Wars and Soldiers in the Early Reign of Louis XIV, Volume 4: The Armies of Spain and Portugal, 1660-1687 – uma obra recente que se debruça sobre a organização militar, armamento e equipamento do período da Guerra da Restauração

Bruno Mugnai é investigador de História Militar, natural dos Países Baixos, e autor de diversas obras focando os exércitos do período de Luís XIV. Após ter dedicado os primeiros volumes da colecção “The Century of the Soldier” aos exércitos da França do Rei-Sol, num estudo exaustivo, prosseguiu o labor com três volumes abordando outros exércitos da época: das Províncias Unidas dos Países Baixos, do Império dos Habsburgo e do Império Otomano. O quarto e mais recente trabalho (lançado em finais de Setembro de 2021) é dedicado aos exércitos de Espanha e Portugal entre 1641 e 1687. Ainda não tive oportunidade de folhear esta obra, que deverá estar a caminho, mas não quis deixar de a publicitar aqui. Espero poder em breve publicar, neste blog, uma recensão.

Mugnai, Bruno (2021), Wars and Soldiers in the Early Reign of Louis XIV Volume 4: The Armies of Spain and Portugal, 1660-1687, Warwick, Helion & Company.

Relação diária dos sucessos ocorridos entre os anos 1655 a 1656 na fronteira da Extremadura espanhola (parte 7)

Por este mesmo tempo veio ordem de Sua Majestade a este exército, para que o dinheiro que pagava a Província, dos sete quartos pela infantaria, e o do resgate do quartel da cavalaria, se distribuísse precisamente cada dinheiro em infantaria e cavalaria; e que os mestres de campo generais não cobrassem destes efeitos seus soldos, senão dos destinados para a capitania geral, e assim se tem observado desde então até agora.

Pelo princípio deste mês chegou ordem de Sua Majestade para que se fizessem 200 cavalos deste exército à costa da Andaluzia, para sua defesa, por estar à vista de Cádiz uma armada de Cromwell de 58 embarcações. Foi por cabo deles o capitão Don Diego de Pulgar. Os outros três foram Don Juan de Alvarado, a companhia do Marquês de Aguilar e a de Don Luís Berrio. E ainda que se encontrasse esta fronteira com pouquíssima cavalaria, não se replicou à ordem; antes que para fossem cumpridos os 200 cavalos, se retiraram ramos [sub-unidades] de outras, que se agregaram às quatro companhias.

Em todo este Verão, ainda que haja sido pouquíssima a gente, por haverem fugido todos das levas, e dos irlandeses muitos, e outros que morreram de enfermidade, não houve coisa memorável, ainda que se temeu haverem-se os rebeldes concertado com ingleses e com forças superiores às nossas; só houve algumas presas de gado e de cavalos por diversas partes da fronteira, em que esteve ganancioso o inimigo; porque de coisa de 400 cavalos que este Verão vieram de remonta, tomou em diversas ocasiões mais de 150; que o conhecer nossa fraqueza, e as poucas vezes que de cá se entra [em território português] lhes tem dado atrevimento para discorrer com mais desafogo por todas as partes.

Pelo fim deste mês teve esta cidade um choque com o Duque, sobre a despesa que em sua casa havia, onde se provia mais do que no açougue; e representando duas vezes a cidade ao Duque, ainda que se ofereceu a remediá-lo, não o fez; com que a cidade, com o alcaide-mor Don Baltasar de Tovar, escreveu ao Conselho sobre ele, e com tal segredo que não o soube o Duque senão depois de dois ou três dias. Chamou o alcaide-mor e o tratou, segundo ele se queixou na cidade, mal de palavra. Sobre isto resolveu a cidade enviar um regedor à Corte, a dar queixa ao Rei. Nomeou-se a Don Pedro de Léon, que partiu logo, e com ele o alcaide-mor. Havia grandes expectativas desta queixa, porque se entendia haver outras da Província contra o Duque e se entendia haveria mudança de governo, porém Sua Majestade mandou se dissesse ao regedor que regressasse, e que Sua Majestade ficava com cuidado em dar-lhe satisfação; e assim regressou D. Pedro de Léon. Dizem que não quiseram fazer demonstração aqueles senhores sobre o dinheiro, por respeito do posto, porém se tem por constante mudarão o Duque, ainda que é seu valedor Don Luís de Haro e Don Fernando Ruiz de Contreras.

(continua)

Fonte: “Relación diaria de los sucesos acaecidos entre los años 1655 a 1656” (Biblioteca Nacional de Madrid, Sala Cervantes, Colección Mascareñas, Manuscrito nº 2384, fls. 335 V-336 V).

Imagem: Parte de um exército em campanha, com infantaria, artilharia e elementos dispersos de um acampamento em primeiro plano; óleo de Peter Snayers, meados do século XVII; MNAA, Lisboa.

Relação diária dos sucessos ocorridos entre os anos 1655 a 1656 na fronteira da Extremadura espanhola (parte 6)

Pelo fim deste mês, havendo saído de La Parra o capitão Don Pedro Salinas com até 80 cavalos, rumou a volta de Olivença, com desígnio de ver se podia romper alguma partida ou tropas dela. Enviou o tenente-general Don Gregório de Ibarra um alferes com 9 cavalos à volta de Alconchel com ordem de arrimar-se, e sendo carregado que se retirasse a certo posto, donde havia de estar emboscado Salinas. Enquanto estes vão a executar o que se lhes ordenou, uma partida do inimigo tomou línguas em Salvatierra, por onde havia passado Salinas, e temendo o capitão Quintanal, que se encontrava ali, não o dissesse a língua, enviou uma partida para que procurasse Salinas (não se sabia ao certo onde se encontrava) e o advertisse disto, para que estivesse com cuidado, e não se lembrou de avisar o tenente-general em La Parra, que sabia tudo e podia prevenir o que parecesse conveniente. Foi, pois, a partida de Quintanal discorrendo sobre a parte onde se julgava podia estar Salinas, e descobertas ao longe as sentinelas de Salinas, julgou que era do inimigo e as perseguiu mais de uma légua, até que se conheceram. Porém, entretanto, por azar este Salinas deixou o seu posto; a outra partida que havia ido a Alconchel, vindo pelo caminho de Olivença adiante, topou um cmboio que levava um capitão português com 20 cavalos a Alconchel, o qual a carregou logo, e ela, acudindo a abrigar-se à emboscada, não topou Salinas. Com que o inimigo pôde capturar-lhe seis cavalos, e todavia a seguia, não acerditando que havia mais cavalaria nossa, porque os soldados que aprisionou não o sabiam, senão somente o cabo. Assim discorriam quando Salinas, por fim encontrado pela partida derrotada, teve aviso de tudo, e enviando um tenente com 30 cavalos com o alferes derrotado, toparam rapidamente a partida rebelde, e preso o capitão, lhe tiraram os seis cavalos nossos e outros sete seus. Porém o comboio havia-se adiantado muito, com que pôde salvar-se e o resto da partida inimiga. Pelo acidente antecedente se tirou do posto Salinas, que foi causa não se lograsse inteiramente aquela ocasião.

(continua)

Fonte: “Relación diaria de los sucesos acaecidos entre los años 1655 a 1656” (Biblioteca Nacional de Madrid, Sala Cervantes, Colección Mascareñas, Manuscrito nº 2384, fls. 335-335 V).

Imagem: “Recontro de cavalaria”, óleo atribuído a Philip Wouwerman, 2.ª metade do século XVII.

Relação diária dos sucessos ocorridos entre os anos 1655 a 1656 na fronteira da Extremadura espanhola (parte 5)

Continuando a transcrição/tradução para português do manuscrito:

Extremadura, Ano 1656

Pelo fim deste mês veio ao exército Don Gaspar de la Cueva, irmão do Duque de Albuquerque, com o posto de general da artilharia e 600 escudos de soldo: 300 do posto, 200 por filho de Grande e 100 de encomenda. Sujeito de poucos anos, muita inocência militar e moderado talento.

Poucos dias antes havia chegado aqui outro general da artilharia, titular irlandês. Chama-se Don Hugo Neth, a quem por acomodá-lo remeteram a este exército, reputado pelo mais assistido pelas contribuições da Província, soldado de experiência e de mais que medianas prendas.

Por este mês fizeram os rebeldes algumas presas consideráveis, entrando nos campos de Alcântara pela parte de Albuquerque, de onde levaram muito gado miúdo, e de Salvatierra, em estado de feira, quase todo o que havia naquele lugar, não obstante que se encontravam naquele distrito quase 500 cavalos em diferentes quartéis, e os governava então o capitão Don Pedro Diez de Quintanal, soldado de opinião e de experiência.

A 25 saiu daqui o senhor Don Francisco Tutavila, a receber a visita da Duquesa sua esposa, acompanhando-o o general da artilharia Don Gaspar de la Cueva e os mestres de campo Don Álvaro de Luna e Don Juan de Zuñiga, Don Pedro de Mendoza e o contador do exército Pedro de Arostegui. Ficou governando, por ordem de Sua Majestade, o general da cavalaria, Don Rodrigo de Moxica.

No princípio deste mês veio um clérigo de Elvas com carta do bispo para o de Badajoz, em que representava que os ingleses haviam pedido um porto na parte de Portugal, para fazer-nos a guerra desde ali, mas vivamente se lhe[s] negou; que temiam tratava o inglês de vir a tomá-la por força; que eles estavam dispostos a defender-se, e que pois éramos nisto não menos interessados, pedia se tratasse cá, ou ajudar com nossas armadas a rechaçar as inglesas, ou de haver alguma trégua ou suspensão de armas na fronteira para poder valer-se destas forças para a costa. Vista a carta pelo bispo e o general da cavalaria, deram conta cada um a Sua Majestade, sem avisar do caso ao senhor Don Francisco, que se achava na ponte do Arcebispo, aguardando a noiva.

Poucos dias depois veio um padre ca Companhia [de Jesus] de Elvas, com outra carta daquele bispo para o nosso, sobre o mesmo caso, mas como não havia ainda chegado a resolução de Sua Majestade, se despachou logo. E em 18 deste chegou o aviso do que Sua Majestade resolveu, e foi que não se escutasse os rebeldes no que propunham em nenhuma forma. Dizem [que] se discutiu a matéria entre os conselheiros, não faltando razões e votos por uma parte e outra.

