Batalha de Montijo, 26 de Maio de 1644

Comemora-se hoje o 364º aniversário da batalha de Montijo, travada nas proximidades da localidade com aquele nome, na província de Badajoz. Resultou de uma incursão levada a cabo pelo exército do Alentejo, comandado pelo governador das armas Matias de Albuquerque. Não se tratou de uma simples entrada para pilhagem, embora esse fosse também um móbil importante. O futuro Conde de Alegrete levou consigo praticamente todo o exército da província, oito terços pagos com cerca de 6.000 infantes e a cavalaria com 1.100 efectivos, o trem de artilharia com dois meios-canhões de 24 libras, quatro peças de campanha de 7 libras e uma extensa cauda de 205 carros de bois, carretas e 1.000 machos e mulas. Para trás, a guarnecer as praças, ficaram somente duas companhias de cavalaria e as unidades de infantaria da ordenança provincial e as que tinham vindo de Lisboa e de Coimbra. Saiu esta força de Elvas a 16 de Maio. Dez dias depois, após várias escaramuças e depredações, envolvia-se em confronto com o exército da Extremadura, comandado pelo Barão de Mollingen, com 7.000 infantes e 2.500 cavalos, entre os quais várias companhias de caballos corazas, os couraceiros que não existiam ainda entre a cavalaria portuguesa. O choque deu-se sob um intenso temporal, com muito vento e chuva forte, o que impediu a utilização efectiva das armas de fogo.

Não irei fazer aqui a descrição da batalha, pois há diversas relações sobre a mesma, recontadas ao longo dos séculos seguintes. A historiografia portuguesa tem tradicionalmente feito eco da propaganda impressa da época, evocando a vitória obtida por Matias de Albuquerque, que num arremedo de bravura reagrupa a infantaria e vinga a derrocada inicial do exército português, precipitada pela fuga precoce da sua cavalaria. Para os portugueses, Montijo foi uma vitória do exército de D. João IV, a primeira obtida numa batalha campal desde o início do conflito. Todavia, para a historiografia espanhola, a batalha de Montijo é apresentada como uma vitória do exército de Filipe IV, que destroçou o exército inimigo, não obstante o que sucedeu posteriormente. Fixa-se na memória e no imaginário, deste modo, a guerra de palavras a papel e tinta, depois da guerra dos actos, a ferro, fogo e sangue…

A ciência histórica é hoje mais rigorosa nos seus métodos de análise e exigente na interpretação. Revisitar a batalha de Montijo significa afastar os mitos que a encobrem, procurando em fontes esquecidas ou descuradas a resposta para diversas incongruências das narrativas panegíricas. Esta arqueologia da realidade possível tem revelado um cenário diverso e muito interessante em várias perspectivas de análise – mas ainda é cedo para a divulgação, neste caso, pois o estudo ainda está em curso.

Para além do combate propagandístico que ambos os lados levaram a cabo e que ainda marca o nosso imaginário, houve um outro, o ponto de partida bem concreto e terrível, que há mais de três séculos e meio teve lugar nos campos de Montijo. Em memória dos que ali se bateram relembramos o dia 26 de Maio.

Algumas narrativas sobre a batalha de Montijo:

ARAÚJO, João Salgado de, Successos Militares… (veja-se o capítulo XXIV, pgs. 228 v – 231)

AZEVEDO, Luís Marinho de, Apologia militar en defensa de la victoria de Montiio. Contra las relaciones de Castilla, y gazeta de Genoba, que la calumniaron mordaces, y la usurpan maliciosas, Lisboa, en la emprenta de Lorenço de Anveres, 1644.

Relaçam dos gloriosos svccessos, qve as armas de Sua Magestade ElRey D. Joam IV N. S. tiuerão nas terras de Castella, neste anno de 1644. atè a memorauel victoria de Montijo, Lisboa, Antonio Alvarez, 1644.

Relação da entrada que fes o gouernador das Armas Matthias de Albuquerque em Castella, e sucesso da batalha que os Exercitos Portugues e Castelhano gouernados pellos Generaes Matthias de Albuquerque e Barão de Mulingen tiuerão em quinta feira de Corpus dos des do dia ate as quatro da tarde nos campos do Montijo em 26 de Maio de 1644, transcrito in SANTOS, Horácio Madureira dos, Cartas e outros documentos da época da Guerra da Aclamação, Lisboa, Estado Maior do Exército, 1973, pgs. 171-176.

