Um recontro de cavalaria nas proximidades de Elvas – Cruz de Rui Gomes, 23 de Maio de 1647 (3.ª e última parte)

Continuação da transcrição do Manuscrito de Matheus Roiz:

Tanto que o meu tenente se viu ao ribeiro sem o inimigo, logo ficou mais contente, e passou o ribeiro livre. Mas apenas o passou, já o inimigo estava outra vez com ele, apertando-o grandemente até [à] atalaia, mas ele sempre pelejando, como dele se esperava, [a]té que se arrimou [à] atalaia. Mas naqueles apertos ainda o inimigo lhe captivou dois soldados e o furriel, que eram três, afora eu, que também me captivaram […].

[Q]uando eu ouvi o tiro que meu companheiro deu, a emboscada do inimigo já ia além, donde o inimigo estava, um tiro de mosquete sobre a partida do inimigo. Mas apenas ouvi o tiro, logo disse entre mim que meu companheiro dera com o inimigo e quis fazer alguma traça para me vir livrando dos dois cavalos do inimigo. Mas não me deram esse lugar, que assim como ouviram o tiro, logo presumiram que a sua emboscada era já fora, e assim se vieram a mim à rédea solta, e como eu não tinha ainda visto os mais castelhanos, fiz fugida para [a]  atalaia, pois era a mais breve retirada que tinha, mas assim como assumi correndo a um outeiro, vi toda a campanha cheia de castelhanos, que ainda andavam às voltas com a minha companhia, e se ia para lá metia-me nas suas mãos. Não tive outro remédio senão ir-me pela campanha abaixo, lá pelas vinhas da Terrinha, que é tudo campo como a palma da mão. E a tudo isto sempre apertando-me os dois cavalos grandemente, mas como o meu cavalo tinha já corrido muito, e correu ainda muito mais pelo decurso da carreira, chegaram os dois cavalos a mim e me captivaram, deixando-me em camisa, que só o que era meu [e] me tiraram valia de 20.000 réis, que me levaram um colete que me davam 10.000 [réis] por ele, e o demais tudo bom (1).

Finalmente me levaram a Badajoz com os mais e daí a 4 dias nos mandaram [de volta], e quando viemos nos mandou o Conde Martim Afonso de Melo dar munições de vestido e botas e couros a todos, porque estava bem informado de como todos fizeram bem sua obrigação, que o Conde daria tudo aos soldados que bem a fizessem. E quando vínhamos de Badajoz fomos primeiro a casa do meu capitão, que havia vindo de Lisboa com a patente da minha companhia de novo (2), e como ainda o não tínhamos visto fomos […] vê-lo. E logo fomos a falar com o Conde governador, e nos disse que se não estivera bem informado do nosso tenente o como procedemos, que nos não havia de dar nada. Viemo-nos cada um para seus alojamentos a tratar do que nos convinha, e ainda que vínhamos de Castela, vínhamos alegres.

(MMR, pgs. 166-168)

(1) O colete de couro (ou “coura”) era usualmente a única protecção dos cavaleiros de ambos os exércitos, como foi referido no artigo anterior. A ser verdade o que Mateus Rodrigues refere, tratar-se-ia de um colete de qualidade superior ao “colete de munição” distribuído aos soldados, provavelmente um despojo de guerra capturado a um oficial inimigo.

(2) A memória de Mateus Rodrigues prega-lhe mais uma rasteira aqui. D. João de Azevedo e Ataíde ainda não tinha caído em desgraça nesta altura (o combate da Atalaia da Terrinha que ditaria o seu afastamento ocorreria daí a poucos dias, a 5 de Junho), portanto não recebera “de novo” a patente da companhia. O comissário geral – a quem Mateus Rodrigues se refere por “meu capitão” num sentido mais lato de comandante da companhia – regressava de Coimbra, onde estivera sob licença entre Abril e Maio.

Imagem: Vista sobre a planície em direcção ao Caia e ao Guadiana, a partir do local onde se erguia a Atalaia da Terrinha. Toda a zona abrangida foi palco de muitos recontros entre as forças portuguesas e espanholas durante a Guerra da Restauração.

