
Os cavalinhos de pau – designação lusitana seiscentista para os obstáculos portáteis vulgarmente conhecidos pelo termo francês “chevaux de frise” – foram muito utilizados em Portugal durante todo o período da Guerra da Restauração. Destinavam-se a proteger a frente dos atiradores de infantaria (arcabuzeiros e mosqueteiros), os quais não dispunham de meios eficazes para se defenderem da cavalaria inimiga no combate corpo-a-corpo. Como uma parte dos atiradores era destacada para formar as mangas do esquadrão, ou para se dispor entre os batalhões de cavalaria, ficavam sem a cobertura próxima dos piqueiros. Daí a utilização dos obstáculos portáteis.
Existem várias referências ao uso dos cavalinhos de pau. O Conde de Ericeira atribui a Joane Mendes de Vasconcelos a responsabilidade da introdução do seu fabrico no Alentejo, província onde foram bastante utilizados devido à natureza do terreno. O soldado Mateus Rodrigues (Matheus Roiz) deixou, nas suas memórias, uma descrição detalhada deste equipamento e do seu uso:
(…) [L]evavam os infantes os cavalinhos de pau às costas, cada dois soldados [levavam] um, e em cima deles levavam seus mosquetes, eram de comprimento de dez palmos [cerca de dois metros], com uma cadeia de ferro cada um em uma ponta, com um gancho, e no outro uma argola metida no mesmo pau, e assim como os queriam pôr como trincheira da infantaria, de noite ficavam todos pegados uns nos outros, de modo que não se podiam despegar; e estando postos na forma que digo, ficavam com uns bicos de pau para o ar, na mesma altura de um cavalo, pelos peitos, e em cada ponta dos paus tinha um bico de ferro como o de uma lança, mas maior e mais agudo, e não tinha cada pau mais de os mesmos dez palmos, mas cada cavalinho tinha cinco pontas destas, e por todas as partes que o pusessem ficava da mesma maneira; e assim a infantaria estava de noite tão segura com isto que bem podiam vir 20 mil cavalos, não haviam de romper a infantaria. (MMR, pgs. 106-107)
A descrição de Mateus Rodrigues reporta-se à campanha do forte de Telena (Setembro de 1646, erroneamente datada pelo soldado, nas suas memórias, em 1645). Ainda nessa campanha, o memorialista descreve um combate em que três terços de infantaria, protegidos por cavalinhos de pau, conseguiram suster os ataques de caballos corazas espanhóis junto às margens do Guadiana.
Os cavalinhos de pau eram, portanto, segmentos de madeira com cerca de dois metros de comprimento, os quais comportavam cinco espigões de madeira revestidos de pontas de ferro bem aguçadas, e que se podiam atrelar uns aos outros através de um sistema de corrente com argola numa das extremidades, e gancho na outra. Não existe qualquer gravura coeva dos mesmos, mas em breve colocarei aqui um esboço de reconstituição de um desses segmentos.
Apesar de poderem ser transportados por dois soldados, os cavalinhos de pau não eram de fácil deslocação (note-se que os militares tinham ainda de arcar com o peso dos respectivos mosquetes ou arcabuzes). Por isso, havendo veículos hipomóveis disponíveis, os cavalinhos de pau eram neles transportados, como também descreve Mateus Rodrigues a propósito da campanha de Mourão em 1657, durante a qual 500 carretas puxadas por bois foram destinadas ao transporte daquelas defesas da infantaria.
Imagem: Exemplo de chevaux de frise (reconstituição moderna), maior, mais pesado e com mais espigões que os segmentos de cavalinhos de pau de construção portuguesa, mas destinado ao mesmo fim. Foto retirada deste site: http://www.geocities.com/lakeforts/Fort_Ontario.html
Nota à margem: por motivos profissionais, e também porque estou neste momento a avançar com a redacção de mais uma obra, não me tem sido possível actualizar com a frequência desejada a página da Guerra da Restauração. Quero, no entanto, aproveitar para agradecer de novo a Juan Antonio Caro del Corral e Julián García Blanco a preciosíssima ajuda que me têm dado com o envio de publicações e documentação de arquivos de Espanha, que muito úteis me têm sido para o prosseguimento do meu trabalho. O livro que a pouco e pouco vai tomando forma e que (assim espero) chegará aos escaparates no próximo ano será, também, fruto da colaboração daqueles estimados amigos e investigadores. Bem hajam!

Um dos títulos mais recentes na área da História Militar da Era Moderna é Women, Armies, and Warfare in Early Modern Europe, de John A. Lynn II (New York, Cambridge University Press, 2008 – este autor assinava anteriormente apenas como John A. Lynn). Não é a melhor das obras de Lynn: uma estrutura pouco clara, um texto assente sobretudo em fontes secundárias, uma quase ausência de fontes primárias. No entanto, não deixa de ter algum interesse, pois entra num campo ainda pouco estudado: a relação das mulheres com o meio militar, numa época em que os interditos e a representação de valores eram, em grande parte, desfavoráveis ao sexo feminino, mas que se esbatiam – sem se apagarem totalmente – no seio da comunidade castrense. A mulher como companheira, legítima ou ilegítima, do militar, ganhando a vida com o comércio, incluindo o do próprio corpo, participando, por vezes activamente, nos perigos dos combates ou, no mínimo, nas actividades rotineiras dos exércitos. Em qualquer dos casos, sempre sujeita a cair vítima da violência de campanha, tal como a mulher que não se integrava na comunidade militar, mas que se deparava com a rudeza dos combatentes quando irrompiam pelas suas casas e propriedades para se alojarem ou, pior, com o intuito de pilhar e violar.
No período da Guerra da Restauração não são muito numerosas as referências à presença feminina enquanto acompanhante regular dos exércitos no terreno. A sazonalidade das operações de maior envergadura e, por outro lado, a especificidade das pequenas operações de saque e pilhagem, não davam azo a que a mulher se encontrasse com frequência ao lado dos militares no terreno, ao contrário do que sucedia, por exemplo, com os exércitos da Guerra dos Trinta Anos. Todavia, no que concerne a situações em que a mulher se podia encontrar no teatro de operações, sob os mais variados aspectos, as fontes não são tão escassas. Respigo aqui algumas passagens de dois casos diferentes: a mulher que participa activamente na guerra e a mulher que é vítima acidental das operações militares. Incentivos ao aprofundamento da pesquisa e análise sobre o tema, vertidas, como é habitual neste espaço, para português actual.
1. A mulher combatente (não enquadrada no exército)
Durante o ataque espanhol a Ouguela, em 1644, saiu a esta defensa uma mulher com um chuço, que pelejou nas trincheiras como qualquer soldado animoso; e se afirma que dos castelhanos mortos teve ela sua parte; foi ferida, e querendo-a um soldado retirar, o não consentiu, antes com maior ânimo se embraveceu e continuou a peleja. (ARAÚJO, João Salgado de, Successos Militares das Armas Portuguesas em suas fronteiras depois da Real acclamação contra Castella. Com a geografia das Prouincias, & nobreza dellas, Lisboa, Paulo Craesbeeck, 1644, pg. 225 v)
Há nesta vila [de Olivença] uma moça, criada no campo, chamada Maria; serve a um seu parente lavrador; esta moça, tocando a rebate, sai no campo armada de peito e espaldar e morrião, com clavina [carabina] nas mãos, em um cavalo de seu amo; vai a ele, e sendo na vila acode à trincheira com valor e bizarria.
É esta moça de tantas forças, que um capitão de pouco mais de vinte anos de idade me afirmou, que pegando-lhe ela de uma mão, para se livrar foi necessário querer ela largar-lha. (Aires Varela, Sucessos que ouve nas fronteiras de Elvas, Olivença, Campo Maior e Ouguela, o primeiro anno da Recuperação de Portugal, que começou em 1º de Dezembro de 1640 e fez fim em ultimo de Novembro de 1641, Elvas, Typografia Progresso de António José Torres de Carvalho, 1901, pg. 33)
2. A mulher enquanto vítima das operações militares
Após a tomada da vila de Oliva pelas forças portuguesas, em 10 de Janeiro de 1654, e de acordo com as capitulações acordadas entre sitiantes e sitiados, o soldado Mateus Rodrigues (Matheus Roiz) assistiu ao desfilar dos civis que abandonavam a vila, passando no meio das fileiras de soldados portugueses que ladeavam a estrada. Comoveu o soldado a situação em que muitas mulheres se encontravam: não poderei aqui encarecer as grandes lástimas que neste dia aqui vi, porque além destas mulheres se verem fora de seu natural [ou seja, da sua terra natal] para sempre, com suas fazendas perdidas, fazia tão mau tempo que não se podia bulir com a muita água que chovia, que quando elas começaram assim era logo pela manhã, em 10 de Janeiro, ao Domingo, de 1654, e até noite nunca jamais deixou de chover, que suposto que Jerez de los Caballeros estava dali duas léguas, [que era] para onde esta gente se havia de retirar, muita dela havia de ficar ainda fora (…). Estas mulheres (…) eram entre todas 704, fora meninos, que passavam de 1.000 crianças e as demais delas mui pequenas. E havia mulher que levava duas nos braços e três em o rabo (…) [ou seja, envoltas num xaile às costas], uns gemendo e as mais chorando. Que como iam carregadas de fato à cabeça e levavam muitas delas muitos mantéus e saias vestidas, e como chovia muito, enchia[m]-se-lhe os fatos de água e não podiam bulir, e a tudo isto nós ali parados (…) esperando a água a pé quedo, (…) que ainda que quiséssemos fazer algum bem áquelas mulheres, não podíamos. (…) E trazia o bom velho [o governador de Oliva] consigo diante as suas duas filhas donzelas, que eram bizarras [quer dizer, bonitas]. Mas vinham elas tão enfadadas, que vinham muito cobertas, e não davam lugar a que víssemos bem suas partes, que não era o tempo para elas se deixarem ver. (Manuscrito de Matheus Roiz, pgs. 385-386).
Imagem: “Homem oferecendo moedas a uma mulher”, 1660-1663, por Gerard Terborch, Museu do Louvre. Um militar (de cavalaria), uma jovem mulher, e a expectativa de uma transacção não inocente.

Este oficial de origem galega (cujo nome aparece grafado, muitas vezes, apenas como Domigos da Ponte Galego) serviu nos exércitos da monarquia dual e do Sacro Império Romano-Germânico antes de passar a Portugal em 1641, c0mo súbdito de D. João IV. Na sua carta patente de general da artilharia ad honorem, passada em 21 de Maio de 1663, pode ler-se que era fidalgo da Casa de Bragança, que contava então 22 anos de serviço militar contínuo em prol da Coroa Portuguesa e que participara em acções na Alemanha (antes da Aclamação de D. João IV), no Alentejo e em Trás-os-Montes com o posto de ajudante de cavalaria, capitão e comissário geral. A carta patente fazia saber que Domingos da Ponte era então tenente-general da cavalaria, posto que ocupava desde 1656, e que deveria manter esse posto e a respectiva remuneração (a patente de general de artilharia ad honorem, como indica o termo latino, era uma mera distinção honorífica). Domingos da Ponte governou algumas vezes interinamente as armas de Trás-os-Montes e Entre-Douro-e-Minho, bem como o exército de socorro de Trás-os-Montes à província da Beira, tendo recebido feridas e sido feito prisioneiro em serviço de El-Rei. Quando terminou a Guerra da Restauração, Domingos da Ponte era ainda tenente-general da cavalaria em Trás-os-Montes e general da artilharia ad honorem.
Fonte: ANTT, Conselho de Guerra, Secretaria de Guerra, Lvº 27, fl. 72, carta patente de 21 de Maio de 1663.
Imagem: Cavalaria em acção. Reconstituição histórica do período da Guerra Civil Inglesa, “History Day”, Kelmarsh Hall, 2008.