Por estes dias havia chegado também aviso da resolução que Sua Majestade tomou, de jubilar-se o vedor geral Don Francisco de Ynzita, e que o contador Pedro de Arostegui fosse gozar o cargo de Contador de Colheitas na Corte. Resultou isto de uma visita que no ano de 32 fez aqui o vedor Diego de Portillo, cuja determinação se dilatou até agora, e nela se suspendeu o procurador geral Don Geronimo de la Haya por sete anos e o condenaram em sete ou oito mil escudos, pelo que está preso no cárcere da Corte; outras multas houve.

Em 17 de Abril entrou o senhor Don Francisco com sua noiva. Teve ele luzido recebimento, e só aquele dia entre todos os deste mês foi apropriado para gozar desta alegria. Houve salva real e a infantaria disparou em quatro postos: San Roque, Trinidad, Campo de San Juan e Palácio; que deu boas cargas, ainda que era pouca a gente. Foram caras e luzidas as galas que puseram os cabos e seus domésticos.

Desde o primeiro deste mês até 16 correu o Guadiana (sem ocasião de enchente, antes minguando) tão colorido e sangrento que em todo este tempo não se pôde beber dele, nem a água assentada perdia aquela cor. Não se sabe a causa, se bem alguns camponeses crêem que como esse rio vem pela Marula, onde há minas de almagra, pode topar com algum veio dela, ainda que para os muitos dias que isto há durado, era necessário que fosse muito copioso o veio.

(continua)

Fonte: “Relación diaria de los sucesos acaecidos entre los años 1655 a 1656” (Biblioteca Nacional de Madrid, Sala Cervantes, Colección Mascareñas, Manuscrito nº 2384, fls. 334-335).

Imagem: Bernabé de Gainza, “Praça de Badajoz e fronteiras do Reino de Portugal”, in Testón Nuñez, Isabel; Sánchez Rubio, Carlos; Sánchez Rubio, Rocio, Planos, Guerra y Frontera. La Raya Luso-Estremeña en el Archivo Militar de Estocolmo, Mérida, Gabinete de Iniciativas Transfronterizas, 2003, p. 56.

Relação diária dos sucessos ocorridos entre os anos 1655 a 1656 na fronteira da Extremadura espanhola (parte 4)

Continuando a transcrição/tradução para português do manuscrito:

Quarta-feira 2 de Outubro [de 1655], às orações, se deu ordem para que toda a infantaria arrimasse logo a seus postos; e às onze da noite marcharam as tropas desta praça e as de Talavera, com o comissário geral Don Cristóval de Bustamante. E ao amanhecer marchou o general da cavalaria Don Rodrigo de Moxica com as tropas de Rossales e 400 infantes, a cargo do mestre de campo Don Juan de Zuñiga. E uns e outros se foram a pôr à vista de Campo Maior, [se] bem que por diferentes passagens, enquanto o capitão Hereo, com coisa de 200 cavalos que se juntaram das tropas de Albuquerque, Valência [de Alcântara], Brozas e Arroyo e San Vicente, recolhia o gado de Barbacena e outros lugares vizinhos, o que fez sem oposição. E é fama [que] reuniu mais de 15.000 cabeças de gado menor e alguns bois e bagagens, com que veio a incorporar-se com o general da cavalaria, que estava com quase todo o resto daquela, e neste exército aguardando-o. E ainda que não saiu nada a estorvar a marcha, nem de Campo Maior, nem de Elvas, ficou muita parte do gado pelo caminho; e se houveram de vender 2.700 cabeças de gado menor e 185 reses maiores, porque o demais se extraviou pelos soldados e cabos.

Pelo fim deste mês regressou o general da cavalaria da Corte, aonde foi em segredo a coisas particulares suas. Voltou por Salamanca e ao passar o porto junto a Cañaveral, no partido [distrito militar] de Coria, havendo-se adiantado um criado seu, foi cair numa partida de sete cavalos rebeldes que ali estavam, e informados que vinha atrás o general (ainda que o moço afirmou que vinha sem comboio [grupo de escolta] algum, com dois criados), não acreditaram e se retiraram sem o aguardar, parecendo-lhes que estando o general já em passagem de onde podia chamar o comboio que quisesse das tropas de Moraleja, não quereria vir sozinho, ainda que a mais de seis ou sete léguas de terra adentro da raia, que foi ocasião de não haver caído em suas mãos, sendo muito fácil levá-lo a Salvaterra sem embaraço algum. No princípio deste mês, havendo-se juntado o sargento-mor Don Pedro de Armesto, governador de Albuquerque, e o tenente de mestre de campo general Don Fernando de Godoy, governador de Valência [de Alcântara], em San Vicente, para conferenciar sobre os postos aonde se haviam de fazer certas atalaias, de ordem do Senhor Don Francisco, e estando comendo, descobriu-se uma partida de cerca de 30 cavalos recolhendo o gado do lugar. Achavam-se com os cavalos que haviam trazido os dois governadores e os do lugar cerca de 40, com os quais saíram logo ambos os cabos. Cria o inimigo que não havia mais que os cavalos do lugar e assim levava só os que eram bastantes para os romper, e com esta confiança cerrou confiadamente com os primeiros; porém reconhecendo maior número do que ali havia, se pôs em fuga, suspeitando que estavam ali juntas as tropas para algum fim, mas não o fez tão a seu salvo que não deixasse cerca de 20 cavalos. Morreu nos primeiros encontros o governador de Albuquerque Armesto, de uma estocada, que causou lástima por ser moço e recém-casado e homem de valor, se bem que de curto talento.

No fim deste ano entrou nesta praça o general da artilharia Don Gaspar de la Cueva, irmão do Duque de Albuquerque, que vinha suceder a Don Diego Cavallero. Saíram a recebê-lo os generais, mas não se lhe fez salva de artilharia, e se fez a Don Diego Cavallero quando se foi, e ao general da cavalaria quando veio os dias passados de Madrid. É um cavaleiro muito apaziguador, e que afecta muita simpatia com todos, e por isto bem visto geralmente.

(continua)

Fonte: “Relación diaria de los sucesos acaecidos entre los años 1655 a 1656” (Biblioteca Nacional de Madrid, Sala Cervantes, Colección Mascareñas, Manuscrito nº 2384, fls. 253-254).

Imagem: Cavalaria, período da Guerra Civil Inglesa (meados séc. XVII). Pintura do século XX.

Relação diária dos sucessos ocorridos entre os anos 1655 a 1656 na fronteira da Extremadura espanhola (parte 3)

Continuando a transcrição/tradução para português do manuscrito:

Pelo princípio de Agosto [de 1655] intentaram 100 cavalos da guarnição de Olivença a Talavera, e lançaram uma partida de 30 a recolher algum gado com desdém, que carregada dos cavalos daquele quartel, que sabiam não passavam todos de 60, se fossem a meter na emboscada e lhes quitassem alguns cavalos. Estava em Talavera por capitão-mor antigo Don Felipe Vicentelo, por estar ausente Don Diego Quixada, governador daquelas tropas, e estar enfermo Don Diego Farni, que havia entrado na companhia de [cavalos] couraças da guarda, e a do general, com que se encontravam mais de 160 cavalos. Que sacou Don Felipe a arma e enviou ao seu tenente com uma partida de 30 cavalos, que carregasse a que levava a presa, que o fez vivamente. E Don Felipe lhe foi dando calor [ou seja, apoio] quase até descobrir os outros cavalos do inimigo, donde cerrando, o nosso tenente foi rompido e perdeu alguns cavalos, não havendo resolvido Don Felipe a cerrar, suspeitando [que] era mais numeroso o inimigo. E tendo sabido dos soldados que fez prisioneiros os cavalos que haviam saído de Talavera, e temendo os que saíam de Badajoz, [o inimigo] largou logo a presa e se retirou a toda a a pressa, podendo, segundo se disse, ter tido Don Felipe um famoso dia, se se resolvesse a investir, sobre o que se lhe deu alguma repreensão depois.

Pelo fim de Agosto chegou aviso a esta praça, do Montijo pela manhã, que o inimigo, com até 90 cavalos, se havia arrimado ao lugar e levava uns bois, e que às companhias que ali assistem as haviam metido a cutiladas no quartel, e tomando-lhes quatro cavalos. Com este aviso que pouco depois também veio de Talavera, saiu daqui com as tropas o comissário geral Don Cristóval de Bustamante, e teve ordem Quixada para sair com as de Talavera e Lobón ao meio dia. Saiu Bustamante ao Cerro da Galdina, desde onde sem deter-se enviou até 100 cavalos até Arronches, a reconhecer uma poeirada que se descobriu, crendo [que] era o inimigo. Não toparam com nada estas tropas, ainda que todas depois estiveram em Vilar del Rey, passagem que precisamente havia de ir a buscar o inimigo, segundo souberam das línguas que tomaram de Campo Maior. Não se deteve ali Bustamante, ainda que constava que o inimigo não se havia ainda retirado, e sem fazer outra coisa se retiraram as tropas, muito trabalhadas [ou seja, cansadas] da longa marcha, ao outro dia pela manhã, sendo constante que mais pela nossa má disposição que pela boa dos inimigos, retiraram a presa, quando tinham já ordem para descartar e salvar-se, não parecendo possível que pudessem retirar-se por aquela passagem sem serem descobertos das nossas tropas, mas fizeram-no depois que as nossas se retiraram. Estranhou-se que o Senhor Don Rodrigo Moxica, encontrando-se aqui e não havendo nenhuma cavalaria nestas praças, não fosse a esta ocasião, que havia sonhado mais ruidosamente quando veio o primeiro aviso. Porém se foi nessa mesma tarde à caça às lebres, sem haver-se sabido nada das tropas.

No dia seguinte, à noite, voltaram a sair todas as que haviam ido à área do Montijo, e com elas o Senhor Don Rodrigo. Acreditou-se que era o motivo muito grave, suposto que era a vez primeira que montava com as tropas e se atropelava pelo inconveniente de estarem muito cansadas da marcha do dia e noite antecedentes, em que se haviam maltratado muitos cavalos. Porém depois de regressados à praça, se supôs que o desígnio foi só comboiar uns 15 infantes irlandeses que foram substituir outros que estavam em Albuquerque, que retirou havendo levado as tropas por Vilar del Rey e fazendo-as passar outra marcha bem penosa, sem outro fruto.

