Uma incursão no termo de Monsaraz (28 e 29 de Setembro de 1645) – parte 1

O ano de 1645 foi fértil em acontecimentos bélicos na província do Alentejo, desde a frustrada intenção do 2º Conde de Castelo Melhor de tomar Badajoz, passando pelas investidas do exército espanhol sob o comando do Marquês de Leganés, até ao episódio, já diversas vezes tratado neste blog, do desastre de Alcaraviça (aqui, aqui, e aqui). No entanto, um dos pequenos casos de guerra que ocorreram nesse ano passou quase despercebido. Nem o minucioso Conde de Ericeira lhe faz referência na História de Portugal Restaurado (embora não lhe tenha escapado sequer a presença no exército do Alentejo, nesse ano de 1645, do rei das ilhas Maldivas, senhor de grande riqueza e muitos vassalos no Estado da Índia, que tinha vindo a Portugal pedir auxílio a D. João IV para retomar o trono que um seu irmão lhe havia usurpado, e que entretanto decidira servir algum tempo no exército daquela província, com honras de oficial superior).

O episódio de menor envergadura a que me reporto é uma entrada da cavalaria espanhola na zona de Monsaraz, que acabou por colocar em alvoroço a própria população de Évora. Sobre este acontecimento da pequena guerra de fronteira existem quatro referências manuscritas que se completam. Três foram produzidas por portugueses, ao jeito das habituais “Relações” do período. A primeira, da qual se inicia aqui a transcrição, respeita à entrada propriamente dita. A segunda reporta o acontecido em Évora após terem chegado as novas da incursão. E a terceira é a cópia de uma carta remetida de Mourão, acerca da entrada do inimigos nos campos da região. E a quarta é outra cópia, esta em castelhano, de uma carta do tenente-general D. Gregório Ortis de Ibarra para o general da cavalaria Marquês de Molinguen, dando conta do sucedido na operação.

Nada do que aqui se irá apresentar foi alguma vez publicado, tendo eu tomado conhecimento deste episódio esquecido da guerra de fronteira através de um manuscrito existente na Biblioteca Nacional de Madrid, cuja cópia em boa hora me foi enviada pelo estimado amigo Julián García Blanco, a quem muito agradeço.

A transcrição do original manuscrito foi vertida para português corrente.

Relação da entrada dos Castelhanos no termo de Monsaraz

Em 28 deste mês de Setembro, véspera do bem-aventurado Arcanjo S. Miguel, vieram à coutada desta vila seis corredores castelhanos, e nela cativaram três homens nossos e os levaram. Veio logo recado a esta praça, saíram dela doze homens nossos em éguas, que foram em busca sua até muito além de Cheles; e foi Deus servido que errassem a trilha, porque fora sua perdição se lha acharam, porque haviam de segui-la até se meter no poder do inimigo. Os voltadores [sic] castelhanos com os prisioneiros foram ao da Lapa, aonde acharam muita gente de cavalo, mui luzida, com muitas couras guarnecidas de ouro e prata, e bandas de custo, e muito gentis cavalos; e é certo que era a melhor cavalaria escolhida, a que tem o inimigo em Badajoz. Dizem que eram seiscentos cavalos; e há outros que afirmam que era maior número. Com a confissão que fizeram os cativos se puseram logo a caminho para o termo desta vila, de modo que, quando amanheceu, estavam metidos dentro nele. Em S. Pedro do Corval deixaram uma tropa e foram repartindo outras pela terra dentro, e punham-nas em partes altas e descobertas, porque seus corredores fossem saqueando e ajuntando o gado, o que fizeram com grande cuidado, roubando a maior parte das casas do termo; porque o fizeram quase a toda a freguesia de S. Pedro, e na de Caridade lhes ficou muito pouco, e ainda tocaram na das Vidigueiras, e no termo de Évora e Montoito, usando de crueldades em razão dos roubos, porque despiam a toda a mulher que achavam com bom vestido, e pelo conseguinte a homens e meninos. Mataram duas ou três pessoas sem pelejarem e feriram poucas mais. Em três ou quatro montes se fizeram os nossos moradores do termo fortes e ficaram livres. A mesma sorte teve a aldeia do Reguengo de Baixo, porque de umas trincheiras que tem, com poucos defensores que ali se acharam, os detiveram e fizeram retirar. Da mesma maneira se houve o Licenciado Paulo Duarte, que com alguma gente que se lhe ajuntou, se defendeu do inimigo, e fez que não chegasse à igreja e aldeia que ali está. Diferente a tiveram as aldeias do Reguengo de Cima e a do Mato, que as entraram e saquearam, e todos os mais montes que há por aquela banda, donde roubaram muita quantidade de roupa, fato e algum dinheiro, e até na igreja de S. Pedro entraram e despiram as imagens da Virgem Nossa Senhora do Rosário, e Conceição, deixando-as no chão como se foram hereges.