O mestre de campo general era o segundo na hierarquia entre os quatro principais cabos de guerra de um exército provincial, logo a seguir ao governador das armas. Cabia-lhe, entre outras funções, o comando supremo da infantaria do exército da província. De acordo com o proposto nas Ordenanças Militares de 1643 por D. João IV, as qualidades esperadas de um mestre de campo general eram as seguintes (textos vertidos para português corrente, como é hábito neste blogue de divulgação):
O cargo de mestre de campo general convém que se me consulte, não somente de qualidade virtuosos, afáveis, magnânimos e desinteressados, mas que hajam tido os demais postos de guerra, e procedido em todos com assinalado valor e sagacidade, particularmente teóricos e práticos; e aqueles em cujas pessoas mais destas partes concorrem preferirão, nas consultas para eu aprovar, os que forem mais idóneos (…).
Nos seus comentários à proposta de Ordenanças Militares de 1643, ajudando a clarificar e corrigir todos os pontos necessários, Joane Mendes de Vasconcelos acrescentou:
Deve-se declarar neste título os postos que estão mais próximos à consulta deste cargo de mestre de campo general, ordenando Vossa Majestade que sejam preferidos os maiores; e entre os iguais, aqueles que mais hajam tratado a infantaria [ou seja, com mais experiência no comando da infantaria].
Toca-lhe, ao mestre de campo general, tomarem-lhe as armas [quer dizer, apresentar armas, no modo de expressão seiscentista] assim nas praças de armas como nos esquadrões, e lhe devem entrar de guarda um alferes com trinta soldados, e em campanha no seu quartel, uma companhia sem bandeira, e terão sempre uma companhia de arcabuzeiros a cavalo para guarda de sua pessoa, e as bandeiras e estandartes se lhe devem arvorar.
Também parece que deve fazer nomeações de ajudantes de tenente [de mestre de campo general], preboste geral, tambor geral [ou seja, tambor-mor], capitão de guias, furriel da corte [ou seja, furriel-mor], e aprovar os oficiais de justiça nomeados pelo auditor geral; mas só o general do exército lhes mandará assentar as praças ou passar as patentes que Vossa Majestade não reservar para si.
Note-se que o general (capitão-general) do exército era um cargo supremo que durante a maior parte do tempo da Guerra da Restauração não teve ocupação operacional, pelo que as prerrogativas referidas por Joane Mendes de Vasconcelos a propósito daquele posto passavam para o governador das armas de cada província.
Fonte: “Ordenanças Militares de 1643″, tit. 13º, in AIRES, Cristóvão, Historia Organica e Politica do Exercito Português – Provas, vol. IV, Lisboa, Imprensa Nacional, 1908, pgs. 59-60.
Imagem: Combate de infantaria na batalha do Ameixial, 8 de Junho de 1663. Pormenor de um painel do “Biombo dos Viscondes de Fonte Arcada”, fotografia da secção de Iconografia da Biblioteca Nacional de Lisboa, EA62V.
Motivos profissionais e pessoais forçaram-me a uma pausa mais longa do que o previsto na actualização do blogue. Retomarei a escrita no decurso da semana que amanhã começa.
Agradeço a todos os leitores as visitas que fazem a este espaço. Bem hajam.

1642 – João de Vasconcelos e Sousa, 2º Conde de Castelo Melhor.
1658 - D. António Luís de Meneses, 3º Conde de Cantanhede e 1º Marquês de Marialva.
1668 – D. João de Mascarenhas, 2º Conde da Torre e 1º Marquês de Fronteira.
Imagem: “Eglise et Couvent Royal á Bellem” – Mosteiro dos Jerónimos, água-forte colorida, inícios do séc. XVIII; apesar da disparidade temporal, o aspecto desta parte de Lisboa não diferia muito da que apresentava décadas antes, durante a Guerra da Restauração. Biblioteca Nacional, Iconografia, E979A.

Neste aniversário do primeiro grande recontro da Guerra da Restauração, remeto para o que escrevi há um ano. Apreciem, entretanto, a magnífica ilustração apresentada em La memoria ausente. Cartografia de España y Portugal en el Archivo Militar de Estocolmo. Siglos XVII y XVIII. O rigor da disposição das tropas pode ser questionável, mas trata-se, acima de tudo, de um extraordinário exemplar de representação de batalha.

1640-1641 – D. Afonso de Portugal, 5º Conde de Vimioso.
1641 – Matias de Albuquerque.
1641-1643 – Martim Afonso de Melo.
1643 – Joane Mendes de Vasconcelos; D. Vasco de Mascarenhas, Conde de Óbidos; Matias de Albuquerque; Francisco de Melo (general da cavalaria, governador interino).
1643-1645 – Matias de Albuquerque (desde 1644, 1º Conde de Alegrete).
1645 - Joane Mendes de Vasconcelos (interino).
1645-1646 – Martim Afonso de Melo.
1646 - João de Vasconcelos e Sousa (2º Conde de Castelo Melhor); Matias de Albuquerque, 1º Conde de Alegrete.
1646-1647 – Joane Mendes de Vasconcelos.
1647 - André de Albuquerque Ribafria (interino).
1647-1650 – Martim Afonso de Melo, 1º Conde de São Lourenço.
1650-1654 – D. João da Costa, 1º Conde de Soure.
1654-1655 – André de Albuquerque Ribafria (general da cavalaria, interino).
1655-1656 - Francisco de Melo, 1º Conde da Ponte.
1656-1657 – D. João da Costa, 1º Conde de Soure.
1657 – André de Albuquerque Ribafria (general da cavalaria, interino).
1657-1658 – Martim Afonso de Melo, 1º Conde de São Lourenço.
1658 – Joane Mendes de Vasconcelos; André de Albuquerque Ribafria (general da cavalaria, interino).
1658-1659 – D. António Luís de Menezes, 3º Conde de Cantanhede.
1659-1662 – D. Jerónimo de Ataíde, 6º Conde de Atouguia.
1662 – Frederick Schomberg, Conde de Schomberg; D. António Luís de Meneses, 1º Marquês de Marialva.
1663-1664 – D. Sancho Manuel de Vilhena, Conde de Vila Flor.
1664-1665 – D. António Luís de Menezes, 3º Conde de Cantanhede.
1665-1667 – Frederick Schomberg, Conde de Schomberg.
1667-1668 – Dinis de Melo de Castro (mais tarde, Conde de Galveias).
Imagem: Planta das fortificações de Elvas, de autor espanhol, in La memoria ausente. Cartografia de España y Portugal en el Archivo Militar de Estocolmo. Siglos XVII y XVIII.

Dando sequência à série sobre os postos do exército português (já passaram três meses desde que foi publicado o último artigo), cabe hoje a vez do tenente de mestre de campo general. Como o nome indica, era o auxiliar do comandante supremo da infantaria de uma província ou de um exército provincial, e tinha, por sua vez, um ou mais ajudantes. Nos comentários às Ordenanças Militares de 1643, Joane Mendes de Vasconcelos refere-se a este posto nos seguintes termos:
Os tenentes de mestre de campo general se devem consultar sempre de sargentos mores, capitães de cavalos ou tenentes de general da artilharia, e nunca de capitães de infantaria, por não ficarem iguais com seus ajudantes, que de capitães sobem a este posto.
As funções do tenente de mestre de campo general eram exercitar e distribuir todas as ordens recebidas do mestre de campo general e fazer o reconhecimento, no terreno, dos postos que o exército deveria ocupar.
Fonte: “Ordenanças Militares de 1643″, tit. 14º, in AIRES, Cristóvão, Historia Organica e Politica do Exercito Português – Provas, vol. IV, Lisboa, Imprensa Nacional, 1908, pgs. 60-61.
Imagem: Pormenor do painel de azulejos representando a Batalha das Linhas de Elvas, 14 de Janeiro de 1659. “Sala das Batalhas”, Palácio dos Marqueses de Fronteira.

A província da Beira foi dividida em dois partidos (distritos militares) em 1647, dando seguimento às petições dos povos nas Cortes de 1645-1646. Cada um passou a ter o seu próprio governador das armas. A vila de Alfaiates foi tomada como referência para a divisão. O partido setentrional era denominado como partido de Riba Coa ou Almeida e compreendia as comarcas da Guarda, Pinhel, Lamego, Esgueira e a praça de Sabugal (por motivos práticos, apesar de esta pertencer à comarca de Castelo Branco). O partido meridional era designado por partido de Penamacor ou Castelo Branco e compreendia as comarcas de Castelo Branco, Viseu e Coimbra.
1641 – D. Álvaro de Abranches da Câmara.
1641-1642 – João de Saldanha de Sousa (tenente-general da cavalaria, interino).*
1642-1643 – Fernão Teles de Meneses.
1643-1645 – D. Álvaro de Abranches da Câmara.
1645-1647 – D. Francisco de Mascarenhas, Conde de Serém.
Partidos
Riba Coa ou Almeida
1647-1656 – D. Rodrigo de Castro (mais tarde, 1º Conde de Mesquitela).
1656 – João de Melo Feio (interino).
1656-1658 – D. Rodrigo de Castro (mais tarde, 1º Conde de Mesquitela) – comando único dos dois partidos.
1658-1659 – D. Sancho Manuel de Vilhena (mais tarde, Conde de Vila Flor) – comando único dos dois partidos.
1659-1660 – D. João Forjaz Pereira, 1º Conde da Feira.
1660-1662 – Manuel Freire de Andrade, tenente-general da cavalaria.
1662 – João de Melo Feio.
1662-1663 - D. Sancho Manuel de Vilhena, Conde de Vila Flor – comando único dos dois partidos.
1663-1668 – Pedro Jacques de Magalhães (mais tarde, 1º Visconde de Fonte Arcada).
Penamacor ou Castelo Branco
1647-1654 – D. Sancho Manuel de Vilhena (mais tarde, Conde de Vila Flor).
1654-1656 – D. Nuno da Cunha de Ataíde (tenente-general da cavalaria).
1656-1658 – D. Rodrigo de Castro (mais tarde, 1º Conde de Mesquitela) – comando único dos dois partidos.
1658-1659 – D. Sancho Manuel de Vilhena (mais tarde, Conde de Vila Flor) – comando único dos dois partidos.
1659-1661 – D. Sancho Manuel de Vilhena (mais tarde, Conde de Vila Flor).
1661 – João de Melo Feio.
1662-1663 - D. Sancho Manuel de Vilhena, Conde de Vila Flor – comando único dos dois partidos.
1663-1668 – Afonso Furtado de Mendonça (mais tarde, 1º Visconde de Barbacena).
* “Foi João de Saldanha o primeiro que na Província da Beira introduziu a cravina e pistola, mandou nela lavrar muitas, onde costumam ser as melhores, especialmente as de Viseu.” (João Salgado de Araújo, Successos Militares das Armas Portuguesas em suas fronteiras depois da Real acclamação contra Castella. Com a geografia das Prouincias, & nobreza dellas, Lisboa, Paulo Craesbeeck, 1644, pg. 121 v).
Imagem: Infantaria portuguesa; pormenor do painel referente à batalha de Montijo, “Biombo dos Viscondes de Fonte Arcada”, in Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa.

Já tinham sido referidas num artigo sobre os tipos de munição de artilharia e sua eficácia. Fica aqui o registo fotográfico desta munição, utilizada no mar para destruir o velame dos navios inimigos, e em terra para causar danos terríveis nas formações de batalha – na cavalaria principalmente, mas também na infantaria.
Imagem: Balas de cadeia ou grilhão. Exposição “Piratas, os Ladrões do Mar”, Forte do Bom Sucesso, Belém. Foto de Jorge P. de Freitas.

1641 - Martim Velho de Fonseca (sargento-mor de Viana, enviado pelo governador das armas de Entre-Douro-e-Minho, D. Gastão Coutinho).
1641-1643 – Rodrigo de Figueiredo de Alarcão.
1643-1646 – D. João de Sousa Silveira.
1646-1647 – Rodrigo de Figueiredo de Alarcão.
1647-1648 – Francisco de Sampaio (interino).
1648-1649 - Rodrigo de Figueiredo de Alarcão.
1649-1652 – D. Jerónimo de Ataíde (6º Conde de Atouguia).
1652 – António Jacques de Paiva (mestre de campo, interino).
1652-1657 – Joane Mendes de Vasconcelos.
1657-1658 – António Jacques de Paiva (mestre de campo, interino).
1658-1660 – D. Rodrigo de Castro, 1º Conde de Mesquitela.
1660-1668 – D. Luís Álvares de Távora, Conde de São João da Pesqueira. Neste período houve dois governadores interinos, ambos devido a ausência temporária do Conde de São João: 1662 – Domingos da Ponte, o Galego, tenente-general da cavalaria; 1664 – Diogo de Brito Coutinho, mestre de campo general).
Imagem: D. Jerónimo de Ataíde, 6º Conde de Atouguia; Biblioteca Nacional de Lisboa, Iconografia, E4508P.

1641 – D. Gastão Coutinho.
1641-1643 – Junta de três governadores: Manuel Telo, Diogo de Melo Pereira e Gustave Pierre Viole d’Athis (francês, mestre de campo).
1643-1645 – João de Vasconcelos e Sousa, 2º Conde de Castelo Melhor.
1645-1646 – Diogo de Melo Pereira (interino).
1646 – Francisco de França Barbosa (interino).
1646-1649 – João de Vasconcelos e Sousa, 2º Conde de Castelo Melhor.
1649-1650 – D. Francisco de Azevedo. (*)
1650-1655 – D. Diogo de Lima, Visconde de Vila Nova de Cerveira.
1655-1657 – D. Álvaro de Abranches da Câmara.
1657-1658 – D. Diogo de Lima, Visconde de Vila Nova de Cerveira (interino).
1658 – D. Nuno da Cunha de Ataíde, general da artilharia (interino).
1658-1660 – D. Diogo de Lima, Visconde de Vila Nova de Cerveira.
1660- após 1668 – D. Francisco de Sousa, 3º Conde do Prado e 1º Marquês das Minas.
(*) Sobrinho de D. João de Azevedo e Ataíde, que tem sido referido ao longo de vários artigos, como, por exemplo, a série respeitante à Atalaia da Terrinha.
Imagem: “Escaramuça de cavalaria”, Abraham Calraet, séc. XVII.

No seu magnífico blogue Puertas de Badajoz, o estimado amigo Sr. Julián García Blanco publicou um interessantíssimo artigo sobre os sargentos traidores e o local onde essa traição deveria ter sido consumada em 1652. Devido aos afazeres profissionais que me mantiveram algum tempo ausente da blogosfera, não me tinha ainda sido possível consultar o excelente artigo. Aqui fica a reparação deste atraso, dando o devido destaque a um blogue cuja leitura, no seu todo, é imprescindível para quem gosta de História. Para mim, claro, é uma enorme satisfação poder ficar a conhecer mais sobre o episódio que foi aqui focado numa série de seis artigos.
Imagem: “Corographía y descripción del territorio de la Plaza de Badajoz y fronteras del Reyno de Portugal confinantes a ella” (1658), de Bernabé de Gaynza, in La Memoria Ausente. Agradecimentos a Carlos Sanchéz e à Editora 4 Gatos.