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Um recontro de cavalaria nas proximidades de Elvas – Cruz de Rui Gomes, 23 de Maio de 1647 (2.ª parte)

Continuação da transcrição do Manuscrito de Matheus Roiz:

E assim como eu e o meu companheiro […] chegámos a um ribeiro que vai junto das casas quis passar além para ver o caminho que levava o inimigo. E o meu companheiro parece que adivinhava o que havia de ser, dizendo-me a mim que não fosse além, porquanto o inimigo tinha alguma emboscada nos carrascais. Mas como ele viu vir já muito perto a nossa companhia, logo passou comigo, porquanto a companhia não trazia mais batedores diante, fiando-se em nós ambos. E assim como fomos subindo ao outeiro da Cruz, vai ali a estrada de Badajoz e também vai um carreiro, que têm feito os cavalos por onde vão os soldados a descobrir os carrascais que estão ali detrás da Cruz. E quando eu e o soldado íamos já no alto da Cruz, já a minha companhia ia passando o ribeiro para além, e eu tomei a estrada adiante, seguindo a partida do inimigo. E o meu tenente ia mais adiante que a companhia um tiro de cravina [ou seja: carabina; cerca de 60 metros] e já ia chegando à Cruz quando ele ouve um tiro. E logo viu o inimigo vir pelo outeiro adiante como um raio, buscando a companhia. De modo que o soldado que ia comigo, que foi pelo carreiro a descobrir as coisas, assim como deu com o inimigo levava uma pistola na mão e tocando arma com ela lhe arrebentou. E assim como o inimigo o viu saiu como um raio das covas, que já estavam montados, pelo outeiro adiante, que eram 70 cavalos todos escolhidos das tropas de Badajoz, e todos armados de armas de corpo(*). E vinha um tenente por cabo deles, grande soldado, por nome Pedro Hernandez. E o soldado que deu neles veio fugindo quanto podia, e não podendo fugir para a companhia, se foi à estrada adiante, e não o seguiu o inimigo e livrou[-se].

De modo que assim que o nosso tenente ouviu o tiro, veio correndo à companhia que ia atrás dele um tiro de cravina, para a retirar [à] atalaia. Mas como a distância de onde o inimigo saiu aonde a companhia ia era mui pouca, deu logo o inimigo vista dela e se veio a ela à rédea solta, entendendo que a tinha nas unhas. E não há dúvida que tanto que o meu tenente viu o inimigo, já dava mui pouco pela nossa companhia, porquanto na passagem do ribeiro que ali estava se temia que o inimigo [a] apanhasse toda. Porém, sempre há um soslaio por onde as feridas não são mortais, de maneira que, como era em Maio, havia poucos dias chovido muito, e aquela terra por ali qualquer orvalho basta para que ele a atole muito, que é muito delgada e solta. E por à roda das casas donde haviam saído os castelhanos primeiros [sic] ao soldado, vai um caminho que é terra dura. E o inimigo não quis vir por ele, que por ele vinha a minha companhia, senão veio por detrás das casas, entendendo lhe tomava por ali grande volta. E não há dúvida que se não fora o atolar tanto, que toda a companhia leva[ria]. Mas tanto que entrou por ali se metiam os cavalos até à barriga na terra, que os não podiam tirar dela.

(MMR, pgs. 164-166) – CONTINUA NO PRÓXIMO ARTIGO

(*) Armas de corpo: couraça composta por peito e espaldar. Esta passagem – tal como outras semelhantes no manuscrito – é significativa quanto à não generalização da utilização de couraças pela cavalaria em operações de pilhagem ou nas contra-incursões. Só quando se previa um combate importante, ou quando o comandante de uma força impunha o seu uso por alguma razão, é que as armas de corpo eram usadas. Mais frequente era a casaca ou o colete de couro (a “coura”) constituírem a única protecção dos cavaleiros.

Imagem: Cena de combate de cavalaria, óleo de Pandolfo Reschi.

Um recontro de cavalaria nas proximidades de Elvas – Cruz de Rui Gomes, 23 de Maio de 1647 (1.ª parte)

Regressamos ao manuscrito de Mateus Rodrigues (Matheus Roiz), para transcrever o testemunho do soldado de cavalos acerca de um recontro nas proximidades de Elvas, no qual a companhia onde servia foi derrotada.

O sucedido ocorreu na ausência do comissário geral D. João de Azevedo e Ataíde, comandante da companhia, que estava em Coimbra a tratar de assuntos pessoais. Antecedeu num par de meses a desgraça daquele oficial superior, que acabaria por perder o posto num outro desaire, de maiores proporções, também nos arredores de Elvas. Mas acompanhemos a pena de Mateus Rodrigues, numa escrita actualizada:

Estando a minha companhia de quartel na cidade de Elvas, lhe tocou fazer a guarda na campanha em 23 de Maio, véspera do Espírito Santo do ano de 1647. E como todas as companhias que fazem guarda na campanha saem logo para fora pela manhã, e como vão sempre duas, cada uma à sua atalaia, para a da Terrinha e outra para a do Mexia, e lá assistem todo o dia até noite, descobrindo tudo muito bem antes que lá cheguem, e com sentinelas em as parte mais vigilantes, de modo que saímos com a companhia para fora e não levávamos capitão, porque já se havia ausentado Dom João dela para Coimbra, e só o tenente ia com ela, por nome Agostinho Ribeiro, um dos bizarros soldados que a guerra botou de si. E como estivemos já lá no Rossio, mandou todos os batedores, cada dois para sua parte a descobrir aonde era costume, entre os quais fui eu com outro mais, por nome Pascoal Lopes, para um sítio a que chamam o outeiro da Padeira, e aí havíamos de ficar de sentinela todo o dia. Mas eu fui fazê-la a Badajoz por quatro dias!

Assim como chegamos ao outeiro, depois de ter já tudo muito bem descoberto, mas não dali para diante, que ficava ainda um posto por descobrir, arriscado. Mas não se havia de descobrir senão depois da tropa [ou seja, a companhia] ter chegado à atalaia, e aí havia o tenente de mandar um soldado em um bom cavalo a descobrir a Cruz de Rui Gomes e os carrascais dela. De modo que já nós ambos estávamos em o outeiro, vendo a companhia que já vinha chegando para a atalaia. E neste mesmo tempo ia um soldado da cidade a cavalo pela estrada abaixo, com tenção de ir segar erva em os vales de Úbeda, que havia muita. E estavam ali umas grandes casas, que eram de uma quinta de um fidalgo, as quais casas se descobriam sempre quando ia o soldado da atalaia a descobrir os carrascais. E o tal soldado que vinha da cidade andou demasiado em não procurar primeiro se se havia já descoberto as casas, pois sabia muito bem que haviam de descobri-las [o termo “descobrir” é usado como sinónimo de procurar inimigos emboscados – ou seja, também em linguagem militar, “bater um local”]. Mas não quis ser tão atilado, senão assim como chegou logo as quis descobrir, para segar a erva a seu gosto. E no mesmo tempo em que o soldado ia chegando às casas, a essa hora havia a minha companhia chegado [à] atalaia, e eu e mais o soldado lá de onde estávamos bem víamos […] ir o soldado a descobrir as casas, antes logo reparámos, dizendo mal do soldado […] ir tão cedo à erva a posto arriscado como era aquele antes que se descobrisse.

Assim como o soldado se foi assomar às portas das casas, para ver dentro se havia castelhanos, quando lhe saem de dentro dez castelhanos em dez cavalos […]. Apenas eles saíram da casa sobre o soldado, logo eu donde estava e mais o companheiro os vimos e montámos a cavalo muito depressa, tocando arma [disparando um tiro de aviso] e escaramuçando no outeiro, para que a companhia visse que havia inimigo. Mas a atalaia onde a companhia estava também os viu logo e tocou arma. Assim como o soldado viu o inimigo das casas, pôs-se em fugida pela estrada adiante, correndo quanto podia o cavalo, que não fazia mal sua obrigação, mas não lhe valeram suas diligências, que o apanharam no decurso da carreira, que ainda correria 200 passos, e assim como o apanharam, viraram com ele para casa como uns raios, tomando a estrada de Badajoz adiante, que era por onde se havia de mandar descobrir da atalaia. E eu e mais o soldado que estava comigo logo fomos pelo outeiro abaixo à rédea solta para seguirmos a partida, que já vinha a minha companhia pela atalaia abaixo como um raio, que como não havia ninguém que lhe lembrasse que naquelas casas se havia metido o inimigo, era causa para nos mover para seguir a partida, vendo se lhe podíamos tomar o soldado, quanto menos fosse, que a tenção do meu tenente era segui-la até à ponte do Caia.

(MMR, pgs. 163-165) – CONTINUA NO PRÓXIMO ARTIGO

Imagem: Cena de combate de cavalaria, óleo de Philip Wouwerman, 1645-46, National Gallery of Art.

O combate de Alcaraviça (2 de Novembro de 1645) e o quadro do Marquês de Leganés – 2.ª parte: a narrativa de Mateus Rodrigues (Matheus Roiz)

Do sucesso do Marquês de Leganés também faz eco o memorialista Mateus Rodrigues. A sua unidade, comandada por D. João de Azevedo e Ataíde, esteve envolvida nas operações de intercepção da força espanhola – aliás, sem sucesso.