Relacion verdadera do qve lo svcedio en veinte y seis de Mayo passado, en el reencuentro que tuvieron las armas de su Magestad con las del Rebelde Portugues en la campaña de Montijo, Madrid, Carlos Sanchez, sem data [provavelmente 1644].

Estudos sobre a batalha de Montijo:

BARATA, Maria do Rosário Themudo, “Estudo Evocativo sobre a Batalha de Montijo”, in Revista Militar, nº 12, 1994, pgs. 1141-1166.

PIMENTA, Belisário, A Batalha de Montijo, Coimbra, Coimbra Editora, 1945.

Imagem: Poderia ser o cenário de um outro campo de batalha, o das Relações de feitos de armas durante a Guerra da Restauração, onde o combatente da propaganda empunha a sua arma, a pena de escrever. Os apetrechos eram os mesmos que aqui estão retratados. Foto do autor, casa-museu de Oliver Cromwell, Ely, Inglaterra.

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10 thoughts on “Batalha de Montijo, 26 de Maio de 1644

  1. E moi interesante e prudente a sua opiniao sob a batalha de Montijo, eu fixen nunha revista espanhola de historia un estudo sob a dita batalha que tradicionalmente para os espanhois foi ganha sen dubida. Mais penso que e o momento fora propaganda de guerra de buscar a verdade do sucedido. E fundamental, na miña opiniao facer un estudo das duas fontes da batalha, espanholas e portuguesas, tamen buscar outras fontes alternativas e ollar un pouco mais aló procurando a realidade estratexica depois da batalha.
    Neste intre, eu penso de seguro que a batalha de Montijo ficou indecisa, a vitoria inicial espanhola e a recuperaçao posterior portuguesa aproveitando a pillagem espanhola no campo de batalha nao tiña força suficiente en nenhum bando para decidir a batalha de maneira contundente.
    Estando a cabaleria portuguesa escapada do campo e o exercito de molinghen espallado os dois bandos retiranrose, os espanhois ledos por haber conseguido vitoria inicial, con alguns centos de prisioneiros, e cortado a ofensiva portuguesa, e os portugueses ledos tamen por haber recuperado da grave derrota e recuperado tamen a sua artilheria antes collida polos contrarios, e retirando en orden para Portugal. Depois chegaron a ambas partes a propaganda de guerra, nada que dicir,ainda hoxe se reconsideran muitas batalhas ainda proximas como a batalha de kurks, tradicional derrota alemana na segunda guerra mundial que empeza a considerarse de outra maneira. Ainda mais cando falamos dunha batalha de 1644.
    Estou aberto a novas opinioes con muito gusto. Este blog e moito bo, e noto interés pola historia de verdade e nao nacionalismo que non axuda a realidade histórica. Benvidos por iso.
    Carlos
    Licenciado en historia, estudante dos conflictos bélicos hispano-portugueses e de nacionaidade galego-espanhola.

  2. A mim me parece, fora de qualquer propaganda ou nacionalismo, que a vitória numa batalha é determinada pelo seu resultado final, e não pelos efeitos iniciais do embate.

    Resultado final militar: mas também o resultado final político, territorial, e diplomático.

    Por isso, se os portugueses não venceram em Montijo, como explicar então a esquecida conquista da importante praça de Valência de Alcântara, nessa mesma campanha de 1644, cidade que permanecerá portuguesa 24 anos, só sendo devolvida a Castela depois do tratado de Paz de 1668?

    Penso que isto resolve a questão quanto a Montijo.

    Já sobre a Batalha Real, a Catalha de Touro (que agora escrevem Toro não sei porquê), dá-se o inverso. Sabe-se que o exército comandado pelo rei é derrotado, mas que a ala comandada pelo Príncipe Perfeito saiu vitoriosa dos castelhanos: durante muitos anos, este, já rei, foi assim louvado por essa sua vitória pelas plumas portuguesas, que esqueciam a derrota simultânea do rei seu pai.