(continua)

Fonte: “Relación diaria de los sucesos acaecidos entre los años 1655 a 1656” (Biblioteca Nacional de Madrid, Sala Cervantes, Colección Mascareñas, Manuscrito nº 2384, fls. 252-253)

Imagem: Choque de cavalaria; óleo sobre tela, escola holandesa, meados do século XVII.

Relação diária dos sucessos ocorridos entre os anos 1655 a 1656 na fronteira da Extremadura espanhola (parte 2)

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Prosseguindo a transcrição/tradução para português do manuscrito, ano de 1655, refere-se aqui a tentativa de tomada pela traição de Salvaterra do Extremo. Acerca deste peculiar episódio da Guerra da Restauração veja-se também os estudos de Gastão de Melo de Matos (“Soldados da Guerra da Aclamação. O General de artilharia Antonio Suares «O Machuca»”, in Anais da Academia Portuguesa da História, I série, vol. VI, 1942, pp. 131-250) e Juan Antonio Caro del Corral (“La frontera cacereña ante la Guerra de Restauración de Portugal: Organización defensiva y sucesos de armas (1640-1668), in Revista de Estudios Extremeños, 2012, Tomo LXVIII, Número I, pp. 187-226), este último publicado aqui.

Por estes dias houve algumas partidas em que se tomaram cavalos de uma parte e outra, ocasionado tudo não tanto da indústria de quem os tomava, quanto do descuido de quem os perdia, que por se escusar prolixidade não se referem.

Pelos fins de Junho saiu desta praça o Senhor Don Francisco Tutavila, publicando [no sentido de “tornando público”] ia a Guadalupe a ver-se com seu irmão Don Vicêncio Tutavila, que havia de ir ali da Corte. Mas como de Mérida tomou a volta de Cáceres, se deixou com publicidade que ia a surpreender Salvaterra [do Extremo, em Portugal] por trato, como era a verdade, havendo conversado com o governador daquela praça, que se dizia o sargento-mor António Soares da Costa, um fidalgo de Ceclavin chamado D. Afonso de Sande, pessoa inteligente e letrado, o qual, havendo falado diversas vezes com o tal sargento-mor em trajo de contrabandista, e dado conta de tudo a Don Luís de Haro, primeiro-ministro de Sua Majestade, se ajustou que lhe dariam 4.000 ducados de renda, um hábito [não especificado, mas referindo-se provavelmente a um colar em ouro de uma ordem religioso-militar, em uso na época] e outras mercês que pediu, e que [n]o dia de São Pedro entregaria aquele castelo. A disposição era que aquele dia haviam de entrar com o Sande até 30 em pequenos grupos de quatro e cinco com suas mercadorias, que uma partida nossa neste tempo havia de arrimar-se à praça e levar o gado que topasse, que o governador arrolaria a guarnição até à ribeira, e que então se apoderariam os nossos do castelo [em] que estavam dentro, e 100 cavalos e 150 infantes que haviam de estar emboscados junto à praça cortassem a guarnição quando saíssem sobre a partida, e depois entrassem no castelo, onde também havia quantidade de mercadorias. Não deu disposição o governador a que se executasse [n]o dia assinalado, se bem prometeu que prestes avisaria o dia. Com isto o Senhor Don Francisco, sem arrimar-se a Alcântara, passou ao largo, pelas barcas de Alconétar a Plasência, e dali aos lugares que havia comprado, onde se entreteve mais de 15 dias aguardando o dia. Assinalando-lhe o governador para 15 de Julho, em tempo que o Duque permanecia em Jaraíz, sem embargo procurou apressar-se para estar em Ceclavín no dia assinalado. Mas quando chegou já havia marchado o Sande com os seus 28 companheiros, todos vizinhos de Ceclavín e seus amigos, e entre eles o alferes Don Juan Flores, cavaleiro de Alcântara que estava ali casado com manteúda do Sande, o qual, persuadido da boa fortuna que esperava, não quis senão participá-la aos seus. Entrou em Salvaterra na forma ajustada, e das línguas se supôs depois que assim como iam entrando as partidas, os iam degolando, e ao Sande por último o botaram em uma peça, que era a senha que havia posto o governador para que arremetesse a nossa emboscada. Mas não se moveu nada, porque sem a senha tinham outra contra-senha o cabo da emboscada e o Sande, que era uma luva cortada em duas partes, e a que levou o Sande havia de enviar com um dos seus. Por isto não logrou o governador o dano que pensou fazer, tendo toda sua gente disposta na muralha, e as peças apontadas à porta com bala de mosquete [ou seja, cartuchos repletos de balas de mosquete para efectuar “tiro de metralha” a curta distância] para quando se aproximassem os nossos, mas não supôs a contra-senha. E o cabo da emboscada, havendo esperado algumas horas depois que se disparou a peça, como não lhe vinha a meia luva, suspeitando logo foi. Depois de dar parte ao governador de Alcântara, a Zarza se retirou com sua gente. Escandalizou a crueldade que se fez com os da surpresa, e se estranhou muitíssimo que se tivesse intentado, depois de estar tão pública, que até as línguas [ou seja, civis e militares capturados a fim de obter informações] que se traziam de Elvas e Campo Maior sabiam disto. Mas o haver sido disposição de Don Luís de Haro e a confiança que o Sande tinha do governador e do bom sucesso, e a instância que fez para a execução, foi causa que se atropelasse tudo, temendo quiçá o Senhor Don Francisco o culpassem na Corte, à sua frouxidão ou sua malícia, se não a executara.

(continua)

Fonte: “Relación diaria de los sucesos acaecidos entre los años 1655 a 1656” (Biblioteca Nacional de Madrid, Sala Cervantes, Colección Mascareñas, Manuscrito nº 2384, fls. 251-252)

Imagem: O que resta dos panos de muralha do castelo de Salvaterra do Extremo: somente partes que estão inseridas em casas de habitação particulares, na actualidade.

Relação diária dos sucessos ocorridos entre os anos 1655 a 1656 na fronteira da Extremadura espanhola (parte 1)

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Foi-me remetido pelo estimado amigo Juan António Caro del Corral, há já alguns anos e sob a forma de fotocópia autorizada, um manuscrito em língua castelhana acerca dos acontecimentos desenrolados no teatro de operações da Extremadura, durante a Guerra da Restauração, no período compreendido entre 1655 e 1656. Dado o objectivo de divulgação histórica deste blog e o valor intrínseco deste documento, inicia-se aqui a transcrição (numa tradução para português) do referido manuscrito, intitulado “Relación diaria de los sucesos acaecidos entre los años 1655 a 1656” (Biblioteca Nacional de Madrid, Sala Cervantes, Colección Mascareñas, Manuscrito nº 2384). No final será feita uma análise das situações nele referenciadas, comparando com casos similares apresentados em documentos coevos portugueses.

Estremadura, Ano 1655

Por fim deste mês de Fevereiro saiu desta praça [Badajoz] Don Diego Cavallero, general da artilharia do exército, a quem Sua Majestade fez general da cavalaria da Catalunha.

Poucos dias depois se deu a artilharia deste exército a Don Gaspar de la Cueva, irmão do Duque de Albuquerque. E por haver morrido em aquele tempo o Conde de Tronçan, governador político e militar de Alcântara e seu distrito, se lhe deu também a Don Gaspar aquela ocupação, que ele solicitou vivamente, persuadido, segundo dizem, porque era aquele governo de grandes conveniências. Mas desenganado brevemente, fez denúncia [ou seja, quitação] dele sem haver saído da Corte, e se deu ao Conde Don Felix de Zuñiga, cavaleiro sevilhano que serviu, segundo se diz, em Alemanha, e se lhe deu com o título de general da artilharia de Sevilha, que tinha seu antecessor.

Por estes dias vieram algumas tropas de infantes de Sevilha, e da Corte dos irlandeses que ali levanta o sargento-mor Don Ricardo. E porque em Albuquerque e Valência de Alcântara não havia infantaria forasteira, por haverem-se ajustado as companhias da Província que guarneciam aquelas praças, se enviaram cinquenta ou sessenta irlandeses a cada praça, os quais se mudam desta praça cada mês ou cada dois meses.

Também vieram por esse mesmo tempo 200 infantes de Jaén, que levantou ali o mestre de campo D. Pedro de Viedma, e os conduziu seu sargento-mor e quatro capitães, e ficou Viedma com outros capitães para continuar a leva, que há-de ser de mil infantes, para cujo efeito de despacharam deste exército dois oficiais de soldo com o dinheiro necessário. Pareceu esta gente de Jaén melhor que a de Sevilha, mas também fugiram alguns deles, [tal] como dos sevilhanos, não obstante que o socorro [ou seja, dinheiro e víveres] se tenha continuado com pouca ou nenhuma interpolação. A pouca inclinação à guerra, a carestia do lugar, que é grande, e finalmente o trabalho contínuo de estar de guarda ordinariamente os vai arrolando cada dia daqui, que como nunca chega a haver a guarnição necessária em esta praça, pelo vagar com que se levanta esta gente é preciso que esses poucos que há façam as guardas e todas as demais tarefas, que houvera algum alívio se essa gente viera junta e não em partes.

Por estes dias entrou sem ordem em Portugal uma partida de dez ou doze tenentes vivos e reformados e outros oficiais e pessoas particulares, e trazendo uma presa de 80 rezes maiores, saiu outra partida de Arronches algo maior em número. Porém vendo o desenfado e resolução com que os nossos os procuravam na escaramuça, consideraram que era toda gente escolhida [ou seja, soldados escolhidos pela experiência e veterania, como que de elite] e nunca ousaram cerrar [ou seja, carregar]. Porém vieram sempre à vista, para se poderem lograr de alguma situação de descuido, como sucedeu, porque a nossa partida, desvanecida de ver o temor ou tibieza dos contrários, resolveu fazer alto e descansar um pouco da noite de trabalho da marcha, que havia sido grande. Assim se puseram a dormir como se não houvera inimigo no mundo, o qual, por assegurar-se se os nossos dormiam ou só haviam feito alto um pouco para descansar, se confirmou que dormiam e que estavam para demorar, vendo que ia outro soldado mudar o posto. Então, cerrando com os sentinelas, os prenderam, e carregando de improviso sobre os demais, que quase todos se encontravam a dormir e descuidados, prenderam oito ou dez e tiraram-lhes a presa e os cavalos. Só escaparam alguns poucos, e porque foram sem ordem, prenderam dois tenentes vivos que tinham ido com eles.