O episódio das Vendas de Alcaraviça é referido pelo memorialista, neste caso não por tê-lo testemunhado, mas provavelmente por dele ter ouvido contar a terceiros. Segue-se uma transcrição vertida para a grafia actual:

Estando o inimigo nestas competências, […] lhe veio um aviso de uma espia dobre [ou seja, um espião que fazia jogo duplo, dando informações para ambos os lados], […] que as ordenanças de Évora estavam em Estremoz, e que vinham para Elvas tal dia. […] Pois o aviso era tão certo […], porque a mesma noite que o inimigo saiu, essa mesma veio a gente [da ordenança] a dormir às Vendas d’Alcaraviça, que são duas léguas de Estremoz. E ao outro dia se haviam de vir para Elvas, que são 4 léguas, de maneira que o inimigo entrou com a cavalaria por entre Elvas e Juromenha, e logo foi sentido na entrada. Mas não que se soubesse o poder que levava, senão pela manhã, que ele ia em grande marcha pela estrada abaixo de Estremoz. A gente de Évora já se queria vir, que estava já fora das estalagens para marchar. Vinha com eles por cabo [ou seja, comandante] um sargento-mor mesmo de Évora. E como o inimigo foi logo sentido por aqueles campos, iam muitos lavradores fugindo em éguas, dando avisos do inimigo. E tanto que o sargento mor da gente ouviu dizer que vinha o inimigo, meteu toda a gente, que eram 600 homens, todos em uma grande tapada, que estava ao pé das estalagens, com parede à roda, que dava pelos peitos a um homem, que se fora gente paga não houvera de investir com eles o poder do mundo. Mas aquela canalha, não servem mais que de beber, que são uns bêbedos, e o sargento-mor que vinha com eles outro tal, e pior ainda.

Assim como o inimigo chegou a um cabecinho que está à vista das mesmas estalagens e já muito perto, logo viu toda a gente metida na tapada. E assim como a viu formou-se mui bem e manda tocar as trombetas a degolar, e vai investindo com eles por duas ou três partes. E assim como averbou com eles, não puderam logo saltar os cavalos a parede, mas apearam-se uns poucos de castelhanos e fizeram logo uns por todos, que passaram os batalhões formados, e a tudo isto os bêbedos ia[m] fugindo cada um por onde podia, mas que lhe importava isso, que dos 600 homens que eram não escaparam 100, que deu o inimigo neles e foi degolando todos os que iam encontrando, até que se enfadou de matar e os mais trouxe prisioneiros, que matou mais de 200 homens e trouxe prisioneiros perto de 300. (MMR, pgs. 134-136)

Embora os pormenores não sejam muito nítidos nas fotos disponibilizadas pelo Sr. José Maria Villanova-Rattazi Guillén (veja-se a 1.ª parte deste artigo), o quadro corrobora a descrição feita por Mateus Rodrigues. A infantaria portuguesa encontra-se formada em dois pequenos esquadrões (designação coeva para as formações tácticas de infantaria),  cujos blocos são exclusivamente constituídos por piqueiros. Os atiradores (quase certamente munidos de arcabuzes, como era frequente entre a ordenança) estão dispostos ao longo do muro que delimita a tapada, disparando sobre o inimigo. Uma parte da força portuguesa já está em fuga, após o dispositivo ter sido penetrado pela cavalaria espanhola. Como cada companhia tinha uma bandeira e no quadro se podem ver quatro (duas delas levadas pelos alferes em fuga, as outras nos respectivos esquadrões ainda formados), é possível que o terço da ordenança fosse composto por quatro companhias de 150 homens cada, o que mais uma vez confirma o efectivo de 600 homens referido nas fontes – e desmente o número exagerado (1.000) apresentado na legenda do quadro.

Imagem: pormenor da legenda do quadro mandado pintar pelo vitorioso Marquês de Leganés, onde o número dos portugueses derrotados é superior ao que as fontes escritas referem. Mas este exagero de propósito laudatório era comum no período.

 

 

 

Um “regresso” a Alcântara

Há cerca de oito anos foi publicado um artigo em duas partes, sobre a tentativa de tomada de Alcântara (Alcántara, em castelhano) pelas forças comandadas por D. Sancho Manuel de Vilhena, que viria a ser Conde de Vila Flor. A tentativa foi gorada, mas o assalto à ponte romana de Alcântara e a destruição parcial de um dos arcos da mesma foi descrita por fontes portuguesas e espanholas. Os combates tiveram lugar nos dias 25 e 26 de Março de 1648 (clique nas datas para aceder aos respectivos artigos).