    Porém, o que conta são os resultados práticos: ficou consolidada a usurpação da coroa castelhana pela infanta Isabel, D. Afonso V volta a Portugal e desiste das suas pretensões ao trono castelhano. Parece portanto que é uma derrota, tão histórica e memorável como foi para o lado contrário a de Aljubarrota.

  3. Estimado Portuguez

    Muito agradeço a sua visita a este blogue. Devo, no entanto, corrigir um pormenor importante no seu comentário: a praça de Valência de Alcântara só foi conquistada pelos portugueses em 1664. Na campanha desse ano, dando sequência à vitória do Ameixial no ano anterior, o exército português tomou a iniciativa das operações e conquistou Valência de Alcântara. Seria devolvida à Coroa Espanhola quatro anos depois, após a ratificação do tratado de Paz.

    O caso da batalha de Montijo é bastante mais complexo. Ambos os lados clamaram vitória, mais por motivos propagandísticos (as narrativas impressas eram uma outra “frente de batalha”) do que estritamente militares. O exército português, num conceito herdado da Idade Média (a presença final sobre o campo de batalha), afirmou-se vitorioso. Todavia, um estudo mais atento, feito com base em fontes primárias (relatórios, correspondência e memórias), revela que o exército da província do Alentejo sofreu pesadas baixas e que o alto comando temeu pela própria segurança da fronteira alentejana no seu todo (e do reino de Portugal, em última instância). Não foi por acaso que o exército recolheu a Elvas e que se reforçou o dispositivo de defesa da principal praça de guerra do Alentejo. A iniciativa passou temporariamente para o exército espanhol, que pôs cerco a Elvas, embora não tenha tido êxito.

    As minhas pesquisas sobre a batalha e o seu contexto ainda não estão terminadas, mas posso afirmar com alguma segurança que o resultado da batalha de Montijo foi indecisivo e irrelevante para o curso da guerra (o mesmo já não aconteceria com as batalhas de Ameixial e de Montes Claros, na década de 60). O sentimento geral entre os militares portugueses balançou entre uma vitória pírrica e um desastre iminente. Levou a uma apressada reforma da cavalaria portuguesa e à introdução dos couraceiros, imitando a cavalaria espanhola da época. As chefias da cavalaria foram substituídas e o próprio Matias de Albuquerque, apesar de elevado a Conde de Alegrete, não escapou a críticas. É claro que estes dados não aparecem nas relações propagandísticas impressas, mas em documentos cuja circulação era bem mais restrita e reservada à mais alta oficialidade, ao Conselho de Guerra e ao próprio Rei.

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  5. Pingback: Batalha de Montijo – 365 anos depois « Guerra da Restauração

  6. Os comentários do senhor Duran parecem-me até algo moderados em relação ao que costumo ler vindo lá do outro lado da raia.O certo é que neste caso o exército português foi acometido com muito vigor desde o início e teve severíssimas baixas tendo em conta os efectivos em liça,mas devido a certas circunstâncias conhecidas,apesar de ter tido no final mais baixas,venceu a batalha,e se os contrários não perderam tantos efectivos,foi porque simplesmente deram às de vila diogo.É o que concluo das pesquisas que tenho feito e provenientes de fontes em várias línguas.
    Todos consideram uma importante vitória das armas portuguesas sobre os usurpadores espanhóis.Só “nuestros hermanos”pretendem o contrário.Mas,já estamos habituados.O certo é que a nação portuguesa recuperou a sua independência sobre forças bem superiores e como é sabido venceu todas as batalhas importantes.Os espanhóis lá tiveram a consolação da retirada de Telena,que não sabemos exactamente o que foi.QUE APRENDAM E NOS DEIXEM EM PAZ…