Outro dia, havendo saído desta praça uma manhã a guarda a bater e a pôr as sentinelas, chegou uma partida à casa d’El-Rei para deixar ali, segundo é costume, uma sentinela, e havendo-a posto sem reconhecer a casa, foi dando a volta a outros postos. Encontrava-se dentro o negro de Campo Maior com 4 cavalos, que é um partidário famoso, o qual se havia escondido ali por não poder escapar-se de outra sorte das nossas partidas que haviam saído a bater. E vendo a que se encaminhou à casa, esteve resolvido a render-se, mas como viu que não haviam reconhecido a casa, quiçá parecendo-lhes que o inimigo não viria a emboscar-se no mesmo posto onde se põe a sentinela nossa, logo que viu sozinhas as sentinelas, e desmontadas, saiu muito silencioso com os seus e as prendeu, e se foi a Campo Maior sem oposição por descuido dos nossos, pois só as sentinelas eram bastantes para prendê-lo dentro da casa, se a tivessem reconhecido.

(continua)

(fls. 250-251)

Imagem: Cavaleiros num campo, óleo de Philips Wouwerman, século XVII.

André de Albuquerque Ribafria e a incursão a Valência de Alcântara (Junho de 1651) – parte 2

Continuando a transcrição da narrativa:

De maneira que fomos marchando aquela noite, e quando amanhecia já nós todos estavamos emboscados [a] um quarto de légua do lugar [cerca de 1.200 metros]. E o capitão Duarte Lobo da Gama foi com a sua tropa, que eram 100 cavalos, por outra parte, para avançar à vila quando chegassem as horas apontadas. De modo que depois de nós estarmos ali já descansados uma hora, já tínhamos dado de comer aos cavalos, chamou o general André de Albuquerque ao meu capitão Francisco Pacheco Mascarenhas, a quem era muito afeiçoado por seu valor e prudência, e lhe disse que, de todos os capitães que consigo tinha, não tinha de quem confiar aquela ocasião senão dele. E assim que lhe ordenava que, quando […] a ele lhe parecessem horas de meio-dia, que poderia já a gente então estar fora nas eiras, havia de ir com sua tropa a rédea solta direito às portas. E que se as achasse abertas, se metesse por dentro delas e as defendesse com todo o risco, para que o inimigo as não fechasse, porque logo nas suas costas haviam de ir cem cavalos para ficarem aí da banda de dentro, em seu lugar. E assim como estes 100 cavalos chegassem, fosse logo direito às portas do castelo e as defendesse também, para que não entrasse ninguém lá dentro. E em caso que as portas da vila estivessem fechadas, aguardasse aí até que chegasse a nossa infantaria, que logo havia de ir nas nossas costas com grande passo. E haviam de levar um petardo para lhe porem às portas e entrar tudo junto dentro.

De modo que se averiguava não haver jamais em guerra alguma quem semelhante ordem desse, nem quem tal jornada como aquela por aqueles modos desse, porque era tão certa a perdição, que não havia quem fizesse conta da vida. Porque assim como o meu capitão ouviu as ordens ao general, lhe respondeu: “Eu hei-de fazer o que Vossa Senhoria me manda, mas também lhe lembro a Vossa Senhoria que vou a botar a minha companhia num passo sem remédio de esperanças de a tornar a ver mais, porque ainda que na vila não haja mais que 50 mulheres com pedras, bastam para me consumir toda a companhia antes que siga a demais gente, e se eu achar fechada muito mais depressa a perderei. Mas contudo o que se oferecer hei-de dar cumprimento às ordens que Vossa Senhoria me dá”.

Assim como o meu capitão se despediu do general, veio a falar com todos os soldados e dizer-lhe[s] da ordem que trazia. Que cada qual de nós tratasse de se confessar e pôr-se bem com Deus, porque podiam fazer pouca conta da vida, que de nenhum modo lhe sentia remédio, pois o risco era tão certo. Não houve soldado que logo se não fosse a confessar a uns frades de São Francisco que ali iam connosco, e o nosso capitão também e todos os mais. De sorte que o capitão que esta jornada traçou estava uma meia légua [cerca de 2,5 quilómetros] de nós para avançar a uma das portas, que eram duas, e a mesma ordem que a minha companhia tinha também ele lá onde estava havia de fazer o mesmo, que já levava a ordem quando se apartou de nós.

Estavamos já aguardando pela desgraçada hora para avançarmos quando nisto vem um soldado, dos que lá tinha Duarte Lobo onde estava. E assim como nós o vimos vir, logo ficámos mais alegres, por nos parecer haveria alguma novidade que nos servisse de bem. E assim como chegou a nós, trazia um rapaz castelhano na garupa do cavalo, e buscando logo ao general, lhe entregou o rapaz, para que lhe perguntasse o que havia na vila de novo. O qual rapaz o devia de mandar ali Deus Nosso Senhor para nos trazer tão boas novas, que se não o apanhavam, tudo se perdia sem remédio. O que o rapaz disse ao general foi que havia três ou quatro dias que havia fugido um trombeta de Marvão para lá, e disse que estando em Castelo de Vide ouvira dizer que o terço estava aparelhado, aguardando por gente, que haviam de vir a Valença, e assim que logo se preveniram até ver em que parava aquela nova. E que não estava ninguém fora nas eiras nem em todo o campo. Que ele havia ficado aquela noite fora, para ir pela manhã a restrigar as estrigas do trigo segado e que não achariam mais pessoa alguma fora, em razão da nova.

Assim como o general ouviu o rapaz, sentiu muito as novas por uma parte, e por outra a estimou muito mais, por ver que havia de perder a maior parte da gente que levava. E assim não houve soldado nem capitão que não dissesse que não foi o rapaz, senão algum anjo que nos trouxe tais novas. Mandou logo o general aviso [a] Duarte Lobo que, se pudesse retirar-se de modo que não o vissem do lugar, se viesse logo, e quando não, que viesse à vista dele. Mas que não botasse nem um cavalo a vila. Assim como Duarte Lobo saiu donde estava, logo foi visto da vila e lhe atiraram duas peças, mas não lhe fizeram nada. E assim como veio, logo o general se pôs em marcha com a gente na via de Castelo de Vide. e nós viemos para Elvas mui enfadados da marcha, porque andámos no decurso dela 29 léguas [cerca de 145 quilómetros], que como era em Junho faziam muito grandes calmas [ou seja, calor] e vinha a cavalaria destroçada e a infantaria acabada.

E com esta jornada são três as que se deram a Valença, e com as primeiras duas serem bem más, muito pior havia esta de ser, se não fora a fortuna de acharmos o rapaz que nos livrou, com as novas, de um grande perigo como era o em que nos havíamos de ver. E assim que imagino que já os nossos governadores se têm desenganado com Valença, pois lhe há dado muitos desgostos e perda de muita gente.

Fonte: MMR, pgs. 207-273.

Imagem: Valência de Alcântara (foto de JPF).

André de Albuquerque Ribafria e a incursão a Valência de Alcântara (Junho de 1651) – parte 1

De regresso às memórias do soldado Mateus Rodrigues (Matheus Roiz), encontramos a narrativa de uma incursão levada a cabo pelo general da cavalaria André de Albuquerque Ribafria a terras de Valência de Alcântara. Ou melhor, a ousada tentativa de tomar aquela bem fortificada vila, numa antecipação do que só sucederia, de facto, daí a 13 anos. Passemos à narrativa:

Assistia em a praça de Castelo de Vide, de guarnição, o capitão de cavalos Duarte Lobo da Gama; e tinha uma grande companhia de cavalos neste tempo, que passavam de 100, e havia já 5 ou 6 anos que ali assistia. E Valência de Alcântara, que é uma vila do inimigo toda murada, com um bom castelo e vila de 800 vizinhos. Com esta tal vila tomaram os nossos generais tal teima que haviam lá ido já duas vezes com poder fora esta, mas de ambas ficámos mui mal de partida […]. De sorte que esta Valença não está de Castelo de Vide mais que três léguas [cerca de 15 km], e suposto que esta vila tem sempre uma [ou] duas companhias de cavalo, contudo este Duarte Lobo nunca jamais saía dela com a sua companhia, que lhe trazia tudo quanto andava fora e sabia aquela campanha a palmos, e pelo decurso dos tempos foi tomando o pulso à vila. Que veio o tempo das eiras, do qual lhe viu este capitão tantos riscos no modo com se haviam em a debulha, que quando eram horas de jantar [ou seja, a “hora de almoço” dos nossos tempos] e à tarde não ficava na vila mais que uns velhos e umas velhas, que toda a mais gente se saía fora às ervas que se faziam em o rossio, que fica da muralha um tiro de mosquete à roda da mesma vila. E vendo este nosso capitão a largueza com [que] esta gente se alargava toda com tanta facilidade, que tomou motivo para vir a dar parte disto ao mestre de campo general Dom João da Costa e ao general da cavalaria André de Albuquerque.

De maneira que veio Duarte Lobo de Elvas e deu miúdas contas a Dom João da Costa sobre a matéria, e ao general da cavalaria, dizendo-lhe que se acaso tivessem tanta ventura que colhessem a gente fora da vila em as eiras, que não havia duvidar de se tomar a vila. Mas que havia de ser necessário tratar-se a coisa com muito segredo, por que não houvesse algum aviso, pois o caso era de grande perigo havendo de acharem a gente dentro quando avançassem à vila. De modo que informado mui bem no caso, Dom João da Costa o consultou com André de Albuquerque, general da cavalaria, o qual ocupou logo Dom João da Costa que havia de ir conseguir a dita empresa.

Que quem bem souber a jornada que foi e a traça e ordem com que queriam tomar esta vila dirá quem o entender, que não era possível conseguir-se desta jornada senão muitas desaventuras e que nunca jamais ninguém tal podia fazer.

De modo que se foi Duarte Lobo para Castelo de Vide deixando já os nossos generais consertados de se aprestar a jornada. E assim que logo se começou a aprestar com tal segredo que não houve jamais ninguém que imaginasse coisa alguma senão quando íamos marchando para Portalegre, que por aí era a nossa marcha. Mas como ia tão pouca gente nunca jamais podíamos suspeitar que íamos a Valença, porquanto havíamos já lá ido duas vezes, uma com 4.000 homens e ficaram lá mais de 500, e a outra vez com 3.000 homens e ficaram lá mais de 600. E assim que nunca jamais nos podia persuadir que lá iríamos.