Motivos de natureza profissional obstaram a que desse uma continuidade célere ao episódio aflorado no anterior artigo. Retomemos a trama agora, enquadrando o relatório na operação militar onde se registaram as baixas reportadas.
O Duque de Osuna, Gaspar Téllez-Girón y Sandoval, ordenara a construção de um forte perto de Aldea del Obispo – fortificação que actualmente é referida como Forte de la Concepción, mas que não é nomeada nas fontes consultadas. O local poderia servir de base de operações contra as povoações da raia beirã – Vale da Mula era a mais exposta pela sua proximidade, conforme se pode ver na imagem. Para obstar à conclusão do forte, saiu de Almeida o governador interino daquele partido, Afonso Furtado de Mendonça, à frente de uma força de 6.000 infantes e 1.000 cavalos (Pedro Jacques de Magalhães, o governador em título, encontrava-se doente). O Duque de Osuna estava aquartelado junto de Aldea del Obispo e tinha sob o seu comando um exército de 7.000 infantes e mais de 2.000 cavalos. A infantaria portuguesa, na sua maior parte, era composta por milícias de auxiliares e da ordenança de ambos os partidos da Beira, enquanto a cavalaria contava com efectivos da Beira e com forças de socorro do Alentejo e de Trás-os-Montes (o contingente que vem referido no relatório).
Segundo o Conde de Ericeira, Afonso Furtado (…) tomou quartel pouco distante do inimigo, que não lhe pleitearam ganhar o posto que pretendiam. Estébanez Calderón, autor do século XIX, refere que Osuna había fortificado sus reales [ou seja, o seu campo] en un lugar ventajoso, teniendo a sus espaldas el baluarte, y enfrente de él, a distancia de un tiro de artilleria, se miraba asentado el campo de los enemigos. Afonso Furtado de Mendonça fez escavar uma trincheira, mas os seus intentos de atacar e destruir o forte desvaneceram-se ao constatar que este tinha já quatro baluartes levantados, e que era complementado por fosso, estrada coberta e estacada. Com a fraca qualidade da infantaria que possuía, não tinha a mínima hipótese de sucesso. Decidiu, por isso, mudar de estratégia e passou a enviar tropas de cavalaria a talar os campos do inimigo. Mas nem este propósito foi bem sucedido, pelo que determinou marchar sobre Ciudad Rodrigo e queimar os seus arrabaldes, de forma a atrair o Duque de Osuna para longe do forte e pelejar com ele em campanha rasa.
Para concretizar o objectivo, teria de pedir mais mantimentos a Almeida, a fim de sustentar o exército vários dias em terra inimiga. Enviou então um comboio (conjunto de carros, carroças e animais de carga) àquela praça, mas descurou a sua protecção. Avisado do facto, o Duque de Osuna resolveu interceptar e desbaratar o comboio. Compôs toda a sua cavalaria e fez marchar, na retaguarda desta força montada, um terço de infantaria – um reforço que havia enviado D. Juan de Áustria. D. Martinho da Ribeira, que comandava a segunda linha de cavalaria do lado direito do dispositivo português, puxou pela gente de cavalos, a fim de socorrer o comboio, e desfilada, a fez passar o ribeiro de Vale da Mula; e depois de subir por serras e tapadas que embaraçavam o terreno, achou aos inimigos formados, que o vieram buscar. O Duque de Osuna, con estas tropas, compartidas en tres escuadrones (…) acometió al punto al enemigo. Como los nuestros eran superiores en número, a la primera y repentina carga desbarataron a los portugueses; pero éstos, viendo que no podían sostener con sus contrarios un combate igual, no trataron de rehacerse, sino, derramados como estaban, se defendían escaramuzando. Notando o perigo em que se encontrava a sua cavalaria, Afonso Furtado de Mendonça enviou um reforço de infantaria e mais cavalaria. Domingos da Ponte, o Galego, e Gomes Freire de Andrade, tenentes-generais, saíram a toda a pressa para se acharem na ocasião; e formando seis batalhões, dos que começavam a retirar-se, fizeram rosto aos castelhanos com ardor mais precipitado do que pedia a sua vantagem. Eram dezassete os batalhões, de que Domingos da Ponte fez duas linhas. Constava a vanguarda de nove, e de oito a reserva, e sem interpor a menor dilação, atacou furiosamente a vanguarda dos castelhanos com a nossa, que rompeu com grande facilidade. Julgaram-se os portugueses definitivamente vitoriosos, e seguros de su victoria, habían deshecho su formación, para entregarse al despojo y alcance de los fugitivos, sin tener en cuenta que quedaba en pie un escuadrón de castellanos, que era más fuerte todavía, por componerse de gente veterana. Esta reserva do inimigo, num vigoroso contra-ataque, desbaratou a vanguarda portuguesa. Pretendeu Domingos da Ponte reorganizá-la, passando pelos claros da segunda linha de cavalaria, só que… esta já não estava no seu posto, tendo fugido antes sequer de disparar um tiro ou trocar espadeiradas. Vendo esta situação, Afonso Furtado de Mendonça fez sair do quartel dois terços de infantaria e várias mangas soltas de arcabuzeiros e mosqueteiros, e foi atrás desta formação que a cavalaria finalmente se reorganizou e repeliu os perseguidores. O Duque de Osuna, por seu lado, ao verificar que Furtado de Mendonça desguarnecera o seu campo, tentou tomá-lo, mas ainda restavam para sua defesa três terços da Ordenança e duas companhias de cavalos, sob o comando do tenente-general da artilharia Diogo Gomes de Figueiredo, o qual resistiu bravamente. Quando o Duque de Osuna viu aproximar-se Afonso Furtado de Mendonça com as suas forças, optou por se recolher ao seu forte. Também Furtado de Mendonça não demoraria muito tempo a retirar, desistindo da sua pretensão. Em conselho com os seus oficiais, chegara à conclusão que seria impossível conquistar ou destruir o forte, optando então por se recolher de novo a Almeida.
Foi deste modo que se registaram as baixas entre as seis companhias enviadas de Trás-os-Montes e comandado pelo general de artilharia ad honorem (e tenente-general da cavalaria) Domingos da Ponte, o Galego. Uma operação típica da guerra de fronteira, bem violenta na refrega mas sem resultados estratégicos de importância. Ainda assim, em termos tácticos o Duque de Osuna pôde tirar partido da manutenção do forte, pois dele fez base de operações através da qual conseguiu destruir a ponte de Ribacoa, que facilitava a comunicação com Almeida.
Fontes:
ERICEIRA, Conde de, História de Portugal Restaurado, edição on-line (facsimile da edição de 1759), Parte II, Livro IX, pgs. 247-250 (a verde nas citações).
CAMPOS, Jorge (estudio preliminar y edición), Biblioteca de Autores Españoles, Obras Completas de Don Serafín Estébanez Calderón, Madrid, Ediciones Atlas, 1955, pgs. 114-115 (a azul nas citações).
Imagem: A zona de combate na actualidade. Fotografia aérea extraída do programa Google Earth. É visível, ao centro, o forte de la Concepción, que esteve na origem do combate. Para nascente fica Aldea del Obispo, e para poente, Vale da Mula. A linha amarela marca a fronteira.
Rescaldo de uma operação militar – as baixas detalhadas de uma força de cavalaria no combate de 2 de Janeiro de 1664

Não é muito frequente encontrar documentos que refiram as baixas detalhadas sofridas por uma força militar. Quando escrevo detalhadas, quero dizer: incluindo todos os pormenores, desde o nome de cada militar até ao número exacto de cavalos feridos e mortos. Habitualmente, as relações impressas limitavam-se a enumerar os mortos, feridos e capturados e a destacar os elementos mais importantes da hierarquia militar, membros da nobreza e outros oficiais que caíam em alguma daquelas circunstâncias. Era tudo o que o público curioso das novidades da guerra necessitava saber.
Por este motivo, o relatório que foi enviado ao Conselho de Guerra, em anexo a uma carta do Conde de São João da Pesqueira, governador das armas da província de Trás-os-Montes, é um documento pouco vulgar. Não que fosse necessariamente raro na época, pelo menos no seio de um exército provincial, a circulação de informação deste teor. Contudo, já não era tão frequente que transcendesse e esfera interna de uma província para subir até ao Conselho de Guerra – daí os poucos casos de sobrevivência de documentos com este grau de detalhe. No caso que irei apresentar, a lista de baixas terá servido de argumento para justificar o pedido urgente de reforços para a província de Trás-os-Montes, e por isso foi anexada à carta do governador das armas.
Na carta, o Conde de São João lamenta a falta de cavalaria na província de Trás-os-Montes, devido ao trabalho que tiveram na campanha do Minho e na ocasião do recontro da Beira; solicitava que fosse ordenado a Pedro César de Meneses, general da cavalaria de Entre-Douro-e-Minho, que levantasse gente para formar as tropas; solicitava o envio de dinheiro para que ele, Conde de São João, pudesse comprar 100 cavalos, ainda que em Aveiro ou Coimbra, sem embargo de estar proibido. E pedia, por fim, que o Rei o autorizasse a fazer recolher a a cavalaria de Trás-os-Montes aos seus quartéis (de Inverno).
Em anexo, envia a lista das baixas sofridas na ocasião do socorro à Beira, onde morreu o capitão de couraças João Correia Carneiro, que servia há 23 anos, no decurso dos quais foi ferido inúmeras vezes e mereceu contínuos louvores. Tinha recebido 60.000 réis de tença e o hábito de Cristo. Sobreviveram-lhe duas irmãs, sua mãe e seu pai, com poucos recursos financeiros, pelo que o Conde pedia que o Rei lhes fizesse ainda mais do que esta mercê, “porque com a honra que se faz aos mortos, se premeiam também os vivos” [excerto da carta do Conde de São João de 10 de Janeiro de 1664].
O Conselho de Guerra emitiu parecer favorável a que se remetesse o máximo de dinheiro possível para que se refizesse a cavalaria, apontando apenas o reparo de se fazer a remonta em Aveiro e Coimbra, pois era de crer que esta mesma falta de cavalos se acharia para as tropas da província da Beira, e que a cavalaria se devia remediar com cavalos de ambas as províncias, Trás-os-Montes e Beira. Acrescentou o Conselho de Guerra que não se devia mandar recolher a cavalaria de Trás-os-Montes aos quartéis sem primeiro escutar os governadores das armas da Beira e de Entre-Douro-e-Minho.
O documento, vertido para português corrente, é apresentado aqui. No próximo artigo será contextualizado, isto é, será feita a descrição do combate onde foram sofridas as baixas que a relação pormenoriza.
Lista dos soldados que morreram em a ocasião de dois de Janeiro e dos feridos, cavalos mortos e cavalos feridos
4 soldados mortos da companhia do General da Artilharia [Domingos da Ponte, o Galego]: Luís Furtado, Francisco Correia, João Carvalho e João Esteves.
6 soldados feridos: os cabos de esquadra João Rodrigues, António Carneiro e Domingos Fernandes Serra, e os soldados Luís Machado, Manuel Ribeiro e António Vaz.
9 cavalos mortos e perdidos: os de João Rodrigues, João Carneiro, Luís Machado, Luís Furtado, Domingos Fernandes Arnelhe, Francisco Correia, João Esteves, António Vaz e Tomé Gonçalves.
2 cavalos feridos: os do tenente e de Domingos Fernandes Jorna.
8 soldados mortos da companhia de João Correia Carneiro: o capitão, Domingos Gonçalves Brilho, António Jorge, Domingos Fernandes, Fernão da Guerra, João Malheiro, Domingos João, Gabriel de Oliveira.
12 soldados feridos: Pedro Gonçalves Brandim, António Rodrigues da Rosa, Francisco Caramona, Marcos Rodrigues, João Carrilho, Domingos Pires Machado, Domingos de Melo, Inácio Caramona, Luís de Castro, João Baía, Augusto Mendes, Matias Rodrigues.
8 cavalos mortos: os de João Carrilho, João Malheiro, Domingos Fernandes, Matias Rodrigues, Pedro Gonçalves Brandim, Gabriel de Oliveira, Domingos João, Francisco Caramona.
6 cavalos feridos: os de António Moniz, Manuel Vaz, António Jorge, o do alferes, Baltasar Lopes, e o cavalo das marchas do capitão.
3 soldados mortos da companhia de João Cardoso Pissarro: Domingos Fernandes, o cabo de esquadra Sebastião Pereira, Amaro de Melo.
4 soldados feridos: o capitão vendado [é assim designado porque ficou cego em resultado dos ferimentos], Francisco Sarmento, Domingos Vaz, Domingos de Barros.
7 cavalos mortos: o do capitão vendado, o do cabo Sebastião Pereira, o de Amaro de Melo, Domingos Fernandes, Francisco Sarmento, Domingos Vaz, Gaspar Gonçalves.
3 cavalos feridos: os de Manuel de Almeida, Pedro Moreno e Francisco da Pasta.
6 soldados mortos da companhia de João Pinto Cardoso: Gonçalo Afonso, João Gonçalves, o ferrador, Domingos Fernandes, Francisco de Castro, João Alvarez.
10 soldados feridos: o cabo de esquadra António de Mesquita, Pascoal de Queiroga, Marcos Luís, Inácio de Gouveia, António de Mesquita Fonte Longa, Serafino de Castro, Luís de Sá, Belchior Gonçalves, o trombeta, e António Guedes (prisioneiro).
14 cavalos mortos: de António Guedes, Gonçalo Afonso, Domingos Fernandes, João Alvarez, Francisco de Castro, Gregório de Morais, João Moniz Roalde, Gaspar de Quiroga, Marcos Luís, João Gonçalves, Inácio de Gouveia, Gonçalo de Magalhães, Fernão Pereira, Serafino de Castro.
Esta companhia não tem cavalos feridos.
9 soldados mortos da companhia do capitão Baltasar Freire: Domingos Lopes, Baltasar Machado, o cabo de esquadra Manuel Carvalho, Pedro Francisco, Gonçalo Pereira, Filipe João, António Gonçalves Chaves, António Gonçalves Infante, Rui de Niza.
6 soldados feridos: António Moniz França, Gonçalo Lobo, Domingos Correia, Jerónimo da Mesquita, Bartolomeu Moreira, Santiago Ferreira.
11 cavalos mortos: de Domingos Lopes, Baltasar Machado, Manuel Carvalho, Pedro Lourenço, Filipe João, António Gonçalves Chaves, António Gonçalves Infante, António Moniz França, Domingos Correia, Bartolomeu Moreira, Gonçalo Pereira.
4 cavalos feridos: o de Rui de Niza, Francisco Rodrigues Tronco, Silvestre Teixeira, Santiago Ferreira.
4 soldados mortos da companhia de Fernão Pinto da Mesquita: o furriel Domingos Cabral, Luís do Rego, João da Costa, Duarte Ferreira.
7 soldados feridos: o alferes Arnelgito, António Navais, João Gomes, o tenente Manuel Pereira, António Pegãos, Pedro Gonçalves, João Godinho.
12 cavalos mortos: os do tenente, do alferes, do furriel, de João Cabral, Luís do Rego, Duarte Pereira, Francisco Alvarez, João da Costa, Filipe Gonçalves, Diogo Pimentel, Pedro Moniz, Manuel Navais.
3 cavalos feridos: o de António Borges, Diogo Gomes e Mateus Rodrigues.
Cavalos mortos: 61
Cavalos feridos: 18
Soldados mortos: 34
Soldados feridos: 45
Fonte: Lista dos Soldadoz q morrerão em a occazião de dous de janeiro e dos feridoz cauallos mortoz e Cauallos feridoz [lista enviada por Domingos da Ponte Galego, tenente-general da cavalaria e general da artilharia ad honorem], anexa à carta do Conde de São de João de 10 de Janeiro de 1664, por sua vez anexa à consulta de 20 de Janeiro; ANTT, CG, Consultas, maço 24, caixa 88.
Imagem: “Combate de cavalaria”, Sebastian Vrancx.

