. Escrevia então o mestre de campo João Fialho:

Guarnição que necessitam:

300 infantes, a praça de Penamacor;

300, a praça de Salvaterra [do Extremo], meia légua da da Sarça, donde se metem os comboios com a espada na mão;

200, a praça de Segura, uma légua idem;

50, a praça da Zebreira, duas léguas idem;

50, a praça de Rosmaninhal, duas léguas de Alcântara;

50, a praça de Penha Garcia;

[Total:] 950 infantes que são necessários para guarnição destas praças e atalaias de seu distrito.

Guarnição que tem este partido:

495, o terço pago, inclusas duas companhias de auxiliares que andam anexas a ele;

300, dos auxiliares desta comarca de Castelo Branco;

[Total:] 795. Desta gente paga e auxiliar estão muitos ausentes, e outros não há tê-los nas praças, que forçados da necessidade se vão a casa de seus pais a remediar.

300 cavalos, inclusos os doentes e incapazes, e três companhias de auxiliares dos moradores da raia, e quando se monta aos rebates chega a duzentos.

Compare-se estes números com os efectivos do mesmo partido em 1648 e em 1663.

Fonte: ANTT, Conselho de Guerra, Consultas, 1659, maço 19, “Rellação da guarnição que hão mister as praças da Raya deste partido de Castelo branco, E da que tem, e das Legoas que distam das do inimigo”, anexa à consulta de 27 de Junho de 1659.

Imagem: Pormenor de um mapa francês do início do século XVIII, mostrando parte da região compreendida pelo partido de Penamacor (ou de Castelo Branco) em 1659, bem como as localidades espanholas mencionadas no documento. Biblioteca Nacional, Cartografia, CC1777A.

A destruição parcial da ponte de São Felizes, 20 a 23 de Fevereiro de 1646, e outras operações na província da Beira

Depois de um interregno superior a um mês, o mais longo desde que iniciei o blogue, aqui regresso com um par de testemunhos da pequena guerra de fronteira, ambos aludindo a um acontecimento menor, mas de muita importância para a vivência das populações da raia. Trata-se do assalto e destruição parcial da ponte de São Felizes, um cenário do teatro de operações da província da Beira.

O episódio não mereceu mais do que duas linhas ao Conde de Ericeira na História de Portugal Restaurado, tendo certamente consultado para o efeito a breve notícia inserida na Relaçam geral de tvdo o svccedido nas fronteiras de Portugal o mes de Julho, & Agosto, com a tomada da Codiceira, & da Põte de Saõ Felizes na Beira, Em Lisboa, Na Officina de Domingos Lopes Rosa, Anno 1646. Este ano de 1646, em termos de operações bélicas, foi dominado pela última grande campanha ofensiva em vida de D. João IV, a partir do Alentejo, que culminaria nos combates de Codiceira e Telena. Todos os recursos materiais e financeiros foram mobilizados para aquela província, de modo que as restantes ficaram reduzidas ao preparo defensivo e às limitadas actividades da pequena guerra, que de resto caracterizariam o conflito nos dez anos seguintes. Há, no entanto, outras fontes que apresentam mais pormenores sobre este obscuro acontecimento.

A cópia de um manuscrito que em boa hora o amigo Julián García Blanco – a quem eu renovo os meus agradecimentos – me fez chegar às mãos, pertencente ao espólio da Biblioteca Nacional de Madrid, inclui duas cartas (na verdade, cópias coevas das cartas originais, para registo de arquivo, à semelhança das que se podem encontrar nos Livros de Registo da Secretaria de Guerra, em Lisboa) onde é feita menção à operação. A primeira delas, sem data, mas com o registo à margem de Fevereiro de 1646, foi enviada pelo Conde Marechal (D. Francisco de Mascarenhas, Conde de Serém e governador das armas) ao Rei. A outra carta não reporta em primeira mão, tendo sido escrita em Lisboa em 7 de Março de 1646 pelo padre António de Amaral, mas refere no seu conteúdo o que o doutor António Cabral de Castelo Branco, morador em Celorico, escreveu ao padre sobre o assalto à ponte de São Felizes. Dado o interesse de ambos os documentos, passo a transcrevê-los, vertendo-os para português corrente para melhor entendimento.