Contudo, como fizémos a marcha direitos a Castelo de Vide, que nem dentro da vila fomos senão meia légua [cerca de 2,5 km] de fora da vila e já o terço de Castelo de Vide estava fora e a companhia de cavalos do mesmo Duarte Lobo. E assim como nos incorporámos todos, fazíamos número de 1.000 infantes e 800 cavalos, e assim como nos quisemos pôr em marcha logo se averiguou a certeza do que até então o tínhamos em grande dúvida. Mas se bem é verdade não havia soldado nem capitão que não fosse já lançando as contas ao grande perigo que se nos oferecia, vendo que era impossível o livrar dele.

Marchámos dali do pé de Castelo de Vide, e quando quis marchar o general com a gente foi por todas as tropas dizendo aos capitães que se havia algum cavalo nas suas companhias que relinchasse ou desse coices, que os tirassem para fora, porque os havia de mandar para Castelo de Vide por não ser sentido, porque já dali adiante era terra arriscada a sentirem-nos. Mas bem escusávamos tantos segredos, que tão público era já para com o inimigo, porque como o terço de Castelo de Vide havia 4 ou 5 dias que estava avisado para ir connosco, mas não sabiam donde, mas como desta vila de Castelo de Vide não fica outra entrada senão para Valença, em tendo a gente desta vila algum aviso para se aprestarem, logo botam os sentidos que seja para irem a Valença. E como com o aviso que tinham, havia já um rom-rom de que a ida seria a Valença.

Estava em esta vila de Castelo de Vide um trombeta de Marvão. E assim como ouviu as novas que corriam, fez que se ia para Marvão e deu consigo em Valença. E assim como chegou disse que ouvira dizer em Castelo de Vide que estavam esperando por gente que havia de vir de Elvas e que haviam de ir lá. Assim como o governador de Valença ouviu ao trombeta a nova, logo avisou pela posta a Badajoz e preveniu-se muito bem, vendo em que parava aquela notícia, que como estava já escaldado de duas vezes que haviam lá ido, prevenia-se logo a qualquer notícia que tivesse.

(continua)

Fonte: MMR, pgs. 267-270.

Imagem: Valência de Alcântara; perspectiva dos arredores a partir da fortaleza, na actualidade (foto de JPF).

O capitão da ordenança e de auxiliares Luís Machado de Miranda: perfil de um combatente

Do estimado amigo Carlos P. M. da Silva recebi um interessante artigo que, com a devida autorização do autor, a quem agradeço, passo a reproduzir aqui.

Aventuras do capitão Luís Machado de Miranda: perfil de um homem muito completo

Entre os nomes bem conhecidos, quase familiares, dos investigadores e genealogistas que frequentam a Guimarães seiscentista, e o eixo Guimarães-Famalicão, temos Luís Machado de Miranda (Guimarães S. Paio, 1620 – Vermoim, 1695). Amplamente referido nos livros paroquiais, como padrinho, testemunha ou como pai de meninos da freguesia, com seus irmãos da Casa da Breia (Vermoim); nos livros da Câmara de Guimarães, como homem da governança, vereador, e como capitão de ordenanças no período conturbado da Guerra da Aclamação. Junto dois documentos que revelam um perfil um pouco mais completo desta interessante e ativa personagem.

Aspecto intelectual:

muito lido e de grande memoria, foi o tombo das familias do Minho. Fonte: “Livro das genealogias nobres deste reino de Portugal” dos apelidos que pertencem à letra M” – ver Machados da Breia- folha 264.

https://digitarq.arquivos.pt/viewer?id=4187624

Estado de serviço na guerra:

serviços […] feitos em capitão de uma companhia da ordenança da vila de Guimarães do ano de 1640 até o de 1647 em que foi promovido a capitão de auxiliares na mesma comarca.

o ano de 1641 assistir de guarnição na praça de Melgaço por duas vezes provendo os soldados da sua companhia e indo a Ponte das Vargas rebater os inimigos com muito risco de sua pessoa acompanhando depois o capitão-mor de Guimarães ao castelo de Lindoso / Sendo dos primeiros que cometeu a trincheira e no saque de seis lugares na entranda do lugar de Lamas e queima de um reduto;

o ano de 1642 acompanhar com dois homens a sua custa um comboio de munições [da coroa], na entrada que se fez por Galiza em que se saquearam e queimaram muitos lugares ocupando os postos mais perigosos / Sendo dos primeiros que investiram e entraram a vila de Lobeira;

o de 1643 nos repetidos rencontros da passagem do Rio Lima e tomada de Salvaterra na entrada daquela praça gouvernou um troço de mosqueteiros e tornando o inimigo sobre ela se lhe encarregar um lanço de muralha que defendeu com valor;

o de 1644 na entrada do lugar de São Bartolomeu das Eiras aonde foi ferido com um chuço na braço esquerdo e na entrada do lugar de Tamuge;

o de 1646 na peleja sobre a trincheira de Salgoza;

e o de 1647 assistindo com sua companhia na praça de Salvaterra Se achar no encontro que houve com duas tropas inimigas adiantando-se a guardar o passo de uns valos em que pelejou com muito valor até o mandarem retirar;

e depois de ser nomeado capitão de auxiliares assistir do ano de 1648 até o de 1654 na raia da Portela do Homem aos rebates que se ofereceram e rebater a entradas do inimigo com dois criados e cavalo a sua custa.

Fonte : Diligência de habilitação para a Ordem de Cristo de João de Sequeira Monteiro.

https://digitarq.arquivos.pt/viewer?id=7757999

Documento também ilustrativo, talvez, do que podia ser a participação de tropas vimaranenses nas operações militares da fronteira do Minho durante a Guerra da Restauração (1640-1668).

Imagem: Combate de cavalaria; autor desconhecido, pintura a óleo, séc. XVII.

Cavalaria da Ordenança de Évora em 1650

A criação de cavalos para a guerra era onerosa, estando a ela obrigados os que possuíssem bens (estipulados por lei) suficientes para suportar tal encargo. Daqui resultava que fossem formadas voluntariamente algumas unidades de cavalos da milícia da ordenança. Uma vez que os cavalos deviam servir na guerra, por que não com os seus proprietários montados, ou pelo menos com alguém de sua confiança? A sua principal função era a protecção contra as incursões inimigas, mas ocasionalmente podiam retaliar, indo pilhar ao outro lado da raia. A ligação destas unidades à população residente estendia-se aos oficiais que as comandavam, com frequência membros da pequena nobreza local ou bem aceites pelas governanças e, de uma maneira geral (ou assim as fontes pretendem fazer acreditar), pelos povos.

Uma carta do governador da comarca de Évora, D. António Álvares da Cunha, dirigida ao Conselho de Guerra em 1650, demonstra a importância dessa aquiescência dos povos em relação aos oficiais comandantes, quando estes não provinham da localidade ou localidades que deviam fornecer as montadas e sustentar a unidade militar. Na referida carta, salientava o governador da comarca que António Ferreira da Câmara, fidalgo da Casa de Sua Majestade, o qual recebera patente de capitão de uma das companhias cavalos que estavam para se formar na cidade de Évora, era o fidalgo mais bem quisto do povo e o de mais experiência e valor, pois fora capitão de infantaria durante nove anos de guerra (desde o início do conflito, portanto). E que por isso deveria governar a cavalaria da ordenança daquela comarca, assim por sua qualidade, como pelos seus serviços. Reforçando esta sugestão, salientava também que o capitão tinha gasto a maior parte da sua fazenda ao serviço de Sua Majestade, e que a outra parte está “infestada pelo inimigo” – ou seja, parte das terras que possuía se encontravam ocupadas pelos espanhóis.

A resposta do Conselho de Guerra foi favorável à nomeação daquele oficial, mas com algumas condições; assim, conforme se pode ler, o dito capitão governará, pela antiguidade, a cavalaria da ordenança da comarca de Évora, desde que não se incorpore esta com cavalaria paga, e que enquanto durar tal ocasião vença o soldo que toca ao capitão de cavalos, conforme às ordens de Vossa Majestade, como vencem os capitães de infantaria de auxiliares, que é conforme à resolução que Vossa Majestade tem tomado.

Fonte: ANTT, CG, Consultas, 1650, mç. 10, consulta de 27 de Agosto de 1650.

Imagem: Cena de guerra – cavalaria procedendo a pilhagens e conduzindo prisioneiros (ou fazendo recrutamento forçado). Óleo sobre tela, Philips Wouverman, 1650.

Um olhar sobre a defesa do Reino do Algarve em 1662

A província mais meridional de Portugal – tradicionalmente designada por Reino do Algarve – foi um palco secundaríssimo da Guerra da Restauração. O limes de extensão reduzida e a defesa natural proporcionada pelo Guadiana salvaguardaram o Algarve das operações de pequena guerra, tão frequente noutras partes. Nunca se materializou a ameaça (sempre latente, contudo) de um desembarque inimigo que viesse abrir uma nova frente de guerra. De resto, as principais forças do Reino do Algarve eram deslocadas, como as de outras províncias, para o Alentejo, sempre que era necessário consolidar ali o esforço militar contra as invasões encetadas pelo exército espanhol da Extremadura.

Todavia, as preocupações em manter uma força minimamente preparada para acudir a qualquer situação estavam sempre presentes. Tal como a penúria de meios com que esbarrava esse intento.