Nas anotações de D. João de Mascarenhas à obra de Galeazzo Gualdo Priorato (veja-se a indicação completa aqui), é referido o modo como se deve dispor o campo da cavalaria quando o exército se encontra em campanha, bem como a disposição táctica que a cavalaria deve assumir quando forma em batalha. Saliente-se que, nesta obra, D. João de Mascarenhas designa por quartel o campo militar composto por tendas para os homens e abrigos (quando possível) para os cavalos – ou seja, o acampamento provisório e não o edifício destinado a albergar, de forma permanente, bestas e homens. A transcrição que se segue, feita a partir do manuscrito existente na secção de Reservados da Biblioteca Nacional de Lisboa, foi vertida para português actual, para facilitar a sua compreensão.
Temos mostrado o que se deve fazer quando a eleição do quartel toca ao mestre de campo general, agora diremos como deve ser quando seja eleição do general da cavalaria, em caso que o mandem com toda ela, ou em caso que deva ir sem que o mandem. Deve o general primeiro que tudo fazer consideração que praças dos inimigos tem para aquela parte, donde deve aquartelar-se conforme as que houver, deve eleger o quartel, ou seja para uma noite, ou para mais, e feita esta diligência e resoluta a parte, deve mandar o comissário com a sua companhia, e com ele o furriel-mor e seus ajudantes, os furriéis de todas as companhias e um soldado de cada uma dos furriéis. Este quartel reconhecerá o comissário geral tanto por dentro como por fora, e por fora repararâ em todos os caminhos que possam vir a ele, e em todas as avenidas, e nestas e nos caminhos, elegerá os postos para as guardas, nos quais ficará logo um soldado dos seus em cada um dos postos, até que chegue a cavalaria, e que se não entregar das guardas as companhias a quem tocarem, deve o comissário ter feito eleição da praça de armas e dito aos furriéis qual é, para que eles digam aos seus capitães, porque em caso que se toque arma, saibam aonde devem acudir. Esta é a forma que deve ter a cavalaria quando se aquartela de per si, e junto aos inimigos. Também será a mesma, servindo-se neste caso de mais guardas e mais patrulhas, estas bem avançadas, e se o quartel for muito perigoso, da meia-noite por diante, montará a cavalaria, e se irá meter na praça de armas.
Convém agora dizermos que coisa é praça de armas, e como se deve eleger. Com todos os quartéis de cavalaria se deve escolher um posto, que não é outra coisa que um tal lugar, destinado a juntar-se nele toda a cavalaria em um corpo, para melhor resistir [a] qualquer invasão. Deve advertir-se que se houver mais quartéis que um (como muitas vezes acontece), que esta praça de armas se deve eleger em distância que seja fácil virem a ela com brevidade de todos os quartéis, e há-de ser ela de modo escolhida, e em sitio tão proporcionado, que vindo os inimigos, se não possam senhorear dela, e deve haver para boa seguridade e melhor doutrina, duas praças de armas, uma para de dia, outra para de noite, as de dia devem sempre ser na vanguarda do quartel, com a cara para os inimigos, as de noite à mão direita ou esquerda dele, no lugar mais forte e mais desembaraçado. Estas praças de armas devem ter capacidade tal que baste para formar toda a cavalaria que houver, com os mesmos claros e distâncias que se requerem quando se forma em batalha, que são de cinquenta passos entre tropa e tropa, e de linha a linha oitenta, porque não sendo assim, e sendo estreitas, se sucedesse ocasião, tudo se confundiria. E nunca se devem pôr quatro tropas juntas sem lhe dar a sua medida, quanto mais toda a cavalaria. Aqui se vêem reduzidas a breves regras as obrigações de saber aquartelar a cavalaria junta com o exército ou separada dele (…). (Maneio da Cavallaria (…), págs. 48-49 do manuscrito. )
Sobre os claros e outros termos respeitantes à cavalaria, veja-se aqui e aqui.
Imagem: “Cena de acampamento militar”, período da Guerra dos Trinta Anos (1618-1648), Sebastian Vrancx.

A versão final do contrato é, por fim, acordada em meados de 1647. O termo de aceitação pelos capitães é aqui transcrito e vertido para português actual:
Termo de aceitação dos capitães de cavalos
Os capitães de cavalos, conformando-se com o que Sua Majestade ordena, aceitam a obrigação de se entregarem das companhias armadas de cem cavalos, inclusas as primeiras planas, armadas as [companhias de] Couraças com todas as armas, e duas pistolas, e os Arcabuzeiros com peito, e espaldar, e murrião, clavina [ou seja, carabina], e duas pistolas, e as sustentarão sempre desta maneira e forma com o mesmo número de cavalos e armas, e assim os entregarão quando deixarem as companhias, e havendo entre os cavalos algum que não seja do serviço [quer dizer, esteja incapaz] comprarão outro em seu lugar, da sorte que a companhia esteja sempre completa com o número de cavalos efectivos, com as condições que Sua Majestade há sido servido que são as seguintes.
1ª
Que S. Majestade lhe dará duzentos mil réis em cada um ano, pagos em quartéis [ou seja, em fracções de 50.000 rs], e o dinheiro da contribuição da arca todos os meses, ainda que se não paguem ao Exército, e neste caso o dinheiro da arca que tiverem vencido até o tempo do quartel, se lhes pagará com ela ao mesmo tempo, alargando as companhias estando elas completas na forma acima, e havendo vencido o quartel o levantarão, e o dinheiro da arca até aquele tempo em que os largarem.
2ª
Que quando os capitães se não ajustarem nos preços com os vendedores dos cavalos, se avaliem recebendo para esta avaliação ordem do Governador das Armas.
3ª
Que os cavalos que vierem vendidos de Castela se darão às companhias alternativamente pelo preço em que se avaliarem e querendo-os S. Majestade pagá-los por mais do que valem, como se faz, será por conta de sua fazenda. E os que se tomarem na guerra do mesmo modo se não possam vender, sendo para as mesmas companhias.
4ª
Que os cavalos que levar ou matar o inimigo em serviço de S. Majestade, o dito Senhor os reporá na companhia assim, e da maneira que foram levados.
5ª
Que os cavalos não serão marcados nem desorelhados do dia do assento em diante, para os capitães os poderem trocar ou vender quando lhes convenha, mas serão numerados, para que pelos números constar que são da companhia, e se lhes tomar mostra.
6ª
Que os capitães comprarão os cavallos que lhes faltarem dentro de dez dias, e não os achando, e constando ao Senhor Governador das Armas que não fica por sua parte, lhes prorrogará o tempo que lhes parecer, conforme a falta ou abundância que houver deles.
7ª
Que fugindo algum soldado para dentro do Reino ou para outras fronteiras, os capitães avisarão ao Senhor Governador das Armas, dando-lhe os nomes, confrontações, lugares donde são naturais os ditos soldados, para que passe ordens aos ministros de justiça para se reconduzirem à custa dos delinquentes, mas que nem por isso se alterará a obrigação dos capitães terem sempre as suas companhias completas, dando-se-lhe tempo conveniente para reconduzir os feridos.
8ª
Que faltando soldados aos capitães, S. Majestade mandará fazer levas, ou dá-los da Infantaria, como mais houver por seu serviço.
Que S. Majestade mandará que nos quartéis da cavalaria se façam estrebarias e manjedouras que forem necessárias, em partes donde os soldados fiquem alojados junto dos seus cavalos, ou se concertem por conta dos patrões. Que o trabalho da cavalaria se repartirá de maneira que todos venham a trabalhar igualmente, rendendo-se umas às outras companhias.
[Termina o documento com as assinaturas de doze oficiais de cavalaria: capitães, tenentes e alferes, estes últimos em nome dos capitães das suas companhias]
Na sua forma final, o Contrato obrigava à formação das companhias a 100 cavalos, um número que rapidamente irá ser alterado para 80, 70 e 60, para ser mais tarde fixado oficialmente em 65 – mas a média dos efectivos reais ficar-se-ia, com maior frequência, entre os 40 e os 50 cavalos. Note-se que a pretensão dos capitães ao quinto das presas desapareceu da versão final do documento. Na última frase do documento está expressa a vontade – porventura da maioria, mas não de todos os capitães – de que todas as companhias fizessem o mesmo tipo de serviço. Por tradição, as companhias de couraças estavam dispensadas das rondas e das escoltas a comboios. No entanto, ordens régias estenderam às companhias de couraças o mesmo tipo de serviços que estavam destinados às companhias de cavalos arcabuzeiros.
Fonte: Cód. 10619, secção de Reservados da BNL, fls. 137-138 v.
Imagem: “Cavalaria atacando um comboio de carros e carroças”, período da Guerra dos Trinta Anos (1618-1648), Sebastian Vrancx.