Cópia da carta para Sua Majestade, do Conde Marechal, sobre a Ponte de São Felizes

Em 20 do corrente mandei intentar a entrepresa da ponte de São Felizes, conforme a ordem de Vossa Majestade. Encarreguei esta facção ao sargento-mor Agostinho de Andrade Freire, soldado de mui boa satisfação. Levou a seu cargo 600 infantes e três companhias de cavalos, e com o favor de Deus se investiu com a ponte somente pela parte deste Reino, por se não poder vadear o rio. Avançou a nossa gente a uma torre forte que havia no meio da ponte, se ganhou com facilidade, logo se passou a gente necessária à parte de Castela [para] ocupar uma colina, posto muito importante para se trabalhar com seguridade, e para impedir o dano que por aquela parte o inimigo nos podia fazer. Julgou-se por tempo necessário um dia para se derrubar a ponte, e não se pôde conseguir em menos de três dias pela grandeza e fortaleza de sua fábrica, desta detença se resultou grande glória, com grande reputação às armas de Vossa Majestade.

O inimigo juntou tudo quanto pôde nestes dias e não ousou acometer a nossa gente, por termos postos avantajados e retirada segura, e só usou de tocar arma de noite em Almeida, entendendo se disparasse a artilharia com que se divertisse a nossa gente [ou seja, procurou fazer soar o alarme para que os portugueses retirassem da ponte e fossem socorrer Almeida], o que lhe não sucedeu por se entender que este era o seu desígnio.

A nossa gente está fortificando o lugar de Vermiosa, e com intento de se fazer atalaia no Cabeço das Mesadas, com que se julga ficarão os lugares de Riba de Coa com quietação e sossego.

Filipe Bandeira de Melo, governador da praça de Almeida, se houve com muito boa disposição e diligência nos aprestos de socorros de mantimentos e munições todos os três dias, com tanto cuidado que me obrigou a lembrar a Vossa Majestade seus procedimentos. Isto é em suma o que tenho sabido deste bom sucesso, de que me pareceu avisar a Vossa Majestade para o ter entendido. (…)

O segundo documento é mais breve, mas reporta uma outra acção, além da ponte de São Felizes.

Novas da Beira em carta de Lisboa do padre António de Amaral,  de sete de Março de 1646

Chegou carta do padre António Cabral de Castelo Branco, morador em Celorico, em que conta a facção da ponte de São Felizes na forma seguinte. O capitão Brás de Amaral, levando até mil soldados, acometeu a ponte e o castelejo, onde achou até 30 soldados castelhanos, os quais, querendo se defender, foram mortos pelos nossos; que vencido este primeiro encontro, passaram fazendo rosto ao lugar de São Felizes de Galegos, deixando oficiais fazendo minas na ponte, que constava de cinco fortes olhões, e tendo-lhe metida a pólvora nas minas, se mandou voltar os nossos e que passassem a ponte, à qual mandou dar fogo e fez voar pelos ares. Ficaram da nossa parte três ou quatro lugares dos castelhanos; com isto ficamos seguros deles poderem passar a nossas terras em Inverno; nelas andam já os nossos semeando os tremoços.

A segunda facção foi em 26 do passado, saíram da Sarça e da parte de Alcântara 40 cavaleiros a roubar-nos as terras das Idanhas, colheu-os da nossa banda a cheia dos rios. Saíram-lhe os nossos e cativaram trinta, os dez que os guiavam e eram portugueses traidores, temendo que, se os cativassem os nossos, haviam de ser arcabuzeados, se lançaram ao rio e nele se afogaram todos. (…)