Depois de ajuntarem todo o gado vacum que por ali havia, que era muito muito [sic], e cabras e porcos que também era muita quantidade, se vieram recolhendo para S. Pedro, aonde se ajuntaram todos, e vieram marchando pela estrada que vem de Évora para esta vila.

No dia do glorioso Arcanjo S. Miguel, pela manhã, chegou a esta vila nova [ou seja, notícia] onde estava o inimigo, mas muito diferente na quantidade do que era, porque diziam que seriam 150 homens de cavalo. Ordenou logo o capitão-mor Luís Álvares Baines que lhe saísse desta vila gente; para o que se ofereceu logo o capitão António Pereira de Oliveira, que foi com a que havia, acompanhado dos alferes Gaspar Grisante, Rafael Segurado e Miguel Gomes de Sampaio, com o sargento da companhia do dito capitão, Francisco Mendes Couto, e os sargentos Simão Lopes e Diogo Mendes. E assim se foram [a] caminho da serra da Atalaia. Seriam pouco mais de oitenta infantes, com dezassete homens de éguas que aqui estavam.

(continua)

Fonte: Relação da entrada dos Castelhanos no termo de Monçaras (Biblioteca Nacional de Madrid, ms. 8187, fls. 45 v-49)

Imagem: Sebastian Vrancx, cena de pilhagem (detalhe de uma pintura do período da Guerra dos 30 Anos).

Advertisements

One thought on “Uma incursão no termo de Monsaraz (28 e 29 de Setembro de 1645) – parte 1