A resposta de D. João IV à proposta dos capitães de cavalos do Alentejo surgiu sob a forma de uma carta enviada ao governador das armas daquela província, Martim Afonso de Melo:
Martim Afonso de Melo, amigo, Eu El-Rei vos envio muito saudar. Avisando-se ao Mestre de Campo General Joane Mendes de Vasconcelos da resolução que eu fui servido tomar em razão do concerto que se há-de fazer com os capitães de cavalos, em ordem a se melhorar a cavalaria, respondeu, que o negócio se andava ajustando, e de próximo se enviou um papel feito em nome dos capitães de cavalos, e assinado por D. João de Ataíde, comissário geral da cavalaria desse exército, cuja cópia se vos enviará com esta carta, e havendo nós considerado tudo o que ele contém, fui servido resolver em quanto à 1ª condição, que as companhias se formem de cem cavalos; à 2ª, que quando os capitães se não ajustarem com os vendedores dos cavalos nos preços, se avaliem recebendo para esta avaliação ordem do Governador das Armas. À 3ª, que quando a necessidade obrigue a mandar vir cavalos de fora para por minha parte dar cumprimento a este concerto, se fará, mas não convém cortar-se o preço, e que os capitães os devem tomar pelo que custarem. À 4ª, hei por bem conceder-lhes o que nela pedem, excepto nos fugidos. E à 5ª, que o Governador das Armas dará todas as ordens necessárias para reconduzir os soldados que se ausentarem na forma desta condição, mas que nem por isso se alterará a obrigação de os capitães terem sempre as suas companhias completas. À 6ª, que em quanto ao que pedem que dentro dos quartéis da cavalaria se façam estrebarias, e manjedouras, e se concertarão por conta dos patrões, ou de minha fazenda, que nisto dará o Governador das Armas as ordens que for possível. À 7ª, hei por bem de lhes conceder o que nela pedem. E no que toca à 8ª, que os quintos se hão de aplicar como se tem mandado, de que me pareceu avisar-vos para que tendo entendido esta minha resolução, procureis pelos meios que julgardes por mais suaves facilitá-lo aos ditos capitães de cavalos, para que se ajustem com ela e entenda seu devido cumprimento, e convindo eles nisto, fareis que esta carta de Registo com o título que farão de aceitação nos Livros a que tocar, para a todo o tempo haver justiça do que acerca do referido se assentar. Escrita em Lisboa a 27 de Abril de 1647. Assinaturas: Rey; D. Álvaro de Abranches da Câmara. Para o Governador das Armas do exército de Alentejo. Por resolução de S. Majestade, em consulta do 1º de Abril de 1647.
D. João IV, talvez a conselho de D. Álvaro Abranches da Câmara, insiste nas companhias a 100 cavalos – um número pouco adequado à realidade das unidades do terreno, mas que fazia eco de alguns ensinamentos colhidos em tratados militares do período. No entanto, o verdadeiro ponto de discordância, sobre o qual a autoridade régia se pronuncia com veemência, não abdicando das suas prerrogativas, era o direito do quinto das presas efectuadas (a quinta parte de tudo o que era pilhado ou capturado na guerra pertencia à Coroa). Aí, D. João IV não estava minimamente disposto a ceder aos capitães. No que tocava ao resto, mais do que uma ordem régia peremptória, era uma contra-proposta. A troca de missivas iria continuar.
Fonte: Cód. 10619, secção de reservados da BNL, fls. 136-137, “Cópia da carta de Sua Majestade de 27 de Abril de 1647″. Transcrita para português actual.
Imagem: “Escaramuça de cavalaria”, Philips Wouwerman, c. 1643.


O contrato com os capitães de cavalos foi um expediente a que a Coroa portuguesa recorreu em 1647 com o objectivo de reorganizar a cavalaria e recuperar a sua capacidade combativa. Vinculava os capitães à manutenção das unidades por eles comandadas, nomeadamente ao número de montadas que o efectivo exigia. A Coroa, por seu lado, obrigava-se a comparticipar com um montante pago anualmente em fracções, destinado à conservação dos efectivos e do equipamento. Foi uma medida muito elogiada pelo Conde de Ericeira na sua História de Portugal Restaurado (1945, vol. I, pg. 232), mas na realidade, ambas as partes raramente conseguiram cumprir o que havia sido contratado. Inicialmente implementado para o exército do Alentejo, o contrato foi estendido mais tarde à cavalaria paga das restantes províncias.
O contrato com os capitães de cavalos reflectia a prática política da negociação, característica do reinado de D. João IV. O poder régio reconhecia os privilégios de um grupo específico, sem no entanto deixar de tentar impor a sua vontade. Dessa procura de equilíbrio de forças resultou, em última instância, a prolongada autonomia dos capitães de cavalos e a resistência à introdução do sistema de organização da cavalaria em regimentos, que era norma, à época, em outros exércitos europeus.
No Alentejo, o mediador entre os capitães e a Coroa foi o comissário geral D. João de Azevedo e Ataíde. O texto que aqui se transcreve, vertido para português corrente, encontra-se manuscrito na secção de Reservados da Biblioteca Nacional de Lisboa (cód. 10619, fls. 135-136). Chamo a atenção do leitor para a fórmula “os capitães de cavalos desejam de [sic] se acomodar ao que Sua Majestade lhes ordena” – não é a obediência pronta e sem reservas ao soberano, é antes um manifesto de intenções, cuja condição de aquiescência será a aceitação, pelo Rei, das contrapartidas propostas.
Proposta que fizeram os capitães de cavalos a Sua Majestade sobre o contrato dos cavalos
Os capitães de cavalos desejam de se acomodar ao que Sua Majestade lhes ordena, aceitam as condições que por sua parte se lhes põem no papel, junto com as declarações seguintes
1ª
Que as companhias se farão todas de 80 cavalos cada uma, bons e armados com armas convenientes para o serviço, porque sendo menos não podem servir como convém, pelas quebras que tem a cavalaria, e a respeito dos ditos 80 cavalos lhes mandará S. Majestade dar 200.000 réis todos os anos em duas ou três pagas, como parecer que mais convém.
2ª
Que querendo os ditos capitães comprar alguns cavalos, não se ajustando no preço com os vendedores, os façam avaliar na forma costumada, em presença dos corregedores ou juízes de fora, ou quaisquer outras justiças, e assim os pagarão pelos ditos preços.
3ª
Que faltando cavalos neste Reino, S. Majestade será obrigado a mandá-los vir de fora, contanto que o principal e gastos, até se entregarem, não passe de 25.000 réis cada cavalo selado e enfreado.
4ª
Que as armas e os cavalos dos soldados que morrerem na guerra pelejando, ou forem mandados pelos generais em serviço de S. Majestade, o dito Senhor será obrigado ao mandar remontar, repor à sua custa, e o mesmo se entenderá nos fugidos para Castela com armas e cavalos.
5ª
Que fugindo alguns soldados para dentro do Reino, ou para outras fronteiras, os capitães avisarão os governadores das armas, dando-lhes os nomes, confrontações, e lugares donde são os ditos soldados naturais, para que passem as ordens aos ministros de justiça com que os ditos soldados sejam obrigados a tornar, fazendo os capitães da sua parte todas as diligências necessárias para isto ter efeito.
6ª
Que S. Majestade ordenará que dentro dos quartéis da cavalaria se façam estrebarias e manjedouras que forem necessárias, e que estas se consertem, sendo necessário, por conta dos patrões ou de S. Majestade.
7ª
Que faltando soldados aos capitães, S. Majestade mandará fazer levas ou dar-los [sic] da infantaria, como mais houver por seu serviço.
8ª
Que S. Majestade não levará quinto das presas que fizer a cavalaria, nem poderá fazer delas mercê a outras algumas pessoas, e todos acrescerão aos capitães assim como lhe tocarem pelas suas companhias, para compra dos cavalos na forma em que os levam os que os fazem em cavalos seus próprios que não são de Sua Majestade.
Dom João de Azevedo e Ataíde
Imagens: Em cima, carabina de cavalaria inglesa do período da Guerra da Restauração. Em baixo, carabina portuguesa, do espólio do Museu Militar de Lisboa, fotografada pelo Comandante Augusto Salgado. O comentário do Sr. Manuel Ribeiro Rodrigues (comentário 1), a propósito da carabina portuguesa, levantou algumas dúvidas pertinentes quanto à datação da peça. O fecho é, sem dúvida, posterior à Guerra da Restauração (é do século XVIII – compare-se com o fecho menos robusto da carabina inglesa), mas o corpo da arma é muito semelhante ao das carabinas holandesas fabricadas durante a segunda metade do século XVII.

Era frequente proceder-se ao envio de forças de socorro de uma província a outra, principalmente após o aumento de intensidade do conflito a partir de 1659. Beira, Trás-os-Montes e Entre-Douro-e-Minho tinham exércitos provinciais mais reduzidos do que o Alentejo, de modo que toda a entreajuda era necessária quando havia informação de que o inimigo movimentava forças importantes na fronteira. O exemplo que aqui se apresenta é um dos vários registos documentais que apresenta a relação detalhada de um desses contingentes de reforço. Trata-se de uma relação de 25 de Abril de 1663, anexa a uma carta de 26 do mesmo mês, enviada ao Conselho de Guerra pelo Conde de São João da Pesqueira, governador das armas de Trás os Montes. Foi vista na consulta de 4 de Maio de 1663 (ANTT, Conselho de Guerra, Consultas, maço 23): “Relação da infanteria, e caualleria auxiliares [e] pagos que tem mandado para a Torre de Moncorvo para passar a Prouincia da Beira e do que ao todo importou o pagamento de hum mez, que se lhe fez dos coatro contos, quinhentos, e nouenta mil reis, que uierão da Cidade do Porto“.
Infantaria
Oficiais da 1ª plana do terço do mestre de campo Belchior Pinto Cardoso: 1 sargento-mor e 2 ajudantes (o mestre de campo não acompanhou a unidade; o comando do terço foi confiado ao sargento-mor).
Oficiais de 10 companhias, cada uma com capitão com seu pajem, alferes, sargento e tambor, com desconto de 30 rações de pão de munição: 5 oficiais por companhia (como era norma no período, contabilizavam-se como “oficiais” todos os integrantes da 1ª plana, incluindo os pajens – era um procedimento administrativo, pelo que há que ter algum cuidado ao calcular o rácio oficiais/soldados das unidades, devido à designação muito abrangente das listas no que respeita aos primeiros).
600 soldados destas 10 companhias, a meia-paga de 1 mês a cada, com desconto de pão de munição (a meia-paga deve-se ao facto de serem auxiliares): 60 soldados por companhia.
200 infantes, com seus oficiais, a quem se paga por inteiro 1 mês, com desconto, etc. (a lista não estipula o total de companhias; em todo o caso, tratava-se de tropas pagas, pelo que recebiam o soldo por inteiro): 26 oficiais, 200 soldados – note-se o elevado rácio de elementos da primeira plana, os “oficiais”, em relação aos soldados.
Cavalaria
Companhia de cavalos paga do capitão Simão Pinto, 6 oficiais da 1ª plana, com desconto de pão de munição e cevada a 120 rs o alqueire (pão de munição a 12 rs) e 200 rs da contribuição da arca; e 50 soldados, com a vantagem de 4 cabos de esquadra, com desconto das munições (por “vantagem” entenda-se a diferença entre o soldo de um soldado e a do cabo de esquadra. Sobre o “contrato e arca” da cavalaria será publicado um artigo em breve).
Companhia de cavalos paga do capitão António de Sousa Pereira, 6 oficiais da 1ª plana, com desconto, etc, e 35 soldados, com vantagem dos cabos de esquadra; não se paga a arca e contrato, por ser feita agora de novo, e não se lhe dever.
Companhia de cavalos auxiliares do capitão Baltazar Carvalho, (o capitão é pago), 5 oficiais da 1ª plana (as companhias de auxiliares não tinham alferes) e 35 soldados (recebiam mensalmente metade do soldo de um soldado de cavalos pago, e descontavam o que recebiam de munição).
Companhia de cavalos auxiliares do capitão António Carneiro da Costa, (o capitão é pago), 5 oficiais da 1ª plana e 40 soldados (a meio-soldo dos pagos, etc.).
Companhia de cavalos auxiliares do capitão Gaspar da Fonseca Borges, que é pago; 5 oficiais da 1ª plana e 45 soldados (a meio-soldo, etc.).
TOTAIS:
Terço de auxiliares: 53 oficiais e 600 soldados.
Infantaria paga: 26 oficiais e 200 soldados.
Cavalaria paga: 12 oficiais e 85 soldados.
Cavalaria de auxiliares: 15 oficiais e 120 soldados.
Ao todo, o envio desta força de 106 oficiais e 1.005 soldados custou um total de 1.574.285 réis.
Imagem: Capacete de cavalaria do período da Guerra da Restauração. Este capacete de fabrico português era uma “peça de munição” barata, distribuída aos soldados das companhias de cavalos. O exemplar apresentado encontra-se bastante danificado, faltando-lhe as protecções laterais que cobriam parcialmente as orelhas e parte do rosto do combatente. Museu Militar de Lisboa. Foto do Comandante Augusto Salgado.

Há precisamente um ano iniciei este espaço de divulgação e interpretação de uma parte do passado militar de Portugal e Espanha. Centro e trinta posts e mais de 30.000 visitas encorajam-me a prosseguir. Quero expressar aqui os meus agradecimentos a todos quanto têm visitado esta página e aos que nele têm colaborado através de artigos, ou com o envio de material, ou ainda com sugestões e ligações aos respectivos blogues e páginas da internet.
Nesse sentido, vai uma saudação especial para os amigos e companheiros blogosféricos Juan António Caro del Corral, Julián García Blanco, Santos Manoel, Edwin Paar, João Torres Centeno e Jorge Quinta-Nova. A todos – e, claro, aos leitores deste blogue – um Muito Obrigado!
Imagem: “Batalha das Linhas de Elvas”, a primeira imagem publicada no blogue.

Quando foi publicado o pequeno artigo sobre o ajudante de sargento-mor (nº 11 desta série), ficou por referir que a insígnia do militar que ocupava este posto tinha uma utilidade prática. Conforme escreveu o sargento-mor castelhano (ao serviço de Portugal) Antonio Gallo, na sua obra Regimiento Militar, que trata de como los soldados se hande governar, obedecer, y guardar las ordenes, y como los oficiales los han de governar (Lisboa, Paulo Craesbeeck, 1644):
El Ayudante hade traer una bengala de tres pies, y medio, que es la medida que hade aver de pecho a espalda de soldado a soldado en esquadron, por ser leve, y ligera: y andando en orden, para formar com facilidad, podrà ver si estan en su compaz los soldados. (pg. 52 v)
Antonio Gallo foi durante algum tempo sargento-mor do terço de Estacius Pick, até se ter reformado em 1643.
Imagem: A organização dos esquadrões de infantaria no terreno era tarefa que cumpria ao sargento-mor, coadjuvado pelo seu ajudante. Reconstituição histórica do período da Guerra Civil Inglesa, Kelmarsh Hall, 2007. Foto de J. P. de Freitas.