Estes dois documentos complementam-se nas informações que dão sobre a destruição parcial da ponte de São Felizes. O limitado objectivo estratégico foi – como muitas vezes na pequena guerra de fronteira – o de proteger as populações das incursões predatórias do inimigo. Num pormenor diferem as duas cartas: o comando das operações. Enquanto o governador das armas refere ter atribuído o comando ao sargento-mor Agostinho de Andrade Freire, já as informações recebidas pelo padre de Lisboa indicam o capitão Brás de Amaral Pimentel – provavelmente o oficial que comandou as forças no terreno durante o assalto à ponte. Por outras fontes do período da Guerra da Restauração, sabe-se que Agostinho de Andrade Freire, apesar da sua reputação de soldado experiente, não gostava muito de expor a sua pessoa a riscos desnecessários. Quanto a Brás de Amaral Pimentel, viria a ser capitão-mor de Almeida nos inícios da década de 50, e nesse cargo teve alguns contratempos pessoais. Mas isso fica para outra ocasião.

Fonte: Biblioteca Nacional de Madrid, mss. 8187, “Relações manuscriptas de Portugal, desdo anno de 1643 athe 1646”.

Imagem: Vista parcial do perímetro defensivo da praça de Almeida, na actualidade. À direita, os quartéis de cavalaria, datando do século XVIII. Foto de JPF.

Espionagem e traição na fronteira da Beira, 1651 – o caso do capitão João Cordeiro

Ao capitão de cavalos da ordenança João Cordeiro já foi feita referência a propósito do assalto à ponte de Alcântara. Nascido ou pelo menos criado em Segura, tido como guia experiente, o capitão perdeu-se quando conduzia a força que devia executar o ataque à praça raiana, resultando daí o atraso no início das operações. Em consequência, D. Sancho Manuel mandou-o prender. Mais tarde, esclarecido o caso, o oficial foi libertado.

Quanto a espionagem e contra-espionagem, recentemente foi trazido aqui um exemplo a partir de um documento coevo. O capitão João Cordeiro também esteve relacionado com este campo particular da guerra de fronteira. A tal ponto que aí ficou traçado o seu destino.

Em 15 de Maio de 1651, uma consulta do Conselho de Guerra tratava de um acontecimento ocorrido – presume-se – na praça de Segura. A falta da carta de D. Sancho Manuel, que a consulta apenas resume, não permite saber ao certo. O que se passou naquela distante fronteira foi considerado assunto grave: o governador das armas dava a conhecer a traição que um castelhano da Sarça [Zarza la Mayor] (que por via do capitão João Cordeiro lhe dava alguns avisos, que se lhe pagavam com pontualidade) cometeu, matando o mesmo capitão João Cordeiro. Sendo o caso que, vindo-se este castelhano a descobrir com os seus oficiais [ou seja, a revelar o seu papel de espião], eles o persuadiram a que matasse o capitão João Cordeiro, como fez, e vindo na noite de 4 do presente comboiado pelas tropas inimigas, chegara à porta do capitão João Cordeiro, metendo-se por onde a praça ainda não estava fechada, sem ser sentido das sentinelas por não vir pelas avenidas; e dizendo ao capitão que lhe trazia um aviso para dar a ele Dom Sancho, se apartara o capitão João Cordeiro com ele, e estando sós lhe dera o castelhano um pistoletaço de que logo morreu, pondo-se o traidor logo em cobro, o que pôde fazer porque no mesmo tempo acometeram as tropas do inimigo às avenidas e se tocou arma, com o que teve lugar o traidor de se meter com os seus, que se retiraram ao som de trombetas, como se com sua traição conseguiram ganhar uma província.

Contava assim D. Sancho Manuel, despeitado, o triste fim do capitão da ordenança, de quem havia três anos desconfiara e mandara prender. Pela traição, sugere que o Rei mande que se não dê quartel a nenhum castelhano, e que permita que o próprio D. Sancho possa mandar executar os inventores desta maldade.

Os conselheiros opuseram-se de forma veemente a esta sugestão de D. Sancho, pois não se devia admitir nem praticar tal coisa, por não se usar entre cristãos o não dar quartel. Sugeriram ao Rei que mandasse D. Sancho acabar de cerrar a praça, para que ninguém pudesse entrar sem ser sentido – e se não pudesse ser com muralha, que fosse com trincheira e estacada. Quanto aos herdeiros do falecido capitão, consideraram ser merecedores de receber alguma mercê régia, em virtude de João Cordeiro ter sido um grande sujeito, bizarro e valente capitão.