Em Junho de 1662, o Conselho de Guerra pronunciava-se sobre uma carta de 30 de Março de 1662, enviada pelo mestre de campo António Galvão – um veterano soldado de fortuna, de origem plebeia. Este tinha sido nomeado para o governo de Cabo Verde. Contudo, devido às operações militares no Alentejo, foi-lhe ordenado que permanecesse no Reino do Algarve (onde estava há 9 anos, governando Castro Marim) e tivesse o terço pago pronto para marchar sobre o Alentejo. E suposto que a idade e achaques o impossibilitavam para este trabalho, tendo-o continuado nesta Coroa há trinta e dois anos, não queria faltar ao serviço de Sua Majestade, embora com sentimento de não levar um terço como levara no ano de 1658 (como mero apontamento, refira-se que a Majestade a que António Galvão se dirigia era a Rainha regente, na altura da redacção da carta; todavia, dois dias depois da consulta aqui reportada, D. Afonso VI assumiria, de facto, o trono, através de um golpe palaciano que afastou a sua mãe do poder),  Refere António Galvão que por várias ocasiões, estando na Corte, solicitou se reenchesse o terço, e o mesmo havia solicitado ao governador do Algarve. O terço conta 500 soldados, 300 dos quais têm alguma luz do exercício, os restantes foram-lhe dados no dia em que marchava, despidos, descalços e sem espadas, tirados os mais deles de guardar gado. Sugere por isso que o terço se preencha com 300 soldados retirados aos Auxiliares, que desta maneira seria Vossa Majestade melhor servido, e levantar em Alcoutim outros 150, por ser o termo muito grande e ter muito boa gente. Afirma-se de coração e alma estar pronto a sacrificar a vida pelo Rei, e que este se lembre, se ele morrer, de proteger os seus dois filhos, que ficam sem remédio. O Conselho de Guerra dá o parecer que se faça toda a mercê ao mestre de campo, e nesse sentido é assinado o decreto régio em 28 de Junho.

Fontes: ANTT, Conselho de Guerra, Consultas, 1662, maço 22, consulta de 21 de Junho de 1662; e Secretaria de Guerra, Lv.º 28.º, fl. 65 v, carta régia de 1 de Julho de 1662.

Imagem: Soldados a jogar com bola, óleo sobre tela, escola italiana, século XVII.

Auxiliares a cavalo – quem deveria servir

Quando foram criadas as companhias de cavalos Auxiliares em 1650, logo se levantou a dúvida acerca de quem nelas devia servir. Cinco anos antes tinham sido criadas as companhias de infantaria de Auxiliares, mas a nova legislação impunha agora uma força onerosa, que devia ser sustentada por quem pudesse fornecer cavalos. Passar-se-iam dois anos, porém, até que o Conselho de Guerra clarificasse a situação.

Foi no seguimento de uma carta de Francisco de Melo, general da artilharia do exército do Alentejo, que tudo se esclareceu. O cabo de guerra expunha uma dúvida a respeito de quem devia obrigar a ter cavalo para Auxiliares, uma vez que o Regimento das Comarcas (que estabelecia a organização dos Auxiliares a cavalo) de 1650 era omisso em relação à fazenda a partir da qual deve alguém ser obrigado a ter cavalo. As Ordenanças do tempo de D. Sebastião, que para muitos casos omissos ainda eram consultadas, obrigavam a ter cavalo quem tivesse 600.000 réis de fazenda, que hoje em dia não dá para sustentar um homem só, como referia Francisco de Melo.

O Conselho de Guerra esclareceu então que as pessoas que haviam de ser obrigadas a ter cavalos seriam as que tivessem dois mil cruzados de fazenda [800.000 réis], e daí para cima.

Fonte: ANTT, Conselho de Guerra, Consultas, 1652, mç. 12, consulta de 23 de Maio de 1652

Imagem: Escaramuça de cavalaria, óleo, escola holandesa, século XVII.

Um combate em Vale de Cavaleiros (arredores de Elvas), em Setembro de 1648

Há algum tempo que não apresentava uma acção descrita pela pena do memorialista e soldado de cavalaria Mateus Rodrigues (Matheus Roiz). A que aqui fica desenrolou-se nos arredores de Elvas, em Setembro de 1648. A transcrição foi vertida para português corrente, como é habitual.

Todas as vezes que o inimigo vinha à campanha de Elvas fazer alguma emboscada, ordinariamente trazia a sua cavalaria toda, porque sabia muito bem que quando lhe saíam as doze tropas [companhias] que assistiam em Elvas, logo iam nas suas costas os três terços de infantaria que havia na cidade; e assim, entre algumas vezes que veio, nesta não se houve muito bem, trazendo 1.500 cavalos. De modo que veio-se emboscar em os barrancos da ribeira de Caia uma noite, e como o inimigo logo foi sentido das nossas vigias, vieram logo dar aviso à cidade, à meia-noite. E nas mesmas horas montaram logo as tropas da cidade e arrimaram os três terços também. De sorte que assim como amanheceu, já estava tudo fora da cidade, e fomos marchando com as tropas até o Vale de Cavalos, que era por donde o inimigo havia de vir sobre os nossos. E assim também foi a infantaria toda até o mesmo Vale, e se pôs em um cabeço, formada de dentro de um curral de paredes velhas e derrubadas, com 4 peças de artilharia consigo. Como esteve tudo bem aparelhado, mandaram logo a companhia da ronda que fosse para a sua guarda, fazendo o que era costume, levando seus batedores diante e ela detrás para os socorrer. E com ordem do general da cavalaria que ali estava, Dom João [de] Mascarenhas que, se saísse alguma partida pequena aos batedores, que a seguisse a companhia da ronda até ver em que parava. De modo que assim foi que indo os batedores descobrindo, dão logo com uma partida do inimigo. E vindo correndo sobre os nossos batedores, lhe saiu a companhia e os foi correndo até quase à ribeira de Caia, aonde estava sua embscada. E assim como o inimigo viu já a nossa companhia muito perto, lança-lhe cem cavalos à rédea solta, para ver se podia derrotar. E assim como os nossos viram os cem cavalos sair da ribeira, vêm fugindo para a nossa gente, que assim levava a ordem o cabo dela, e os cem cavalos do inimigo se vinham desunhando atrás da nossa companhia e não viam a outra gente nossa.

De modo que já o nosso general Dom João [de] Mascarenhas tinha apartado 150 cavalos para que, em sendo tempo, saíssem sobre os cem do inimigo. Vinham já os cem cavalos do inimigo mui averbados com a combanhia e perto das nossas tropas, saem logo os nossos 150 cavalos sobre os do inimigo como uns raios, já com a espada na mão. Assim como o inimigo os viu, se bem apressado vinha sobre a nossa companhia, muito mais volveu fugindo. Mas os nossos [é] que lhe davam pouco vagar, porquanto os iam apertando muito bem e desmontando neles, que antes que chegassem à sua emboscada já lhe tinham ficado pelas costas 20 ou 30 cavalos. Mas como a sua emboscada viu já muito empenhados aos cem cavalos, saiu de emboscada mais cedo do que havia de sair, para não lhe derrotarmos mais gente. E assim vem saindo com toda a brosigiada [termo empregue pelo autor, talvez querendo significar “brigalhada”], que eram dezasseis batalhões, que tinham bons 1.400 cavalos. Assim como os nossos viram sair o poder, vieram todos como raios, cada qual havia mais de correr, retirando-se à nossa gente, que já o nosso general a via vir muito bem. E como o inimigo não via a infantaria, cuidava que só as tropas da cidade ali estavam. E assim que o general lá as pôs em o alto para que se viesse a elas com mais vontade, e já a nossa infantaria estava muito alerta, veio o inimigo investindo connosco, entendendo que nos levava de coalho. E apenas eles vinham chegando a nós, volta o nosso general com as tropas, fazendo que fugia, e o inimigo se veio a nós de fio. Mas na volta que nós demos ficou a nossa infantaria à sua vontade para dar carga ao inimigo [isto é: disparar as armas de fogo] como deu, assim de mosquetaria como de artilharia muito bem, que assim como o inimigo a viu, virou muito depressa outra vez para trás ao largo, mas já com boa perda das cargas que lhe deram ali logo bons cem homens. E assim como o inimigo voltou atrás, logo o nosso famoso Dom João [de] Mascarenhas o foi picando valentemente na rectaguarda, e tão bizarramente que lhe feriram o cavalo com uma cutilada e o espadim com que pelejava lhe botaram um escudo fora dele. Fez-se o inimigo ao largo, aonde não lhe faria dano a nossa artilharia, e formou-se e deixou-se estar um pouco ali, havendo sempre grandes escaramuças de ambas as partes. E não ficámos nós também sem perda, que ainda levaria o inimigo 15 ou 20 cavalos e homens. De modo que, vendo o inimigo não fazia já nada, se foi retirando para Badajoz, e nós viemos para a cidade contentes de ver que o inimigo, com toda aquela cavalaria, não fizera nada.

Fonte: MMR, pgs. 1197-199.

Imagem: Vista da cidade de Elvas, ao fundo, a partir do local da Atalaia da Terrinha (hoje desaparecida) – um sítio que foi palco de muitos combates como o descrito aqui. Foto de JPF.

A representação da infantaria no quadro do Marquês de Leganés sobre o combate de Alcaraviça (2 de Novembro de 1645)

Saídos de Estremoz, os 400 infantes do terço da Ordenança da comarca de Évora, comandados pelo sargento-mor João da Fonseca Barreto, são surpreendidos e completamente desbaratados por uma força de cavalaria inimiga com cerca de 600 efectivos. Apesar da legenda no quadro referir uma igual composição numérica (1.000 para cada lado), as fontes documentais são bem claras.

Quanto à força de infantaria portuguesa, não restam dúvidas que seriam 4 companhias da Ordenança, a 100 homens cada. O quadro, curiosamente, parece comprovar este efectivo. Mostra dois esquadrões (formações tácticas) compostos exclusivamente por piqueiros (juntando, cada esquadrão, os piqueiros de 2 companhias). Os atiradores armados de arcabuz encontram-se abrigados atrás de uma tapada ou distribuídos pelos edifícios, estando uma parte deles já representada em fuga – curiosamente, carregando as armas, o que seria pouco praticável e contraria o que era profusamente descrito nas fontes a respeito de casos semelhantes.

Segundo as fontes coevas, reportadas num artigo de Outubro de 2008, da autoria do Sr. Santos Manoel, a inépcia do sargento-mor ao dispor as forças teria sido a causa de uma derrota que, ainda que menor no contexto dos inúmeros combates semelhantes ao longo da guerra, chocou os portugueses pela dimensão da derrocada: um terço inteiro destroçado, morta a quase totalidade dos seus soldados. Os erros que o Conde da Ericeira aponta a João da Fonseca Barreto (não ocupar e guarnecer uma tapada de parapeito alto, ou de ter dado ordem de ataque ou receber a carga de cavalaria em campo aberto) são, no entanto, contrariados em parte pela representação da força portuguesa no quadro do Marquês de Leganés.