Ao tempo dos preparativos para a operação de tomada de Badajoz, o soldado Mateus Rodrigues encontrava-se com a sua companhia (comandada pelo capitão Francisco Pacheco Mascarenhas) servindo na guarnição de Mourão. Quando D. João da Costa decidiu pôr em andamento as forças, esta companhia, bem como as de Dinis de Melo de Castro e de Diogo de Mendonça, que serviam em Moura, a de Jerónimo de Melo, estacionada em Serpa, e a do holandês van Inguen, que guarnecia Monsaraz, receberam ordem para se incorporarem com o terço de Moura, o melhor do Alentejo, comandado pelo mestre de campo Manuel de Melo. Deviam marchar para Olivença, mas o segredo era tal que ninguém sabia o verdadeiro objectivo de todo aquele aparato bélico. Este só veio a ser revelado quando a força de 1.200 infantes e 300 cavaleiros recebeu ordem de abortar a missão, no dia 19 de Março, pelas razões expostas no anterior capítulo desta narrativa. Não teria o soldado de cavalos ocasião de repetir a marcha.
Desavença e descoberta do plano
Com efeito, a operação de tomada de Badajoz fora adiada para a noite do Domingo de Pascoela. Mas um acontecimento inesperado deitaria tudo a perder para os portugueses. De acordo com o relatório de João Leite de Oliveira,
(…) sucedeu que o sargento galego de nação [Alonso de Castro], temendo que se viesse a descobrir o negócio, disse à sua amiga que andava metido em uns tratos, que não lhe podia durar muito a vida, pelo que se queria ir terra dentro, e a quis persuadir que fosse em sua companhia, o que ela não quis fazer, e assentaram que a mandaria buscar.
E depois de ele ido há 7 ou 8 dias, teve esta [mulher] uma pendência [ou seja, discussão] com a do outro, e eram vizinhas, e tinham comido todos juntos muitas vezes, e com a paixão foi a um ajudante e lhe disse que o sargento flamengo vinha a Portugal algumas vezes, e não levava pilhagem, mas que lhe não faltavam reales de a ocho [moeda espanhola da época, que também circulava em Portugal], com que bem se regalava, e a sua amiga. Com isto e mais alguma diligência que o ajudante fez, deu conta ao seu general, o qual mandou encarregasse também à mulher que o vigiasse [ao sargento flamengo], quando saía fora, como o fez.
E vindo a Elvas dar-nos parte de como o outro sargento era ido, mas que ele se atrevia a fazer só o negócio, porque entrava e saía pela meia-lua cada vez que queria, por ser mui conhecido dos soldados, porém a mulher o vigiou a noite que cá veio, e lhe deram ao outro dia pela manhã em casa, e o acharam almoçando com a amiga, e dando-lhe busca na casa lhe acharam cem patacas que de cá havia levado. Indício certo que o condenou, pelo que dando-lhe tormento, ao sétimo confessou tudo que se havia passado, e o negócio se acabou, e ele também, porque o enforcaram. E os castelhanos ficaram mui assombrados, e dizem que foi em Badajoz um dia de juízo, dando a Deus muitas graças por os livrar de tão manifesto perigo. (”Relação…“, in Madureira, pgs. 183-184)
Assim termina o relatório do tenente-general João Leite de Oliveira. Já a narrativa de Mateus Rodrigues é bem mais colorida na descrição, e sobretudo muito menos refinada no vocabulário. Embora coincidente no essencial dos detalhes, dá como causa principal de tudo se descobrir uma discussão entre o sargento flamengo e a sua amiga, e não entre as duas mulheres. Depois de referir a fuga do sargento galego, o soldado de cavalos prossegue, misturando português com castelhano, como é habitual quando reconstrói diálogos entre espanhóis:
(…) tinha um deles uma amiga das portas adentro [termo usado no período para designar uma amante], e este que a tinha [Alejandro Perez, o flamengo] era aquele a quem o outro [Alonso de Castro, o galego] havia dado as contas do que tinha tratado com Dom João da Costa. Como [a] amiga viu que o sargento supria a gastos de muita consideração, e viu que as pilhagens lhe não podiam suprir a tantos gastos, e assim que uma noite, estando eles na cama falando nas idas que fazia a Elvas a pilhagens, lhe disse [a] amiga ao sargento «ó fulano [Mateus Rodrigues, tal como o tenente-general, não indica os nomes dos sargentos], por vida vuestra que me digais donde vos viene tantos dineros, como vos veio gastar, perque no me puedo persuadir a que la[s] pilhages puedan suprir a tanto como gastamos, perque unas vezes traeis e outras no, e nunca nos faltan dineros». Pergunta foi esta que tinha a negra puta no corpo, pois deu ocasião a tantas desventuras (…), de sorte que o sargento lhe respondeu (…) um disparate mui grande, que lhe serviu de perder a vida. Disse o sargento que lhe importava saber donde lhe vinham sus dineros, que como ella gastava o que havia mister [ou seja, o que lhe apetecia], que no procurasse naide; e assim que no hablasse mas en ello. Mas como as mulheres são muito curiosas de saber tudo, e além disso putas ainda muito mais, e mais quando a cousa caía em sujeito de castelhanas, que são delgadas como o mesmo diabo. E assim que tornou a replicar ao sargento que era possível que havia de ser su amiga e estar com un hombre en la cama, que no lhe havia de dar sus cuentas de lo que passava en el mundo, e enfadando-se muito com ela o sargento, lhe disse «boto a Cristo que se vuelves a hablar otra vez en eso, que te he de matar, que mis dineros me vem por muchas vias, de que yo no quiero darte esas cuentas (…)». De modo que o diabo da puta ficou tão escandalizada das cousas do sargento, que se lhe meteu o diabo no corpo, e apenas se levantou ao outro dia da cama, logo foi a falar com o governador (…), que era o Marquês de Totavila (…).
Mais do que pelo duvidoso rigor dos pormenores deste episódio, a escrita de Mateus Rodrigues vale pelo que revela da mentalidade característica do homem e soldado (fosse ele português ou não), e pelo modo como a mulher era encarada neste contexto.
Tão resoluta velhaca como foi esta não se acha, que tão bem pagou a quem a sustentou seis ou sete anos, que tantos havia que o sargento confessou que tinha, e pagou-lhe este bem com o levar à forca.
O sargento foi de imediato preso e submetido a tortura. O outro, que se pusera em fuga, foi mais tarde capturado. Mas enquanto o flamengo foi logo condenado à morte e enforcado, o galego foi poupado durante algum tempo, de modo a que pudesse denunciar qualquer português que com ele tivesse negociado em Elvas e que se quisesse de novo infiltrar em Badajoz, ou lá entrar como volantim (homem encarregado de entregar mensagens ou outra correspondência – note-se que, apesar do estado de guerra, continuava a haver correio regular entre os dois reinos). Foi assim que um alfaiate português de Elvas, que se deslocou a Badajoz como volantim, acabou por ser preso, apenas e unicamente porque era muito parecido com o tenente-general João Leite de Oliveira. Esteve quase a ser submetido a tormento, mas foi salvo por um capitão de cavalos castelhano, que havia pouco tempo tinha estado prisioneiro em Elvas, e a quem o alfaiate havia feito duas galas (trajos distintos, para solenidades) durante o tempo de cativeiro. Foi este oficial que reconheceu o alfaiate e falou com o governador, garantindo a verdadeira identidade do português e assim conseguindo a sua libertação.
O sargento galego acabou por ser enforcado mais tarde. Mateus Rodrigues tirou deste episódio de traição gorada uma conclusão misógena: eis aqui o que tem quem de mulheres se fia, que ainda que um homem muito queira a sua mulher, nem tudo que passa lhe há-de descobrir, pois nelas nunca segredo fez morada. (todas as citações do MMR, pgs. 261-267)
Considerações finais
Ter-se-à passado tudo assim, como o descreve Mateus Rodrigues? Há dúvidas sobre a veracidade de alguns pormenores. O episódio do furriel João Dias de Matos não é referido na confissão do sargento flamengo, que apenas nomeia a incursão do tenente-general. Isto não significa que o dito furriel não tivesse contado a história a Mateus Rodrigues, por tê-la ouvido a João Leite de Oliveira, fazendo como sua a aventura do oficial general. Como também não invalida a possibilidade de João Dias de Matos ter mesmo entrado em Badajoz disfarçado – se os textos do relatório e da confissão não referem esta operação, isso pode ter ficado a dever-se ao facto do tenente-general não querer ver diminuído o seu papel em toda esta história, e ao receio do sargento Alejandro Perez agravar ainda mais o caso contra si (receio inútil, de resto, pois o homem estava já de todo perdido). No entanto, faltam suportes mais fidedignos para confirmar a entrada do furriel de cavalaria, que acabaria os seus dias em Portugal, em 1660, enforcado como traidor, quando era capitão de cavalos no exército de Filipe IV.
O caso que levou ao fracasso do plano de traição, conforme conta Mateus Rodrigues, também não coincide com o texto da confissão de Alejandro Perez. A amiga deste chamava-se Isabel Sanchez, a quem o sargento dizia que ia a Lobera, quando na realidade se deslocava a Elvas; não há na confissão qualquer referência a desentendimentos entre ambos. O desentendimento que existiu, opôs o sargento flamengo ao seu camarada e à amiga deste, uma Catalina García, e esteve directamente relacionado com a fuga de Alonso de Castro. Como confessou Alejandro Perez, la pendencia que tubimos fue porque pasabamos en casa de Catalina García, su amiga, y me cargabán la mitad del gasto, sendo ellos dos y yo uno, y temiendo que yo le avia de descubrir hio la fuga. (Arquivo Geral de Simancas, Sección Guerra Moderna, Legajo número 1822 )
O facto é que a importantíssima praça extremenha nunca seria tomada durante a Guerra da Restauração – nem pela astúcia, nem pela força das armas.
A terminar, renovo os meus agradecimentos ao amigo Juan Antonio Caro del Corral por me ter enviado a cópia do manuscrito do AGS, e remeto os leitores para este interessante artigo no blog do amigo Julian García, Puertas de Badajoz.
Imagem: A propósito de militares e amigas… “Cena de bordel”, de Frans van Mieris, o Velho, 1658. Mauritshuis, Haia.

Os preparativos
D. João da Costa estava impaciente para iniciar a operação que iria conduzir – assim pensava ele – à tomada da importante praça da Extremadura. João Leite de Oliveira refere que, como o Guadiana ia cheio e impossível de passar a vau, o mestre de campo general
(…) mandou com muita pressa obrar em Juromenha uns batelões para passar a gente com brevidade, dos quais o inimigo teve notícia, e começou a andar com cuidado, tomando línguas todos os dias ["tomar língua" significava capturar paisanos ou soldados do inimigo, a fim de obter informações]; e também entre nós se rompeu [ou seja, surgiram os rumores], pela novidade das barcas, que havíamos de fazer alguma jornada para aquela parte de Olivença (…). (Relação…, pg. 181)
Difícil manter o sigilo, de um e de outro lado da fronteira. D. João da Costa considerou então que aquele era o melhor momento para se ausentar para Lisboa, onde iria contrair matrimónio, aproveitando também para dar conta ao Rei do andamento do negócio de Badajoz. A viagem e o motivo dela (o casamento) teriam o efeito de despistar as intenções de que algo de grande se estava a preparar. Mantiveram-se, no entanto, os contactos entre o tenente-general e os sargentos, pois de Lisboa continuava D. João da Costa, por meio de correios, a ser informado e a dar ordens. Ficou combinado que o novo encontro entre o mestre de campo general, entretanto elevado a Conde de Soure, e os sargentos teria lugar na noite de 12 para 13 de Março, em Elvas.
Foi aí que ficou tudo decidido. Com o pretexto de que seria necessário infiltrar novamente João Leite de Oliveira no castelo, com a desculpa de que o tenente-general não tinha conseguido ver, da primeira vez, todas as particularidades do local, D. João da Costa acordou com os sargentos que o militar português repetiria aquele feito na noite de 21 de Março, uma quinta-feira. Por precaução, foi dito aos sargentos que o tenente-general iria acompanhado apenas por uma outra pessoa. Mesmo nesta fase adiantada, temia-se que os sargentos fizessem jogo duplo, e não se lhes revelou que a operação estava em marcha.
Movem-se as peças
Portanto, a intenção dos portugueses era outra. Relata João Leite de Oliveira que a 19 de Março
(…) estava o mestre de campo [general] com as portas de Elvas fechadas, gente amunicionada [ou seja, milicianos de auxiliares] e tudo pronto para quarta-feira, 20 do [mês de Março] (…) se meterem em Olivença com tudo, e eu saí no mesmo dia desta vila de Estremoz com 400 cavalgaduras para entrar no mesmo dia em Olivença, de onde havíamos de sair à quinta-feira, dia de São Bento, e eu marchava diante com 500 soldados escolhidos de todo o exército, com os capitães de maior opinião e dois sargentos-mores, engenheiros, um tenente-general da artilharia, condestáveis [posto equiparável a furriel, na artilharia] e artilheiros com cartuchos feitos, granadas, lanças de fogo, e todos os mais apetrechos.
E atrás de mim marcharia o senhor mestre de campo general com tudo o mais, e perto do moinho [o habitual ponto de encontro, a caminho de Badajoz] onde havia de esperar o sargento, me havia eu de adiantar com cinco ou seis homens, e achando-o (…) lhe havia de declarar tudo o que levava, fingindo que não queríamos mais dilatar o negócio, e assim que fossemos à meia-lua, como da outra vez, e fingíssemos o mesmo, ou outra coisa que lhe parecesse por amor [ou seja, por causa] das sentinelas, no que ele veria sem dúvida, e entrando eu com três ou quatro homens na meia-lua com adagas nas mãos, pressionaríamos as duas sentinelas, que no castelo não havia outras para aquela parte; o que feito, me não era dificultoso meter os 500 homens, e metidos eles me podia sustentar dentro vinte dias, por ser um castelo fechado por si com muito boas muralhas, e dentro muito biscoito e munições, e fora dele não tinha o inimigo nenhuma, e a muralha para a parte da cidade era capaz de se pôr nela bateria contra a cidade, por o castelo lhe ficar superior. (Relação…, pg. 182)
Era este o plano. Todavia, não se concretizou, pois no dia 19, já com tudo preparado para a marcha, vieram dois rapazes castelhanos, que se tomaram por línguas pela parte de Campo Maior, os quais disseram que naquela manhã se havia mandado chamar de Badajoz a cavalaria com pressa, e já quando saíram tinham entrado duas ou três companhias (Relação…, pg. 182). D. João da Costa decidiu suspender tudo, não sendo conveniente fazer a marcha, pois mesmo que o inimigo não soubesse do intento dos portugueses (como não sabia), bastaria estar alerta e ter batedores espalhados pelos campos, para que toda a esperança de sucesso da operação se perdesse. Soube-se posteriormente que todos aqueles cuidados da parte de Badajoz tinham ficado a dever-se à informação (provavelmente originada em línguas tomadas por cavaleiros espanhóis, ou por intermédio de espiões) que os portugueses estavam a concentrar tropas; mas quando os espanhóis tomaram mais línguas para a parte de Olivença, sossegaram com as notícias de que, afinal, não havia novidade e tudo estava calmo. Assim, despediram da cidade as companhias de cavalaria que apressadamente tinham mandado chamar.
João Leite de Oliveira voltou a contactar o sargento, para lhe dizer o motivo pelo qual tinha faltado ao encontro na noite combinada. E ficou ajustado que o novo encontro (e a nova ida ao castelo) teria lugar na noite de Domingo de Pascoela. O tenente-general deu mais alguns dobrões ao sargento e recomendou-lhe que não fosse mais gastador do que o costume, para não levantar suspeitas.
Entre os portugueses, era tempo de repetir os preparativos para a operação. Mas a deusa da Fortuna tinha outras intenções a respeito de Badajoz…
(continua)
Imagem: O rio Guadiana junto a Juromenha. Foi aqui que se fizeram os batelões para passar as tropas para o lado de Espanha, conforme se refere no texto. Foto de Jorge P. de Freitas.