Uma curiosidade: a título particular, acrescentaram à consulta D. Álvaro de Abranches e Jorge de Melo os seus pareceres, nos quais disseram que os moradores da Sarça são costumados a fazer traições, por onde já tiveram castigo, o que lhes parece que se encomende a Dom Sancho procure fazer o mesmo ao traidor.

Espionagem e contra-espionagem – mas também traições, castigos e vendettas. A fronteira da Beira parece ter sido terreno fértil nestes casos. O historiador Gastão de Melo de Matos, na sua obra Um soldado de fortuna do século XVII (Lisboa, s. n., 1939), narra o episódio de dúbios contornos do então sargento-mor António Soares da Costa, o Machuca, e o triste fim de D. Alfonso de Sande y Dávila. Mas, como costuma dizer Juan Antonio Caro del Corral, isso é outra história.

Fonte: ANTT, Conselho de Guerra, Consultas, 1651, maço 11, consulta de 15 de Maio de 1651.

Imagem: Pausa dos militares. Pintura de Simon Kick (1603-1652).

O assalto à ponte de Alcântara, 25 e 26 de Março de 1648 (2ª parte)

Na madrugada de 26 de Março, uma quinta-feira, D. Sancho Manuel reatou a investida contra a ponte de Alcântara. Duas horas antes do amanhecer, a força portuguesa logrou aproximar-se do objectivo, enganando os sentinelas ao falar-lhes em castelhano, dizendo que eram moradores de Zarza e que vinham pedir socorro, pois que D. Sancho Manuel tinha tomado a vila. Com este estratagema, os homens do terço do mestre de campo João Lopes Barbalho investiram de surpresa a ponte, rompendo três portas, duas estacadas e dois retrincheiramentos com três petardos, e o demais a braço dos infantes, estando de guarnição nelas duzentos e trinta infantes com três capitães e um sargento-mor por cabo, que havendo acudido à defesa com muito valor, não bastou para resistir ao com que os soldados de Vossa Majestade a trataram de ganhar, sobre que pudera dizer grandes encarecimentos, que não faço, porque a poderá melhor significar a consideração de que não era possível ganhar-se tanta fortificação sem demasiado valor, o que experimentaram os castelhanos à custa de muitas mortes, em que entraram pessoas de consideração. (Carta de D. Sancho Manuel).

Os defensores que estavam de guarda retiraram precipitadamente, oferecendo pouca resistência, até ao meio da ponte, onde se juntaram à companhia do capitão D. Rodrigo de Aponte y Zúñiga; recebendo reforços, a força defensora conseguiu parar a investida dos portugueses. De parte a parte houve muitos mortos e feridos, resultantes do encarniçado combate que se travou.

Impossibilitado de avançar mais, João Lopes Barbalho tratou de garantir o terreno já conquistado. (…) [G]anhada a metade da ponte, havendo favorecido muito poder do inimigo, tratou o mestre de campo de se cobrir com trincheiras, em que era noite, por escutar as ofensas que se lhe poderiam seguir, de amanhecer sem estar reparado, maiormente que se não necessitava mais para o intento de derrubar a ponte que o espaço dela que estava ganhada. E assim mandou abrir minas, nas quais se continuaram cinco dias com o cuidado que pedia a matéria, recrescendo no escuro (…) todas as horas socorros de consideração ao inimigo, que para estorvar o intento faziam empenhos que não foi possível conservar o posto sem uma contínua bateria, de que nos resultou perda de 30 mortos e 76 feridos, que recompensou bem o efeito que resultou da mina, que foi arrebentar um arco que tinha de largo cento e cinquenta palmos, e de arco de sessenta, com o que não somente se segue arruinar a Castela uma das maiores obras de seus Reinos, impossibilitar à vila de Alcântara lucro de suas fazendas, impedir à Zarza e aos mais lugares que ficam desta parte do Tejo os socorros que lhe vinham de Badajoz, senão ainda desafogar esta Província dos danos que padecia a este respeito. (Carta de D. Sancho Manuel)