Trezentos e setenta anos decorridos sobre a investida portuguesa, o aspecto da ponte e dos lugares onde decorreram os combates, observados a partir da margem onde se situa Alcântara, são apresentados nas fotos acima. A ponte seria parcialmente destruída – e mais tarde reconstruída – em outras duas ocasiões: na Guerra da Sucessão de Espanha e durante as Invasões Francesas, que a historiografia espanhola denomina Guerra da Independência.

Fotos do autor do artigo.

Uma escaramuça na ponte sobre o rio Coa (20 de Março de 1664)

Numa consulta do Conselho de Guerra datada de 2 de Abril de 1664, é lida uma carta de Pedro Jacques de Magalhães, governador das armas do partido de Riba Coa. Nela dá conta o governador que o inimigo arruinou as pontes do rio Coa, tendo ele, Pedro Jacques, mandado reedificar a principal com madeira, para assim ter comunicação com a praça de Almeida. Mandou também fazer uma atalaia sobre a mesma ponte, guarnecida com 20 mosqueteiros. O que, sabendo o inimigo, veio em 20 de Março com 600 cavalos e 1.000 infantes , para ver se a podia destruir. Avisado deste intento, Pedro Jacques mandou ocupar com mosqueteiros os altos de uma e outra parte do rio, das quais o inimigo foi rechaçado e se retirou com perda, sem conseguir o que pretendia, travando-se escaramuça com os batalhões da vanguarda, em que lhe mataram e feriram soldados, procedendo os portugueses com valor.

E como as companhias de cavalos se encontram muito enfraquecidas, mandou o governador das armas o tenente-general da cavalaria D. António Maldonado à comarca de Lamego, para tomar os cavalos que nela houvesse, a fim de as reequipar.

O Conselho deu parecer que, para além de enviar os agradecimentos a Pedro Jacques, se lhe enviasse dinheiro para pagar os cavalos que se tomarem para remontar as tropas.

Fonte: ANTT, Conselho de Guerra, Consultas, 1664, mç. 24, consulta de 2 de Abril de 1664.

Imagem: David Teniers, o Jovem, Interior da sala da guarda; MLibrary Digital Collections, University of Michigan.

O combate de Vila Nova de Cerveira (17 de Setembro de 1658) – um artigo de Carlos Durán Cao

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Do estimado amigo Carlos Durán Cao recebi esta excelente colaboração, em galego e castelhano, que por falta de tempo só agora consegui colocar no blog. Ao Carlos Durán, os meus agradecimentos.

TRECHO DO LIBRO INTITULADO “ARMAS Y TRIUNFOS: HECHOS HEROICOS DE LOS HIJOS DE GALICIA” escrito no ano 1662 por Felipe de la Gándara, cronista oficial do Reino de Galiza.

Este libro foi escrito com o obxetivo fundamental de presentar os servizos prestados polo reino de Galiza ao monarca Filipe IV da Espanha na guerra de restauraçao de Portugal nuns momentos en que os galegos xa estaban a ser  pouco considerados en Castela.

Como e normal o contido lo libro conten a versión (versao) galega dos eventos producidos na fronteira galego-portuguesa no veran (verao) de 1658, e como e normal nestas publicacións (publicaçoes) non e simples comprobar a verdade do que aconteceu sobre todo o referente as perdas en homes e material dos contendores; sera interesante verificar o que din destas operacións militares o conde de Ericeira e outras fontes históricas portuguesas, neste caso e en todos os outros, para ter unha (uma) idea mais objetiva dos acontecementos militares.

Comentario do pai Gandara sobre os portugueses no principio do libro

Es el caso que el año  pasado de 1659  aviendo las Católicas Armas de nuestro Rei i Señor Don Felipe IV el Grande Monarca de las Españas alcançádo felicisimas vitorias de los Rebeldes de Portugal por la prte de Galicia i a donde le sirvieron los naturales desde muy Noble Reino luchando contra la nación mas belicosa, del maior ardimiento y presunción de valentía que se conoce en el orbe (Lutando contra a nação mais guerreira,do ardor Maior e assunção de coragem que é conhecido no orbe)

TEXTO ORIXINAL EN CASTELHANO NA PARTE REFERIDA AS OPERACIONS PRINCIPAIS LEVADAS A CABO NO ANO 1657 E NO ANO 1658 ATE A BATALHA OU COMBATE CHAMADO DE VILANOVA.