A missão de João Leite de Oliveira (noite de 5 para 6 de Fevereiro de 1652)
Segundo o relatório do tenente-general da artilharia, ficou tudo combinado com os sargentos para que se infiltrasse em Badajoz, na missão de reconhecimento, na noite de 5 para 6 de Fevereiro. Na narrativa de Mateus Rodrigues, foi numa das vezes que um dos sargentos se deslocou a Elvas, a recato da noite, que D. João da Costa revelou que iria enviar o tenente-general, e que não se enfadasse o sargento com aquela decisão e cautela, mas que era necessário ver tudo muito bem. E o oficial português devia entrar e sair de Badajoz numa só noite (ao contrário do que sucedeu com o furriel João Dias de Matos).
Prossigamos com a relação de Leite de Oliveira:
E logo sendo na noite assinada, saí à tarde com todo o recato de Elvas, eu só, e onde se chama Malpica de Castela se tinha mandado vir de Olivença uma guia prática [seria o furriel Dias de Matos?] e o capitão Aguiar, que é engenheiro, o qual não sabia nada, nem a guia, e ajuntando-me aí com eles, lhe[s] disse que tínhamos uma jornada que fazer e aqui neste lugar pasámos o dia, e ao pôr do sol disse ao guia me guiasse ao ribeiro, que passa pela outra parte de Mérida, ao qual chmam ribeiro de Redilhas, e estando já perto dele lhe disse me mostrasse o moinho, e depois de o fazer, mandei se retirasse (…) os três cavalos, e eu me adiantei ao moinho, do qual me saiu o sargento flamengo [Alejandro Perez], e depois de nos reconhecermos tornei atrás, e chamei o engenheiro, e então lhe comuniquei ao que íamos.
Deram dez horas da noite e saiu a lua [ou seja, estava uma noite de luar], que nos podia fazer dano, sem embargo disso nós chegámos ao pé da muralha do castelo, um à vista do outro, sem haver sentinela por aquela parte na muralha, e fomos seguindo (…) até uma meia lua, que fecha por uma e outra parte na muralha do castelo, que terá 18 ou 20 palmos ao mais de alto, a esta meia lua sai uma porta do castelo, que fica de noite somente ferrolhada, porque a meia lua não tem saída para a campanha, e essa é a causa.
Chegou o sargento, que me guiava, diante da meia lua onde estava o outro sargento com dois soldados, que ali havia de sentinela, e lhe perguntou «eres tu?», ao que lhe respondeu o nosso guia «yo soy y no pude pilher el carnero, y aqui vienen comigo dos amigos, que alla topé, que se habian quedado fuera pera el mesmo efecto», com o que nos deu o sargento que estava dentro um chuço pelo pé, e pegando nele, e na muralha nos baldeámos dentro todos três, eu saudei aos soldados, que ali estavam de sentinela, e não repararam no trapilho do vestido que eu levava, e assim abriram o postigo da porta, que estava cerrado, e entrámos no castelo os quatro, no qual eu andei até uma hora depois da meia-noite, correndo a muralha, reconheceno a artilharia, e armazéns de munições e mantimentos, e o trem da artilharia, e onde moravam os almoxarifes que têm as chaves dos armazéns.
O castelo tem só uma porta, que sai para a cidade, e a companhia que entra de guarda todas as noites tem cuidado de a fechar às nove da noite, e abrir pela manhã, o que tudo vimos mui devagar, por estar um dos sargentos esta noite de guarda com 2 homens, que é o mais que entram de guarda pela muita falta que têm de gente. Visto tudo à nossa vontade, nos viémos à meia lua, fingindo tornávamos fora ver se os pastores dormiam para lhes furtar o carneiro, e nos viémos. (Relação…, pgs. 180-181)
Segundo Mateus Rodrigues (exagerado, por vezes, no que tocava a referir recompensas materiais), D. João da Costa terá oferecido aos sargentos que preparavam a traição 3.500 réis em moedas de dobrão, só para que esta missão de espionagem se efectuasse, mas os sargentos recusaram, dizendo que, se Deus quisesse, haveria tempo para que o governador das armas os pudesse recompensar. Esta recusa em aceitar o dinheiro fez acreditar D. João da Costa ainda mais na boa fé dos dois sargentos, e afastar qualquer receio de traição por parte deles em relação aos portugueses. Quanto ao resto, a narrativa de Mateus Rodrigues não é completamente coincidente com o relatório em alguns pormenores: diz o soldado que Leite de Oliveira se fez acompanhar por 30 cavalos (e não por três), os quais ficaram afastados da muralha “um bom tiro de mosquete” (correspondente a pouco mais de 100 metros, aproximadamente) – o que é um absurdo, pois seriam facilmente detectáveis. Depois, refere que o tenente-general foi comer e beber com os sargentos a um mesão, falando com eles em bom espanhol, repetindo assim a façanha de João Dias de Matos – outra fantasia do autor, pois para além do despropósito da acção, dada a hora tardia da noite, seria um risco desnecessário e de todo improvável de ser corrido pelo tenente-general. No entanto, o que Mateus Rodrigues descreve sobre o resto do episódio está de acordo com o relatório. (MMR, pgs. 254-257)
Os sargentos continuavam a visitar D. João da Costa em Elvas, de cada vez que vinham a Portugal sob pretexto de fazerem pilhagens, e recebiam algum dinheiro de recompensa do mestre de campo general, pois de facto não levavam nada pilhado.
No próximo artigo serão descritos os preparativos para a operação de conquista de Badajoz, e no seguinte (e último), o resultado final de todos estes planos.
Imagem: “O descanso dos cavaleiros”, quadro de Philips Wouwerman, Koninklijk Museum voor Schone Kusten, Antuérpia.