  1. UN COMBATE EN LAS ORILLAS DEL RIO CAYA, JUNTO A LOS MUROS DE BADAJOZ

    La historia se olvida pronto, al menos aquella parte de la misma que se escribió en letra pequeña, lejos de los grandes acontecimientos. Sin embargo la importancia de éstos cuan poca sería sin la existencia de aquellos sucesos de menor envergadura que, uno a uno, dan lugar a los fastos más voluminosos. La intrahistoria, que diría un erudito de antaño.
    En más de una ocasión han surgido en las páginas de este foro varias de esas “pequeñas historias”, sacándolas de la oscuridad y del olvido. Valga esta que ahora traemos a la memoria como una nueva gota para colmar el vaso.
    Pocas referencias dejó en los memorialistas. Salvo el Conde de Ericeira, en su Historia de Portugal Restaurado, apenas encontramos mención alguna; quizás Ayres Varela aborda con más profundidad el relato. De todos modos, ambas son visiones subjetivas, pues, sin restarles importancia, cuentan el acontecimiento desde el punto de vista portugués. Para intentar acercarnos a la verdad siempre es conveniente, en la medida de las posibilidades, contrastar datos.
    Tenemos la oportunidad de hacerlo en esta ocasión pues, afortunadamente, aún se conservan algunos documentos que, si bien de manera breve, cuentan lo sucedido desde la visión castellana.
    Sin más preámbulos, viajemos hasta aquel lejano sábado, 14 de marzo de 1643.
    Por entonces gobernaba las armas de Badajoz don Juan de Garay y Otañez, mientras que frente a él, en el lado portugués, ejercía interinamente el maestro de campo Joane Mendes de Vasconcelos, que sustituía al Conde de Óbidos, verdadera cabeza de mando militar en la provincia alentejana.
    Finalizados los rigores del crudo invierno, que apenas habían dejado maniobrar a las tropas, en cuanto hubo mejoría climatológica comenzaron a planificarse acciones de guerra. Como era habitual, más que estrategias arriesgadas, se trataba de pequeños choques militares, pero que a base de repetirse con frecuencia, mermaban las fuerzas de ambos bandos.
    De aquel modo quiso Vasconcelos probar el poder castellano, para lo cual reunió 600 caballos y 2000 infantes (que las fuentes documentales castellanas cifran en 700 y 1500 respectivamente). A los primeros puso bajo órdenes de Rodrigo de Castro, en tanto que él se quedaba con el resto de soldada. El plan era urdir una emboscada, para lo cual Rodrigo debía llamar la atención de la gente de guerra que se acuartelaba en Badajoz, haciéndola salir tras él hasta llegar al punto dónde esperaba escondido Joane Mendes.
    Mientras el maestro de campo quedaba con el grueso en un valle situado entre el puente sobre el río Caya y la ciudad pacense, lugar conocido hoy como Céspedes, o Monte das Caldeiras, Rodrigo y los suyos adelantaban sus pasos para acercarse casi a tiro de mosquete de las murallas castellanas.
    Dice el conde de Ericeira que “D. Rodrigo mandou cuarenta cavalos que carregasen as sentinelas até a ponte que remata na porta de Badajoz”. Y así fue. Dada la voz de alarma, mandó Garay salieran en pos de los atacantes 200 caballos y 800 soldados; pero alguien debió intuir el engaño que tramaba el rival, porque en vez de perseguir a los cuarenta jinetes, se dio el alto justo antes de que se llegará a las proximidades dónde Joanes y los suyos estaban dispuestos a atacar.
    Quedaron quietos los castellanos, ocupando unas trincheras naturales en espera de los nuevos movimientos portugueses. Entonces Rodrigo de Castro comenzó a ponerse nervioso, viendo que no era capaz de atraer a la celada a su contrincante. Sin pensar detenidamente las consecuencias, arriesgo a su gente, ordenando que volvieran las grupas y marcharan contra la tropa extremeña, por ver si de esta forma los hacía salir definitivamente de su escondite.
    Joane, pensando en un mal menor, apoyando a su compatriota, también hizo avanzar a buena parte de sus hombres, yendo en retaguardia de la avanzada de Castro. Con esta táctica pudieron los oficiales castellanos valorar las fuerzas del enemigo con mayor exactitud. Y, tras el recuento, hechos sus planes, lanzaron la contraofensiva.
    La mitad de la infantería salió al encuentro portugués, mientras que el resto seguía guarnecida en las trincheras del terreno circundante. La tropa lusitana creyó ahora que su plan cobraba efectividad, y se fraguó un violento choque de milicias durante unos quince minutos.
    Transcurrido aquel intervalo de tiempo, comenzaron a retirarse los castellanos sin perder la espalda al enemigo, pero buscando atraerles hacía dónde esperaban el resto de compañeros y caballería extremeña. Y en esta ocasión la emboscada urdida sí dio el efecto deseado.
    Los portugueses se vieron muy pronto rodeados por toda la tropa de Garay, y en cuanto tuvieron oportunidad comenzaron a retirarse de forma desorganizada, buscando cada cual su seguridad.
    El seguimiento de los huidos no quiso profundizarse; al menos esa era la orden dada por Garay. Pero, a pesar de ello, no pudo impedir que algunos grupos de exaltados soldados continuaran el alcance. Sobre éstos desgraciados fue en los que cayó el resto de milicia lusitana que aún tenía escondida Mendes en los cerros del Caldeiras.
    La visión de la campaña era un verdadero revoltijo de tropas: unas que peleaban en el centro, otras que huían desbandadas; en esos momentos, Garay ordeno que un grupo se apostará en el puente del Caya, cerrando el paso del Camino Real, ya que era de la opinión que entre aquel desorden quizás se intentase abordar las puertas de la ciudad. Pero no ocurrió nada semejante. La soldada bastante tenía con salvaguardar la vida en la escaramuza junto al río.
    Poco a poco todo fue concluyendo, y al comenzar a caer la tarde apenas quedaban vestigios del enfrentamiento militar habido unas horas antes. No obstante se pusieron vigías, pues alguien había dicho que se esperaban socorros lusitanos procedentes de Olivenza. Pero no hubo mayor novedad.
    Los partes del suceso señalaron que los atacantes habían perdido doce hombres, siendo prisioneros otros cinco. En el bando castellano las bajas fueron similares, si bien se considero una victoria a su favor.
    Así termino una más de aquellas escaramuzas que tanto pesaron sobre la vida cotidiana de los moradores de la raya fronteriza. Escaramuzas que pasaron sin pena ni gloria, y de las que hoy apenas queda memoria alguna, salvo ligeros apuntes en viejos libros y legajos polvorientos. Muchas más quedan por referir.
    Pero esa es otra historia.

    Juan Antonio Caro del Corral

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s