(…) En el año pasado de 1657 siendo gobernador y capitán general del Reino de Galicia don Vicente Gonzaga, de la casa de los duques de Mantua, del consejo de guerra de España, Gentilhombre de la Camara de su Majestad, capitán general antes de la caballería de los estados de Milán, entró con gran felicidad, venciendo innumerables dificultades con el exercito de Galicia en Portugal; y fabricó un castillo real (1) (a quién le dio el nombre de San Luis Gonçaga, dentro de aquel reino de la otra parte del Miño en el territorio de san Pedro de la Torre en distancia de una legua de Valencia (Valença do Minho), ltra de Villanueva de Cerveira, plaças del Rebelde, en cuia oposición fabricaron los portugueses nueve atalayas; torres fuertes que le circunvalaban, distantes un tiro de cañón de nuestro castillo, para impedir con ellas nuestras correrías, y media legua en distancia labraron un fuerte Real, adonde tenian acuartelada la gente para oponerse a la nuestra.

 El primero de Março de 1658 fue servido a su Majestad de elegir por Gobernador y Capitán General de Galicia al Marqués de Viana don Rodrigo Pimentel (2) elección bien recibida y aplaudida asi en la Corte como en Galicia con que se prometió aquel reino grandes felicidades de su gran cristiandad y celo en el bien público como señor natural del reino en el que tiene sus estados. El cual salió desta corte a 22 de Junio de 1658 llevando consigo por su Maestre de Campo General a don Baltasar de Rojas y Pantoja; soldado de grandes experiencias y valor que su Majestad eligió para este puesto; y al Maestre de Campo don Francisco de Castro, natural del mismo reino de Galicia de la villa de Verín, caballero de la Orden de Santiago que es hoy general de la artillería y merecedor de mayores honores y puestos.

 Y en mediados de julio recibió el marqués cartas en que su Majestad le ordenaba acelerase su jornada, y fuese disponiendo todas las cosas necesarias, formase exercito para  entrar en tierras del Rebelde. Hizolo asi el Marqués con notable presteza y prontitud de los naturales, que le recibieron y se vieron en menos de doce días muy consolados por haber reformado su Excelencia cosas muy superfluas y excesos con castigos de oficiales que habían usado mal de las permisiones de la guerra.

En seis de Septiembre se puso con el exercito formado en la ciudad de Tui, que constaba de cuatro mil infantes, tres mil milicianos (3), dos mil gastadores (4) y setecientos caballos, cuyo General era don Bernardino de Meneses, Marqués de Penalba y conde de Tarouca, Grande de Portugal y maior soldado, cuya lealtad merece grandes elogios y alabanzas, y aviendose de pasar el río Miño, se mandó echar el puente de barcas y el día doce de septiembre acabó de passar todo nuestro exercito encaminando al fuerte San Luis Gonzaga. Es su sitio en la tierra mas amena de aquellos paises, muy conveniente a nuestros fines, como lo ha enseñado la experiencia, y es una de las mayores fuerças de España. Al otro día junto el Marqués su consejo y declaro el orden que tenía su Majestad para divertir por estas partes las fuerçás del enemigo que tan pujante estaba sobre Badajoz (5), y propuso lo que mas convenía obrar en prosecución desto, con lo cual el día treze se acuarteló nuestro exercito un cuarto de legua del fuerte del Rebelde, que estaba en oposición del de San Luis Gonçaga, y en este día se trabó una escaramuza con unas tropas de caballos del enemigo que salieron a forrajear.

En esto y en los días antecedentes que les tomamos tres de sus atalaias perdieron los contrarios cien hombres, y nosotros veinte; y entre ellos a Don Diego Suarez de Deza Falcon, señor de la Casa de Castrelos, caballero de mucho valor y de gran estimación en el país y a dos capitanes de infantería.

 El martes 17, en la falda de una montaña, media legua de nuestros reales, se descubrió el enemigo que salía de los suyos con toda su caballería e infantería; esta contaba de 5.500 hombres divididos en tres tercios de paga y otros cuatro de ordenanzas; y la caballería de 500 caballos repartidos en once tropas, con los cuales se emboscó abaxo de la torre de Nogueira. Eran los generales de esta gente, de la infantería el conde de Castel Melhor, y el de la caballería el Vizconde de Lima.