O furriel João Dias de Matos em Badajoz
Esta parte é omitida por João Leite de Oliveira, mas Mateus Rodrigues conta-a conforme ouviu da boca do próprio furriel de cavalaria.
Mandou Dom João da Costa chamar o furriel João Dias de Matos, e vindo ele lhe falou (…) só em uma casa muito tempo, dando-lhe contas do que tinha entre mãos e que não tinha em quem confiar aquelas cousas senão nele, pois sabia muito bem seu préstimo e valor, que tinha ajustado com os sargentos de como ele havia lá de ir, e que lhe disse o sargento que seguramente podia entrar a cavalo pela porta dentro às trindades [toque do sino, chamando à oração do fim da tarde], que fosse logo direito ao castelo e que em tal calle podia perguntar por su amigo sargento hulano [ou seja, fulano; respeitou-se aqui, e assim será na restante transcrição, a mistura de castelhano com português], e que ele também se obrigava a botá-lo fora seguramente [quer dizer, em segurança]; de maneira que Dom João da Costa lhe disse (…) que se ele lhe trazia boas informações, que lhe dava sua palavra de o acrescentar muito bem; (…) e logo ali ajustaram o dia em que havia de ir lá. Foi-se o furriel para Olivença e lá se preparou de todos os aviamentos castelhanos, como era cavalo castelhano ferrado à espanhola, e sela castelhana e armas também, (…) todos os arreios e cousas que levava eram castelhanos. E assim se partiu um dia de Olivença e se foi emboscar em um olival que chamam a Florida, quero dizer, os olivais das Malas Aradas, que não ficam de Badajoz mais de meia légua, no meio da estrada que vem de Albufeira. E assim como foi sol posto meteu-se na estrada, e foi por ela abaixo como que vinha de Albufeira, e assim como chegou às portas entrou por elas dentro sem que ninguém lhe perguntasse nada, cuidando era algum soldado que vinha com alguma carta de fora ou algum negócio. E assim como entrou, foi pela cidade fora até ao castelo, e perguntando pelo sargento fulano em tal calle, logo lhe disseram aonde morava, que a poucos passos tinha já dado com ele, e assim como se viram, abraçaram-se um ao outro por diante de alguns castelhanos, e a saudação que se davam era perguntar era perguntar «como estás, primo de mi vida?», «bueno, primo de mi anima», «en aquesta terra, primo, que negocio vos ha traído acá?», respondia o furriel «un negocio que no es de mucha importancia, imos tambien a vervos, que muchos tiempos que nos no avemos visto». De modo que se foram para casa, e foi o sargento acomodar-lhe o cavalo a casa de um soldado de cavalo seu amigo, dizendo-lhe que lhe acomodasse aquele cavalo, que era de un primo suio que era de Mérida; acomodou-lhe logo o soldado e foi-se o furriel e mais o castelhano sargento a comer logo a um mesón, que assim chamam lá às bodegas que dão de comer; de modo que em todos estes tempos sempre o furriel falando tão cerrado espanhol, melhor que o mesmo sargento. E assim como comeram, lá pela alta noite foi o sargento a mostrar todos os armazéns do castelo ao furriel, e logo foi pela muralha do mesmo castelo, como que ia o sargento rondando a muralha, e viu tudo mui à sua vontade. E se esteve ali até ao outro dia à noite, que saiu às mesmas horas a que havia entrado, sem haver pessoa alguma que lhe perguntasse nada. E não há dúvida que foi uma grande aventura, e quando eram dez horas da noite já o furriel estava às portas de Elvas. (MMR, pgs. 250-252).
Foi então avisado D. João da Costa da chegada do furriel, e este de imediato foi conduzido à presença do mestre de campo general. Disse-lhe João Dias de Matos que, pelos modos que tinham os dois sargentos, não lhe parecera que tentassem trair os portugueses, e antes pelo contrário, que se esperava uma grande vitória e sucesso na conquista de Badajoz pela traição, e que pelos planos que lhe tinham exposto, seria impossível deixar de se tomar a praça, e com muito pouca perda de vidas. Foi recompensado o furriel com 50 patacas e prometeu-lhe D. João da Costa outros acrescentamentos pelo bom desempenho da missão.
(…) Foi-se o furriel a descansar, que pousava em casa do meu furriel, que eram ambos naturais de Louriçal [na comarca de Esgueira]. Mas nunca este homem dizia onde ia nem de onde vinha, só depois que a cousa não teve efeito (…) se soube então, contava ele tudo o que passava em Badajoz com os sargentos e com D. João da Costa. (MMR, pg. 252)
Esta é a parte que não consta do relatório do tenente-general. Segundo Mateus Rodrigues, só depois da acção de espionagem do furriel é que D. João da Costa mandou chamar João Leite de Oliveira, para o incumbir de missão semelhante, mas visando objectivos finais.
(continua)
Imagem: Planta de Badajoz; in La memoria ausente. Cartografia de España y Portugal en el Archivo Militar de Estocolmo. Siglos XVII y XVIII.
Prelúdio à traição (continuação)
Tanto o relatório do tenente-general da artilharia João Leite de Oliveira como as memórias do soldado Mateus Rodrigues referem a entrevista de um dos sargentos com o mestre de campo general D. João da Costa. No relatório, refere o tenente-general que
(…) depois de eu ajustar isto tudo com ele [ou seja, com o sargento galego], o comuniquei a D. João da Costa, mestre de campo general do exército, o qual abraçando-me muitas vezes me ordenou que depois de dormirem os outros pilhantes [capturados], lá pela meia-noite adiante, lhe levasse o sargento para falar com ele, e levando-lho tornou a repetir o modo com que nos podia dar entrada no castelo. E logo o senhor mestre de campo general lhe prometeu em nome de Sua Majestade honras e rendas com que luzidamente passaria neste Reino, e dando-lhe os dobrões que ele quis levar, o advertiu que não gastasse mais do que até então era costumado, nem comprasse uns sapatos, para que alguma pessoa não reparasse nisso, e que querendo o outro seu camarada acompanhá-lo, nos viria dar recado à noite, que lhe apontámos, na qual não veio, mas vieram ambos daí a três ou quatro dias. (”Relação…”, in Madureira, pgs. 179-180)
O plano
A narrativa de Mateus Rodrigues não difere até aqui, em substância, do relatório do tenente-general, mas acrescenta alguns pormenores sobre os dois sargentos. Assim, o galego teria exposto, em pormenor, o plano da traição a D. João da Costa:
(…) saberá Vossa Excelência de como eu e o meu camarada, o outro sargento que está no corpo da guarda, somos senhores do castelo de Badajoz, pois que as nossas companhias não têm capitães, há muito tempo que andam lá por suas terras, e nós entramos de guarda e saímos todos os dias e pomos e tiramos sentinelas da muralha toda a noite, e a guarda do castelo corre por nossa conta, sem a isso ser necessário assistência de mais algum oficial de fora (…). De modo que eu e meu companheiro havemos de traçar a cousa; é que a muralha de Badajoz tem um pedaço muito mau, que quase lhe chega um homem com a mão acima, e isto é no castelo; e como nós pomos e tiramos as sentinelas, pode Vossa Excelência juntar 500 ou 600 mosqueteiros pela parte do castelo, que eu tirarei todas as sentinelas da muralha, para que não sejam sentidos na cidade, e logo estarei eu na muralha e darei um sinal (…). E tanto que a gente estiver dentro do castelo, havemos logo de ir mui depressa a terraplanar a porta do castelo que vai para a cidade, e logo ficamos mui seguros senhores de toda a melhor artilharia, que é a do castelo, que todo Badajoz lhe fica debaixo dela; e na mesma noite há Vossa Excelência de ir com toda a mais gente amanhecer às muralhas de Badajoz, e vendo-se Badajoz com o castelo tomado e com poder à roda das muralhas, sem remédio logo se entrega, e quando não seja logo, não haverá dilação, porquanto todas as munições que em a cidade há estão no castelo, que lá estão os armazéns, e não podem pelejar faltando-lhe o melhor; e demais que a artilharia do castelo os fará entregar (…), que iremos arrasando a cidade pouco a pouco. (…) Mande Vossa Excelência um homem a Badajoz da sua parte, para que tome informação da cousa bem à sua vontade, e este tal homem, quando for, seja por minha ordem, para que vá seguro e venha. (MMR, pgs. 244-246)
Interessante é o pormenor da combinação entre os dois sargentos, diálogo embelezado pela imaginação de Mateus Rodrigues, mas certamente fundamentado em dois aspectos essenciais: a vivência da maior parte dos combatentes de ambos os exércitos, padecendo muitas dificuldades e perigos, sem esperança imediata de melhorias (situação que Mateus Rodrigues muito bem conhecia); e as notícias dos acontecimentos mais extraordinários ou curiosos, que rapidamente passavam de um lado a outro da fronteira, quer através das conversas entre prisioneiros e seus guardas (papéis que, por vezes e no espaço de dias ou semanas, se podiam inverter), quer através das comunicações entre não-combatentes de ambos o lados, que sempre se iam fazendo à margem das ordens das autoridades militares. Assim, Mateus Rodrigues recria o diálogo entre os sargentos, depois de estes terem ido à presença de D. João da Costa (conforme se refere no trecho do relatório) e terem sido despedidos de regresso a Badajoz, tudo combinado para a traição…
(…) todo o caminho foram tratando na matéria, e o primeiro sargento que tinha falado na cousa a D. João da Costa foi dando tão boas razões a seu camarada, que lhe dizia «camarada, nosotros somos dos soldados de fortuna, há tantos anos sargentos, sem nenhumas esperanças de acrescentamentos, passamos com grã miséria e nos vemos com mala vida e pouco que comer, assim já que nosostros somos senhores del castillo, com favor de Dios o hemos de arriscar nuestras vidas, o hemos de ser hombres de muchos regalos en la vida; e assim que me parece bien que demos ordem com mucho segredo en lo caso; que tenemos mui buena orden para hablar en la cosa seguramente (…)». O sargento lhe deu tais razões, que o tomou o outro nos braços e lhe disse: «Ó camarada de mi vida y de mi corazón, que bien se hio vuestra voluntad y animo (…), camarada, hased lo que quiseres, que en todo tengo de vos acompanhar y morir com vós, en todo el caso (…) lo que resta ahora es que no demos cuenta per nenhum caso de naide a nuestras amigas, porque son mujeres y no hazen caudal de segredos», porque estes dois sargentos tinham (…) cada um sua amiga das portas adentro, mas cada um deles tinha seu alojamento à parte [respeitou-se neste trecho o hábito de Mateus Rodrigues misturar português e castelhano, quando usava o discurso directo entre militares do exército de Filipe IV]. (MMR, pg. 248)
O papel desempenhado pelas mulheres dos sargentos seria crucial para o desfecho da história. Mas por ora, registemos uma discrepância entre o relatório de João Leite de Oliveira e a narrativa de Mateus Rodrigues. Segundo o tenente-general, depois da segunda conversa entre os sargentos e D. João da Costa,
(…) ajustámos que era necessário darem-me eles entrada no castelo para eu o ver, e reconhecer, e esta foi a noite de cinco para seis de Fevereiro; eles vieram nisso lhanamente, e assim se foram recolhendo a Badajoz, levando dois burros, que eu tinha prevenido e posto em uma horta fora da cidade, para que assim fingissem que os levavam de pilhagem, que era o sobreposto com que de lá [de Badajoz] saíram (…). (”Relação…”, in Madureira, pg. 180)
Mateus Rodrigues insere um episódio omitido no relatório: uma prévia infiltração de um espião português, antes de Leite de Oliveira levar a cabo a sua missão. Terá D. João da Costa querido certificar-se de que tudo correria conforme o acordado, e que não se trataria de nenhuma armadilha, na qual não quereria arriscar um oficial com patente tão superior como a de João Leite de Oliveira. Deste modo, D. João da Costa informou o sargento galego que lá havia de ir [a Badajoz] um homem, por nome João Dias de Matos, que era um furriel de Olivença, da cavalaria, e que era o mais prático homem em a língua castelhana que havia em Portugal e homem de grande préstimo e valor. (MMR, pg. 249)
É sobre esta missão que tratará a próxima parte desta série.
Entretanto, apraz-me convidar os leitores a consultar o blog do estimado amigo Julián García, Puertas de Badajoz, onde encontrarão muitos assuntos de elevado interesse sobre aquela praça de armas.
Imagem: “Soldados e mulheres numa taberna”, pintura de Jacob Duck, meados do séc. XVII, The State Art Museum of Florida.

É quase desconhecida a tentativa de tomada de Badajoz pela traição, nos inícios de 1652, por parte dos portugueses. Praça-forte fundamental do sistema defensivo da fronteira extremenha, tal como Elvas o era para o Alentejo, Badajoz correspondia à congénere portuguesa do Alentejo na importância e inexpugnabilidade. Tal como os cercos que Elvas sofreu, também os que os portugueses puseram ou tentaram pôr a Badajoz não resultaram. Um deles, previsto em 1645, não se concretizou por contratempos vários, quando o exército comandado pelo 2º Conde de Castelo Melhor já marchava para o objectivo. Em 1658, Joane Mendes de Vasconcelos (o mesmo que treze anos antes se pronunciara contra tão arriscada aventura) montou um desastroso cerco a Badajoz, em resposta à perda de Olivença no ano anterior. O que quase se perdeu, no rescaldo, foi o exército do Alentejo. E temeu-se pela sorte da guerra quando, nos finais desse ano de 58, D. Luís de Haro foi cercar, por sua vez, a cidade de Elvas. Mas também essa tentativa fracassou.
A solução da traição foi sempre procurada por ambos os lados em conflito, de forma a conseguir tomar uma praça importante, de surpresa e sem esgotamento de meios bélicos. Em Janeiro de 1652 proporcionou-se ao mestre de campo general do Alentejo (que desempenhava também, interinamente, o governo das armas) D. João da Costa, a possibilidade de alcançar esse feito no que respeitava a Badajoz. Para além da menção que ao episódio se faz na História de Portugal Restaurado, do 3º Conde de Ericeira, existe na secção de Reservados da Biblioteca Nacional de Lisboa um relatório detalhado do tenente-general da artilharia João Leite de Oliveira, publicado pelo coronel Horácio Madureira dos Santos (Cartas e outros documentos da época da Guerra da Aclamação, Lisboa, Estado-Maior do Exército, 1973, pgs. 179-184); o tenente-general tomou parte activa na operação e chegou a entrar, sob disfarce, em Badajoz. Ao relatório deste oficial junta-se um capítulo do manuscrito de Mateus Rodrigues (Matheus Roiz), em que o soldado de cavalaria narra o que ouviu contar da boca de João Dias de Matos , então furriel e intrépido espião que se infiltrou em Badajoz, preparando os pormenores da traição (poucos anos depois, sendo tenente da companhia de D. Luís de Meneses, este João Dias de Matos desertaria para o inimigo; e já como capitão de cavalos do exército de Filipe IV, preparou e levou a bom termo a tomada – também pela traição – da praça de Olivença). Todavia, Mateus Rodrigues erra na data do episódio, situando-o um ano mais cedo do que efectivamente se passou. Mas a sua narrativa contém pormenores mais rocambolescos do que o relatório oficial de Leite de Oliveira. Para completar este pequeno leque de fontes primárias, existe o relatório da confissão de um dos militares do exército espanhol envolvidos na traição (Arquivo Geral de Simancas, Sección Guerra Moderna, Legajo número 1822). Chegou-me ao conhecimento por via do estimado amigo Juan Antonio Caro del Corral, investigador e autor, que já teve a grata amabilidade de me permitir aqui publicar algumas das suas excelentes pesquisas, e a quem renovo os meus agradecimentos por tão preciosa ajuda.
Prelúdio à traição
O relatório de Leite de Oliveira principia pela tomada de prisioneiros do exército espanhol (ortografia e pontuação actualizadas para português corrente):
Em 26 de Janeiro [de 1652] se fizeram prisioneiros cinco pilhantes de pé, entre os quais vinha um sargento da companhia do mestre de campo o Conde de Torregon; estes estavam na estrada de Juromenha para fazerem nela alguma pilhagem, foram descobertos dos pastores que os fizeram prisioneiros e trouxeram a Elvas. Nas perguntas que lhe fiz das cousas de Castela, catequisei o sargento, dizendo-lhe que era um soldado pobre, que sua miséria o obrigava às pilhagens a pé, que nos quisesse dar alguns avisos e fazer algum serviço a El-Rei de Portugal, que com isso podia conseguir muito proveito, e livrar-se da miséria em que vivia.
Isto [se] passou entre nós, sem estar outra pessoa presente, ao que me respondeu depois destas promessas que ele não só nos queria dar avisos, senão que se atrevia a entregar o castelo de Badajoz, aonde ele era costumado entrar de guarda cada cinco noites, porém que sempre lhe era necessário comunicar este negócio com um seu camarada, também sargento, de uma companhia do mesmo terço, o qual era natural do país de Flandres, e este era galego de nação. (”Relação…”, in Madureira, pg. 179)
O sargento galego chamava-se Alonso de Castro e o flamengo, com quem queria combinar o assunto da traição, chamava-se Alejandro Perez e nascera em Cambrai, conforme consta da confissão deste, feita sob tortura (AGS, Guerra Moderna, Leg. nº 1822). Na versão do manuscrito de Mateus Rodrigues, eram estes sargentos grandes amigos e camaradas, cujas companhias estavam sempre efectivas de guarnição no castelo de Badajoz, sem se mudarem, e teriam combinado ambos virem às pilhagens a Portugal, já com o intuito de se deixarem prender e proporem a traição a D. João da Costa, livrando-se assim, com a recompensa que receberiam, das muitas necessidades que então padeciam. (MMR, pgs. 143-144)
(continua)
Imagem: Planta do perímetro defensivo de Badajoz (c. 1645), sendo bem visível a localização do castelo mencionado no texto; in La memoria ausente. Cartografia de España y Portugal en el Archivo Militar de Estocolmo. Siglos XVII y XVIII.


