Os alcantarenses tinham recebido reforços de várias partes e de toda a nobreza de Brozas e de Cáceres, mas optaram por não os empregar em operações de contra-ataque devido à duvidosa qualidade dos mesmos. Assim, assistiram impotentes ao derrube do arco da ponte, se bem que um manuscrito coevo, transcrito por Gervasio Velo y Nieto, refere que El daño que el rebelde hizo en el puente no fué tanto como se pensó, porque todo el arco que juzgó volar quedó firme en las claves y solamente de los lados padeció alguna ruina. No ha impedido el paso, antes hoy dice el ingeniero mayor del ejército, que aquí se halla, tiene la cortadura linda disposición para hacerse un puente levadizo, con que quedará más asegurada la defensa de esta plaza y del puente. (Velo y Nieto, pg. 78)

No mesmo manuscrito, elaborado pouco depois do combate, pode ler-se que o número de baixas dos portugueses era desconhecido, e que entre os defensores houve netre 12 e 15 mortos e mais de 300 feridos e queimados, entre eles um sobrinho do mestre de campo D. Simón de Castañiza, caído na ocasião do rebentamento do primeiro petardo português.

Já D. Sancho Manuel termina a sua carta com as considerações finais e as recomendações  dos que mais se tinham distinguido em combate:

E no último dia em que havíamos de dar fogo às minas acabou o inimigo de juntar todos seus socorros, com que fez muito maior número de cavalaria e infantaria do com que eu me achava. E porque me não perturbassem, ordenei ao comissário geral que com trezentos cavalos e cem infantes fosse a impedir-lhe a pasagem do rio Alagão e procurasse queimar-lhe as barcas, o que ele fez com grande bizarria, ocupando o vau e mandando ao ajudante da cavalaria João de Almeida de Loureiro que fosse ao porto das barcas a queimá-las, o que obrou com mui bom sucesso, com o que sem sobressaltos consegui o que pretendia. Estimara ser instrumento para que Vossa Majestade lograra outras maiores facções, se bem esta se deve avaliar por uma das maiores que se tem conseguido depois da feliz aclamação de Vossa Majestade. Nesta ocasião se houve o mestre de campo João Lopes Barbalho com a disposição e valor que as armas de Vossa Majestade têm experimentado de seu talento há muitos anos, assim nas guerras do Brasil como deste Reino, e foi-lhe bom companheiro o capitão António Soares da Costa, ajudante de tenente de mestre de campo general, que foi o primeiro que entrou às portas petardeadas; o capitão Pedro Craveiro de Campos, que nesta ocasião ocupou a vanguarda até ser ferido nela, na qual sucedendo os capitães Filipe do Vale Caldeira e Simão de Oliveira da Gama; que com muito valor pelejaram o ajudante Álvaro Saraiva, que governando uma companhia fez o mesmo; os ajudantes Manuel Machado Caldeira e Domingos da Silveira acudiram com particular satisfação às obrigações de seus cargos, e geralmente o fizeram todos, de maneira que devem ser admitidos em título dos melhores vassalos que logra a Coroa de Vossa Majestade, cuja Católica e Real Pessoa guarde Deus largos e felizes anos, como a Cristandade há mister. Idanha.

Em conclusão, o ambicioso plano de D. Sancho Manuel de Vilhena não pudera concretizar-se na tomada de Alcântara; todavia, restava ao cabo de guerra português demonstrar o seu zelo e  exaltar, do meio-sucesso obtido, um episódio de reputação para as armas régias, como aliás fazia frequentemente. As poucas linhas que dedica à operação o Conde de Ericeira (meia dúzia, literalmente, na edição de 1751, facsimile acessível online a partir de Google ebooks) são demonstrativas do pouco efeito prático que o rebentamento parcial da ponte teve, apesar do que D. Sancho Manuel sugere na sua carta. Mas para a pequena guerra de fronteira, mesmo sem pesar no quadro da estratégia global, foi mais uma ocasião de experiência de combate para as forças envolvidas.