Sabido en nuestro campo, salió el Marqués de Penalba con ocho batallones de caballos, en que iban las compañias del Teniente General don Francisco de la Cueva, la del Comisario General don Francisco de Taboada, la de la Guarda del General, la de Don Alvaro de Anaia, la de Don Francisco marcos de Velasco, la de Don Antonio de Moscoso, la de Don Andrés de Robles, la de don Pero Niño, y otras ocho mangas de infantería que sacó el Maestre de Campo General don Baltasar de Rojas y Pantoja; el cual reconoció el terreno donde se hallaba el enemigo y que era ventajoso, y dio orden a don Francisco Bujo, Teniente de Mestre de Campo General para que cubriese  un troço de caballería en que venía el Marqués de Penalba, y que por el otro costado el Teniente General don Francisco de la Cueva fuese cn algunas tropas, y el  Marqués de Viana iba en el cuerpo de la batalla, y de esta suerte marcharon todos a atacar al enemigo por la parte de Villanueva (Vilanova de Cerveira) y por la de Valencia (Valença do Minho) marchó el Maestre de Campo General con cien caballos que conducía el Comisario General don Christobal Zorrilla, acompañado de Don Pedro López de Lemos, conde de Amarante (6) y del capitan Don Francisco Pereira (7), y otros mil infantes de los tercios de los maestres de campo Don Gabriel Sarmiento de Quirós, de la Orden de Calatrava y señor de Mos, y don Luis Perez de Vivero, hermano  del conde de Fuensaldaña, Gobernador de la plaça de armas de Monterrey: y siguiendo la marcha se dio orden a Don Francisco Buzo, Teniente de Mestre de campo General, que con 400 mosqueteros se adelantase a trabar escaramuza con el enemigo, llevandola con buena disposición al abrigo de la caballería, y estando  escaramuzando, se reconoció que el Portugués daba muestras de retirarse con el grueso de su exercito, lo cual obligó al Marqués de Penalba a que con su caballería, y don Pedro de Aldao; Teniente de maestre de campo general, con la infantería saliesen a un repecho por la parte de Villanueva (Vilanova de Cerveira)  y descubriendo por allí el exercito contraio escuadronado, le embistieron valerosamente a cuerpo descubierto, y le rompieron, desalojandole de los puestos que había ocupado su caballería, y la infantería ,viendose perdida, huyó a tropas desatinadamente (fugiu descontroladamente) a donde fueron degollados por nuestra gente.

 Duró esta refriega (briga) desde las tres de la tarde hasta entrada la noche. Murieron de nuestra parte 18 personas y entre ellas un sobrino del comisario general de la caballería y el capitán don Juan Ozores de la milicia de Salvaterra, y salieron heridos 63, entre ellos los capitanes de caballos don Alvaro de Anaia, el Comisario General don Juan de Tabeada y los capitanes don Andres de Robles, don Antonio de Moscoso, don Pedro Niño y el teniente general de la caballería don Tomás Ruiz, y resultaron muertos y heridos 40 caballos.

De los enemigos murieron 250, heridos 380 y prisioneros 260 en que se cuentan 28 oficiales, 5 sargentos, dos estudiantes, 22 aventureros, 30 fidalgos, un sargento maior, 8 capitanes de infantería y el Conde de Vimieira.

 Nuestros soldados de los despojos (restos) se fardaron (ostentavan) hallandose muchas ungarinas (roupas religiosas), con hábitos de las Ordenes militares de aquel Reino, de que usaron los nuestros mas por trofeo que por abrigo: con que se dexa entender el daño que se hizo en su mejor gente.

 El miércoles 18 del mismo mes ocuparon los nuestros la Torre de Nogueira, patrimonio del rebelde Duque de Bergança, y los dos días siguientes otras cuatro atalaias. El día 21 a cosa de las nueve de la noche vino un ayudante de caballería del enemigo rendido a nuestro exercito, diciendo como el enemigo desamparaba su real (campamento), con que se tomó resolución de ir en su seguimiento; era de noche muy oscura, que nos impidió mucho  y facilitó su huida, y a poco rato de lo que nuestro exercito había andado, se vió habían puesto fuego a sus cuarteles, con que no se logró el alcance, sólo unas tropas nuestras les quitaron una pieza de campaña de seis libras de bala. Hizo noche en su mismo campamento  nuestra gente y conociese el grande desmayo en el que estaban, puesto que dexaban de pelear una fuerça como aquella.

 Fueron grandes las correrías que nuestros soldados hicieron la tierra adentro, puesto que ya no tenían quien se lo impidiese, y llegaron hasta las Cobas de Ponte de Lima. Traxeron gran cantidad de palas, zapas, azadones, picos, balas, cuerda, barriles de polvora, bizcocho, vino centeno y millo, y en llegando dirigiose nuestra marcha a Lapela.

 Viernes 27 se acabó de fijar el puente que contaba de 39 barcas, por ella se condujeron desde Tui los viveres y municiones a nuestro exercito el cual marcho el día siguiente por el pie del monte del Faro a vista de la ciudad de Valencia (Valença do Minho), talando las viñas de aquellos valles que son muchas y buenas. Domingo tomamos el monasterio de Ganfei. Lunes 30 se tomaron los puestos para sitiar la plaza de Lapela, aunque pequeña muy fuerte, distante una legua de las plazas de Monçon (Mónaco) y Salvaterra (8) aguas abaxo.