Aí é visível que os atiradores portugueses se encontram abrigados atrás de muros – o que pode, no entanto, ser uma liberdade artística, para valorizar mais a vitória espanhola. No entanto, os esquadrões de piqueiros estão totalmente desguarnecidos de atiradores e posicionados em campo aberto. Dada a falta de preparação militar e consequente coesão, isso seria um factor facilitador da derrocada.

Um pormenor interessante é a representação de 4 bandeiras, uma por cada companhia: duas carregadas pelos respectivos alferes em fuga, outras duas em cada esquadrão de piqueiros. Aparentam ter representada uma cruz aspada – semelhante à Cruz de Borgonha dos exércitos espanhóis. No entanto, enquanto duas são verdes (verde e branco foram as cores heráldicas da casa de Bragança até 1707), uma terceira parece ter a cruz em vermelho, tal como a Cruz de Borgonha aparecia representada nas bandeiras das unidades espanholas. Uma outra bandeira, carregada em fuga, mais ao longe, é branca, mas não se distingue nela qualquer símbolo.

Outro pormenor que desperta curiosidade é a representação de 3 cavalos entre as forças portuguesas: um montado, outro que acabou de derrubar o próprio cavaleiro, e outro, mais ao longe, desmontado e em fuga. A representação dos cavaleiros com faixas brancas atadas à cintura identifica-os como portugueses. O facto, no entanto, é que apenas o sargento-mor teria direito a cavalo para se fazer transportar, o que pode significar que estamos perante outra hipóteses de liberdade artística.

A representação da cavalaria no quadro do Marquês de Leganés sobre o combate de Alcaraviça (2 de Novembro de 1645)

Inicio aqui uma pequena exploração do quadro que o Senhor José Maria Villanova-Rattazi Guillén, descendente do Marquês de Leganés, gentilmente me deu a conhecer. Em artigos publicados em Março, Abril e Setembro de 2019 já o mesmo tinha sido referido, a propósito do combate de Alcaraviça, refrega essa que motivou a execução do quadro, numa evocação da vitória do Marquês sobre uma força de infantaria da ordenança portuguesa.

A temática bélica é muito comum na pintura do século XVII, marcado na sua fase inicial pela Guerra dos 30 Anos. No entanto, são escassas as pinturas que têm como pano de fundo a Guerra da Restauração. À parte as convenções observadas na pintura de temas de guerra (onde se realça uma tendência para a distorção da perspectiva, em benefício de uma visão panorâmica e esquemática de um combate ou batalha), o naturalismo e o realismo na representação das forças em contenda constituem preciosos elementos para o conhecimento do seu equipamento e armamento na vida real. De um modo geral, confirmam ou complementam informações presentes em fontes escritas.

É neste pressuposto que irão ser aqui abordados alguns pormenores constantes no quadro do combate de Alcaraviça, começando pela cavalaria. As fotos são da autoria do Sr. José Maria Villanova-Rattazi Guillén.

A força de cavalaria, na totalidade espanhola, está representada no quadro em 10 batalhões (formações tácticas), a seis fileiras de frente por 4 filas de profundidade. Nos batalhões mais próximos é visível uma mistura de equipamentos defensivos: as duas fileiras da frente com cavaleiros equipados com couraça de peito e espaldar, e as restantes, com um ou outro pelo meio, maioritariamente com couras, ou seja, a protecção de couro. Nada de novo, dado que corrobora a prática também seguida entre a cavalaria portuguesa e que as fontes documentais – com particular relevo para os róis de equipamento das companhias que chegaram até nós – comprovam. Alguns cavaleiros apresentam faixas de cor vermelha, atadas sobre o tronco na diagonal ou usadas à cintura, o que os identifica como elementos do exército espanhol (o branco ou o verde eram usados entre os portugueses, dado serem essas, à época, as cores da Casa de Bragança). Todas as bandeiras das companhias espanholas são representadas numa só cor, o vermelho, cor que também predomina nas plumas que enfeitam os capacetes dos oficiais (alguns deles têm plumas vermelhas e brancas). De resto, todo o equipamento defensivo é usado sobre vestuário de cores diversas, tal como as capas que alguns cavaleiros apresentam não têm cor uniforme.

Apenas uma dissonância em relação ao vermelho identificativo da força militar da Coroa de Espanha: o trombeta em primeiro plano traz pendente do instrumento musical uma peça de tecido verde. Tratar-se-ia da cor pessoal do comandante da companhia ou do próprio Marquês de Leganés? No entanto, já um outro trombeta, representando num plano mais distante, exibe o vermelho usual.

No próximo artigo iremos ver como se encontram representadas as forças de infantaria portuguesa.

14 de Janeiro de 1659 – Batalha das Linhas de Elvas e morte de André de Albuquerque Ribafria

“[…] Amanheceu terça-feira, catorze de Janeiro do ano de mil seiscentos e cinquenta e nove, dia tão fausto à Nação Portuguesa, que até a si mesmo se fez feliz, por ser de séculos imemoráveis erradamente julgado por infausto; tomando a maior parte deste agoiro a família dos Meneses, de que era cabeça o Conde de Cantanhede, que conseguiu mais uma vitória na resolução de desvanecer esta superstição gentílica. […] [p. 215]

[…] E como em todo o decurso da sua vida não tolerou André de Albuquerque que os seus soldados voltassem as costas aos inimigos, arrojou o cavalo ao centro do esquadrão, exortou aos que se retiravam, e persuadindo-os a que voltassem as caras, os levou junto da estacada do forte, e tocando nas estacas com a bengala, os advertiu como haviam de arrancá-las; obedeceram os soldados, emendendando o erro antecedente. Acertou uma bala tirada do forte a André de Albuquerque, entrando por entre o extremo do braço direito e o princípio das armas [ou seja, da armadura, que consistia numa couraça completa para o tronco: corselete e braçais. A bala penetrou pela extremidade desprotegida, o que leva a crer que André de Albuquerque Ribafria usava apenas luvas de couro, na melhor das hipóteses, e não uma manopla de ferro a proteger todo o antebraço e mão] com efeito tão mortal que infelizmente caiu morto em terra […]. [p. 224]

[…] O Conde de Cantanhede, no dia seguinte ao que ganhou a batalha [quarta-feira, 15 de Janeiro], deu ordem à sepultura do corpo de André de Albuquerque com todas as fúnebres demonstrações militares, que merecia a memória de um varão de tão excelentes virtudes. Foi enterrado no Mosteiro de S. Francisco. [p. 232]

Fonte: D. Luís de Meneses, História de Portugal Restaurado, Parte II, Tomo III, Lisboa, 1751.

Imagem: Padrão comemorativo da Batalha das Linhas de Elvas. Foto de JPF.

1.º de Dezembro de 1640

Embora ultimamente não tenha sido tão assíduo a actualizar o blogue, por motivo do muito trabalho que não me deixa tempo disponível, venho agradecer mais uma vez a todos quantos têm tido a simpatia de visitar este cantinho e colaborado com artigos e muita informação. A todos, renovo o meu Muito Obrigado.

Imagem: Vista de Vila Viçosa a partir da muralha do castelo, com o Paço Ducal ao fundo.

Situação da fortaleza de Viana do Castelo em finais de 1659

Em 25 de Dezembro de 1659 recebeu o Conselho de Guerra uma carta de Lourenço de Amorim Pereira, governador da fortaleza de Viana do Minho (hoje, Viana do Castelo), dando conta da situação daquela fortificação.

Assim, segundo o governador, havia na guarnição 129 praças, em que entravam oficiais reformados, capelão, fábrica da igreja, corpo da guarda e “outras coisas” (não especificadas), com que vinham a ficar ao serviço pouco mais de 60 soldados. Destes, a terça parte eram galegos, “que por passarem do inimigo, se lhes mandou ali assentar praça”. O castelo necessitava, no mínimo, de 200 homens de guarnição, e para a eventualidade de um sítio não bastariam 800. Como em ocasiões anteriores não tinha sido dada solução a estes pedidos e como o inimigo dava então sinais de ir retomar a guerra por aquelas partes, voltou o governador da fortaleza a solicitar que a Rainha regente, D. Luísa de Gusmão, fosse servida mandar que, ao juiz de fora e ouvidor de Barcelos, fossem dados 100 homens, dos mais desobrigados; e ao corregedor e juiz daquela vila de Viana, 50. E que o vedor geral os lhes fornecesse armamento, vestuário e alimentação, como se fazia ao restante exército provincial. Mais acrescentava que havia naquela fortaleza um alferes vivo (ou seja, no activo) com 15 anos de serviço e muito capaz de toda a ocupação, e que daquela gente lhe fosse feita uma companhia.

O Conselho de Guerra deu o parecer que seria proveitoso ao serviço de Sua Majestade mandar despejar os galegos do castelo, e que em seu lugar fosse formada uma companhia das terras circunvizinhas, escrevendo-se para isso ao Visconde de Vila Nova de Cerveira.

Por decreto de 23 de Janeiro de 1660, mandou a Rainha Regente anda assim proceder.

Fonte: ANTT, CG, Consultas, 1660, mç. 20, consulta de 14 de Janeiro de 1660.

Imagem: Forte de Santiago da Barra de Viana, na actualidade (foto via Wikipédia).

O quadro do Marquês de Leganés sobre o combate de Alcaraviça (2 de Novembro de 1645)

Entre Março e Abril de 2019 foi aqui de novo tratado o combate de Alcaraviça, a propósito de um quadro que o Sr. José Maria Villanova-Rattazi Guillén, descendente do Marquês de Leganés, tem em sua posse e do qual gentilmente me havia cedido várias fotos para aqui publicar. O tempo tem sido escasso para manter actualizado o blog, devido a compromissos profissionais e particulares, mas não quis deixar terminar o mês de Setembro sem publicar uma foto do referido quadro já restaurado.

A ele voltaremos em breve, para abordarmos os pormenores do armamento e equipamento das forças em contenda. Desde já, renovo os meus agradecimentos ao Sr. José Maria Villanova-Rattazi Guillén.

Um recontro de cavalaria nas proximidades de Elvas – Cruz de Rui Gomes, 23 de Maio de 1647 (3.ª e última parte)

Continuação da transcrição do Manuscrito de Matheus Roiz:

Tanto que o meu tenente se viu ao ribeiro sem o inimigo, logo ficou mais contente, e passou o ribeiro livre. Mas apenas o passou, já o inimigo estava outra vez com ele, apertando-o grandemente até [à] atalaia, mas ele sempre pelejando, como dele se esperava, [a]té que se arrimou [à] atalaia. Mas naqueles apertos ainda o inimigo lhe captivou dois soldados e o furriel, que eram três, afora eu, que também me captivaram […].