    • Non sabia si responder ao derradeiro comentario de Antonio Pena (apelido moi comun na miña Galiza, porque remata con “que aprendan e nos deixen en paz”; non e un comentario amistoso e xa funme doutros foros portugueses por ver pouca historia e muito nacionalismo mais ainda vou responder a risco de que non se respete a miña opinión.
      Pois eu respeto a sua totalmente, mais non estou dacordo, supoño que teño dereito iso e o moderador sei que mo concede.
      A cavaleria portuguesa seguindo o relatorio da batalha de Montijo de conde de Ericeira fuxiu depois dos primeiros combates e refuxiou nunha arboreda ata o final da mesma, pensando ao escoitar os cañons que eran os sinais da vitoria espanhola, penso que unha derrota como a mencinada nas fontes portuguesas non e doada sen o apoio da cavaleria no contexto da batalha, relatorios castelans menores e de persoas do lugar falan da fuxida do exercito portugués e tamen gostaría, con sinceridade, coñecer as fontes “neutrais” das que fala e que recoñecen a vitoria portuguesa, eu non as coñezo e me gostaría votarlles unha ollada.
      Penso que os paises opinaban segun as simpatias que tiñan polos dous reinos.
      Enquanto as vitorias portuguesas nesta guerra ninguen as dubida, Portugal tivo a sorte nesta guerra e na guerra do século XIV de dispor de maravilhosos xefes militares, enquanto a espanha neste momento estaba no seu peor momento, en loita con media europa, a piques de se esnaquizar como reino (conspiracións independentistas en aragon, andaluzia e catalunha aparte portugal) e en ruina económica; e por finalizar tal era a debilidade que sendo tan grande monarquia non foi capaz de afrontar ningunha batalha importante con maior número de homes que portugal agás na batalha das linhas de elvas, brillante vitoria portuguesa precedida tamen e ben certo do grande desastre de Badajos en 1658, por exemplo na batalha de montesclaros o numero de homens nos dous exercitos conhecese ben, eran praticamente os mesmos homes nos dous bandos.
      Sei que os portugueses teñen mal recordo dunha castela que buscaba sempre a unidade peninsular a costa dos portugueses (nos os galegos tamen estivemos submetidos e nosa lingua e cultura asoballadas) mais tamen e verdade que afonso V intentou a unidade peninsular baixo a hexemonia portuguesa, non o conseguiu.
      Suplico perdao polo longo da miña resposta, eu veño a este maravilhoso blog a falar non de politica mais sim de historia militar e un saudo e todo o meu respeto a Antonio Pena e todos os meus irmaos portugueses e o de irmaos o digo de todo coraçao.

  7. Obrigado, amigo Carlos Duran, pela sua resposta. Não tenho, por norma, o hábito de censurar as opiniões dos leitores, preferindo deixar aberto o diálogo entre comentadores, mesmo que alguns comentários veiculem opiniões com as quais não concordo.
    No caso de Montijo (e eu creio que já escrevi por aqui algo sobre isso) as fontes impressas que inspiraram, até há algumas décadas, historiadores de ambos os lados da fronteira, eram as relações destinadas a propagandear os feitos de armas de cada exército. As interpretações vincadamente nacionalistas beberam exclusivamente aí, sem explorarem um manancial de documentos diversos, nos arquivos de Portugal e Espanha, que permitiriam obter conclusões mais objectivas e menos desapaixonadas do ponto de vista ideológico. Tenho procurado, modestamente, chamar a atenção para alguns desses documentos, em resultado das minhas próprias pesquisas e do diálogo com outros historiadores. A este respeito, o investigador Sr. Julián García Blanco tem vindo a estudar e a reunir elementos sobre a batalha de Montijo, seguindo uma metodologia mais de acordo com as exigências da moderna historiografia. Aguardemos o resultado do seu trabalho, que eu acredito irá ser muito interessante.

    • Grazas ao moderador pola sua resposta amavel como sempre

      agardo o traballo referido con muitas ganas mais xa teño falado dista batalha noutros foros e teño publicado artículos dela e a miña opinion segue a ser a mesma ata que outras novas muden as miñas ideias actuais: a batalha de Montijao foi unha batalha indecisa sen ganhador claro mais penso que as perdas foron mais fortes para o exercito portugués e o combate significou o cambio da iniciativa da campaña para o exercito da monarquia hispánica.
      Por outra banda aproveito para facer un pedimento, gostaria de saber algunha noticia de fonte portuguesa do combate o batalha que na historia militar espanhola coñecese por o nome de villaviciosa no ano 1646 no goberno militar do exercito de Estremadura do Marqués de Leganés e do portugués de Matias de Alburquerque, e que segundo as fontes espanholas foi vitoria importante. Gostaria de saber que dicen as fontes portuguesas do combate, si e que lle dan importancia.
      Grazas, muito obrigado

      Carlos Duran Eiras (Galiza-Espanha)

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