Fontes e bibliografia:

ANTT, Conselho de Guerra, Consultas, 1648, maço 8-A, carta de D. Sancho Manuel, anexa à consulta de 25 de Abril de 1648.

ERICEIRA, Conde de – História de Portugal Restaurado, Parte I, Livro X, edição de 1751, pg. 268; obra parcialmente disponível on-line.

VELO Y NIETO, Gervasio – Escaramuzas en la frontera cacereña, con ocasión de las guerras por la independencia de Portugal, Madrid, s.n., 1952.

Imagem: “Trabalhos de fogo”, pormenor de um quadro de 1645, de Joseph Furttenbach, Germanisches Nationalmuseum. Representa um engenheiro de fogos, armado de capacete, coura e com uma rodela para defesa pessoal, bem como o instrumento com que os artilheiros davam fogo à peça, com dois morrões acesos – e que era usado também para os petardos.

O assalto à ponte de Alcântara, 25 e 26 de Março de 1648 (1ª parte)

Em 25 e 26 de Março de 1648, o governador das armas do partido de Penamacor, província da Beira, D. Sancho Manuel de Vilhena, tentou um arrojado empreendimento militar contra a bem fortificada praça de Alcântara (Alcántara, em castelhano). O acontecimento mereceu uma menção não muito extensa do Conde de Ericeira na História de Portugal Restaurado (parte I, Livro X, pg. 268, da edição de 1751, parcialmente disponível on-line). Já no século XX, o historiador espanhol Gervasio Velo y Nieto dedicou ao assalto algumas páginas em Escaramuzas en la frontera cacereña, con ocasión de las guerras por la independencia de Portugal (Madrid, s.n., 1952, pgs. 74-77), embora tenha transcrito erradamente a data do acontecimento a partir de um documento coevo, situando-o em Maio. Este episódio da pequena guerra de fronteira, tão característica do conflito luso-espanhol, permanece hoje praticamente desconhecido. Tivesse sido o resultado favorável às forças de D. Sancho Manuel, a façanha teria sido certamente perpetuada de modo estrondoso. Mesmo assim, sem ter logrado o objectivo inicial, a operação militar não foi deslustrosa, de acordo com a valoração das atitudes militares da época. Por isso, o futuro Conde de Vila Flor enviou a D. João IV um relatório detalhado, se bem que algo confuso na redacção, onde se refere ao “glorioso sucesso” da ponte de Alcântara.

O delinear da operação enquadra-se no pensamento militar típico do período: ausência de uma estratégia concertada com as outras frentes de guerra, desejo de notabilização do comandante em chefe por meio do acrescento da reputação das armas de Sua Majestade (que, em caso de sucesso, poderia traduzir-se numa recompensa pecuniária e no acréscimo da reputação do cabo de guerra, por via das mercês régias), reacção a anteriores actividades de depredação levadas a cabo pelo inimigo através de uma operação punitiva. No caso vertente, D. Sancho Manuel não se limitou a preparar uma acção de pilhagem, mas apontou a um fim mais ambicioso: a tomada de uma importante praça. No cerne da sua resolução também se encontra um traço comum à prática da guerra na Era Moderna – a fraca consistência da informação obtida sobre o inimigo, o que neste caso levou D. Sancho a supor que a operação poderia ser coroada de êxito, como veremos pela transcrição da sua carta.

A preparação da acção dificilmente seria mantida em segredo, pois os efectivos mandados concentrar eram de tal número para aquela parte da fronteira, que não passariam despercebidas ao exército espanhol as necessárias movimentações militares. Foram mobilizados 1.000 infantes: o terço do mestre de campo João Lopes Barbalho, reforçado com 200 elementos do terço do mestre de campo Diego Sanchez del Pozo – castelhano que se notabilizou ao serviço de D. João IV – e 100 auxiliares; e 500 cavaleiros comandados pelo comissário geral Pierre Maurice Duquesne, em 9 companhias. Duas destas eram da ordenança, pois a cavalaria de auxiliares só tomaria forma em 1650, e uma  era do exército do Alentejo, enviada como reforço – a do holandês Manuel Cornellis. No regresso desta companhia ao Alentejo ocorreria o episódio já aqui tratado sob o título “Um crime em Abrantes”. Acompanhava esta força de infantaria e cavalaria um grande número de carros e carretas, com diverso material e o necessário equipamento de fogos (petardos para derrubar as portas da fortificação) e os respectivos engenheiros.