[Q]uando eu ouvi o tiro que meu companheiro deu, a emboscada do inimigo já ia além, donde o inimigo estava, um tiro de mosquete sobre a partida do inimigo. Mas apenas ouvi o tiro, logo disse entre mim que meu companheiro dera com o inimigo e quis fazer alguma traça para me vir livrando dos dois cavalos do inimigo. Mas não me deram esse lugar, que assim como ouviram o tiro, logo presumiram que a sua emboscada era já fora, e assim se vieram a mim à rédea solta, e como eu não tinha ainda visto os mais castelhanos, fiz fugida para [a]  atalaia, pois era a mais breve retirada que tinha, mas assim como assumi correndo a um outeiro, vi toda a campanha cheia de castelhanos, que ainda andavam às voltas com a minha companhia, e se ia para lá metia-me nas suas mãos. Não tive outro remédio senão ir-me pela campanha abaixo, lá pelas vinhas da Terrinha, que é tudo campo como a palma da mão. E a tudo isto sempre apertando-me os dois cavalos grandemente, mas como o meu cavalo tinha já corrido muito, e correu ainda muito mais pelo decurso da carreira, chegaram os dois cavalos a mim e me captivaram, deixando-me em camisa, que só o que era meu [e] me tiraram valia de 20.000 réis, que me levaram um colete que me davam 10.000 [réis] por ele, e o demais tudo bom (1).

Finalmente me levaram a Badajoz com os mais e daí a 4 dias nos mandaram [de volta], e quando viemos nos mandou o Conde Martim Afonso de Melo dar munições de vestido e botas e couros a todos, porque estava bem informado de como todos fizeram bem sua obrigação, que o Conde daria tudo aos soldados que bem a fizessem. E quando vínhamos de Badajoz fomos primeiro a casa do meu capitão, que havia vindo de Lisboa com a patente da minha companhia de novo (2), e como ainda o não tínhamos visto fomos […] vê-lo. E logo fomos a falar com o Conde governador, e nos disse que se não estivera bem informado do nosso tenente o como procedemos, que nos não havia de dar nada. Viemo-nos cada um para seus alojamentos a tratar do que nos convinha, e ainda que vínhamos de Castela, vínhamos alegres.

(MMR, pgs. 166-168)

(1) O colete de couro (ou “coura”) era usualmente a única protecção dos cavaleiros de ambos os exércitos, como foi referido no artigo anterior. A ser verdade o que Mateus Rodrigues refere, tratar-se-ia de um colete de qualidade superior ao “colete de munição” distribuído aos soldados, provavelmente um despojo de guerra capturado a um oficial inimigo.

(2) A memória de Mateus Rodrigues prega-lhe mais uma rasteira aqui. D. João de Azevedo e Ataíde ainda não tinha caído em desgraça nesta altura (o combate da Atalaia da Terrinha que ditaria o seu afastamento ocorreria daí a poucos dias, a 5 de Junho), portanto não recebera “de novo” a patente da companhia. O comissário geral – a quem Mateus Rodrigues se refere por “meu capitão” num sentido mais lato de comandante da companhia – regressava de Coimbra, onde estivera sob licença entre Abril e Maio.

Imagem: Vista sobre a planície em direcção ao Caia e ao Guadiana, a partir do local onde se erguia a Atalaia da Terrinha. Toda a zona abrangida foi palco de muitos recontros entre as forças portuguesas e espanholas durante a Guerra da Restauração.

Um recontro de cavalaria nas proximidades de Elvas – Cruz de Rui Gomes, 23 de Maio de 1647 (2.ª parte)

Continuação da transcrição do Manuscrito de Matheus Roiz:

E assim como eu e o meu companheiro […] chegámos a um ribeiro que vai junto das casas quis passar além para ver o caminho que levava o inimigo. E o meu companheiro parece que adivinhava o que havia de ser, dizendo-me a mim que não fosse além, porquanto o inimigo tinha alguma emboscada nos carrascais. Mas como ele viu vir já muito perto a nossa companhia, logo passou comigo, porquanto a companhia não trazia mais batedores diante, fiando-se em nós ambos. E assim como fomos subindo ao outeiro da Cruz, vai ali a estrada de Badajoz e também vai um carreiro, que têm feito os cavalos por onde vão os soldados a descobrir os carrascais que estão ali detrás da Cruz. E quando eu e o soldado íamos já no alto da Cruz, já a minha companhia ia passando o ribeiro para além, e eu tomei a estrada adiante, seguindo a partida do inimigo. E o meu tenente ia mais adiante que a companhia um tiro de cravina [ou seja: carabina; cerca de 60 metros] e já ia chegando à Cruz quando ele ouve um tiro. E logo viu o inimigo vir pelo outeiro adiante como um raio, buscando a companhia. De modo que o soldado que ia comigo, que foi pelo carreiro a descobrir as coisas, assim como deu com o inimigo levava uma pistola na mão e tocando arma com ela lhe arrebentou. E assim como o inimigo o viu saiu como um raio das covas, que já estavam montados, pelo outeiro adiante, que eram 70 cavalos todos escolhidos das tropas de Badajoz, e todos armados de armas de corpo(*). E vinha um tenente por cabo deles, grande soldado, por nome Pedro Hernandez. E o soldado que deu neles veio fugindo quanto podia, e não podendo fugir para a companhia, se foi à estrada adiante, e não o seguiu o inimigo e livrou[-se].

De modo que assim que o nosso tenente ouviu o tiro, veio correndo à companhia que ia atrás dele um tiro de cravina, para a retirar [à] atalaia. Mas como a distância de onde o inimigo saiu aonde a companhia ia era mui pouca, deu logo o inimigo vista dela e se veio a ela à rédea solta, entendendo que a tinha nas unhas. E não há dúvida que tanto que o meu tenente viu o inimigo, já dava mui pouco pela nossa companhia, porquanto na passagem do ribeiro que ali estava se temia que o inimigo [a] apanhasse toda. Porém, sempre há um soslaio por onde as feridas não são mortais, de maneira que, como era em Maio, havia poucos dias chovido muito, e aquela terra por ali qualquer orvalho basta para que ele a atole muito, que é muito delgada e solta. E por à roda das casas donde haviam saído os castelhanos primeiros [sic] ao soldado, vai um caminho que é terra dura. E o inimigo não quis vir por ele, que por ele vinha a minha companhia, senão veio por detrás das casas, entendendo lhe tomava por ali grande volta. E não há dúvida que se não fora o atolar tanto, que toda a companhia leva[ria]. Mas tanto que entrou por ali se metiam os cavalos até à barriga na terra, que os não podiam tirar dela.

(MMR, pgs. 164-166) – CONTINUA NO PRÓXIMO ARTIGO

(*) Armas de corpo: couraça composta por peito e espaldar. Esta passagem – tal como outras semelhantes no manuscrito – é significativa quanto à não generalização da utilização de couraças pela cavalaria em operações de pilhagem ou nas contra-incursões. Só quando se previa um combate importante, ou quando o comandante de uma força impunha o seu uso por alguma razão, é que as armas de corpo eram usadas. Mais frequente era a casaca ou o colete de couro (a “coura”) constituírem a única protecção dos cavaleiros.

Imagem: Cena de combate de cavalaria, óleo de Pandolfo Reschi.

Conferências Internacionais de Elvas 2019

Decorreram no passado dia 28 de Junho as 4.as Conferências Internacionais de Elvas 2019, organizadas pela AiaR – Associação de Desenvolvimento pela Cultura, com o apoio da Câmara Municipal de Elvas. Respondendo ao honroso convite da organização, foi com imenso gosto que apresentei uma comunicação, como as demais subordinada ao  tema “Alentejo Restaurado”.

Foi uma oportunidade para rever estimados amigos e colegas, a quem aproveito para, de novo, saudar: Coronel Engenheiro José Paulo Berger, Dr. Carlos Sánchez Rubio, Dr. Edwin Paar e Tenente-Coronel Abílio Lousada; sem esquecer o estimado amigo Dr. Julián García Blanco, que esteve presente como espectador nas Conferências e me deu a conhecer o seu trabalho mais recente: “Nación y Fidelidad en la Raya: el caso de João Dias de Matos” – um excelente artigo que vem contribuir para o aprofundamento do tema das identidades durante a Guerra da Restauração.

Um agradecimento aos restantes conferencistas, em particular ao Dr. António David Duarte, autor de Linhas de Elvas – Prova de Força (Tribuna, 2003), que tive o prazer de conhecer pessoalmente e que no dia 29 nos guiou numa explicação “no terreno” sobre os principais incidentes da batalha travada a 14 de Janeiro de 1659; e ao Eng. Jacinto César, pela agradável e bem humorada visita guiada (nocturna) ao Forte de Nossa Senhora da Graça. Agradecimentos que estendo à Drª. Patrícia Monteiro. que apresentou uma muitíssimo interessante comunicação sobre a Arte em tempo de guerra – e com muitas e oportunas referências aos processos e momentos da conservação do património; e ao Prof. Dr. Miguel Ángel Melón Jiménez, que nos trouxe um estudo sobre a influência to teatro de guerra do Alentejo nos confrontos entre Espanha e Portugal (1664-1801).

Na tarde do dia 29 de Junho, na Casa da Cultura de Elvas, foi lançado o livro Glórias e Desaires da História Militar de Portugal, obra da autoria do Tenente-Coronel Abílio Lousada. A apresentação foi feita pelo Coronel Joaquim Rodrigues Bucho, Director do Museu Militar de Elvas.

A terminar, endereço saudações e um agradecimento muito especial aos amigos Arq. Carlos Correia Dias e Dr. Nuno Grancho, com a promessa de voltar em breve.

Fotos:

– padrão comemorativo da batalha das Linhas de Elvas, local de reunião para ouvir a explicação dos incidentes levada a cabo pelo Dr. António David Duarte, com a preciosa colaboração do Arq. Carlos Correia Dias.

– momento da apresentação do livro Glórias e Desaires da História Militar de Portugal, com o Cor. Joaquim Bucho, Arq. Carlos Correia Dias e TCor. Abílio Lousada.