 Martes 1 de Octubre se plantaron dos baterias de cinco medios cañones de a 25 libras de bala cada uno, y este día se asaltó y ganó un arrabal en menos de una hora. Los vecinos se retiraron a la fortaleza que se defendía valerosamente de las invasiones de nuestra gente, y prosiguiendo las baterias se reconoció que las balas que se le tiraban que habían sido 600, no habían efecto en ella, por ser una torre en cuadrado muy fuerte, capaz de 300 hombres, ceñida alrededor de dos murallas fortísimas y altas, y en la de afuera tenían una plataforma con cuatro medios cañones con su foso y contrafoso.

 Viernes, día de San Francisco, estando para dar fuego a dos hornillos en las esquinas de la torre, y avisados del estado en que se hallaban, hicieron llamada a 6 de octubre y pidieron suspensión de armas por cinco días para capitular. Se les intimó que de no rendirse a merced aquel mismo día no tenían que tratar otro género de capitulaciones. Tuvieron que admitir lo que se les concedía y para conseguirlo bajo del castillo Francisco Lobato, gobernador de la plaça, y Francisco Pereira de la orden de Avis, los cuales de rodillas (de joelhos) entregaron las llaves a nuestro General del Marques de Viana que las tomó y en nombre de su Majestad les concedió que saliese rendido el presidio, salvas las vidas pero sin armas, bagage ni ropa alguna; y así el mismo día por la tarde salieron desta plaça 211 infantes en cuerpo con sus monteras, calçon y ropilla, llevando todos unas baquetillas blancas en las manos, tres clérigos y el Gobernador don Francisco Lobato, el Pagador del exercito, doze personas y entrellos siete hidalgos, uno de la orden de Avis y seis de la de Christus, también 32 mujeres, niños, viejos y gente ordinaria, también 14 mujeres principales.

Los soldados fueron llevados al Reino de Galicia donde quedaron prisioneros repartidos por las ciudades, la demás gente se remitió a Portugal.

Hallaronse dentro de la plaza de Lapela cuatro pieças de artillería, municiones, viveres y armas de todos generos, monedas de oro y plata, joyas, 800 cabeças de ganado, 500 de vacuno y los demás carneros y ganado de cerda (porcos), cuya preza se ha reputado por valor de 500 ducados.

Perdieron los enemigos en estos combates 150 hombres, de nuestra parte en los avances murieron Fernando de Novoa, sargento maior, un capitan y 60 soldados muertos y heridos. Saquearonse y se dieron al fuero las quintas y caserios de aquel territorio y nuestra caballería corrió la campaña hasta las murallas de la villa de Ponte de Lima y san Juan de Longovares.

 NOTAS:

(1) Ainda conservanse hoxe en día as ruinas deste castelo de San Luis Gonzaga consideradas en Portugal ben de interese cultural.

(2) Don Rodrigo Pimentel era Marques da vila galega de Viana do Bolo e a sua familia era de orixe portuguesa, pasados a Castela depois da batalha de Aljubarrota.

(3) Os milicianos eran tropas populares de leva forzosa e saindo do seu pais de pouco valor militar.

 (4) Son soldados sapadores granadeiros que fan obras de asalto ou defesa.

 (5) Lembremos que nestes momentos estaba vivo o asedio de Badajoz polas forzas portuguesas de Mendes de Vasconcelos, era preciso aliviar a presión abrindo outros frentes.

 (6)  Este don Pedro Lopes de Lemos, conde de Amarante, era irmao do Tenente Xeral don Xoan Lopez de Lemos, morto no combate de cavaleria de Arronches en 1653 e de quen herdou o título condal.  

 (7) Lembrese que os apelidos galegos e portugueses son muito semellantes e neste caso don Francisco Pereira era galego.

 (8) Salvaterra do Miño e unha localidade galega que estaba en poder de Portugal desde o 15 de agosto de 1643 debido a traizón (traiçao)  do seu gobernador don Gregorio Lopes de Puja que sendo portugués de orixe habia recibido este posto de mans do conde de Salvaterra García Sarmento de Soutomaior, ausente na América neses momentos. Ainda foron abertas as portas ao conde de Castel Melhor houbo forte resistencia por parte dos naturais da vila ate que foron vencidos. Bautizada como Salvaterra de Portugal estivo en poder de Portugal ate 17 xaneiro de 1659 cando foi reconquistada.

Imagem: Cavalaria. Pormenor de um quadro a óleo das décadas de 30-40 do século XVII.