Velo y Nieto refere que era esperada uma operação de envergadura por parte dos portugueses, mas não se sabia qual seria o objectivo. Havia receios que fosse Zarza la Mayor, em vingança de alguns dissabores causados pela cavalaria de Zarza, os montados, semelhantes às companhias de cavalos pilhantes ou moradores de algumas localidades portuguesas da fronteira. Mas Alcântara parecia pouco provável:

La conquista de la misma resultaba en extremo difícil, porque para llegar a sus puertas era indispensable vadear el río Tajo o pasar el puente romano, y ambas empresas ofrecían serios peligros; la primera, porque los accidentes de sus orillas imposibilitaban o dificultaban en extremo el paso de la artillería y demás pertrechos, ya que el terreno que circunda a la plaza es escabroso y casi inaccesible; y la segunda, porque si se aventuraban a cruzar el puente, serían barridos con el fuego de los mosquetes y la artillería. (Velo y Nieto, pgs. 74-75)

A progressão da força portuguesa foi lenta e atabalhoada e o factor surpresa, se é que era possível mantê-lo, logo se perdeu. No entanto, os espanhóis tardaram a acreditar que o objectivo de D. Sancho Manuel fosse a praça de Alcântara. Pensaram que se tratava de uma manobra de diversão até que a evidência os desenganou. Seguiu-se um combate renhido. Passemos à narrativa de D. Sancho Manuel, vertida em português corrente:

Por esta dou conta a Vossa Majestade do glorioso sucesso que Deus foi servido dar às armas de Vossa Majestade nesta Província, por meio dos que nela nos desvelamos pelo real serviço, e foi que resolvendo-me a empreender o que mais convinha à reputação das armas de Vossa Majestade, à quietação desta Província e bem deste Reino, me fui aos 24 para os 25 deste mês sobre a ponte de Alcântara, para naquela madrugada a entreprender, facilitando-me a facção haver alcançado notícias da pouca guarda e apercebimento com que estava a ponte, se bem prevenida de fortificação considerável, que constava de uma estacada forte, a que se seguia uma trincheira de 25 palmos de alto com uma porta mui forte, e a esta se seguia outra ainda de mais consideração, a que sucediam dois retrincheiramentos; e a eles outra estacada com porta, e acabado isto se topava com uma torre que havia no meio da ponte, bem aparelhada no forte para a defesa. Para conseguir este intento levei quinhentos cavalos governados pelo comissário Pedro Maurício Duquesne, que constavam das companhias dos capitães Gaspar de Távora, Manuel Furtado de Mesquita, João de Melo Feio, Dom Francisco Naper, e duas da ordenança, de Henrique Leitão Rodrigues, governada pelo seu tenente Fernão da Guarda, e João Cordeiro, com mais as de Manuel Cornellis e Nuno da Cunha de Ataíde, a cujo cargo vieram estas duas companhias, e sem embargo de seus achaques se achou em tudo com grande zelo. Era a infantaria mil infantes, dos terços dos mestres de campo João Lopes Barbalho, em que marchariam setecentos homens das companhias dos capitães Filipe do Vale Caldeira, Simão de Oliveira da Gama, Manuel de Brito, Mateus Alves, Simão da Costa Feio, Simão Fernandes de Faria, Fernão Monteiro Fialho, Jorge Fagão e a do capitão Diogo Freire, governada pelo seu alferes Per André, e a do mestre de campo governada pelo seu sargento com mais três companhias de auxiliares dos capitães João de Elvas, António Estaco, Manuel Laranjo, e marchavam mais duzentos infantes do terço do mestre de campo Diogo Sanches del Poço, a quem chamei com eles para se achar nesta ocasião; eram dos capitães Paulo de Andrade, Bartolomeu de Azevedo e a companhia de Bernardo Pereira, governada pelo ajudante Álvaro Saraiva. Com esta gente, que me pareceu bastante, me saí da praça de Segura, e em razão de lhe tocar por seu turno, nomeei para o primeiro assalto ao mestre de campo Diogo Sanches com a sua gente, dando-lhe do outro terço a que me pareceu necessária e todos os apetrechos de fogo e engenheiros dele que convinha para a execução do intento, e para sua guia ao capitão João Cordeiro, pessoa que por se haver criado na praça de Segura, era mais prático naquele distrito. E nesta conformidade, dando ao mestre de campo a gente que lhe tocava para a facção, o despedi pelo caminho mais oculto por onde se poderia avizinhar a ponte. E eu com o resto do que me ficou, segui via direita a emboscar-me junto a ela, donde havia de arrebentar [ou seja, aparecer], tanto q se petardeasse a primeira porta. Mas sucedeu muito ao contrário do que se podia imaginar, e foi que João Cordeiro, nas duas léguas que há de distância de Segura [a] Alcântara, gastou toda a noite sem acabar de chegar, a cuja causa o tenho prezo por me parecer não podia ser sem culpa sua, e vendo eu que por ser já claro dia se ia perdendo a facção, mandei investir a ponte pelo mestre de campo João Lopes Barbalho, parecendo-me que não podia Diogo Sanches estar tão longe que às primeiras cargas não chegasse com os petardos e mais aparelho de escalar, com o que por esta via se poderia remediar a falta que com sua tardança se seguia. Mas nem por esta via se conseguiu por esta vez a facção, porque havendo o mestre de campo Diogo Lopes Barbalho petardado a ponte, e não entrando só por falta de instrumentos, chegou Diogo Sanches com eles a tempo que o inimigo estava refeito, em razão de haver tido mais de duas horas para se poder prevenir, com o que querendo Diogo Sanches avançar, lhe deu uma pelourada de que está fora de perigo; feriram mais ao capitão Manuel Correia de Mesquita com um mosquetaço, de que morreu, havendo procedido com muito valor; também se deu outro ao sargento-mor Manuel Pinto, que se houve na mesma conformidade, e outra em o capitão Paulo de Andrade. E por ver que não estava já a facção capaz de se lograr me tornei a retirar à praça de Segura, onde me ofereceu à consideração impossíveis para o intento o tornar a conseguir, em razão de haver entrado ao inimigo socorro (…) (carta sem data, anexa à consulta de 25 de Abril de 1648, na véspera do nascimento do infante D. Pedro, futuro D. Pedro II – ANTT, Conselho de Guerra, Consultas, 1648, maço 8-A)

Segundo um documento da Biblioteca Nacional de Madrid, citado por Velo y Nieto (e no qual a força portuguesa de infantaria é ampliada para o triplo: 3.000 homens), habiendo avanzado el Maestre de Campo, Diego Sánchez, a una de las puertas de aquel puesto con el más florido de un tercio, lo rechazó matándole cuatro o seis, y entre ellos un alférez vivo, y el mismo Maestre de Campo se retiró herido y con él la manga que abía avanzado, que por haberse descubierto a las defensas que tiene el puente, recebió mucho daño y por esta causa dejó  de avanzar la otra manga por la puerta de San Lázaro. (Velo y Nieto, pg. 75)

D. Sancho Manuel retirou para Segura, mas os defensores de Alcântara recearam que o exército português fosse atacar Zarza la Mayor, pelo que foram para ali enviados reforços de Ceclavín e outras localidades. Todavia, no dia 26 estava de novo o exército português sobre a ponte de Alcântara.

(continua)

Agradeço ao estimado amigo Juan Antonio Caro del Corral a disponibilização da obra de Velo y Nieto, de que me socorri para compor este pequeno artigo.

Imagem: A praça de Alcântara, sendo visível a ponte onde se travaram os combates. Planta publicada em La memoria ausente. Cartografia de España y Portugal en el Archivo Militar de Estocolmo. Siglos XVII y XVIII.